anncaroll Ana Ferreira

Elina Ward é uma garota normal, com uma rotina normal, em uma escola normal, com um amigo normal. Elina Ward não é uma garota normal. Quando sua mãe e seu melhor amigo desaparecem, Lina se vê obrigada a ir atrás de respostas em Eran, terra onde o fantástico é feito possível e um passado desconhecido é apresentado, ainda que isso signifique abrir mão de quem ela é e aceitar quem ela poderia ser.


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A maioria das pessoas não se lembra dos sonhos ao acordarem na manhã seguinte, por vários motivos; talvez porque sejam irrelevantes ao cotidiano, talvez porque não apresentem coesão ou intensidade, ou talvez pela falta de reações químicas no sistema nervoso. Mas, quando Lina acordou naquela manhã, sobressaltada, as vozes ainda eram ecoavam em sua cabeça, martelando como se quisessem escapar. Seu coração colidia contra seu peito e ela respirava ofegante através dos lábios, que haviam perdido o tom rosado; ela sentia o ar se acumulando em sua garganta, sufocando-a. Ainda com as mãos meio trêmulas, agarrou os lençóis que a cobriam e enterrou as unhas no tecido até encontrar a palma da mão do outro lado, um lembrete da realidade. As mechas de cabelo castanho caíam sobre seu rosto avermelhando, os fios grudando no suor que escorria pelas laterais e na nuca.

Aos poucos, o eco se dispersou e restou apenas o desconforto e o latejar.


"Lina!" a voz de sua mãe a tirou do transe e ela estava de volta ao espaço delimitado pelas quatro paredes de seu quarto, constrita em uma bola junto com o emaranhado que fizera do lençol vinho. O vermelho escuro se destacava na brancura das paredes.

Quando o estupor passou e restava um formigamento quase imperceptível, Lina se levantou lentamente da cama e colocou a mão na testa, franzindo o cenho. Sua visão estava turva e ela piscou algumas vezes para se acostumar com a claridade.

Os gritos ainda eram uma lembrança persistente, como se ela pudesse invocá-los a qualquer momento.

Não se lembrava exatamente que dia era, mas supôs ser segunda-feira quando sua mãe a chamou de novo, dessa vez mais imperiosa, ao pé da escada de madeira, ameaçando subir para tirar a filha da cama.


Os primeiros degraus sempre estralavam. A casa não era velha; algumas coisas talvez fossem. O piso estava levantado em alguns pontos, mas Lina os sabia de cor para descer descalça até a cozinha. Sua mãe se movia rápida no pequeno espaço, alternando entre o balcão e a mesa, pegando e deixando pratos e copos. O cômodo parecia vívido - mais do que fora em anos. O cheiro de pão quente, geleia de morango e suco de laranja era familiar e um tanto nostálgico, mas havia algo estranho naquilo. Elas não tomavam aquele tipo de café da manhã, do tipo que leva tempo para ser preparado. Geralmente, se contentavam com algumas torradas agarradas na pressa. Sua mãe não tinha ânimo - ou vontade, ou experiência - o suficiente durante a manhã para fazer outra coisa que não resmungar.


Desconfiada, Lina se aproximou e por um breve segundo pensou ter visto sua mãe mexer os lábios, murmurando uma música qualquer, os dedos tamborilando no balcão de acordo com o ritmo. Cruzou os braços sobre o peito e acompanhou a figura esbelta distribuir os talheres em dois lugares, um para si e outro para Lina.

Ela percebeu então a garota parada com sobrancelhas arqueadas e um olhar questionador no rosto.


"Bom dia" sua mãe deu um sorriso aberto, mostrando os dentes, que formavam uma fileira praticamente reta e bem alinhada, que reluzia mais forte que o sol entrando pelas janelas da sala, com quem o espaço era compartilhado. Lina gostava de ver a mãe sorrir assim, embora desejasse um sorriso daqueles para si. Sempre achou que Clara tinha um outro tipo de beleza própria. Os cabelos alaranjados e ondulados estavam presos no alto da cabeça por dois palitinhos que se cruzavam e se perdiam na cabeleira; algumas mechas haviam se soltado e agora balançavam ao lado, contrastando e lembrando quem a via dos olhos azulados como o mar. Todas as partes que ela queria ter recebido, mas que não ganharam na loteria da genética.

