Olhos de Saturno Подписаться

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[BAEKSOO|90's] Baekhyun guarda a vida em caixas de sapatos, cartas, polaróides e fitas cassetes. E como qualquer outra pessoa que já conheceu, quer dedicar uma especialmente para seu vizinho Do Kyungsoo, o garoto que tem os olhos de Saturno.


Фанфик Группы / Singers 18+.

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Olhos de Saturno - Capítulo Único

É bem provável que eu seja o único garoto da cidade que guarde a vida em caixas de sapatos, não que isso seja ruim porque é incrível ser diferente em um mundo com tantas pessoas peculiares a cada esquina. Entretanto, isso não me faz melhor que ninguém.

Aos onze anos de idade fui diagnosticado com a síndrome raríssima Memória Autobiográfica Altamente Superior, cujo quem a tem não se esquece de nada ou quase nada que aconteceu em sua vida. Me sinto um super-herói por não esquecer a horário exato que vi Byun Eunbi chegar em casa após seu nascimento, ou o que comi de almoço na segunda quinta-feira do mês passado. Foi o lanche roubado de Xiumin, o melhor amigo do mundo. 

Mesmo que seja um pouco contraditório pois sei que não esquecerei com facilidade os eventos da minha vida, gosto de reservar uma caixa de sapato para cada pessoa que já conheci. Porque mesmo sabendo que vou lembrar de tudo quero ter boas lembranças. Mesmo que ninguém saiba. Ninguém jamais saberá. 

As caixas são simples e geralmente são de sapatos que nunca usei. 

A mais bonita delas, na minha humilde opinião, é de Park Sooyoung, uma garota gordinha que conheci em um parque temático dois anos atrás. Mesmo que tenhamos ficado presos em um dos brinquedos por três horas podemos conversar bastante, o suficiente para que eu dedicasse centro e trinta e oito páginas apenas sobre ela. E, a mais feia das caixas pertence à Xiumin, o melhor amigo do mundo. Simplesmente a deixei feia para espantar quem quisesse saber o quão incrível Kim Minseok é. Ele vale muito a pena, infelizmente o próprio não sabe disso.

Mas há alguém que me deixa estranho com todo seu enigma.

Não é preciso suspense para saber que é Do Kyungsoo, meu vizinho desde os quatro anos de idade e que só aparece para cuidar do jardim da própria casa. Ele me deixa fissurado em entendê-lo, em desvendá-lo. Desde que o vi pela primeira vez que sou absorto, principalmente quando vi seus olhos. Eram estranhos e ao mesmo tempo muito bonitos, nunca vi qualquer coisa parecida com eles em toda minha vida — e se houvesse certamente saberia.

Do Kyungsoo é tão incrível que quero dedicar uma caixa para ele, quero transformá-lo em uma boa lembrança. Sou um pouco invejoso quando os outros descobrem algo que já sei, mas com ele é diferente. Mais pessoas devem vê-lo, ver o quanto é incrível.

E, caramba! Semana passada quando começou as férias, eu estava tão ansioso por saber que finalmente eu teria tempo para escrever sobre ele que até mesmo estipulei um horário para encontrá-lo. Mas agora... não tenho mais tanta confiança ou esperanças assim. Quem sabe em uma outra vida eu possa escrever sobre, caso algum dia eu compartilhe essa história as pessoas também poderão ver o quão extraordinário Do Kyungsoo é e, talvez se sintam inspiradas.

Ele está do outro lado da rua.

Seus olhos são os mais bonitos que já vi. Mas ele não sabe disso e nunca saberá. Está cuidando do jardim, aguando os girassóis e pela sua expressão entendo que não gosta muito da tarefa. 

Então, como todas as outras vezes o analiso. Analiso tudo que há ao seu redor. 

É meu passatempo favorito.

O dia está nublado, como todas as outras vezes em que Do Kyungsoo sai. Será que eles têm algum tipo de ligação? Seria muita loucura. Vejo as crianças passearem pela rua em seus triciclos, o carteiro acompanhado ao carinha do jornal e cada morador cuidando do próprio jardim. Uma paz estranha diante da noite inquieta que tivemos ontem, onde a polícia passou a mil atrás de um ladrão.

Um dia normal, nublado, mais um dia de férias.

Fecho a cortina antes que ele me veja, como todas as outras vezes. 

Uma parte minha queria ter gritado um breve olá ou simplesmente ter acenado, porém a ignoro, pois sei que sou incapaz de fazê-los. Palavras e atitudes simplesmente não saem quando se trata de Do Kyungsoo.

Me arrasto de volta para a cama. 

Penso no que posso e não posso fazer. Penso nos prós e contras, nas condições, no que acontecerá depois. Conclusão? Byun Baekhyun pensa demais. Isso me irrita, muito, além de me atrapalhar. Mas papai apenas me fala que sou responsável demais. Mas só para deixar registrado: ser responsável não atrapalha ninguém. Mas ele provavelmente não sabe disso.

Me levanto novamente. Estou nervoso. 

Há alguma coisa estranha e verifico o jardim da frente novamente. 

Do Kyungsoo ainda está lá, parado, completamente imóvel enquanto o regador derrama o restante da água no chão. Não sei o que está acontecendo, e seus olhos focam na minha janela me deixando ainda mais atordoado, entretanto, fecho a cortina novamente. Ele provavelmente me descobriu. Pego no flagra. Minhas mãos já estão soadas só em pensar nessa possibilidade.

Volto para a cama e puxo uma das várias caixas.

Ela é branca e antes pertencia as minhas sapatilhas de balé. Está vazia, a única coisa que há é a palavra Saturno escrita — com as canetinhas roubadas de Eunbi, porque têm uma cor e cheiro incríveis — à garranchos. A dediquei a meu vizinho, mas ele não sabe disso — nem mesmo Xiumin que tem o costume de fuçar minhas coisas. Até porque não há nada em especial nela. Está vazia e, mesmo conhecendo Do Kyungsoo há treze anos a única coisa escrita sobre ele que tenho é o dia que o conheci, mas na época em que a escrevi a deixei na caixa de Xiumin. Foi uma lembrança com ele, não com Do Kyungsoo. 

Naquele dia pareceu certo deixá-la lá.

Ouço vários passos no corredor e gargalhadas. É Byun Eunbi com sua amiguinha Lee Chaeyeon, mais um dia entre crianças que não estudam. 

Olho uma última vez para a caixa em mãos. Algum dia terá alguma coisa aqui dentro? Guardo-a de volta no lugar e saio do quarto. 

