ruan_gabriel Ruan Gabriel

Um adolescente burguês branco mimado e muito, muito safado visita "as colônia" com seu pai caipira, sua mãe cafona e seu irmão perfeitinho 14 minutos mais novo.


Короткий рассказ 13+. © Próprios

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Короткий рассказ
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LADO A

Meu pai acordou certa manhã com a ideia de merda de ir visitar seus parentes que não via há muito tempo num local que ele chama de “nas colônia”. Afinal, por que não passar um fim de semana na roça com a família? Só para começar: acordar às 5 da manhã para embarcar numa viagem de carro de 6 horas com seu pai caipira, sua mãe cafona e seu irmão perfeitinho 14 minutos mais novo que você seria um puta inferno.

A estrada era retilínea e interminável. A paisagem ao redor da rodovia era limitada à imensidão de campos que se estendiam sobre as colinas, mescladas entre plantações de arroz e de fumo. Minha mãe fazia questão de reclamar do cheiro de tabaco a cada 20 minutos.

– Theo, tu gostarias de experimentar os palitinhos veganos que fiz?

– Não, Felipo. Sinto-me gratificado com a bondade em sua oferta, mas eu gostarias que tu enfiasse no cu essa merda.

– Theodoro Castro Dalagnol! – berrou meu pai ao volante. – Mais respeito com o seu irmão!

– Querido, eles são apenas meninos – disse minha mãe do banco do carona, retocando o batom vermelho dos lábios. – Eles são assim mesmo.

– Não se intrometa, Catherine! Você mimou demais esse menino.

A verdade era que meu pai estava certo, e eu adorava minha vida de burguês mimado branco e muito, muito safado. Meu pai crescera em uma família pobre, porém, diferente dos seus irmãos pobretões, ele conseguira se formar em Direito – de alguma forma – e assumir um local de destaque no Ministério Público. Pouco me importava com o trabalho dele, o importante era seu dinheiro que já me levou à Disney. Mas meu pai era um cara bacana, bonito. Minha mãe não se encantaria apenas com a conta bancária – talvez com o tamanho da rola, levando em consideração o tamanho da minha. Ela era uma mulher feliz e satisfeita. Uma puta gostosa segundo meus amigos escrotos da escola, mas uma mãe incrível – pelo menos para mim.

As horas foram longas, mas por sorte eu tinha meus carregadores portáteis e meu iPhone. Chegamos à cidadezinha que pouco me importava o nome após o meio-dia. Ela era basicamente como nas fotos da infância do meu pai: casebres por todas as ruas – às vezes surgia alguma construção diferenciada como indício de “aqui moram os ricos desse fim de mundo”; pessoas feias por todos os lados e alguns estabelecimentos comerciais em outros. Porém, minha maior surpresa foi descobrir que iríamos para a zona rural. O que diabos significava isso? Pensei que já houvesse chegado “nas colônia”.

Pegamos uma estrada estreita de terra durante uns 20 minutos, nos quais meu pai não parava de repetir o quanto tudo parecia não ter mudado nada. “Mas que surpresa”, pensei. O carro não parava de chacoalhar. Felipo parecia animado junto a meu pai. Minha mãe estava num mal humor como eu.

– E... chegamos! – anunciou meu pai.

Ele desceu do carro para abrir uma velha porteira de madeira – eu tinha certeza que estava tomado por cupins. Quando retornou, fomos colina abaixo em direção a uma construção de diversos cômodos improvisados – algumas peças feitas de madeira e outras de tijolo à vista. Ao redor do estreito caminho, reparei através do vidro alguns varais com roupas surradas estendidas e pequenas hortas com legumes e verduras. Pude ouvir o grito de um desconhecido ao longe, e pessoas começaram a surgir de vários lugares.

Contei até 10 e desci do carro. Estava me sentindo um ET frente àqueles desconhecidos. Uma garota que aparentava ter minha idade ficou me encarando. Ela usava botas sujas de lama e uma blusa verde limão de alças. O cabelo estava dividido em duas tranças. De dentro da casa, uma mulher idosa era trazida por um garoto pouco mais jovem que eu. Meu pai muitíssimo se emocionou ao vê-la, mas não tanto quando a senhora que, com lágrimas nos olhos, tentou correr aos braços dele à maneira que sua idade lhe permitia.

– Tão bom te ver, meu filho! – A senhora segurava-se para não ficar aos prantos. – Eu sabia, eu sabia! Eu disse pro Damião que tu vinha!

Eu nunca vira meu pai daquela maneira. Não que ele fosse um homem rígido – talvez fosse comigo –, mas não acreditei nas lágrima escorrendo pelo seu rosto. Logo, minha atenção retirou-se de meu pai com a velha senhora vindo em minha direção. Ela abraçou primeiramente Felipo, que estava um pouco mais à minha frente.

– Dona Catarina, mas os dois são igualzinho, né – disse Fabrícia, a esposa de meu tio. Eu a reconheci de uma solicitação que recebi no Facebook há muito tempo. Eu jamais a aceitei.

