S02#16 - EM NOME DO PAI E DO FILHO Подписаться

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Mulder, num acesso de desespero, planeja sua vingança contra o Canceroso. Scully, ainda magoada, busca apoio na casa de Margaret. Mulder rompe com a ordem das coisas. Sentindo-se culpado por não ter ouvido Scully e pelo término do relacionamento dos dois, Mulder acha que não tem mais nada a perder. Tenta ser o salvador do mundo. CROSSOVER: NYPD Blue (Nova Yorque Contra o Crime)


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S02#16 - EM NOME DO PAI E DO FILHO

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Apartamento de Mulder – 7:19 A.M.

Mulder, deitado no sofá, segura o controle remoto. Olha pro teto da sala. Na TV, um filme pornô.

Close de Mulder. Percebe-se que ele chora calado.

Mulder vira-se pra TV. Olha a arma sobre a mesa de centro. Senta-se no sofá. Pega a arma nas mãos e a observa.

MULDER (OFF): - ... Acho que vou fazer a maior besteira. A maior de todas elas. A que já devia ter feito a muito tempo. Muita gente deixaria de sofrer por minha culpa... Preciso criar coragem... Não, coragem eu já tenho. Preciso é perder o meu medo.

Mulder olha pra TV. Levanta-se. Abre uma gaveta. Tira um cartucho. Recarrega a arma. Caminha até o banheiro. Olha-se no espelho.

MULDER (OFF): - Adeus, desgraçado. Vai desta pra melhor. Talvez o mundo tenha uma nova esperança com a sua morte.

Mulder coloca a arma sobre a pia. Lava o rosto. Olha-se no espelho.

MULDER (OFF): - Coragem, Mulder. Vai precisar ter muita coragem pra fazer isso.

Mulder pega a arma. Olha para a arma na mão.

MULDER (OFF): - Vou te matar, Canceroso.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

Residência de Margaret Scully – 7:23 A.M.

[Som: Phil Collins - Against all odds]

No quarto, Scully está sentada na poltrona. De óculos, vestida num robe por sobre a camisola. Os olhos inchados e vermelhos de chorar. Lê um livro. Pega a caneca de café ao lado. Bebe um gole.

Batidas na porta. Margaret entra.

MARGARET: - Filha, acordada ainda?

SCULLY: - Não consigo dormir.

Margaret olha pra caneca.

MARGARET: - Nem vai conseguir bebendo tanto café! O que está fazendo?

SCULLY: - Lendo Civilizações Extraterrestres, de Isaac Asimov. Ele está contestando algumas coisas na visão científica dele.

MARGARET: - ...

SCULLY: - Estou trabalhando, mãe. Nada como o trabalho pra esquecer os problemas.

MARGARET: - Bom, vou deixá-la trabalhar. Se precisar de alguma coisa, me chame... Quer alguns biscoitos? Fiz ontem à tarde... São os que você gosta.

SCULLY: - Não, mãe. Obrigada.

Margaret sai fechando a porta. Scully bebe outro gole de café. Tira os óculos. Recosta-se na poltrona. Fecha os olhos. A lembrança de Mulder volta em sua mente.

MULDER (OFF) : - De todas as criaturas que conheci nesse mundo, você é a mais vil e baixa, Scully. E eu confiava em você. Confiei minha vida em suas mãos e nem sabia o quanto estava sendo enganado. Eu amei você, Scully. Não merecia o que fez pra mim. (CHORA) Você foi a única que eu amei de verdade! Porque confiava cegamente em você. Na sua cumplicidade.

Scully respira fundo. Segura a xícara nas mãos. Olha pela janela. Margaret entra novamente. Pára na frente da janela.

MARGARET: - Dana, você me ama?

SCULLY: - (RINDO) Mãe, que tipo de pergunta é essa? É claro que amo você, mãe!

Scully levanta-se. Larga o livro na poltrona. Abraça Margaret, que a abraça também.

MARGARET: - Estou perguntando porque amar implica confiar e... Você não confia em mim.

Scully afasta-se dela. Margaret caminha pelo quarto.

MARGARET: - (NERVOSA) Eu estou preocupada. Minha filha bate na minha porta, chorando, pedindo conforto, fica aqui escondida nesse quarto, diz que vai sair do FBI... Então chega o Fox, chorando também, dizendo um monte de coisas que não fazem sentido pra mim, sai culpado, dizendo mais coisas... Dana, o que está acontecendo?

SCULLY: - Eu não quero falar sobre isso, mãe. Não estou em condições de falar sobre isso agora.

MARGARET: - (INDIGNADA) E acha que eu, sua velha mãe, estou em condições de ficar me preocupando? Acha que dormi? Não, eu não consegui dormir! Eu estou preocupada com você. E menti. Fiz os biscoitos a noite toda, porque não sabia o que fazer pra desligar o fio da preocupação materna! Vi em mim a minha mãe que todas as noites fazia biscoitos até seu tio chegar do trabalho. Não dormia de preocupação.

SCULLY: - Acha que é hereditário?

MARGARET: - (IRRITADA) Acho. Acho que ainda vai fazer muitos biscoitos durante a madrugada pra penar como eu estou penando! E olha, Dana, praga de mãe pega.

Margaret sai do quarto. Desce as escadas. Vai pra cozinha. Abre um armário e pega farinha.

MARGARET: - (IRRITADA) Agora vou fazer os de chocolate!

Margaret escora-se na pia. Cansada. Abaixa a cabeça.

SCULLY: - Mãe...

Margaret vira-se. Vê Scully chorando, parada na porta da cozinha, com os pés no chão. Vai até a filha e a abraça.

MARGARET: - Ô, filha... Se pudesse arrancava essa preocupação da sua cabeça...

Margaret afaga os cabelos dela. Scully chora, abraçada na mãe.


Arquivos X – 7:57 A.M.

Mulder entra na sala às pressas. Caminha até a escrivaninha. Abre a gaveta. Pega um papel e uma caneta. Escreve um bilhete. Deixa sobre a mesa. O celular toca.

MULDER: - Mulder.

FROHIKE (OFF): - Mulder, sou eu. Não encontrei registros.

Mulder suspira.

MULDER: - Eu sabia...

FROHIKE (OFF): - Não há nada nos computadores da prefeitura, nem do governo. O lugar não existe.

MULDER: - Tá.

FROHIKE (OFF): - (PREOCUPADO) O que vai fazer?

MULDER: - Acertar umas contas.

FROHIKE (OFF): - Você não está pensando em...

MULDER: - Frohike, falo com você mais tarde. Não me ligue. Vou deixar o celular desligado.

FROHIKE (OFF): - E a Scully?

MULDER: - Deixei um bilhete sobre a mesa. Não diga onde estou.

FROHIKE (OFF): - E se você se meter em encrencas?

MULDER: - Não vou me meter em encrencas. Outra pessoa vai se meter.

FROHIKE (OFF): - Mulder...

Mulder desliga. Aperta a tecla de silêncio. Sai às pressas da sala.


Residência de Margaret Scully – 9:11 A.M.

Margaret, sentada na cama, apoiando as costas num travesseiro, afaga os cabelos de Scully, que dorme com a cabeça no colo dela. O telefone toca. Margaret atende depressa.

MARGARET: - Sim?

SECRETÁRIA (OFF): - É da residência da senhora Scully?

MARGARET: - Sim, é ela.

SECRETÁRIA (OFF): - A agente Scully se encontra?

MARGARET: - Sim. Quem gostaria de falar com ela?

SECRETÁRIA (OFF): - Aqui é do FBI. Um momento, por favor, o diretor assistente Skinner vai falar.

Segundos de silêncio. Margaret aguarda.

SKINNER (OFF): - Alô? Senhora Scully?

MARGARET: - Sim.

SKINNER (OFF): - Aqui é o Skinner. A Scully se encontra? Recebi o recado dela.

MARGARET: - Está dormindo, mas posso acordá-la...

SKINNER (OFF): - Não, não é preciso. Diga que não precisa vir hoje... Sabe o que aconteceu, senhora Scully?

MARGARET: - Não, senhor Skinner. Mas ela está muito nervosa.

SKINNER (OFF): - Deixe-a descansar. Ligarei mais tarde pra saber como ela está... Só por curiosidade... Sabe se o agente Mulder ligou pra ela?

MARGARET: - Não. Mas esteve aqui ontem à noite.

SKINNER (OFF): - Obrigado, senhora Scully.

Margaret desliga. Olha pra filha. Fecha os olhos.


FBI – Gabinete do diretor assistente - 9:33 A.M.

Skinner sai da sala. Olha pra secretária.

SKINNER: - Então?

SECRETÁRIA: - Nada, senhor. Não está na sala, o celular está desligado. Deixei recado na secretária eletrônica da casa dele.

Skinner suspira.

SKINNER: - Se alguém chegar, diga que já volto. Vou descer.

Skinner sai. Caminha pelo corredor. Vê Kersh, conversando com um agente. Kersh olha pra ele.

KERSH: - Skinner.

Skinner pára.

SKINNER: - Algum problema?

KERSCH: - A Fowley novamente. Não a encontramos.

SKINNER: - Como assim?

