dissecando Edison Oliveira

Os ponteiros de um relógio sabem de tudo. Acredite.


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Короткий рассказ
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Isolei-me das pessoas (de boa parte delas), da natureza, do mundo e da vida em si, já que tudo é um grande relógio, e nós apenas ponteiros que giram e giram sem parar, um trabalho desgastante que no final não leva a nada além de dor e esquecimento.
Casei-me uma única vez na vida, com uma mulher adorável chamada Perla, e nunca tivemos filhos; a convenci de que crianças eram um desperdício.
Veja pelo meu ponto de vista: você precisa se dedicar ao máximo por aquele pequeno ser, além de arranjar tempo e espaço para si, algo que se torna terrivelmente perigoso quando se descobre o que acabei descobrindo. Precisa se dar conta de que tempo não é dinheiro, ele é vida, SUA vida, apenas ela e não a de mais ninguém. Conseguir TEMPO para cuidar de outra é algo desigual, fora dos parâmetros e contra a teoria, isso, é claro, quando se está por dentro de tal.
O grande problema das pessoas é não saber aproveitar o tempo. Não me refiro a dividi-lo (horas de trabalho e horas de lazer), mas sim observá-lo, se possível de hora em hora ou, dependendo da ocasião, de minuto a minuto. Quando minha adorável Perla saiu cabisbaixa daquele consultório, pude enxergar em seus olhos vermelhos de tanto chorar e pelo rosto abatido, que o tempo dela estava acabando.
O fato comprovado nisso tudo, é que eu SABIA disso antes mesmo dela marcar aquela consulta. Era sofrido vê-la assim, com seu belo corpo doente e o cérebro começando a ceder espaço para aqueles tumores, mas, alguma coisa dentro de mim, estava eufórica. Sentia-me culpado por aquela sensação, envergonhado, um homem ruim, talvez até mesmo diabólico. Confesso isso sem receio algum, não vejo motivo para não o fazer. A razão de minha euforia vinha do simples fato de estar certo, de ver a própria teoria se concretizar diante de meus olhos; os relógios sempre foram o termômetro da vida.

Ela estava se sentindo indisposta, sentia tonturas quando se levantava e se queixava de enxaquecas terríveis.
Apesar disso tudo indicar que algo não ia bem, foi outra coisa que me fez temer pela saúde de Perla. O relógio em seu pulso esquerdo (presente de sua mãe pela formatura com louvor em odontologia), estava cada vez mais devagar, com os ponteiros se arrastando e lutando para continuar.
Obviamente isso só foi reparado por mim, o esquisito cheio de manias, o sujeito que vendeu a própria empresa de cosméticos para se dedicar a observar o tempo — ou o que restava dele.
Costumava pegar no braço de Perla, aproximá-lo de meus olhos e verificar com precisão os ponteiros. Ela sorria e dizia que eu precisava de óculos, mas meu problema não era de visão, o dela é que era; não podia enxergar os ponteiros diminuindo a intensidade, prestes a finalmente desistir de girar e por fim a sua vida. Minha obsessão pelo tempo vinha desde a infância, quando perguntava para meu pai o porquê do relógio em nossa parede estar tão devagar. Eram as pilhas fracas, ele dizia, e quando as substituiu e o problema persistiu, tornei a perguntar.
— Os ponteiros estão normais, — disse ele, após parar diante do relógio e observá-lo por um tempo.
Ele insistiu com isso (e eu com minhas perguntas) por mais de um mês, quando o relógio finalmente parou (aos meus olhos) e meu pai faleceu após cair de uma altura fatal. Ele era limpador de vidraças, e o cinto que ele usava se partiu em dois.
Para todos aquilo foi uma fatalidade, uma barbárie sem precedentes, mas o relógio já sabia de tudo, a janela do tempo, o senhor dos avisos, a má notícia do dia seguinte.
Já naquela época, a sensação de vergonha e culpa se mesclava com a satisfação de estar absolutamente certo.

As pessoas possuem uma espécie de véu invisível, uma partícula que às (cobre) dos pés até a cabeça. Este véu atrai o magnetismo dos ponteiros do relógio, assim como os polos do planeta fazem com a agulha de uma bússola.
A diferença aqui é que este magnetismo diminui conforme o bem-estar do indivíduo, ocasionando a estagnação total dos ponteiros assim que o mesmo venha a óbito.
Quando Perla passou a se queixar da própria saúde, o relógio em seu pulso serviu como um mediador, alguém que estava apontando o perigo e que alertava sobre o provável fim. Enquanto ela dormia durante a noite, costumava levantar e abrir uma das gavetas de seu guarda-roupas; era lá que ela guardava o seu relógio.
Cada vez mais, aqueles ponteiros pareciam diminuir a frequência com que giravam. Estavam (literalmente) indicando que o tempo não era longo, que se arrastaria devagar e com sofrimento até o fim derradeiro.
Lembro-me de estar no velório de Perla, rodeado pelos parentes dela (minha única família era um irmão inválido que morava no exterior), em pé diante do caixão e recebendo abraços e consolações. Ela estava com um vestido branco, soterrada por rosas-vermelhas e brancas, apenas o rosto cadavérico sendo exibido. De modo algum aquela figura lembrava a minha bela Perla.
Meu olhar não saía daquela face pálida, e quando saía era apenas para verificar o relógio dela que estava apertando com uma de minhas mãos.
Ele marcava cinco e vinte, a hora exata em que os aparelhos de Perla apitaram e os médicos correram como malucos.

