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Certa vez, nos anos de ouro de minha juventude (apesar de, à época, eu considerar que estes anos nada possuíam de preciosidades), compreendi de uma forma simplificada que a vida e o Espaço podem ser equiparados consonantemente. Não que a vida siga uma ordem evolutiva lógica (e, acredite, isso vai de encontro com tudo que prego e estudo); entretanto, por muitas vezes você se sente figurativamente representado pela imensidão do corpo celestial difuso. Isso mesmo, a vida não é uma estrela - por mais complexas que as estrelas sejam, a vida consegue ser ainda mais pormenorizada. Porque a vida é feita de incontáveis estrelas: é uma nebulosa e, por vezes, se comporta como tipos distintos de nebulosas. Não se preocupe, caro leitor: ao contrário da vida, minha lição ainda fará algum sentido. [Universo Canon] *Creek (casal principal)* *Bunny (casal secundário)* *Crenny (amizade)* *Romance* *Drama* *Término* *Reconciliação* Observação: esta fanfic não é um triângulo amoroso, fiquem calmos. Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Matt Stone e Trey Parker; a trama, no entanto, me pertence. Warning: Yaoi, consumo de álcool e cigarro, sexo (talvez!).


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Nebulosa Escura (parte 1)


N/A: Essa fanfic é um pouco (muito) diferente do que estou acostumada a escrever. Não apenas pelo fandom, pois é minha primeira fanfic de South Park (apesar de eu ler trabalhos desse fandom há mais de quinze anos, mais do que qualquer outro fandom que escrevo atualmente — foi com ele que descobri as fanfics), mas também pelo tema.

Geralmente eu escrevo fanfics onde um relacionamento está se iniciando, mas neste caso eu quis colocar um pouco da minha experiência pessoal sobre idas e vindas, relacionamentos maduros, frustrações pessoais (emocionais, profissionais, etc), apoio da amizade e, porque não, amor verdadeiro. Quis explorar uma ideia de que nem sempre o "felizes para sempre" significa que não haverá términos e experiências com outras pessoas, que isso faz parte da vida, que as vezes a pessoa que você ama não está pronta pra seguir ao seu lado na sua vida, e você tem que fazer escolhas. Ironicamente, quis dar uma interpretação extremamente realista sobre relacionamentos, mantendo a pitada de romance que eu sempre gosto de escrever, logo em uma fanfic de um universo tão surreal como South Park. Porque eu sou dessas (haha).

O casal da fanfic é Creek, mas há elementos de Bunny e Crenny (se vocês forçarem um pouco a barra hehe). Apesar da fanfic ter um casal central, na verdade a narração está mais voltada para o Craig Tucker e suas vivências. E, por isso, tem toda essa temática espacial (que tipo de fã de South Park eu seria se não fizesse uma Creek com tema espacial, não é mesmo?).

Boa leitura a todos, espero que essa fanfic aqueça seus corações e console aqueles que estão passando por dramas semelhantes!

[Universo Canon] *Creek (casal principal)* *Bunny (casal secundário)* *Crenny (amizade)*  *Romance* *Drama* *Término* *Reconciliação*

Observação: esta fanfic não é um triângulo amoroso, fiquem calmos.



Pilares da Criação


Prefácio


Certa vez, nos anos de ouro de minha juventude (apesar de, à época, eu considerar que estes anos nada possuíam de preciosidades), compreendi de uma forma simplificada que a vida e o Espaço podem ser equiparados consonantemente.

Eu poderia romantizar mais ainda esta lição e comparar a vida à uma supernova, ou, na tragédia particular de um niilista, a um buraco-negro. O meu "eu" dos tempos de ouro faria determinada correlação, a qual provavelmente nasceria de uma epifania regada pelo uso de substâncias entorpecentes (lícitas, juro!) e lágrimas de solidão dramatizadas e exageradas.

Meu "eu" atual, contudo, pensa diferente.

Não que a vida siga uma ordem evolutiva lógica (e, acredite, isso vai de encontro com tudo que prego e estudo); entretanto, por muitas vezes você se sente figurativamente representado pela imensidão do corpo celestial difuso. Isso mesmo, a vida não é uma estrela — por mais complexas que as estrelas sejam, a vida consegue ser ainda mais pormenorizada. Porque a vida é feita de incontáveis estrelas: é uma nebulosa e, por vezes, se comporta como tipos distintos de nebulosas.

Não se preocupe, caro leitor: ao contrário da vida, minha lição ainda fará algum sentido.