KERSCH: - Apartamento revirado, mas suas coisas estão todas lá. Nenhum recado... Sabe o que é ter uma dor de cabeça, quando um agente subordinado seu some sem dar explicações?

SKINNER: - (SUSPIRA) Sei. E como eu sei!

Corta para Skinner entrando na sala de Mulder. Skinner olha pra mesa.

SKINNER: - Mulder, vou matar você.

Skinner caminha até a mesa. Vê o bilhete. Pega-o. Lê.

MULDER (OFF): - Quando chegar a ler isto, já estarei longe. Tenho um caso pra resolver. Ligarei pra você depois. Se quiser falar comigo. Se não quiser, entenderei... Se eu não ligar pra você, não chore. Talvez as coisas não saiam como planejei. Assinado: Mulder – o que fala sem pensar.

Skinner larga o bilhete.

SKINNER: - (INDIGNADO) Caso? Que caso? Droga, Mulder, em que está se metendo dessa vez?


Rua 46 Este – Nova Iorque - 11:59 A.M.

O Canceroso sai do elevador. Caminha por um corredor, com um tapete vermelho. Pára na frente de uma porta. Tira as chaves do bolso. Coloca na fechadura. Abre a porta.

Mulder vem por trás dele, agarrando-o pela nuca, com uma arma apontada na cabeça dele. Empurra-o pra dentro da sala e chuta a porta com o pé.

MULDER: - (FURIOSO) Desgraçado!

Mulder empurra o Canceroso. O Canceroso vira-se pra ele, surpreso. Mulder aponta a arma.

CANCEROSO: - Ora, você me surpreende, sabia? Como descobriu esse lugar?

MULDER: - (GRITA) Cala a boca!

Mulder está irritado. Os olhos brilham de ódio. O Canceroso, debochado, coloca a mão dentro do paletó.

MULDER: - Não faça isso!

O Canceroso não dá ouvidos. Mulder engatilha a arma. O Canceroso puxa um maço de cigarros e acende um.

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Está muito nervoso, Mulder. Algum problema? Ou veio apenas me fazer companhia no almoço?

MULDER: - (IRRITADÍSSIMO) Seu miserável, filho de uma puta!

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Vai ofender sua avó?

Mulder avança nele. O empurra por sobre a mesa e o segura pelo pescoço. Aponta a arma na testa dele.

MULDER: - Quer morrer aqui com um tiro ou prefere que te jogue pela janela? Te dou o direito de escolha.

CANCEROSO: - (CÍNICO) Por que está zangado comigo? Não fiz nada.

Mulder aperta o pescoço dele com mais força.

MULDER: - Eu vou te matar, desgraçado! Por que mentiu pra Scully? Por que prometeu o que não podia cumprir? Se é que não podia cumprir!

CANCEROSO: - Posso explicar, se me deixar respirar.

Mulder solta-o, com raiva. Abaixa a arma. Anda em círculos, nervoso, fora de si. O Canceroso observa.

CANCEROSO: - Não entenderia meus motivos. Precisava daquilo.

Mulder olha-o nos olhos.

MULDER: - Ah, precisava? Estava prestes a ir pra forca, imbecil! Eu te peguei! Sabe disso e agora está assustado com a minha ousadia! Agora sabe com quem está lidando e do que sou capaz!

CANCEROSO: - Como eu disse, não entenderia meus motivos.

Mulder avança nele de novo. Segura-o pelo paletó.

MULDER: - Desgraçado, poderia ter feito isso usando qualquer desculpa mas não da maneira como fez! Eu nunca entregaria as provas pra sua amiguinha Diana Fowley. Você sabia disso. Então usou a Scully. Por que atacou o ponto fraco dela, seu asqueroso? Por que não podia apenas dizer que me mataria? Por que não me matou?

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Porque mães tem um instinto muito mais forte pela sua própria prole...

Mulder avança no Canceroso. Mira a arma na cabeça dele.

MULDER: - (GRITA COM ÓDIO) Você vai aprender a não se meter com ela!!!!!

CANCEROSO: - Está realmente apaixonado pela baixinha, não é mesmo?

Mulder empurra a arma contra a testa do Canceroso.

MULDER: - Scully. Senhorita Scully, quando se referir à ela.

CANCEROSO: - Acha que vai me matar? Você sempre recua.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Sabe que não pode fazer isso. Não é uma coisa inteligente.

MULDER: - (RINDO DEBOCHADO) Não sei de mais nada, tiraram a parte inteligente do meu cérebro!

CANCEROSO: - (CÍNICO) Sabe que matar seu pai é um pecado mortal.

MULDER: - Sabe que matar seu filho também é.

CANCEROSO: - Se vai atirar, atire de uma vez. Me poupe das suas ironias.

Mulder o solta. Guarda a arma no coldre.

MULDER: - Não, eu não vou matar você. Você vai se matar. A morte é uma benção pra pessoas como você. Vou vê-lo definhar de câncer! Vai morrer sozinho. E quando isso acontecer, quero olhar em seus olhos, no momento em que toda a sua vida passar diante de você!

O Canceroso mete um tapa na cara de Mulder. Mulder olha pra ele, incrédulo.

CANCEROSO: - Não admito que fale assim comigo!

Mulder o segura pelo paletó, olhando nos olhos dele. O ódio é enorme.

MULDER: - (GRITA) Falo com você do jeito que eu quero e quando eu quero. Se tem problemas comigo, é comigo que vai resolver, não com as pessoas que me cercam. Não vai mais me atingir com isso. Quando tocar num fio de cabelo de quem eu prezo, vou machucar um dos seus. A começar por mim mesmo. Se quer me proteger, proteja-me de mim mesmo, porque eu sou um monstro igual ou pior do que você!

Mulder o solta. O Canceroso olha pra ele, sério. Nervoso.

MULDER: - Agora ficou com medo, não é mesmo? Eu sou a única coisa que você tem, desgraçado! Eu mesmo posso acabar com o que te resta.

CANCEROSO: - Então veio aqui pra me ameaçar? Quem pensa que é?

MULDER: - Seu filho. O pior dos seus pesadelos.

O Canceroso acende outro cigarro. Mulder caminha até a porta.

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Seu irmão era mais comportado, sabia?

MULDER: - (DEBOCHADO) Matou o filho errado, senhor Fumacinha. Se é que ele era seu filho mesmo.

CANCEROSO: - E será que você é?

Mulder pára. Vira-se para o Canceroso, que sopra a fumaça suavemente.

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Talvez esteja com a idéia errada de filho. Talvez nem sua mãe soubesse da verdade. Talvez você seja o produto final de uma experiência bem sucedida. Ou uma cobaia de laboratório, para ser mais exato. Frankenstein não era o pai do monstro? E nem precisou doar seus genes.

MULDER: - ... (SEGURANDO AS LÁGRIMAS, CONFUSO)

CANCEROSO: - (CRUEL) O construiu com os genes dos outros, pedaço por pedaço. Imagine a sensação do monstro, ao descobrir que cada célula sua provinha de um ‘pai’ diferente. Deve ser um sentimento terrível... Vários pais... Talvez várias mães... O quão humanos seriam? Seriam humanos mesmo? Afinal, ele era um monstro...

Mulder segura as lágrimas, com ódio.

MULDER: - Vá pro inferno! Pouco me importa o que sou ou de onde vim!

Mulder abre a porta.

CANCEROSO: - Eu não tenho a cura que ela precisa. Não há cura. Mas não fique chateado. Sei que tem os óvulos dela.

Mulder pára. Fecha a porta.

CANCEROSO: - (VITORIOSO) Sei que nos deram óvulos trocados. Mas eu fui bonzinho, não falei nada. Deixei-os com você. Pode dizer que... Sou um avô amoroso.

MULDER: - (RINDO) Avô? Não, você nunca terá netos, desgraçado. Eu não vou te dar esse gostinho!

CANCEROSO: - E vai tirar o gostinho da agente Scully?

MULDER: - Nós não temos mais nada. Acabou tudo.

CANCEROSO: - (PROVOCANDO) Você é meu filho mesmo. Não sabe amar uma mulher. Ama apenas a si mesmo.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - É egoísta demais. Ela é uma pessoa muito sensível. Gosto dela. Mas isso não vai poupá-la. Ela ainda trabalha com você. E eu não posso manter tudo sob meu controle.

MULDER: - (GRITA) Ela não tem nada mais a ver comigo! Pode engolir seu inquérito de investigação das nossas vidas no FBI. Não terá mais como me pegar. Meu relacionamento com ela terminou... Bem, vai verificar isso quando não ouvir mais nossas conversas pelas escutas que colocou em nossos apartamentos.

CANCEROSO: - (INSTIGANDO) Vai ficar o resto da vida sozinho? Vai afundar sua vida por minha causa? Vai me dar esse prazer?

MULDER: - (ÓDIO) Não. Você vai ter o desprazer de ver seu sangue terminar em mim!

Mulder abre a porta.

MULDER: - Não se preocupe, seu segredo está bem guardado. Não estive aqui. Nem conheço esse lugar. E não é por piedade. É porque posso encontrar você quando precisar. Somente eu sei onde você está nas madrugadas. Talvez passe por aqui pra jogar cartas ou tomar um café. (DEBOCHADO) “Papai”.

