Treze Páginas Sombrias Подписаться

lucas-portilho1552831330 Lucas Portilho

O medo causa sensações horrorosas e deliciosas, dependendo de quem sente. E quando ele é exarcebado até as últimas consequências? Destemidos ou medrosos, conhecer o seu poder destrutivo pode ser a nossa maior faceta.


Короткий рассказ 13+.
Короткий рассказ
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TREZE PÁGINAS SOMBRIAS


Sexta-feira, 13 de agosto


"Atenção. É o que peço para aqueles que tiverem acesso e puderem ler as palavras escritas aqui. Nada mais nesse abstruso mundo me é estranho e duvidoso. Desabafar funcionará como derradeiro recurso. Crer ou não crer, eis a minha questão.

O 13 de agosto dava o ar da graça. Coincidiu com uma sexta-feira, vizinha dos esperados finais de semana. Analisando pelo viés das remotas superstições populares, tal combinação resultaria num inevitável desastre vindouro. Isso tudo era supérfluo. Na altura de meus exatos 33 anos (idade em que o dito “messias” partiu), profissionalmente solidificado no ofício científico, daria trela a besteiras milenares? Já não bastasse mulheres queimadas, Galileu tendo que mentir por dizer a verdade. Bater continência para o obscurantismo? Nem pensar!

A manhã daquela data foi plácida. Guilherme, meu inocente garoto, acordou tarde, pois suas aulas tinham sido suspensas. Tomamos o café da manhã juntos, raridade raríssima. O trabalho e a escola nos afastaram. Precisávamos colocar os pingos nos is.

- Gui? Foste bem naquele exame de matemática que fizeste mês passado?

- Pai, pensei já ter falado. Tirei 8,5.

- Mil desculpas, querido. Deves estar gostando da folga, não é?

- Dela sim, menos do dia.

- Alguma objeção

- Todas.

“Pobre criança”, ajuizei. Evidentemente que teria motivos suficientes para acreditar nessas sandices. Convivia com a oralidade folclórica, fonte fidedigna da puerícia intelectual. Mas esperem... eu também transitava entre esses conhecimentos! Onde estava a diferença? Hummmm... Talvez a maturidade explicasse.

Esqueçam, esqueçam, esqueçam. Coitado de mim e dele. Digressões desta estirpe me fizeram sentir um verdadeiro idiota completo. Estaria chamando o menino de ignorante? Covardia tremenda, tremenda! Voltemos a conversa, é melhor.

- Pai, você se lembra daquilo ou não?

- Do quê? Ah, vais passar o dia com tua mãe.

- Quando o senhor pretende me levar?

- À tarde. Lá pelas 15 horas

- 15 horas? E o que faremos antes

- Iremos ao parque

Guilherme tinha treze anos. Os parques de diversão ainda lhe atraíam, mesmo com todas as atuais parafernálias tecnológicas. Nós, adultos enfastiados, devemos volta e meia praticar higiene mental. Impurezas do cotidiano entulham nossas mentezinhas pouco espaçosas. Acho que isso explica aquela conhecida expressão “consciência limpa”.

Indo ao parquinho, sentei-me em um banco de madeira enquanto aguardava o menino satisfazer suas necessidades pueris através das repetitivas voltas dadas no desgastado balanço. Aproveitei e liguei para Márcia intentando acertar os detalhes da entrega.

- Márcia? É o Sérgio. Quero falar sobre o Gui

- Certo.

Parei uns segundos e retomei a conversa.

- Deixá-lo-ei às 15 horas

- O horário de sempre, difícil perderes o costume

- Dizias isso rotineiramente

- E errei?

- Não discutirei

- A separação te fez bem

- Certamente. Até mais ver.

Márcia avistou-me sentado junto ao menino. Ela fez um aceno com a mão esquerda respondido prontamente por nós dois. Após acertamos os detalhes, tomou o Gui pelas mãos e o levou embora. Cena esta que não causava estranhamento em mim. Não causava...