Capítulo 1: Nebulosa Escura (parte 1)


"Configurando a analogia mais facilmente compreensível, podemos dizer que a vida eventualmente se comporta como uma nebulosa escura. Como sabem, as nebulosas escuras são compostas de poeiras micrométricas, revestidas com monóxido de carbono e nitrogênio congelado, o que bloqueia a passagem da luz do espectro visível.

Assim como nossas vidas em momentos negros, as nebulosas escuras possuem um contraste negativo com as demais nebulosas, pois estas emitem ou refletem luz visível, sendo mais perceptíveis, admiradas e, porque não, estudadas do que as nebulosas escuras."

Ele não tinha certeza há quantas horas se encontrava deitado na sua cama, olhando para as adoráveis estrelas de plástico fosforescente coladas no teto de seu quarto. Ainda se recordava vividamente quando seu pai o pegou no colo para que ele colasse aquela decoração infantil numa tentativa (bem frustrada, é verdade) de replicar as constelações, e o quão realizado ficou ao ver os objetos brilharem minimamente quando a luz foi apagada.

A memória certamente era infantil e bem-vinda em diversos momentos nostálgicos da sua vida, mas não naquele. Não. Naquele dia, parecia que as estrelas estavam tirando sarro da sua maldita cara, esbravejando silenciosamente "o tempo passou, mas você continua na mesma bosta de sempre", enquanto perdiam o brilho pelo desgaste e pouca luz que invadia seu quarto nos últimos dias.

Sua autodepreciação perdurou por indefinidos minutos, cessando apenas ao ouvir o rangido da porta de seu quarto se abrindo — ainda sim, Craig não se moveu. Deveria ser Tricia, invadindo seu quarto como a irmã mais nova sem respeito algum que era, provavelmente para julgar mais uma vez seu estado miserável e tentar alegrá-lo da maneira errada.

Mas parece que, só desta vez, ele estava enganado:

— Anda, levanta. — é, nem se Tricia estivesse extremamente rouca por uma dor de garganta teria aquele timbre de voz. Com toda certeza não era sua irmã.

Ao contrário de obedecer a ordem recebida, ele apenas se virou para a parede ao lado de sua cama, dando as costas ao invasor de seu quarto; que audácia deste cara-de-pau de aparecer como se eles não tivessem caído na porrada há alguns meses e deixado de se falar desde então. Não que ele estivesse chateado, nem se lembrava de fato o motivo da briga... Ainda sim, era um absurdo!

— Cai fora, cuzão. — murmurou; apesar de sua irritação, Craig mantinha o tom de voz entediado que era sua marca registrada.

Talvez pela ousadia, talvez apenas para contrariá-lo, ele ouviu os passos se aproximarem de sua cama.

— Na-ah! — respondeu o visitante, com teimosia — Vamos, levanta a bunda dessa cama! Tenho dois ingressos e você vai comigo.

Craig optou por não responder, mantendo os olhos fechados e o corpo imóvel, torcendo para o idiota ir embora logo.

— Anda Tucker! É NASCAR! Você não vai desperdiçar esse presente, vai?

— O que te fez pensar que eu ia querer assistir stock car com você?! — questionou, arrependendo-se no mesmo instante por ter aberto a boca: sabia que isso só daria mais gás para o outro continuar insistindo até ele ceder.

— Você curte só Red Racer? — o respondeu em meio a um riso de chacota — Caralho velho, achei que você já tinha crescido o suficiente para se tornar um adulto normal e gostar do esporte de verdade. Quer dizer... talvez eu tenha que rever meus conceitos, né?

Mesmo sem observá-lo, Craig tinha certeza que o outro olhava com sérios julgamentos para as suas estrelas de plástico no teto enquanto falava isso.

Mas que bosta.

Com um humor mais ácido do que antes, soltou um ruído de irritação da garganta (algo bastante incomum do seu temperamento) e se sentou abruptamente na cama, jogando a primeira coisa ao seu alcance na escrivaninha bem no centro do peito de Kenny McCormick, o qual foi rápido o suficiente para pegar o objeto e olhá-lo com curiosidade, abrindo um sorriso de canto de boca, não somente por identificar o que agora tinha em mãos, mas também por saber que se conseguiu causar alguma reação de Craig Tucker, por mais que fosse irritação, já era um começo; muito melhor do que a apatia de sempre e, talvez, pudessem chegar a algum lugar com aquilo.

— Wow, mais emoções do que estou acostumado a presenciar de você! — ele falou, balançando a embalagem de KY que Craig havia esquecido de esconder no fundo da gaveta e atirara distraidamente em Kenny — De qualquer forma, o convite continua de pé. Mas, se você preferir, é claro que podemos ficar e usar isso, princesa.

— Que eu me lembre, a princesa aqui era você!

