SOB A LENTE DE UMA LUPA Подписаться

anapaulaclara Ana Paula Clara

De sua janela, Bernadeth assiste a vida aparentemente perfeita de John e Suzy. Mas enquanto o restante da vizinhança se convence com a felicidade do casal, Bernadeth consegue ver além dos sorrisos perfeitos e esnobes de Suzy. Enquanto John, o jovem marido apaixonado se ilude com o amor de sua bela esposa, a vizinha sabe que é questão de tempo até Suzy partir o coração de John. O que Bernadeth não sabia era o quão longe Suzy podia chegar, até que numa noite tranquila, ela testemunha um crime de sua janela. Agora cabe a vizinha desmascarar Suzy e fazer justiça ao pobre marido morto.


Короткий рассказ Всех возростов.

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Короткий рассказ
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O cão, a megera e as roseiras

― Ainda te mato e te enterro no quintal!

Os lábios pintados de carmim reluzem quando proferem essa infâmia. John ri, deliciado. Pobre homem, seduzido pela beleza de sua jovem esposa. Mas eu não posso ser enganada pelo cinismo de Suzy. Eu sei o que ela é. Mas John não vê o quê eu vejo.

― Pingo!― ela perde a compostura quando o golden retriever de John entra na cozinha, sujando de lama o piso lustrado. ― E seu cachorro servirá de adubo para minhas roseiras!

― Mate o homem, mas poupe o cão, querida― John tira o esfuziante Pingo da cozinha, e Suzy bufa irritada enquanto limpa o chão carimbado pelas patas do animal. John não se demora e dispõe os pratos sobre a pequena mesa da cozinha e sorri gentilmente para mim. Com tristeza, só posso pensar no quanto bom e desafortunado John é.

Ele espera para servir o jantar enquanto Suzy tira seu avental rosa claro sem manchas, e o pendura ao lado da pia. Ela lava suas mãos branquíssimas e macias, e vejo o diamante de seu anel de noivado brilhar. Ela o ostenta com soberba, enquanto com a outra mão exibe sua aliança cravejada de brilhantes para as outras esposas do bairro. Ela sabe que não é como as outras, sabe que tem vantagem sobre todas, e não se cansa de mostrar isso a todo momento.

Desafortunado John. Quando olho para este homem, eu o vejo condenado. Sua adoração por aquela mulher diabólica o coloca aos pés dela. John é um escravo à mercê de seus soberbos caprichos.

Ele sorri quando ela passa ao seu lado, esvoaçante em sua saia de pregas. Inala seu perfume, se inebria, e sei que está descendo cada vez mais fundo.

Conheço homens como John. Sei o que mulheres como Suzy fazem com eles.

― Você cozinha muito bem, querida― diz John maravilhado, seus olhos brilham― , mas só porque temos visitas você resolveu caprichar?

― Não seja bobo. É o mesmo frango assado com ervilhas de sempre― ela sorri com falsa modéstia, e pede para que nos sentemos, mas John recusa.

― Você fez todo o jantar e limpou o chão. O mínimo que posso fazer é nos servir. Não é mesmo, Deth?― só posso assentir. Se abrir a boca, deixarei John saber o quanto lastimo por ele.

― Não o mime, Deth― Suzy diz, mas sinto o escárnio em sua voz quando me chama de Deth. Quando me apresentei, há três meses àquele jovem casal, disse que poderiam me chamar de Deth, já que Bernadeth é um nome longo demais. Mas eu não sabia que ela usaria aquele tom.

John nos serve, e é todo sorrisos para Suzy. Quando prova o frango, a venera com seus elogios. Honestamente, o frango passou do ponto e está seco demais, e tem exatamente o mesmo sabor do frango que compro pronto, e todo trabalho que tenho é o de me livrar da embalagem. Compensa no tempo, mas peca no sabor.

― Qual é o segredo?― pergunto, e espero que ela entenda. ― Para o frango ficar perfeito assim?

Quero que a máscara dela caia. Quero que John veja o tipo de mulher com quem se casou.

― É curry― sorri e mexe os ombros finos com desdém. Ela sabe que eu sei, e isso não a ameaça nem um pouco. ― Deixa o frango saboroso e corado. John adora.

Para mim, o frango tem gosto de mentira.



Estou assistindo minha novela quando os ouço discutir. Não era constante, mas vinha se repetindo num ritmo preocupante, sempre quando John se preparava para partir à trabalho para Charlottetown.

John nunca a enfrentava, apenas se defendia das ofensas despropositadas daquela mulher. Um homem como John jamais alteraria a voz contra um mulher, mesmo a mulher vil com quem se casou.

