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Capítulo I – Profecia

Dentre tantos privilégios, bens e riquezas que permeavam o mundo antigo, o amor poderia ser considerado o mais caro dos luxos. Muitos dispunham-se a despender uma fortuna somente pelo prazer de experimentá-lo, porém, nem mesmo aqueles que detinham poder e ouro poderiam de fato comprá-lo. Por isso Jeongguk recusava-se a ser mais um tolo em busca de um romance. Tudo o que o jovem alfa desejava era o alívio de afogar suas dores e responsabilidades em cálices de vinho, sendo capaz de esquecer-se, mesmo que por um curto período de tempo, do pesar que sua linhagem e título exerciam sobre si em meio aos lençóis egípcios de um bordel para então acordar na manhã seguinte e agir como o duque de Busan.


O nobre alfa era autoconsciente em demasia para alimentar utopias. Ele havia sido exposto prematuramente a como às engrenagens de sua sociedade funcionavam. Como um alfa lúpus e único herdeiro da linhagem Jeon, cabia a ele o dever de fazer justiça pelo sangue de seus familiares que foram, covardemente, massacrados durante a guerra, bem como restaurar a província portuária de Busan, devolvendo-a aos seus dias de glória.


Jeongguk não passava de um adolescente quando o rei o nomeou duque de Busan, restituindo ao nome Jeon títulos e terras. Como acompanhante do pronome de tratamento “Alteza”, pelo qual passou a responder daquele momento em diante, vinha expectativas e obrigações das quais o jovem desejava distância.


Entretanto, Jeongguk não poderia fugir de seus deveres como duque para sempre.


O duque adentrou o quarto em que estava hospedado intempestivamente, fechando a porta com brutalidade e não se importando com o conselheiro que seguia logo atrás de si, o qual teve de defender-se da pesada porta de madeira que, por muito pouco, não colidiu diretamente contra seu rosto antes de encontrar-se com o portal.


— Você precisa acalmar-se, Jeongguk — Namjoon pediu, pacientemente, pela milésima vez desde que deixaram a sala de reuniões do conselho real.


Encontravam-se, atualmente, no castelo real, em Seul, após ficarem presos por mais de uma hora na sala de reuniões do conselho real.


— Como esperas que mantenha-me calmo quando eles claramente não levam-me a sério? O que mais tenho que fazer para ganhar a confiança daqueles velhos retrógrados? — Jeongguk esbravejou, batendo fortemente com o punho fechado na mesa de madeira e rangendo os dentes. — A cada nova reunião tenho a confirmação de que meu título e espaço no conselho deve-se somente ao nome de minha família e ao sangue lúpus que corre em minhas veias — disse amargurado.


— Desde o princípio sabíamos que seria assim, não te irrites com algo tão previsível — rogou complacente, sentando-se na cadeira disposta a frente da mesa de Jeongguk.


— Então o quê? Devo conformar-me em ter meus esforços e feitos ignorados por um bando de anciãos retrógrados? — ralhou em resposta, rindo sem qualquer humor, visivelmente mais irritado.


— Não estou pedindo-lhe para conformar-se, Jeongguk — esclareceu, inspirando profundamente para então continuar a explicar-se. — Desejo somente que não gaste suas energias irritando-se com tão pouco, pois é previsível que te subestimem devido a sua inexperiência e juventude. É previsível que os anciãos rejeitem suas ideias quanto ao incentivo ao comércio quando nosso reino sempre apoiou-se na agricultura e na criação de animais. E é ainda mais previsível que impliquem contigo depois de ter rejeitado todas as ofertas de casamento apresentadas a ti — argumentou, tendo um bufar insolente alheio como resposta. — Poderíamos ter o apoio dos anciãos de forma mais fácil... — pronunciou sugestivo. — Mas já que rejeitou as oportunidades ofertadas a ti para trilhar este caminho tortuoso, concentra-te na solução destes problemas e continue mostrando a eles a prosperidade de Busan através do comércio.


— Não cansa-te retornar sempre a este mesmo assunto? — Jeongguk questionou, deixando claro o quanto aquele tópico o desagradava através de seu tom, ao passo que se sentou de forma desleixada sobre a poltrona.