Mulder sai batendo a porta. O Canceroso fuma. Fica tenso.


BLOCO 2:

Residência de Margaret Scully – 1:14 P.M.

Scully entra na cozinha, vestida num robe. Margaret prepara alguma coisa no fogão.

SCULLY: - Mãe?

MARGARET: - Olá, Dana. Está com uma aparência melhor.

SCULLY: - Mãe, não dormiu ainda?

MARGARET: - Cochilei com você. Mas o barulho do seu estômago me acordou.

Scully sorri.

MARGARET: - Isso não é hora de fazer almoço, mas...

Margaret vira-se pro fogão. Scully vai até ela e a abraça por trás.

SCULLY: - Ô, mãe, eu te amo tanto, sabia?

MARGARET: - ...

SCULLY: - Sabia disso? Hum, o que está fazendo? Cheira bem.

MARGARET: - Um gostoso molho de tomates. Vamos ter macarrão, comida rápida de preguiçosos.

SCULLY: - Adoro o macarrão que você faz!

MARGARET: - Dana, quer me largar? Estou no fogão, posso queimar você.

Scully recosta sua cabeça nas costas de Meg.

SCULLY: - Não... Tá tão bom ficar grudadinha na minha mãezinha...

MARGARET: - Seu chefe ligou.

SCULLY: - O que ele disse?

MARGARET: - Que era pra você descansar. Vai ligar mais tarde...

SCULLY: - O Skinner é um amor, sempre tão compreensivo...

MARGARET: - O Skinner é solteiro?

SCULLY: - (CURIOSA/ SORRINDO) Mãe? O que quer com o Skinner?

MARGARET: - Eu? Eu não! Estou pensando em você.

SCULLY: - Eu e o Skinner? (RI) Mãe, de onde tirou uma bobagem dessas?

MARGARET: - Ele é um sujeito preocupado com você, é bonito e está na idade da razão. É um homem sério. Um bom partido.

SCULLY: - Mãe! Pára de ficar me arranjando marido! Imagine pensar uma coisa dessas!

MARGARET: - Mas ele é um bom partido. Vai dizer agora que sou mentirosa?

SCULLY: - Ele é um bom homem, bonito, charmoso... Mas não, mãe. Não fique enfiando minhocas na cabeça!

Scully coloca um garfo na panela e retira um macarrão. Assopra para esfriá-lo.

MARGARET: - Dana, não mexa nas panelas! Sai daqui, não tá pronto ainda.

SCULLY: - (COMENDO O MACARRÃO) Hum... Está gostoso!

MARGARET: - É, e já vai ficar pronto.

SCULLY: - Quer ajuda? Posso fazer um suco.

MARGARET: - Dana, quando vai se casar?

SCULLY: - Isso é importante pra você?

MARGARET: - ...

SCULLY: - Mãe, já te falei. Não posso te dar netos.

MARGARET: - (FINGINDO IRRITAÇÃO) Não quero mais netos! Já tenho o suficiente. Quero é ver você com alguém! Quero que arranje um bobo que fique a noite toda acordado do seu lado, pra você não vir aqui me acordar! Quero sossego!

SCULLY: - (RINDO) Mãe...

MARGARET: - (EMBURRADA) É, quero sossego. Você precisa de um homem, Dana. Um homem pra cuidar de você.

SCULLY: - Não, eu não preciso que ninguém cuide de mim.

MARGARET: - Então precisa de um bobo pra fazer macarrão à uma da tarde!

SCULLY: - Não, eu faço meu próprio macarrão.

MARGARET: - (INSISTINDO) E um bobo pra esquentar seus pés?

SCULLY: - Tenho um cobertor elétrico.

MARGARET: - Ah, você tem tudo, não é?

SCULLY: - Não preciso de homem pra viver. Sempre fiz minha vida sozinha. Não preciso de ninguém do meu lado.

MARGARET: - (DEBOCHADA) Por que não vem morar comigo? Assim a vizinhança toda vai comentar quando nos verem na rua: lá vai a viúva e a filha solteirona.

Scully puxa uma cadeira. Senta-se. Muda de assunto, percebendo a atitude investigativa da mãe.

SCULLY: - E você? Por que não se casa de novo?

MARGARET: - Dana, por favor! Respeite seu pai.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mas mãe, não pode passar o resto da vida sozinha! Precisa de um bobo pra ficar a noite toda acordado, pra fazer macarrão à uma da tarde, pra esquentar seus pés e pra fazer coisinhas...

MARGARET: - Não quero fazer coisinhas! Fazia coisinhas com seu pai. Ela ainda mora no meu coração... (TRISTE) Fui feliz com ele. A lembrança do Willian está ainda na minha cabeça... Toda a noite, olho para o travesseiro do meu lado e parece que sinto ele ali, deitado, lendo um livro.

Scully olha pra Margaret ternamente. Margaret disfarça.

MARGARET: - ... Às vezes converso com ele. Sobre vocês...

SCULLY: - E o que falam?

MARGARET: - Ontem mesmo ele me perguntou: Meg, mas que diabos! A Dana não vai se casar?

SCULLY: - Mãe, que golpe sujo pra cair nessa história de novo! Case-se você!

MARGARET: - Conhece algum homem interessante da minha idade?

SCULLY: - (PENSATIVA) ... Hum... Tem um vizinho do meu lado que tem sua idade. É viúvo, filhos casados, mora sozinho e é pensionista do governo.

MARGARET: - É bonito?

SCULLY: - É. Ele tem um charme, sabe? Aquela coisa que os homens ganham com a idade... Pelo jeito é muito caseiro, nunca vejo visitas... Sai de casa pro supermercado, pra lavanderia ou pra comprar algumas guloseimas. Sempre volta com uma revista junto com as compras, às vezes um livro... É um homem culto.

MARGARET: - ... Sinto falta do seu pai. É muito triste não ter companhia pro almoço, pro café, pra ver TV... Alguém do seu lado na cama. Ficar juntinho, conversando coisas que só casais conversam... Banalidades, sobre o trabalho, sobre a vida...

Scully olha pro nada, pensando em Mulder.

MARGARET: - Aquela coisa de acordar num final de semana, fazer um bom mousse pra agradá-lo... Fazer um jantar especial pra dois...

Margaret percebe que Scully está longe. Mas continua falando, tentando descobrir o que está havendo.

MARGARET: - Virar a madrugada de Sábado disputando o controle remoto da TV... Entre um bom filme e um jogo... Pipocas... Aquele pezinho quente debaixo do cobertor...

Scully continua longe. Margaret continua provocando.

MARGARET: - Enquanto ele assiste o jogo, tomando cerveja e fazendo a maior sujeira na sala, você olha pra ele, vê todos os defeitos que ele tem, mas... Finge que não vê. Você perdoa as piores coisas porque está apaixonada. Você fica admirando aquele homem... Admirando... Espera que ele faça alguma surpresa pra você, que ele diga algo bonito de repente, mas ele é um homem, e homens não são sensíveis até que você brigue com eles. Daí eles percebem que você precisa de algo a mais... Homens são desligados pra essas coisas...

Scully volta de seus pensamentos.

SCULLY: - (CORTANTE) O almoço tá pronto?

Margaret suspira.

MARGARET: - Não tem nada pra complementar o que eu disse? Alguma coisa pra me dizer...

SCULLY: - (PERCEBENDO A INTENÇÃO) Não. Tô com fome.


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 2:01 P.M.

[Som: Phil Collins - Against all odds]

Mulder, deitado na cama, olha para o teto. A TV desligada. Mulder está confuso, atordoado. Chora.


Residência de Margaret Scully – 3:09 P.M.

Meg e Scully sentadas no sofá assistindo televisão.

SCULLY: - ... Mãe, como pode assistir Days of our Lives?

MARGARET: - Psiu! Não atrapalhe minha novela! ... Aquela ali está saindo com o marido da outra. É uma ordinária, mesmo! Se faz de amiga pra roubar o marido dela.

SCULLY: - ... (RINDO) Mãe, não acredito!

MARGARET: - (INDIGNADA) O que quer que eu faça? Preciso assistir alguma coisa, fazer alguma coisa, ou enlouqueço sozinha dentro dessa casa! Isso é a vida de uma mulher sozinha, acostume-se!

SCULLY: - Ah, mãe, que exagero!

MARGARET: - Principalmente quando ficar velha!

Margaret continua assistindo a novela. Scully levanta-se.

SCULLY: - Quer um chá, ‘senhora velha e solitária’?

MARGARET: - (EMBURRADA) Quero.

Scully vai pra cozinha. Enche a chaleira e coloca no fogão. Olha pela janela. Começa a chorar. Pega o telefone e disca. Barulho de chamada, várias vezes. Ninguém atende. Scully desliga. Liga outro número. O telefone chama por três vezes, até a secretária eletrônica atender.

MULDER (OFF): - Você ligou para Fox Mulder. No momento não posso atender, deixe seu recado após o sinal.

Scully desliga. Encosta o fone no peito, escorando-se na parede. Chora. Margaret entra na cozinha. Scully se vira contra a parede, colocando o fone no gancho. Continua chorando, cabisbaixa.

