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S02#15 - ARMAGEDOM - PARTE II


“Gravei bem no vosso espírito de não preparar vossa defesa, porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários. Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. Sereis odiados por todos por causa do meu nome. Entretanto, não se perderá um só cabelo da vossa cabeça. É pela vossa constância que alcançareis vossa salvação.”

Lucas 21. 14-19


NA FIC ANTERIOR:

FBI – Sala de reuniões - 9:17 A.M.

[Som: Nirvana – Smells like Teen Spirit]

Skinner está na sala de reuniões. Kersh e outros diretores-assistentes também. Mulder, carregando uma caixa de papelão invade a sala, seguido por Scully e por vários agentes federais. Mulder atira a caixa sobre a mesa, num ar de vitória.

KERSH: - O que está acontecendo por aqui?

DIRETOR #1: - Como ousam invadir uma reunião?

Mulder abre a caixa. Retira um tubo de ensaio, com uma abelha dentro. Coloca sobre a mesa. Outro tubo de ensaio, contendo um chip de metal. Skinner olha assustado pra Mulder e suspira. Mulder tira uma pasta de papel e joga sobre a mesa.

DIRETOR #2: - Mas o que significa isso?

MULDER: - Provas. Aí estão as provas que precisam.

Burburinho geral.

SKINNER: - Agente Mulder...

MULDER: - E tem mais. Tem alguém aqui que vai falar. Não por métodos tradicionais, mas ele vai falar.

Mulder abre a porta. Krycek entra algemado, surrado, sendo carregado por dois agentes. Mulder olha vitorioso pra eles.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

[Som: Nirvana – Smells like Teen Spirit]

Skinner sai da sala de reuniões. Nervoso. Mulder e Scully saem com ele.

SKINNER: - O que pensa que está fazendo, agente Mulder?

MULDER: - Dando pão aos famintos.

SKINNER: - Pão? Você acaba de servir sua cabeça num banquete para os fartos! Scully, esperava que você fosse mais ponderada.

MULDER: - Temos as provas.

SKINNER: - As têm mesmo? Por que não falou comigo antes de fazer uma bobagem dessas?

MULDER: - Porque eu não quero envolvê-lo.

SKINNER: - Mulder, já estou envolvido desde os dia em que resolvi reabrir os Arquivos X pela primeira vez! Não pode brincar com esse homem!

MULDER: - Posso. Posso e vou fazê-lo.

SKINNER: - Sabe do que ele é capaz! Não pode simplesmente agir como se fosse ele!

MULDER: - Posso agir como eu quiser.

SKINNER: - Como pegou o Krycek?

MULDER: - Menti que o ajudaria. Claro que acreditou, porque o Mulder burro nunca mente. Mas se deu mal desta vez, Skinner. O Mulder burro morreu naquele hospital com a Scully que morreu de câncer!

Mulder sai pelo corredor. Skinner olha pra Scully.

SKINNER: - O que está acontecendo com ele? Não percebe que tudo é armação? Acha que pegaria Krycek se Krycek não quisesse?

SCULLY: - Ódio. Acho que Mulder está misturando sua vida pessoal com o trabalho.

SKINNER: - Já falou isso pra ele?

SCULLY: - Mulder escuta alguém por acaso?

Skinner suspira.

SKINNER: - Como ele caiu nessa? Não perceberam que é uma armadilha?

SCULLY: - Não é uma armadilha. Examinei as provas, tenho relatórios completos da análise! Eu roubei aquilo, senhor. De fonte segura. Não esperavam por isso. Mas eu espero retaliações agora. Mulder é quem não consegue perceber as conseqüências.

Skinner olha para os lados, nervoso.

SKINNER: - Scully, por favor, acho que está se envolvendo demais na jornada de Mulder e está esquecendo de agir racionalmente! Acha que esses homens são pegos com facilidade?

SCULLY: - Senhor, precisamos tentar. Não concordo com os procedimentos do Mulder, mas conseguimos as provas. Não creio que Krycek vá confessar nada, mas Mulder está cego! Ele acha que pode ser pior ou igual àquele homem!

SKINNER: - Pois tentaram da maneira errada. E passaram por cima da minha autoridade. Não posso safar vocês dessa vez. Acham que Krycek vai entregar o jogo? O matarão antes de abrir a boca.

Skinner sai. Scully cruza os braços.


Arquivos X – 10:04 A.M.

Scully entra na sala. Mulder está sentado, pensativo. Trovoadas. Chuva intensa.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Estou com medo de que o Skinner tenha razão.

SCULLY: - Não há como, Mulder. Temos as provas, examinadas em laboratório.

Mulder levanta-se. Fica irritado.

MULDER: - Essa droga de chuva, está me deixando maluco!

SCULLY: - Não gosto tanto quanto você, Mulder. Mas é a natureza. Quem pode evitar a natureza?

MULDER: - ... Preciso ir. Tenho que interrogar um suspeito por métodos nada tradicionais. Vou vigiar o Krycek. Quando cansar, você vigia. Não quero ninguém perto dele, a não ser um de nós dois.

SCULLY: - Tá. Vou ficar aqui e esperar a reunião terminar.

MULDER: - (SORRINDO) Conseguimos, Scully.

SCULLY: - Espero que sim, Mulder.

MULDER: - Vamos expô-lo! Os dias dele acabaram!

Mulder sai. Scully senta-se. Apóia os braços sobre a mesa. Pega o pequeno tubo contendo o chip. Observa-o. As lágrimas começam a escorrer. Scully fecha os olhos. Lembra-se de estar deitada numa cama, com um objeto perfurando sua barriga. Scully abre os olhos. Coloca o tubo dentro da gaveta. Apóia os cotovelos na mesa e põe as mãos no rosto. A porta se abre.

SCULLY: - Esqueceu algo, Mulder?

Sem resposta. Scully tira as mãos do rosto, secando as lágrimas. Olha pra porta. Levanta-se depressa da cadeira e afasta-se da mesa. Puxa a arma, nervosa.

SCULLY: - (ASSUSTADA) O que quer aqui?

CANCEROSO: - Não precisa usar isso, agente Scully. (SORRINDO) Vim em paz.

SCULLY: - Paz é uma palavra desconhecida em seu dicionário!

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Você tem algumas coisas que me pertencem. Uma boa moça não invade a casa dos outros, roubando objetos que não são seus.

SCULLY: - É tarde demais, o FBI já sabe de tudo.

O Canceroso acende um cigarro.

CANCEROSO: - Tenho uma proposta pra você.

O Canceroso dá uma tragada e olha debochadamente pra Scully, enquanto sopra a fumaça.

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Negociar com você é melhor do que com Mulder. Mulder é chorão, faz besteiras, é nervoso demais. Vai acabar tendo um enfarte. Você é uma rival interessante. Você não tem medo, você é decidida. É calada e ponderada como eu sou. Parecemos muito um com o outro. Poderia ser minha filha.

SCULLY: - ... Como entrou aqui?

CANCEROSO: - Ora, agente Scully, entro onde quiser. Na hora que quiser.

SCULLY: - Não quero negociar com o demônio!

CANCEROSO: - (DEBOCHADO/ JOGANDO SUJO) Ah, então está aprendendo rapidamente a ironia do seu parceiro... Não é de se estranhar, afinal de contas, você vive dizendo pra ele que precisa de exorcismos.

Scully arregala os olhos, incrédula.

SCULLY: - Seu desgraçado! Ainda mantém escutas nos nossos apartamentos! Sente prazer em ouvir a privacidade dos outros?

CANCEROSO: - Preciso ouvir a privacidade dos outros. Isto é como ouvir uma saudosa novela de rádio, agente Scully. Sempre há algo interessante na vida alheia. Algo que podemos manipular para obter o que queremos.

SCULLY: - (ASSUSTADA) Saia já daqui! Vou atirar em você!

CANCEROSO: - Não faria isso, não pode matar a verdade de Mulder. Afinal, você o ama, não é mesmo?

Scully fecha os olhos. Abre-os. Guarda a arma.

CANCEROSO: - Tem doze horas pra pensar. Me devolva as provas que tem e eu lhe devolverei o que quer.

SCULLY: - Não tem nada que eu possa querer!

CANCEROSO: - Não? Pense bem, agente Scully... Você teve um câncer, eu a ajudei. Está viva porque eu quis entregar o chip ao Mulder. Não porque Mulder queria. Ele é um fraco, um pobre infeliz que acha que pode passar por cima de mim. Mulder vive em busca de sua verdade, do seu ‘ouro de tolo’.