Mamãe já vinha subindo as escadas para me chamar.

— Você está linda, senhora Byun Yoon-ah! — a cortejo, utilizando meus conhecimentos de dança de salão. Mamãe sorri e segura minha mão. Deixo um selar e logo a olho nos olhos. Mesmo tendo passado tanto tempo ela não envelhece nada. E se pudesse, eu me lembraria muito bem. — Se Byun Jong-kook não tomar cuidado, outro homem pode roubar seu coração! — falo, no exato momento em que papai passa em frente a escada com o jornal em mãos.

Ele as sobe e olha bem no fundo dos meus olhos apontando o dedo no meu rosto com um sorriso brincalhão enquanto mamãe apenas termina de ajeitar seu vestido. Apenas gargalho, pois sei que é apenas uma forma sua de dizer "tome cuidado com o que diz, você ainda tem muito o que aprender com a vida".

— Não fale uma coisa dessas nem brincando, Baekhyun! Você não tem ideia do quanto sofri para que sua mãe me notasse. De fato, foi uma grande batalha! — ele se afasta sorrindo e abraça mamãe pelos ombros. — Agora, vá tomar seu café! Esqueceu que temos que ir no centro arranjar as barracas?

— Como eu poderia esquecer? — sorrio e desço as escadas de dois em dois. 

Qualquer momento é o momento certo para se dançar um pouco. Papai comenta alguma coisa sobre minha mania, mas não lhe dou atenção, pois meus pensamentos estão completamente focados na música que toca no rádio.

A  voz de Cyndi Lauper sempre será marcante para mim. Inclusive enquanto Girls Just Wanna To Have Fun estiver tocando. A música combina perfeitamente quando Eunbi e Chaeyeon descem as escadas dançando, jogando os cabelos de um lado para o outro com os rostos cobertos de maquiagem. A maquiagem da mamãe. Alguns pingos de gente estão muito encrencados. 

Puxo a tigela e começo a comer. 

O que será que Do Kyungsoo comeu? Não que seja da minha conta, mas pensamentos aleatórios vêm todos os dias, feito o ar, principalmente sobre ele.

A dupla de garotas começa a correr pela cozinha improvisando um inglês ao mesmo tempo que tentam cantar e, eu como um ótimo irmão mais velho deixo a comida de lado e danço com elas. Estamos apenas pulando ao redor da mesa, mas em nossas cabeças estamos fazendo uma turnê pelo mundo, sendo uma Cyndi Lauper da vida com várias garotas querendo apenas se divertir.

Quando papai desce as escadas penso que vai brigar conosco e desligar o rádio, ao invés disso dobra o jornal e deixa sobre o balcão começando a dançar também. As janelas estão abertas e provavelmente quem está nos olhando pensa que somos loucos, mas não nos importamos com isso. Garotas querem apenas se divertir. 

Pego a vassoura e faço dela um microfone para Chaeyeon em meus braços, que faz caras e bocas como uma verdadeira cantora. A própria Madonna teria inveja se a visse — mesmo que eu seja um grande fã dela. O refrão chega e Eunbi manda o passinho com papai chacoalhando os quadris e com os punhos fechados. Ele provavelmente acha que está mandando ver.

Infelizmente a música chega ao fim. 

Estamos cansados e quando mamãe desce as escadas voltamos a nossos afazeres como se nada houvesse acontecido. Será nosso segredo. Volto a comer olhando cúmplice para Chaeyeon que sorri fazendo seus olhos virarem duas linhas.

— Eunbi, que maquiagem é essa? — e, bom, nossa diversão de dois minutos não livraria ninguém de uma bronca. — O que eu disse sobre pegar na minha maquiagem? — Eunbi não responde, apenas põe as mãos em frente ao corpo e abaixa a cabeça. Igualmente à Chaeyeon, ambas estão muito envergonhadas. — Vão lavar o rosto, temos cinco minutos para irmos a loja!

Ah, sim. Me lembro. 

Mamãe irá ser madrinha do casamento de minha tia Byun Hyoyeon — futuramente Kim —, que, amém, finalmente desencalhou! Agora, não terei mais que aturá-la me perguntando onde estão as namoradinhas todo natal. Ela finalmente teria com quem passar as festas. De qualquer forma, parabéns por ela! E por mim. Por isso, mamãe está tão nervosa para experimentar seu vestido. As meninas serão floristas. Tia Hyoyeon prefere um casamento mais ocidental, ao invés do tradicional.

As garotas vão ao banheiro de cabeça baixa e seguro o riso.  Seus biquinhos são fofos. 

Termino de comer e coloco a tigela suja na pia. Volto para o quarto. Troco de roupa, escovo os dentes — novamente — e me jogo no sofá da sala, compartilhando de alguns minutos assistindo TV com papai que, ainda está terminando as charadas do jornal. Belo passatempo.

Posso dizer que minha vida é normal. Nada muito louco acontece todos os dias mas as vezes receber o simples bom dia de um desconhecido na rua me deixa elétrico. Fico sensível quando recebo atenção de pessoas que não estão na minha bolha de conforto. 

Como todo estudante do colegial estou de férias e papai está pensando em ir acampar. Estou pensando em levar Xiumin, o melhor amigo do mundo. Mas ele não gosta de mosquitos e muito menos do som dos grilos. Diz que a natureza o assusta um pouco. Ele é meu único amigo e não tenho outra pessoa para convidar. 

Poderia convidar minha vizinha de seis anos para comer marshmallow ao redor da fogueira mas duvido que ela goste mais de mim ao invés de Eunbi. Ou então, meu vizinho Do Kyungsoo mas seria vergonhoso travar na hora.

Mamãe e as meninas voltam do banheiro e sei que é hora de ir.

— Vamos, garotão! — papai fala e coloco os pés no chão. Seu jornal está dobrado sobre sua poltrona e agora ele analisa o dinheiro na carteira. Provavelmente esqueceu alguma moeda. — Me espere no carro, vou dar uma olhada no quarto! — confirmo com a cabeça. 

Desligo a TV e vou para o carro.

Brigo por espaço com os pingos de gente que estão no banco detrás tentando me expulsar e me convencer de ir no porta-malas.

— Você é muito grande, Baekhyun! — Chaeyeon exclama ajudando a amiga.

— Não cabe aqui! — Eunbi grita exibindo seus dentinhos pequenos.

Tento entrar mais uma vez, mas suas pequenas mãos me empurram.

— Vocês são muito pequenas. Cabem lá! — me refiro ao porta-malas.

— Parem de brincadeira! — mamãe fala e depois riu. 

