Короткий рассказ
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único

O bibliotecário estava se preparando para fechar o lugar quando ouviu a porta ser aberta. Levantou o olhar e viu um jovem loiro com os cabelos perfeitamente alinhados, trajava um blazer preto com alguns pequenos detalhes em prata, por baixo de um suéter verde escuro de gola longa e calça jeans, também preta, que seguia colada às pernas esguias, e por fim, um sapato preto simples de bico quadrado.

Harry caminhou calmamente até onde o recém-chegado estava, ele olhava ao redor, provavelmente procurando por Harry. O bibliotecário se vestia de forma simples, calça de brim escura e um sapato de tecido confortável em tons laranja, usava um suéter de tricô vermelho, óculos redondos estavam sob seus olhos, completando a vestimenta.

— Boa noite, posso ajudá-lo? — Harry falou indo para trás do balcão da recepção.

— Boa noite, pode sim. — O homem parecia um pouco desconcertado. — Sei que a biblioteca está para fechar, mas preciso que me ajude com algo, só para que eu não perca a viagem. — O loiro sorriu. Tinha um belo sorriso.

— Se eu puder ajudar... — Harry respondeu, em seu rosto a expressão séria que usava sempre com as pessoas, principalmente as desconhecidas.

— Preciso fazer o cadastro da biblioteca. Acredito que não leve muito tempo…

— Não, o cadastro em si é rápido, porém, seu cartão de usuário só saíra daqui 4 ou 5 dias úteis. Contando que o cadastro seja efetuado ainda hoje.

— Toda essa eternidade? — Ele pareceu um tanto decepcionado.

— Pode sair antes. Caso isso aconteça, irei entrar em contato. — Harry ligou a tela do monitor. — Está com um documento válido com foto?

Ele assentiu positivamente e enfiou a mão por dentro do blazer e de lá tirou seu passaporte e entregou a Harry. O bibliotecário pegou o documento e colocou por baixo do balcão, então, abriu o programa de cadastro de novos usuários, deu mais alguns cliques e então começou a digitar as informações contidas no passaporte do homem, pouco mais de dois minutos depois, entregou-o de volta.

— Está quase tudo pronto, sr. Malfoy, preciso apenas de um telefone e um endereço de e-mail para contato.

— Me chame de Draco. — O outro falou, porém, o bibliotecário fingiu não prestar atenção.

Em seguida Draco falou os dois e Harry digitou ambos no computador e então concluiu o cadastro.

— Tudo pronto, sr. Malfoy, agora é só aguardar. — Harry falou com um sorriso que sempre dava para as pessoas.

— Muitíssimo obrigado... — ele parou um instante para ler a plaquinha em cima do balcão. — Harry Potter.

— Por nada. É um prazer ajudá-lo.

Draco acenou e então saiu da biblioteca. Harry olhou para o relógio acima da porta por onde o sr. Malfoy havia saído e viu que já haviam se passado alguns minutos da hora de fechar a biblioteca. Tratou logo de trancar a porta, fechando-a por dentro, afinal, ele sempre entrava e saia pela portinha dos fundos, onde estava a sua bicicleta.

Terminou de arrumar os livros que havia deixado de lado para ir tratar com o sr. Malfoy, e só então apagou as luzes e saiu, pedalando pelas ruas afora. O caminho para casa fora tranquilo, como sempre, embora aquela noite estivesse um pouco mais fria do que o normal. Entretanto, era de se esperar, com o inverno tão próximo.

Não demorou muito e chegou em casa, acendeu as luzes e viu que estava tudo exatamente como havia deixado. Tomou um banho rápido, pegou a túnica marrom de sempre, colocou em uma mochila e então saiu novamente, dessa vez, foi a pé. Caminhou até o ponto de ônibus e pegou o primeiro que saia para o centro da cidade. Lá, pegou um trem até a zona norte e fez o restante do caminho a pé.

Como sempre, foi o primeiro a chegar. Entrou no vestiário, tirou a roupa que vestia, um suéter marrom e uma calça jeans simples, e vestiu a túnica que usavam sempre durante os encontros, sem nada por baixo, como era o costume. Tirou também os sapatos e as meias, guardando tudo em sua mochila e a colocando em seu armário. Puxou o capuz da túnica e cobriu toda a sua cabeça. Seu rosto deixou de estar visível, mas ele ainda conseguia ver tudo o que estava a sua frente, embora sua visão periférica ficasse afetada, então caminhou até a porta do salão principal e ali ficou, em pé, esperando até que todos os outros do mesmo nível que ele chegasse e a porta pudesse ser finalmente aberta.

Lá dentro, os membros de níveis mais altos já estavam posicionados em seus devidos lugares, entravam por portas diferentes. Cada um entrou no salão, que era arredondo com várias portas, de onde saiam os vários membros dos diferentes níveis, e com apenas um feixe de luz vindo do centro do teto do lugar. Embaixo da luz, estava o Grão-mestre, assim como todos os outros, seu corpo estava completamente coberto, entretanto, a túnica que usava era roxa e estava presa por um simples laço dourado na altura do estômago, e, diferente de todos os outros, não cobria o rosto.

Harry era um dos membros de baixo escalão, por isso, ficava na terceira linha do círculo, quase que completamente ocultado sob a escuridão. Todos aqueles que estavam formando o último círculo, o maior de todos, à direita e à esquerda de Harry também usavam a túnica marrom. No círculo do meio, os membros usavam vermelho, e no primeiro, amarelo, o menor círculo, contendo apenas oito pessoas. Durante as celebrações, o único que podia usar roxo era o Grão-mestre. A cor era um lembrete de todo o seu poder sob o grupo.

A cerimônia começou, Harry entoava os cânticos antigos junto com todos os outros membros, enquanto o Grão-mestre recitava orações. Depois dos vários rituais sagrados serem feitos, o Grão-mestre pediu silêncio e então deu início ao rito final.

Todos os presentes removeram o capuz, deixando seus rostos à mostra, e ergueram suas mãos para cima, o homem no centro dos círculos tirou a túnica que usava, deixando o seu corpo a mostra, cada vez que aquilo acontecia, Harry não conseguia deixar de pensar o quão bonito o homem era para a idade, e reprimia o pensamento segundos depois. Não podia ter tais pensamentos. Não agora. Pensamentos levam a ações, e ainda era muito cedo para aquilo. Estaria pronto quando a deusa permitisse que estivesse. E ele esperaria pacientemente até lá.

O Grão-mestre então, começou a entoar os cânticos finais, e logo foi seguido pelos outros membros. Enquanto cantava, apertou o botão sob seus pés e toda a luz se extinguiu, ficando todos no escuro, entretanto, não pararam de entoar os cânticos, o som do líquido sendo derramado então surgiu e o mestre começou a brilhar no escuro, com o seu corpo completamente molhado da substância. Então, uma luz baixa se acendeu e um a um, seguindo a ordem dos círculos os membros foram até o mestre e beijaram o seu corpo, especificamente o rosto, braços, pernas e o tronco, engolindo um pouco da substância.

Harry, como sempre, foi um dos últimos a beijar o Mestre, e, como sempre, foi-lhe pedido para que ficasse no altar, junto com os membros de túnica marrom. Tendo todos beijado o mestre, ele deu início ao discurso final, antes de encerrar, por fim, a cerimônia daquela noite.

— Vocês, nossos jovens, são o futuro desta irmandade. — O homem começou. — Serão vocês que darão continuidade ao nosso trabalho. Vocês, que vem se mantendo puros, resguardando-se, esperando o momento de sua consumação, para enfim, se tornarem membros plenos. Vocês, e só vocês irão garantir a nossa existência através das décadas. Vocês e os filhos de vocês e os filhos destes. A deusa se orgulha. Ela sorri diante de toda a sua dedicação. De todo o seu esforço. Mas, também é preciso avisar, a deusa mandará tentações. Obstáculos em seus caminhos, testando-os, pois, só assim, provarão que são dignos do manto que carregam.

O homem entoou um último cântico, fez a oração final, as luzes então voltaram a se acender, um jovem de manto marrom caminhou até onde o mestre estava e o ajudou a vestir sua túnica novamente, enquanto os membros iam saindo do salão.

Cada nível do círculo possuía um vestiário separado, Harry seguiu para o seu e trocou-se. Olhou o relógio em seu pulso e viu que já havia passado da meia-noite. Felizmente, e como sempre, era madrugada de sábado e não iria precisar trabalhar pela manhã, a biblioteca não abria nos finais de semana, um pequeno corte que o governo havia feito. Harry só espera que ele não fizesse parte do próximo corte.

Saiu do prédio e foi até a estação de trem, àquela hora cheia de universitários bêbados ou sonolentos e mendigos dormindo pelos bancos. Quando voltou ao centro da cidade, precisou pegar dois ônibus para conseguir voltar para casa, e ainda assim, tinha de fazer uma boa parte do percurso a pé. A linha que circulava em seu bairro só iria voltar a rodar às 05:00h da manhã e Harry não tinha intenção alguma de esperar até lá. Quando finalmente veio chegar em casa, já passava das duas da manhã. Por sorte, o quarteirão em que morava era bastante tranquilo, e ele sabia que não teria problemas no caminho de volta. Além disso, a deusa o protegia. Ao chegar em casa, ele sequer sentia fome, estava cansado, embora se sentisse purificado. Mal se deitou na cama e pegou no sono, só indo acordar bem tarde na manhã seguinte.

Longe dali, no centro movimentado de Londres, Draco estava já de pé desde cedo e voltava para casa depois de sua corrida matinal no parque próximo de onde morava, um apartamento pequeno e simples, extremamente compacto e perfeito para alguém como Draco. Assim que entrou em casa, foi tirando a roupa e jogando-a na máquina de lavar pequena que ficava na minúscula área de serviço. Dali, foi nu até a cozinha e colocou uma chaleira no fogo, enquanto ia tomar um banho rápido. O dia seria longo.

Mesmo que seu cartão de usuário da biblioteca pública ainda não tivesse saído, Draco queria ir lá dar uma olhada no que o acervo continha e no que seria útil em sua pesquisa. Iria olhar os livros só “por cima” para ter uma ideia do que poderia usar imediatamente. Queria que tudo saísse perfeito, assim como o livro anterior, e não poderia se prender apenas a internet para aquele tipo de pesquisa. Sem contar que Draco gostava de estar em contato com livros de verdade, e não os formatos digitais. Gostava de tocar a capa, tentar memorizar cada detalhe de seu design, assim como amava o cheiro dos livros, mesmo quando estavam fechados há muito tempo. Gostava da sensação de passar as páginas e de sentir sua textura. Aqueles eram os pequenos prazeres secretos de Draco.

Escrever o livro anterior, um romance policial com um grande mistério envolvendo uma sociedade secreta antiga havia sido fácil estando na França. O país parecia ser o berço de todas as sociedades antigas mais famosas, e de outras não tão famosas assim, mas, mesmo assim, possuía um grande acervo sobre tais assunto, sem contar uma grande quantidade de historiadores e pesquisadores da área. Todas as informações que precisava praticamente estavam ali, diante dos seus olhos.

Draco havia ido morar em Paris para estudar Literatura e Artes, mas, acabou decidindo ficar por lá. Foi durante o curso que o jovem Malfoy passou a conhecer as diversas sociedades secretas que coexistiam ou haviam existido de uma forma quase majoritariamente na França. Seu fascínio foi levado além, quando decidiu escrever romances sobre o assunto.

Enquanto fazia as pesquisas necessárias para o seu livro anterior, Draco se deparou com uma informação extraordinária que fez seus olhos se voltarem para a sua terra natal: a história de uma sociedade secreta, tão escondida diante dos olhos de todos, que sequer seu nome havia sido revelado. As informações eram escassas, e de tudo o que buscou na França, a maior informação que conseguiu obter foi de que havia na Biblioteca de Londres um acervo consideravelmente grande sobre tal sociedade, isso se comparasse com o que havia encontrado na França. E assim, Draco empacotou suas coisas e decidiu voltar para a Inglaterra, depois de tantos anos longe.

Como imaginava ter que visitar a biblioteca uma centena de vezes, havia alugado um apartamento o mais perto possível de lá que havia encontrado, e que ele pudesse pagar, obviamente. Mesmo com as ótimas vendas do livro anterior, Draco sabia que poderia demorar um pouco até aquele estar pronto, se ele quisesse repetir o sucesso do anterior. Sendo assim, não podia se dar ao luxo esbanjar dinheiro por aí. Ainda não era rico e famoso o suficiente para tanto, e, sendo em sincero consigo mesmo, ele achava que nunca o seria.

Mesmo tendo vindo de uma família um tanto abastada, seus anos na França, dedicando-se de forma integral ao estudo das sociedades secretas, o havia levado a gastar praticamente toda a fortuna da família. Tinha trazido desgraça para sua família, havia desonrado seu nome, seria o que seu pai teria dito, se ainda estivesse vivo para dizer qualquer coisa que fosse. O velho Lucius Malfoy sempre fora um homem rude e conservador. Um bom seguidor dos às-vezes-não-tão-bons e velhos costumes. Mesmo com a ruína que havia caído sobre sua família nas últimas décadas, ele se manteve firme, vestido com o manto do orgulho, aquilo que carregou até sua morte precoce. Draco não sentia tanta falta do pai. Ele nunca havia sido um pai amoroso nem nada do tipo. Sempre dizia que a família era o mais importante de tudo, mas não parecia sequer se importar de fato com ela. Apenas uma máscara.