Eis um bando de corvos sobrevoando as cabeças deles. Meu filho e minha ex-mulher desaperceberam quaisquer anormalidades. Dizem as superstições populares que essas aves trazem maus presságios. Ignorei isso. Entrei no carro e regressei para casa. Urgia aproveitar o restante da folga. Nada mais digno. Tratei de forçar o organismo a acelerar a sonolência.

Sinal vermelho, carro parado. Abri a janela e repousei os braços nela. Então veio ela... Uma mão engelhada, cuja degeneração cutânea era compensada com a força magistral dos dedos, algo realmente contraditório. O sobressalto, evidentemente, tardou pouco a surgir.

- Quem és tu?!!

- Meu nome não interessa

Aquela estranha pusera a palma da mão no meu braço esquerdo. Culpa minha, afinal, o deixei exposto em cima da janela aberta. Logo tratei de escapuli-lo. Temia avaria séria. Voltei os olhos e vi sua fisionomia. Trajava roupas brancas, usava turbante na cabeça e colares sob o pescoço, enfim, indumentos semelhantes ao figurino duma Ialorixá, popular mãe-de-santo, embora seja extremamente leviano estabelecer associações assim. Nunca tive contato com candomblé, porém, sem dúvidas, asseguro-lhes: Quanto medo! Quanto medo senti naqueles minutos lacônicos.

- Vim avisar-te. Disse com voz grossa e corrida ao abordar-me

- Avisar o quê?!

- Da tua queda?

- Queda?!

- Todos caem. Mesmo Lúcifer caiu, nosso anjo da luz, o querubim amado por Deus!...

Louca! Louca! Louca! A criatura falava coisas ininteligíveis ou pelo menos insensatas. Nesse meio tempo, a luz do semáforo esverdeou. Uma “sinfonia” (sic) de buzinas enchia-me o saco: Bibi! Bibi! Bibi! Ela alisou meu cabelo e saiu dali. Pisei fundo no acelerador para dirimir os gritos vindos dos demais motoristas. Confesso ter virado a face. Buscava revê-la. Fracassei.

Nuvens cinzas no céu! Pingos d’água escorrendo pelas vidraças transparentes. Tempestade perfeita. Pouco incomodavam os trovões, raios, relâmpagos incandescentes. Cortei, naquele momento, o cordão umbilical que me unia a esta realidade pesarosa. Rememorei o tal episódio. Quis resgatar tudo, até mesmo a sensação do toque da desconhecida mulher. Só sobraram retalhos mentais. Menos mal que o momento foi suficiente para cobrir os atrasos inesperados. Ufa! Alívio! O recanto emergia defronte meus olhares.

Abri a porta, joguei o molho de chaves na almofada e deitei. Cochilo deveras reconfortante. Não que aquele descanso debelaria o nervosismo acumulado em tão pouco período, ao contrário, seria apenas um anestésico natural com prazo bem delimitado. Precedendo essas horas “afrodisíacas”, pus-me a indagar: Por que estou amedrontado? Se todas essas coisas que aconteceram são verdadeiras, devo curvar-me ao limbo dos supersticiosos? Eu, engenheiro, homem das ciências exatas, cuja devoção aos cálculos e a exatidão constituem-se numa profissão de fé, acreditaria nisso? Anos desperdiçados de ceticismo, debates, método científico, contraposições e corroborações ? Não posso crer, não posso crer.

Perceba, prezado leitor atento, aprendi mediante os ensinamentos do genial cosmólogo Carl Sagan que afirmativas extraordinárias exigem provas extraordinárias.” Pois então, quantas evidências comprovariam a veracidade daquilo? Quais eram as probabilidades matemáticas de uma mulher surgir repentinamente e falar estranhices premonitórias? Justificaríamos isso com a boa e velha “coincidência”. Jamais esqueçamos das atrocidades intelectuais cometidas em nome do achismo. Entretanto, alteridade nunca fez mal. Quem dentre os que possuem preparo cerebral suficientemente satisfatório dispor-se-ia a analisar fenômenos exógenos. Nem a aplicação do princípio da falseabilidade nos moldes de Karl Popper resolveria o caso.