Sento ao lado das meninas que me mostram a língua. Minha infantilidade fala mais alto e faço o mesmo.

Papai finalmente chega e entra no carro. 

Enquanto verificam se não esqueceram de nada, encaro o jardim dos Do. 

Está sempre bem cuidado com grandes e formosos girassóis e flores variadas, a grama é sempre verde e aparada. Fazem um ótimo trabalho. Há vasos com detalhes feitos a mão e um regador azul ao lado da cerca com algumas coisas escritas. São desenhos fofos e infantis.

Adoráveis.

Mamãe pede para que colocarmos o cinto. 

Mas quem disse que as meninas a obedeceram?

Do Kyungsoo está incrível no meio de todos aqueles girassóis, tão calmo e tão peculiar olhando as flores, mesmo havendo outra coisa em seu olhar. Suas mãos tocam tudo o que pode. Ele está sentindo, sentindo tudo o que se tem direito. Sabe ser mais extraordinário do que achei, porém, não sabe que estou o olhando e momentaneamente prefiro que seja assim. 

Na minha cabeça estou saindo do carro e indo cumprimentá-lo como se fôssemos amigos há anos, sorriríamos e eu diria que ele está mais bonito que ontem. Conversaríamos um pouco e quem sabe eu o convide para acampar, ou diga que ele sempre está bonito, ou que lembro perfeitamente bem dele desde meus quatro anos. Quem sabe viraríamos amigos, sairíamos para comer besteiras na iFood e, no final do dia eu viraria a noite falando para Xiumin o quanto Do Kyungsoo também é extraordinário.

Mas como todas as outras vezes não faço nada, apenas abaixo a cabeça quando penso que serei pego novamente e papai dá partida no carro.

Lembro de quando conheci Do Kyungsoo, quando finalmente o olhei nos olhos. Porque mesmo que eu o conheça desde os quatro anos nunca o tinha visto. Pelo menos até os seis. Lembro de quando vi Saturno pela primeira vez. Foi em uma das vezes que fiquei de detenção e Xiumin, o melhor amigo do mundo, me levou para o parque onde estava acontecendo o Festival do Universo. Você poderia pagar algumas moedas e poderia ver qualquer planeta, constelação que quisesse.

E impliquei tanto com mamãe para me levar que uma hora ela acabou cedendo.

Meu planeta favorito, naquela época, era — e ainda é — Vênus. Porque eu era um fanático na Mitologia Grega e, Vênus recebeu esse nome em homenagem à Afrodite. Naquele dia pretendia vê-lo, mesmo que fosse difícil. 

Contudo, Xiumin, o melhor amigo do mundo, me pediu para que eu olhasse Saturno por ele. Porque ele era cego e gostava que eu descrevesse os planetas, dizia que eu os via de uma forma diferente. E como um bom melhor amigo, o fiz. 

Saturno era grande, com seus maravilhosos anéis ficava mais bonito ainda e essa peculiaridade o fazia diferente dos demais. Ele me encantou, mas não mais que Vênus. Falei para Xiumin, o melhor amigo do mundo, o que vi. Apenas uma grande almôndega enrolada em macarrão. Meu melhor amigo apenas riu e me ofereceu sua mão. 

Ocultei o que vi além de Saturno. Nem mesmo escrevi sobre Do Kyungsoo quando anotei aquela noite e guardei na caixa de memórias com Xiumin, o melhor amigo do mundo. Não porque estivesse encantado o suficiente, mas pelo fato de saber que Minseok era um bisbilhoteiro de primeira, não mediria esforços para saber o que escrevi e me obrigaria a ler tudo. De qualquer forma não esqueci — também não é como se eu conseguisse facilmente.

Lembro que levei Xiumin para casa e no caminho para a minha não hesitei em contar para mamãe. Porque ela era simplesmente a mulher mais incrível do mundo e me entenderia.

— Mamãe, ele tem os olhos mais lindos que já vi.

— E qual a cor deles? — perguntou, mas não desviou os olhos da pista.

— Nem sei... — e sorrio. — Mas enxergam o mundo de uma maneira maravilhosa!

Ela provavelmente pensou que eu estivesse falando de Xiumin porque eu tinha a mania de elogiá-lo sempre que pudesse, mas estava falando de Do Kyungsoo. Meu vizinho que depois de anos não sabe que existo e quase me pegou o observando pela janela. O mesmo Do Kyungsoo que tem uma caixa dedicada a ele desde meus seis anos e que o apelidei de Saturno porque ele é uma boa lembrança, como o planeta.

[...]

Tenho problemas com supermercados. Tenho problemas em estar rodeado de pessoas. Simplesmente fico pensando em tudo que pode dar errado enquanto eu estiver no meio delas, como se estivessem esperando que eu cometesse algum mico — ou erro — para rirem de mim. Tendo uma síndrome que me faz lembrar de tudo apenas piora minha situação, porque eu lembro de todos os micos que cometi. Daria qualquer coisa para esquecê-los, ou pelo menos que não fossem dias tão ruins, ou que as pessoas amadurecem e agissem como adultos tanto quanto julgam os outros como devem ser.

Estar em um supermercado não é nada confortável mesmo que cada um esteja cuidando da suas compras.

Eunbi saiu correndo com a amiga para o departamento infantil e mamãe teve de segui-las apenas empurrando eu e papai para qualquer lugar. Um belo modo de dizer virem-se. 

Precisamos de barracas. 

Também tenho problemas com organização, mas nem por isso anotei o que devo comprar ou seja, estou perdido apenas olhando as barracas como se realmente estivesse alguma coisa das instruções de montamento. Só sei que compraria a mais fácil de montar e pronto! Uma ótima ideia. Dou uma olhada rápida antes de gritar por papai para que analise. Ele gosta de barracas espaçosas o suficiente que coubesse o dobro dele, mas ele não dormiria com mamãe e isso é estranho.

— Vou procurar sua mãe. Me espere no caixa.

Puxo o carrinho de compras e jogo nele. Elas vêm em uma espécie de bolsa então é mais fácil de guardar. Arrasto as rodinhas até as estantes de comidas, porque acampar sem comida é inútil. Logo eu que sou viciado em doces, salgados e bebidas não posso ficar sem.

Há propaganda por todo o lugar, até mesmo tem um cara vestido de gatinho atraindo o pessoal do lado de fora. Todo seu esforço talvez nem seja recompensado com o salário, mas ele continua sorrindo entregando os folhetos. No entanto tenho quase certeza que o último cara que trabalhou lá estava vestido de dinossauro. Onde será que ele está agora?