Quando era jovem, seu pai nunca o tratou como amor ou carinho, sempre foi um homem distante, frio. Só pensava nos negócios e no que ele achava ser bom para a família, embora que, nem tudo o que Lucius via como bom para a família era tão bom assim. Ele estava sempre tentando se enfiar em festas da realeza, e mais contato com a Rainha. Queria se fazer notar de qualquer jeito. Ganhar prestígio a qualquer custo. Contudo, o nome Malfoy já não tinha mais importância entre a elite real. Seus títulos de nobreza já não valiam mais nada.

Entretanto, ele sentia falta da mãe. Narcisa ainda era jovem e bela quando o marido morreu. Não perdeu muito tempo enlutada. Logo tratou de arranjar um novo marido, um mais jovem, mais belo, mais rico, e que não era, nem de longe, tão rigoroso e entediante quanto Lucius. Agora, morava na Grécia com seu novo esposo, e parecia ser feliz, até onde Draco sabia.

Draco saiu do pequeno prédio onde agora morava e caminhou até a biblioteca. Acreditou que, assim como acontecia em Paris, as bibliotecas mantinham-se abertas durante toda a semana, grande engano. Deu com a cara na porta. Olhou o relógio. Ainda não passava das oito da manhã. Pensou que talvez eles abrissem mais tarde, aos sábados. Olhou ao redor. Havia uma pequena lanchonete à poucos metros dali que havia acabado de abrir.

Draco caminhou até lá, pediu uma água, e sentou-se, numa das mesas externas, apenas observando as poucas pessoas que passavam por ali àquela hora da manhã. Em sua mente, ele dava nomes e criava pequenas histórias para cada uma delas. Ficou ali por uns vinte minutos, antes de uma das garçonetes ir falar com ele.

— Se me permite a pergunta… — Ela começou, e Draco assentiu positivamente. — Está esperando por alguém?

— Estou esperando a biblioteca abrir.

A moça sorriu.

— Então irá esperar o dia todo. E amanhã também.

— Perdão?

— A biblioteca não abre nos fins de semana. — Ela abraçou a bandeja contra o corpo. — Costumava abrir, mas o governo quis fazer alguns pequenos cortes nos gastos públicos, e decidiu fechá-la aos fins de semana.

— Uma notícia triste de ser ouvida.

— Sim. Foi ainda mais triste para o pobre Harry. Ele agora precisa limpar aquele lugar enorme sozinho. Eles mandam alguém para limpar os banheiros todos os dias, mas é o Harry quem tem que varrer o chão e tirar a poeira das estantes. Além de recepcionar as pessoas e todo o resto. Eu duvido que eles tenham dando algum aumento pra ele. Mas, era isso ou ficar desempregado, e são tempos difíceis para ficar desempregado.

— Sim… sim… — Draco levantou-se — Agradeço, pela informação. E pela breve… conversa.

— Por nada, senhor. Fico feliz em ajudar! — Ela disse com um breve sorriso no rosto.

— Até mais.

— Até mais, e volte sempre! — A mulher falou sorrindo e voltou para dentro da lanchonete, enquanto Draco caminhava de volta para casa.

Tinha planejado passar o final de semana ali, ou pelo menos a maior parte dele. Agora, o que iria fazer? Sentar-se e assistir TV? Navegar na internet? Caminhar pela cidade? Todas essas ideias pareciam um tanto estúpidas. Estava perdido.

<Dois dias depois>

Harry se levantou as 05:00, como fazia todos os dias da semana. Tomou um banho frio para expulsar o sono do corpo, vestiu um cardigã cinza, por cima de uma camisa branca de gola e botões. Usava os mesmos sapatos de sempre, e a calça jeans escura que havia separado na noite anterior.

Saiu de casa exatamente às 05:30, levando sua bicicleta consigo. Como sempre, o sol ainda não havia despontado no céu e as ruas estavam praticamente desertas. Com exceção de um ou outro que corria para se exercitar e algumas pessoas que começavam a trabalhar mais cedo do que a maioria. Harry era uma daquelas pessoas.

O vento estava muito mais frio do que o normal. Ele estava levando em sua mochila a capa de chuva e um casaco extra, para o caso de eventualidades. Parou a bicicleta próximo a calçada, apoiou os pés no chão e tirou a mochila das costas, tirando de lá o casaco. O vestiu e então prosseguiu seu caminho. Logo teria que ir de ônibus para o trabalho. Podia pedalar perfeitamente bem na chuva, afinal Londres era uma cidade que chovia bastante, entretanto logo começaria a nevar e ele não queria arriscar uma fratura desnecessária. Mesmo que trocasse os pneus, não havia nada que garantisse que ele não iria escorregar na neve e cair. E ele preferia não correr o risco.

Chegou na biblioteca exatamente às 06:15, como sempre. Prendeu a bicicleta no lugar de sempre, um pequeno estacionamento de bicicletas feito para os funcionários. Entretanto, a biblioteca não tinha mais tantos funcionários assim. Era só o Harry. Mesmo sendo uma biblioteca enorme, era só ele ali para resolver tudo. Seus superiores diziam que não havia mais tantos usuários que justificasse a necessidade de uma equipe maior.

De fato, com a ascensão das tecnologias digitais, os e-books e todas essas coisas, era bem mais fácil simplesmente pegar um livro emprestado ou até mesmo comprá-lo através das bibliotecas digitais sem precisar sair de casa, sem contar que, ebooks eram extremamente baratos, qualquer um podia comprar um na internet, de qualquer lugar do mundo e lê-los em seus leitores digitais, feitos para “imitar” as páginas de um livro, embora aquilo fosse bobagem para Harry, nenhuma tecnologia iria substituir a sensação de se estar com um livro real.

Harry sabia que em alguns anos o seu trabalho se tornaria completamente defasado, que os livros digitais irão substituir os de papel e todas as bibliotecas serão online. Todos poderiam com muita facilidade encontrar os livros que quisesse, no idioma que quisesse, tudo à um clique de distância. Sabia que isso estava reservado para um futuro muito próximo, só rezava à deusa para que não estivesse tão próximo assim. Ele não tinha ideia do que faria. Toda a sua vida havia sido um bibliotecário. Não conseguia se imaginar sendo outra coisa.

Abriu a porta e entrou no lugar. Estava frio ali dentro, talvez até mais frio do que lá fora. Harry manteve o casaco, acendeu as luzes do corredor e foi até a sala do zelador, para o painel de controle, ativar o sistema de aquecimento. Apesar do lugar estar muito frio, ele não podia ativar o aquecimento todo de uma vez, levaria pelo menos um par de horas até que ele pudesse deixar o aquecedor numa temperatura agradável. Se mudasse a temperatura ambiente toda de uma vez, poderia acabar danificando os livros e havia muitos livros antigos por ali. Mesmo que o aquecimento não atingisse a área restrita, ele preferia evitar acidentes.

Assim como precisava fazer esse processo todas as manhãs, tinha de fazê-lo também pela noite. Depois das 16:00h, a cada hora ele reduzia um pouco a potência do aquecedor, fazendo isso repetidamente até desligá-lo completamente antes de sair.

De tudo o que precisava fazer, tirar a poeira das estantes era a pior parte. A biblioteca era grande demais para Harry limpá-la sozinho de uma única vez, e tampouco podia deixar a recepção sem ninguém por muito tempo. Fazia-o sempre pela manhã, por isso chegava muito mais cedo do que deveria. Ele separou a biblioteca em cinco partes, assim, limpava uma a cada dia da semana. Entretanto, quando chegava na quinta, a primeira já precisava ser limpa novamente, assim, aquele trabalho se tornava um looping infinito de uma rotina entediante e poeirenta, sentia-se abençoado por não ter nenhum tipo de alergia a poeira, do contrário, seu trabalho seria impossível.

Não imaginava que teria que fazer aquele tipo de trabalho quando se tornou bibliotecário. Contudo, era preciso. Se ele recusasse, seus chefes encontrariam alguém que estivesse disposto a fazer. E ele sabia que não faltariam candidatos. Mesmo o pequeno aumento em seu salário não compensava todo o trabalho que tinha. De certo que tinha todo o final de semana livre, mas a única coisa que conseguia fazer era dormir. E quando não estava dormindo, lia alguma coisa, orava para a deusa, ou assistia alguma coisa qualquer na TV. Não tinha amigos com quem pudesse sair, nem familiares vivos para visitar. Quer dizer, ele até tinha um amigo, mas andavam um pouco afastados ultimamente, e também, ele já era bastante velho, não era como se pudesse ficar subindo e descendo por ai com Harry.

O mais perto que Harry tinha de uma família era Irmandade. Embora não tivesse contato real com nenhum deles. Exceto o antigo Grão-Mestre. Alvo, era o nome dele. Foi o mais perto que Harry já havia chegado de ter um pai.

Seus pais haviam morrido quando ele ainda era um bebê. Ele nunca soube como, ninguém parecia saber. Apenas havia sido deixado na porta do orfanato numa noite fria qualquer, quando ainda tinha dois anos de idade. Alvo apareceu alguns anos depois. Dava aulas de Inglês e Literatura bna escola do orfanato.

Era um homem alto, e desde que Harry se lembrava ele era velho. Tinha cabelos e barba completamente brancos. A barba cobria todo o seu pescoço e ele a enfeitava com pequenos sininhos. Certa vez, ele dissera a Harry que aquilo era uma homenagem aos seus antepassados vikings. Harry não sabia se aquilo era verdade, mas gostava do som que eles faziam quando o professor andava pela sala.

Quando Harry alcançou a maioridade, teria ido morar na rua se não fosse pelo professor. Ele o acolheu, lhe deu não apenas um teto, mas um lar. Ajudou Harry a conseguir o emprego na biblioteca e o apresentou a Irmandade. No início, Harry não entendia muito bem o propósito de tudo aquilo. Das regras e todo o resto. Pareceu nada além de um culto religioso cheio de fanáticos como todos os outros. Mas isso foi antes de ver Alvo adentrar o centro do lugar. Foi antes de ouvir tudo o que ele tinha para falar. Antes de ouvi-lo entoar os cânticos à deusa. Foi como magia. E ele estava completamente encantado. Nunca havia visto nada tão maravilhoso em toda a sua vida.

Ao fim do encontro, Harry praticamente implorou a Alvo que o deixasse entrar. Mas, não era tão simples assim. E aquela decisão não cabia apenas ao professor. Precisaria de tempo. E de uma cerimônia apropriada, no momento apropriado. Precisaria de paciência. E aquilo era algo que Harry tinha de sobra. Ou pelo menos tentava ter, na maior parte do tempo.

Demorou, mas ele finalmente conseguiu entrar oficialmente na Irmandade. Entretanto, quando conseguiu o que queria por tanto tempo, Alvo faleceu. Ninguém da Irmandade nunca disse o motivo. A única coisa que teve como resposta foi “saberá a verdade quando o momento chegar”. E assim, foi mantido no escuro, sem saber o que havia causado a morte da única pessoa que ele amava nesse mundo e que alguma vez se importou com ele.

Na época, ainda era jovem e bastante imaturo. Não entendia como as coisas funcionavam. Se afastou da Irmandade, faltou o trabalho várias vezes. Queria respostas, mas não tinha ideia de como consegui-las. Mas, depois de algum tempo, Harry finalmente pode ver a verdade. Pode perceber que havia mais coisas no mundo do que ele jamais seria capaz de compreender. Alvo sabia disso, e havia tentado preparar ele para aquele momento. Agora ele sabia. Agora, ele realmente estava preparado.

Terminou de limpar as estantes da primeira parte, e já era hora de abrir a biblioteca. Qual foi a sua surpresa ao encontrar o sr. Malfoy parado na escadaria principal. Draco Malfoy. Aquele era um nome difícil de esquecer. E seu dono tampouco era alguém fácil de se esquecer. E Harry tinha certeza de já ter visto aquele nome em algum lugar, mas ainda não conseguia se lembrar de onde.

Era um homem bonito, isso Harry não podia negar. Seus cabelos estavam grandes demais para o gosto de Harry, e pareciam ter sido cortados com uma faca. E uma faca cega, e por ele mesmo, como se fosse um trabalho muito grande ir ao barbeiro. Seus cabelos estavam sempre bagunçados, como se ele houvesse acabado de acordar e não tivesse se dado ao trabalho de arrumá-los. Apesar de prezar pela ordem, era preciso dar crédito ao sr. Malfoy. Ele ficava muito mais bonito daquela forma do que jamais ficaria com os cabelos perfeitamente cortados e alinhados, pelo menos era a impressão que Harry tinha ao imaginá-lo. Harry se pegou perguntando-se se aquele “look” do sr. Malfoy também funcionaria consigo. Não, definitivamente não. Era melhor deixar as coisas como estavam. Malfoy tinha um porte atlético. Talvez corresse todas as manhãs, não parecia ser do tipo que ia para academias.

Abriu a porta e ele se levantou. Subiu os poucos degraus que os separavam e adentrou a biblioteca.

— Bom dia! — Ele o cumprimentou ao entrar.