SCULLY: - Mãe, não me pergunta nada, tá legal?

Margaret volta pra sala. Confusa. Desliga a TV. Scully passa por ela.

SCULLY: - Vou dormir.

MARGARET: - ...

Scully olha pra ela. Segura o choro. Margaret olha com expectativa. Chega a ajeitar-se no sofá.

SCULLY: - Mãe...

MARGARET: - Fala, filha! Fala!

SCULLY: - Eu... Eu preciso de ajuda.

Scully se atira no sofá a abraçando. Margaret a abraça. Suspira.

MARGARET: - Se não quer falar eu entendo. Chora, Dana...

Scully chora muito. Margaret afaga-lhe os cabelos.


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 5:21 P.M.

Mulder caminha pelo quarto. Nervoso. Olha pra mala sobre a poltrona. Espia pela cortina.

MULDER: - Você vai voltar, filho da mãe, eu sei que vai voltar.

Mulder olha pra mala novamente. Abre-a. Retira uma arma com mira telescópica, em pedaços, que começa a montar.

MULDER: - Cansei do seu jogo, Fumacinha. Vai morrer e leve a verdade com você! Talvez tenha razão, sou um monstro alienígena!

Mulder termina de montar a arma. Mira-a na janela.

MULDER: - Dá pra ver até o detalhe da sua gravata por aqui, imbecil. Vai aprender a não se meter com a pessoa errada.

Mulder carrega a arma. Coloca-a sobre o sofá.

MULDER: - Vai pagar caro pela dor que causou à Scully. Se te matar, sei que virão atrás de mim. Mas dane-se! Vou pro inferno, mas levo você junto comigo! Nada mais me importa.


Residência de Margaret Scully - 8:33 P.M.

Margaret e Scully bebem chá, sentadas no sofá, olhando TV. Scully suspira. Margaret disfarça que presta atenção na TV, mas presta atenção na filha com o rabo dos olhos.

SCULLY: - Mãe...

MARGARET: - ...

SCULLY: - ...

MARGARET: - ...

SCULLY: - (RECEOSA) ... O que você acha do Mulder?

Meg desliga a TV. Levanta-se do sofá, abrindo um sorriso.

MARGARET: - (GRITA/ BATE PALMAS) Eu sabia!

SCULLY: - ... (ASSUSTADA, ERGUENDO AS SOBRANCELHAS)

MARGARET: - Eu nunca estou errada! Meu Deus, eu não acredito! Até que enfim, essa cabeça dura se convenceu! Ah, meu Jesus, vou te acender uma velinha hoje!

SCULLY: - Mãe, pára!

MARGARET: - Vou buscar um vinho.

SCULLY: - (IRRITADA) Mãe, quer parar com isso? Parece uma boba desse jeito!

MARGARET: - (FELIZ) Eu estou boba! Sabia que a minha filha não deixaria um peixão como aquele cair fora da rede! Ah, Deus! Posso morrer feliz agora!

SCULLY: - ... (EMBURRADA)

MARGARET: - (CURIOSA) Quem falou primeiro?

SCULLY: - ... Ele.

MARGARET: - (FELIZ) Sabia! O Fox me deu ouvidos!

SCULLY: - Mãe, quando o aconselhou, já estávamos juntos. Tire esse sorriso de convencimento dos lábios!

MARGARET: - Até que enfim! Os dois juntos... Que casal perfeito! Eu já estava angustiada, achando que nunca ouviria isso da sua boca!

SCULLY: - Mãe, quer me escutar?

MARGARET: - (EMPOLGADA) Fala, fala!

Scully larga a xícara na mesa de centro. Margaret olha pra ela, empolgada. Ajeita-se no sofá. Scully segura o choro.

SCULLY: - Sabe aquele bobo que você falou que eu preciso? (SEGURA O CHORO) Eu achei, mãe, mas ele não acredita mais em mim!

Scully cai no choro. Margaret não sabe se ri ou se chora com ela.

SCULLY: - Eu... Nós dois estamos juntos há um ano... Eu... Eu não queria te contar porque isso devia ser segredo, não podemos nos expor, mas parece que... Quem não devia saber já sabe e quer usar isso contra a gente. Eu fiz uma besteira, mãe. Mulder se zangou por isso, mas eu fiz por amor! Ele pensa que não vão tentar nada contra ele, mas se fechar os olhos vão matá-lo!

MARGARET: - (PREOCUPADA) Quem vai matá-lo? Dana, do que está falando?

SCULLY: - Das mesmas pessoas que me deixaram estéril! Eu só fiz aquilo pra salvar ele e... Pra tentar ser uma mulher comum... Eu quero ser mãe! Mas ele não se importa com isso, não liga pros meus sentimentos. Ele está ligando só pra sua vingança pessoal!

Margaret olha pra Scully.

MARGARET: - Filha, por que me escondeu isso? Sabe que gosto do Fox e sabe muito bem que eu estava falando dele hoje no almoço!

SCULLY: - ...

MARGARET: - Dana, precisamos conversar. E muito.


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 10:46 P.M.

Mulder, sentado numa cadeira, olha pela janela, por entre as cortinas. Vê a luz acesa na sala do Sindicato. Mulder pega o binóculo. Vê Krycek, alguns velhos e o Canceroso.

MULDER: - Sei que você sempre apaga as luzes... Tenho todo o tempo do mundo pra esperar que eles saiam... Gosta de trabalhar até tarde, não é, desgraçado? Pra conhecer um homem basta entrar na cabeça dele. Aprendi isso na faculdade... Pra conhecer o pai, basta entrar na cabeça do filho... Aprendi isso na vida... Somos iguais...


Residência de Margaret Scully – 10:54 P.M.

[Som: Phil Collins - Against all odds]

Scully anda de um lado pra outro na sala. Margaret a observa.

SCULLY: - Então eu me pergunto todo o dia quando chego no FBI: O que estou fazendo aqui? Na verdade sei que nunca vou conseguir pegar aquele desgraçado que fez isso comigo. Sei que pensar isso é uma utopia. Então por que continuo?

Scully pára. Olha pra Margaret.

SCULLY: - Eu gosto do que faço, mãe. Gosto muito. Mas eu sei qual é o motivo que me prende naquele lugar. E acho que Mulder não merece que eu sacrifique minha vida por ele! Posso me machucar mais ainda... O Mulder nunca vai mudar. Nunca. Sempre desconfiando de tudo, sempre colocando suas prioridades na frente das minhas... Cansei. Acho que eu cansei disso.

Scully anda pela sala.

SCULLY: - Sei que tenho muita coisa a descobrir ainda. Minha curiosidade ficou aguçada com tantas coisas estranhas que vi. É um bom motivo para continuar... Não posso deixar o FBI, eu gosto disso. Não posso abandonar profissionalmente o Mulder. Nós fazemos uma boa dupla. Ele não vai conseguir seguir adiante sem mim. E não é justo atrapalhar nossas carreiras, nosso trabalho, por causa do que aconteceu. É preciso separar as coisas. Mas Mulder como homem não dá certo. Eu nunca devia ter entrado de cabeça nessa história... Mas como saber se não experimentar? Pelo menos a dúvida foi embora.

MARGARET: - Dana, ele está arrependido! Por favor! O jeito como saiu daqui me partiu o coração! Estava desatinado, triste, perdido...

SCULLY: - Mãe, é a segunda vez que ele me deixa de lado. Uma vez pela irmã dele. Agora por ele, pela vingança dele.

MARGARET: - Dana, Dana. Não adianta ficar aqui. Por que não vai falar com ele? Está dizendo que ele é uma criança, mas e a sua atitude?

SCULLY: - Mãe, ele me magoou! Me acusou de coisas que eu nunca fiz! Isso doeu, entende?

MARGARET: - Dói. E não será a única vez que vai chorar não. Dana, o Fox é uma pessoa especial. Terá de ser especial com ele.

SCULLY: - E quem vai ser especial comigo?

MARGARET: - Ora, Dana, ele já não é especial com você? Você mesma disse isso. Ele te ama também. Existe algo mágico e lindo entre vocês dois! Pra que ficar perdendo tempo com briguinhas?

SCULLY: - Mãe! Você parece advogada de defesa do Mulder! A sua filha sou eu! É do meu lado que você tem que ficar!

Margaret, de repente fica calada.

SCULLY: - Mãe? Desculpe... Está furiosa por eu ter mentido?

MARGARET: - Não, é que... Ah, esqueça, Dana. Bobagem.

SCULLY: - O que é bobagem? Mãe, fala!

MARGARET: - Há duas noites atrás, acordei no meio da noite com aquela tempestade horrível. Levantei da cama e... Juro que vi sua irmã olhando pra mim.

SCULLY: - ?

MARGARET: - Ela estava agitada, nervosa. Lembro-me dela ter dito: Mãe, avise a Dana. Precisa avisá-la, mãe. Ele vai fazer besteira.

SCULLY: - ?

MARGARET: - Eu sei lá, Dana. Acho que estava tão perturbada que... Ah, você não acredita nessas coisas!


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 12:51 A.M.