— É errado ter esperanças de que reconsidere as propostas? — Namjoon contradisse, arqueando uma sobrancelha para si. — Sabes que seriam extremamente vantajosas para ti.


— E você sabe que não pretendo ficar mais rico em troca do meu próprio desprazer e infelicidade, obrigado — contrapôs intransigente, fazendo um pequeno sorriso contornar os lábios do conselheiro em reflexo a diligência do outro. — Sem contar que nenhuma das pretendentes que me foram oferecidas pareciam-me realmente interessantes — disse, colocando um de seus pés sobre a mesa, claramente menos tenso e irritado que outrora.


Namjoon sempre fazia um belo trabalho ao acalmá-lo.


— Você é muito exigente, Jeongguk — pontuou, pronto para iniciar mais um de seus discursos entediantes. — Primeiro, o Arquiduque Lee ofereceu-te a sua filha, Yura, uma moça estonteante, mas a recusaste porque prefere ômegas machos, que, aliás, são raros em comparação às fêmeas. Depois, o Conde de Hongdae ofereceu-te a mão de sua filha, Jiwoon, mas você disse a ele que não poderia aceitá-la porque Jiwoon possui o cheiro de muitos alfas diferentes mesclados ao seu aroma, o que irrita o seu olfato. Fizestes a moça ter sua reputação arruinada por conta disto e, agora, ela sequer pode sonhar em casar-se com qualquer nobre — discorreu, vendo um sorriso arteiro despontar nos lábios rosados alheios. — E, como se não bastasse, recusaste também a oferta de união com o príncipe ômega, Kinsung.


— E não fiz bem? — Jeongguk indagou presunçoso. — Kinsung pode ter sido legitimado pela alta-sacerdotisa, mas continua sendo um bastardo. Sem contar que os boatos de que ele é estéril são sabidos por todo o reino. De nada serviria ao meu clã um ômega incapaz de dar-me filhotes.


— De fato tivemos sorte ao não aceitarmos a proposta — admitiu. — Porém, na época, o recusaste somente porque não considerava-o atraente o suficiente.


— Há de concordar comigo, Namjoon, ele é tão feio que duvido que conseguiria ficar ao menos excitado em sua companhia — Jeongguk franziu o nariz, em uma feição enojada, apenas por imaginar-se em tal situação, fazendo com que o Kim tivesse dificuldade em manter sua postura séria diante de si.


— O problema é que te preocupa demasiado com trivialidades, sendo que, uma vez casado com uma ômega que lhe dê herdeiros, poderás dar-se ao desfrute com quantos ômegas machos quiseres. Precisamos ser práticos e tratar o seu casamento apenas como mais um de seus negócios. Continuar adiando esse momento só fará mal para a sua imagem como político. Estás ciente que além de todas as ressalvas que o conselho real tem para contigo, a sua má conduta de viver entre tabernas e cabarés mancha a sua moral para com eles. Eu sei que dinheiro, terras e títulos, não te motivam o suficiente para contrair um matrimônio, então ao menos pense nisso como uma forma de estabelecer-se como um alfa respeitável em nossa sociedade — Namjoon argumentou, apelativamente levantando-se de sua cadeira e não dando ao seu amo a chance de continuar com aquela discussão ao segurar o trinco da porta, virar-se brevemente e dizer: — É o ômega que dignifica o alfa — citou o ditado popular. — Reflita sobre isso, jovem mestre — pediu, retirando-se em definitivo da sala.


Por mais que Jeongguk se recusasse a admitir isto em voz alta, ele sabia que Namjoon estava correto. Era imaturo de sua parte insistir em adiar o inadiável tendo em conta que mais cedo ou mais tarde teria de render-se à instituição social denominada casamento. Entretanto, a insistência de seu conselheiro para que contraísse um matrimônio com uma ômega fêmea irritava-lhe profundamente, endurecendo o seu coração toda vez que Namjoon colocava o assunto em pauta. Pois, apesar de bem intencionado, as palavras de Namjoon soavam nada além de hipócritas aos ouvidos de seu amo, visto que é fácil aconselhar-lhe a submeter-se a uma união meramente contratual quando o próprio conselheiro desfruta de um casamento feliz.