SCULLY: - Você me deu aquele câncer, seu desgraçado!

CANCEROSO: - (CÍNICO) Você começou a bisbilhotar coisas que não devia. Como está fazendo agora. Me traiu. Logo eu, quem impulsionou sua carreira no FBI, quem lhe colocou aqui dentro. Mas tudo bem, as pessoas são falsas mesmo. Você as ajuda num dia, no outro elas o desprezam...

SCULLY: - (IRRITADA) Seu louco! Você é louco, doente, insano! Pode ter permitido que eu entrasse nos Arquivos X mas isso não lhe dá o direito de achar que impulsionou minha carreira! Minha carreira é honesta, não preciso de pessoas de poder para galgar degraus! Eu sou quem sou e o meu trabalho é meu reflexo pessoal!

CANCEROSO: - Acredito que não gostaria de acordar sem esse chip. Já pensou nisso, seu câncer voltaria... Sabe, as coisas como aparecem, também somem, agente Scully. Ou quem sabe, ver seu parceiro acordar com algum vírus letal e desconhecido no organismo. Vê-lo definhar até a morte estragaria seu amor por ele.

Scully olha para o Canceroso com raiva, segurando as lágrimas.

SCULLY: - Como pode manipular e ameaçar as pessoas desse jeito? Não há um ser humano dentro de você? Nunca amou, nunca sentiu dor?

CANCEROSO: - (TRAGA O CIGARRO/ SORRI) Sabe que tenho meios para fazer isso. Poderia conseguir o que quero facilmente. Mas prefiro negociar, com educação, afinal somos civilizados, não é mesmo?

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Por respeitá-la, minha pupila predileta, vou fazer uma proposta para você. Uma proposta de amigo. Entregue as provas e eu lhe devolverei a chance de ter seus filhos.

Scully amolece o corpo.

CANCEROSO: - Poderá realizar seu sonho de ser mulher. Porque sendo estéril, que tipo de mulher é você? Acha que Mulder não vai querer ter filhos? Ele é um homem saudável, vai querer ter sua prole. Mas você... Você não é uma mulher, na concepção correta da palavra. Você não tem o que as mulheres têm. E com certeza, Mulder vai achar alguém que dê o que ele quer. Pobrezinha... Tão bonita, mas tão inútil como fêmea.

Scully cerra os punhos, tentando conter o ódio.

CANCEROSO: - Viu? Não sou mal como dizem. Estou oferecendo um presente. Esse meu pobre coração tão grande, tão gentil, ainda vai acabar comigo.

SCULLY: - ... Desgraçado! Você vai pagar caro o que está fazendo com as pessoas! Espero que apodreça no inferno!

CANCEROSO: - O inferno, agente Scully, é a repetição. Portanto, você está no inferno, repetindo e repetindo a dor de não ter filhos...

Scully fica com mais raiva, tenta conter as lágrimas, mas não consegue.

CANCEROSO: - Doze horas. Foi um prazer revê-la, agente Scully. Sempre é bom negociar com alguém como você.

O Canceroso sai. Scully fica parada, olhando pro nada, derrubando lágrimas. Incrédula com o que ouviu.


Gabinete do diretor-assistente – 11:03 A.M.

Scully entra, com os olhos vermelhos e ainda derrubando lágrimas. Skinner não percebe, está com a cabeça abaixada assinando alguns papéis.

SKINNER: - O que quer, agente Scully?

SCULLY: - ...

Skinner ergue a cabeça. Olha pra ela. Levanta-se.

SKINNER: - Aconteceu alguma coisa?

SCULLY: - (CHORANDO) Senhor, preciso ir pra casa. Não estou me sentindo em condições de trabalhar.

SKINNER: - Tudo bem, Scully. Quer que a leve ao médico?

SCULLY: - Não, eu... (SEGURA O CHORO) Eu só preciso ir pra minha casa.

Scully sai às pressas. Skinner fica intrigado. Pega o telefone.

SKINNER: - Ache o Mulder. Preciso falar com ele.


Prisão Federal – 12:47 P.M.

Mulder, sentado do lado de fora da cela, lê uma revista. Krycek, dentro da cela, observa-o.

KRYCEK: - Os prisioneiros não têm direito a uma refeição? Um prato de okróchka agora caía bem.

MULDER: - Se não calar a sua boca vou enfiar essa revista na sua okróchka!!!!

KRYCEK: - (PROVOCANDO) Você vale tanto quanto o seu pai.

Mulder fecha a revista. Levanta-se. Olha pra Krycek.

MULDER: - Acha mesmo? Bill Mulder era um bom sujeito, até que você o matou.

KRYCEK: - Matei. Matei e precisava ver a cara que fez quando morreu!

Mulder tenta puxá-lo pela grade. Krycek afasta-se, rindo.

KRYCEK: - Sabe de quem estou falando.

MULDER: - Meu pai é o Bill! Não é quem você está pensando.

KRYCEK: - Está protegendo o segredinho dele, não é mesmo? Se confirmasse isso na frente de algumas pessoas, o destruiria, seu idiota! Foi só o que pedi! Mas não, você não pode. Tem medo dele!

MULDER: - Não tenho medo dele!

KRYCEK: - Então por que o protege?

MULDER: - Mesmo que fosse verdade, eu prefiro lutar contra ele do que lutar contra um covarde como você, um insensato! Você não é um rival à minha altura, seu bastardo!

KRYCEK: - Besteira! Sabe que eu sou mais pacífico do que seu pai. Eu lutaria contra os alienígenas. Não sou covarde.

MULDER: - Não sei nada de você, Krycek, exceto que é um rato traidor e mentiroso, que trabalha pra si mesmo.

Krycek começa a rir. Mulder fica invocado.

MULDER: - Do que está rindo?

KRYCEK: - De você. Acha que vou entregar o jogo? Faço parte dele. Eu tenho coisas que eles não têm, por isso precisam de mim. Vão me tirar daqui, Mulder. Sabe disso.

MULDER: - Se tentarem, atiro.

KRYCEK: - Acha que vai conseguir? Mulder, você é burro!

MULDER: - Burro é você! Quero ver como vai explicar essa mão de salamandra na frente da justiça!

KRYCEK: - Justiça? (RI) Mulder, você é americano demais. Acredita mesmo que seu país é justo? O FBI é justo com você? Eles não acreditam em você, Mulder. Deveria ter percebido antes. Não pode desintegrar todo um sistema complexo, mais velho do que sua bisavó! Existe uma coisa chamada poder e troca de favores. Sua voz não alcança o topo. Nunca alcançará. Quem está no topo do mundo quer permanecer nele. E o silêncio é a chave do poder e do dinheiro.

MULDER: - (IRRITADO) Cala a boca!

KRYCEK: - Sabe que falo a verdade. Sua luta é em vão. Talvez conseguisse que as pessoas acreditassem em você se utilizasse métodos não convencionais e fora da sua ‘justiça americana’. Por que não se candidata a prefeito? Poderia ser um bom começo pra fazer os seus discursos sobre alienígenas!

MULDER: - Cale a boca!

KRYCEK: - ... Sabe que não funciona. Pode ir à imprensa. Mas os jornalistas só mantém a informação que convém ao dono do jornal, que por acaso, sempre é amiguinho do governo porque não é bobo! Sabe que poderia gritar do alto de um prédio. Mas chegaria uma ambulância e te internaria num hospício. Mulder, se for experto, vai ouvir o que eu digo. Corre tanto atrás dessa verdade, mas não desconfia, que a verdade está dentro de você.

MULDER: - Muito poético.

KRYCEK: - Científico, seria a palavra correta.

MULDER: - Cale a boca, seu rato russo sujo! Não vou ficar ouvindo suas besteiras!

Krycek senta-se.

KRYCEK: - Mulder, um dia vai descobrir e da pior maneira... Não percebe? Não pode fazer nada. Nem sabe contra quem e contra o quê está lutando.

MULDER: - ...

KRYCEK: - O universo está se movendo, Mulder. E nem eu, nem você, podemos conter isso.


BLOCO 2:

12:38 A.M.

Mulder, quase cochilando. Levanta-se da cadeira e anda de um lado para o outro. Pega o celular e aperta uma tecla.

MULDER: - ... Scully? Que tal trocarmos de turno? Estou caindo de sono... Traga um cobertor, esse lugar é frio.

Mulder desliga. Guarda o celular. Olha pra cela. Krycek está lendo. Krycek sorri pra Mulder. Mulder vira o rosto. Caminha pelo corredor. Vê o guarda pela janela de vidro da porta. Vira-se. Leva uma coronhada na cabeça. Cai desacordado no chão.