Dormi, dormi, dormi. Concentrei esforços e pude, finalmente, desacelerar rápido. Sonhar? Besteira pueril. Mente vazia de pensamentos e tensões era o que eu pretendia ter naquele instante. Não foi o adormecer desejado, visto as constantes viradas nos lados do sofá. Quebrou o galho, só.

Ao acordar notei fisicamente o descenso da temperatura ambiente. Orvalhos deram lugar aos ventos gélidos. Paisagem familiar, pois encontrávamo-nos em pleno inverno rigoroso. Harmonia veio. Repousava o lombo na velha cadeira metálica do pátio. Avistei corvos sobrevoando o telhado. Corvos, sabem vocês, trazem notícias ruins, maus presságios, melhor dizendo. Semana retrasada, presenciei a mesmíssima cena, todavia, as aves atazanavam o vizinho ao lado. Resultado: O dito cujo faleceu dias depois.

Trimmm! Trimmm! Trimmm! Tocava o telefone de disco.

- Sr. Sérgio?

- Sim, quem quer falar

- Sou enfermeira do hospital municipal

- Enfermeira?! Aconteceu alguma coisa?

- Sua ex-mulher e seu filho foram atropelados

- Atropelados?!!

- Exato. A polícia já notificou o ocorrido: Aparentemente, eles tentaram cruzar a rua quando o sinal estava vermelho. Uma caminhonete dirigida por pessoas embriagadas passava numa velocidade absurda, cerca de cem quilômetros. Dona Márcia sofreu menos danos. O garoto foi atingido em cheio. Sinto muitíssimo.

- E o horário do acidente?

- Quinze horas

- Quinze horas? O relógio daqui marca dezenove. Demoraram tanto para emitir o aviso. Explique-se!

- Bom, senhor. Aí vossa senhoria deve contatar os policiais militares, nós os recebemos aqui e atendemos as vítimas, isto é tudo.

- Esqueça. Visitas são permitidas?

- Os pacientes se encontram internados na Unidade de Terapia Intensiva sob constante observação. Visitas são autorizadas nos sábados.

- Ambos estão na UTI?! E o estado deles?

- Grave, porém estável

Desliguei antes do término das formalidades conversacionais. Discaria o 190 mediante celular (lembrei-me disso). Cobraria explicações convincentes do sr. Delegado. Vasculhei os bolsos da calça, revirei até mesmo os íntimos fundilhos. Droga! Droga dupla! Perdi aquela bosta! Talvez tenha o deixado pelos bancos do parquinho. Distração sorrateira.

Demônios! Mil demônios! Águas torrenciais caiam e inundavam a larguíssima avenida. O péssimo contexto climático somava-se ao fulminante conjunto de desgraças instauradas. Pense: Filho e ex-esposa acidentados gravemente, frio escaldador, temporal caótico, ruas alagadas, celular perdido, incomunicabilidade total. Pioraria?

Pumba! Pumba! Pumba! Estrondos trouxeram a escuridão. Cortaram o fornecimento da energia elétrica. Inferno! Luz, luz, precisava iluminar. Confiei no tato das mãos e o fiz de guia pela casa. Trombei no vidro dum armário onde guardava a lanterna. Putz! Esqueci de colocar as pilhas nelas. Sorte que elas se localizavam próximas, precisamente no canto esquerdo. Pronto! Que haja luz! Que haja luz! Ops, frase bíblica.