O duque resistia à perspectiva de condenar-se a um casamento infrutífero e infeliz, no qual sequer poderia regar esperanças de construir uma relação amorosa com sua companheira e, muito menos, gozar de prazer sexual ao seu lado. Parecia-lhe absurdo ter de conviver pelo restante de sua vida com alguém por quem nada poderia sentir. Sacrificar-se de tal forma para dar continuidade a sua linhagem sanguínea, visando o acúmulo de riquezas, como Namjoon desejava. Nada disso fazia sentido para si quando sua fortuna e milícias rivalizavam com as posses da coroa e o nome Jeon era respeitado dentro e fora do território de seu reino. Mas, desta vez, mesmo que a contragosto, chegara o momento de reconhecer a importância de um casamento não só para as suas finanças como também para a sua imagem política.


Jeongguk havia tido a sorte de nascer em uma linhagem nobre de alfas e ômegas lúpus, considerados seres sagrados e abençoados pelos deuses com a capacidade de transmutarem-se em feras majestosas. Infelizmente, seu clã foi tragicamente dizimado durante a guerra, e, o pequeno Jeongguk, único filho do líder, foi também o único sobrevivente — junto a alguns servos e soldados — deste triste episódio na história dos Jeon.


Seus parentes se foram, mas deixaram para trás terras férteis, palácios, ouro, jóias e toda sorte de riquezas. Porém, apesar das posses e privilégios que lhe foram concedidos de mãos beijadas, Jeongguk aprendeu prematuramente que teria de conquistar poder e influência junto à côrte por conta própria. A essa altura, suas aventuras juvenis e a relutância em contrair um matrimônio revelavam-se um incômodo empecilho em sua busca por poder.


O alfa entendia perfeitamente o peso do ditado citado por Namjoon. Compreendia a positiva e considerável diferença que casar-se com uma ômega respeitável a fim de constituir uma família consigo acarretaria em sua vida política. Pois, conforme as crenças e tradições de seu povo, alfas e ômegas seriam não só os descendentes diretos dos deuses, como também teriam sido feitos conforme o reflexo destas divindades. Ao que dentre todos os deuses e deusas, Ômega era cultuada como a mais importante, sendo adorada e engrandecida como a representação da pureza, fertilidade e sabedoria.


O seu povo venera Ômega como sendo a própria Lua a quem, desde os primórdios dos tempos — quando ainda viviam sob suas peles de lobo, caminhavam sobre quatro patas e organizavam-se em matilhas dentro das florestas — prestavam louvor, uivando a plenos pulmões em adoração à luz do corpo celeste que guarda-os da noite sombria. Na época da colheita, toda a população festeja Ômega como sendo a mãe terra responsável pela fartura no campo e pela prosperidade de seus celeiros. A agradecem por abençoá-los com sementes frutíferas, com rebanhos populosos e com filhotes saudáveis.


Por isso, os ômegas são considerados pedras preciosas em sua sociedade: lindos, gentis, frágeis e inocentes. Tidos como criaturas tão belas quanto a lua e tão puras quanto a luz do corpo celeste. Os únicos seres capazes de completar alfas e abençoá-los com filhotes puros e saudáveis. Jeongguk, assim como todos os alfas, necessitava de um ômega capaz de completá-lo e carregar seus herdeiros para o bem de sua consolidação como um alfa respeitável e de família. Portanto, mesmo que detestasse um casamento por negócios, daria o braço a torcer e consentiria com os conselhos de Namjoon. Todavia, isso não precisava significar, de fato, um infortúnio para si.


Depois de um dia inteiro de reflexão, preso dentro de uma carruagem a caminho de Busan, Jeongguk pôde refletir sobre os conselhos de Namjoon. Assim, enquanto estava sentado à mesa na companhia de Namjoon e Yoongi, degustando o seu jantar, o silêncio sendo interrompido somente pelo tilintar da louça à medida que faziam sua refeição, o duque limpou a garganta audivelmente, trazendo a atenção do casal para ele para então pronunciar-se.


— Eu refleti sobre os conselhos que me destes... — olhou diretamente para os olhos de Namjoon enquanto falava — e concluí que, para o bem de minha vida política, devo casar-me e produzir herdeiros logo — anunciou, vendo que os olhos alheios arregalaram-se brevemente e um sorriso vitorioso desenhou-se em seus lábios volumosos.