1:15 A.M.

Scully abre a porta com janela de vidro. Caminha até a cela de Krycek. Ele não está ali. Corre até o guarda.

SCULLY: - Onde está o prisioneiro? Onde está o meu parceiro?

GUARDA: - Não sei. Troquei de turno há 10 minutos.

SCULLY: - Droga!

Scully pega o celular.

SCULLY: - Atende... Atende... Senhor, é a agente Scully. Krycek fugiu! Acho que levou Mulder como refém!


2:11 A.M.

Mulder acorda amarrado numa cadeira. A cabeça sangrando. Não consegue distinguir onde está. Lentamente vai recuperando a visão e percebe que está num depósito abandonado. Vê Diana Fowley.

DIANA: - Fox, está bem?

MULDER: - ... Desgraçada.

DIANA: - Fox, não é o que está pensando. Não fiz isso.

MULDER: - Mas seus amigos fizeram!

DIANA: - Fox, eu tentei, mas você nunca me dá ouvidos.

Alguns homens aproximam-se. Krycek junto com eles.

KRYCEK: - Pode ir, tem um carro te esperando.

DIANA: - ... (OLHA ASSUSTADA PRA KRYCEK)

KRYCEK: - Não vamos machucar o seu amiguinho... Você falhou, Fowley. Meus pêsames. Mas tem muito caminho ainda, muito o que aprender. Mas agradecemos pelas tantas vezes que entregou o Mulder.

Diana olha pra Mulder, como que pedindo socorro. Mulder vira o rosto, com nojo dela. Diana sai do depósito, de cabeça erguida. Krycek aproxima-se de Mulder e olha em seus olhos.

KRYCEK: - Não devia ter feito o que fez. Foi burrice! Não percebe que é tarde demais?

MULDER: - Tarde demais pra quê?

KRYCEK: - Eles estão aqui, Mulder. E tenho uma notícia pra você: Reze. Vamos apertar o botão em menos de 24 horas.


2:47 A.M.

[Som: Nirvana – Smells like Teen Spirit]

Diana dirige. Um carro a segue. Ela percebe pelo retrovisor. Acelera. Outro carro vem em sua direção e atravessa-se na frente dela. Diana freia. Alguns homens do Sindicato descem. Puxam Diana pra fora do carro.

DIANA: - Ei, o que estão fazendo?

MAN OF SYNDICATE # 2: - Você vem conosco.

DIANA: - Pra onde?

MAN OF SYNDICATE # 2: - Pra um lugar seguro. Eles estão esperando por você.


Apartamento de Mulder – 4:59 A.M.

Scully entra. Nervosa. Acende as luzes e fecha a porta. Olha pro chão. Percebe gotas de sangue. Olha pra sala. Vê Mulder, atirado ali, inconsciente.

SCULLY: - Mulder!

Scully ajoelha-se ao lado dele. Ergue sua cabeça. Mulder está todo machucado, levou uma surra.

SCULLY: - Mulder, fala comigo!

MULDER: - Ai!

SCULLY: - Ah, graças à Deus, Mulder!

MULDER: - (DEBOCHADO) Não se preocupe, Scully... Isso foi só um aviso do meu ‘pai’. Ele não quer que eu arranje confusão por aí.

Scully examina a cabeça de Mulder. Está sangrando.

SCULLY: - Mulder, vou levá-lo pro hospital. Tem um corte feio na cabeça.

MULDER: - Scully, por que sempre descontam na minha cabeça? Vou acabar retardado!

SCULLY: - Não é hora de piadas, Mulder. Está bem? Consegue se mexer?

MULDER: - Sim... Scully, o Krycek fugiu.

SCULLY: - Sei disso, Mulder.

MULDER: - Onde esteve a tarde toda?

SCULLY: - ... Vamos, Mulder. Precisamos ir pro hospital.

MULDER: - Ai, minha cabeça!

Scully ajuda Mulder a se levantar. Mulder caminha, ainda meio tonto. Veste o sobretudo.

MULDER: - Scully, esqueça o hospital.

SCULLY: - Mulder, onde vai?

MULDER: - Vem comigo. Precisamos ser rápidos, Scully. Temos menos de 24 horas.

SCULLY: - 24 horas pra quê, Mulder?

MULDER: - Pra continuar a respirar oxigênio e assistir basquete. Comer cachorro quente e olhar pro céu, tendo a certeza de que somos donos deste planeta.

SCULLY: - Mulder, não está em condições de andar por aí desse jeito! Apanhou como um cachorro!

Mulder abre a porta. Atira as chaves do carro pra Scully.

MULDER: - Você dirige.

SCULLY: - Mulder, pelo menos vá tomar um banho!

MULDER: - Eu não tenho tempo pra banho!

SCULLY: - Então pelo menos tire esse sangue da sua cabeça e do seu rosto!

Mulder vai pro banheiro. Enfia a cabeça debaixo da torneira.

MULDER: - Ai, isso dói!

SCULLY: - Tá vendo?

Scully lhe entrega uma toalha. Mulder seca os cabelos bem devagar. Scully examina a cabeça dele.

MULDER: - O que vai fazer?

SCULLY: - Cala boca, Mulder! Precisa de pelo menos uns dois pontos nessa cabeça dura!

Mulder abre uma gaveta e tira uma atadura.

MULDER: - Enrole isso no seu Frankenstein e vamos embora! Não podemos perder tempo.

SCULLY: - Mulder, quem te disse que o mundo vai acabar em menos de 24 horas?

MULDER: - Krycek. Alex Krycek.

SCULLY: - Mulder, como pode acreditar nele?

MULDER: - Nós chegamos ao final da nossa busca, e não vamos conseguir expor a conspiração antes de 24 horas. Nós falhamos, Scully. Eles venceram.

SCULLY: - ... (INCRÉDULA) Mulder, está me dizendo que é o fim?

MULDER: - ... (ABAIXA A CABEÇA)

Scully escora-se na parede. Olha pra Mulder.

MULDER: - Scully, é por isso que vou pra Carolina do Norte. Sei onde ele vai se esconder. Se vamos morrer, se o mundo inteiro vai morrer, ele vai morrer também. Pelas minhas mãos. Quero o sangue dele aqui, escorrendo por entre meus dedos. Hê, hê, hê.

Scully olha assustada pra Mulder.

SCULLY: - Mulder, o que aconteceu com você? Não está agindo como o Mulder que eu conheço. Está... Mulder, você está cruel, insensível.

MULDER: - Devo ter sensibilidade com aquele sujeito?

SCULLY: - Matá-lo vai adiantar alguma coisa?

MULDER: - Vai. Morrerei tranqüilo... Anda, enrola essa droga na minha cabeça pra ver se esse sangue pára de escorrer. Tenho coisas importantes pra fazer.

SCULLY: - Mulder, você está perturbado... Está enlouquecendo.

MULDER: - É o fim do mundo, Scully. Vamos fazer o que nunca fizemos.

Scully fica assustada. Enrola a atadura na cabeça de Mulder.


Estrada Interestadual – 5:29 A.M.

Scully dirige o carro. Mulder olha atentamente pra estrada. A chuva cai fortemente.

MULDER: - Montaram uma base, Scully. E não foi pra distribuir alimento aos carentes.

SCULLY: - Base? Que base, Mulder?

MULDER: - Estão se preparando. Estão com medo. Scully, a coisa toda já começou.

SCULLY: - ... Mulder, a coisa toda já começou realmente.

MULDER: - Ah, então acredita em mim!

SCULLY: - Não da maneira como acha, Mulder.

MULDER: - O que quer dizer com isso? Alguma teoria?

SCULLY: - Mulder, conhece o Livro das Revelações, ou o Apocalipse como chamam. Por que acha que eles estão com medo? Por que leriam a Bíblia, Mulder? Eles não tem poder contra Deus ou seja lá o que for Deus. Estavam buscando respostas!

MULDER: - ?

SCULLY: - A Bíblia disse que quando o Messias voltasse, haveria um grande sinal no céu. Os grandes reis esconderiam-se nas montanhas, com medo da ira divina. Eles têm medo, Mulder. Assim como nós, não sabem todas as verdades. E nem a hora H!

MULDER: - (IRRITADO) Ah, Scully, você não acredita nessa besteira de alinhamento planetário!

Scully olha séria pra Mulder.

MULDER: - Ah, não acredito nisso! Isso não pode vir de uma cientista.