Mulder observa pelo binóculo. Seu quarto está na penumbra. Mulder vê Krycek sair. Larga o binóculo. Abre o vidro da janela.

MULDER: - Não é você que eu quero hoje, rato desgraçado. Temos contas a acertar, mas não será dessa vez.

Mulder levanta-se. Pega a arma.

MULDER: - Quem mata o santo, mata Deus. Ou algo assim.

Mulder mira a arma pela janela. Tem o Canceroso na mira. Mulder sua frio. Treme.

MULDER: - Pára, não posso tremer... Não posso errar... Na cabeça. É, Mulder, na cabeça... Vai ser fácil. Matar é fácil... Já viu outros fazerem, você é agente do FBI, tem treino pra fazer isso...

Mulder está tenso. O Canceroso parado na frente da janela, acende um cigarro. Olha pra algum lugar dentro da sala. Mulder respira fundo e tenta manter a mira. Seu indicador vai apertando lentamente o gatilho.


BLOCO 3:

Sala do Sindicato. O Canceroso sopra a fumaça. Pressente alguma coisa. Olha disfarçadamente pra janela. Vê todas as luzes do hotel acesas, com exceção de uma. Vê um reflexo vindo daquela janela.

Corta pra Mulder, mirando a arma pela janela.

MULDER: - Isso é pela Scully, desgraçado! E por todos o que você matou injustamente!

Mulder aperta o gatilho. O tiro estilhaça a janela da sala do Sindicato. O Canceroso cai.


Residência de Margaret Scully - 12:56 A.M.

Scully dá um pulo e senta-se na cama. Margaret acende o abajur.

MARGARET: - (ASSUSTADA) O que foi, Dana?

SCULLY: - ... Eu... Eu não sei, mãe. Mas não me sinto bem... Estou com um pressentimento estranho...

MARGARET: - Durma, filha. Está nervosa com o que aconteceu. Precisa relaxar. Amanhã você vai falar com ele. Vão se acertar, afinal são dois cabeças duras.

Scully pega o telefone.

MARGARET: - O que vai fazer?

SCULLY: - Preciso falar com ele, mãe. Preciso saber se está bem.


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 1:01 A.M

Mulder desmonta a arma e vai jogando dentro da mala. Um alvoroço de pessoas na rua e no prédio em frente. Mulder fecha a mala. Olha pela janela e não vê o Canceroso. Seus sentimentos se confundem.

MULDER: - Acabou.

Mulder pega a mala e coloca debaixo da cama.

MULDER: - Agora resta esperar. Pelo FBI ou por eles. O que vier primeiro.

Mulder senta-se na cama. Pega sua arma e engatilha. Deita-se.


Residência de Margaret Scully – 1:27 A.M.

Na cozinha, Scully desliga o telefone. Margaret faz um chá.

SCULLY: - Mãe, aconteceu alguma coisa. Ele não atende o celular, não está em casa...

MARGARET: - Aposto que está arrasado como você. Deve estar se sentindo culpado ainda, por isso não quer atender o telefone.

SCULLY: - É... Você tem razão. Acho que estou ficando paranoica... Nunca acreditei nessas coisas, por que acreditaria agora?


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 3:31 P.M.

Mulder dorme.

Corta para a porta que se abre.

Close nos pés de Krycek que entra sem fazer barulho.

Mulder acorda-se, mas não dá tempo de reagir. Krycek, com ódio, coloca um pano com éter no nariz dele. Mulder tenta se desvencilhar, mas cai desacordado na cama.

KRYCEK: - Agora vamos ver que vai se ferrar, Mulder.


FBI - Gabinete do diretor assistente - 7:37 A.M.

Skinner levanta-se da cadeira. Abre a porta. A secretária olha pra ele.

SECRETÁRIA: - Nada, senhor. Não veio trabalhar de novo, celular desligado, deixei recado na secretária... Ele não está em casa, o agente Willcox já esteve lá. Já ligamos para todos os hospitais e necrotérios da região e...

SKINNER: - (NERVOSO) Ligue pra casa da mãe da agente Scully. Agora!

A secretária pega o telefone. Skinner anda de um lado pra outro.


Residência de Margaret Scully – 7:39 A.M.

O telefone toca. Margaret atende.

MARGARET: - Sim? ... Só um momento.

Margaret põe a mão sobre o fone.

MARGARET: - Seu chefe.

Scully atende.

SCULLY: - Alô.

SKINNER (OFF): - Agente Scully, como está?

SCULLY: - Estou me recuperando, senhor. Prometo que vou trabalhar amanhã e...

SKINNER (OFF): - Scully... eu... Eu não sei se deveria lhe falar, mas...

SCULLY: - Aconteceu alguma coisa?

Margaret olha atentamente pra Scully.

SKINNER (OFF): - Acho que o Mulder está metido numa encrenca.

SCULLY: - Como assim?

SKINNER (OFF): - Hoje é o segundo dia que não vem trabalhar, deixou um bilhete pra você sobre a mesa, dizendo que iria resolver um caso... Tentei o apartamento, o celular... Não tenho notícias dele desde ontem. Sabe que Mulder não faz esse tipo de coisa.

SCULLY: - Nenhuma pista?

SKINNER (OFF): - Ele escreveu algo sobre não voltar. E confesso, não estou gostando disso. Não o designei pra nenhuma tarefa.

SCULLY: - Senhor... Preciso desligar.

SKINNER (OFF): - O que vai fazer?

SCULLY: - Sei onde encontrar o Mulder.

SKINNER (OFF): - Agente Scully, não me arranje mais encrencas.

Scully desliga. Olha assustada pra Margaret.

SCULLY: - Mãe, acho que Mulder está em perigo.

Scully sobe as escadas correndo. Margaret olha pra ela preocupada.

MARGARET: - Perigo? Como assim perigo?

SCULLY: - Agora não, mãe. Tenho de ir pra Nova Iorque.

MARGARET: - Nova Iorque?


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 9:41 P.M.

Scully desce do elevador. Vê a porta do quarto aberta. Policiais entram e saem. Scully aproxima-se. Um policial a detém. Scully puxa a credencial. O policial a deixa passar. Scully vê a cama arrumada. O travesseiro no chão.

Há policiais por todo o lado. Diane, a detetive, olha pra mala no chão. Sipowics está atrás dela, Scully não pode ver seu rosto.

DIANE: - Olha só o brinquedinho do sujeito! Nem a polícia tem isso.

SIPOWICS: - Mas o FBI tem.

DIANE: - Acha que é roubada?

Scully aproxima-se.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Detetive Sipowics?

SIPOWICS: - Agente Scully? O que faz em Nova Iorque? Bactérias assassinas novamente?

SCULLY: - ... O que tem por aqui?

SIPOWICS: - Na madrugada de hoje nos chamaram por causa de um tumulto. Alguém ouviu um tiro, barulho de vidros... Seja lá quem foi o desgraçado, tentou atirar no corretor de seguros.

SCULLY: - Corretor de seguros?

SIPOWICS: - É.

Sipowics caminha até a janela. Scully ao lado dele. Olham pela janela. Sipowics aponta pra sala do Sindicato.

SIPOWICS: - A janela quebrada pertence à uma companhia de seguros. Seja o que for, aposto que o sujeito não gostou de ser lesado e resolveu se vingar.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Companhia de seguros?

SIPOWICS: - Sim. Já fomos falar com o proprietário. Felizmente não conseguiu seu intento.

SCULLY: - Ninguém morreu?

SIPOWICS: - Parece frustrada, agente Scully.

SCULLY: - Não, só estou surpresa. Prenderam o sujeito que fez isso?

SIPOWICS: - Não. Quando chegamos aqui ele tinha ido embora.

DIANE: - Deve ter fugido.

SIPOWICS: - Ah, me desculpe. Este é minha colega Diane. Esta é a agente Scully, do FBI. Já trabalhamos juntos.

As duas cumprimentam-se.

SCULLY: - Alguma testemunha?

DIANE: - Nada, ninguém viu nada.

SCULLY: - Verificaram os registros do hotel pra saber quem era o hóspede desse quarto?

Sipowics ri.

SIPOWICS: - Conhece uma coisa chamada maré de azar? Pois os registros desapareceram.

SCULLY: - ... ???

SIPOWICS: - Alguém apagou os dados do computador pra nosso azar. Agente Scully, acho que sabe alguma coisa que não sabemos.

SCULLY: - Como assim?

SIPOWICS: - Tem cheiro ruim nessa história. Alguém fez isso pra proteger o sujeito que estava aqui. Vamos investigar todos os clientes da companhia de seguros. Alguém que possa estar seriamente irritado e motivado pra isso. E saiu com pressa daqui.

SCULLY: - Se saiu com pressa, porque deixaria a arma do crime?

Diane olha pra Sipowics. Sipowics sorri, abaixando a cabeça.

SIPOWICS: - Mulheres na polícia... Eu não havia ligado o fato.

DIANE: - (DEBOCHADA) Acostume-se, agente Scully. Os homens acham que só eles têm faro investigativo. A polícia é um território masculino. (OLHA PRA SIPOWICS) Andy, talvez alguém não quisesse chamar a atenção. Haviam muitas pessoas na rua.