Achei interessante gerar algumas distrações enquanto aguardava o retorno da energia. Não pensei duas vezes: Livro de contos literários. Imagino vossos questionamentos: Um cientista amante das belas letras? Ora, seriam gostos contraditórios? Discordo frontalmente. Isaac Asimov trouxe, através da ficção científica, enigmas que encantaram gerações. Newton escreveu tratados filosóficos (Considero eu que a filosofia seja alguma espécie de literatura, mesmo sendo os filósofos, como disse Platão, amantes da verdade e os poetas, amantes do espetáculo). Goethe, oh Goethe, dispensa apresentações. Biólogo competente e autor do Os Sofrimentos do Jovem Werther. Obra-prima universal.

O feixe amarelo compensava o declínio visual proporcionado pelas zonas escuras. Regressei, foquei a lanterna na estante e tirei um exemplar do Noite na Taverna, mini coletânea contística do nosso poeta maldito. Recostado nas almofadas, restringi minha procura ao capítulo, cujo título usava o nome “Bertram”, o dinamarquês ruivo apaixonado por Ângela, espanhola de Cádiz. Li e reli. Texto perfeitamente cabível naquela ocasião.

Tentei adentrar na narrativa seguinte. Não consegui. Certo evento esquisito, esquisitíssimo, acontecia nas paredes. A umidade delas alcançou patamares estranhos. Brisas geladas e fortes abriram as janelas cerradas.

Deus! Aquilo era impossível! Uma faixa de tinta vermelha apareceu na parede defronte a mim. Movimentava-se sozinha, nada auxiliava-a. Congelei! Congelei! Olhava impávido aquela surrealidade temorosa. Parecia real, real, real! Minto, era, era real! Desculpem-me esses termos imprecisos. Palavras faltaram, o fôlego escasso fica reservado para cenas posteriores.

Repentinamente, os movimentos pararam. Havia uma inscrição ali, uma frase longa. Tomei coragem, levantei do sofá e dei três passos em direção à parede manchada. Fiquei próximo, aproveitando bom ângulo. Enxergava nitidamente.

Eis o que escreveram.


“Seres humanos vivem a ilusão de que nada existe além deste mundo insignificante e que isso lhes basta. Assim, Satã e Deus se fazem ouvir. Vossas mensagens ecoam pelos mortais. Benditos ou malditos sejam os vossos porta-vozes."


Cor vermelha viva dava configuração legível àqueles grafemas. Tinta nanquim, pintura? Jamais! Sangue puro, sangue humano. Os traços horripilantes exibiam formas em garra, isto é, a escrita realizou-se por meio de garras longas, grossas, pontiagudas. Evidentemente, calcular o comprimento dessas monstruosidades seria impossível. Já não bastavam as medonhas letras garrafais. Aliás, esfreguei o dedo indicador nelas. A pictografia secara, contudo, exalava odor podre, semelhante aos piores cadáveres putrefatos.

Insuportável, situação insuportável. Desesperei-me! Tomei pelas mãos um vidro de perfume esquecido na mesinha da sala. Disparei incontáveis jatos. A solução líquida misturava cravo e aromas adocicados. Grandes Merdas! A fragrância da podridão imperou. Retirei-me.

Embaixo da mesa da cozinha, lá permaneci quarenta e cinco minutos. Não obstante escondido, presenciei espetáculos macabros: Sons de pancadas vinham do teto, longas fendas rachavam tijolos, piso alagado, gritos esganiçados, móveis e objetos dançavam. Vigiar os ponteiros do relógio deu algum conforto durante essa hora desesperadora. Atingido o tempo outrora mencionado, instalou-se consistente calmaria.

Levantei vagarosamente, afastei cadeiras que atrapalhavam. Em pé, olhei para todos os cantos. Direita e Esquerda. Frente e Trás. Acima e Abaixo. Paz irresoluta, nenhum ruído sequer. Findara as agonias? Duvidava disto, duvidava, duvidava. Olhem, ceticismo manifestado. Horrível.

Qual lugar almejaria agora? Eureka! O banheiro! Recinto adequadíssimo, meio indicado para achar a cloaca de Satanás. Entrei, baixei a tampa do vaso. Trono preparado, traseiro sentado. Sumiram? Criaturas malignas? Berrava eu pelos cotovelos. Nenhuma resposta. Suspirei fundo, fundo, fundo... Que tal conversarmos, prezado? Eles estabeleceram trégua, mas voltarão. Aproveitemos.