— Bom dia. — Harry respondeu e deixou a porta fechar sozinha, tirando a plaquinha de “FECHADO” da maçaneta.

Caminhou até a recepção e ligou o computador, então, voltou-se para o homem à sua frente.

— Em que posso ajudá-lo?

— Meu cartão do usuário já foi liberado?

O computador já havia iniciado. Harry verificou o último cadastro, feito na sexta-feira.

— Não. Ainda está sendo processado.

— Uma pena. — Ele pareceu desapontado. — Entretanto, isso me impediria de checar o seu acervo?

— Não.

— Ótimo!

Ele pediu licença e adentrou na biblioteca. Harry o observou ir até um dos computadores de pesquisa e digitar algo. Alguns instantes depois, voltou até Harry.

— Será que você pode me ajudar a entender como funciona a catalogação de vocês?

— Claro. — Harry falou, e um meio sorriso surgiu em seus lábios.

Ele amava toda a organização da biblioteca, por ser complexa e cheia de detalhes, e que levava em consideração não apenas a temática geral, mas também os outros gêneros explícitos nos livros, entretanto, toda a forma como a catalogação havia sido constituída, parecia ser extremamente complexa para basicamente todas as outras pessoas.

O sistema utilizava letras e números e separava os livros de acordo com suas grandes áreas, porém, nem sempre os livros de uma área vão estar dentro da sua grande área correspondente. Por exemplo, um livro que fale sobre a história do país, pode estar dentro da seção de “História Nacional”, entretanto, a depender de seus subgêneros, ele pode ir parar na seção de “Literatura Histórica” ou em “Literatura Nacional”. Assim como também pode estar dentro de outras grandes áreas como “Geografia” e “Sociologia”. Cada uma dessas grandes áreas tem seus números iniciais, usando letras para livros de edições diferentes ou para designar uma subárea semelhante. E assim os livros vão sendo distribuídos entre cada seção. Harry explicou tudo aquilo para o sr. Malfoy, mas ele pareceu mais ainda confuso do que antes da explicação.

— Vamos lá. — Harry falou voltando-se para o terminal de pesquisa. — Diga um livro, e iremos procurar por ele.

— Ah… deixe-me ver. — Ele pensou por alguns segundos. — O Pequeno Príncipe. — Draco respondeu.

Harry digitou o título e logo uma série de resultados apareceu.

— Vê aqui? — Harry falou apontando para o número de chamada do livro logo abaixo do título, edição e ano. — Esse é o endereço do livro. Com ele que você irá até a estante em que o livro que você quer está.

— Falando assim não parece tão difícil… - Draco falou pensativo.

— Agora, vamos encontrar o livro na estante.

Harry falou enquanto anotava o número de chamada em um pequeno pedaço de papel ao lado do monitor do computador e então saiu andando, com Draco na sua cola. Enquanto passavam pelas estantes, Harry ia falando sobre cada uma delas, e seus temas principais.

— Se conseguir se lembrar de cada lugar para cada grande tema, ficará muito mais fácil achar o que quer.

— Já percebeu que tem, sei lá, uma centena de estantes aqui?

Harry apenas sorriu e passou reto por mais três estantes, antes de parar em uma. Na parte mais alta da estante havia um papel colado escrito “Literatura Francesa” e um pouco mais abaixo havia outro escrito “Literatura Infanto-juvenil” e abaixo delas, os três primeiros números de cada seção.

— Aqui. — Harry falou mostrando o papel para Draco. — “O Pequeno Príncipe” começa com 875, essa seção aqui, começa no 860 e vai até 880, então, isso significa que este livro estará em algum lugar lá para o final. — Harry apontou e seguiu naquela direção.

Foi mostrando os números nas laterais dos livros para Draco, até chegar onde queria e tirar um exemplar já bastante manuseado do pequeno livro e o entregou para Draco.

— Você fazendo assim é fácil. — Draco falou girando o livro nas mãos e então devolvendo para Harry. — Veremos quando for eu nesse lugar gigantesco.

Harry apenas acenou com a cabeça, sorrindo.

— Bem, agora que já foi tudo explicado, o deixarei à sós.

Falou e caminhou para longe de Draco, sumindo entre as estantes. Draco olhou ao redor e procurou por um terminal de consulta e encontrou um a poucos metros de onde estava. O computador estava desligado. Não sabia se podia ou não, mas olhou ao redor e não viu nenhum sinal de Harry, procurou pelo botão de iniciar e a tela acendeu. Demorou alguns instantes até que se iniciasse, entretanto, não adiantou muita coisa, o computador pedia um login e senha, havia duas opções: uma para usuários e outra para funcionários, e até aquele momento ele não era nem um, nem outro.

Desligou o monitor e voltou até o terminal de consulta principal próximo da entrada da biblioteca. Digitou alguns termos, mas não encontrou nada que lhe interessasse. Resolveu optar pela busca avançada, cruzando nome de autores que se recordava, palavras chaves, gêneros e subgêneros. Conseguiu encontrar uma quantidade razoável de livros. Anotou o “endereço” de alguns que os títulos haviam chamado mais a sua atenção e então partiu pela busca.

No começo, se perdeu entre as estantes. Ia para um lado enquanto procurava por outro. Deu voltas e mais voltas entre as estantes, tentando encontrar a correta. Harry havia feito tudo parecer tão fácil, mas ele trabalhava ali há sabe-se lá quanto tempo, e de qualquer forma estava acostumado com o vai e vem do lugar, sabia como achar qualquer coisa ali. Draco era um mero estranho para aquelas estantes.

Enquanto caminhava entre as prateleiras, viu alguns velhinhos, vez ou outra, caminhando por ali, em busca de seus livros. Draco imaginava que, talvez aqueles fossem os únicos visitantes que aquela biblioteca tinha nos últimos dias. Meses. Talvez até mesmo anos. Não surpreendia em nada o corte no orçamento e no número de funcionário. Apesar de Draco ainda achar extremamente absurdo que Harry tivesse que cuidar de tudo aquilo sozinho.

Quando finalmente encontrou a estante que procurava, levou mais uns quinze minutos até achar o livro que queria. Havia selecionado três, e para sua sorte, os outros dois estavam em estantes vizinhas. Munido com os livros, Draco agora se dirigiu até uma das mesas de estudo na outra extremidade da biblioteca, onde iria analisá-los.

Levava sempre consigo caneta e papel, nunca sabia quando uma ideia para uma história podia surgir, e precisava sempre estar preparado. Sentou-se numa das mesas, escolhendo-a ao acaso, afinal, todas estavam vazias.

Abriu o primeiro livro: “O Livro Secreto das Sociedades Secretas”. Draco riu ao ler o título novamente. “Não tão secreto assim, ao que parece”, pensou, enquanto folheava o livro. Pelo pouco que viu do livro, aquele lhe pareceu um bom ponto de partida.

Folheou os outros dois e decidiu todos pareciam bons o suficiente para o começo de sua pesquisa. E assim, Draco passou o resto de seu dia, parando apenas para ir na lanchonete próxima comer e voltar para a biblioteca logo em seguida. Dali só saiu quando Harry chamou sua atenção, porque precisava fechar a biblioteca e Draco era o único ali, além do próprio Harry.

— Desculpa por isso. — Draco falou fechando o livro que tinha em mãos. — Posso te pedir uma coisa?

— Depende.

— Era só para que deixasse esses livros separados, para quando eu voltar amanhã.

Harry pareceu pensar no assunto por um tempo, e então, concordou.

— Tudo bem. Irei abrir essa exceção.

— Muito obrigado! — Draco respondeu sorrindo, bastante contente.

— Agora, preciso fechar a biblioteca. — Harry falou na voz calma de sempre.

— Ah! Sim! Tudo bem. Estou indo. — Draco falou meio atrapalhando enquanto pegava suas coisas e se dirigia para a saída. — Ah! Boa noite! E obrigado mais uma vez! — Disse e então saiu do campo de visão de Harry.

Quando voltou para casa, Draco foi logo para o seu computador e começou a digitar tudo o que havia anotado de interessante, com aquelas informações, fez algumas buscas na internet, mas encontrou poucas coisas úteis, a maioria dos resultados eram sites de fanáticos malucos falando bobagem sobre o que não entendiam. Por isso Draco não confiava na internet. Quando foi dormir, já era quase meia noite, sequer jantou, apenas tomou um banho rápido e foi dormir.

Na manhã seguinte, seu cartão havia chegado e agora Draco era oficialmente um usuário da Biblioteca. Harry contou-lhe que, por ser um usuário novo, ele só poderia pegar até três livros de uma única vez e mantê-los por oito dias, ao fim dos oito dias, ele poderia renovar o empréstimo por até duas vezes no portal de usuários da biblioteca e a partir daí, a renovação precisaria ser presencial.

Draco não gostou de poder pegar apenas três livros, mas acreditava no seu potencial de conseguir fazer o bibliotecário abrir uma exceção para ele de forma extraoficial, embora só ele acreditasse nisso. Comentou com Harry sua ideia, mas o bibliotecário apenas riu e disse que ele era incorruptível.

— É o que veremos. — Draco falou sorrindo e dando uma piscadela para Harry.

Os dias se passaram, Draco levava seu computador para a biblioteca sempre que ia fazer suas pesquisas. Ele sempre levava alguns livros para casa, mas gostava de estar dentro de uma biblioteca e da calmaria que aquilo lhe proporcionava, e de quebra, podia ver o bibliotecário todos os dias, e ele também não parecia se importar com a presença constante de Draco, em alguns momentos até se mostrava interessado no que quer que fosse que ele estivesse fazendo. De forma quase arrastada, os dois começaram a ficar próximos, e Harry de fato abriu uma exceção extraoficial para Draco levar mais de três livros para casa nos fins de semana, contando que na segunda-feira eles estivessem de volta a biblioteca bem cedinho, e Draco sempre cumpria sua parte do acordo, não queria perder a confiança de Harry.

A pesquisa de Draco não andava tão bem assim, ele havia descoberto algumas coisas, mas poucas eram realmente úteis sobre a sociedade secreta, e, aparentemente havia uma seção reservada na biblioteca da qual o Harry nunca havia mencionado e onde ele não tinha acesso, havia levado meses até que Draco sequer soubesse como rastrear os livros dessa seção. Precisaria entrar lá, só não sabia como convencer Harry a deixá-lo ir.

— Ei! — Draco falou chamando a atenção de Harry que passava com um carrinho com alguns livros.

— Sim?

— Eu estava pensando, que poderíamos sair qualquer dia desses.

— Por que você estaria pensando nisso?

— Sei lá, nós somos amigos, certo? Que mal há nisso?

Harry hesitou antes de responder.

— Antes de sair, me lembre para que eu possa te passar meu telefone. E então, podemos marcar.

— Ótimo! Perfeito!

Fazia muito tempo desde que Draco havia saído com alguém, com seu foco sempre voltado para seus livros, acabou por deixar essas coisas de lado por um tempo. Ele não queria dizer que Harry era um amigo, não conseguia vê-lo somente daquela forma. Harry era um homem jovem e bonito, e até onde Draco sabia, solteiro, e ele havia notado como Harry olhava para ele quando achava que o escritor estava distraído.

Naquela mesma noite, Draco mandou uma mensagem para o bibliotecário, e eles combinaram de sair na tarde de sábado, dali a dois dias. Eles não se veriam até lá, já que na quinta e na sexta a biblioteca estaria fechada para manutenção. Draco mal podia esperar pelo sábado, Harry então, nunca havia saído com nenhum cara, e mesmo que quisesse levar aquilo com Draco como uma simples amizade, ele não conseguia negar que não era apenas aquilo, embora não fosse, nunca, dizer aquilo em voz alta.

No sábado, Harry estava nervoso, passou horas trocando de roupa achando tudo péssimo, parecia que nada combinava, nada estava bom o suficiente. Era estranho, nunca tinha estado assim, em nenhum momento da sua vida havia se encontrado tão nervoso a ponto de não conseguir escolher a própria roupa. Aquilo era esquisito, ele não sabia o que fazer, nem como reagir. Harry era sempre tão certo de tudo e tão organizado, uma simples ideia de sair com Draco já havia bagunçado toda a sua vida.

Draco, por outro lado, não estava tão nervoso, mas, ainda assim, um pouco apreensivo de que Harry fosse dar para trás. O bibliotecário já havia lhe dito certa vez que não gostava de sair, preferia o conforto de sua casa, e Draco respeitava totalmente aquilo, tanto que havia levado todo aquele tempo para chamar Harry para sair, mesmo querendo fazer isso desde a primeira vez que o viu.

Eles sempre conversavam na biblioteca, e falavam coisas de suas vidas, pequenos fatos isolados, por exemplo, Draco havia descoberto dois meses antes que Harry era órfão e que nunca havia conhecido os pais e que crescera num orfanato. Draco também falou de sua família, mas escondeu o fato de seu pai nunca ter se importado muito com ele, parecia um pouco injusto falar mal do seu pai morto para um cara que nunca teve um pai.

Eles haviam marcado de se encontrar num barzinho no centro da cidade, Draco conhecia aquele lugar desde quando era adolescente e ia para lá com os amigos. Mas os amigos agora estavam todos casados e com filhos e não tinham mais tempo para nada daquilo.