Chaeyeon aparece e pula no carrinho. Apenas faço-lhe uma careta.

Coloco mais algumas besteirinhas me certificando da data de validade de cada um e depois vou para o caixa onde mamãe está na fila. Lhe entrego o que escolhi e coloco no seu carrinho que está mais cheio que o meu.

— Pode ficar aqui? Esqueci de comprar os repelentes.

Ela sorriu envergonhada, porém, apenas tomo seu lugar esperando que quem está atrás de mim não reclame ou me xingue. Pessoas de supermercado costumam ser bem agressivas quando estão em filas. Mamãe sai empurrando o carrinho com Chaeyeon dentro fazendo bolinhas de sabão com sua pequena arma.

Eunbi me oferece um pirulito.

— Obrigado.

Chega nossa vez depois de um tempinho e vou colocando as coisas sobre o balcão.

— O que aconteceu com o dinossauro? — pergunto me referindo ao carinha do folheto. O balconista me olha.

— Cometeu suicídio mês passado.

Oh. Ele falou calmo mas sinto o peso em suas palavras. Acho que não há uma maneira certa de lidar com essas situações, porque se disser que superou é como se estivesse esquecido, e se disser que ainda não superou é como se estivesse remoendo coisas do passado.

Quando perdemos alguém querido ou até mesmo não sejamos tão próximos de qualquer forma é difícil, não porque você não vai conseguir a vida do mesmo jeito, mas sim porque você vai continuar acordando todos os dias como se estivesse faltando algo, vai se perguntar inúmeras vezes o que poderia estar acontecendo se soubesse que perderia alguém, vai se sentir um intruso na própria vida. Insuportavelmente difícil.

Fico em silêncio porque não sei o que dizer.

Em uma situação dessa qualquer coisa pode ser mal interpretada.

— Ele era um cara legal, sempre sorridente e cantando por aí. Foi difícil acreditar.

— Imagino...

Realmente imagino como seja.

[...]

Subo para o quarto após ajudar a tirar as compras do porta-malas. Xiumin está zoando a nova franja de Chaeyeon e Eunbi está se sentindo deixada de lado. Ela odeia isso, tanto que tem os braços cruzados e o pé batendo freneticamente no chão. Birrenta e fofa.

O que aconteceu no supermercado não sai da minha cabeça.

Perder alguém deve ser muito difícil por milhões de motivos. Se sentir intruso na própria vida é apenas uma delas. Também tem os pensamentos de que se deveria ter evitado, de que deveria ter notado antes. Isso não muda o fato de que se fica pensando em todas as coisas que poderiam estar fazendo agora, que poderiam estar rindo de uma piada ruim ou apenas na companhia um do outro ouvindo aquela música que tem um significado muito importante.

Contudo, percebemos que estamos parados apenas pensando em tudo e não fazendo nada como se não houvesse mais razões. Então notamos que não deveríamos estar assim, que deveríamos estar sorrindo porque de algum lugar alguém estará nos olhando e sorrindo de volta. Mas essa também é apenas uma das únicas coisas que pode acontecer em uma situação como aquela.

Mesmo quando os que no importa vai embora e está feliz, a vida para quem fica não facilita em nada, talvez até dificulte. A felicidade de uns deve acabar para que a de outros comece. Essa frase é estúpida, como se ninguém pudesse ser feliz ao mesmo tempo. Provavelmente ela nunca presenciou quando se olha na cara do amigo e você simplesmente ri porque está com ele, por ele.

Falar sobre a vida com alguém que já se sente morto deve ser muito difícil.

Puxo a caixa de Xiumin e a abro.

Há várias folhas soltas, palavras que não pude evitar de escrever. Fitas cassetes mal gravadas por mim e vários poemas escritos em Perkins Brailler por Minseok. Mesmo que a caixa e história seja sobre ele, há uma parte de mim ali, querendo ou não. Ele é definitivamente uma lembrança incrível, talvez uma das melhores que tenho. Quando eu for velhinho vou contar para meus netos sobre ele e todas as loucuras que já cometemos.

— No que tanto pensa, branquelo?

Xiumin aparece na porta, apontando sua bengala em minha direção como uma arma. Que medo, baixinho. Ainda mais com aqueles óculos escuros parecendo um mafioso mexicano. ¿Habla español, hermano?

— Só espero que nessa caixa não tenha meus momentos constrangedores.

— Jamais faria isso com você, sabe disso e, mesmo que tivesse jamais as colocaria aqui, guardaria-as na sua caixa da vergonha, apenas para ficar rindo quando estiver entendiado.

Xiumin abaixa a bengala e se senta na cama de frente para mim.

Desde sempre soube onde ficava cada objeto desse quarto.

— Você fala como se eu não pudesse fazer o mesmo! — está sorrindo, como se estivéssemos em um debate.

— Jamais faria isso comigo, sei disso.

— Tem muitas coisas que você acha que sabe, Bacon.

Xiumin tira os óculos e o deixa na gola da camisa.

Seus olhos não têm cor, não têm foco, são opacos. Mas isso não o deixa menos interessante. 

Uma vez, quando éramos crianças sua mãe disse que o filho era de ouro, porque ele tinha todos os motivos para ser triste mas vivia como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. Apenas disse que ser cego não é motivo para ser infeliz, é apenas um detalhe, algo que o faz diferente.

— "Bacon"? Essa é velha, cara! — abaixo a cabeça rindo.

— Eu sei. Mas me fale, o que lhe aflige? Está pensando em alguma garota que conheceu no supermercado ou na possível caixinha de suco que poderia ter comprado? — Xiumin me conhece muito bem, mas nenhuma das opções está correta.

— Você realmente não quer ir acampar conosco?

— Você já sabe minha resposta.

— Não se preocupe, mamãe comprou repelente e você pode levar seu walkman para não ter que ouvir os grilos. Agora, pare de arranjar desculpas e aceite.

Ele arqueou uma das sobrancelhas e riu, como se fosse uma piada.

— Tudo bem. Assim eu vou poder ficar bem agarradinho com você na barraca! — ele abraça o próprio tronco sorrindo.

— Nem tente.

Nossa conversa não acabou, Xiumin está apenas pensando em algum assunto ou piada engraçada para contar, enquanto isso, vou a janela para ver Do Kyungsoo ou mandar beijinhos para os pingos de gente que inventaram de vender limonada na calçada.