Abaixo o som da TV e me sento à beira da janela, e vejo Suzy sair do banheiro chorando. John tenta acalmá- la, mas ela o empurra, deixa o quarto e vai para a cozinha. As coisas sempre terminam assim, com Suzy bebendo sozinha na sala envolta pela penumbra.

As discussões tarde da noite, sempre pontuadas por choro e bebida eram diferentes das discussões em que John queria assistir aos programas governamentais, enquanto Suzy queria assistir aos programas de culinária e aos canais de venda.

Eles vinham tendo aquele tipo de discussão desde que se mudaram três meses atrás; ela sai do banheiro aos prantos e furiosa, e o mira com ódio. Ele tenta consolá-la, mas ela o repudia e se entrega a um choro desenfreado e caprichoso. Na primeira vez ela se jogou na cama e começou a socar o colchão e sufocar seus gritos no travesseiro.

John a consola com doçura e desespero. Que homem adorável ela tem, mas não é o bastante para Suzy, que desdenha daquele presente divino. Ela se levanta tão tempestiva quanto uma trovoada e sai do quarto aos urros e maldições.

John apenas se senta na cama e apoia a cabeça nas mãos, e a escuta destruir o que encontra pelo caminho.



Na semana que se passa, John e Suzy fazem de tudo para parecerem bem, mas eu sei que não estão. John não economiza esforços para mimá- la: troca seu carro conversível por um maior, um carro de homem casado. Ela sorri um pouco e o abraça no meio do jardim, usando uma calça branca e uma frente única florida. John a ergue nos braços e a gira, e seu riso é pura encenação.

Que mulher materialista, dissimulada! Mesquinha, ambiciosa e cruel! Santo Deus, como John pode ter sido castigado assim?



Eles se deitam cedo, e com a calmaria acabo adormecendo no sofá. Acordo no meio da madrugada com um baque, e a porta de um carro batendo. Levanto e vejo Suzy na entrada da garagem com os olhos arregalados e as mãos cobrindo a boca, assustada.

― Suzy?― ela toma um susto e engole um grito. Olha para os lados até me ver na janela. ― Está tudo bem?

― S- s- s- i- i- m― o queixo dela treme. ― Digo, nã- não é nada demais― ela se abaixa, e a perco atrás da cerca. Ela soluça e se ergue. ― Eu só...só...guaxinins na lata de lixo! É isso, malditos guaxinins.

Pela pouca iluminação, Suzy parece branca como papel.

― Tem certeza de que não aconteceu nada? Onde está John?

― John precisou sair.

― Sem o carro dele?

― John pegou uma carona com um amigo.

― Quando ele partiu?

― Há algumas horas.

― John nunca te deixa sozinha à noite.

― Ele realmente teve que ir.

Eu a encaro com desconfiança.

― Você vai sair, Suzy?

― Sim. Digo, não! Não pretendia ir a lugar nenhum!

― Então, por que está com a chave do carro.

O rosto dela se torna severo.

― Desculpe, mas eu preciso ir, Deth. Tenha uma boa noite. E pode não contar ao John sobre isso? Não quero que ele fique preocupado. Com tudo que está acontecendo… ― a frase morre no ar e seu rosto se reveste com uma máscara de tristeza. Uma fachada para esconder suas verdadeiras intenções.

― Se precisar de mim, me chame, Suzy. Vizinhos são para isso.

Suzy parece tão firme quanto uma gelatina. Ela entra aos tropeços e vai para a cozinha, onde se serve com uma taça de vinho branco e acende um cigarro. Da cozinha a acústica é infinitas vezes melhor que no quarto, e dessa forma posso descobrir o que está acontecendo.

― Billy!― eu a ouço choramingar. Eu sabia! Na ausência de John, Suzy ia se encontrar com seu amante, mas não contava que eu apareceria para impedir seus planos. ― E- e- e- eu preciso da sua ajuda― há uma pausa do outro lado.― Você não pode me pedir para ficar calma depois do que eu fiz. Oh meu Deus, Billy, o que foi que eu fiz?― Suzy chora por um longo momento. Ela volta a falar, mas não consigo ouvir, apenas a sentença fatal que comprovou que durante todo esse tempo eu tinha razão sobre Suzy: ― Billy, eu o matei!

Me abaixo no mesmo instante. Ela matou John, e se me visse, me mataria também com a ajuda de Billy, seu amante e cúmplice, e me usariam para adubar as roseiras de Suzy.

― Eu não sei o que fazer. Você precisa me ajudar a me livrar do cadáver. Por favor, querido, eu preciso de você. Não consigo fazer isso sozinha.

Ela desliga, termina de fumar seu cigarro e bebe direto da garrafa. Quando a localizo novamente, ela está parada na porta dos fundos encarando o jardim, com a garrafa em uma mão e o cigarro na outra. Aposto que está decidindo onde enterrar o corpo de John.