A única serventia de sua aparência diferente era que Lina podia ter uma breve noção de como seu pai parecia fisicamente. Cabelos castanhos dourados e olhos castanhos escuros. Nunca era o bastante.

Lina retribuiu com um sorriso fraco, curvando a ponta dos lábios para cima.

"O que é tudo isso?" ela se deixou esquecer tudo; seu pai, as vozes, a estranheza e se concentrou na pequena mesa, que fazia a comida parecer um banquete. Seu estômago resmungou e ela se aproximou, o cheiro forte e convidativo. Lina esperou sua mãe se sentar e fez o mesmo, a cadeira arranhando o piso e ela fez uma careta com o barulho estridente.


Do outro lado, a figura parecia sua mãe, tinha a mesma voz, a mesma aparência e a mesma ternura, mas alguma coisa estava diferente. Lina não conseguia dizer o quê. Ela olhou para o relógio na parede do outro lado. Era cedo de manhã e do que ainda não sabia se era segunda-feira. Ela ainda tinha algum tempo antes do inicio das aulas. Lina ponderou; sua mãe estava de bom humor, o que era, no mínimo, atípico. Normalmente, Clara passava as manhãs de cara fechada enquanto enchia a garrafa de café e saía para trabalhar, gritando um tchau antes de bater a porta. Nunca preparava um café da manhã completo, pelo menos não em anos. Sua mãe soltou uma risada enquanto pedia a jarra de suco. Lina passou o objeto e pensou quando fora a ultima vez que vira sua mãe tomar algo que não tivesse cafeína depois de despertar e continuou observando-a.


"O que? Não posso fazer algo para a minha filha de vez em quando?" perguntou ao notar que a filha parecia estranhar o comportamento. Ela deu uma mordida na torrada, os farelos sujando o pano sobre a mesa.


"Você não cozinha de manhã, mãe." acusou, apoiando os cotovelos no móvel. Sua mãe lhe lançou um olhar sério e ela deixou as mãos caírem sobre o colo. "Qual a ocasião?", dessa vez seu tom era mais brando, mas as suspeitas permaneciam. Se Clara estava agindo daquela maneira, devia haver uma razão escondida sobre todos os sorrisos e gestos.


No entanto, após alguns segundos, Lina relaxou os ombros tensos e deixou-se aproveitar, enchendo a boca com uma fatia de queijo.

Clara deu de ombros depois de engolir o ultimo pedaço de pão. "Nenhuma, apenas quis fazer algo diferente. É crime agora?"


"Não" arriscou com um sussurro e deixou o assunto morrer, embora soubesse que havia algo mais ali. A ultima vez que a mãe tinha de fato cozinhado algo em casa em vez de pedir por telefone foi durante o aniversario dela, no ano anterior. Lina deu um longo gole no suco, como se o suco de melancia fosse a cura para tudo.

Ela olhou novamente para o relógio, os ponteiros pareciam distantes, indicando um horário em outro lugar que não aquele. Mas em uma hora, Julian estaria parando com sua bicicleta na porta da frente, pronto para irem juntos à escola, como faziam todos os dias, sem exceção.


Clara parecia presa em sua própria realidade naquele momento, longe de quaisquer preocupações que ele deveria ter no momento e Lina não queria arruinar o pouco bom humor dela, então se levantou, esfregando as mãos em cima do prato para deixar as migalhas caírem e deixou-o com os demais na pia.


"Julian vai passar aqui e não quero deixa-lo esperando." disse e deixou um beijo molhado e estralado na bochecha dela antes de seguir escada acima, ignorando o olhar malicioso que Clara lhe dera.


O segundo andar, assim como o resto da casa, não era grande. Havia apenas o seu quarto, o de sua mãe, um banheiro interligando-os e o sótão, cujo acesso era feito por uma minúscula porta no final do corredor, mas essa parte estava sempre fora de questão.

Com uma toalha enrolada sobre o peito, Lina analisava o rosto redondo no espelho do banheiro. Havia pequenas marcas sobre seus olhos. Devagar, ela analisava a si mesma. Seu cabelo era curto, menos ondulado que o de sua mãe, e menos brilhante. Suas costas estavam curvadas sobre a pia, as mãos agarrando a borda com força. Ela havia acabado de levantar, no entanto seu corpo parecia mais pesado do que o normal; o cansaço tomando conta. Respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos, imersa na escuridão e no vazio. Um calafrio percorreu seu corpo e ela esperou as vozes voltarem, fazendo cada parte de si palpitar, os dentes cerrarem, os joelhos cederem. Nada aconteceu. Não havia nada ali, apenas seu reflexo no vidro e sua respiração esfumaçando-o. Apenas a voz de sua mãe cantarolando baixinho no andar de baixo.