— Finalmente consegui colocar um pouco de juízo nessa sua cabecinha dura! — Namjoon comemorou. — Quem será a felizarda? A proposta dos Lee ainda está de pé — comentou animadamente.


— Não irei desposar nenhum dos pretendentes que já me foram oferecidos — negou firme. — Se tenho que casar-me que seja com um ômega macho jovem, belo e puro. Não desejo viver preso a alguém por quem sequer posso sentir-me atraído.


— Alteza… — Namjoon tentou intervir em tom de aviso, recebendo um olhar afiado de seu mestre. — Está bem — engoliu em seco suas ressalvas. — Amanhã mesmo pedirei que tragam pinturas dos mais belos ômegas machos e solteiros de nosso reino para que possa avaliá-los. Todos nobres, é claro — tentou parecer animado, sorrindo forçadamente para os outros dois.


— Eu não importo-me com o método que usará, mas não tome muito de meu tempo com isso. Temos outros negócios importantes a tratar — Jeongguk contrapôs, tendo em mente que Namjoon poderia ser implacável quando se empenhava em algo.


Entretanto, seu aviso não significou muito para o conselheiro, que no dia seguinte apareceu com uma pilha de quadros em mãos e o perfil de inúmeros pretendentes a tiracolo, forçando-o a passar horas sentado em uma poltrona conforme avaliava as pinturas e o ouvia discorrer entusiasmadamente sobre cada um dos ômegas. Enquanto isto, Jeongguk mantinha uma carranca entediada e soltava pesarosos suspiros, questionando-se mentalmente quando aquela pilha gigantesca chegaria ao fim.


— Alteza, este já é o vigésimo pretende que recusas com desculpas tão torpes quanto os primeiros — Namjoon reclamou, em um tom cansado, após ouvir do moreno que o último pretendente era “velho demais”. — Isso faz com que me pergunte se estás realmente disposto a casar-se.


— Eu estou avaliando os quadros e o ouvindo falar há horas, e, ainda assim, dúvidas de minhas intenções? — indagou, mal-humorado. — Não há nada que posso fazer se todos eles me parecem desinteressantes — deu de ombros, ao que o outro inspirou profundamente, depositando o quadro que tinha em mãos sobre a pilha em cima da mesa, com um semblante cansado e irritado.


— Escolha três deles até o final do dia — ditou autoritário. — Estes são todos os ômegas machos existentes no mercado de casamentos de nosso reino; há de ter alguns que o agradem. Caso contrário, sugiro que comece a considerar desposar um chinês ou um tailandês.


Dessa forma, Namjoon deixou a sala, sabendo que a ideia de casar-se com um estrangeiro desagradava mais o seu amo do que a diferença de três anos de idade entre ele e o último pretendente que ofereceu-lhe.


A quantidade de ômegas machos na Coréia era drasticamente desproporcional em relação às fêmeas, havendo cerca de um macho a cada dez fêmeas. Este pré-requisito de Jeongguk, tornava a procura simples e, contraditoriamente, problemática. Não ajudava em nada que o rapaz enxergasse defeitos invisíveis em todos os ômegas apresentados.


— Talvez devêssemos oferecer um baile — Yoongi sugeriu, voz suave conforme massageava os ombros tensos do marido, tentando amenizar o estresse alheio. — É uma forma discreta e agradável de lhe apresentarmos pretendentes. Como bem sabes, os jovens ômegas se engalfinhariam para dançar com Jeongguk, não precisaríamos fazer qualquer esforço. E enquanto isso, eu poderia ter meu alfa só para mim.



α•β•Ω



Algumas semanas mais tarde, em um castelo no interior da província de Busan, a família Kim, assim como muitas outras, foi surpreendida com a visita do mensageiro do duque, que lhes trouxera um convite para o baile. Naquela tarde, também, o jovem Taehyung teve suas tranquilas horas de leitura interrompidas pela voz fina e estridente de sua irmãzinha o chamando enquanto corria pelas escadas em direção a biblioteca.