Scully olha pelo quarto. Abre o guarda roupa. Vê as roupas de Mulder.

SCULLY: - Nenhuma pista de quem seja?

SIPOWICS: - Nada. Mas é um sujeito alto e elegante. Assim dizem as roupas. Talvez um agente do FBI.

SCULLY: - ...

SIPOWICS: - Isso explicaria porque está aqui.

SCULLY: - Estava passando e vi o movimento. Resolvi subir. Eu estou de férias.

SIPOWICS: - Ah! E como vai o seu parceiro? Continua vendo discos voadores?

SCULLY: - (SORRINDO) Sempre.

Scully afasta-se deles. Vai para o corredor. Pega seu celular e disca.

SCULLY: - ... Senhor, eu ... precisa me ajudar.

SKINNER (OFF): - O que aconteceu, agente Scully? Encontrou Mulder?

SCULLY: - Pode verificar um registro de arma?

SKINNER (OFF): - Eu?

SCULLY: - Senhor, no momento pouco me importam as regras! Preciso de sigilo, só conto com você! Acho que Mulder roubou uma arma do Bureau e fez alguma besteira.

SKINNER (OFF): - Que besteira?

SCULLY: - Acho que... Atirou naquele homem.

Corta pra Skinner. Ela cai sentado na cadeira.

SKINNER: - Scully, onde está? Estou indo pra aí.

Corta pra Scully.

SCULLY: - Não adiantará nada, senhor. A polícia está revirando o quarto dele! Acharam a arma, mas ainda não sabem a quem pertence. Os registros da entrada de Mulder no hotel foram apagados! Acredito que pegaram Mulder! As roupas dele ainda estão aqui. Preciso que fale com alguém, temos de descobrir o que fizeram com ele!

Corta pra Skinner.

SKINNER: - Scully, me dê o número da arma. Vou me preparar para o pior.

Skinner pega um papel e um lápis. Anota alguns números e letras.

SKINNER: - Tá. Ligo pra você.

Skinner pega o papel e sai da sala. Olha pra secretária.

SKINNER: - Não estou pra ninguém hoje.

Câmera de acompanhamento. Skinner sai depressa. Corre até o elevador. O elevador demora.

SKINNER: - Droga!

Skinner sai pela porta de acesso às escadas. Desce depressa. Abre uma porta. Caminha pelo corredor, apressado. Vários agentes passam por ele. Skinner abre outra porta. Entra apressado. Um agente, num guichê o atende.

AGENTE: - Fale, diretor.

SKINNER: - Preciso que verifique algo pra mim.

AGENTE: - Claro. Precisa de mais alguma coisa pra pegar aqueles caras?

SKINNER: - Caras?

AGENTE: - É. O agente Mulder esteve aqui ontem pela manhã e levou uma arma.

SKINNER: - Que arma?

AGENTE: - Um rifle com mira telescópica. Coisinha linda. Novidade no mercado.

SKINNER: - (BOQUIABERTO) Entregou uma arma dessas pra ele sem minha autorização?

AGENTE: - Mas ele me deu um papel com sua assinatura!

SKINNER: - Pode me dizer o número de série?

O agente pega uma prancheta. Mostra pra Skinner.

AGENTE: - Aqui está.

Skinner lê. Fecha os olhos. Sai da sala às pressas.


Hotel Delacorte – Nova Iorque – 9:23 P.M.

Scully atende o celular.

SCULLY: - Scully.

SKINNER (OFF): - (ASSUSTADO) Agente Scully, onde está? Precisa me dizer onde está!

SCULLY: - Em Nova Iorque, senhor.

SKINNER (OFF): - Saia já daí! Está correndo perigo!

SCULLY: - ...

SKINNER (OFF): - Mulder pegou uma arma, falsificou minha assinatura! O FBI vai puni-lo, mas no momento, isso é o que menos importa! Saia já daí! Não pode fazer nada, a polícia vai descobrir. Podem achar que é cúmplice!

SCULLY: - Ficarei aqui, senhor, preciso achar Mulder.

SKINNER (OFF): - Vá pra qualquer lugar mas saia daí! Não é com o FBI ou com a polícia que estou preocupado!

SCULLY: - Sim, senhor.

SKINNER (OFF): - Vou tentar descobrir o que está havendo. Se Mulder queria expô-lo, conseguiu.

SCULLY: - Não, senhor. A polícia está investigando um atentado contra uma companhia de seguros.

SKINNER (OFF): - ... Companhia de seguros?

SCULLY: - Sabe que eles podem enganar e mentir. Tem os meios pra isso. Mulder é quem vai sair perdendo.

Scully desliga. Sai do quarto. Aperta o botão do elevador.


Cais do Porto – Armazém P – Nova Iorque - 11:49 P.M.

Mulder acorda-se no chão, com as mãos amarradas nas costas e amordaçado. Tenta se levantar. Consegue sentar-se no chão, depois de várias tentativas. Olha pro lugar. É um armazém abandonado. Há um homem sentado numa cadeira, mas Mulder não pode vê-lo, ele está com um jornal aberto na frente do rosto. Mulder tenta se levantar, mas não consegue.

KRYCEK: - Desista, agente Mulder.

Krycek abaixa o jornal. Joga-o no chão. Olha pra Mulder com deboche. Apóia as mãos nas pernas.

KRYCEK: - Provocou a ira de ‘deus’. Agora, aguente as conseqüências.

Krycek levanta-se.

KRYCEK: - Tem gente que não aprende mesmo a ficar quieto no seu lugar.

Krycek acerta um chute no rosto de Mulder. Espirra sangue pra todo o lado e Mulder cai, batendo a cabeça no chão. Krycek aproxima-se dele e põe o pé sobre seu peito. Mulder está com o lábio profundamente cortado. Escorre sangue.

KRYCEK: - Eu não te avisei? Não te avisei pra colaborar comigo? Mas não, você tentou me ferrar. Fez o que eu queria fazer, mas não me consultou. E fez errado. Poderia ter se poupado de tanta dor de cabeça. Agora, não posso ajudá-lo.

Krycek pisa com força no peito de Mulder. Mulder geme.

KRYCEK: - Alguém lá em cima não gosta você. Mas pra sua sorte, ele ainda está vivo. Apenas um ombro machucado, mas nada sério. Me pergunto: o próximo seria eu?

Krycek tira o pé de cima de Mulder e chuta Mulder nos quadris. Mulder grita.

KRYCEK: - Seria, não é mesmo? O FBI e a polícia devem estar atrás de você. (RINDO) O engraçado nisso tudo é que... Como vai sair dessa, herói? Como vai explicar que resolveu pegar uma arma com uma falsa autorização e resolveu ir pra Nova Iorque praticar tiro ao alvo numa companhia de seguros?

MULDER: - ?

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Mas, como o peixe morre pela boca, sabemos que você é o único que conhece a existência daquele lugar. Você é o único que sabe onde fica o inferno, Mulder. Ou talvez esteja mentindo. Acho que sua parceira também sabe.

Mulder tenta se levantar. Krycek acerta outro chute. Mulder encolhe-se de lado, no chão. Geme.

KRYCEK: - Mas ela não vai falar nada. Não tem provas. (DEBOCHADO) Está preocupada demais com sua maternidade perdida. Bem, ‘deus’ perdoa... Mandou que eu apagasse seus registros no hotel... Mas perdoa em termos. Deixamos a arma. Só pra ganhar um tempinho. Pra deixar a polícia ter um pouco mais de trabalho, atrás do agente maluco foragido. Atrás do ‘Jesus Cristo dos Imbecis’... Porque você fugiu do local do crime. (RINDO) Ou vai alegar que a seguradora o sequestrou?

Krycek abaixa-se. Olha pra Mulder. Krycek está muito, mas muito feliz, rindo e debochando.

KRYCEK: - Você é louco. Isso é o que as pessoas sabem. O mais divertido é que, neste exato momento, um homem qualquer, vestindo um belo terno, está depondo na polícia. Está dizendo que é o dono da seguradora e mostrando papéis de clientes mais frios do que a Sibéria.

MULDER: - ...

Krycek levanta-se.

KRYCEK: - E quer saber o que é pior? Daqui a pouco vão bater nos seus registros. Vão achar aquele seguro que você fez pra sua mãe.

Mulder olha sem entender nada.

KRYCEK: - (DEBOCHADAMENTE, MAL SEGURANDO O RISO) Pelo menos, eles acham que você fez. É o que os papéis dizem... E você vai ficar foragido por um bom tempo. Até que vai voltar pro FBI e dizer que tudo foi uma conspiração contra você. (DRAMÁTICO) Que você estava tentando matar um homem que é responsável pela obstrução da verdade. Que ali é a sala onde conspiram contra o povo e o governo. Vai contar toda essa história, essa repetição do mesmo assunto, alienígenas e o seu velho blá-blá-blá de sempre. Aquilo que todos já estão acostumados a ouvir do paranoico Mulder ‘O Estranho’.

Mulder olha pra Krycek com ódio.

KRYCEK: - Mas... (RI) ... Como sempre, quem acreditará em você?

