A GAROTA DO CEMITÉRIO Подписаться

anapaulaclara Ana Paula Clara

'Já estou aqui há muito tempo. Há tanto tempo que eu poderia ser facilmente confundida com uma das lápides ou com os corvos que assombram esse lugar. Mas não é como se pudessem. Fora Jack e as almas que eventualmente passam por nosso cemitério, ninguém mais pode me ver. Mas isso não significa que eu não esteja observando.' Numa noite aparentemente normal de verão, há uma substancial quebra de padrão. O mal que veio assombrar os mortos e ser o terror dos vivos não contava com a vingança de uma deusa e de garotas que não tinham voz, e nem que sua única testemunha seria um fantasma.


Короткий рассказ 13+.

#AnaPaulaClara #vingança #cemitério #deusa #fantasma #paranormal
Короткий рассказ
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A TESTEMUNHA FANTASMA

Eu sou a garota do cemitério. Sou a garota que está aqui há mais tempo do que eles podem imaginar. Sou a testemunha que ninguém pode ver.

Assisto a chuva fria cair na relva enquanto o limo se espalha lentamente, dia após dia, por décadas, sobre as pedras frias e cinzentas do cemitério. Assisto a mais um dia partir e se tornar noite, enquanto o mundo fora do cemitério funciona e ninguém me vê.

Do topo da minha lápide, vejo amores se findarem na terra. Promessas vazias perdem seus propósitos, antigas dores se dissolvem e tomam uma nova forma, como um dia de verão que esmaece, como a chuva morna que cai sobre a terra fria e solitária.

Como os visitantes que recebi naquele longo dia de verão, que desbotou até se tornar um espaço oco no universo onde só existem figuras insólitas, um cemitério abandonado e uma testemunha fantasma.

Gosto de vermelho, como o das camélias que nascem ao sopé da colina, como o sangue tingindo a água límpida de uma banheira branquíssima vitoriana, o sangue deixando minhas veias num ritmo lento e constante, o ritmo funesto qual a vida se esvaiu de mim. Assim como no dia em que morri, ela também usava um lindo vestido vermelho. Enquanto me resta apenas a lembrança de um vestido sublime e pesado, o dela tem alças finas, o tipo de vestido que só se usa quando o inverno cruel parte.

Algo cruzou o rosto dela, um reconhecimento perverso. Por um momento, pensei que tivesse me visto, mas seus olhos se perderam, e vagaram para além de mim. Ela não me viu. Como poderia? Só ele podia me ver, e ele não estava presente.

Ela caminhou cambaleante entre pedras e raízes. Jack já não cuidava desse lugar com o mesmo esmero de antes. Com qual finalidade? Ninguém mais vinha aqui.

O homem de casaco azul veio logo atrás da garota de vestido vermelho; seu cabelo ruivo brilhou à luz da lua pálida que logo foi engolida por nuvens. Não tardou para que as lágrimas do céu caíssem sobre nós.

Ela já chorava pela alma daquela pobre moça.

A garota parou como se houvesse um comando, e ele a agarrou pelo cabelo. Era preto e lustroso, e estava grudado ao rosto débil. Usava um fino colar de pérolas na garganta fina.

Houve uma quebra no padrão naquela noite: ele usava luvas vermelhas. Ele sempre usava luvas azuis. Era um detalhe muito peculiar para um assassino.

Sentei sobre as mãos. Queria que Jack estivesse aqui. Nunca é fácil ver a vida ecoar tão cruamente da boca de alguém. Mas acho que é mais cruel morrer sozinho. Afundar no infinito e não ter outra alma para te guiar para onde você deva ir. Acho que nunca sabemos ao certo para onde ir. E quando se está morto, a confusão é ainda pior.

Era tão solitário estar viva quanto morta. Sou tão importante agora quanto estava viva. A menina do vestido vermelho e colar de pérolas é importante para alguém? Alguém sentirá falta dela no café da manhã? Alguém lhe disse adeus? Porque quando seu corpo for soterrado e entregue ao cemitério, Jack, o assassino da luva vermelha e eu seremos as únicas testemunhas. Ninguém nunca mais a verá, só eu.

Nós sabemos o que ele é. Sabemos o que ele faz. Ele tira o melhor das pessoas, e só deixa uma carcaça vazia para trás. Talvez um dia ele seja a caça de alguém, e aqueles deixados para trás acertam suas contas com ele. Mas, até lá, seremos apenas testemunhas silenciosas de um crime despropositado.

Mas você não pode perturbar os mortos. Pelo menos, não por muito tempo. Jack também costuma conjecturar essas palavras. C-o-n-j-e-c-t-u-r-a-r. Gosto de palavras difíceis. E gosto desta em particular. Uma palavra tão consistente para alguém tão insubstancial como eu.

A terra vinga. O homem da luva vermelha teria percebido isso se prestasse atenção nas promessas dos que morreram. Ainda que repousem no leito infinito do vazio, suas palavras não morrem. Elas permanecem vivas como promessas e queimam pela eternidade. Mas eu percebi. E pelo visto, Jack também e por isso partiu. Eu serei a única testemunha esta noite.