Travo quando vejo Do Kyungsoo na janela do seu quarto com seu moletom de arco-íris me olhando. Não esperava que isso fosse acontecer algum dia, já nem tinha mais esperanças que algum dia fosse falar com ele. Mas caramba! Ele está lá, alguns metros, me olhando. 

Seus olhos são tão bonitos que me prendem, me deixam mais fissurados, é difícil desviar o olhar. É como se eles te puxassem para um mundo particular, uma realidade alternativa. No entanto há algo diferente neles, algo que me intriga bem mais que seu enigma, que seu mistério. Eles me transmitem sentimentos, um sentimento em específico, um sentimento ruim que me deixa mais intrigado e me dá vontade de lhe dar um abraço. Melancolia. Estão melancólicos mas não deixam de ter a cor incrível de antes.

Então, ele dá um sorriso.

O sorriso mais triste que já vi, o mais forçado e o mais marcante. Por que de alguma forma acho que Do Kyungsoo nunca foi o garoto radiante que sempre sonhei? Minha mente infantil criou uma ideia sua de herói, uma pessoa magnífica, mas agora, tão exposto e sensível daquela forma talvez eu tenha sido enganado por mim mesmo desde sempre. Isso ainda não mudava o fato que Do Kyungsoo é forte, tem os olhos mais bonitos que já vi mas infelizmente já não vê o mundo de uma forma tão maravilhosa.

O que está havendo? Meu corpo está em choque.

— Baekhyun, você está chorando.

[...]

A última vez que vi Kim Minseok de boné foi há cinco anos durante uma excursão escolar onde fizemos uma trilha pela floresta. Ele estava radiante sob a luz do sol e costumava ser muito mais baixo e gordinho que eu. Era tão fofo que dava vontade de morder! A última vez que Kim Minseok foi há uma semana atrás no mesmo dia que vi Do Kyungsoo. E isso me preocupa, muito. Se Xiumin, o melhor amigo do mundo não está bem, também não estou. Parece dramático e meio estúpido mas isso que me faz tão apegado a ele. Porque eu faço qualquer coisa para vê-lo feliz.

Infelizmente quando fui a casa dele perguntar o que está acontecendo sua mãe apenas disse que ele está doente. Quero muito acreditar nisso, porém, seus olhos estavam desmentindo suas palavras. Por que de repente passei a notar tanto nos olhares? Talvez Do Kyungsoo com todo seu mistério saiba a resposta.

Agora, estou voltando para casa, com alguns vários pirulitos no bolso e os pés latejando. Por que Minseok tem que morar tão longe? E por que não peguei um trem? Não sei. Seja lá o que for que ele tenha, quero abraçá-lo, dizer que vai ficar tudo bem mesmo que não pareça. Sobre o que a mãe dele disse? Não acredito. Xiumin é a pessoa mais saudável desse mundo. Ele praticamente só toma suco e come fruta.

— Psiu!

Pode ser tudo, até um assassino, mas me viro.

É Do Kyungsoo em seu jardim em um moletom amarelo me olhando — novamente.

— Está... falando comigo? — pergunto e ele balança a cabeça apontando para o avião de papel na calçada.

Por que ele não sai para pegar?

Me abaixo e pego o avião, caminhando até Do Kyungsoo e o oferecendo.

— Obrigado — ele agradece, no entanto, depois empurra o objeto contra meu peito. — Mas é para você.

— Para mim? — ele está sorrindo e riu mexendo os ombros.

— Mas, por favor, só leia quando estiver em casa.

Encaro o avião em mãos. Afirmo com a cabeça e dou uma acenada caminhando para meu lado da rua. Do Kyungsoo ainda está do outro lado e acena de volta. Meu coração está batendo tão rápido que o sinto subindo até a garganta.

"Podemos ser amigos?"

[...]

Que acordei meio atordoado não foi mentira, porque meu coração estava para sair da boca quando abri os olhos e corri para a janela. 

Do Kyungsoo pediu para ser meu amigo! Meu vizinho, com os olhos mais bonitos que já vi, me pedindo para sermos amigos! Ele salvou meu dia com aquele avião de papel. Só espero que Xiumin não fique com ciúmes.

Papai me pediu para ajeitar as coisas no carro. Amanhã iremos acampar e mesmo que eu esteja querendo muito que Do Kyungsoo vá, duvido que aceite. Se Minseok fez uma birra louca por alguns mosquitos sendo meu melhor amigo, quicá Do Kyungsoo que é meu vizinho e provavelmente acha que sou um paranoico que fica o olhando da janela. No entanto, ainda espero que eu não trave e possamos ser tão próximos quanto a relação de Xiumin com comidas saudáveis.

Pego as barracas e as coloco no porta-malas, tomando cuidado com a maleta de equipamento do carro. As meninas estão novamente em mais um dia de trabalho intenso vendendo limonada atraindo a atenção dos vizinhos com seus sorrisos inocentes e vozes fofas. É incrível ver os vizinhos as tratando como se realmente fossem vendedoras de verdade. Só ficam me perguntando quanto é o troco, tirando isso são vendedoras natas.

Vou lá dentro buscar o kit médico e quando volto tenho a figura de Do Kyungsoo na sala me olhando em um moletom de lã rosa-bebê. Quase deixo o kit cair em meus pés. Me sinto exposto por estar com as mangas da camisa arregaçadas parecendo uma camiseta, pior ainda por estar suado.

Travo. Como previsto. Ele fica alternando o olhar entre mim e as próprias mãos.

Por que está nervoso? Olha para mim, estou parado! Ou melhor, não me olhe, sou tímido.

— Você não me pareceu ser tão calado.

Do Kyungsoo fala. É a primeira vez que ouço sua voz tão perto e me arrepio, tanto por ser a primeira vez quanto por seu timbre de voz.

— As pessoas sempre acham isso.

Ele não fala nada, apenas olha ao redor e volta seus olhos para mim.

— E a resposta sobre ontem? — cruza os braços. O que eu poderia responder? Está tão óbvio. — Vou considerar esse nervosismo como um sim.

Mamãe aparece com uma bandeja de biscoitos e um sorriso enorme.

— Querem um? — ela estica os braços e sinto o cheiro de chocolate. Minha barriga faz um barulho estranho. — Pegue um, querido.

Kyungsoo sorri e pega um comendo-o em uma bocada.

Deixo-os conversando e vou deixar o kit no carro, fechando o porta-malas ao ter meu trabalho terminado e responder mais uma vez o troco para as meninas. Ainda estou nervoso por saber que Do Kyungsoo está lá dentro.

— Seu amigo está lá em cima.

Mamãe fala da varanda da casa e olho para a janela de meu quarto vendo a figura do baixinho olhando para mim.