Quando chegou, Harry já estava lá. Ambos haviam chegado antes do horário marcado. Usava uma camisa verde clara de botões prateados e manga comprida, porém as mangas estavam dobradas até a altura dos cotovelos, usava um tênis preto simples e uma calça azul escuro, seus cabelos estavam muito bem alinhados, muito provavelmente ele havia passado uma boa quantia de gel fixador. Draco usava uma camisa vermelha com florezinhas laranja de botões também laranja e que estava meio aberta, deixando parte do seu peito a mostra, usava uma calça jeans justa e coturnos pretos, o cabelo como sempre estava desgrenhado, e, mesmo estando nublado, ele usava um óculos escuro tipo aviador que lhe caía perfeitamente bem.

— Você veio. — Draco falou sorrindo.

— Sim. Por que não viria?

— Fiquei esperando por você ligar e dizer que não poderia vir, usando uma desculpa qualquer somente para não sair de casa.

— Resolvi abrir uma exceção. — Harry sorriu, meio tímido. — Vamos entrar?

Draco acenou positivamente com a cabeça e entrou no lugar, logo atrás de Harry. Era um lugar tranquilo e como ainda era meio cedo, estava praticamente vazio. Draco pediu um gim tônico e Harry preferiu um suco de limão.

— Por que escolheu justo esse lugar? — Harry perguntou, tentando puxar assunto.

— Eu costumava vir aqui, quando era mais jovem, ante de me mudar para a França.

— Me pergunto o que um garoto fazia num bar e como diabos deixavam você entrar.

— Ah, eu tinha meus meios.

— Então quer dizer que era um garoto rebelde? — Harry perguntou, curioso.

— Claro, como não ser rebelde com uma família tão conservadora, você sabe.

— O estereótipo de bad boy, não é mesmo? — Harry colocou a mão no queixo e semicerrou os olhos, pensando por um instante e então voltou a dizer. — Deixe me ver, você é de uma família nobre, próximo da realeza, certo? — Draco acenou positivamente. — Seu pai era um homem bastante orgulhoso de suas origens nobres, mas a família já não tinha mais tanto prestígio como nos dias de outrora.

— Até aí, você tem descrito tudo muito perfeitamente.

— Sua mãe era uma mulher gentil e educada, como se espera das mulheres nobres. Mas você, o filho único do casal, era a esperança do seu pai, que queria trazer glória ao nome Malfoy novamente, mas você apenas o decepcionou, indo se dedicar a literatura e as artes e acabando com o que restava da fortuna da família.

— Ok. Agora eu fiquei com um pouco de medo de você.

Harry riu e balançou a cabeça.

— Desculpe. Eu li isso num livro sobre antigas famílias da real sociedade britânica que haviam deixado de ter qualquer destaque. Quando você apareceu e vi seu nome, achei bastante familiar, mas levou um pouco de tempo até que conseguisse encontrar o livro em questão.

— Lê bastante, não é mesmo?

— Sim. Livros são minha paixão.

— Tenho visto, acho que isso está meio explícito, mas isso é só uma das poucas coisas que sei sobre você, e você, por outro lado, parece saber tanto sobre mim e minha família, me sinto em desvantagem.

— Mas não é uma desvantagem real. Eu apenas sei o que está documentado de forma oficial, ou quase isso. Não conheço o verdadeiro Draco Malfoy.

Draco baixou a cabeça, não sabia como responder aquilo.

— Vejamos, o que eu posso falar sobre mim que você não saiba. — Harry pensou por tempo e então respondeu. — Já sei! Eu tive um mentor, alguém me ajudou a me tornar quem sou.

— Quem ele era?

— Eu sei que você sabe que eu não tenho pais, e cresci num orfanato. — Ele fez uma pausa e Draco acenou positivamente. — Quando eu me tornei maior de idade, Alvo Dumbledore, um dos professores do orfanato me acolheu.

— Por que ele nunca te adotou?

— Uma vez, quando eu tinha onze anos, ele me disse que iria me adotar e eu passaria a ter um lar de verdade, não faz ideia de como eu fiquei feliz. — Harry suspirou. — Mas então, depois das análises de praxe e tudo o mais, não concederam a adoção para ele, por ser homem, solteiro e já em idade um pouco avançada. Ele ainda tentou mais algumas vezes, nos anos seguintes, mas, sem sucesso.

— É realmente péssimo, eles querem que as pessoas adotem as crianças, mas ao mesmo tempo dificultam tanto o processo de adoção! Sei que não pode se dar uma criança inocente para qualquer um, mas poxa! O que custava facilitar um pouquinho mais a situação?

Harry não respondeu apenas suspirou, tomou um gole do seu suco e então voltou a falar.

— Enfim, Alvo foi a melhor coisa que pode acontecer na minha vida, ele me deu um lar e me deu um propósito pelo qual viver. Acredito que se não fosse por ele, eu não estaria aqui.

— Então, um brinde a Alvo Dumbledore, por ser um homem tão nobre! — Draco falou sorrindo e erguendo o seu copo, sendo acompanhado por Harry.

— Agora, a sua vez. — Harry falou depois de beber.

— Primeiro, uns aperitivos. — Draco se levantou e foi até o balcão pedir comida e Harry não conseguia parar de olhá-lo enquanto ele caminhava até lá.

Quando voltou, disse que demoraria um pouco, mas que logo chegaria e então pensou no que poderia dizer sobre si para Harry.

— Bem, talvez você já saiba, mas eu sou um escritor.

— Sim, acho que isso ficou bem claro. — Harry sorria e Draco também.

— Não é exatamente algo que eu sempre quis fazer, na verdade, eu nunca pensei em me tornar quem eu sou. Quer dizer, eu era um desmiolado quando adolescente, só queria mesmo atormentar o meu pai.

— Não sei se eu teria gostado de conhecer o Malfoy adolescente.

— Provavelmente teríamos sido inimigos.

— Você é péssimo, Malfoy.

— É, eu sei. Mas, eu melhorei depois do colégio. Eu ainda tinha contato com os meus amigos e tudo o mais, só que eles estavam seguindo carreiras na política e não sei o que, e eu simplesmente fui abandonado. Daí, comecei a ler muito, principalmente depois da morte do meu pai e comecei a me apaixonar pela literatura e pelas histórias de sociedades secretas. Como sendo a coisa mais óbvia a se fazer, fui para a França, me formei lá e comecei a me dedicar total e exclusivamente ao estudo das literaturas das sociedades secretas, e assim, você não tem noção do quão incrível elas são. — Draco tinha um brilho nos olhos, enquanto Harry parecia levemente desconfortável, apesar de que Draco estava distraído demais para perceber aquilo. — Isso se tornou a minha “obsessão”, podemos dizer, e por isso voltei para a Inglaterra. Quero escrever livros sobre isso.

— Está em busca de alguma sociedade secreta específica?

— Sim.

— E qual o nome dela?

— Eu não sei. Não há registros sobre isso. Na verdade, existe bem poucas coisas sobre o assunto.

— E porque vai fazer algo sobre uma sociedade tão secreta que nem sabe o nome, como sequer pode conseguir informações sobre ela e saber se são ou não verdadeiras.

— Ai que está! Não tem como! — Draco estava cada vez mais animado e Harry, cada vez mais confuso.

— Isso não faz sentido.

— Na verdade, faz.

— Como?

— Eu dediquei bastante tempo da minha vida estudando essas coisas, então eu sei as características básicas das principais sociedades secretas. Assim, fica mais fácil separá-las das outras. Todas as sociedades menores, como essa que estou pesquisando, possuem semelhanças e particularidades com as maiores. Basta ir separando o que é “coincidência” do que não é.

— Ainda continua sem fazer sentido.

— Vamos com calma, homem de pouca fé!

— Tudo bem. Ilumine-me! — Harry falou e Draco sorriu com aquela referência.

— Mesmo não sabendo o que é verdadeiro e o que é falso, isso é ótimo para mim, pois eu tenho a ajuda da verossimilhança. A história é minha, e embora tendo tomando coisas da realidade como base, ao descrevê-las em uma história, elas passam a ser, digamos que uma “versão alternativa” do real, e uma versão alternativa não precisa ser fiel ao que é real. A verossimilhança me permite tornar aquela versão da realidade do jeito que eu quiser, pois, na realidade pode não ser daquele jeito, mas na minha história pode, pois, as histórias nada mais são do que verdades de mentiras. E assim eu também não arranjo problema com as sociedades, por revelar segredos mega secretos e tudo o mais, só estou criando a minha própria versão daquela realidade, eles não podem me matar por isso, mesmo que a minha invenção seja a realidade deles.

— Sinto que acabou de me dar uma aula de literatura.

— Desculpe.

— Não, não é problema, eu até gosto. — Harry sorriu enrubescido. — E talvez essa sua maluquice faça sentido. Não sei se irei conseguir assimilar tudo assim num instante, mas, talvez daqui a uns três dias, enquanto penso sobre essa conversa no chuveiro, eu vá me dar conta de que essa sua linha de raciocínio faz sentido. Mas, até lá, continua parecendo loucura.

Draco riu, e, quase que inconscientemente segurou a mão de Harry. Ele notou, mas não se importou com aquilo, na realidade, até gostou do toque de Draco.

— Fica tranquilo, tem muito mais de onde veio essa.

— Limites é uma coisa que realmente não faz parte da sua vida, não é? — Harry repentinamente lembrou-se do toque da mão de Draco na sua e afastou-se dele, porém não o fez de forma brusca, não queria que Draco achasse que havia sido estranho para Harry, não o fora, ele só não podia, não agora. Precisa esperar só mais um pouco.

O resto da noite seguiu tranquila com ambos falando coisas sobre si e com Draco fazendo piadas, quase não notaram a hora passar, e, quando se deram conta, já era tarde. Draco acompanhou Harry até o ponto de ônibus, ele queria pagar um Uber para o bibliotecário, que rejeitou e pegou o primeiro ônibus que passou por ali, se despedindo de Draco com um breve aperto de mão. Ambos preferiam que fosse um abraço, mas nenhum dos dois teve coragem de dar o pontapé inicial.

Quando chegou em casa, Harry notou que havia recebido uma mensagem de Draco pergunto se ele havia chegado bem em casa. Apesar de ser algo tão simples, Harry sorriu. Fazia-o acreditar que, de alguma forma, Draco se importava com ele.

Na manhã seguinte, Harry acordou com uma mensagem de Draco perguntando como ele havia dormido bem e se queria ir ao parque. Harry já estava digitando que sim, quando a campainha tocou. Era Hagrid.

Hagrid era um senhor de idade que parecia meio gigante e que morava a algumas casas de distância. Harry havia conhecido o senhor logo que havia se mudado para lá, ele e Alvo eram bastante amigos, e por conseguinte, acabou ficando amigo de Harry também.

Dumbledore havia contado para Harry que conheceu Hagrid vários anos antes, quando ele havia tentado entrar para a sociedade, mas, não chegou a fazer sua iniciação, por conta de um incidente do qual ele era inocente, Hagrid foi “expulso” e proibido de fazer parte, mesmo com a interseção de Alvo, ele ainda não era o Grão-mestre e não havia nada que pudesse fazer a respeito. Contudo, Dumbledore havia ensinado secretamente alguns cânticos a Hagrid e segredos menores da sociedade, e ele mantinha no porão de sua casa um pequeno santuário à deusa. Quando questionado por Harry sobre o motivo de ter falado tanto sobre aquelas coisas para Hagrid, o professor lhe disse que confiaria sua vida a Hagrid.

Hagrid era um homem gentil e sempre convidava Harry para tomar chá em sua casa. Eles conversavam desde coisas que aconteciam na sociedade e que Harry podia confiar a Hagrid, assim como também falavam dos mais variados assuntos, como o tempo, ou a última notícia da família real. Eram bons amigos. Hagrid, já era aposentado, mas havia trabalhado por muitos anos como segurança. Já havia trabalhado em todo tipo de lugar e visto todo tipo de coisa, mas dizia estar velho demais e cansado demais para essas coisas, mas sempre tinha boas histórias para contar.

Naquela manhã de domingo, Hagrid havia ido convidar Harry para almoçar em sua casa, já que fazia um bom tempo desde que havia ido lá pela última vez, e que sua esposa, Olímpia, ficaria bastante feliz em vê-lo. Harry sempre ficava impressionado quando via a esposa de Hagrid, mesmo sendo já bastante velhos, ambos era muito mais altos que Harry, Olímpia era ainda mais alto que Hagrid, que já era um homem muito grande, ele sentia-se um duende perto daqueles dois.

Harry aceitou o convite do amigo, e acabou tendo que dispensar o Malfoy, mesmo a contragosto. Fazia tempo que não ia na casa do Hagrid, e ele sabia que veria Draco no dia seguinte. Foi tomar banho e se arrumar, comeu um pouco e lá para as 11:00h da manhã partiu para a casa de Hagrid, que já lhe esperava sentado na cadeira de balanço na varanda, lendo o jornal, com seu grande cão, Canino, deitado aos seus pés.