Mulder tenta se levantar. Krycek chuta o rosto dele. Mulder cai, gemendo de dor. Sangue escorre do rosto.

KRYCEK: - É melhor se acostumar com seu novo quarto de hotel, Mulder. Vai ficar aqui por muitos dias.

Krycek levanta-o. Mulder mal consegue se sustentar nas pernas. Krycek vai empurrando-o até uma câmara frigorífica. Abre a porta e empurra-o pra dentro. Mulder cai com o rosto no chão.

KRYCEK: - Seu quarto, suíte de luxo. Infelizmente não temos serviço de quarto. Mas não se preocupe. Não vai congelar aí. Está desligado.

Krycek tranca Mulder. Sai caminhando lentamente.

Corta pra Mulder dentro do freezer. Mulder fecha os olhos, gemendo de dor. O sangue escorre do rosto dele pro chão.

Corta pra Krycek. Ele sai do depósito e entra num carro de vidros escuros. O Canceroso está no banco de trás.

CANCEROSO: - O convenceu?

KRYCEK: - Digamos que sim.

CANCEROSO: - Eu não disse que Mulder não significava nada pra mim?

Krycek vira-se no banco. Olha para o Canceroso.

KRYCEK: - Quer que o mate?

CANCEROSO: - Quer que o FBI fique intrigado?

KRYCEK: - Quanto tempo vai deixá-lo aí?

CANCEROSO: - ... Está tudo sob controle agora. Dê-lhe um tempo pra pensar no que fez. Depois, dê um castigo à altura.

Krycek vira-se pro volante. Liga o carro. O Canceroso acende um cigarro. Olha pela janela do carro, indiferente.


BLOCO 4:

Lanchonete 46 Este – 1:23 A.M.

Scully está numa lanchonete, sentada ao lado de uma janela grande de vidro, bebendo um café e olhando para o prédio do Sindicato. Andy Sipowics entra na lanchonete.

SIPOWICS: - Mas ora quem encontro? Agente Scully? Não deveria estar tendo o seu sono de beleza?

Scully sorri. Sipowics vira-se pro atendente.

SIPOWICS: - Ei, Tim! Traz uma comida de policial na madrugada!

Scully disfarça. Sipowics olha pra ela.

SIPOWICS: - Então, agente Scully? O que faz realmente em Nova Iorque?

SCULLY: - (CÍNICA) Férias.

SIPOWICS: - ... Liguei para o FBI. Não está em férias.

SCULLY: - ...

O atendente serve café e donuts pra Sipowics. Afasta-se.

SIPOWICS: - Obrigado.... (PREOCUPADO) Agente, Scully, olhe pra mim. Sou um policial veterano, de Nova Iorque... Já lidei com todos os tipos de pessoas e sei quando escondem algum segredo.

Sipowics olha pro prédio. Olha pra Scully.

SIPOWICS: - Não vou acusá-la de envolvimento com seu parceiro porque está tão desesperada quanto a polícia.

SCULLY: - ...

SIPOWICS: - Descobrimos o registro da arma. Fomos afastados do caso por um bando de engravatados colegas seus. Há um agente do FBI envolvido, perdemos a jurisdição pra eles. O que, sinceramente, me deixa furioso.

SCULLY: - ...

SIPOWICS: - Não sei o que seu parceiro estava tentando fazer, mas meu instinto diz que vocês dois estão metidos em encrencas. E das grandes.

SCULLY: - Não, eu...

SIPOWICS: - (BOCA CHEIA) O que há naquele prédio, agente Scully?

Um homem do Sindicato entra na lanchonete. Senta-se numa mesa distante. Observa Scully, disfarçadamente. Scully percebe.

SCULLY: - Detetive, acho melhor não se envolver nisso.

SIPOWICS: - São traficantes? Armaram pra vocês?

SCULLY: - ... Não.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Sabe onde posso encontrar um bom advogado?

Sipowics retira um cartão do bolso.

SIPOWICS: - São os melhores.

Scully pega o cartão e põe no bolso. Não desvia a atenção do homem.

SCULLY: - Preciso ir.

SIPOWICS: - Tem uma viatura aí na frente. Vou levá-la pro distrito. Lá ficará segura.

SCULLY: - Agradeço, mas não quero envolvê-lo. Não pode ficar falando comigo. Acharão que sabe de alguma coisa, é perigoso pra você.

SIPOWICS: - Vi o sujeito ali atrás. Estou seguindo você há horas e acho que ele também.

SCULLY: - ...

SIPOWICS: - Tem certeza de que não quer ajuda?

SCULLY: - Quero ajuda apenas para encontrar o Mulder. Não quero envolver mais ninguém nisso. Você tem família. Não sabe com que pessoas está lidando.

SIPOWICS: - (MORDE O DONUTS) Governo?

SCULLY: - ...

Sipowics respira fundo. Olha pros lados. Olha pra Scully.

SIPOWICS: - (BOCA CHEIA) Está registrada em algum hotel?

SCULLY: - Ainda não.

SIPOWICS: - Tenho um palpite... Acho que seu parceiro não fugiu. Acho que o pegaram. Estou certo?

Sipowics tira uma caneta do bolso. Pega um guardanapo. Escreve um endereço.

SIPOWICS: - Pegue um táxi e vá pra esse apartamento. Fale com minha colega Diane.

SCULLY: - Não confio muito nesse nome e seus similares.

SIPOWICS: - Pode confiar. Ela está esperando por você. Vai te ajudar a dar uma busca por possíveis locais onde se esconderia alguém... Ela conhece muita gente por aí. Gente da pesada. Eles sempre abrem a boca. É só usar de ‘estímulo’ pra isso.

SCULLY: - ... Obrigado.

SIPOWICS: - Não me agradeça.

Scully sai. Sipowics pega o copo de café e levanta-se. O homem do Sindicato levanta-se e caminha até a porta. Sipowics simula um esbarrão e vira café nele.

MAN OF SYNDICATE #1: - O que pensa que está fazendo, imbecil?

SIPOWICS: - Me desculpe.

MAN OF SYNDICATE #1: - Seu idiota! Por que não olha pra onde anda?

Sipowics puxa a credencial.

SIPOWICS: - Sabe com quem está falando, palhaço?

O homem tenta ver pra onde Scully foi. Sipowics o empurra.

SIPOWICS: - Ei, estou falando com você, monte de estrume! Quer ir preso por desacato?

O homem não liga pra Sipowics. Perde Scully de vista. Tenta sair. Sipowics o segura. Dá um tapinha no rosto do sujeito.

SIPOWICS: - Ei, está me ouvindo? Ou está drogado?

O homem empurra Sipowics. Sipowics puxa as algemas.

SIPOWICS: - Acaba de ir preso por estar drogado!

MAN OF SYNDICATE #1: - Eu não estou drogado!

SIPOWICS: - Então acaba de ir preso por bater num policial.

MAN OF SYNDICATE #1: - Eu não bati em você! Você me bateu!

SIPOWICS: - Então acaba de ser preso por mentir pra um policial.

MAN OF SYNDICATE #1: - Me solte!

SIPOWICS: - Soltar você? Deve estar brincando! Estou há horas procurando um imbecil como você pra ter algum trabalho nesse maldito plantão! Vamos pro distrito. Vamos ter uma conversinha.

O homem enfia a mão dentro do paletó. Sipowics o empurra por sobre a mesa. Desarma-o. Algema-o.

SIPOWICS: - (DEBOCHADO) Ah, então vai ser preso também por porte ilegal de arma? Puxa, você está numa grande fria, otário... Impressão minha ou quer se enquadrar em todas as penalidades possíveis?


Sala de Interrogatório – Precinto 15 – 3:47 P.M.

Scully bebe um café sentada. Diane, encostada na parede, de braços cruzados. Scully está nervosa, com os olhos inchados de chorar.

DIANE: - Acha que poderiam matá-lo?

SCULLY: - ... (NERVOSA) Ele deve estar morto... Há três dias não tenho notícias dele...

Diane aproxima-se dela. Senta-se a seu lado. Segura em sua mão.

DIANE: - Agente Scully, não sei o que aconteceu, mas gostaria muito de saber.

SCULLY: - Não, é... (TRISTE) Eu e Mulder lutamos há vários anos para expor essas pessoas. Acho que o Mulder cansou e resolveu agir sozinho, fora das regras... Mas eles o pegaram... Deus sabe o que podem fazer com ele!

DIANE: - Vamos dar outra volta esta noite, ok?

SCULLY: - (EMOCIONADA) Você tem sido uma boa amiga... Como vou te agradecer?

DIANE: - Entendo sua preocupação. É apenas isso.

Diane perde seu olhar pro nada. Scully percebe.

SCULLY: - Está bem?

DIANE: - Estou, Agente Scully.

SCULLY: - Me chame de Dana.

Diane sorri.

DIANE: - É que eu também perdi meu parceiro. Ele era mais que um parceiro de trabalho. Ele era o homem que eu amava... Não é fácil superar isso, mas às vezes fecho os meus olhos, respiro fundo e digo pra mim mesma: Diane, a vida está lá fora te esperando. Então eu olho pra fora, dou um sorriso e tento viver. Até que alguma coisa me lembra dele.

