Segredos no escuro Подписаться

anneliberton Anne Liberton

Por mais que ele tentasse evitar sua obsessão, a carne é fraca, e às vezes uma gota de sangue é o suficiente para mudar tudo


Саспенс Всех возростов. © A imagem da capa é livre para uso

#Compulsão #thelongstoryshort #theauthorscup
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A cor do seu sangue foi a última das minhas preocupações, porque eu já tinha forrado toda a mesa com plástico, a fim de não deixar que nenhuma gota escapasse e pudesse me denunciar no final. Destacava-se o brilho do vermelho contra o metal, porém isso logo seria apenas uma mancha na minha memória, e na de mais ninguém. Uma das vantagens de se trabalhar sozinho era dispor daqueles momentos calmos e privados, dos quais só você era testemunha. Para garantir, eu também tinha desligado as câmeras de segurança do recinto.

Admito que não enrolei o plástico de cara, porque gostava de ficar encarando o resultado do meu trabalho. Tantos anos de prática haviam sido usados para aperfeiçoar minha habilidade — meu dom, sejamos sinceros —, que parecia um desperdício simplesmente tratar a situação como mais um dia comum e seguir em frente. Mesmo que já passasse de meia-noite e em teoria meu horário fosse até as seis, como ninguém iria reparar naquela luzinha acesa num prédio aleatório na Ceilândia, aproveitei para ficarmos mais um momento ali só eu e você. Só eu e você.

Queria saber desde quando minha obsessão começara, mas acho que talvez eu não fosse a pessoa mais indicada para dar um parecer sobre esse assunto. Minha mãe ou a Amélia, minha meia-irmã, poderiam fornecer informações mais precisas. Não que elas fossem fazer isso de bom grado. A curiosidade que eu alimentava — uma palavra-chave, aliás — sobre este meu lado não valia o esforço de telefonar para uma delas ou mesmo de visitá-las para perguntar. E, sejamos francos: eu provavelmente acabaria com a linha muda ou uma porta na cara. A culpa é minha, não nego.

Peguei uma das ferramentas na outra mesa e coloquei em cima do plástico, ponderando se havia uma maneira de melhorar a perfeição. Como todo bom controlador, é questão de segundos até minha obra-prima se tornar nem tão obra tem tão primorosa, mas um projeto a ser esculpido e lapidado. Alguns dos itens necessários para as próximas etapas já estavam nos armários, então bastaria que eu desse sequência aos meus planos, no entanto, por um instante, hesitei. O que seria melhor para você? Ah, como seria bom se você tivesse uma voz para me ajudar...

Umedecendo os dedos em vermelho, tentei ouvir. O que, exatamente, não sei. De alguma forma, uma inspiração me veio, e pensei em farinha. Absorveria bem o sangue, sem atrapalhar o restante do processo. Eu poderia usar para fazer um molho talvez, algo que impedisse parte do desperdício que o plástico certamente acarretaria. Você não gostaria de ser aproveitado ao máximo? Sei que eu, no seu lugar, pensaria assim.

A ideia trouxe à tona uma fantasia curiosa e, de repente, eu estava me cortando ali na mesa de metal. Não literalmente, não seja tolo, mas num imaginário divertido, em que você dava as cartas e eu sorria e gritava, ambos na mesma medida. Você não era nem de longe tão cuidado quanto eu, deixando a faca escorregar e pedaços de dedos voando para chão junto com bile e sangue. Não haveria preparação que te salvasse do flagra mais tarde, como aconteceria comigo. Decerto você esqueceria de pegar algum pedaço embaixo de um armário, e ele ficaria lá abandonado por semanas, apodrecendo e atraindo ratos e outras pragas que, com o tempo, chamariam mais atenção e te denunciariam.

A última parte me atentou para o cheiro. Como disfarçar o seu? Não o de agora; embora pungente e férreo, não era tão intenso a ponto e atrair alguém de cara. O que viria depois, quando eu aplicasse o devido tratamento à sua carne, para que ela se mantivesse macia e, se me permite, saborosa, era o que me preocupava. Tanta coisa a se considerar...

Foi aí que pensei em desistir. Simplesmente desistir, amarrar o plástico como um saco, enterrá-lo fundo na caçamba de lixo do lado de fora do prédio e fingir que todo o meu esforço, todo o meu planejamento, nunca tivesse acontecido. Teria sido mais prático para mim, admito. Menos embaraços, menos vergonhas para guardar num arsenal que apenas crescia desde que eu era criança. Mas não desisti. Que força existe em não continuar? Me agradeça por honrar você. Sei que eu vou agradecer a mim mesmo num futuro próximo, assim que conseguir enterrar o arrependimento.

De motivação renovada, catei uma tigela. Seria sua nova casa durante alguns minutos, enquanto eu decidia os próximos passos. Chequei o relógio: meia-noite e trinta e cinco. O tempo de fato voava quando a gente se divertia, mas a única testemunha possível chegaria só às seis horas, então eu tinha uma janela gigante para brincar com você e me livrar das evidências. Fui tão ousado que acrescentei mais um estímulo ao coquetel de sensações que eu já experimentava: coloquei uma playlist no celular. Romântica, como tinha que ser. Sequer limpei a mão antes, o vermelho brilhando na tela. Aquele ali teria de limpar melhor quando terminasse tudo, mas somente quando terminasse.

Eu rodopiei. Dancei. Cantei junto nas músicas cujas letras já conhecia. Minha alegria era tão profunda que qualquer um teria rido de mim se pudesse presenciar a cena — minha mãe e Amélia com certeza o teriam feito, indignas que eram —, porém a solidão me abraçava, assim como a alegria de ter você entre os meus dedos. Apertei. Amassei a carne. Separei até tendão de osso, num acesso de loucura, e me desculpei prontamente, remontando os pedaços sobre o plástico. Deixei você descansar pelo tempo necessário, depois de temperar e de preparar a fôrma com papel-alumínio. Fiz o molho como falei, usando seu sangue e farinha, com uma receita que eu já conhecia de cor, mas não que não aplicava com frequência, simplesmente porque não me permitia.

Duas horas depois, a bagunça ainda estava lá, as provas do meu crime, que ninguém podia ver exceto eu. Ninguém tampouco viu quando eu me esbaldei em você, arrancando cada naco com os dentes, porque talheres tirariam parte da mágica, sugando o tutano dos ossos, lambendo os dedos para guardar as lembranças bem fundo no meu coração. Sorria como uma criança tomando um pote inteiro de sorvete no calor. Não queria que o momento passasse jamais.

Juntar todo aquele lixo foi doloroso, mas necessário. O relógio já batia três e meia, e eu precisava fazer a digestão antes de dormir, ou passaria mal. Refluxo, um problema que denunciaria meu crime com tanto fervor quanto cada gotinha que você derramou no meu apartamento. Dentro da caçamba de lixo, sua memória ficaria. Ainda tive um último relance de um adesivo que ficou colado no plástico...


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7 июня 2019 г. 4:15:45 0 Отчет Добавить 2
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