Kenny soltou uma risadinha e fez um gesto imitando o jogar de cabelos longos para trás, rodopiando e parando no mesmo lugar em uma posição extremamente afeminada: mãos na cintura, quadril requebrado para esquerda, queixo erguido em superioridade.

— Oh Feldspar, vejo que nunca esqueceu de meus encantos! — sussurrou sedutoramente com um tom de voz agudo, interpretando brevemente sua personagem do RPG medieval que jogaram quando eram crianças — Vejo que o destemido ladino conseguiu roubar muitos tesouros, mas certamente a mais bela donzela deste reino foi quem conseguiu roubar seu coração.

Craig apenas girou os olhos, entediado. Se fosse qualquer pessoa, provavelmente teria corado ou sentido um mínimo de vergonha com sua gafe em atirar um tubo de lubrificante (quase vazio, o que ele não sabia se tornava a situação pior ou não) no seu... Uh... O que Kenny era seu?

Era difícil dizer. Kenny era seu ex-colega de escola, estudaram juntos desde o maternal, quando seus pais o adotaram e o trouxeram para South Park. Poucas pessoas sabiam que Craig era adotado e que não era sequer norte-americano, mas Kenny era um dos únicos que sabia do sangue peruano que corria em suas veias (além de Clyde, Jimmy, Token e...Tweek... é claro). Ainda sim, só porque os dois brincavam e dividiram alguns segredos quando eram mais novos (Kenny sempre foi meio volúvel nessa questão de "grupos de escola" e constantemente deixava Kyle e Stan lidarem com Cartman sozinhos, enquanto invadia a casa de outros colegas da escola para poder jogar todos os jogos de videogame que ele não tinha dinheiro para comprar), isso não os tornava amigos.

Não mesmo. Craig não era amigo de Kenny, porque Kenny era amigo de Stan e Cartman (Kyle ele até conseguia tolerar), e isso automaticamente já o colocava fora de opção. No fundo ele sabia que essa rixa já estava esquecida: era uma bobagem criada pelas fofocas da época do ensino fundamental, quando Wendy trocou Stan por Token e os meninos se dividiram para apoiar o amigo mais próximo (e, é claro, claro que Craig ficou do lado de Token).

Céus, só de lembrar da época gótica-trevas de Stan, Craig tinha uma leve vergonha alheia. Só que... pensando bem... ele não estava tão diferente do Stan dessa vez; quer dizer, se fosse comparar, Stan tinha o que quando isso aconteceu? Nove ou dez anos? Porra, era bem menos vergonhoso do que ele, morrendo de tristeza e solidão neste exato momento, com dezenove anos na cara.

O mundo realmente dá voltas.

— Me devolve essa bosta. — Craig respondeu, olhando para a embalagem de KY para não pensar muito na sua semelhança com Stan Marsh, poupando-se da sua vergonha (acredite, jogar lubrificante em Kenny era menos vergonhoso do que se comparar àquele idiota).

— Opa, tirei sorte grande?! — Kenny questionou, sorrindo de canto de boca, alheio aos pensamentos autodepreciativos de Craig.

— Se você considera uma "sorte grande" o ato de eu lubrificar meu braço com o que sobrou antes de enfiar no seu cu e te destruir por dentro, quem sabe.

— Ouch! — o loiro respondeu, colocando a mão no peito em um gesto falso de indignação — E eu aqui achando que você era um docinho na cama, pelo menos era o que parecia com a maneira como você acariciava o Tweek todo dia e olhava com cara de bobo pra ele. Quer dizer que eu mereço um fisting, enquanto o Tweek com certeza ganhava toda hora a sua bundinha porque você não ousaria causar desconforto nele, é?

Craig Tucker podia ser conhecido pela sua indiferença perante tudo e todos, mas até ele tinha seus limites: Com um pulo colocou-se de pé, batendo firme suas passadas até chegar o mais próximo de Kenny, erguendo-o pela gola do maldito casaco laranja, olhando fundo em seus olhos por meros décimos de segundos antes de jogá-lo para fora do seu quarto com brutalidade. Mal se importou em responder Tricia quando ela gritou seu nome ao ver a cena do final do corredor: simplesmente bateu a porta e trancou-a com duas voltas da chave, deixando os dois longe de seu refúgio solitário.

— CRAIG! — ouviu a voz de sua irmã do outro lado da porta, acompanhada por batidas fortes na madeira — NÃO SEJA UM IDIOTA COM O KENNY!

— Tua vez de levar o lixo para fora, Ruby. — foi sua resposta, utilizando o apelido de infância que dera para provocá-la, tentando manter o tom de voz inexpressivo — Mas cuidado, esse aí é altamente tóxico.