Quando Julian chegou à residência Ward, um sobrado estreito cujas cores brilhantes não combinavam com a casa vizinha, mas se destacavam em um mundo próprio, - antes, quando foram construídas, ambas estavam pintadas de bege e marrom, uma combinação neutra e agradável, que se perdia nas outras dezenas de casas no quarteirão. Quando elas se mudaram, no entanto, a mãe de Lina havia ficado horrorizada com a uniformidade sem graça do lugar e decidiu pintar o lugar com uma tinta azul forte. Agora, a combinação harmoniosa havia ido embora e restara apenas o caos visual, o que, Julian pensava, era uma boa representação das duas. - não havia sinal de Lina parada em frente à porta, de braços cruzados e um sorriso irônico nos lábios. Ele deixou a bicicleta cair no gramado que delimitada a passagem ladrilhada e subiu o lance de escadas que dava para o pequeno alpendre com um murado de madeira recém construído. A janela que dava visão direta para a sala de estar estava fechada e Julian espiou pelo espaço das cortinas. Uma figura pequena desceu as escadas apressadas, prestes a colidir.

Lina passou pela porta em disparada e só parou quando notou Julian ao lado, as grossas sobrancelhas arqueadas em um questionamento silencioso.


"Fugindo logo de manhã, Ward?" Ele riu quando ele socou seu braço e juntos, ombro colado a ombro, pegaram suas respectivas bicicletas e começaram a pedalar para longe.

Enquanto disputavam a corrida diária até o colégio - corrida que Julian ganhava, mas Lina fazia questão de afirmar ter deixado -, os dois não diziam nada, apenas riam sentindo a brisa açoitar suas bochechas e jogar os cabelos para trás; o vento rompendo em seus ouvidos. E eles só perdiam velocidade quando se aproximavam da entrada.

Eles pularam fora de suas bicicletas e Lina se agachou para passar o cadeado na roda e no metal ao lado. Julian fazia o mesmo atrás dela.


"Não vai me dizer por que estava tão apressada?" Julian perguntou enquanto andavam. Lina passava as mãos pelo cabelo, tentando desembaraçar os fios e alisar a blusa do uniforme amassada.

O prédio erguia-se a frente deles, as altas janelas imponentes, o portão de ferro preto aberto, dando direto aos extensos jardins laterais e às escadarias de concreto. A semana estava apenas começando, mas Lina já se sentia exausta, então deu de ombros e apertou o passo para caminhar adiante e deixou o amigo boquiaberto. Julian se apressou para acompanha-la, curioso. "Quantas fugas está planejando hoje?"


"Nenhuma." respondeu. Do lado de fora, a fachada era feita de grandes pedras e Lina sempre considerou a estética do lugar minimamente fora do tempo, como se estivessem no século passado e a qualquer momento seriam forçados a usar saias de prega listradas. "Você acredita que Clara cozinhou café da manhã hoje?" disse, alterando o rumo da conversa. Julian notou, mas decidiu ignorar e montou um semblante de surpresa. Eles se conheciam há pelo menos dez anos e foram raras as vezes em que vira a mãe de Lina cozinhar alguma coisa, ainda mais durante a manhã. Era por isso que a garota estava agindo de maneira tão estranha?


"E eu perdi isso?" Julian colocou a mão sobre o peito, em um gesto dramático de traição. Lina sorriu e assentiu com a cabeça.


"Com direito ao pacote completo." Lina ainda achava a mãe um pouco perdida naquele dia, mas no fundo apreciava o gesto raro. Eles subiram as escadas até o longo corredor.


As paredes internas haviam sido repintadas no começo do ano, mas em alguns pontos, a tinta já estava descascando e revelando os tijolos que compunham a estrutura do edifício. De ambos os lados, havia uma fileira de armários brancos. A batida do metal ecoava, tornando impossível se concentrar em qualquer coisa que exigisse o mínimo de concentração. Por sorte, o armário de Julian era do outro lado do seu, no final do corredor. A multidão de alunos se movia de um lado para o outro, em um emaranhado de cores e rostos. Aquilo ainda deixava Lina atordoada se ela não prestasse atenção o suficiente para não esbarrar em um desconhecido. As informações pareciam extravasar de todos os cantos e ela não se sentia no clima para lidar com tanto.