Dadas tamanhas reviravoltas, nossa prosa somente poderia tratar acerca dum assunto. Contar-lhes-ei detalhes biográficos. Reclamaram? Vocês estão absolutamente certos. Bons personagens têm suas vidas apresentadas no começo de cada história. Perdão! Perdão! Este humilde narrador que vos fala, conquanto nutra franca religiosidade admiratória ao dom de Sherazade, limitado é nas habilidades narrativescas.

Tornei-me universitário com dezessete anos. Pais separados. Época boa, excetuando-se adversidades familiares. Papai quis que mudássemos, intentando me ver recuar dos planos acadêmicos. Mamãe interferiu, contrabalanceando os pesos da discórdia. No final das contas, decidiram permanecer. Permanência condicionada. Obrigar-me-ia obter aprovação no debut do vestibular. Reservei dez horas diárias aos estudos. Escolhi Engenharia Civil. Opção justificada numa lembrança acrimoniosa. Minhas irmãs morreram num desabamento. Tragédia incomensurável, indescritível. Poupar-lhes-ei, portanto, descrições sórdidas.

Passei! Terceira posição geral entre os aprovados. Recebi congratulações, precedidas por intensas cobranças. Arrumei estágio na construtora onde antigos primos trabalhavam. Experimento sensacional, cumprido com magistral excelência. Vieram novas oportunidades melhores, aproveitadas com igual dedicação. Curriculum vitae recheado. Portal introdutório para o mercado de trabalho. A vida acadêmica diferiu por motivos opostos. Simplesmente foram períodos chatos, professores medianos, colegas individualistas. Dentre os amigos, só Marcelo, morto há cinco anos, estendeu as mãos. Alimentamos uma amizade assaz consolidada. Tínhamos até um lema “inspirador”: Papel cumprido, diploma garantido.

Recém-formado, emprego fixo. Faltava casar. Mamãe sempre repetia esse provérbio chinês: “Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar.” Nem mensurem quantos conselhos cansativos: Case-se, case-se, morar sozinho trará desgraça, morar sozinho trará desgraça. Bastou. Espalhei anúncios no jornal, avisos em sites de relacionamentos, bate-papo. Tentativas infrutíferas. Papai brincou comigo: Precisariam clonar-te e depois teriam que criar uma versão feminina de ti.” A piadinha provocava gargalhadas inevitáveis. Intimamente, considerava-a apropriada. Amar a si próprio desconecta-nos do lado animal político (concepção aristotélica).

Convidando conhecidos para o aniversário, papai teve felicidade imensa em apresentar-me a Márcia, filha primogênita do sr. Rogério Silva Souza, um velho companheiro octogenário. Moça lindíssima, educada, cortês, fina. Defeito único dela: Sincera juramentada. Lembro como se fosse hoje...

- Olá, bela festa, concordas?

- Rapaz, és filho da sra. Maria Sofia?

- Sim

Nem continuamos o diálogo da paquera, recebi um direto “estou interessada em você”. Lembrei que a espertinha ofereceu olhares convidativos. O namoro avançou rapidamente. Demorou quinze meses e casamos. Arranjamos casa própria e fomos morar juntos. Nossos pais visitavam-nos frequentemente, sendo recepcionados com café, chá e bolachas.

Márcia lecionava, fornecia contribuições financeiras robustas, maiores do que as minhas. Prejuízos orçamentários passaram longe nessa época. Daí debatíamos a possibilidade de gravidez. A animação nos dominava. Corrigimos problemas da dinâmica fertilizatória mediante terapias medicamentosas, abrimos um novo quartinho, compramos roupinhas infantis. Catapimba! O ginecologista confirmou, era um menino! Tinha dois meses e meio! Houve, logicamente, ocasiões excêntricas no decorrer do limite restante para o parto, tensões naturais nesse contexto conturbado. 21 de abril. Feriado de Tiradentes. Dia marcado pelos cálculos médicos. Viria ao mundo o fruto dessa relação bem-sucedida construída a curto prazo.