Na manhã seguinte, quando abriu a porta da biblioteca, Draco não estava lá. Contudo, Harry nem se preocupou, as vezes ele chegava mais tarde, ou só ia pela tarde, e, de qualquer forma, ele havia lhe mandado uma mensagem mais cedo falando que iria até a biblioteca, então, não havia com o que se preocupar. Entretanto, chegou a hora de fechar a biblioteca e Draco não havia dado sinal de vida durante todo o dia. Também não havia mais mandado mensagem, nem nada. Harry não queria que aquilo lhe afetasse, mas, conforme as horas foram passando e a terça-feira chegou sem nenhuma mensagem de Draco, Harry começou a temer pelo pior. Ligou algumas vezes, depois que já havia aberto a biblioteca, mas não houve resposta, também mandou algumas mensagens, mas sem resposta. Pensou em ir até a casa dele, mas, se deu conta de que não sabia onde ele morava. Queria ir até a polícia, mas como relatar o desaparecimento de alguém que ele sequer sabia onde morava? Iriam ridicularizá-lo. Tudo o que poderia fazer agora, era esperar.

Somente na quinta-feira é que Draco veio voltar a aparecer. Ele respondeu as mensagens de Harry com um “oi, desculpe-me”, e antes que Harry pudesse responder, seu telefone começou a vibrar. Harry atendeu, nem se deu ao trabalho de ir para os fundos, pois era fim de tarde e a biblioteca já estava completamente vazia.

— Desculpe. — Foi a primeira coisa que Draco falou. — A minha mãe me ligou na segunda de manhã falando que estava no aeroporto e que precisava de alguém para buscá-la. Eu acabei ficando tão animado com a ideia que esqueci de te avisar. É que já faz um bom tempo que eu a vi, sabe.

— Não, tudo bem. Eu entendo. — Harry realmente estava aliviado. — Apenas estou melhor sabendo que não foi sequestrado e abduzido por aliens. — Harry falou rindo e ouviu a risada de Draco do outro lado da linha.

— Ela já foi, viajou agora a tarde, tem alguma coisa para resolver na Irlanda e só passou aqui para dar um “oi”.

— A definição de “dar um oi” da sua mãe é bem interessante. — Ambos riram novamente.

— Se não for nenhum incomodo pra você, poderíamos ir a algum lugar, agora a noite.

— Eu estou um caco, passei o dia todo na biblioteca.

— E que tem de mais nisso?

— Draco! Eu precisaria trocar de roupa, e tomar um banho, e também não poderia ficar até tarde, pois tenho que trabalhar amanhã de manhã, caso tenha se esquecido.

— Não acho que alguém notaria se você abrisse a biblioteca uma ou duas horas mais tarde.

— Não é bem assim que as coisas funcionam, Malfoy.

— Tudo bem, Potter. Então podemos na sexta?

Harry definitivamente não poderia sair naquela sexta, era dia de encontro da sociedade. Sendo um membro de primeiro nível, definitivamente não poderia faltar, sem um motivo justo. E “estava saindo com um cara que gosto e conheci no trabalho” não é um motivo justo. Na verdade, ele nem deveria estar saindo com alguém, para começo de conversa. Deveria se manter puro e intocado, até que chegasse ao segundo nível. Não era como se pessoas que não fossem mais virgens não pudessem entrar, contudo, ao entrar, era necessário manter o celibato até passar para o próximo nível, era preciso estar puro de corpo e alma. E Harry já estava indo longe demais com aqueles encontros com Draco.

— Amanhã não dá... — Harry estava tentando encontrar uma desculpa para dar à Draco. — Já marquei de ir jantar na casa do Hagrid.

— Ah, sim! Aquele seu amigo. Tudo bem. — Draco suspirou, meio frustrado. — Para alguém que não gosta de sair de casa, você é alguém cheio de compromissos.

— Problemas da vida adulta, o que posso fazer, nem sempre o que gostamos é o que temos que fazer.

— Sim... — Fez-se silêncio entre ambos. — Enfim, acho que já está na hora de você fechar a biblioteca, certo? É melhor se adiantar.

— Sim. Até mais, Draco.

— Até mais, Harry.

— Ah! Espera! — Harry falou tendo um pensamento súbito antes que desligassem. — Vou te mandar meu endereço. Podemos jantar lá no sábado, se você quiser, é claro.

— Seria perfeito.

— Então, nos vemos no sábado.

— Nos vemos no sábado.

E então, Harry desligou. Draco ainda ficou com o telefone nas mãos por algum tempo, e logo ele vibrou com uma mensagem de Harry, indicando seu endereço. Draco mal podia esperar pelo sábado. Sentia mais falta de Harry do que era capaz de confessar. Óbvio que ele tinha adorado passar tempo com sua mãe, Narcisa era uma mulher incrível e Draco a amava com todas as suas forças, contudo, também sentia falta de Harry e de passarem o dia todo trocando olhares sem nada dizer. Era meio que a forma deles de conversarem secretamente.

Eles haviam ido ao shopping e ao cinema e também havia passado horas perambulando pelas lojas de grifes de Londres, aquilo era o que Narcisa considerava divertido, e Draco só queria passar tempo com a mãe, então, não reclamava. Ela falava do seu marido e do como estava sendo a vida na Grécia, chegou a mencionar que seu marido queria um filho, mas ela já estava velha demais para essas coisas, e eles acabaram por concordar em adotar um gato. Narcisa também o perguntou sobre relacionamentos e Draco acabou por falar sobre Harry, algumas coisas ele simplesmente não conseguia esconder da mãe. Ela adorou Harry, pelo pouco que Draco lhe contou, e disse que estaria esperando o convite para o casamento dos dois em breve, Draco ficou vermelho feito um pimentão e tentou ignorar aquela sugestão da mãe pelo restante dos dias que passou com ela.

Quando a sexta-feira à noite chegou e Harry partiu para o local onde as cerimônias eram realizadas, algo parecia diferente. Ele não sabia dizer bem o que era, mas sentia como se a deusa estivesse tentando lhe dizer algo. Como sempre, foi o primeiro a chegar e se posicionou em seu lugar de sempre. Ao fim da cerimônia, antes que todos saíssem, o Grão-mestre o chamou.

— Irmão Potter, aproxime-se. — Ele disse e Harry seguiu, embora nervoso. — Hoje é uma noite especial para você. — Ele fez uma pausa. Ele adorava fazer pausas em seus discursos quando tinha algo importante a dizer. — Hoje, irmão, é o dia em que anuncio a sua elevação. A deusa veio até mim e falou-me de você. Falou-me de como está preparado para seguir adiante. — Mais outra pausa. — Irmã Granger, irmão Weasley. — Ele falou e dois membros do segundo nível deram um passo à frente. — Vocês irão guiar o irmão Potter nessa jornada. Irão se unir fora de nosso templo e explicar-lhe o que o espera, quais são os rituais e como deve proceder. Quando ele estiver completamente treinado, voltem a mim e escolheremos o melhor dia para o sacrifício e para a transição.

Harry ajoelhou-se e beijou a mão do mestre, como sabia que deveria ser feito e então disse o que sabia que deveria ser dito.

— Agradeço a deusa, por conceder-me essa honra, e a você, Grão-mestre, por me guiar pelos caminhos da verdade, e todas as irmãs e irmãos aqui presente por seguirem comigo nessa jornada.

Todos falaram as palavras antigas que eram apropriadas aquele momento e então, o Grão-mestre finalizou a cerimônia e todos saíram do salão, indo para seus devidos vestuários. Quando terminou de trocar de roupa, Harry olhou ao redor, não iria mais ficar ali por muito tempo. Ao sair encontrou com Ronald Weasley e Hermione Granger. Trocaram telefones e os dois ficaram de entrar em contato com Harry para que pudessem organizar sua preparação.

Harry estava tão animado em passar de nível que sequer notou em quão cansado estava e em como fazia frio lá fora. Também mal reparou que havia perdido o ônibus e que teria que caminhar um longo percurso antes de poder chegar em casa, muito mais tarde do que o comum. Aquela era uma honra enorme, concedida a muitos poucos, e ele vez ou outra cantarolava uma das canções antigas de agradecimento a deusa.

Quando finalmente chegou em casa, já era quase quatro da manhã, mas ele não se sentia exausto e nem com sono, estava purificado e muito animado com a certeza de que estava indo para o próximo nível, depois de ter sonhado tanto com aquilo. Agora teria que se dedicar um pouco mais a sociedade. Antes, ele tinha que ir aos encontros a cada quarenta dias, era quando aconteciam os encontros gerais, com todos os membros. Mas, Dumbledore havia lhe dito que os membros do segundo nível iam a encontros a cada 21 dias e tinham uma participação mais ativa na sociedade, desde cuidados com o templo a trabalhos exteriores feitos a pedido do Grão-mestre.

A única coisa que Harry temia era que Draco soubesse daquilo. Ele tinha olhado alguns dos livros que Draco andara lendo e eram livros que possuíam alguns pequenos detalhes sobre a sociedade que Harry participava, embora muito escassos e vários deles não eram tão verdadeiros quanto os livros faziam parecer, pelo menos não até onde Harry sabia, haviam coisas das quais ele nunca ouvira falar e esperava não serem verdadeiras. Histórias sobre sacrifícios animais e humanos com uma frequência extremamente absurda. Aquilo não podia ser verdade, se o fosse, Alvo teria lhe dito. Mas, ainda assim, havia muitas coisas das quais Harry não sabia a respeito e aquilo o amedrontava.

Ceux Quia Ont Été Electi, era o nome, e para o alívio de Harry ele não havia o visto em nenhum dos livros que Draco havia pegado, costumavam abreviar para Quia Electi, mas nem isso Draco havia encontrado ainda, o que era bom. Significava que não haviam sido tão expostos assim. Significava que ele não precisaria notificar o Grão-mestre sobre as buscas de Draco. Ele não havia achado nada realmente significante, nada que pudesse ser alarmante e aquilo era bom. E, ele também não queria ter que delatar Draco, não fazia a menor ideia do que poderia acontecer se o Grão-mestre soubesse. E esperava nunca ter que saber.

Mesmo amando a Quia Electi e tudo o que ela havia lhe proporcionado, Harry as vezes temia o que eles eram capazes. Não sabia até onde eles iam, havia muitas coisas das quais Harry não sabia e ele temia por isso. Alvo havia lhe dito muito mais do que alguém do seu nível deveria saber, mas muitas outras haviam sido deixadas de lado, pois ele ainda não estava preparado, mas, iria dar o voto de confiança de sempre. Alvo não o levaria para algo ruim e que pudesse prejudicá-lo, ele sempre quis o seu bem, jamais faria algo para prejudicá-lo. Ele confiaria na Quia Electi, como vinha confiando a tanto tempo, e como vinha confiando em Dumbledore. Ele precisava confiar.

Quando o relógio marcava 18:40h, Draco saiu de casa, foi até a rua e pegou o primeiro táxi que apareceu e deu o endereço da casa de Harry. Ele estava extremamente ansioso para aquilo. Harry havia o convidado para a sua casa, e ele não sabia o que aquilo poderia significar e nem o que poderia acontecer. Se pegava imaginando como seria a casa de Harry. Teria milhares de livros por todos os cantos? Draco achava que sim, era a cara do Harry ter muitos livros em casa. Ou talvez não, talvez ele estivesse cansado de ver livros o dia todo no trabalho e ao chegar em casa, só quisesse um ambiente diferente. Será que ele tinha gatos? Não, aquilo era idiota, Harry havia lhe dito que uma das cuidadoras voluntárias do orfanato, uma tal Sra. Figg era uma espécie de “velha doida dos gatos” e sempre levava fotos dos seus gatos e ficava contando várias histórias sobre eles e Harry passou a odiar aquilo depois de algum tempo. Embora dizia que era melhor do que apanhar dos garotos maiores.

Draco estava tão perdido em devaneios e em suposições sobre a casa de Harry que mal se deu conta de quando o taxista parou em frente a uma casa maior do que Draco imaginava que seria, num bairro familiar afastado do centro da cidade. Era uma casa simples, pintada de azul claro com várias plantas do lado de fora. Draco pagou ao taxista e caminhou pelas pedras arredondadas no meio da grama que formavam um caminho até a porta. Havia uma campainha ao lado da porta, que era branca. Ele tocou a campainha e esperou. Não demorou e ele ouviu os passos do Harry indo até a porta.

— Você veio! — Harry falou tentando esconder a felicidade.

— E você não fingiu que não estava em casa! — Draco falou e Harry riu.

— Vem, entra.

Draco obedeceu. Por dentro, a casa de Harry tinha uma decoração bastante simples e minimalista. As paredes tinham tons claros, variando entre branco e azul, e era tudo muito organizado. Havia várias estantes de livros espalhadas até onde Draco conseguia ver, mas era em uma quantidade bem menor do que ele havia imaginado. Também havia plantas dentro da casa, mas eram vasos pequenos, as maiores pareciam ter sido todas deixadas do lado de fora. Quase toda a decoração da casa era branca, com exceção das mesas que eram de vidro, e as cadeiras e o sofá que tinham detalhes em madeira e estofamento azul claro.

— Tem uma casa muito bonita, sr. Potter. — Draco falou voltando a olhar para Harry.

— Obrigado, sr. Malfoy.

— E agora? — Draco perguntou depois de alguns instantes em silêncio. — O que a gente faz?

— A gente pode ir logo comer, ou pode sei lá, assistir um filme antes ou algo assim.

— Vamos comer antes.