Diane levanta-se.

DIANE: - Esse lugar, tudo aqui (CONFUSA) ... Tudo é Bob, entende? Guardo as coisas dele na minha gaveta porque imagino que ele vai entrar por aquela porta, num dia frio, vestido naquele sobretudo, dizendo: Diane, tudo foi brincadeira. Ainda estou aqui.

Scully olha pra Diane segurando as lágrimas. Diane está nervosa, tentando desabafar.

DIANE: - Não vai acreditar, mas até os pombos me lembram dele! Bob amava animais, nunca esqueço o dia em que estávamos sobre o prédio dele conversando e ele me falava dos pombos... Quando um deles pousa na minha janela, eu fico observando. Talvez seja o Bob que, de algum lugar, resolveu dar uma fugidinha e velar por mim alguns momentos...

SCULLY: - ...

DIANE: - Dana, seu homem ainda está vivo. Vou te ajudar a encontrá-lo.

SCULLY: - ...

DIANE: - Afinal, pra que servem as mulheres? Pra que serve esse coração que nos diferencia deles? Pra que servem a quantidade menor de neurônios que temos, a não ser para evitar que eles façam besteiras?

Scully sorri. Diane, deixa cair algumas lágrimas, mas as seca rapidamente com as mãos.

DIANE: - Vamos, Dana. O sexo frágil precisa investigar o paradeiro do sexo forte. Porque ele só arranja confusão. Mas primeiro tenho de ajudar o Andy a dar uma batida numa boca de fumo. Quer se envolver com crimes menores, agente do FBI?

SCULLY: - Será um prazer.

Scully levanta-se. As duas saem da sala, fechando a porta.


Cais do Porto – Armazém P – Nova Iorque - 1:39 A.M.

Dois dias depois...

Mulder deitado no chão. Rosto ensanguentado, fraco e abatido, ainda amarrado, mas sem a mordaça. Mulder não reage. Olha pra um vazio. Olhos cheios de lágrimas. O Canceroso acende um cigarro, parado na frente dele.

CANCEROSO: - Entendeu?

MULDER: - ...

CANCEROSO: - (AMEAÇADOR) Não deve se envolver com coisas que não lhe são pertinentes. Não ouse se intrometer em meus negócios. Cada passo seu, estarei 20 na sua frente.

MULDER: - ... Me mata.

CANCEROSO: - (IRÔNICO) Matar você? Mas preciso de você. Você faz parte do meu jogo.

Mulder olha chorando para o Canceroso.

MULDER: - (IMPLORA) Por favor... Me mata.

CANCEROSO: - Está com medo?

MULDER: - ... (FECHA OS OLHOS)

CANCEROSO: - Fez toda essa besteira por quê?

MULDER: - ... (CANSADO) Jamais entenderia... Está além do seu alcance.

CANCEROSO: - (SORRINDO DEBOCHADO) Acha que não sou inteligente?

O Canceroso afasta-se dele sorrindo.

MULDER: - (SORRI CANSADO) Não. Acho que apenas desconhece uma parte do seu cérebro.

CANCEROSO: - ...

MULDER: - A parte que ama alguma coisa. Você é infeliz. Agora vejo porque faz as coisas que faz.

O Canceroso sente uma punhalada no peito. Fica angustiado, mas tenta disfarçar.

MULDER: - ... (DIVAGANDO) Você nunca foi amado. Nunca teve alguém que se importasse com você. Nunca teve alguém que te amasse. (FECHA OS OLHOS)... Não posso condená-lo, sabia?

O Canceroso vira-se pra parede. Segura as lágrimas, com ódio. Mulder está deitado no chão, de costas, e não vê a reação do fumante. Continua divagando, enquanto as lágrimas escorrem pelo rosto cansado.

MULDER: - Você tinha um sonho como todas as pessoas têm... Como todas as crianças têm... Mas, cansou de esperar por ele. Era pobre, tinha uma vida difícil. Seu pai te abandonou, sua mãe praticamente se matou. Você precisava sobreviver.

O Canceroso fuma compulsivamente, prestando atenção nas palavras de Mulder. Elas doem em seu interior.

MULDER: - ... O exército lhe ofereceu o estudo e a carreira que jamais conseguiria no mundo lá fora, porque você era o que a sociedade chama de excluído. Então pegou a primeira oportunidade que lhe apareceu, como uma maneira de ser forte, poderoso, ter dinheiro... Assim conseguiria realizar o seu sonho. Só não sabia que o preço seria sua alma... E que seu sonho nunca se realizaria, porque eles queriam mais... Sempre mais...

O Canceroso derruba uma lágrima, atingido.

MULDER: - (CANSADO) E o sempre mais foi passando, sua vida foi passando, seus sonhos ficando pra depois... E no caminho, você ficou perdido, sem saber mais no que acreditar. Viu coisas que não queria, fez coisas que não queria... Agora percebe que foi um perdedor...

CANCEROSO: - ... (FECHA OS OLHOS)

MULDER: - E sabe que não pode mais desistir... Eu... Eu às vezes odeio você tanto... Mas às vezes, me pego pensando no porquê faz essas coisas. Nunca disse isso, nem à Scully, mas... Não concordo com o que faz, lutarei sempre contra isso... Mas eu te entendo. Você não é diferente do resto da humanidade. Apenas quis sobreviver, como todos querem. Apenas queria ter uma chance na vida. De outra maneira, não como ela apareceu.

Mulder fecha os olhos. O Canceroso olha pra ele, ali daquele jeito. Sai dali, desatinado. Caminha pra fora do depósito. Apaga o cigarro.

CANCEROSO: - Você não entenderia até que ponto o arrependimento pode levar um homem a cometer besteiras. Hoje, Mulder, você conseguiu matar um pouco de mim. E a única arma que precisou utilizar foram palavras...


2:37 A.M.

Mulder dorme. A porta da câmara frigorífica se abre. Três homens entram e o acordam a chutes.


2:46 A.M.

Mulder é arrastado, sem camisa, pelo depósito por dois homens. Está todo esfolado. Quase inconsciente. Sangra muito. Eles o largam perto de uma parede, de onde pendem duas cordas que passam por cima das vigas de madeira do teto. Mulder não reage, está fraco demais. Krycek aproxima-se.

KRYCEK: - Ora, espero que tenha gostado do comitê de despedida.

MULDER: - ...

KRYCEK: - Preparamos uma surpresa pra você, rei dos injustiçados. Uma surpresa a sua altura.

Krycek sinaliza para os homens. Eles amarram cada corda num dos pulsos de Mulder.

MULDER: - ... (ASSUSTADO) O... o que estão fazendo?

KRYCEK: - Acho que você vai ficar bonitinho, pendurado aí... Vai combinar com a decoração.

Os homens puxam as cordas erguendo Mulder, contra a parede. O terceiro homem coloca um caixote junto a parede. Debaixo do pés de Mulder. Mulder está assustado.

MULDER: - (ASSUSTADO) O que vão fazer? Me soltem!

KRYCEK: - Com os cumprimentos de ‘deus pai’, vamos mostrar pra você...

Um dos homens aproxima-se com dois pregos grandes e um martelo.

KRYCEK: - ... O quanto dói ser Jesus Cristo.

Fade to black. (a imagem escurece)

Ouve-se o grito de Mulder.


3:11 A.M.

Fade up. (a imagem abre)

Diane dirige o carro. Entra no cais. Scully ao lado dela.

DIANE: - É o único lugar que resta. Sinto muito.

SCULLY: - ...

DIANE: - Vamos dar uma olhada por aí.

Elas passam em frente aos armazéns. Na frente do Armazém P, Scully percebe uma limusine sair em disparada.

SCULLY: - (GRITA) Pára!

Diane freia. Scully desce do carro. Olha pra limusine que já sai do cais. Scully olha pro armazém. Diane aproxima-se dela.

DIANE: - O que foi? Quem são?

Scully puxa a arma. Diane puxa a arma também. As duas aproximam-se da porta, com cautela. Scully pega a lanterna do bolso. Diane abre a porta com um chute. As duas entram. Scully ilumina o local.

SCULLY: - Vá por ali, vou por aqui.

As duas se dividem. Scully caminha com a arma e a lanterna apontadas. Caminha devagar. Ilumina todos os lados. Não vê nada. Escuta um gemido fraco. Scully ergue as sobrancelhas.

SCULLY: - Mulder? ...

Scully mira a lanterna para o lado.

SCULLY: - (DESESPERO/ GRITA) Muldeeeeeeerrrrrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!!


3:22 A.M.

[Som: Phil Collins - Against all odds]

Scully sentada no chão, suja de sangue, com Mulder desmaiado em seus braços. [Remetendo-se a escultura “Pietà”, de Michelangelo (Maria com Jesus nos braços)]

Nas mãos de Mulder, furos de pregos. Scully o embala, enquanto chora convulsivamente. Diane entra com policiais e paramédicos. Scully afaga os cabelos de Mulder.

SCULLY: - Acabou, Mulder... Acabou.

Fade out.

X


07/03/2000

12 июня 2019 г. 9:46:36 0 Отчет Добавить 0
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Об авторе

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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