— Tae! Tae! — gritava-o animada. — O mensageiro do duque esteve aqui! — anunciou ao adentrar as portas duplas de madeira.


— Mensageiro? — Taehyung desviou sua atenção das páginas amareladas, tendo o seu interesse fixado na pequena garota de respiração vacilante, cabelos cor-de-mel e vestido vermelho florido.


— Sim! — confirmou, com um grande sorriso retangular. — Ele tinha um chapéu muito engraçado — disse sorridente. — E sabe do que mais? — questionou retoricamente, aguçando a curiosidade de seu irmão. — Ele disse que teremos um baile! — revelou, soltando um gritinho eufórico ao passo que pulava no colo do ômega.


— Baile?! — Taehyung arregalou levemente os olhos, descrente. — Haverá mesmo um baile?! — Colocou o livro de lado, abraçando o corpo pequeno da garota em seu colo.


— Mamãe disse que poderei usar um vestido bem bonito! — Jieun comemorou, com os olhos brilhantes.


— Tenho certeza que você estará linda! — sorriu para ela, bagunçando seus fios lisos gentilmente.


— Ah! — Jieun exclamou ao lembrar-se o real motivo de ter interrompido a leitura de outrem. — Mamãe mandou que viesse chamá-lo, ela deseja falar contigo — avisou.


Taehyung demarcou a página em que interrompeu sua leitura e guardou o livro, removendo a garota de seu colo para então levantar-se e dirigir-se obedientemente até sua mãe, tendo Jieun cantarolando repetidamente “teremos um baile!”, enquanto dava pulinhos ao seu lado, fazendo-o sorrir devido ao comportamento fofo da menor. Apesar de não poder competir em animação com a pequena, Taehyung estava igualmente contente com a ideia de participar de um baile. Os anos em que passou recluso no Academia Interna para Ômegas Lunare lhe usurparam a oportunidade de frequentar bailes de verdade, com pessoas de todos os gêneros interagindo e dançando em um amplo salão.


Assim que desceu as escadas, encontrou sua mãe, Hana, aguardando-o na sala de estar, acomodada ao sofá a medida que segurava graciosamente uma xícara de chá fumegante em suas mãos pequenas.


— Estou aqui, mamãe — anunciou sua chegada. — O que deseja falar comigo? — questionou, tendo a atenção da ômega voltada para si.


— Suponho que Jieun tenha lhe contado sobre o baile — disse, colocando a xícara sobre a mesa de centro, para então alcançar o convite e oferecê-lo ao ômega. Taehyung desenrolou o papel, analisando seu conteúdo rapidamente e observando o selo do duque, que tinha como símbolo a cabeça de um lobo. — Esta será uma ótima oportunidade de introduzi-lo à alta sociedade depois de ter passado tantos anos afastado, então devemos tomar cuidado para causar uma boa primeira impressão.


— Certo — concordou simplista.


— Acredito que haverá muitos alfas nobres e solteiros aptos a desposá-lo neste evento, por isso trabalharemos para deixá-lo deslumbrante. Amanhã cedo iremos à cidade para comprar tecidos, jóias, sapatos e encomendar suas roupas — ditou a mulher, entusiasmada, ao que Taehyung assentiu positivamente com a cabeça. — Ahh! Não vejo a hora de escolher as roupas... — revelou sonhadoramente. — Você prefere estampas florais e cores claras, ou algo mais discreto... talvez, preto?


— Estampas florais e cores claras, com certeza — respondeu prontamente.


Taehyung desejava que aquelas tivessem sido as últimas instruções dadas por sua mãe em relação ao baile, mas, infelizmente, não foram. Hana despendeu longos minutos discutindo paletas de cores para as vestimentas e questionando-o quanto as suas preferências. Ela demonstrava tanta animação para com o evento quanto a pequena Jieun, que se juntou aos dois ansiosa por escolher um modelo para o seu vestido. E o jovem ômega gostaria de compartilhar do mesmo êxtase que ambas expressavam, porém, sua mente divagava em um mar de preocupações referentes a sua necessidade de arranjar um bom casamento.