— Esperava que dissesse isso. Estou morrendo de fome! — Harry falou e pegou na mão de Draco, o guiando até a cozinha.

— O que temos para hoje? — Draco perguntou quando entraram na cozinha, também no mesmo estilo do restante da casa.

A cozinha era bastante espaçosa, no meio havia uma bancada grande com alguns bancos altos de madeira em ambos os lados, e Draco se sentou em um deles, com Harry ficando do lado contrário, de frente para ele e com o fogão atrás de si.

— Chicken tikka masala.

— Faz realmente muito tempo desde que comi um desses.

— Se importa se comermos aqui? — Harry perguntou levando a panela do fogão para a bancada. — Quer dizer, somos só nós dois, por que ir para uma mesa que vai estar basicamente vazia? — Falou enquanto pegava dois pratos nos armários e talheres em uma gaveta próxima ao fogão.

— Por mim, tudo bem.

Harry serviu a comida e ambos começaram a comer, sem mais discussões.

— Isso tá muito bom. — Draco falou depois de algumas colheradas.

— É, eu sei.

— Foi você quem fez? — Draco perguntou e viu Harry enrubescer.

— Preciso confessar algo. — Harry fez um pequeno silêncio antes de voltar a falar. — A esposa do meu amigo quem fez. Eu sou péssimo na cozinha. — Harry falou parecendo meio envergonhado. — Se eu tivesse feito isso, agora você estaria correndo para o banheiro vomitar.

— Ah, que isso! Não deve ser tão ruim assim.

— Se desse algo que eu fiz para um cachorro esfomeado, ele rejeitaria.

— Ei! Você vai fazer algo para mim, da próxima e tenho certeza que não deve ficar tão péssimo como você diz.

— Se eu fizer algo para você da próxima vez, você nunca mais vai querer me ver nada vida.

— Ah, eu não iria te ignorar para todo o sempre só porque quase me matou de intoxicação alimentar. — Draco falou rindo e foi acompanhado por Harry. — Essas coisas acontecem.

— Não. Essas coisas só acontecem comigo.

— Então, faremos assim. Da próxima vez que eu vier aqui, eu faço a comida. Não é querendo me gabar nem nada, mas acabei aprendendo muito de gastronomia quando estava na França. E quando namorei um chef. — Draco falou a última frase quase baixo demais, com receio daquilo incomodar Harry de alguma forma, mas o outro simplesmente não se importava com aquilo.

— Ai! Você tem uma vantagem totalmente injusta!

— Não tenho não! Isso se chama talento!

— Ok. Você pode ter vencido nessa, mas eu ainda sou muito mais organizado do que você.

— Que tipo de competição isso virou? — Draco perguntou rindo.

— Eu não faço a menor ideia.

Os dois terminaram o jantar e Harry serviu a sobremesa, uma torta de morango, que também havia sido feita pela esposa de Hagrid. Harry falou um pouco de Hagrid e da Olímpia para Draco, mas deixou de fora todas as partes que envolviam a Quia Electi.

Depois do jantar, Harry sugeriu que assistissem a um filme e Draco concordou. Daí então foi uma enorme perda de tempo enquanto tentavam encontrar um filme que nenhum dos dois houvesse visto ou que não odiassem completamente. Por fim, acabaram optando por assistir ao primeiro filme do “O Hobbit”, Draco já havia assistido e insistia que era o melhor filme de todos os tempos, e Harry achava meio bobo, mas decidiu dar uma chance.

Durante todo o filme nenhum dos dois calava a boca por muito tempo. Sempre havia algo que Draco falava que ia ser incrível ou Harry começava a reclamar de tal cena ou de tal personagem e ai eles discutiam, pausavam o filme e Draco tentava convencer Harry de que ele estava errado, mas, no fim, sempre acabavam “concordando em discordar” e voltavam a ver o filme. Quando enfim acabaram, já haviam se passado quase cinco horas desde que haviam terminado o jantar e já eram quase 02:00h da madrugada.

— Já é extremamente tarde e eu preciso ir para casa. — Draco falou se levantando do sofá sendo seguido por Harry.

— Poderia dormir aqui, se quisesse. — Harry falou, mas se arrependeu de ter dito logo em seguida.

— Não sei se seria uma boa ideia.

Os dois ficaram se encarando por alguns instantes e Draco ergueu a mão até o rosto de Harry e o acariciou, contudo, Harry logo colocou sua mão sobre a dele e a afastou de si.

— Draco, não podemos.

— O que há de errado?

— Não é você. — Harry suspirou e se sentou no sofá novamente. — É complicado de explicar.

— Sou todo ouvidos.

— Não é bem assim que as coisas funcionam, Draco.

— Tudo bem. Não precisa me falar, se não quiser.

Harry suspirou e cobriu o rosto com as mãos. Draco abaixou-se e ficou de frente para Harry, pegou nas mãos do outro e as juntou com as suas.

— Draco, eu quero poder estar contigo, e te corresponder adequadamente, mas eu não posso. Não agora.

— Eu já disse, tá tudo bem. — Draco beijou as mãos de Harry.

Antes que pudesse pensar a respeito, Harry beijou Draco, somente tocando seus lábios rapidamente, mas então, voltando a razão e separando-os.

— Desculpe. — Harry se levantou bruscamente deixando Draco completamente confuso. — Acho melhor você ir agora.

Draco não disse mais nada, se levantou e saiu, ainda olhou para trás, para Harry, quando chegou a porta, mas o outro não lhe dirigiu o olhar e Draco saiu.

Era tarde quando chegou em casa. Mandou uma mensagem para Harry dizendo que havia chegado em casa e o outro respondeu-lhe apenas com um “ok, desculpe por hoje”.

Draco não fazia a menor ideia do que estava acontecendo com Harry, assim, tão de repente ele vinha com toda essa história de não poderem ficar juntos, “não agora”, ele disse, mas aquilo não fazia sentido? Se ele estivesse passando por um divórcio ou algo do tipo, não haveria problema em falar sobre, é só um divórcio, todo mundo já passou ou tem alguém próximo que já tenha passado, não é como se estivessem no século 18. Simplesmente não fazia sentido a recusa de Harry, ele o havia beijado. Harry havia tomado a iniciativa e beijado Draco, por que o rejeitaria logo em seguida, então?

Tanta coisa ao mesmo tempo, tantas dúvidas. Draco começou a pensar que se envolver com Harry havia sido um erro, e que agora ele o rejeitaria para sempre e a história de Draco teria que ser abandonada, pois em vingança, Harry não daria mais acesso a biblioteca para Draco. Não. Estava divagando, imaginando coisas. Mas, ao mesmo tempo, Draco lembrou-se da história que deveria estar escrevendo. Pegou o computador e sentou-se na mesa da cozinha e começou a escrever, precisava se distrair um pouco.

“Capítulo 1

Já estava chegando em casa quando o telefone tocou, era sua chefe, Camilla.

— Sim? — Falou atendendo o telefone.

— Jaime? Está em casa?

— Quase.

— Preciso que volte a Unidade, agora.

— Merda, o que houve?

— Mais um assassinato, o que mais poderia ser?

— Ok. Estou indo.

Jaime seguiu e fez a volta no primeiro retorno que encontrou, e seguiu de volta para a Unidade. Merda, não havia descanso? Será que as pessoas não poderiam parar de matar umas às outras pelo menos pela porra de um único dia. Só naquela manhã tivera que lidar com três suspeitos do assassinato de uma mulher. Pela tarde, um marginal havia tentado escapar e fez a Unidade ficar na maior zona. Agora, quando ele achou que poderia ir para casa, tomar um café e relaxar em sua poltrona e assistir alguma sitcom qualquer até pegar no sono, mas, agora precisava voltar ao trabalho.

Quando chegou à frente Unidade, já havia uma meia centena de repórteres. Jaime odiava aqueles repórteres intrometidos que nunca o deixava em paz, e tinham informantes em todas as partes. Era incrível a velocidade com que conseguiam as informações. Um bando de moscas, era o que sua chefe dizia. Jaime seguiu direto e deu a volta, indo para a parte de trás do prédio, entrando pela entrada secundária da garagem subterrânea, podendo assim entrar no prédio sem ser atacado pelas perguntas inacabáveis dos repórteres.

O lugar estava uma zona, havia oficiais correndo por todos os lados, e sua chefe estava na sala de reuniões junto com os outros detetives, mas falava ao telefone. Foi até lá e acomodou-se, mas ela já havia terminado a ligação.

— Jaime, que bom que chegou. Agora que já estão todos aqui, vamos ao que importa. — Ela falou guardando o celular no bolso. — Como já foi dito, temos um homicídio, mas, não há um corpo. — Fez uma pausa, todos a olhavam confusa. — A sra. Thompson entrou em contato com a polícia faz três dias para relatar o desaparecimento do seu marido Joseph Thompson, o dono das Thompson Inc, segundo ela, o marido havia saído para trabalhar, mas nunca chegou na empresa. O primeiro suspeito de sequestro, obviamente, foi o motorista, mas o homem foi encontrado morto em uma lixeira à duas quadras da sede, poucas horas depois do horário em que o sr. Thompson costuma chegar. O caso estava sendo mantido em segredo, pois a família não queria que a informação vazasse e nem que voltassem a ser alvo da mídia depois daquele escândalo em que se envolveram, até então, estávamos conseguindo manter a história entre nós. Eu mesma estava investigando o caso da morte do motorista e do possível sequestro, mas a situação saiu do controle. — A mulher suspirou. — Estávamos seguindo o procedimento padrão e aguardando um pedido de resgate. Mas o pedido nunca veio. A única coisa que veio foi um vídeo, enviada de um telefone descartável que foi encontrado na lixeira atrás da sede da Thompson Inc., onde o sr. Joseph Thompson é estrangulado no que parece ser um galpão abandonado. Silas e sua equipe estão analisando as imagens e tentando encontrar onde pode ser, mas, até agora, não tivemos sucesso. E, para piorar a situação, alguém vazou a informação para a mídia e agora teremos que lidar também com eles. A sra. Thompson ao saber da notícia passou mal e se encontra no Hospital Geral sob cuidados médicos. Agora, precisamos de todos vocês para conseguir encontrar o corpo e quem quer que tenha feito isso. Serão separados em equipes de quatro e cada um terá uma tarefa designada. Jaime, você lidera, separe as esquipes e seus respectivos trabalhos, você será meus olhos e ouvidos, nada passa por você sem que eu saiba. É isso, estão dispensados.

“Merda”, Jaime pensou. Odiava trabalho em grupo, e odiava as pessoas da Unidade tanto quanto odiava não ter a porra de uma folga. Ele sabia que precisava da equipa da Técnica e da equipe Forense, mas isso não significava trabalhar com eles todo o tempo como acontecia com os outros detetives. Eles eram chatos e sob os olhos de Jaime, meio burros. Camilla sabia daquilo e fazia para provocar Jaime, ele tinha plena certeza daquilo, com suas ideias estúpidas de união e trabalho de equipe para um melhor ambiente de trabalho. Para Jaime, trabalhos em equipe só faziam ele odiar ainda mais os colegas.”

Draco amava e odiava escrever. Ele amava por ser algo que ele fazia muito bem, e mesmo que nem sempre assumisse aquilo, no fundo, ele sabia que era um ótimo escritor. Mas ele odiava por ser tão crítico consigo mesmo e levar horas para conseguir fazer meia dúzia de parágrafos. Quando terminou de escrever aquela pequeno começo do seu novo livro, já estava amanhecendo e ele precisava desesperadamente dormir.

Na manhã seguinte, Harry passou o dia inteiro pensando se deveria ou não ligar para Draco. Ele, realmente, queria poder explicar para Draco a situação em que se encontrava, mas ele não podia, era algo que estava para além de Harry, afinal, não é como se aquilo envolvesse apenas ele.

Às vezes, Harry se perguntava se aquilo não seria uma espécie de culto. Já havia lido sobre cultos, e as vezes, principalmente me momentos como aqueles, em que se sentia “entre a cruz e a espada” é que Harry mais questionava a sociedade. Não era como se o Grão-mestre se colocasse como um deus na terra que eles deveriam obedecer cegamente, e tinha a coisa do título de Grão-mestre ser passado para outros membros do terceiro nível. Todos os membros tinham que pagar uma espécie de mensalidade, mas era usada para a manutenção do templo, qualquer membro poderia ver o livro-razão. O Grão-mestre não recebia “salário”, ele executava tal função por desejo próprio e por vontade da deusa. Celibato total era exigido? Sim, mas apenas no primeiro nível, como uma forma de se tornar puro para a celebração sagrada. Alguns passavam mais tempo do que outros, mas isso era culpa deles mesmos. Todos sabiam que o caminho seria difícil, e mesmo assim, haviam decidido trilhá-lo, por livre e espontânea vontade. Ninguém os havia obrigado. Não era como se tivessem um sistema de recrutamento. As pessoas iam em busca da deusa, e ela os levava até o tempo. Era simples. Talvez fosse um culto, talvez não, Harry já não sabia mais, o que sabia, era que não poderia continuar daquela forma, não poderia continuar se questionando tanto, questionando suas escolhas de vida e muito menos deveria deixar Draco metido nisso.