Felipo e eu éramos gêmeos. Os mesmos cabelos dourados, a pele branca, os olhos claros. Houve um tempo no qual parecíamos indiferenciáveis. Nossa mãe nos vestia com roupas iguais, exceto pela cor: se eu usava azul, Felipo usava vermelho – mas eu já sabia que ele era mais chegado no rosa. Nossos sapatos eram sempre iguais, infelizmente. Mas, com sorte, um dia crescemos, e pude finalmente me vestir diferentemente do meu mano, que usava camisa com suéter 6/7 dias da semana.

– São, minha filha. E são uns homão. Meus netos são tão bonito – disse Catarina. – Loirinhos como o falecido Jorge.

Sei que é estranho, eu já sabia da existência dessa mulher com vestido surrado e cabelos grisalhos desgrenhados, mas de repente me dei conta de que eu realmente tinha outra avó.


Começamos a retirar as coisas do carro e a organizar nos quartos da casa que foram destinados a nós. Minha cara só não era pior que a de minha mãe. Ela e meu pai dormiriam no quarto de hospedes, que não passava de outro cômodo fétido qualquer daquela velha casa. Já meu irmão e eu teríamos que dividir o quarto com nossos recém conhecidos primos: Ana e Caio.

Nos reunimos à mesa da varanda para almoçar.

– Vocês vão ama o carretero – disse Fabrícia. – O Damião matou o boi semana retrasada.

– Tu queres dizer que ele próprio matou, matou? – perguntou meu irmão. O idiota não suportava a ideia de meu pai assar uma picanha, imagina se ele soubesse que vai passar alguns dias no lugar onde a sua inimiga indústria da carne malvada mata os animais para que eu possa comer em fast-foods por aí. – Eu odiaria recusar sua refeição, mas vocês não teriam nenhum prato vegano?

– Ah, tu é daqueles que não come peixe, né – disse Fabrícia. – Mas isso é de gado. Pode comer.

Felipo não conseguiu disfarçar a cara de repulsa à comida.

– Desculpem-me, eu...

Ele fora interrompido pelas altas gargalhadas de Fabrícia, meu pai e todos os outros presentes. Felipo ficou perplexo. Nem mesmo eu entendi o que estava acontecendo. Aos poucos, todos foram se recuperando.

– Tu tinha que vê tua cara, guri – disse Fabrícia. – A gente é humilde, ignorante, mas sabemo desse negócio aí. O Castro aqui disse pra gente te preparar algo especial. Vem comigo.

Felipo acompanhou Fabrícia até a cozinha.

Otário.


As horas pareciam não passar naquele lugar. Tentei dormir por um bom tempo, mas não foi possível, pois o galinheiro era muito próximo do meu quarto. Depois, caminhei pela propriedade à procura de sinal no iPhone, mas falhei. Felipo ficou me acompanhando aonde quer que eu fosse. Apesar de que eu estivesse entediado, ele estava mais perdido ali do que eu.

Ao virar em um beco ao redor da casa, Felipo e eu esbarramos em Ana.

– Mano, ‘cês têm WI-FI aqui? – perguntei.

– A gente tem, sim.

– Me passa a senha aí.

– Mas a gente ‘tá sem porque a não pagamo a conta.

– Não fode! – exclamei.

E num passo de mágica, lá estava o Castro – que eu conhecia como pai – me desaprovando com o olhar.

– Ana, por que tu e o Caio não levam os primos de vocês pra dar uma volta no mato?

– Só permitam-me passar meu repelente e... – disse Felipo. Todos o encaramos. Meu pai sorriu para meu irmão e apertou seu ombro. – Não será necessário.

– A gente ‘tá indo alimentar os porcos – respondeu ela.

– Tem certeza que vai sobreviver, maninho?

– Não foi tu que surtaste mais cedo porque nosso pai não te comprou água Voss?

Levantei minha mãos para o alto como um ato de rendição. Tive que admitir: ele mandou bem nessa.


Caio ia à nossa frente com Ana. Ele segurava um longo galho de madeira, com o qual cutucava o chão. Ana carregava um balde enorme com espigas de milho para os porcos do celeiro. Para todos os lados, bois e vacas pastavam. Também havia cavalos e ovelhas sem lã pela extensão da colina à nossa direita. À esquerda, um bode dormia numa pequena casa de madeira. Cachorros nos acompanhavam ao longo do caminho. Ao deduzir pelas moscas que os rodeavam, nunca foram a um pet shop na vida.

O clima estava bastante quente e úmido, afinal era verão. Nuvens brancas e cinzas gigantescas deslizavam vagarosamente pelo céu. Felipo parecia muito animado, apesar de volta e meia se estapear por causa dos insetos. Às vezes, ele parava para tirar algumas fotos dos animais, plantas e tudo que poderia movimentar ainda mais seu Instagram. Meu irmão era famosinho nas redes. Certeza que era pelo fato de ser meu irmão – difícil alguém ser mais relevante do que eu. Admito que Felipo e eu teríamos boas histórias para contar aos babacas do colégio: os donos da cobertura tiram férias “nas colônia”.