SCULLY: - Ouviu o programa na TV, Mulder. Concordo com as opiniões da NASA. O planeta está mudando, Mulder. Não vou ser trágica a ponto de dizer que tudo será destruído. Mas vamos sofrer uma extinção.

MULDER: - Concordo com isso, Scully. Mas ela virá dos alienígenas.

SCULLY: - Acho que falo de outros alienígenas, Mulder. Não dos seus. Não sei, eu... Minha fé está abalada, eu nem sei se acredito mais no Deus que eu conhecia. Mas ele ainda continua sendo Deus, Mulder. Porque é justo. Independente de quem seja.

MULDER: - Scully, é só um alinhamento.

SCULLY: - É? Então por que essa chuva não pára? Por que tantos terremotos nos últimos dias? Tantas inundações? Tanta desgraça vinda da natureza? Vingança pelo que fizemos com ela?

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, não creio muito em astrologia, sabe disso. Mas os braços desta cruz estarão situados em Aquário, Touro, Leão e Escorpião. Que segundo os astrólogos, correspondem aos símbolos dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Os quatro primeiros selos do Livro. Eles estão com medo, Mulder. Devem saber de algo. Se a invasão que você diz que vai acontecer começar, será antecipada por precaução.

MULDER: - ... Scully e se você estiver certa? Faz sentido o porquê de estarem com medo. Faz muito mais sentido...

O carro começa a chacoalhar. Os dois se olham assustados. Mulder olha pra frente.

MULDER: - (GRITA ASSUSTADO) Scully!!!!!!!!

[Som: Nirvana – Smells like Teen Spirit]

Scully olha pra estrada. Percebe-se à frente do carro que alguma coisa vem contra eles pelo chão. É um sulco que vai abrindo o asfalto.

MULDER: - (GRITA) Pula!!!!!!!!!!!

Scully pára o carro. Os dois pulam, um pra cada lado. O sulco passa por baixo do carro, engolindo-o. Scully levanta-se, passando a mão nos cabelos. Olha assustada pra Mulder, que está do outro lado.

MULDER: - (SURPRESO) Scully, viu isso?

SCULLY: - Terremoto, Mulder! E foi grande!

A terra treme de novo. Eles se afastam do sulco. A terra pára de tremer. Mulder aproxima-se e olha pra baixo.

MULDER: - Uau! Scully, acho que o FBI vai ficar com o meu décimo terceiro desse ano.

Scully aproxima-se com medo. Olha pra baixo.

SCULLY: - Oh, meu Deus! Se ficássemos naquele carro...

MULDER: - Scully, estamos com dois problemas. Um deles é que nenhum de nós é recordista em salto sobre obstáculos. O outro é que vamos ter que andar até a próxima cidade. Se é que existe a próxima cidade depois disso.

Scully olha pra Mulder, desafiando-o, enquanto tira os sapatos.

SCULLY: - Vamos, Mulder. O dia já vai amanhecer.

MULDER: - O que mais poderia acontecer de errado?

Trovoada. A chuva começa a cair forte. Scully, com os cabelos escorridos, olha pra Mulder, furiosa.

SCULLY: - Mulder....

Mulder, já todo ensopado, com os cabelos escorridos por sobre a atadura.

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Nunca mais faça esse tipo de pergunta. Pode não gostar da resposta.


7:11 A.M.

A chuva continua forte. Eles já caminham lado à lado. A fenda diminuiu de tamanho. Scully, com os pés no chão. Arrastando-se. Mulder calado, já desanimado.

SCULLY: - Mulder, estou começando a acreditar em azar, sabia?

MULDER: - ... Tem uma placa lá adiante. Deve estar escrito “Bem vindo a sei lá o quê. População: sei lá quantos.”

SCULLY: - Como na placa que passamos a mais de um quilômetro atrás, que dizia apenas “travessia de animais”?

MULDER: - Ah, Scully, não tire minhas esperanças!

SCULLY: - ... Droga!!!!

Scully pára. Ergue uma perna e massageia o pé.

SCULLY: - Meus pés estão me matando!

MULDER: - Isso não vai fazer bem pra você. Quer os meus sapatos?

Scully olha debochada pra Mulder.

SCULLY: - Mulder, 44 pra 36 tem diferença, sabia? Não pretendo usar uma prancha de surfe nesse asfalto.

MULDER: - Quer que te carregue no colo?

SCULLY: - Mulder, está pior do que eu! Daqui à pouco vou ter de arrastá-lo por aí.

MULDER: - Que tal sentarmos um pouco?

SCULLY: - Tá.

Os dois caminham até o acostamento. Sentam-se, apoiando as costas um no outro. Scully massageia os pés. Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Tô com dor de cabeça... Chuva desgraçada!

SCULLY: - Mulder, não está em condições de ficar perambulando por aí.

MULDER: - Mas não passa um carro! Droga de fim de mundo, Scully!

SCULLY: - ... Hum... Quero uma boa cama, um bom banho... um bom jantar. Pelo menos quero ter minha última refeição.

MULDER: - Tenho sementes de girassol.

SCULLY: - Não é a minha ideia de última refeição, Mulder. Acha que isso vai matar a minha fome? Não almocei hoje!

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ... No que está pensando?

SCULLY: - Em coisas.

MULDER: - Eu também estou pensando em coisas. Como por exemplo, você nua na minha cama. Essa é a minha ideia de morte, Scully. Se o mundo vai acabar, quero morrer pelado na cama com você.

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Ah, que droga! Vou morrer afogado se continuar chovendo desse jeito. Vou perder o Armagedom!

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully, eu nunca acreditei que conseguiríamos. Talvez se tivesse acreditado...

SCULLY: - ... Mulder, acho que fizemos o que podíamos ter feito. Deixamos nossas vidas de lado pra mostrar uma verdade que nunca vimos.

MULDER: - Foi em vão.

SCULLY: - Não. Não foi uma existência vã. Só queria ter vivido mais tempo com você. Ter mais momentos do seu lado...

MULDER: - Scully, será que vamos acabar aqui, numa estrada deserta?

SCULLY: - Quer final melhor?

MULDER: - ... Sabe de uma coisa? Estou com medo.

Scully vira-se pra Mulder. Ele vira-se pra ela. Seguram as mãos.

SCULLY: - Mulder... Estamos juntos. Nunca temos medo de nada quando estamos juntos. Somos um só. E, embora eu não saiba mais o que é ou não verdade, eu tenho minha fé, num Deus que nunca me desamparou.

MULDER: - Invejo sua fé, Scully. Mas vejo Deus com outros olhos.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Nossa salvação vem chegando.

Corta para um caminhão que aproxima-se. Scully levanta-se e faz sinal, pulando no meio da pista. O caminhão pára. O motorista desce.

CAMINHONEIRO: - Algum problema, moça?

O caminhoneiro olha pra Mulder, sentado no chão, com a atadura na cabeça.

CAMINHONEIRO: - Sofreram um acidente?

SCULLY: - Nosso carro foi literalmente sugado por uma brecha no asfalto! Não vai conseguir ir adiante, está tudo interrompido.

CAMINHONEIRO: - ... Venha, vou voltar. Dou carona pra vocês.

Scully ajuda Mulder a se levantar.


BLOCO 3:

Motel Lever – 8:59 A.M.

Scully está numa cabine telefônica, na frente do motel. Mulder entra no quarto se arrastando.

SCULLY: - (GRITA) Senhor, estamos com problemas! Não, estamos numa cidade chamada Danville... O quê? A ligação tá ruim! ... Perdemos nossos telefones, por isso não consegue contato! ... Estamos indo pra Carolina do Norte... Mas, senhor... Tá, preciso alugar um carro... Não... Senhor, tá horrível, não consigo escutar! Estamos voltando! Vamos demorar um pouco, precisamos pegar outra estrada!

Scully desliga. Corre na chuva. Entra no quarto. Vê Mulder, atirado de bruços na cama, todo molhado.

SCULLY: - Mulder, precisamos voltar pra Washington. Skinner disse que é urgente, pra deixarmos tudo de lado e voltar...

MULDER: - Zzzzz...

Scully olha pra cama, pra Mulder dormindo e fica se contorcendo entre sair ou deitar.

SCULLY: - Ah, não, Mulder... Também estou cansada!

MULDER: - Zzzzz...

SCULLY: - Droga! Vou buscar um carro.

Scully sai. Mulder continua dormindo.


Rua 46 Este – Nova Iorque – 10:03 A.M.

O Canceroso observa a chuva pela janela. Olha pro relógio.