Coloco meu robe e desço. Dou a volta na cerca, e então vejo a poça de sangue na entrada da garagem. Santo Deus, o que foi que ela fez?



As luzes de um Mustang vermelho iluminam a entrada, e sou obrigada a me esconder atrás das latas de lixo. Pela fresta da cerca vejo um homem alto e louro sair do carro. Usa uma jaqueta de couro e a camisa está aberta no peito, e ele parece um desses astros do rock que cantam na MTV.

― Billy― quase consigo tocar o alívio que ela sente quando o chama. Eles se abraçam, e só posso imaginar que estão aos beijos, mas de meu posto só posso ver as malditas roseiras de Suzy, que logo serão adubadas com o cadáver de John.

Silenciosamente volto para casa e alcanço ao telefone. Disco o numero da polícia, e não demora para que me atendam.

Serviço de emergência.

― Minha vizinha matou o marido! ― vocifero. ― Há sangue e um corpo, e um amante cúmplice, pobre John, era um homem tão bom, mas que se casou com uma mulher diabólica! Vocês precisam fazer alguma coisa. Ela é minha vizinha e pode ser que me mate também! Ela nunca gostou de mim!

Senhora, por favor, se acalme e fale devagar. Preciso que seja clara.

― Minha vizinha Suzy, da alameda Berkley, casa amarela número 419, matou o marido John. Não tem como eu ser mais clara que isso!

Senhora, tem certeza do que está dizendo?

― Ela e o amante estão enterrando o corpo no quintal. Nas roseiras dela. Ele é loiro e bonito, e dirige um Mustang vermelho. Ele parece um astro do rock.

Senhora, uma viatura está a caminho. Permaneça na sua casa em segurança. Logo estarão aí. Não faça nada precipitado.

Desligo, mas não consigo ficar em casa. Saio devagar e me escondo atrás da cerca. Suzy choraminga e mantêm uma lanterna direcionada para Billy cavar.

― Eu não sabia o que fazer. Foi um acidente, eu não queria, juro. Quando vi, ele já estava morto. Eu sei que eu o ameaçava, mas eu não o queria morto de verdade. Eram só ameaças. Eu o amava.

― Calma, vai ficar tudo bem, querida. Eu estou aqui. Nunca vou deixar você passar por nada sozinha, o.k.? Me passa o cigarro.

Ela o tira da boca e o passa para ele.

― Como você pode estar tão calmo?

― Não é o primeiro cadáver que enterro.

― Meu Deus, Billy! Não sei se quero saber.

― Esse vai ser o nosso segredo― ele dá uma baforada longe do rosto de Suzy, e a fumaça se perde no ar. ― E o que vai fazer agora? O que vai dizer? As pessoas vão sentir falta dele.

― Eu não sei― o rosto bonito estava borrado de maquiagem, e o cabelo louro estava desgrenhado. Nunca a vi tão destruída. ― Vou procurar por profissionais e dizer que ele desapareceu, talvez até pendure cartazes de desaparecido ― posso vê-la dando de ombros daquele jeito tão mesquinho. ―Não era coisa dele fazer isso, então vão acreditar em mim. Só preciso dar um jeito no carro, e então ninguém vai desconfiar de nada.

― Eu cuido do carro.

― Billy, eu te amo.

― Eu sei que sou seu favorito.

― Você é o único.

Billy termina de cavar o buraco sozinho, e então pede para Suzy ajudá- lo a mover o corpo enrolado no lençol. Há uma mancha de sangue numa das pontas, onde Suzy o acertou na cabeça. Meu estômago se embrulha ao imaginar essa monstruosidade.

― Três, dois, um― o corpo faz um pluffh quando chega ao fundo.

― Não devíamos dizer alguma coisa, já que ele era tão querido?― Suzy indaga, mas Billy refuta.

― A alma dele nem deve estar mais aqui.

Billy cobre o buraco com terra, e Suzy ajeita as roseiras quando as luzes azuis e vermelhas da polícia iluminam o quarteirão. Corro até a entrada, e aponto para a casa do lado. Gesticulo ferozmente e o policial sai armado.

― Eles estão enterrando o corpo no quintal.

Ele passa pela poça de sangue, e isso é o bastante para alarmar o parceiro, que o segue com a arma em punho. Eu os sigo até o jardim.

― Polícia, mãos para o alto!

Os dois se assustam, e erguem as mãos imediatamente. Suzy e Billy estão sujos de terra.

― Mas o que diabos tá acontecendo aqui?― Billy urra quando o policial o algema. ― Não vai ler os meus direitos? Eu vou te processar!

