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luneler Lunéler Elias

Em um mundo pós-guerra, um grupo de trabalhadores é forçado a descartar lixo nuclear, expondo-se a altos níveis de radioatividade.


Короткий рассказ 13+.

#máscara #radioativade #guerra #lixo #nuclear
Короткий рассказ
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Descarte humano

Em um mundo pós-guerra sua expectativa de vida cai pela metade. Dezenas de bombas nucleares reduziram o mundo a uma pilha de cinzas, terra e radiação. Cavo freneticamente o chão com uma pá enferrujada. O solo se tornou impróprio para plantio e a água foi contaminada por metais pesados.

Estas máscaras de gás com filtros de carvão ativado já não adiantam nada. Mas o governo precisa garantir que sempre haja alguma esperança nessas pessoas, por isso, diz que com estas máscaras todos estarão a salvo. A verdade é que elas não funcionam. O buraco já tem meio metro de profundidade por um de largura e um de comprimento; deve ser espaço suficiente para mais um barril de lixo nuclear. Não há mais sentido em descartar esse material, pois o mundo já se foi. Mas apenas cumprimos ordens de quem apenas cumpre ordens. Uma cadeia de imbecilidade sem precedentes.

Olho para o céu e vejo que tudo é vermelho. O sol se esconde atrás de uma espessa camada de fumaça radioativa, que sai abundantemente das chaminés da usina. Imagine só, setenta por cento da população dizimada em apenas alguns dias. Muitas das bombas explodiram nos Estados Unidos e em alguns países do Oriente Médio. O estrago foi tão grande que uma enorme fenda se abriu no solo, como um grande terremoto. Algumas placas tectônicas sofreram longas fissuras e isso fez com que o mar engolisse muitos quilômetros da costa litorânea. Ondas gigantes inundaram muitas cidades.

Com um abalo tão intenso, alguns cientistas afirmam que a terra sofreu mudanças em seu balanceado movimento de rotação. É como se o globo girasse capenga, fora do eixo. Isso fez com que enormes porções de terra fossem arrancadas do solo e atiradas para o universo. A lua tem sido um frequente alvo de inúmeros meteoritos e também está se despedaçando. O buraco já está suficientemente fundo... pego o barril com símbolo nuclear e giro até coloca-lo no buraco. Sinto ânsia de vômito. As luvas estão quentes e esfarrapadas.

Um caminhão trás mais dezenas de barris. Cansado, sento no chão de terra inerte e visualizo um imenso campo de descarte nuclear. Centenas de pessoas condenadas à morte de maneira lenta e gradual. Aqui não existem ricos, nem políticos, nem pessoas influentes. São em sua maioria analfabetos, homossexuais e negros. Alguns poucos professores ideologicamente perigosos como eu vieram parar aqui. Eles tinham medo que ensinássemos a nova geração de jovens e crianças da raça suprema a serem reacionários, então nos mandaram para cá.

Depois de um dia de trabalho, vim parar no dormitório, uma pocilga que mais se parece com um chiqueiro. É incrível o efeito do urânio no corpo humano. Já não tenho muito cabelo no couro cabelo e minhas unhas estão se desprendendo dos dedos. A pele toda fica ressecada e manchada, como se fôssemos vítimas de incêndios. Os dentes perdem firmeza com a gengiva e vão se soltando, só me sobraram os pré-molares. Sentado no canto, recostado à parede, olho para a foto de Melissa, minha esposa, antes da guerra; ela foi varrida pelo sopro da bomba no centro de Nova Iorque.

Imagino que eu e estas pessoas estejamos em algum local no centro da África. Um lugar vazio e inóspito suficiente para que o resto de nossa existência passe em branco. Amasso a foto em minhas mãos e coloco no bolso, fecho os olhos e durmo ali mesmo. Na madrugada, somos acordados pelo som de muitos helicópteros. Os soldados subiam nele com desespero e iam embora. Ao amanhecer, não havia mais quem nos colocasse em regime de trabalho. Todos tinham ido embora. Sobramos apenas nós, “o descarte” humano.

Saímos campo afora no amanhecer e tomamos rumo ignorado. Qualquer direção que nos colocasse longe do campo de descarte era viável. Olhamos todos para o céu e vimos mais de vinte ônibus espaciais evacuarem a Terra. Eles faziam parte da expedição à marte e levavam os homens mais ricos e poderosos ainda vivos, além das crianças de raça suprema mais férteis e saudáveis. Eu sei disso porque trabalhei no projeto piloto em sua fase de pesquisa.

Então a terra começou a tremer. Um terremoto mais severo que qualquer outro. Uma fenda enorme se abriu no solo e começou a sugar tudo o que estava na superfície. O planeta rachou e estava se despedaçando. Agarrei-me a uma raiz seca e morta e senti meu corpo ser puxado com força. Fiquei com as pernas suspensas e senti o chão se inclinar. Muita poeira agrediu meu rosto, impedindo que eu enxergasse. Então a raiz se rompeu e eu senti meu corpo ser sugado e depois espremido contra um amontoado de rochas. O último vislumbre que tive foi de um barril de lixo nuclear vindo em minha direção. Então apaguei.

Quando despertei, tentei de todas as formas concluir que estava no céu ou em algum lugar divino separado por Deus, mas não estava. Três costelas quebradas e o estômago esmagado. Minha perna direita estava quebrada e eu podia ver o osso da canela para fora. Não quis me mexer... apenas murmurei de dor. Olhei para o lado e vi outro trabalhador soterrado por pedras. Estávamos em algum tipo de caverna. Na verdade não passava de um amontoado de escombros que se empilharam e deixaram espaço suficiente para que contemplássemos a morte. O homem riu ironicamente.

— É assim que tudo vai acabar? – Debochou.

— Parece que sim. – Pus para fora da boca bastante sangue.

Olhei para cima e vi uma enorme viga de aço dependurada sobre nós, balançando.

— Já estava na hora. Vou reencontrar Melissa - Tirei de meu bolso a foto dela.

— Ficarei feliz em conhecê-la e apresentar a minha mãe, Luci.

Apenas sorri. E tão rápido como um trovão, a viga se desprendeu dos entulhos e caiu sobre nós. Lembro-me de ter visto o ferro moer minha bacia e empurrar para cima todos os meus órgãos. Depois tudo ficou escuro.

18 июня 2019 г. 5:06:15 0 Отчет Добавить 3
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