A realidade era que Taehyung, com seus vinte e um anos, já poderia ser considerado velho demais para casar-se. Ao contrário da maioria dos ômegas disponíveis no mercado de casamentos, o Kim já não se encontrava no florescer dos seus dezesseis anos de idade. Os cinco anos a mais que dedicou à pedagogia pesavam-lhe agora que seus progenitores demonstravam pressa em casá-lo.


Racionalmente, Taehyung sabia que o seu retorno à alta-sociedade seria difícil. Não era comum que ômegas recebessem ensino superior e muito menos que se qualificassem para a docência. A maioria dos ômegas contentavam-se em estudar música, artes plásticas, costura, culinária e teologia. Ele mesmo havia despendido anos estudando instrumentos musicais e aprendendo a tocá-los. A música constituindo-se sua paixão mor, enquanto a pedagogia tornara-se o seu amor.


Taehyung era grato aos seus progenitores por terem lhe permitido dar seguimento aos seus estudos — ainda que motivados por razões nada nobres —, visto que amava ensinar. O Kim gostava de lidar com crianças, compartilhar os seus conhecimentos com os pequenos e divertir-se na companhia deles. Taehyung descobriu a sua inclinação para o magistério depois de unir-se à equipe de monitoria do internato, tornando-se responsável por cuidar dos jovens calouros recém-admitidos na instituição de ensino. Taehyung gostaria de ter tido alguém para consolá-lo, dizer-lhe que tudo ficaria bem e assegurar-lhe que não havia monstros escondidos nos corredores escuros do dormitório. Por isso, ele utilizou o seu cargo para tornar-se ele mesmo o alguém de outros ômegas com saudades de casa.


Envolvido com seus estudos e sonhos, Taehyung quase deixou-se esquecer da razão pela qual estava ali. A sua graduação não passava de uma artimanha executada por seu pai em parceria com o diretor da academia para que ganhassem tempo. Uma confabulação engendrada para esconder o cio tardio do ômega.


Uma vez que Taehyung teve o seu primeiro cio aos dezenove anos — mais tarde do que a maioria dos ômegas que costumam apresentar-se como ômegas férteis e maduros entre os quatorze e dezesseis anos de idade —, as cartas pressionando-o a abandonar os seus estudos tornaram-se uma frequente. Com muito custo, Taehyung conseguiu convencer o pai a deixá-lo dar seguimento aos seus estudos, utilizando o argumento de que sua desistência do curso geraria perguntas difíceis de serem respondidas num futuro próximo.


Agora, depois de quinze anos recluso em uma instituição de ensino de cunho religioso, Taehyung retornou à convivência em sociedade. Pela primeira vez tendo de lidar com a responsabilidade de trazer prestígio ao nome de sua família por meio de um casamento com um alfa da nobreza.


A família Kim era um pilar para o prematuro comércio marítimo de Busan. Seu pai, Kim Taeyang, exportava toda a sorte de especiarias, tecidos e pedras preciosas para o reino através de grandes embarcações. O ouro advindo de seus negócios lhes permitiu obter extensos lotes de terras e um castelo afastado do seio da cidade portuária. Eram uma família rica, mas desprivilegiada em comparação à nobreza. Taehyung constituindo-se o modo mais prático para a obtenção de um título nobiliárquico.


Apesar de todo o contexto que motivava os seus progenitores a desejarem casá-lo o mais breve possível, Taehyung acreditava no discernimento de seus pais para elegerem aquele que seria o seu marido. Ele confiava na sabedoria e vivência de seus progenitores em detrimento de suas utopias românticas. Porém, assim como a maioria das pessoas, Taehyung também desejava apaixonar-se e viver uma bela história de amor. Mas contentar-se-ia com um relacionamento seguro, estável e duradouro.


Como haviam combinado, na manhã seguinte Taehyung, Hana e Jieun dirigiram-se para a cidade a fim de fazer compras para o baile. O ômega não pôde deixar de surpreender-se com as grandes mudanças que haviam ocorrido na estrutura e arquitetura de Busan durante os anos que passou recluso no internato.


O ducado outrora modesto e pitoresco, maltratado pela guerra, agora possuía uma grande área mercantil e um porto que atraía embarcações e marinheiros. Havia, também, mansões e casarões por toda parte, indicando a prosperidade do povo. Além disso, a área central abrigava um imponente gazebo, talhado com vitrais bonitos e decorado com ornamentações, ao que uma praça decorada com uma majestosa fonte situava-se logo a sua frente.