Guilherme! Nome optado. Vários Guilhermes fizeram diferença nas vicissitudes históricas ocidentais. Guilherme II da Normandia invadiu a Inglaterra, triunfando na Batalha de Hastings (1066) e pondo fim ao domínio anglo-saxão. Na mesma nação, o príncipe Guilherme de Orange destronou Jaime II, fez-se rei e liderou a Revolução Gloriosa, fato decisivo nos atuais rumos da monarquia inglesa. Guilherme da Prússia, cujo chefe de estado foi ninguém menos que Otto Von Bismarck, corou-se Kaiser alemão em pleno Palácio de Versalhes. Lembremos também do fictício Guilherme Tell, lendário herói suíço, cujos dotes esplendorosos de besteiro provaram que vale apostar na autoconfiança séria.

Entretanto, importava-me o Guilherme saído do ventre de Márcia. Indivíduo com quem compartilhávamos sangue, genes, fenótipos e características infinitas bem ou mal perceptíveis aos crivos alheios. Nasceu! Nasceu! Criancinha lindíssima. Pesava 2,5 kg. Olhos clarinhos, azuis feito o céu. Pele branca, legítimo caucasiano. Nossas famílias ficaram encantadas, encantadas! Pais de primeira viagem, sofremos oito semanas com os choros noturnos, fraldas encharcadas, rejeição ao leite materno, estresse pós-nascimento. As avós corujas prestavam auxílios substanciais. Finalmente respiramos aliviados! Aprendemos o bê-á-bá das lições paternais e maternais. Dos cinco em diante, assumimos totalmente a criação do Gui. Escola, viagens, alimentação, prioridades básicas.

Recordações sóbrias, caros. Céus! As lâmpadas voltaram a piscar, o espelho do banheiro emitia uns ruídos ululantes. Foquei nele. Ganhara iluminação cinzenta, idêntico ao pó cadavérico derivado do apodrecimento ósseo. Que horror! Cave... cave... cave... caveira! Córnea, córnea! Diga-me, por favor, que enlouqueci! Desgraçadamente havia fidedignidade concreta naquilo. Esperem! Mudaram-se as feições. Aos poucos, o crânio puro ganhava carne, pele, boca, dentes, orelhas, cabelo, nariz, etc. Eis um rosto completo, formado, desenhado. Fisionomia familiar, porquanto, simulava-me. Exatamente, senhoras e senhores, fiéis espectadores, via-me face a face comigo. Reflexo? Ledo engano. Noutra ponta enxergava medonhamente não mais que uma galhofeira entidade fantasmagórica usurpando semblante humanal. Travessura típica dos espíritos zombeteiros.

Medo, medo, medo! Vociferei impropérios indizíveis, forçava a maçaneta da porta buscando abri-la. Confusão generalizada. Deus? Hora oportuna para exercer a tua misericórdia. Renuncio ao ateísmo! Morram os céticos, incrédulos, racionalistas, filósofos existencialistas. Fora! Ajude-me, ajude-me... Raios trovejaram. O aguaceiro retornara. Chorei, esvaziei o estoque de lágrimas das pálpebras. Resignação, resignação, resignação. Venham soberbos mensageiros demoníacos! Querem esta alma desatinada, desgraçados? Levem-na! Levem-na! Pelo inferno de Dante, naveguemos no Lago Cocytos. Quero ver Lúcifer, os gigantes, Judas, Brutus, Cassius, egrégios traidores. Ambicionar sono eterno? Balela! Cobiço sofrimento, angústia, lamúrias, rancores. Anseios justos, legítimos, palpáveis!