Por que continua me olhando desse jeito? Isso me assusta.

Subo as escadas tentando me acalmar e pensando em alguma conversa decente para não pagar de estranho na frente dele, mas ele parece estar mais focado em abrir alguma de minhas caixas embaixo da cama.

— Quem é Saturno? — Do Kyungsoo pergunta e se vira lentamente para mim.

Por que está interessado em saber?

Me aproximo envergonhado por novamente ter meus segredos descobertos por aquele baixinho.

— A caixa está vazia. Vocês não conversam?

— Comecei a escrever sobre ele ontem, mas não passei para essa caixa.

— Não vai me dizer quem é? — Kyungsoo está sorrindo. Fico mais envergonhado.

— Isso não mudará nada mesmo. — Pego a caixa de suas mãos e a coloco de volta embaixo da cama, tudo sob seu olhar que me desarma e me faz sentir que estou completamente exposto.

Me sento ao seu lado no colchão.

— Qual seu signo? — ele pergunta, inesperadamente.

— Por que a pergunta? — acabo rindo pela sua mudança de assunto.

— Apenas curiosidade — sorriu de lado olhando para o lado da janela.

— De acordo com a revista de fofoca que você provavelmente viu nas minhas coisas é: touro.

Kyungsoo abre a boca mas não fala nada, apenas abaixa a cabeça rindo e depois me olha. Seus olhos estão sorrindo também. Estão bonitos. Estão brilhando mais que em qualquer outro dia e isso me fascina, tanto que esqueço de qualquer outra coisa ao meu redor. Kyungsoo é a única pessoa que me faz esquecer o que está acontecendo.

— O que isso quer dizer? — me refiro a sua expressão e ele apoia o peso do corpo nos braços apoiados no colchão.

— Cada signo tem um planeta regente. O seu é Vênus.

Oh...

— O meu é Saturno.

Mais um motivo para Do Kyungsoo ser Saturno. Mas ele nunca saberá disso.

[...]

Estou indo para a casa de Do Kyungsoo — finalmente.

Semana passada não fomos acampar porque o pneu estourou e levou-se uma semana para ajeitá-lo. Xiumin até mesmo apareceu de chapéu de pescador e uma vara na mão. Deu dó vê-lo voltar para casa decepcionado com papai que apenas bagunçou seus fios ruivos e disse para ter paciência. Mesmo isso tendo acontecido o único lado bom foi que aproveitei a semana para conversar com Kyungsoo.

Nos tornamos mais próximos, não fisicamente, pois conversamos apenas por aviões de papel, cujo eu sou péssimo em mandar de volta. Eles costumam dar uma volta inteira na rua e ficar presos na copa das árvores. Kyungsoo por outro lado é excelente em enviá-los para minha janela. Nunca erra um.

Descobri que ele adora balinhas de menta e caminhar cedo pela manhã. Não tem uma cor favorita mas a que menos desgosta é amarelo e odeia o planeta Mercúrio. Na verdade há muitas coisas que ele não goste e/ou odeie e me pergunto o porquê disso, pois todas elas não têm explicação — pelo menos ele não me deu nenhuma. Contei sobre o dia que o vi pela primeira vez mas Kyungsoo não se lembra disso. Óbvio que não lembraria, foi há nove anos.

Pude escrever sobre Saturno, meu vizinho. 

Ele até mesmo me ajudou a pintar o Sistema Solar nas paredes e no teto de meu quarto. Resultado? Dois caras rindo cobertos de tinta. Kyungsoo estava maravilhoso pintado com várias constelações não propositais e admito, quase o beijei. Naquele dia seus olhos sorriram mais que sua boca, mas ela mostrou seu coração para mim. Me senti especial. 

No final do dia seguimos nossos rumos e acenei para Kyungsoo da janela do meu quarto que me enviou outro avião de papel.

"Espero poder ver seu sorriso mais vezes :)".

Ele certamente verá. Eu prometo.

— Boa sorte, rapaz.

Xiumin me dá alguns tapinhas nas costas.

Ele sabe o que aconteceu entre mim e Kyungsoo nas últimas duas semanas mas não sabe que a caixa de Saturno está quase se abrindo de tanta coisa dentro.

Mandamos uma piscadela um para o outro e vou para a casa de Kyungsoo.

Fico parado em frente por um longo tempo apenas olhando o jardim repleto de girassóis e o cachorro com a coleira colorida balançando o rabinho enquanto me olha. 

Não sei como dar o primeiro passo, não porque pareça invasivo entrar assim na casa dos outros, mas sim porque esse lugar me lembra Do Kyungsoo de todas as formas. É aqui que o vejo quando cuida das plantas, é aqui que ele passa menos tempo e foi aqui que ele falou comigo pela primeira vez.

A porta da casa se abre e o baixinho passa por ela em um moletom azul-bebê com algumas manchas de tinta. Ele estava pintando alguma coisa. Me recebe com um sorriso e faz um movimento com a mão para que eu entre. O obedeço entrando na propriedade ainda envergonhado.

A casa é simples por dentro, os sofás têm a estampa vermelha com bolinhas brancas igual ao vestido da possível mãe de Do Kyungsoo que aparece com o regador em mãos. Provavelmente há um jardim nos fundos levando em conta o ramos de flores que trazia nos braços e o sorriso no rosto.

— Baekhyun, sinta-se em casa! — seu batom é vermelho escarlate e seu dentes extremamente brancos. Isso a deixa peculiar.

— Estou subindo. Por favor, bata na porta antes de entrar.

Kyungsoo fala para a mãe e segue seu caminho esbarrando e tropeçando nas paredes, nos próprios pés. Apenas o sigo.

O quarto dele é comum, tem uma cama, um guarda-roupa e um abajur. Há várias fotografias em barbantes na parede e uma parede mais poética que a outra, tem um letreiro sobre a cama escrito Viajante em cor roxa. Seu quarto tem tons de azul e lilás, variando um pouco. 

Sinto Kyungsoo em cada parte daquele quarto, mas de alguma forma me sinto um intruso ali, como se estivesse roubando o lugar de alguém. Isso me intriga. Kyungsoo atravessa o quarto esbarrando na própria cama e volta com uma câmera polaroide em mãos sorrindo.

— Para que isso? — me refiro ao objeto em suas mãos.

É tarde demais pois ele já está tirando fotos minhas sem que eu possa fazer nada.