Enquanto tentava decidir o que iria fazer, o telefone de Harry vibrou, era uma mensagem de Hermione pedindo para que ele fosse encontrá-la junto a Ronald Weasley num café. Mandava junto o endereço e o horário no qual ele deveria estar lá. Harry, então, foi começar a se preparar para sair. Quando chegou ao café, algumas horas depois, os dois já estavam lá, sentados em uma mesa mais afastada.

— Boa tarde, Potter. — Hermione falou, sendo imitada por Ronald.

— Boa tarde, podem me chamar de Harry.

— Tudo bem, Harry. — Hermione falou meio sorrindo. — Primeiro, precisamos que você tenha plena certeza de que quer continuar. Sabemos que investiu bastante tempo na sociedade, mas, você ainda pode voltar atrás, não perdeu tanto tempo assim.

— Eu tenho certeza. — Harry falou, mas sua voz estava um pouco vacilante.

— Não, Harry. — Foi Ronald quem falou. — Você ainda não tem certeza. A ideia desse “treinamento” é simplesmente para que se abra conosco, sabemos que tem dúvidas, todos tem. Até mesmo nós.

— Sim, — Hermione voltou a falar, — não é como se você nunca mais pudesse sair da sociedade, você pode, sempre pode, só que, a partir de agora, suas responsabilidades para com a sociedade se tornarão maiores. É um novo nível, o que significa novas coisas a serem aprendidas.

— Sabemos que é uma decisão difícil, por isso estamos aqui, para te ajudar. Podemos ser seus amigos e confidentes e tudo o mais que precisar que sejamos. Estamos aqui, por você, e para você, Harry. — Ronald completou.

Eles pareciam boas pessoas, e falavam sempre com um tom calmo de psicólogos. Harry quase se sentiu em uma terapia. E, de certa forma, ele ate gostava daquilo. Sentia como se os conhecesse durante toda a sua vida e pudesse contar com eles para absolutamente tudo. Ele poderia estar divagando, afinal, haviam acabado de se conhecer, mas, ainda assim, era algo diferente. E assim, ele simplesmente deixou tudo correr como a correnteza de um rio.

Draco esperou uma ligação de Harry durante todo o dia, mas ela não veio. Nem sequer uma mensagem de texto. Ele odiava essas coisas de esperar pelos outros e decidiu tomar a iniciativa, mas não teve resposta. Talvez Harry estivesse com Hagrid. Ele sempre saia com Hagrid aos domingos. Sim, deveria ser aquilo. Draco não queria pensar na possibilidade de Harry o estar ignorando deliberadamente.

Quando a segunda-feira chegou, Draco estava esperando na frente da biblioteca antes de Harry abri-la. Ele havia acordado cedo para correr e simplesmente não havia conseguido ficar em casa sem fazer nada, queria ir logo, pelo menos estando na frente da biblioteca ele tinha com o que se distrair. Mesmo que a biblioteca não fosse muito movimentada, a rua em que se encontrava era, e um dos passatempos favoritos de Draco era inventar histórias malucas para as vidas das pessoas que ele via na rua.

Viu duas mulheres andando na rua de mãos dadas, uma tinha o cabelo vermelho gritante e a outra tinha os cabelos azuis. Draco pensou em uma pequena história, em que haviam duas vilãs, e elas se conheceram por serem inimigas do mesmo herói babaca, uma controlava o fogo, e a outra o gelo, e , de tanto passarem tempo juntas planejando como destruir o herói, acabaram por se apaixonarem, e quando elas estavam juntas, tudo se tornava uma intensa fumaça lilás.

Também viu um garoto jogando bola sozinho, mas antes que pudesse começar a pensar numa história para ele, Harry abriu a porta da biblioteca.

— Bom dia, Malfoy. — Harry falou parado com a porta aberta, esperando Draco se levantar.

— Bom dia, Potter. — Draco parou de frente para Harry. — Como foi o restante do seu fim de semana?

— Razoável. Me encontrei com alguns amigos, nada demais. — Harry estava sério, tanto quanto Draco, pareciam estar num funeral.

— Cheio de amigos, não é mesmo?

— Isso é ciúmes, Draco? — E então Harry riu, e seu riso quebrou toda a tensão do momento, e Draco riu também.

— Eu não sinto ciúmes.

— Não é o que está parecendo.

E então Harry deu a mão para Draco e o puxou para dentro da biblioteca, contudo, ao passarem, Harry trancou a porta e não tirou a plaquinha de “FECHADO”.

— O que está fazendo? — Draco perguntou curioso.

— Confia em mim, Malfoy?

— Talvez... — Draco falou meio desconfiado das intenções do bibliotecário.

— Vamos, confia em mim ou não?

— Confio.

— Ok. Vem comigo. — Harry falou, ainda sem soltar a mão de Draco.

O bibliotecário o levou para uma parte da biblioteca que ele não conhecia, era a área de funcionários, e foi naquele momento que Draco descobriu que Harry tinha uma sala só sua. O lugar não era muito grande, havia alguns livros espalhados, um sofá grande e que parecia bastante macio, com uma mesinha de centro cheia de papéis espalhados. Também havia uma lareira, mas Draco acreditava que ela provavelmente era parte da decoração, tão limpa que estava e também, a biblioteca tinha um sistema de aquecimento que passa por aquela sala.

— O que estamos fazendo aqui? — Draco perguntou quando Harry fechou a porta atrás de si.

— Eu não venho muito aqui, então, está tudo um pouco bagunçado. — E, de fato estava. — Esse é tipo um lugar secreto que eu nunca trouxe ninguém.

— Como se eu fosse engolir essa história de que sou o primeiro que você trás aqui no seu lugarzinho especial. — Draco falou rindo.

— Mas, diferente dos caras héteros e idiotas dos romances, eu falo sério. Eu nunca trouxe ninguém aqui, porque nunca tive ninguém que fosse importante o suficiente para trazer.

— Então, depois de me dar um fora, me ignorar o resto do fim de semana, agora eu sou importante?

— Você sempre foi importante, Draco, não se faça de tapado. Eu só precisava esclarecer algumas coisas.

— E agora já as esclareceu?

— Parcialmente. — Harry demorou para responder.

— Harry, eu gosto de você, de verdade. E por gostar de você é que não quero que tome nenhuma decisão precipitada por minha causa.

— Eu sei disso, e ainda estou resolvendo algumas coisas, mas, já tenho certeza o suficiente para fazer isso.

Harry então beijou Draco, beijou como nunca havia beijado ninguém em toda a sua vida. Abraçou Draco pela cintura e deixou que seus corpos se encostassem o máximo possível. E, quando Draco acariciou suas costas por entre o beijo, ele não o afastou. Ele simplesmente se deixou se levar pelo momento, e, embora sua consciência fosse pesar mais tarde, ele não se arrependeria. Havia beijado Draco como sempre quis desde que o viu entrar na biblioteca pela primeira vez, e não havia arrependimentos para aquilo. Poderia se resolver com a deusa depois.

Depois do beijo na sala de Harry nos fundos da biblioteca, os dois passaram o resto do dia trocando sorrisos bobos um para o outro. Uma das senhoras que frequentava a biblioteca notou e falou com Harry.

— Você e aquele rapaz, como é mesmo o nome dele? — Era a sra. McGonagall.

— Malfoy. Draco Malfoy. — Harry respondeu.

— Ele gosta de você. — Ela falou fazendo Harry ficar vermelho feito um tomate na mesma hora. — E você também gosta dele. Qualquer um pode ver. Deveriam estar juntos logo de uma vez.

— Sra. McGonagall, não é bem assim que as coisas funcionam.

— Vocês jovens parecem cegos para o amor quando ele surge diante dos seus olhos. Escute o que eu digo, garoto, esse rapaz Malfoy gosta de você, se eu você, pularia naquele homem e não soltava mais! — A mulher riu do próprio conselho. — Mas falo sério. Vocês formam um belo casal, deveriam estar casados já. Eu vi vocês todos esses meses, não sou cega, mas vocês parecem ser.

— Irei pensar no que a senhora disse. — Harry falou, ainda completamente corado.

— Esperarei o convite do casamento de vocês! — A mulher falou começando a se encaminhar para fora da biblioteca. — Até logo, Harry!

— Até logo, sra. McGonagall.

Não muito depois que a sra. McGonagall saiu, Draco apareceu no balcão de Harry.

— Vamos almoçar? Na minha casa. É perto daqui. — Draco falou, parecendo que havia passado a manhã toda pensando naquilo e em como falar quando chegasse a hora.

— Ainda não está na hora de fechar a biblioteca para o almoço. E na realidade, eu costumo almoçar aqui mesmo.

— Mas ela já está vazia, só estamos você e eu aqui.

Harry ponderou por algum tempo.

— Ok. Mas você me ajuda a fechar.

— Tudo bem! — Draco falou animado.

Harry trancou a porta da frente e pediu que Draco fosse desligar os computadores do andar de cima e que o encontrasse depois perto da sala de Harry. Draco e Harry acabaram por chegar lá ao mesmo tempo. O bibliotecário pegou sua mochila na sala e saiu junto com Draco pela porta dos fundos, como era verão, os aquecedores passavam o dia desligado, então não havia perigo algum.

— Você vem lá daquele fim de mundo para cá de bicicleta? — Draco perguntou quando viu Harry tirar a bicicleta e ir empurrando-a.

— Como acha que mantenho a forma? — Harry falou sorrindo.

— Deixa-me pedalar, por favor! Você pode vir na garupa. — Draco pediu, quase implorando.

— Tudo bem.

Draco montou na bicicleta e Harry na garupa, que normalmente usava para prender sua cesta de compras. Nunca pensou que a usaria daquela forma. Harry agarrou a cintura de Draco enquanto ele conduzia bicicleta pelas ruas de Londres.

Não demorou a chegarem ao apartamento de Draco. Era numa ruela meio apertada e sem saída, com pequenos prédios antigos e cheios de plantas nas sacadas.

— É tão bonito aqui, não acredito que nunca vi esse lugar. — Harry falou descendo da bicicleta.

— Acontece, Londres é uma cidade grande, querido.

— Algumas pessoas estavam nos olhando no caminho para cá. — Harry falou meio apreensivo. — Algumas sorriam, mas outras nos olhavam meio estranho.

— Está tudo bem, Harry. Não vou deixar nada acontecer contigo.

— Ei! Não preciso de um guarda-costas.

— Vamos fazer assim, eu tomo conta de você e você toma conta de mim. — Harry começou a rir. — O que foi?

— Isso é tão brega, Draco! — Harry falou recuperando o fôlego.

— E dai se eu sou meio brega? Acho melhor que se acostume com isso.

— Nunca achei que o nobre bad boy seria um romântico.

— Ei, todo mundo tem seus segredos! Não espalhe!

— Ok. Acho melhor entrarmos, não?

— Sim. Vamos. — Draco falou e puxou as chaves do bolso.

O apartamento de Draco era pequeno e simples e nem de longe tinha metade da arrumação da casa de Harry. Draco até tentava manter as coisas organizadas, mas era extremamente difícil, ainda mais quando passava o dia todo na biblioteca. Não era como se fosse cheio de sujeira e lixo, era só desorganizado. Havia panelas secando em cima da mesa pois a pia não tinha espaço e ele sempre esquecia de comprar um escorredor e sempre esquecia de guardar tudo em seu devido lugar, então acabava ficando tudo em cima da mesa até que ele fosse usar novamente, e então o ciclo continuava.

Havia papeis por todo o canto com anotações dos livros que Draco pegava, Harry sabia daquilo pois conseguiu ler por alto algumas delas antes que o outro as recolhesse. Draco perguntou se Harry gostava de macarrão com queijo e o outro acenou positivamente.

— Que beber alguma coisa, enquanto eu preparo? — Draco perguntou indo para a cozinha.

— Não.

Harry ficou no sofá enquanto Draco começava a separar os ingredientes, a cozinha ficava a poucos metros da sala e, a única coisa que as separava era a mesa de quatro cadeiras.

— O que você faz quando está aqui? Sozinho, quero dizer. — Harry perguntou tentando quebrar o silêncio entre ambos.

— Geralmente eu só para em casa para comer e dormir. Tenho passado grande parte do meu tempo na biblioteca.

— Mas e quando a biblioteca está fechada?

— Tento escrever, separo minhas anotações, dou uma olhada nos livros que trago para casa, e por aí vai.

— Você não sai com amigos, nem nada?

— Ultimamente, você e é a única pessoa com quem tenho saído.

— E os seus amigos?

— Casados e com filhos. Não tem mais tempo para sair para curtir como costumávamos fazer quando mais novos.

— Isso é péssimo.

— Até que não, eu meio que já me acostumei a estar sozinho.

— Embora, eu imagine que você nunca realmente está sozinho.

Draco ficou um pouco envergonhado.

— É, talvez não.

— Bem, não precisa ficar com receio de me falar nada. Não é como se eu fosse ter um ataque de ciúmes ou algo do tipo. Já sou um garoto crescido, Malfoy.

— Tudo bem. Pode me passar aquela panela ali, a vermelha. — Draco falou apontando, as mãos completamente sujas de tempero. — Obrigado.

Harry se sentou numa das cadeiras da mesa, próximo ao pequeno balcão onde Draco cortava as coisas e jogava dentro da panela.