“Belas palavras, mortal”

Extraordinário! O protótipo facial falou! Pedia: Ponha-se a frente, ponha-se a frente”. Ergui-me, desprovido dos terrores acumulados. Experimentei sensações reconfortantes.

- Compreendeste?

- Compreendi?

- Tua missão, cumpriste-a!

- Explica-te

- Arrg, tolo.

- Desembucha!

- Basta!!!!!!!!!! Insolência é sinal de imaturidade. Sofreste tantas expiações. Vãos fossem os esforços do teu corpo planejando fugir. Tolice desafiar o destino

- Destino?

- Correto

- Disserte

- Dada a mensagem enviada, sabes que foste testado, desafiado. Desígnio diligenciado em comum acordo pelos senhores do paraíso e do inferno. Teu encargo ensinará a humanidade o temor ao sobrenatural.

- Temor? Queres dizer medo?

- Decerto que sim. Medo é um sentimento demasiado imprudente, ruim. Autoridades espirituais amam-no

- Amam serem temidas?

- Claro. E é retumbante temer o desconhecido. Definição concisa do que seja o sobrenatural.

- Entre nós, mundanos petulantes e imundos, os sobrenaturais fogem das racionalidades científicas.

- Ótimo

- Ótimo?

- Mistérios e verdades opõem-se

- Entendo...

- Encerremos. Último teste!

- Último?

- Faça-o tranquilo. Cortesia do rei das trevas

- Posso ir

- Vá

- Tudo acabará, verdade?

- Verdade. E a ti caberá terminar

- Tens razão

Harmonia, harmonia. Dissipados medos, soturnidades, confusões, horrores. Larguei o banheiro e o tranquei. A energia voltara. Arranquei as pilhas do interior da lanterna. Subi as escadas segurando o corrimão. Marchava lentamente, lentamente... Nem desperdicei concentração medindo o horário. O remanso contundente das ruas caracteriza madrugadas clássicas.

O quarto! O quarto! Recanto único. Deitei-me na cama, abracei fortemente os travesseiros. Insônia, funesta insônia. Relaxado, recobrei forças. Um intento final me chamava. Antes, peguei o retrato de Guilherme posicionado na escrivaninha, afaguei-o dez segundos, limpando-lhe a poeira. Coloquei de volta, depois arrumei o leito. Pus fronhas limpas, coxas transparentes e as perfumei.

Aproveitando o ensejo, apanhei caneta esferográfica, papel almaço e um envelope branco. Desbaratei a escrivaninha, hesitei, busquei formular mentalmente vocábulos encadeáveis. Formulei, a duras pernas, sentenças sintáticas decentes. Tomei cuidados meigos, evitando possíveis danos a folha utilizada. Demorei treze minutos produzindo treze páginas no dia treze. Viram, viram? Superstição deliciosa.

Terminei! Terminei! Terminei! Grand finale! Espero ter lhes agradado minimamente. Cônscios ficaram dos fatos narrados e sabendo, portanto, que leem uma versão condensada deles. Acreditar ou desacreditar é assunto de foro privado. Somos livres para acreditarmos no que quisermos. Deem-me licença, preciso apanhar um velho instrumento na gaveta superior, herança paterna, objeto odiado e amado, símbolo máximo das tragédias terrenas. Obrigado.


P.S.: Ao violador do documento apresentado, deixo as seguintes instruções: Divulguem-no publicamente, na íntegra, e sem delongas. Faça com que estes depoimentos atravessem fronteiras, desbaratem corações, emocionem multidões. O mundo necessita conhecê-lo.


Sérgio Souza morreu às nove horas do dia quatorze de agosto. Seu cadáver fora caído ao chão, banhado em sangue jorrando a conta-gotas do cérebro perfurado pelo projétil. Miolos expostos. Na mão esquerda, os detetives encontraram: uma carta manuscrita envelopada, uma pistola calibre 50 e um retrato empoeirado.

17 марта 2019 г. 17:57:36 0 Отчет Добавить 1
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