— Está vendo aquele mural na parede? Lá coloco uma foto de cada pessoa que conheci. — Por que isso me lembra o que faço? Meio óbvio, não? — Mas estou fazendo outro apenas com as pessoas especias. Tem um cantinho reservado para você na primeira fileira.

E mais uma foto.

Não sei o que lhe responder. Então sou especial para Do Kyungsoo?

— Adorei os girassóis lá fora! — mudo de assunto tentando não mostrar que estou afetado por suas palavras.

— Odeio girassóis. — Então, por que cuida deles?

— O cachorro é fofo! — falo enquanto ele faz mais uma sessão de fotos.

— Ele não é meu. É de um amigo.

Por que eu tenho que fazer comentários tão estúpidos? Me sinto uma vergonha.

Kyungsoo se senta ao meu lado e se apoia no colchão me entregando alguns polaroides.

— Escolha uma! — pede e o olho. Por que seus olhos têm que ser tão expressivos e me deixam sem palavras?

— Mas estou feio em todas!

— Não está não. Olha essa! — aponta para uma das várias. — O sol batendo no seu cabelo... Fala aí! Sou ou não sou um fotógrafo incrível?

Não consigo tirar meus olhos de seus lábios. Da última vez que isso aconteceu quase o beijei. Mas agora ele está me olhando da mesma forma. Sua boca está entre aberta como se me convidasse para beijá-lo. Fico alternando entre olhar para ela e seus olhos. Meu coração está acelerado e me sinto quente.

— Você é incrível, Kyungsoo... — então percebo o que disse. — Um fotógrafo incrível, eu quis dizer!

Ele ri estendendo sua câmera novamente e tirando uma foto surpresa.

— Essa vai para o mural!

Repentinamente o próprio fica calado apenas me olhando. Noto suas bochechas rosadas como se tivesse nuvens de algodão doce sobre elas, não sei se devo beijá-lo ou virar o rosto e procurar alguma outra coisa para olhar.

— Por que você age como se não quisesse isso, Baekhyun?

A ponta de seus dedos tocam meu pescoço e percorrem até minha nuca me causando um arrepio gostoso. Ele vem se aproximando mais e mais, sinto sua respiração contra meu rosto e o beijo. 

Meu corpo esquenta instantaneamente e não consigo mais pensar em nada a não ser mover minha boca sobre a sua. Fecho meus olhos ao vê-lo fechar os seus e apenas aproveito o carinho de seus dedos em meu pescoço e cabelo. Jamais imaginei que algum dia iria beijá-lo, mas eu deveria tê-lo feito. Obviamente não seria tão maravilho quanto, mas...

Timidamente movo minha mão até sua bochecha e deixo um carinho nelas notando-as quentes. Kyungsoo reage aos meus toques isso me faz ouvir o som do próprio coração contra o ouvido. Estou arrepiado, queimando e sem saber muito o que fazer.

Ouço o som da câmera.

Kyungsoo se afasta rindo com as maçãs do rosto vermelhas mas ainda com a mão em meu pescoço. Seus lábios estão inchados e sua pele está quente.

— Pode colocar essa na caixa de Saturno.

O olho. Como ele sabe?

Penso em perguntar. Mas ele me puxa com os braços para mais um beijo escorregando as mãos propositalmente para meus ombros.

[...]

Quando voltei para casa ainda tinha o coração batucando no peito e duvido que Kyungsoo não tenha conseguido o ouvir. Não entendia nada do que estava acontecendo e nem conseguia acreditar, apenas lembro de ter lhe enviado um avião de papel depois que Xiumin foi embora. Convidei Kyungsoo para acampar conosco mas ele não me respondeu com um outro avião como faria, apenas balançou a cabeça. Já notei que ele estava evitando me enviá-los e quando os fazia sempre o errava. O que está acontecendo com Saturno?

A noite foi uma confusão só.

Não consegui pregar os olhos por um segundo apenas pensando no modo como Do Kyungsoo me beijou, como suas mãos me acariciaram e como tudo pareceu certo. 

Aproveitei isso e escrevi mais páginas sobre Saturno.

Ainda estou intrigado com seu misterioso olhar que raramente acontece, porque nos últimos dias eles têm sorriso bastante para mim. 

Ah, sou especial para Do Kyungsoo! Não tem como estar mais feliz com isso! Se pudesse estaria gritando agora, mas Eunbi provavelmente viria me bater com seu ursinho de pelúcia ou Chaeyeon me daria um chute na canela.

Guardo os polaroides que me deu em sua caixa. 

Aproveitando para notar os novos enfeites que adicionei. 

Há girassóis mesmo que ele odeie, há um cachorrinho desenhado mesmo que ele não o pertença, há uma polaroide de seus olhos que tirei escondido, uma outra de quando ele pegou no sono. Há fitas cassetes gravadas por mim quando não consegui guardar minha euforia e não a escrevi em papéis.

[...]

Finalmente vamos acampar!

Papai está terminando de colocar tudo novamente no carro e estou ajudando Xiumin a tirar Chaeyeon do banco de trás para sentarmos. Eunbi chuta nossas canelas e mamãe apenas ri trazendo as cestas de frutas e colocando-as no porta-malas. É a primeira vez que vamos acampar e por isso estou tão nervoso, principalmente porque Do Kyungsoo confirmou que viria. Xiumin já notou meu desconforto, tanto que me mostrou um sorrisinho bem suspeito e ainda teve a audácia de me dar uns tapinhas em minhas costas. Na nossa linguagem isso quer dizer um vai fundo que dá certo.

Ainda sinto os lábios do baixinho contra o meu, mesmo assim sinto falta deles, do calor de seu corpo contra o meu e suas mãos apertando meus ombros. Me senti tão confortável entre seus braços que nem sei como não percebi que precisava deles muito antes. Os sorrisos de Do Kyungsoo estão cada vez maiores, porém isso não muda o fato que ainda me preocupo com a provável tristeza que ainda carregam. Eles guardam algum segredo.

Coloco os cintos e Xiumin deixa Chaeyeon em seu colo a abraçando arrancando-lhe gargalhadas. Do Kyungsoo vem se aproximando com uma mochila nas costas, um chapéu florido e um sorriso tímido nos lábios.

— Desculpa pelo meu visual. Minha mãe quem escolheu.

Ele abaixa a cabeça e papai o pede para entrar.

— Olá. — O cumprimento. 

Kyungsoo esbarra na porta e depois senta do meu lado.

Me sinto quente. Ele tem efeitos muito grandes em mim.

[...]