Taehyung deslumbrou-se observando as vias pavimentadas por pedras e bem movimentadas através da janela de sua carruagem, ansioso por descer do veículo para aventurar-se por essa nova Busan.


— Uau! Isso é mesmo Busan? — Taehyung questionou boquiaberto. — Lembra a capital.


— Houve muitas mudanças, não é? — a mulher disse, sorrindo diminuto devido ao deslumbramento do ômega.


— Aquele é o palácio do duque? — Taehyung questionou, apontando para a majestosa construção parcialmente escondida atrás das montanhas.


— Sim.


— A última vez que o vi não passavam de ruínas marcadas pela guerra — observou, impressionado com tantas mudanças.


— Muitas coisas melhoraram desde que Jeongguk foi feito duque e assumiu o comando de Busan, oficialmente — revelou, ganhando a atenção de Taehyung. — A primeira providência que o duque tomou foi reestruturar o mercado e reerguer o palácio dos Jeon. Ele tem nos mantido longe da guerra e dos conflitos nas fronteiras fornecendo milícias mercenárias ao rei desde então. O povo o apoia e confia em si por ter trago prosperidade e paz para a província.


— Ele parece alguém impressionante — Taehyung admitiu.


— Com sorte nós poderemos cumprimentá-lo no baile — forneceu, sorrindo para os olhos brilhantes do ômega.


Não demorou muito para que a carruagem parasse em frente a um ateliê de alta costura. Taehyung precisou acordar a pequena Jieun que cochilava em seu colo, vendo-a pular alegre com a menção de seu novo vestido.


Era a primeira vez que Taehyung via-se em uma loja repleta de tantos tecidos e estampas bonitas, tornando difícil para si escolher apenas um, principalmente quando o alfaiate utilizava de toda a sua lábia para fazê-los gastar mais. Ao que o ômega acabou escolhendo não um, mas cinco ternos novos. Taehyung e sua família despenderam um longo tempo na loja, pois nada parecia agradar Jieun o suficiente. A pequena agia de modo exigente e mimado ao escolher seu novo vestido.


Taehyung ficou contente de poder caminhar em meio à multidão e explorar a cidade desconhecida ao deixarem o ateliê, fazendo questão de ignorar os chamados de sua mãe conforme avançava com curiosidade entre o mar de pessoas, olhos deslumbrados com a quantidade de lojas e vendedores ambulantes nas calçadas. O soldado que fazia a sua guarda tendo trabalho em acompanhar o jovem ômega.


Hana, sua mãe, estava adentrando uma chapelaria quando uma tenda em especial chamou a atenção de Taehyung. Havia uma pequeno grupo de cinco pessoas parados em frente a entrada estreita, comentando sobre o vidente que estava de passagem pela província. Taehyung sempre foi muito curioso, sendo seduzido facilmente pelo mítico e desconhecido. Não era de se espantar que logo o ômega estivesse ignorando os chamados de sua mãe e driblando o soldado em seu encalço para ir até a tenda.


Taehyung inclinou-se, afastando a cortina azul da porta para adentrar a tenda, a qual era ornamentada com tecidos multicolores e arranjos talhados com dentes de animais selvagens. Extasiado pelo ambiente a sua volta, Taehyung sequer percebeu o punhado de potes espalhados pelo chão, tropeçando em um deles e derramando o conteúdo com um baque audível. Envergonhado, o ômega olhou de um lado para o outro, firmando suas irises no beta idoso sentado atrás de uma mesa logo no centro da tenda.


— Mil desculpas, senhor — pediu envergonhado, ajoelhando-se para reunir as folhas e ervas jogadas ao chão. — Eu não percebi os vasos na entrada e… — começou a justificar-se, calando-se ao notar os olhos brancos alheios.


O velho beta movia sua cabeça de um lado para o outro. Por alguma razão, atuando de modo exasperado. Mãos trêmulas erguendo-se para gesticular para Taehyung.


— Esqueça isto — mandou, apressado. — Venha até aqui e me dê suas mãos, menino — ditou, mãos procurando pelas suas no ar.