Apesar de fazerem as mesmas aulas, eles não compartilhavam o mesmo horário e se despediram na porta da sala de aula.

Sem conseguir prestar atenção no que o professor falava, Lina quis pegar o celular da mochila e pesquisar sobre o pesadelo daquela manhã, mas era arriscado demais. Se fosse pega, não teria o aparelho de volta até o final da semana. Então apoiou o queixo na palma da mão e esperou que as horas passassem.

Na saída, ela correu até o bicicletário, esperando ver Julian esperando-a. Mas quando passou pelos jardins, Julian não estava lá como de costume e Lina não pôde evitar deixar as pontas da boca se curvarem para baixo, decepcionada. Pensou que ele poderia ainda estar na aula, já que ela também tinha passado do horário do sinal. Ela mordeu o interior da bochecha enquanto esperava e trocada o peso de perna.


Ela gostava daquilo, da presença do amigo quando precisava, e quando não. Simplesmente existiam em um universo que só eles compartilhavam.

Ela olhou ao redor algumas vezes, pensando que talvez ele tivesse parado para alguma coisa. E então minutos se passaram. E os minutos se tornaram uma hora inteira sem sinal dele. Nenhuma mensagem, já era a milésima vez que ligava a tela para ver. A maioria dos alunos já tinha ido embora, mas a bicicleta dele permanecia presa ao lado dela, a corrente e o cadeado dourado do mesmo jeito que ele deixara horas antes. A etiqueta colada embaixo do baco dizia que ela não estava enganada e que ele já tinha ido, o sobrenome - Nícolas - escrito em garranchos que imitavam letras cursivas.


Ela aceitou.

Julian não estava ali. Lina voltaria para casa sozinha, pelo que talvez fosse a primeira vez em anos e não haveria disputas para ver quem subia a rua mais rápido, não haveria piadas; pela primeira vez não haveria ninguém para fazê-la esquecer de seus pensamentos, ainda que por algumas horas. Lina suspirou. Estava sendo dramática, quando Julian poderia ter tido um problema sério e esquecera de avisar. Deixou os braços se apoiarem no guidão da bicicleta, a empurrou pelo portão de volta para casa. O dia todo estava errado. E Julian era a única parte da sua vida que era sempre certa e imutável.


O pequeno sobrado estava do mesmo jeito de quando saíra. Uma pontada de desilusão a atingiu em cheio. Enquanto subia a rua, ela ainda acreditava que Julian pegaria um atalho e a esperaria ali em frente, a culpa admitida no olhar, um pedido de desculpas brilhando em seus lábios. Ninguém estava esperando, o gato malhado da Sra. Mars passou miando, indiferente ao ambiente ou a ela. Lina queria ser um gato.


"Cheguei" avisou e trancou a porta atrás de si, silenciosamente. Sua mãe não estava em lugar nenhum do primeiro andar. A cozinha ainda apresentava os resquícios da manhã na mesa, os copos e os pratos secavam no escorredor sobre a pia. Olhou para a mesa de vidro no centro da sala onde sua mãe costumava terminar o trabalho, com papeis espalhados aqui e ali. Adentrou mais e algo chamou sua atenção, fazendo-a parar e deixar a mochila no canto encostada na parede.

Aguçou a audição e o que achou ter sido vozes, diferentes, virou certeza. Olhou ao redor novamente, as chaves da mãe ainda estavam na tigela na prateleira e seu casaco ainda estava pendurado no braço do sofá.


A passos lentos e precisos, evitando os lugares onde as tabuas faziam crec, Lina se aproximou do pé da escada e pensou na melhor maneira de fazer aquilo.

A escada não rangeria quando ela pisasse.

Mas a madeira era velha e desgastada e solta em alguns lugares, e não mudaria sua essência para que a garota pudesse passar desapercebida. Na mente de Lina, ao pisar, o som soou amplificado, como se todos em um raio de quilômetros tivessem escutado. Ela cerrou os olhos fechados e não se moveu, esperando alguém aparecer.