KRYCEK: - Ela não vai negociar.

CANCEROSO: - Nunca menospreze os sentimentos maternos. São mais fortes. Por mais que ame o Mulder, ela faria qualquer coisa pra ter um filho.

KRYCEK: - ...

CANCEROSO: - Vamos esperar. O mau tempo está atrasando tudo. Se ela não nos entregar as provas, tentaremos obtê-las por outros métodos.

KRYCEK: - Confia demais no seu instinto, não acha?

CANCEROSO: - Confio nela. Se fosse Mulder, já teria dado uns tapas nele e tirado aquilo de suas mãos à força.

O telefone toca. O Canceroso atende.

CANCEROSO: - Quem fala?... Sim.... Estou com outro problema mais sério no momento, isto pode esperar... Mantenha tudo sob controle. Nos encontraremos na Base às 11 da noite...

O Canceroso desliga.

CANCEROSO: - Pode ir na minha frente se quiser.

KRYCEK: - (SORRINDO/ DESCONFIADO) Não. Desta vez vou com você.

O Canceroso sorri. Krycek olha pra ele desconfiado.

CANCEROSO: - Duas e trinta e quatro da manhã. Hora H. As pessoas estarão dormindo... Mal sabem o que vai lhes acontecer. Mas nós, devemos estar prontos.

KRYCEK: - Os nossos alienígenas não podem nos ajudar?

O Canceroso olha pela janela.

CANCEROSO: - O que foi escrito não será mudado. Estamos pagando pela nossa ganância.

KRYCEK: - Não vai interferir na Colonização?

CANCEROSO: - Isso já estava nos planos.


11:17 A.M.

[Som: Nirvana – Smells like Teen Spirit]

Mulder desce do carro. Chove muito. Eles estão numa estrada de terra. Mulder caminha até a traseira do carro. Olha pro pneu, afundado na lama. Mulder começa a chutar o pneu, furioso.

MULDER: - Fuck me! Fuck me! Fuck me!

Scully acelera o carro. Cobre Mulder de lama. Mulder ergue o rosto, tirando a lama dos olhos.

MULDER: - (IRRITADO) Scully, pára!!!

Mulder tenta empurrar o carro. Scully acelera, sem perceber que está dando mais um banho de lama em Mulder. O carro não sai do lugar. Mulder fica em pânico. Chuta o pneu e resvala, caindo sentado no barro. Abaixa a cabeça, desanimado. Ri de nervoso.

Scully desce, atolando os pés, deixando um dos sapatos na lama. Revira a lama e puxa o sapato. Olha pro sapato.

SCULLY: - Ah, droga! Era camurça!

Scully atira o sapato longe. Tira o outro do pé. Atira longe também. Limpa as mãos no sobretudo. Caminha até Mulder, colocando o cabelo molhado pra trás das orelhas.

SCULLY: - (CURIOSA) Mulder, por que está sentado na lama?

MULDER: - (DEBOCHADO) Diz que isso cura hemorroidas! Dei demais na noite passada.

Scully olha pro pneu.

SCULLY: - (DESANIMADA) Não vamos sair daqui nunca mais!

MULDER: - (FURIOSO) Isso é castigo!

Mulder começa a bater as mãos na lama, levantando barro pra todo o lado, respingando em Scully. Scully afasta-se.

MULDER: - (IRRITADO) Castigo, castigo, castigo!

SCULLY: - (CALMÍSSIMA) Mulder, não fique esbravejando! Vai adiantar alguma coisa? Só vai me sujar toda!

Mulder ergue a cabeça e olha pra Scully.

MULDER: - Vem cá.

Scully agacha-se ao lado dele.

SCULLY: - O que foi?

Mulder a empurra. Scully cai sentada na lama.

SCULLY: - (INDIGNADA) Mulder, seu desgraçado! Por que fez isso?

MULDER: - Você está muito limpinha, Scully! Eu não vou ser o único porquinho por aqui a chafurdar na lama.

SCULLY: - Sujei você quando acelerei o carro?

Mulder olha pra Scully, invocado. Scully ri. Atira lama nele.

SCULLY: - Cachorro!!!!! Eu não preciso me sentar na lama, não dei nada que pudesse me causar hemorroidas.

MULDER: - (EMPOLGADO) Hum, sério? Tá virgenzinho ainda?

SCULLY: - Mulder!!!!!!!!!

Mulder atira lama nela. Os dois ficam fazendo guerrinha de lama. Um carro de polícia aproxima-se. Eles levantam-se, escorrendo lama pelas pernas. O xerife desce. Olha pra eles, desconfiado.

XERIFE: - Algum problema?

Mulder puxa a credencial, toda suja de lama. Tenta limpar a foto, mas fica mais suja ainda.

MULDER: - Agentes Mulder e Scully. FBI. Se conseguir ler isto.

O xerife pega a credencial.

XERIFE: - Puxa, escolheram um péssimo dia pra andar por aqui.

MULDER: - Nos disseram que era o único acesso até Washington. A Interestadual está bloqueada.

XERIFE: - Não, amigos. Tem outra rodovia asfaltada que passa logo depois daquela colina. Não leva à Washington, mas leva à Interestadual da Virgínia. Lá vocês pegam o caminho direto pra Washington. Quem disse essa bobagem pra vocês?

Mulder olha pra Scully, furioso. Scully disfarça, fazendo beicinho.

XERIFE: - Vou chamar um guincho pelo rádio.

O xerife afasta-se. Scully não olha pra Mulder. Segura o riso. Mulder está indignado, louco pra pular nela de raiva.

MULDER: - Quem te disse que esse era o único acesso?

SCULLY: - (MEIGA) Um sujeito que vendia balinhas na frente do motel.

MULDER: - (IRRITADO) Ah! (IMITANDO A VOZ DE SCULLY) ‘Um sujeito que vendia balinhas na frente do motel’... Scully, estou doido pra meter uma ‘balinha’ na sua cabeça, sabia?

SCULLY: - (MEIGA) Malvadinho, não? Malvadinho e sujinho.

MULDER: - (IRRITADO) Nunca pensei em dizer isso, mas... Scully, você é uma porca!


1:16 P.M.

Mulder dirige o carro. Está sério, irritado. Tira a atadura da cabeça e atira pela janela do carro. Scully ao lado dele. Os dois sujos de lama.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - (IRRITADO) O que é?

SCULLY: - Nada.

MULDER: - Vou deixar você no FBI, tomar um banho e voltar.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, precisa parar.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Preciso ir ao banheiro.

Mulder esmurra o volante.

MULDER: - Scully, você tirou o dia pra me sacanear ou é só impressão minha?

SCULLY: - Puxa, Mulder... Só um xixizinho. Estamos nos aproximando do fim do mundo e você vai me negar isso?

Mulder olha pra Scully. Scully olha pra ele, angustiada.

MULDER: - Tá, eu paro no próximo posto.

SCULLY: - ... (EMBURRADA)

MULDER: - O que foi agora? Por que essa tromba enorme?

SCULLY: - ... Odeio você! Faço tudo por você! Dou minha vida por você, sigo as suas loucuras, e você me nega um banheiro?

MULDER: - (PÂNICO) Credo! O que te deu hoje, mulher?

SCULLY: - (IRRITADA) Não me chame de mulher! Estou furiosa!

MULHER: - ... (IRRITANTE) Mulher, mulher, mulher!

Scully começa a bater nele. Mulder se esquiva.

MULDER: - Vai nos matar sua, louca!

SCULLY: - Cachorro! E daí? Vamos morrer mesmo!

Scully dá um tapa forte no braço de Mulder. Cruza os braços e olha pra frente. Mulder olha pra ela assustado.


FBI – Gabinete do diretor assistente – 2:39 P.M.

Mulder e Scully entram na sala de Skinner, cobertos de lama.

MULDER: - (FURIOSO) O que é tão importante que não posso nem tomar um banho primeiro? O que pode ser mais importante do que pegar aquele desgraçado que nos vendeu pros alienígenas?

Skinner olha pra Mulder, de cima a baixo, acenando negativamente a cabeça.

SKINNER: - Sentem-se... (DESESPERADO) Não, não se sentem! Vão sujar minhas cadeiras.

Skinner levanta-se.

SKINNER: - Vão para o Texas. Há um caso pra vocês por lá.

MULDER: - Não, eu não vou! Estou no meio de uma investigação!

SKINNER: - Mulder...

MULDER: - Que droga! Quem requisitou esse caso?

SKINNER: - Não sei. Estava sobre a minha mesa.