Noites de verão são perigosas. Uma velha senhora costumava me dizer isso. Noites de inverno são frias demais, nem os fantasmas se levantam. Noites de outono são preguiçosas, e noites de primavera são para os amantes. Mas as noites de verão são as piores, coisas grandiosas acontecem, coisas que devem ficar registradas apenas nas memórias daqueles que devem lembrar.

Mas eu não preciso lembrar. Ele não me matou. Sou apenas uma testemunha. Eu só preciso assistir. Guardarei apenas o momento, o leve trepidar dos galhos antes da suspensão final, do emudecer da grandiosa sinfonia da noite que se calou como se sua voz fosse cortada pelo fio de uma navalha. A funesta canção do cemitério se calou; apenas o vento uivava para engolir os sons que não podiam ser ouvidos por aqueles que não deviam testemunhar aquela noite.

O homem da luva vermelha não percebeu a morte do som, um silêncio forçado de uma nota retesada que guardava possibilidades mortais.

Eu não preciso lembrar, mas quero. Me agarro a essas lembranças para reconstituir minha morte negada. Quero lembrar de como ele tocou a garganta dela, e, delicadamente a deitou sobre um túmulo de pedra cinza e gasta. Era um carinho com gosto de sacrilégio, um beijo antes da dor.

Ela fechou seus olhos negros e muito brilhantes, como se guardasse estrelas neles, e seu cabelo de sombra ondulou ao redor de sua cabeça, coroando-a com uma auréola de piche.

Quero lembrar, mesmo que eu não deva. A noite tinha cheiro de morte e flores queimadas, como as oferendas feitas às grandes deusas. Eu conhecia suas histórias. Eu conhecia suas possibilidades.

Ela era para o homem da luva vermelha uma obra de arte prestes a ser findada. O momento de sua morte era o ápice, a combustão, o lampejo grandioso e final, uma estrela deixando de existir.

O homem da luva vermelha fechou seus dedos ao redor da lâmina prateada, que brilhou em meio à luz esmaecida de uma lua chorosa. Em seu brilho, tive um vislumbre de meus olhos brilhantes e injetados, famintos de uma fome insaciável. A face da morte refletida em meus olhos, uma marca gravada na alma.

A chuva suspendeu, e se eu tivesse fôlego, eu o guardaria para mim, para não perturbar a grandiosidade do momento. A faca desceu, furtiva, veloz, e quando trespassou a garganta da menina de cabelo negro, o metal raspou contra a pedra. O homem assombrou-se; com um suspiro e um ofego, a menina se dissipou em pura névoa negra, e não restou sequer uma pérola para provar que ela esteve de fato, lá.

Houve um fulgor gelado à minhas costas, e não precisei olhar por cima dos ombros para saber que todas aquelas garotas que haviam sido deixadas para trás e perdido sua voz estavam aqui para assistir o grande espetáculo.

A figura imponente, trajando agora um longo e suntuoso vestido vermelho, juntou-se a elas. Usava uma coroa dourada com pequenas penas entre as ondas de piche e sombras, e mesmo sob a luz difusa, sua pele escura luzia. O homem da luva vermelha não podia vê-la, mas todas nós sabiam quem ela era e de onde vinha. Uma balança minúscula se equilibrava na mão esquerda, mais como uma joia, um adorno, do que um artefato do destino que era capaz de decidir sobre a vida de todos os mortais.

Ainda que eu não precise estar aqui, permaneço imperturbável em meu túmulo. A terra se partiu numa rachadura tenebrosa e negra, e uma mão de osso irrompeu o solo e agarrou as canelas do homem. Seus olhos endureceram de pavor; e quando abriu a boca para gritar, nenhum som deixou sua garganta. Suas palavras foram engolidas pelas garotas que não tinham voz.

O homem da luva vermelha tombou sem equilíbrio, duro, e mais mãos saíram da rachadura negra e sulfurosa e o agarraram pelo casaco azul, deixando-o em farrapos. E sem voz, ele foi engolido e desapareceu no leito da terra, que se fechou como se nunca tivesse abrido e engolido um homem para seus mais profundos reinos, deixando apenas uma cicatriz pálida na relva. Qualquer um poderia dizer que era apenas uma raiz revolta na terra, ou um pedregulho enterrado, e não que ali um assassino foi julgado pela terra e por ela foi engolido, tornando-se parte do cemitério. Se foi a vingança da deusa ou o fruto da dor das garotas sem voz, eu não sei dizer.

Os grilos cantaram, e a chuva fria voltou a cair sobre nós. A nota tensa e suspendida se desfez, e escutei novamente a melodia natural do cemitério, digna de uma aparente e calma noite de verão. Não havia mais almas ali; a figura insólita e magnífica havia partido também. Só havia espaço para uma alma naquele cemitério. Não era um lugar para quem não tinha voz. Naquele pequeno pedaço de terra abarrotado de lápides tombadas, só havia espaço para um fantasma que gostava de palavras pesadas e substanciais.