Silêncio foi tudo o que preencheu os espaços vazios da casa durante alguns segundos, numa certeza incerta. Nada. Não havia ninguém no topo e as vozes voltaram a ressoar, dessa vez menos audíveis; um sussurro prestes a se tornar um mero mover de lábios. Com o antebraço apoiado no corrimão, Lina foi vagarosamente subindo os degraus, cada passo seguinte cuidadosamente dado. As vozes agora estavam um pouco mais altas, mas ainda não compreensíveis. Não passavam de um murmuro abafado demais, cortado demais.


Mesmo quando conseguira subir as escadas com crecs baixos, as coisas ainda não faziam muito sentido. Embora as vozes fossem quase coerentes, Lina não conseguia dizer exatamente de onde vinham, porque como Clara fazia questão de reforçar de tempos em tempos, havia limites no sótão que não deveriam ser ultrapassados. A mãe nunca mexia no lugar, e o mesmo valia para Lina. Ela sabia que o cômodo estaria atulhado de caixas de papelão com lembranças de um passado que ela não vivera ou compreendia; um passado que incluía pertences de seu pai. Lina não o conhecia - e não fazia questão -, mas Clara dissera que ele havia ido embora, antes mesmo da filha nascer e ela achava que pensar nisso doía mais do que não saber quem ele era ou o que tinha acontecido.


Ela voltou-se para a conversa, andando encostada na parede.

A luz nas escadas que davam ao sótão estava acesa, porém piscando. A poeira no ar fazia seu nariz coçar e ela contraiu o rosto para se livrar da vontade.


"Se ela souber..." sibilou a voz desconhecida. Lina franziu o cenho. Conhecia as poucas amigas da mãe e aquela não era uma delas. As duas falavam como se fossem conhecidas.

"Ela não vai. Confie em mim." agora era Clara quem falava. Um calafrio percorreu sua espinha e ela refreou-se de se aproximar mais e dispersou as novas perguntas que se formavam em sua mente.

"O que devo dizer a ela?" perguntou a mulher novamente, depois de suspirar. Seu tom agora era mais calmo, talvez mais amistoso.

"Diga que estarei lá," e com isso, a conversa teve fim.


Já era fim de tarde e começo da noite quando a mulher foi embora. Lina agora estava observando por uma minúscula fresta da porta do quarto a estranha se dirigir até a porta, Clara seguindo-a atrás, como se aquela não fosse a sua casa. Ela abriu mais a porta e curvou-se para andar. Enquanto a mulher andava, seus cabelos escuros balançavam como um pêndulo sobre a pele negra, reluzentes mesmo na noite. De longe, a garota conseguia ver as tatuagens que cobriam as costas da mulher, expostas pela regata. Toda a extensão de pele visível era coberta por diferentes marcas, algumas que Lina reconhecia, outras que não.

Mas, de todas, apenas uma foi capaz de fazê-la se aproximar mais um pouco, ficando escondida atrás do guarda-corpo. Bem no meio das costas, sobre a espinha, ficava uma das maiores tatuagens. Algo nele parecia familiar, mas Lina não conseguiu identificar o que era. Era difícil formar uma imagem continua do símbolo quando os cabelos interrompiam sua visão, mas olhando fixamente, ela conseguiu formar a imagem em sua mente, antes da mulher se virar para Clara, em frente à porta.


A principio, era algo simples, mas havia algo que o tornava hipnotizante. Um grande circulo no meio com dois menores, um em cada extremidade da diagonal. Ela conhecia aquele símbolo, já tinha visto em algum lugar.

A mulher tinha uma ultima conversa com a mãe. Seu corpo era esbelto, assim como o de Clara, a agilidade expressa nos mais simples movimentos. Seu rosto tinha um semblante sério e seus lábios vermelhos não sorriam para a mulher a sua frente. A despedida final foi tão tensa quanto as palavras de apenas minutos antes.

A porta se fechou com um clique, mas antes que Lina tivesse a chance de dizer qualquer coisa, sua mãe soltou o fôlego que não percebera estar segurando num longo suspiro. Os lábios se comprimiram em uma fina linha no rosto; as mãos saíram do quadril para os cabelos e em seguida para o rosto, antes de balançar a cabeça e sentar-se no sofá.


Lina não disse nada.

25 апреля 2020 г. 23:57:04 0 Отчет Добавить Подписаться
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