Mulder anda de um lado pra outro, tenso.

MULDER: - E os relatórios? As provas que temos?

SKINNER: - Estão aguardando para formar uma comissão de inquérito.

MULDER: - (IRRITADÍSSIMO) Besteira, Skinner! Sabe que Krycek fugiu! Eu tenho provas da conspiração e agora querem que eu vá para o Texas? Não, eu vou pra casa, tomar banho e voltar para a Carolina do Norte. Não temos mais tempo! Foda-se você e sua comissão de inquérito! Não vou morrer no Texas!

SKINNER: - Mulder, não vai pegá-los. Não desse jeito. Está partindo pra insanidade! Não é com as mesmas armas que vai ganhar a guerra.

MULDER: - É então com armas inferiores?

SKINNER: - Sabe que não. Sabe que dentro da ordem tem alguma chance. Mas agindo como um doido por aí não vai conseguir nada! Mulder, entenda, não entre no jogo deles! Estão testando você! Aquele homem quer ver até onde vai o seu limite. Aposto que deve estar sorrindo, vitorioso, por transformar você num discípulo dos métodos dele.

Mulder sai, batendo a porta, enfurecido. Scully olha pra Skinner.

SKINNER: - Tem as provas, Scully?

SCULLY: - Estão comigo, senhor.

SKINNER: - Fique com elas. Já ouvi besteiras hoje por causa da atitude do Mulder. Estão questionando não as provas, mas quem o mandou investigar algo que não foi solicitado e sem a minha autorização.

SCULLY: - ...

SKINNER: - Vá pra casa. Agora resta esperar. Se entregar essas provas, isso vai parar nas mãos do diretor.

Skinner abre a gaveta. Mostra uma pasta pra Scully.

SKINNER: - Alguém deixou isto sobre minha mesa, junto com o caso no Texas. É uma cópia.

Scully pega a pasta. Ergue as sobrancelhas. Olha pra Skinner.

SKINNER: - Se insistirem, usarão isso contra vocês. Se desistirem, talvez recebam uma suspensão temporária. Agora, é entre você e Mulder. Não posso fazer mais nada.


Apartamento de Mulder – 6:18 P.M.

Scully, ‘limpinha’, está sentada no sofá. Mulder entra na sala, trazendo uma mala.

SCULLY: - Onde vai?

MULDER: - Até aquele lugar secreto deles. Pegar mais provas. Estou fora de mim. Vai ser do jeito deles, Scully. Vou pegar a Diana e ela vai ter que abrir o bico. Nunca tentei desse jeito, talvez funcione! Entenda, estou desesperado!

Mulder troca o cartucho da arma.

SCULLY: - Mulder, está maluco! Você está agindo como um doente, um justiceiro implacável! Não é com sangue que vai provar a verdade!

MULDER: - Chega de dizer que estou maluco! Posso estar maluco, mas estou tentando! Temos pouco tempo, Scully!

SCULLY: - Mulder, eles vão nos expor no Bureau!

MULDER: - Quem te disse isso?

SCULLY: - O Skinner. Entregaram a cópia de uma denúncia pra ele. Foi um aviso! Mulder, ele tem provas do nosso relacionamento.

MULDER: - Regras podem ser quebradas, Scully. Como se fôssemos os únicos a dormir juntos no FBI!

SCULLY: - Mulder, talvez não sejamos os únicos. Mas meu trabalho é contestar o seu. Acha que vão acreditar que continuo o contestando?

MULDER: - ... Acha que terão tempo pra investigar a denúncia? Até lá, o FBI será apenas um prédio em ruínas.

SCULLY: - Mulder, e se tudo isso for mentira? Se a invasão não começar? Se entregar isso agora, com sorte, apenas um de nós ficará nos Arquivos X.

MULDER: - Disposta a pagar o preço?

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully, tem pouco tempo pra pensar. Enquanto isso vou atrás deles.

Mulder sai, batendo a porta. Scully suspira.


6:17 P.M.

Scully entra com o carro na garagem de seu prédio. Estaciona ao lado do Porsche vermelho. Desce. Caminha em direção às escadas. Pressente alguém a seguindo. Scully vira-se. O Canceroso sorri, soprando a fumaça.

CANCEROSO: - Tem algo pra me entregar, agente Scully?

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Então?

SCULLY: - Preciso pensar. Preciso de tempo pra pensar.

CANCEROSO: - Já teve tempo pra pensar.

SCULLY: - Não as tenho aqui.

CANCEROSO: - Sei que Mulder está bisbilhotando por aí. Mas não vai encontrar nada. Ele não atrapalhará nossa negociação.

SCULLY: - E se eu não entregar?

CANCEROSO: - Como lhe disse, sei onde Mulder está. Escolha: a verdade ou seus filhos e o pai deles.

SCULLY: - Como pode ser tão insensível?

CANCEROSO: - É uma longa estrada. Poderemos conversar isso outro dia, com um bom café e croissant.

O Canceroso sopra a fumaça, debochadamente.

CANCEROSO: - Tem exatamente uma hora. Encontrarei você aqui.

O Canceroso dá as costas. Scully sobe as escadas.


Apartamento de Scully - 6:35 P.M.

Scully atende o telefone.

SCULLY: - Alô?

MULDER (OFF): - Scully, não encontrei a Diana. O apartamento está todo revirado. Ela sumiu.

SCULLY: - Como assim ‘sumiu’?

MULDER (OFF): - Quero que vá procurá-la.

SCULLY: - Mulder, eu preciso te falar uma coisa. Preciso que me ajude...

Mulder desliga. Scully suspira. Senta-se no sofá, angustiada. Começa a chorar.


BLOCO 4:

7:20 P.M.

Scully está parada na garagem, com uma pasta de papel nas mãos. O Canceroso sai de um carro. Caminha até ela. Tira um envelope do bolso. Scully olha pra ele, com ódio.

CANCEROSO: - Entregue o que me pertence.

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - (SORRINDO) Neste envelope tem as respostas que precisa. Aqui está a chance que tem de voltar a ser quem era.

SCULLY: - (RESPIRA FUNDO) ... Não vou devolver.

O Canceroso tira o sorriso lentamente do rosto. Fica em pânico. Nervoso e assustado.

SCULLY: - Fique com isso. Vou acabar com você. Vou expor você. E isso te assusta, não é mesmo?

CANCEROSO: - Mulder e sua verdade não valem esse preço!

SCULLY: - Eu pagarei esse preço.

CANCEROSO: - Agente Scully, sabe com quem está falando?

SCULLY: - Com um hipócrita.

Scully olha para o envelope nas mãos do Canceroso. O coração balança.

CANCEROSO: - A vida de seus filhos. A vida de seu homem. Vai trocá-los por alguns papéis, uma abelha e um chip?

SCULLY: - ...

Scully enche os olhos de lágrimas.

CANCEROSO: - Então, agente Scully? Não tem muito tempo. Acredite em mim, não tem muito tempo. Se a natureza não nos destruir e essas provas forem dadas ao FBI, teremos uma outra destruição. E não poderei fazer nada.

Scully põe a mão no bolso. Retira os dois tubos. Atordoada, chorando.

SCULLY: - Sou pior que você. Sou egoísta.

O Canceroso respira aliviado. Como se tirasse um peso dos ombros. Olha pra Scully com uma certa piedade.

CANCEROSO: - Ora, agente Scully, entre a humanidade e nossa prole, sabe que escolheremos sempre os nossos. Embora nem sempre os filhos entendam nossos motivos.

Scully entrega os tubos. O Canceroso lhe entrega o envelope. Afasta-se. Scully senta-se no chão, chorando arrependida. O Canceroso entra no carro. Fecha os olhos e respira fundo, aliviado.

CANCEROSO: - Vocês perderam. Não podem me ameaçar agora, seus imbecis de cabeça grande! Agora eu tenho tempo. Todo o tempo que preciso, porque essas calamidades bíblicas não me preocupam!


Apartamento de Scully - 7:58 P.M.

Scully abre a porta. Mulder entra, todo molhado.

MULDER: - Então? Achou a Diana?

Scully olha pra Mulder, com os olhos cheios de lágrimas.

SCULLY: - (CONTENDO O CHORO) Não. Não tive tempo para procurá-la.

MULDER: - Aconteceu alguma coisa?

SCULLY: - Saia daqui. Não sou sua amiga.

MULDER: - ?

SCULLY: - Traí você, traí sua causa! Impedi que fizesse uma bobagem, mas quem a fez fui eu mesma!

MULDER: - ... Scully, o que fez?

