dissecando Edison Oliveira

Se colocar uma sinopse, estarei mentindo...


Короткий рассказ Всех возростов.
Короткий рассказ
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EFEITO PINÓQUIO



A ligação estava um pouco ruim, deixando a voz de minha mãe robótica e entrecortada. Ainda assim, escutei parte de sua pergunta e respondi:
— Sim, mãe. A Joana está bem. Ocorreu tudo perfeitamente bem durante o parto.
Escutei mais um amontoado de chiados, e em seguida a voz de minha mãe reapareceu, e ela estava radiante. Incrível como a voz de uma pessoa revela como está o seu estado emocional. Com uma certa dificuldade, escutei mais ou menos isso:
— Disseram que só iriam saber o sexo do bebê na hora de seu nascimento. Então, é meu neto ou minha neta?
— É um menino, mãe. — tossi, observei um pássaro passar e pousar diante de mim. Eram duas da tarde, e este era o horário preferido dos pássaros naquela praça. Excepcionalmente para os pombos.
— Oh! Oh! Meu Deus! Eu sempre quis ser a avó de um menino. Não poderia estar mais feliz, meu filho. Quando vou poder vê-lo?
Pensei por um tempo (respostas como “talvez mês que vem” ou “em breve iremos até você” surgiram em minha cabeça) e o que pareceu mais sensato foi:
— Daqui a alguns meses. Joana detesta voar, a senhora sabe. Não quero que ela se agite demais durante a amamentação.
Acho que minha mãe dissera que tudo bem, que compreendia aquilo tudo e segundos depois os chiados aumentaram e a ligação se perdeu. Insisti com alguns alôs, até fiquei de pé e tapei o outro ouvido com o dedo, mas não adiantou. Afastei o celular e olhei para a tela; estava escrito que era uma quarta-feira, que a data era doze de maio e que já eram duas e vinte da tarde. Virei-me para o dono do aparelho, que permanecia sentado e segurando sua garrafa de água com gás. Estendi o celular para ele, agradeci e obtive apenas um sorriso como resposta.
— A ligação caiu, — falei, sem que fosse algo de fato necessário. — Acho que o excesso de árvores por aqui interferem no sinal.
— É, pode ser — concordou o rapaz, já começando a mexer no celular e me ignorando por completo.
Perguntei-me quanto tempo ele levaria para descobrir que eu não havia telefonado para ninguém, que estava apenas com o telefone grudado na orelha e jogando palavras ao vento. Provavelmente já havia até descoberto, e era por isso que ficava me espiando como se eu não percebesse. Olhei em volta (a praça já começando a ferver com a presença das pessoas e dos pombos) e depois virei minha atenção para o alto, o sol brilhando forte e causando ardência. Estava ficando com sede. Muita sede.
Minha boca estava seca, a saliva já não existia. Olhei para a garrafa de água que o rapaz ainda segurava e reparei que ele já havia bebido a metade. Sem pestanejar, apontei para ela.
— Se importa?
Parecendo receoso (a mentira do telefonema provavelmente descoberta) o rapaz me esticou a garrafa e disse para ficar com ela. Agradeci e o acompanhei se afastar até estar em uma distância segura, e só então ele deu uma olhadinha por sobre o ombro para conferir que não o estava seguindo.
Bebi o restante da água num único gole e me sentei no banco/cama de meu lar que as pessoas chamam de praça.
Quis, — e esta não foi a primeira vez — que a história de Joana e o meu filho fosse verdade; por um rápido momento, quase pude escutar a voz de minha mãe e ela se parecia muito com a que ela tinha antes de falecer. Até os chiados me incomodaram.
Foi como ter uma vida outra vez. Se Joana existisse, eu a chamaria de Jô e diria que a amava todos os dias. Se tivéssemos um filho, o nome dele seria Alexandre, um nome imponente e forte, e não José, sinônimo de fracasso e desordem como tudo na vida de seu pai. Isso, claro, se a minha vida fosse real, coisa que duvido que seja. Nada nela parece coexistir, e então minto para sentir o gosto das coisas, e também o seu cheiro. A mentira transforma a vida em realidade, e essa não é a coisa mais contraditória que já disseram para você?
Ergui a garrafa de água e ela estava vazia. Acho que sempre esteve. Talvez por isso não pude sentir a minha garganta molhar e se refrescar. O rapaz do celular já havia desaparecido no meio das outras pessoas, e, honestamente, prefiro não falar muito sobre ele. Estaria sendo desonesto com você, mais do que já estou sendo.
Digamos apenas que eu menti um pouquinho. Só assim tive uma história para contar.

24 апреля 2020 г. 17:18:53 3 Отчет Добавить Подписаться
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Kaline Bogard Kaline Bogard
Olá! Confesso que sua sinopse me chamou a atenção. vim aqui sem saber o que esperar, mas com várias teorias na cabeça, e não acertei nenhuma delas. A medida que o personagem apresenta a história, fui desconstruindo as teorias e construindo outras! Todas erradas. Cheguei a pensar que o rapaz do telefone e o protagonistas fossem namorados escondendo um caso proibido e eu não poderia estar mais errada! O tom do protagonista não responde nenhuma das questões! Ele apenas joga mais e mais incognitas, nos fazendo duvidar até mesmo dessa revelação de ser um morador de rua ou do rapaz que o ajudou com o telefone... será que, assim como a água da garrafa, isso não foi real? É um texto curto, porém impactante! Parabens! Apenas chamo atenção para o paragrafo que começa com "Acho que minha"... creio estar faltando a palavra "mãe" ali.
Leandro Severo Leandro Severo
Consegui. Agora é só seguir a lenda! Parabéns. Esse efeito Pinóquio é o segredo para uma boa história.
DC David Cassab
Cara já li dois contos seus e gostei demais.
~

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