É correto afirmar (e isso faço sem medo de parecer um lunático) que nosso tempo aqui na terra possui sim uma validade, e que se soubermos observar com atenção, saberemos quando ela está chegando ao seu final.
Durante boa parte de minha vida, isso após o falecimento de Perla, observei inúmeras pessoas por todos os lugares que frequentava; se estava sentado na praça, procurava enxergar o relógio no pulso de alguém que sentava ao meu lado.
No restaurante, enquanto fazia o pedido, reparava no braço da garçonete, não exatamente o braço, mas sim no relógio preso a ele. Sentindo-se desconfortável, a moça recuava um pouco e perguntava se estava tudo bem.
— Só saberei se me deixar olhar os ponteiros de seu relógio, — dizia, e em seguida ela dava as costas e se afastava resmungando qualquer coisa.
Foi assim durante muito tempo, frequentando lugares diferentes sempre que podia, tentando evitar possíveis encontros repetidos ou esbarrar com alguém que o tempo estivesse se esgotando. Tentei (e isso garanto para você) buscar ajuda, qualquer tipo de socorro que me afastasse daquele hábito ruim, daquela premonição absurda. Acabei conhecendo o doutor Samuel Solene, um homem com quarenta e poucos anos e de fala mansa, que sempre cruzava uma perna sobre a outra durante as nossas consultas e que era canhoto. O mesmo braço onde usava o relógio, um treco enorme e prateado que não tinha como não observar.
Ele perguntava e anotava, perguntava e anotava, isso várias vezes no período de uma hora em que ficávamos em sua sala fria de carpete verde. Contava para ele sobre a minha mania, que, na verdade, era só uma precaução, uma curiosidade em saber se a minha teoria era verdadeira, algo que sabia que era, já que havia comprovado com meu pai, minha esposa e um ou outro estranho.
O doutor Samuel então anotava e fazia círculos (possivelmente no que achava mais interessante) e despejava a sua opinião médica sobre mim, algo que sinceramente me incomodava.
— Cuidar da saúde mental é tão importante quanto a física, senhor Luís — e era assim que ele costumava encerrar as suas frases.
Da última vez que me consultei com ele (já esgotado, irritado e arrependido de ter procurado por ajuda) deixei que ele falasse tudo que quisesse, e apenas fiquei lá, sentado e esperando a hora passar.
No final da consulta, levantei-me e pedi licença. Peguei em sua mão, a trouxe até diante dos olhos e observei por um minuto exato os ponteiros de seu relógio. Estavam inquietantemente devagar.
— Então, o que vê? — quis saber ele, sorrindo com descrença.
Não disse nada, soltei sua mão e agradeci pela consulta. O silêncio é mesmo a pior das respostas.

Exausto e sentido que o mundo nada mais é do que tempo (longo ou curto) mudei-me para o interior, uma fazenda espaçosa, onde existem algumas vacas, porcos e cavalos.
Passo meus dias alimentando cada um deles, que agradecem a seu modo, mugindo ou relinchando. Os bichos são melhores que as pessoas; eles não falam, apenas observam e dormem. E mais importante: não usam relógio.
Já no interior da minha nova casa, existem relógios por todo lado, pendurados nas paredes, em meu micro-ondas, na tela de meu computador e em meu celular.
Optei que, se quero continuar com minhas teorias, que ela se faça apenas comigo. Não preciso mais saber o destino das outras pessoas. Nosso tempo é apenas NOSSO, e não há maneira de observar além do que podemos.
Meus relógios estão pontuais, todos eles marcando exatamente a mesma hora, girando e girando, caminhando pelo tempo como donos de meu destino. Reparei que desde ontem estão mais devagar.
Não fiquei assustado. Agora pouco, cada um deles começou a parar, um efeito dominó crucial e inevitável, ponteiros apontando para a mesma hora, a hora final, o fim do tempo e da minha vida. Antes que meu corpo tombe, saiba que meu peito começou a alfinetar e esquentar.
O relógio em meu pulso diz que são duas e vinte três da tarde.

28 апреля 2020 г. 18:30:18 1 Отчет Добавить Подписаться
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DC David Cassab
Cara, sensacional! De certa forma o começo e algumas partes me lembrou o mito de Sísifo e o Estrangeiro do Camus, então vira um enredo de paranóia genial, meus parabéns.
~

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