SCULLY: - Entreguei as provas. A abelha, o chip, as análises do laboratório... Entreguei tudo!

Mulder fecha os olhos. Fica parado, em silêncio. A garganta seca. Mulder vira-se de costas pra Scully.

MULDER: - (INCRÉDULO) Por que fez isso?

SCULLY: - ... Nunca entenderia.

Mulder vira-se pra Scully, irritado.

MULDER: - (GRITA) Por que eu não entenderia?

Scully chora. Senta-se no sofá e coloca as mãos sobre o rosto, soluçando.

MULDER: - (FURIOSO) Tá... Agora eu entendo. Fui usado, não é mesmo? Tudo até agora foi uma farsa sua e daquele homem! Você trabalha pra ele! Tem me enganado durante todo esse tempo! Claro! (RI) Eu sou um burro mesmo!

Scully olha pra Mulder, incrédula, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Como pode pensar isso de mim, Mulder?

MULDER: - (GRITANDO/FURIOSO) Fingida! Você fingiu esse tempo todo, Scully! Você nunca esteve do meu lado! Você achou o meio certo de chegar até mim, conquistar minha confiança, minha amizade... Então achou que não era o suficiente! Precisava descobrir meus segredos! Ele te contratou! Claro, tudo faz sentido agora. Antes do fim, você revela sua verdadeira face de traidora!

Mulder caminha de um lado pra outro. Enche os olhos de lágrimas. Scully olha pra ele, magoada, chorando. Mulder grita com ela.

MULDER: - Claro. Eu sou o filho dele. Ele contratou você pra me afastar da verdade, pra me dar apenas a verdade que convinha pra ele! Pra me proteger, como ele diz! E o pateta aqui caiu como um tolo!

Scully chora.

MULDER: - (GRITA) Onde está a Diana? O que fizeram com ela?

SCULLY: - ... (CHORANDO)

Mulder abre a porta. Olha pra Scully, segurando as lágrimas, com ódio.

MULDER: - De todas as criaturas que conheci nesse mundo, você é a mais vil e baixa, Scully. E eu confiava em você. Confiei minha vida em suas mãos e nem sabia o quanto estava sendo enganado. Eu amei você, Scully. Não merecia o que fez pra mim. (CHORA) Você foi a única que eu amei de verdade! Porque confiava cegamente em você. Na sua cumplicidade.

Mulder sai, batendo a porta. Scully atira-se no sofá, em prantos.


Fort Marlene – 8:11 P.M.

Diana é levada por dois homens. Ela reluta. O Caçador de Recompensas segue atrás deles.

DIANA: - Pra onde estão me levando? Eu quero falar com ele!

Os homens continuam em silêncio.

DIANA: - Eu quero falar com ele! Aposto que ele não sabe o que estão fazendo comigo. Vão se arrepender!

Os homens abrem uma porta. Há uma mesa cirúrgica. Diana arregala os olhos.

DIANA: - Eu trabalho pra ele, não podem fazer isso!

Eles a empurram pra dentro da sala. Diana grita desesperada. O Caçador de Recompensas tranca a porta. Uma luz sai pela janela de vidro da porta. O Caçador afasta-se. Caminha pelo corredor. O Canceroso sai de uma sala.

CANCEROSO: - Cumpri minha palavra. Agora faça-os cumprirem a sua.

CAÇADOR: - Ela servirá no lugar de Samantha.

CANCEROSO: - Vamos, temos que ir embora. O avião nos espera.


Apartamento de Mulder – 9:22 P.M.

[Som: Nirvana – Smells like Teen Spirit]

Mulder, sentado no sofá, chora cabisbaixo. Bebe um copo de uísque cheio. Pega o celular. Seleciona o nome de Scully. O telefone chama, chama, até cair. Mulder atira o celular no chão. Olha pro celular, sorrindo.

MULDER: - Ei, isso custa caro...

Mulder começa a chorar. Bebe o copo de uísque como se fosse água. Levanta-se. Veste um sobretudo e sai porta à fora.


Apartamento de Scully – 9:57 P.M.

Mulder bate na porta, repetidas vezes. Põe mão no bolso e tira um molho de chaves. Procura a chave do apartamento dela. Abre a porta. Acende as luzes. Fecha a porta.

MULDER: - Scully!

Mulder a procura por todo o apartamento, desesperado. Não a encontra. Mulder caminha até a escrivaninha. Pega uma caneta e uma folha da impressora. Começa a escrever. Pára. Olha pro cesto de papéis no chão. Há um envelope e um par de sapatinhos de bebê no lixo. Mulder olha intrigado. Pega o envelope e os sapatinhos. Abre o envelope. Retira uma embalagem de Morley.

Lemos no verso da embalagem: “Obrigado. Cumpri meu acordo em partes. Tem seu homem vivo, mas não há como reverter o processo de ovulação.”

Mulder olha pros sapatinhos. Fecha os olhos, culpado e com raiva de si mesmo. As lágrimas correm.


Residência de Margaret Scully – 10:39 A.M.

Margaret abre a porta, vestida num robe. Mulder entra, empurrando a porta.

MULDER: - Não me diga que ela não está aqui, Meg. Eu sei que está.

MARGARET: - Quem?

MULDER: - Meg, por favor, preciso falar com a Dana.

MARGARET: - Fox, acho melhor ir embora. Ela não está sentindo-se bem e acredito que não quer falar com você.

MULDER: - Meg, por favor.

MARGARET: - Ela chegou aqui numa pilha de nervos, dei um calmante pra ela e ela foi dormir. Disse que brigaram. Que não voltaria mais pro FBI. Fox, quer me dizer o que está havendo entre você dois?

Mulder olha pras escadas.

MULDER: - Ela está lá em cima, não está?

MARGARET: - Fox, não pode...

Mulder sobe as escadas. Meg põe as mãos na cabeça, preocupada.

Corta pra Mulder abrindo a porta do quarto. Scully está sentada, de frente pra janela, observando as gotas de chuva que escorrem pelo vidro. As lágrimas escorrem dos olhos vermelhos e inchados dela. Mulder encosta a porta. Aproxima-se lentamente. Põe as mãos nos ombros dela. Scully fecha os olhos.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - ...

Scully continua imóvel, olhando pela janela, indiferente a presença dele. Meg abre a porta, mas fica observando do lado de fora.

MULDER: - Scully...

Mulder ajoelha-se ao lado da poltrona, olhando para a parceira.

MULDER: - Eu... Eu sei que desculpas não vão apagar as coisas horríveis que disse pra você.

SCULLY: - ...

MULDER: - Também não peço que entenda a minha obsessão e a minha cegueira. Estava fora de mim. Perco meu controle e quando isso acontece, magôo as pessoas que estão à minha volta. É por isso que sou sozinho, Scully. Porque ofendo as pessoas que se aproximam.

SCULLY: - ...

MULDER: - Estou arrependido das bobagens que disse. Mas não vim até aqui pedir que me perdoe. Eu sempre disse que não merecia você porque sou um animal, não um ser humano. Sou insensível. Estúpido. Sério. Sem graça. Não sou divertido. Sou louco, frio, obcecado, burro, teimoso e vivo num mundinho que criei e não aceito intromissões. E acho que sou dono da verdade.

SCULLY: - ... (SEGURANDO AS LÁGRIMAS)

MULDER: - E você merece um homem, não um doente mental obcecado, que desconta sua frustração de perda na pessoa que mais ama. Se cada vez que perder uma batalha eu descontar em você, vai viver num inferno. Porque sou um derrotado. Um pedante estúpido, atolado em irracionalidades que a cada dia me deixam mais demente ainda.

Scully fecha os olhos. Lágrimas caem. Mulder levanta-se. Tira os sapatinhos de bebê do bolso. Põe sobre o colo dela. Scully chora mais ainda. Calada.

MULDER: - Desculpe. Desculpe por acusar você. Você estava apenas defendendo o que ama. Mas certas pessoas como eu, não merecem amores como o seu. Nunca poderão retribuir à altura. Não entendem a mágica disso. Elas colocam o mundo primeiro, porque são altruístas. E altruísmo é falsidade. Você tinha razão, não sou Jesus Cristo. Sou um mero mortal, cheio de defeitos. Não vou salvar o mundo. Mas me deixa feliz pensar que sou Ele.

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu não ouvi você. Queria me perguntar alguma coisa pelo telefone. Mas desliguei. Se tivesse ouvido você poderia ter poupado seu sofrimento. Teria dito pra não confiar naquele homem. Mas entendo seu desespero. Já negociei com ele também. Negociei sua vida. Você não deveria ter negociado a minha. Não mereço. Sinto que não possa ter filhos, Scully. Acredito que ele te prometeu isto. Ele enganou você.