― Vocês estão presos por homicídio e ocultação de cadáver.

Os dois se olham espantados e perguntam:

― O quê?

― Vocês têm o direito de permanecerem calados. Tudo que disse...

― Mas John não está morto― Suzy diz pasma, sem cor. ― Ele foi para Charlottetown.

― Não seja mentirosa!― grito. ― Ouvi sua conversa com seu amante, onde você confessou que matou John.

― Que amante?

― Esse...― encaro o peitoral coberto por pequenos cachos louros e sou obrigada a desviar os olhos.― Esse homem. Eles até dividiram um cigarro ― sibilo enojada.

As sobrancelhas claras de Suzy estão curvadas.

― Billy e eu dividimos coisas muito mais íntimas― ela confessa.

― Viu só, policial?

Billy sorri.

― Começamos dividindo o útero da nossa mãe.

― Viu o que e... o quê?

Suzy parecia prestes a desfalecer.

― Billy não é meu amante. É meu irmão gêmeo!

― Mas tem um corpo. Eu vi vocês cavando, e o sangue...

― Tudo bem, eu confesso!― Suzy berra em desespero. ― Eu o matei! ― e começa a chorar. ― Eu matei o Pingo. Mas foi um acidente, eu juro!

― Pingo?― pergunta o policial.

― O cachorro do John― responde Billy.

― Eu ia até a farmácia, e quando engatei a ré, não vi o Pingo e bati nele. Pobrezinho, morreu na hora. John o ama tanto, então pensei em enterrá-lo e dizer a ele que Pingo desapareceu, o faria sofrer menos do que saber que sua esposa o matou. Meu Deus, eu sinto muito, me perdoem. Podem desenterrá- lo se não acreditam em nós.

― Mas o que está havendo aqui?― John urra ao ver Suzy ajoelhada e algemada no jardim. ― Billy, o que aconteceu?

― A sua vizinha maluca acha que Suzy e seu amante, eu, no caso, matamos você e enterramos no quintal.

― Eu só queria comprar um exame de gravidez. Estamos tentando há tanto tempo, eu só queria...― Suzy se entrega ao pranto, e John ordena que o policial a solte. Ele a abraça, e ela chora em seu peito. ― Eu não queria, John, foi um acidente. Eu não queria matar o Pingo.

― Tudo bem, querida― John beija o cabelo fino e desgrenhado da esposa. ― Foi um acidente, a culpa não foi sua. Vai ficar tudo bem.



O caminhão de mudança descarrega os móveis do novo casal que vai ocupar a casa de Suzy e John. Depois daquela noite terrível, não fui mais convidada para comer frango com ervilhas. Três semanas depois daquele incidente, um caminhão como aquele veio pegar as coisas deles.

John abriu a porta do carro para Suzy, e eles partiram para uma nova vida para criarem o filho que esperavam, e que ficaria perfeito no banco de trás daquele carro de família que John havia comprado, junto com a casa com um grande quintal em Charlottetown, para a família que cresceria e para Harley, o cão de rua que eles haviam adotado no abrigo de animais.

A mulher desceu, usando um vestido de petit poule, um tanto extravagante para uma manhã de sábado, e logo fui até eles.

― Bom dia, vizinhos― eu os surpreendo. Ele é bonito. Não como John, nem mesmo como Billy, mas é bonito e confiável como o homem do tempo.Ela é um tanto sem graça, e aposto que não deve ser uma grande cozinheira. ― Sou Bernadeth, mas podem me chamar de Deth. Eu era a melhor amiga dos antigos donos. Gente muito honesta e honrada, John e Suzy. Estão começando uma nova família. Mas vocês serão felizes aqui. Não como eles foram, mas serão― como uma boa vizinha, preciso informá-los do dever de serem tão bons quanto os antigos moradores. ―Suzy tinha um jardim lindo. Cuidava dele com tanto afinco... Posso contar um segredo? Suzy faz um frango assado impossível de botar defeito, ela usa curry. E as camisas do John? Nunca houve uma ruga sequer. John é um bom homem e tem sorte por ter Suzy como esposa. Deus é testemunha. Oh, se é. Suzy, sim é que é uma grande mulher...

30 сентября 2019 г. 13:21:24 0 Отчет Добавить 4
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Об авторе

Ana Paula Clara Sou uma escritora voraz e uma leitora faminta, leio tantas coisas ao mesmo tempo e às vezes acho que vou ficar doida. Amo anime e mangá, e se eu não escolhesse escrever, certamente teria uma banda de rock. Encontrei na escrita a porta para outros mundos fantásticos quais eu os convido para visitar comigo. Este é meu pequeno pedaço de paraíso, e se quiserem me conhecer melhor, sejam todos bem-vindos.

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