Os dois conversaram sobre as mais variadas coisas, e as vezes, Draco pedia para Harry se aproximar e provar um pouco do que ele estava fazendo, apenas como desculpa para dar-lhe um beijinho logo em seguida.

Depois do almoço, os dois ainda ficaram bastante tempo no apartamento de Draco, conversando e trocando caricias no sofá como dois adolescentes que acabaram de se apaixonar pela primeira vez. Mais tarde, quando voltaram para a biblioteca, Draco foi na garupa e Harry pedalando, embora Draco não fosse o melhor dos caronas e ficasse sempre distraindo Harry, quase o fazendo perder o controle do guidom. Era completamente estupido e eles poderiam cair, mas não aconteceu, então Harry achou fofo, no fim das contas. Quando chegaram na biblioteca, só ficaram poucas horas, antes de Harry ter que fechá-la novamente. Apesar de que, além de Draco, ninguém mais apareceu na biblioteca aquela tarde, nem mesmo a sra. McGonagall.

No dia seguinte, Draco convidou Harry para almoçar em sua casa novamente, mas, como o bibliotecário havia reclamado de ter chegado muito tarde na biblioteca, Draco já havia deixado tudo pronto, sendo necessário apenas por no forno por alguns minutos, e, como já estava quase pronto, tiveram mais tempo para ficarem feito bobos no sofá, enquanto esperavam a comida ficar pronta.

Era uma quinta, várias semanas depois de Harry e Draco terem começado o que parecia ser um namoro, nenhum dos dois havia puxado o assunto, e nenhum dos dois parecia se importar com aquilo, era bom do jeito que estava. Harry continuou se encontrando com Ronald e Hermione, quase todos os fins de semana e as vezes durante a semana também, eles saiam para tomar um café ou algo do tipo, apesar da ideia ser deles se tornarem amigos de Harry e ajudá-lo a alcançar o próximo passo, acabaram por ajudar Harry a se afastar da sociedade. Não era a intenção deles, obviamente, contudo, depois de muita conversa, ficou decidido de que aquilo era o melhor tanto para Harry quando para a sociedade.

— Você está completamente apaixonado por esse cara. — Rony falou, enquanto Harry sorria feito bobo usando a caneca de café para disfarçar.

— Totalmente! — Hermione quem disse. — E ele parece estar lhe fazendo bem. Acredito que tenha sido bom tirar esse tempo. Sei que o Grão-mestre não é totalmente a favor disso, e nem dessa nossa amizade, mas ele entende. Acima de qualquer coisa, ele entende, e respeita a sua decisão.

— E é por isso que ele é o Grão-mestre. — Rony completou.

— Vocês nunca me contaram como se conheceram. — Harry disse mudando subitamente de assunto, não queria que continuassem falando sobre ele e sobre seu afastamento da sociedade.

— Toda a minha família faz ou já fez parte da sociedade. Então, era meio óbvio que eu faria parte também. — Rony falou.

— E eu descobri a sociedade alguns anos atrás, quase por acaso. Nos conhecemos lá, fomos selecionados juntos para partir para o segundo nível e acabamos ficando bastante próximos, e o resto acredito que dê para imaginar.

— Me pergunto como seriam as coisas se eu conhecesse o Draco como vocês se conheceram.

— Certamente o relacionamento de vocês não seria o mesmo. — Hermione disse e pegou na mão de Harry. — Ter um relacionamento dentro da sociedade é completamente diferente de um aqui fora. Digamos que, a emoção não é a mesma.

— Acham que teria sido melhor se eu houvesse continuado na sociedade e esquecido de Draco para sempre?

— Não, Harry. Não, muito longe disso. Você está seguindo o seu coração, e estando ou não na sociedade, é isso o que importa para a deusa.

— Se fosse assim, Rony, então não haveria necessidade de haver uma sociedade.

— Harry, querido, uma das coisas que aprendemos ao chegar no segundo nível, e aqui vou lhe contar apenas por confiar muito em você, é que a deusa não pode ser esquecida, se todos decidirem deixar o culto, ela entrará no esquecimento e irá enfraquecer e desaparecer. Nossa função é mantê-la viva. E você pode fazer isso, estando ou não como um membro ativo da sociedade. — Hermione falou com um ar de professora simpática que ela sempre tinha quando ia explicar alguma coisa.

— E se Draco entrasse na sociedade também? Eu poderia continuar, certo? E ele também?

— Mas é claro, contudo, tenho dúvidas se ele realmente seria capaz de se entregar a deusa.

— Eu posso falar sobre isso para ele?

— Não sei se seria adequado.

— Eu posso ao menos tentar, por favor? De um jeito ou de outro, já estou mais fora do que dentro da sociedade.

Hermione suspirou e pensou um pouco a respeito.

— Tudo bem. Mas, por favor, não diga nada que possa nos comprometer.

— Não irei.

Mais tarde, quando Draco chegou em sua casa, Harry disse que precisavam conversar. Draco estava nervoso e com medo do que aquilo poderia significar, mas foi mesmo assim, e, de qualquer forma, não havia como evitar.

— O que houve? — Draco perguntou assim que se sentaram no sofá da sala da casa de Harry.

— Você confia em mim? — Harry perguntou e o outro assentiu positivamente. — Estaria disposto a abrir mão de todas as suas crenças e pensamentos? — Harry perguntou segurando as mãos de Draco.

— Do que você está falando?

— Lembra daquela sociedade secreta que você anda procurando? — Harry perguntou e o outro assentiu positivamente. — Eu, talvez possa saber algumas coisas sobre ela. Informações que você nunca vai encontrar em nenhum livro daquela biblioteca.

— Mas... — Draco parou um instante. — Isso só seria possível se você fosse um membro... — Harry assentiu positivamente. — Não. Não é possível, todo esse tempo...

— Desculpe por isso, mas, não é como se eu pudesse sair contando a todo mundo.

— E por que agora?

— Porque eu estou quase fora da sociedade, e tudo isso só está acontecendo porque você apareceu na minha vida.

— Como assim, Harry? Está me deixando ainda mais confuso.

— Durante algum tempo, precisamos manter o celibato, para poder subir de nível lá dentro, e eu estava quase conseguindo, então você apareceu. Houve um tempo que eu tentei me manter celibatário, já havia passado tanto tempo, o que seriam mais alguns meses? Mas, se tornou impossível. Quando te levei para minha sala lá na biblioteca pela primeira vez, eu havia decidido me afastar da sociedade, e ver no que isso, — ele apontou para si e para Draco, — iria dar. E deu que eu me apaixonei perdidamente por você. — Era a primeira vez que Harry dizia aquilo. — E eu não posso continuar na sociedade, se estiver com você. Mas, você pode entrar nela comigo.

Era bastante informação para uma noite só. Draco não sabia como responder e não sabia dizer o que, de tudo o que Harry havia lhe contado havia tipo maior impacto: que ele fazia parte de uma sociedade secreta ou que ele o amava.

— Draco, por favor, diz alguma coisa. — Harry falou depois de Draco se manter em silêncio por vários minutos.

— Eu não sei o que dizer. Só, não sei.

— Você precisa de um tempo?

— Definitivamente, mas não um tempo de você. Eu preciso de tempo para pensar? Sim. Mas, eu te amo e não quero me afastar de você por nenhuma razão.

Os dias que se seguiram não foram os mais simples, nenhum dos dois falava a respeito daquela noite e agiam como se nada tivesse acontecido. Contudo, Draco não parava de pensar no que Harry havia lhe contado. De uma coisa Draco tinha certeza, havia sido necessária muita coragem para Harry fazer o que fizera e contar tudo à Draco e ainda ter se afastado da sociedade. E, além disso, havia a proposta: entrar na sociedade. Por um lado, Draco iria saber tudo o que os livros não lhe contaram, por outro, não poderia contar nada daquilo a ninguém. Também, mesmo adorando as histórias de sociedades secretas, nunca havia pensado em si mesmo participando de uma. Parecia algo impossível, completamente impensável. Ele apenas conseguia imaginar o quanto aquilo deveria significar para Harry e o que havia lhe custado abrir mão de tudo, mas, ele realmente estaria disposto a fazer um sacrifício daqueles, de aceitar uma crença completamente nova em prol do homem que amava?

A resposta veio mais rápido do que ambos esperam. Numa noite, enquanto dormia, Draco teve um sonho. No sonho, ele estava se casando com Harry. Ambos usavam ternos brancos e havia flores por todos os cantos, na frente deles, um homem de túnica roxa fazia a celebração, e, atrás dele, havia uma mulher. Ela estava nua, mas aquilo não parecia incomodar a ninguém, seus cabelos eram encaracolados e desciam até as nádegas, sua pele era escura e parecia reluzir feito ouro. Toda ela parecia ter sido esculpida do melhor mármore e pelo melhor dos artistas, ela era perfeita, divina. E ela estava abençoando o casamento de ambos. Quando chegou a hora de consagrar a união, a mulher deu um passo a frente e o homem a deixou passar. Ela segurou a mão dos dois e fez uma breve oração, então, juntou as duas e disse “podem se beijar”, e sorriu. E quando seus lábios tocaram os de Harry, Draco acordou e sabia o que tinha que fazer.

Saiu de casa e ainda nem havia amanhecido, pegou o primeiro táxi que apareceu e partiu para a casa de Harry. Ainda era cedo e estavam no inverno, o que queria dizer que ele ainda não havia saído de casa, pois precisava esperar pelo primeiro ônibus que passava em seu bairro. Quando o táxi parou na frente da casa de Harry, ele estava saindo de casa.

— O que você está fazendo aqui a essa hora da manhã, Draco? — Harry perguntou surpreso ao ver o outro ali.

— Preciso falar com você, agora.

— Estou indo para a biblioteca.

— Mas é importante.

— Eu vou ser demitido qualquer dia desses, graças a você. — Harry falou tentando parecer bravo, mas sorriu logo em seguida e voltou a abrir a porta da casa.

Quando entraram dentro da casa, Draco nem ao menos se sentou e já foi logo dizendo.

— Tenho plena consciência de tudo o que você teve que abrir mão para estar aqui, comigo. — Draco começou, parecia estar tentando encontrar as palavras corretas. — E eu sei, agora eu sei, que estou disposto a fazer o mesmo por você.

— Isso quer dizer o que eu acho que quer dizer? — Harry perguntou abrindo um sorriso.

— Sim. — Draco sorriu de volta. — Vou entrar. Por você, e porque sei que a deusa aprova a nossa união.

— E como você sabe?

— Eu... só sei. — Draco falou sorrindo e então beijou o outro.

Ainda levou algum tempo até que a entrada de Draco fosse aprovada e que Harry fosse readmitido, mas eles foram aceitos. Era difícil para Draco saber tudo o que ele sempre quis saber sobre a Ceux Quia Ont Été Electi, inclusive o seu nome, e não poder colocar tudo aquilo no seu livro, livro esse que ele precisou deixar de lado. Não completamente, por motivos óbvios, ele jamais deixaria um livro pela metade, mas, ele precisou remover tudo o que tratava da Quia Electi, e, ao invés de falar de uma sociedade secreta já existente, ele criou uma nova, mas aquilo foi algo que lhe deu bastante trabalho, ainda mais com tudo o que tinha que aprender sobre a Quia Electi.

No fim, quase quatro anos se passaram até que Draco e Harry pudessem seguir para o próximo nível, e pudessem, enfim, casar-se. O antigo Grão-mestre, Gui Weasley aposentou-se e Hermione assumiu seu lugar. Apesar de não ser a primeira Grã-mestre da sociedade, foi a primeira a tornar a sociedade mais aberta e mais acessível. Hermione foi a primeira a mudar os antigos rituais e deixá-los mais humanos, a fim de trazer mais seguidores da deusa. O que deu bastante certo, ao fim do seu mandato, a Ceux Quia Ont Été Electi era a religião com mais seguidores do Reino Unido.

Harry e Draco casaram-se numa tarde de sábado, no grande templo de Londres da Quia Electi, todos os membros estavam ali, e Hermione foi quem presidiu a cerimônia, ambos estavam usando branco e Hermione usava uma túnica roxa. Todo o lugar era decorado com belas e perfumadas flores e, enquanto a cerimônia era finalizada, ambos podiam sentir a presença da deusa, abençoando aquela união.

Harry continuou sendo um bibliotecário, mesmo com os altos e baixos da sua profissão em meio ao mundo digitalizado, e Draco, um escritor, compraram uma casa fora da cidade, e eram próximos a Hermione e Rony, os quatro se tornaram grandes amigos, e sempre que podiam, visitavam Hagrid e Olímpia em Londres, ambos eram sempre tão bondosos com eles. Assim como a sra. McGonagall, ela foi uma das primeiras que Harry convidou para seu casamento, contudo, não viu o desenrolar dessa união, pois faleceu algumas semanas após o casamento.

Mesmo com tudo o que aconteceu ao longo dos anos, as brigas, e quase separações, eles se amavam demais para tal, não conseguiam ficar muito tempo brigados um com o outro e assim, nunca se separaram de verdade. Dizer que viveram felizes para sempre seria uma mentira, ninguém é feliz todo o tempo, mas eles se mantiveram juntos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, assim sendo até o fim de seus dias.

10 октября 2019 г. 16:44:15 0 Отчет Добавить 0
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Lollys Mars Desde 2012 escrevendo altas merdas por ai.

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