SCULLY: - ...

MULDER: - Não teria enganado se eu tivesse parado e escutado você. Precisou de mim e eu não te ajudei. Se alguém aqui não foi amigo e usou de traição fui eu. Porque você me procurou, mas eu não estava lá.

Mulder aproxima-se da porta. Meg desce as escadas. Mulder olha pra Scully. Seca as lágrimas que correm pelo rosto.

MULDER: - Obrigado. Se o mundo realmente acabar, pelo menos tive uma coisa boa na vida: Você.

Scully levanta-se. Continua olhando pra janela.

SCULLY: - Teve notícias de Diana Fowley?

MULDER: - Não. Deve estar com eles, abrindo uma champanhe.

SCULLY: - E se não estiver com eles?

MULDER: - Está tendo o que merece.

SCULLY: - ...

Mulder sai do quarto. Desce as escadas. Meg olha pra ele, segurando uma xícara de chá.

MARGARET: - ... Fox, acho que precisa de um chá de camomila.

Mulder sorri, com os olhos vermelhos e inchados.

MULDER: - Não, Meg. Preciso de um chá de vergonha na cara.

MARGARET: - Este está em falta... Mas... Minha mãe dizia que alguns homens não têm culpa das bobagens que cometem. Se tivessem um amor de mãe, seriam mais sensíveis.

Mulder olha pra ela, engasgando-se em lágrimas.

MULDER: - Tá, mãe. Acho melhor ir embora.

Mulder a beija na testa.

MARGARET: - Filho, dê tempo ao tempo. Conheço a Dana, ela... Ela é teimosa, mas tem um coração grande. Assim como o seu.

MULDER: - Meg, alguns homens são culpados pelas suas desgraças. Porque insistem nelas.

MARGARET: - Ninguém é perfeito. Somos seres humanos.

MULDER: - É. Mas eu acredito que sou. Por isso sua filha está lá em cima chorando.

MARGARET: - Ainda busca seus marcianos? Não encontrou a irmã que queria encontrar?

MULDER: - Encontrei minha irmã. Meus marcianos. Mas não encontrei a mim mesmo, Meg.

Mulder abre a porta e sai. Meg vai até a janela e o acompanha com os olhos.

MARGARET: - Espero que se encontre nos olhos da minha filha, Fox. Porque sei que foram feitos um pro outro. E porque você é um filho amado que adotei.


Carolina do Norte - 1:46 A.M.

Mulder sobe a colina.

MULDER (OFF): - Eu falhei. Milhões de vidas vão pagar pelo meu erro. Você tinha razão, Scully... Foi tão fácil chegar à verdade... Acho que o caminho não era esse. Eu devia ter seguido meu bom senso, não minha vingança pessoal. Agir como ele não foi a resposta... Só me precipitei e fiquei de mãos vazias. Se tivesse continuado a minha maneira, nada disso teria acontecido.

Mulder chega no topo. Olha pra paisagem. Um vento frio começa a soprar.

MULDER (OFF): - Eu acusei a Scully de coisas que ela jamais faria. Eu não tinha o direito de magoá-la. Mesmo que esse mundo não acabe, o meu mundo se foi embora com ela.

[Som: Don McLean – Starry, Starry Night (Vincent)]

[Imagem do espaço. Lentamente várias galáxias vão passando, até entrar na via-láctea.]

MULDER (OFF): - “Os extraterrestres aprimoraram os hominídeos ‘segundo a sua própria imagem’. Por esse motivo nós somos parecidos com eles, não eles conosco. As visitas na Terra de seres alienígenas, procedentes do cosmo, ficaram registradas e foram transmitidas aos pósteros nos cultos, mitos e nas lendas folclóricas – em alguma parte depositaram os indícios de sua presença entre nós.”

[Os planetas da nossa galáxia, passando um por um, como se o espectador estivesse passando por eles, enquanto flutua.]

MULDER (OFF): - No livro do Apocalipse, a revelação às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Ou seria: América, Europa, Ásia, África, Oceania, Pólo Sul e Pólo Norte?

[A Terra aproxima-se, uma imensa pedra flutuando no espaço negro e infinito.]

MULDER (OFF): - Os sete selos que abrem o Livro do Juízo Final... No primeiro selo, um cavalo branco. O cavaleiro tinha um arco. Lhe foi dado uma coroa. O segundo selo: Um cavalo vermelho. Lhe foi dado uma espada para que os homens matassem uns aos outros. O terceiro selo: O cavalo preto e seu cavaleiro, que tinha uma balança nas mãos. O quarto selo, um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro tinha por nome Morte, e lhe foi dado permissão para matar pela espada, pela fome, pela peste e por feras...

[Aproximação do continente americano. Até finalizar na colina, onde vê-se Mulder em pé, olhando para o céu, pensativo.]

MULDER (OFF): - O quinto selo: As almas dos imolados por causa da palavra de Deus clamaram por justiça. Foi-lhes dado vestes brancas e lhes foi pedido que aguardassem até que se completasse o número de companheiros e irmãos que estavam como eles para serem mortos.

Mulder continua olhando para o céu. A lua avermelhada. Mulder chora.

Um clarão no céu. As roupas de Mulder tornam-se brancas pela luz.

MULDER (OFF): - O sexto selo: O sol se escureceu como um tecido de crina, a lua tornou-se vermelha como o sangue, as estrelas caíram. O céu desapareceu como um pedaço de papiro enrolado, e montes e ilhas foram tirados de seus lugares... Os reis da terra, os grandes, os chefes, os ricos, os poderosos, todos, tanto escravos como livres, esconderam-se nas cavernas e grutas das montanhas...

Panorâmica do lugar. Uma chuva de meteoros cai por sobre uma floresta, incendiando tudo.

MULDER (OFF): - 144 mil assinalados. 12 mil de cada tribo de Israel, dos descendentes de Abraão: Judá, Rúbem, Gad, Aser, Neftali, Manassés, Simeão, Levi, Issacar, Zabulon, José e Benjamim. A verdade sempre esteve oculta para as pessoas, por gente que acreditava que a verdade poderia causar pânico generalizado. No entanto, algum dia, a verdade aparecerá. Porque ela está lá fora. E o sexto selo está se abrindo.

Mulder observa a paisagem insólita. O clarão percorre todo o céu. Trovoadas. O vento continua soprando forte. A chuva começa a cair. Mulder abaixa a cabeça chorando.

Abaixo da colina, na base, o Canceroso fuma um cigarro. O Caçador de Recompensas aproxima-se dele.

CAÇADOR: - Tudo pronto.

CANCEROSO: - Não. Hoje não. Podemos esperar. Diga a eles que está tudo sob controle. Estou com as provas. O mundo ainda não sabe de nós. Não há mais ameaça. Podemos adiar a invasão.

O Caçador afasta-se. O Canceroso olha pro nada. Sorri.

CANCEROSO (OFF): - Hoje, uma mulher deu a vida a bilhões de seres nesse planeta. E ela ainda acredita que nunca poderá gerar uma vida, que nunca será uma mãe.


Lugar não identificado – 12:21 A.M.

Diana está deitada numa mesa. Olhos abertos, não consegue se mover. O desespero toma conta dela. Ela tenta gritar, mas não consegue. Sente uma pequena mão afagar seus cabelos. Diana tenta se mexer. Nada. O pequeno ET acinzentado aproxima-se dela e a observa, curioso. Diana arregala os olhos. Uma broca começa a descer do teto da sala branca, em direção ao abdômen dela. Diana começa a gritar.


FBI – Arquivos X – 8:21 A.M.

Scully entra na sala, sem dar uma palavra. Mulder olha pra ela. Scully está com uma fisionomia fria, distante, de quem ainda está magoada. Evita de olhar pra ele. O telefone toca. Mulder atende.

MULDER: - Mulder.

CANCEROSO (OFF): - Espero que tenha aprendido uma lição: Não brinque comigo. Seja mais criativo e utilize seus próprios métodos, não os meus. Não tem chances de ganhar a luta com as minhas armas. Use as suas. Cresça e talvez um dia, me pegará. Mas não poderia ser dessa vez.

O Canceroso desliga. Acende um cigarro. Olha para a chuva que cai. Sorri.

Fade out.


27/03/2000


12 июня 2019 г. 9:25:44 0 Отчет Добавить 0
Конец

Об авторе

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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