— Está bem, eu só… — falou, tentando levantar o vaso, acabando por atrapalhar-se devido a pressa e derrubá-lo novamente.


— Logo, menino — o apressou, ao que Taehyung obedientemente precipitou-se até si, sentando-se no futon a frente do beta e envolvendo suas mãos envelhecidas.


O velho pegou Taehyung desprevenido ao agarrar suas mãos com uma força sobre-humana. Puxando-lhe em sua direção e forçando-lhe a apoiar-se na mesa de madeira. Em reação, o Kim tentou puxar suas mãos de volta e soltar-se, todavia, o aperto em suas palmas era contundente. Olhos vítreos arregalados miravam as suas írises castanhas conforme provava o gosto amargo do medo.


O fio vermelho unirá sol e lua ao entardecer. A paixão florescerá, mas a lua frutos não proverá. O ninho vazio preenchido será. O menino-lobo terás que aprender a amar ou a ruína para ti atrairá.


Declamou em tom grave e rouco, pressionando o seu aperto em torno das mãos do Kim a cada palavra. O coração de Taehyung galopava furiosamente em seu peito, mãos suando frio à medida que buscava sua libertação. Tão rápido quanto o aperto em suas mãos surgiu, este desapareceu.


— Louco! — gritou com o velho. — Você é louco! — esbravejou, segurando suas mãos protetoramente próximo ao seu peito, ao que levantava-se do futon. — Eu não quero ouvir mais uma palavra vinda de você.


E assim Taehyung saiu pela porta da tenda, assustado com o olhar nas írises vítreas e a atitude agressiva do beta. As palavras enigmáticas profetizadas pelo velho ecoavam em sua mente na proporção que atravessava o aglomerado de pessoas em busca da chapelaria na qual deixou sua mãe e irmã.


O restante do passeio pela cidade prosseguiu com a mãe de Taehyung insistindo para que visitassem uma joalheria e, em seguida, fossem até um sapateiro. A mente de Taehyung mantinha-se distante, refletindo sobre a previsão que recebera ao passo que respondia às perguntas da matriarca de modo vago.

1 февраля 2020 г. 1:26:16 12 Отчет Добавить Подписаться
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Mik Baka Mik Baka
Estou tão triste pelo Taehyung :(( Eu já esperava que ele fosse infértil mas mesmo assim fiquei bem chateada, sinto que essa história vai me fazer sofrer muito daqui pra frente. Não tenho ideia de como o JK vai reagir, mas acho que ele não vai desistir de ter um herdeiro de sangue, mesmo que isso signifique engravidar outro ômega
Jessyh Santo's Jessyh Santo's
Achei onde comenta kkkkk tô adorando cara.. sou nova Nesse App..que escrita perfeita 💜
lari lari
cheguei pra amar essa fic aqui!!
tae 💜 tae 💜
Eu to relendo a estoria e mds espero estar errado sobre o que o velhinho falou pro tae sobre a lua não pode dar frutos, acabei de ler o cap.18 e eles estavam falando sobre ter filhotes, nossa ja to toda triste
hyeri Auzier hyeri Auzier
Na parte do beta ele falando que a lua não tera frutos eu acho que tava falando do tae ele é infértil não poderá ser filhotes ,poxa seria tão triste

  • Ari Lima Ari Lima
    Seria bem triste mesmo né March 28, 2020, 21:04
Aryelle Brito Aryelle Brito
Tô me adaptando, n sabia onde comentar mdss kkkkkkk, olha eu aq, vou acompanhar como prometi!!!❤️

  • Ari Lima Ari Lima
    iti, obrigada por vir acompanhar OPDA aqui bb <3 February 26, 2020, 01:12
Angel Machado Angel Machado
A melhor fic

  • Ari Lima Ari Lima
    Fico muito contente q vc goste tanto assim de OPDA <33 Muito obrigada por dar amor a essa fic e deixar o seu comentário <3 February 05, 2020, 01:57
Marcella Petraquini Marcella Petraquini
Amo💙💜

  • Ari Lima Ari Lima
    Obrigada por dar amor a OPDA <33 February 05, 2020, 01:56
~

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