Os passos ligeiros e mancos de Jack amassaram as folhas atrás de mim. Virei apenas para assistir seu perfil obscuro. Ele foi até a cicatriz na terra e recuperou o punhal, qual colocou numa caixinha prateada.

― Para não esquecer― garantiu e mancou de volta para sua cabana.

Mas eu não esqueceria. Eles me deixaram para trás e nunca me deixariam esquecer. O homem da luva vermelha não era o primeiro e não seria o último. O mal voltaria para perturbar a frágil paz do cemitério, usasse uma luva vermelha ou não. Ele sempre voltava. E eu seria sua única testemunha.





'Nenhum vizinho foi espionado para a criação desse conto'.

Brincadeira. E você só vai entender essa piada se leu SOB A LENTE DE UMA LUPA, onde eu falo sobre vizinhos curiosos e opiniões tomadas sem o completo conhecimento da verdade. Fique à vontade para ler.

Se chegou até aqui, muitíssimo obrigada por ter lido. Se gostou, você já conhece todo o procedimento: vote, e se gostou, deixe um comentário. Ou uma deusa vingativa vai puxar seu pé quando você for dormir.

2 октября 2019 г. 16:04:33 3 Отчет Добавить 5
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Об авторе

Ana Paula Clara Sou uma escritora voraz e uma leitora faminta, leio tantas coisas ao mesmo tempo e às vezes acho que vou ficar doida. Amo anime e mangá, e se eu não escolhesse escrever, certamente teria uma banda de rock. Encontrei na escrita a porta para outros mundos fantásticos quais eu os convido para visitar comigo. Este é meu pequeno pedaço de paraíso, e se quiserem me conhecer melhor, sejam todos bem-vindos.

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Jp Santsil Jp Santsil
Outro Grande abraço!
31 октября 2019 г. 11:47:45
Jp Santsil Jp Santsil
Olá, Ana Paula Clara, felicitações literárias. Primeiramente, parabéns pela verificação do seu conto, e, como não quero ser puxado pelos pés na minha cama, pela sua deusa, resolvi fazer esse comentário. Brincadeirinha... rs! Li o seu conto ‘GAROTA DO CEMITÉRIO’ e fiquei impressionado pela infinidade de detalhes no decorrer de tamanha pérola narrativa. Fui totalmente envolvido no conto, sua narrativa ambientalmente repleta de detalhes do espaço do cemitério fez com que minha mente criasse todo um cenário geograficamente imaginativo em 3D, pelo qual me senti onisciente vivendo o conto além da protagonista. Por sua capacidade esplendorosa de narrar um conto envolvente e atrativo, em que aquele(a) quem o ler se perderá na imaginação de sua mágica escrita, lhe parabenizo por tamanha proeza e façanha literária. Peço que nunca pare de nos privilegiar com suas fantásticas histórias. Parabéns mais uma vez, pela boa escrita e coerência na narrativa. Quero apenas apontar algumas mínimas possíveis correções, que ao ser analisadas de um ponto de vista externo (leitor), poderá polir um pouco essa pérola narrativa, deixando com que sua beleza se torne ainda mais luminosa. São só pequenos errinhos, que posso concluir que foram falhas na sua digitação, como: o subtítulo ‘A TESTEMUNHA FANTAMA’ sendo que você esqueceu de digitar um ‘s’, que ao ser notado seria ‘A TESTEMUNHA FANTASMA’. E, outro pequeno errinho na digitação: 'deixando- em farrapos' enquanto seria 'deixando em farrapos' sem o traço. Fica ao seu critério a pequena correção. E, pessoalmente gostei muito da sua escrita, tendo magia imaginativa em seu contexto, por isso, chamo-o de pérola. Tenha boas inspirações e as escreva, pois estamos ansiosos pelo que vem por aí. Grato!
25 октября 2019 г. 5:45:20

  • Ana Paula Clara Ana Paula Clara
    Olá, Jp Santsil, tudo bem? Em primeiro lugar, obrigado por apontar os erros na história, como você pode imaginar, quando um autor é também o editor, ele fica viciado no próprio texto e acaba não vendo pequenos erros como esse, que já foram devidamente corrigidos, então, gracias! Minha deusa é fogo, muita sabedoria da sua parte escutar meu conselho :D Obrigada por este comentário tão inspirador. Fiquei muito feliz ao receber um feedback tão rico. Gosto de descrições ricas, sei que tem leitores que preferem contos mais ágeis, mas gosto de ambientar e dar um norte muito específico para o leitor, para que ele seja capaz de calçar os sapatos dos meus personagens e enxergar através dos olhos deles, e se você conseguiu ver com clareza todo aquele cenário desolado, sinto que pelo menos com você eu cumpri com minha meta, e isso me deixa imensamente feliz, e mais obstina a melhorar. Estou preparando novos contos; estudando e buscando mais fontes de inspirações. Em breve, apresentarei novos trabalhos. Obrigada mais uma vez, e espero encontrar você por aqui mais vezes. Um grande abraço e tenha um grande dia. Ah, como hoje é Halloween, desejo-lhe muitas travessuras e gostosuras. Até logo ;) 31 октября 2019 г. 8:01:31
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