Descemos do carro e vou logo tirando as barracas do porta-malas indo armá-las com as meninas que (acham que) estão ajudando. Xiumin avança nos marshmallows oferecendo alguns para Kyungsoo, ele quase não consegue pegar e encolhe os olhos. Isso também é muito estranho. Se Minseok pudesse ver certamente veria o quanto são bonitos, iguais os seus.

Mamãe chega para nos ajudar com as barracas. Chaeyeon acaba se enrolando nos panos e Eunbi apenas fica rindo apontando. Até crianças nos decepcionam. Papai tira as comidas do porta-malas e corro para roubar as balinhas de menta e dar para Kyungsoo pedindo sua cumplicidade. Xiumin também gosta delas.

Fico olhando os dois interagindo. 

Parecem amigos há anos mas estranhamente não olham nos olhos um do outro. 

Talvez eu convide Kyungsoo para olhar o céu comigo quando estiver escurecendo, ou tire fotos dele para colocar na caixa quando volta para casa. Apenas sei que de alguma forma preciso registrar esse momento.

[...]

Kyungsoo sumiu na floresta. E mamãe pediu para que eu fosse procurá-lo. Pego a lanterna e saio, tomando cuidado em não acabar me perdendo. Tenho algumas balinhas de menta no bolso então quando o encontrar vou oferecer algumas. 

Já está escuro e pela primeira vez posso ver as verdadeiras luzes do céu. Vivendo a vida inteira no meio da cidade não se pode ver a verdadeira beleza da natureza, a natural. É possível ouvir o som dos animais e não dos carros barulhentos ou das fábricas, é possível sentir o ar puro. Se respirar calmamente vai senti-lo preenchendo os pulmões. A sensação é incrível.

Do Kyungsoo está sentado perto do rio com a lanterna desligada de lado olhando o céu. Vejo neles o reflexo das estrelas, é lindo. Seu sorriso é inocente, muito inocente para esse mundo. Ainda enxerga o mundo de uma forma maravilhosa, contudo estão sem cor, não têm o mesmo brilho de antes, estão melancólicos novamente. Isso me entristece.

Me aproximo, me sento ao seu lado e olho para o céu também. A Lua é incrível por nos permitir olhá-la, infelizmente o Sol é vaidoso demais. Desligo a lanterna e a deixo de lado, apenas para observar a imagem de Kyungsoo aproveitando tudo, sentindo tudo, mesmo com aquela áurea triste. O abraço e não sei se muda alguma coisa, porém, o sinto descansar a cabeça em meu ombro e suspirar.

Suspire, garoto, pode colocar suas mágoas para fora.

— Quero aproveitar tudo pela provável última vez.

Não entendo o que quer dizer, talvez eu nunca o entenda por completo.

— Eu tenho DMRI. Degeneração Macular Relacionada à Idade. Retinopatia diabética avançada e, no meu caso precoce. O que quer dizer que estou perdendo a visão, mas sabe, não é ruim, nunca vejo as coisas que acontecem como algo ruim. Não que isso diminua o que sinto mas, de alguma forma me ajuda a lidar melhor. Estar ficando cego quer dizer que eu não vou aproveitar o mundo visualmente, o que me faz aproveitar todos os outros sentidos melhor.

Isso explica o fato de estar esbarrando com facilidade nas coisas.

— Lembra quando você me falou do dia que me viu? — ele pergunta e afirmo com a cabeça. — Não lembro muito bem mas, me senti especial. Alguém havia dito que meus olhos eram bonitos, porque desde aquela época eu já sabia que uma hora ficaria cego. E eu estava tão nervoso para dizer um obrigado que fiquei apenas te olhando pela janela durante todo esse tempo. Me desculpa se aparentemente te ignorei por todos esses anos, apenas não sabia como me aproximar. Agora, que tudo parece certo talvez eu deva agradecer à Kim Jongdae por ter me deixado.

Kyungsoo falou calmamente, todavia, sinto o peso de suas palavras.

— Kim Jongdae era o pior cara de fantasia de dinossauro que já conheci, o melhor amigo que já tive, o maior adorador de girassóis e cachorros e, a pessoa mais incrível do mundo. Infelizmente ele me deixou, me deixou uma carta falando que Welcome To The Jungle é melhor que I Want To Break Free. Ele é idiota? Audacioso, talvez. — Kyungsoo ri, baixinho, movendo os ombros. — Ele faz tanta falta. Depois de você, ele foi a única pessoa que falou sobre meus olhos. Maldito Jongdae com seu sorriso incrível e felicidade inabalável.

Começo a acariciar seu cabelo.

— Mas mesmo quando estávamos de ombros colados olhando as luzes da cidade, eu o sentia distante. Distante de qualquer coisa. Eu deveria ter notado seu olhar triste ou o modo como simplesmente passou a me entregar todas suas balinhas de frutas como se eu gostasse delas.

Então, ele fica em silêncio, com o peito subindo e descendo e o rosto molhado.

— Você nunca se perguntou porquê odeio Mércurio?

— Não. Às vezes.

— Aquele dinossauro era viciado em horóscopo, tanto que me obrigou a aprender sobre todos os signos. Mércurio é o planeta regente de Virgem, mas eu não o odeio por isso. Jongdae colocou na cabeça que queria voltar para casa. Ele era um fanático em astros, estrelas, constelações, planetas, qualquer coisa que nenhuma outra pessoa fosse capaz de entender.

— Mas o que você acha de ter uma caixa dedicada a você?

Mudo de assunto porque não gosto da tristeza que seus olhos carregam.

— Me sinto especial. Ninguém nunca me comparou a Saturno, na verdade ninguém nunca parou para me olhar como uma pessoa. Você não acha que é coincidência demais comparar meus olhos com Saturno e eu ser do signo de Capricórnio? — ele ri novamente. — Espertinho. Estou apenas olhando tudo pela última vez, me despedindo da beleza natural e do mundo que Jongdae um dia já viu. 

— Oh... — é tudo o que falo. É o momento de Kyungsoo desabafar.

— Eu prometi que o veria novamente.

Do Kyungsoo fechou os olhos, respirou fundo e depois sorriu. Já tinha colocado tudo para fora.

O aperto em meus braços tentando mostrá-lo que ele é amado, aqui, em Vênus, em Saturno e em Mercúrio.

— Então, eu vou ser seus olhos. Vou te fazer eterno nas minhas histórias de caixas de sapatos e ninguém jamais esquecerá o quão incrível você é.

Ninguém jamais esquecerá sua história, garoto dos olhos de Saturno.

23 января 2019 г. 14:11:50 0 Отчет Добавить 120
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ISOFT 80年代的情人 ♡

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