– Cara, ainda sem sinal no meu iPhone.

– Theo, por que tu não guardas teu celular e repara no que está ao teu redor por um segundo? – perguntou Felipo.

– E por que você não cuida da sua vida? – Ele revirou os olhos. – A Clarisse disse que me mataria se eu não respondesse ela quando chegasse.

– Tu estás na merda.

– Sim, cara.

– Não, Theo, tu estás literalmente na merda!

– O quê?! – exclamei, olhando para os meus pés. – Mas que... bosta!

Ana e Caio viraram-se imediatamente para mim ao passo que ouvi o disparo do flash da câmera de Felipo. Todos nos encaramos por alguns segundos até cairmos na gargalhada. Por sorte, próximo ao celeiro tínhamos um pequeno córrego que cercava toda a propriedade. O vento começara a ficar mais forte enquanto eu limpava a merda de vaca do meu Balenciaga.


O celeiro não era exatamente a imagem que eu tinha na minha cabeça do que seria um celeiro. Nos filmes, é uma construção quadrada, pintada de vermelho, com telhado triangular branco. Foi ingênuo da minha parte esperar tanto glamour em um lugar como aquele. Ao contrário, era como uma casa elevada do chão por grandes toras de madeira, ficando a região abaixo dela aberta. No teto, folhas de fumo estavam penduradas. Ana informou Felipo que elas estavam secando, seja lá o que isso significasse. Dispersei-me momentaneamente dos outros, reparando nos diversos utensílios e máquinas rurais que eu não saberia nomear.

Ana, Caio e Felipo já alimentavam os porcos com as espigas de milho quando os reencontrei. Os animais fediam, rolando na lama. Por um breve momento pude sentir empatia por Felipo.

– Como vocês conseguem viver num lugar assim? – perguntei.

Ana fitou-me. Talvez não tenha sido a melhor coisa a se dizer.

– Como tu consegue ser assim?

Não entendi o questionamento dela.

– Assim como?

– Esquece.

– Mano, eu queria só entender. Não sei o que tu quer dizer com esse teu “assim”. – Dei ênfase fazendo aspas.

– Para alguém no topo, sua visão é bastante limitada – disse ela.

Neste momento, um ruído estrondoso ecoou no céu.

– Parece que vai chover – disse Felipo.

– Banho de chuva! – exclamou Caio. Percebi que foi a primeira vez que ouvi ele falar.

– Como assim banho de chuva? – questionei.

– Não deveríamos voltar logo para casa? – Felipo tomou a palavra.

– Por acaso vocês têm medo de chuva? – brincou Ana.

Felipo e eu nos entreolhamos e voltamos a encará-la.

– Espera, não me digam que... – Ana interrompeu-se. – Vocês nunca tomaram banho de chuva?

Meu irmão e eu nos entreolhamos novamente. Outro trovão percorreu o céu, iluminando-o, e fez a terra estremecer. O vento fazia a poeira das colinas subir e a grama balançar descontroladamente. Sem aviso, grossos pingos d’água começaram a cair pelo céu já inteiramente cinza, fazendo barulho ao bater contra o teto do celeiro. Não demorou para pequenas poças d’água se formassem pelo chão.

– Vocês dois são um puta clichê! – exclamou Ana. Fiz uma careta ao ouvi-la dizer aquela palavra. – O que tamo esperando? Vamos!

Ana atirou o resto das espigas aos porcos e arremessou o balde para o lado, que estalou um som metálico ao bater contra o chão. A garota saiu correndo diretamente para a tormenta, pulando para o meio de uma das poças, sujando-se com a lama liquefeita.

– Vocês ricos parece não saber se divertir com as coisa simples da vida – disse Caio.

Ana o chamou, e ele não pensou duas vezes antes de correr para junto da irmã.

Felipo e eu permanecemos sob a celeiro. Entretanto, não tardou para meu irmão largar sua câmera sobre uma bancada de ferramentas. Mais rápido do que imaginei, Felipo foi-se para a chuva com os outros. Ele parecia feliz.

Caminhei até a beirada da construção, observando todos ser divertindo. Ana estava certa, eu nunca tomei sequer um banho de chuva na vida. Viajei a países diferentes, mas nenhum banho de chuva. Na verdade, nunca tinha feito nada disso na minha vida. “Theodoro Castro Dalagnol, você é um escroto”, disse para mim, rindo de mim mesmo. Pus a mão para fora do celeiro e senti a chuva caindo do céu diretamente contra mim. Todos aguardavam o meu momento, pareciam ansiosos por aquilo. Então me lancei para fora, sentindo meu corpo ser tomado pela tempestade de verão. Caio também estava certo. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava pouco me fodendo para o meu iPhone.

19 декабря 2019 г. 0:45:59 0 Отчет Добавить 1
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