— Deixa, eu lido com ele. — Kenny respondeu à garota, sua voz soando bem mais séria do que antes.

— Mas, Kenny! Craig merece uma surra, ele tá insuportável! Você comprou esses ingressos com o dinheiro que você nem tem, como que ele pôde-...!

— Shii gatinha, deixa comigo. Vocês já tentaram de tudo, é minha vez de tentar.

Craig fechou os olhos com força, suspirando fundo e sentindo um cansaço mental fenomenal. Não se irritou com o que ouviu, porque por mais insuportável que Kenny fosse, ele não podia perder a paciência dessa forma; e, de fato, não havia razão para se irritar. Se fosse qualquer outro cara chamando sua irmã de quinze anos de "gatinha", ele já teria levado uma surra inesquecível. Mas se tratava de Kenny, o qual praticamente viu Tricia crescer ao seu lado, ajudando-o a protegê-la de todos os engraçadinhos assim como protegia sua caçula Karen. Na verdade, tanto Craig quanto Kenny tratavam ambas as garotas como irmãs, tendo em vista que elas são melhores amigas e vivem uma na casa da outra constantemente. Ele sabia que, apesar de se tratar de Kenny (o grande casanova de South Park), ele jamais viria Tricia com esses olhos.

E por isso, só por isso, Kenny McCormick não perdeu um dente naquele dia.

Craig deitou em sua cama mais uma vez, se cobrindo até o pescoço e voltando a encarar seu teto "estrelado". Não pretendia sair do quarto pela próxima década (ou até a vontade de mijar ficar insuportável, o que acontecer primeiro), e Kenny podia falar o que quisesse do outro lado da porta, mas ele não ia mais mover um músculo.

— Olha cara, eu sei o que você tá sentindo. — Kenny argumentou, seu tom de voz ainda sério, um pouco abafado pela distância, fazendo Craig se lembrar de quando eram mais novos e ele insistia em cobrir a boca com aquele maldito capuz laranja — Você pode não acreditar, mas eu sei mesmo o que você tá sentindo.

O pior de tudo era que Craig não duvidava: ele sabia que Kenny também estava sofrendo com tudo aquilo. De certa forma, ele sempre soube que o mundo giraria e os dois ficariam no mesmo lugar; talvez por isso eles tivessem se aproximado mais na época de escola. Era quase que instintivo: os dois seriam os excluídos, eles sabiam disso (apesar de nunca terem conversado sobre isso), e precisavam se unir. Mas agora... ah, agora Craig não tinha vontade de dividir sua melancolia com ninguém, nem mesmo Kenny.

Craig e Kenny eram os únicos jovens de dezenove anos que não estavam com a vida encaminhada. South Park nunca teve uma universidade e, enquanto todo mundo brincava de "evoluir a cidade" com SoDoSoPa e Whole Foods em vez de focar no que realmente importava, os tempos passaram e todos acabaram tomando seu rumo fora daquele fim de mundo.

Wendy estava em Stanford, Craig não sabia se ela estudava Direito ou Ciências Sociais, mas não importava pois seu sucesso em qualquer carreira de humanas era garantido; Kyle foi para Harvard estudar contabilidade, o que fez Cartman gargalhar e esbravejar estereótipos judaicos até apanhar o suficiente para se calar por alguns dias; Stan e Token estudavam em Ohio, respectivamente medicina veterinária e economia, o que, para Craig, foi bastante previsível; Clyde foi para Denver estudar administração (provavelmente ele abandonaria o curso em breve e faria algo que realmente combinasse com sua personalidade, como psicologia, pois Craig conseguia imaginar perfeitamente Clyde transmitindo empatia em seus vários pacientes chorões e dramáticos) e Jimmy o acompanhou para estudar jornalismo; até Cartman acabou encontrando seu rumo em Orlando, não em uma universidade, mas com um negócio do tipo "engana turista-trouxa" que Craig nunca procurou saber do que se tratava (Cartman estava longe e isso, por si só, era motivo de comemoração eterna).

Tweek, é claro, também se foi. Inicialmente Tweek realizou alguns cursos de artes cênicas em Denver e eles conseguiram manter o namoro a distância, se encontrando aos finais de semana e feriados. Só que Tweek tinha talento, ele sempre teve muita presença no palco (Craig foi o primeiro a perceber isso, afinal de contas), e o papel na Brodway não demorou a chegar. E como Nova York é muito mais longe do que Denver, isso é uma merda. É lógico que é uma merda. Os dois brigaram tanto por conta disso, mas tanto, que Craig nem sabia como iria fazer quando Tweek voltasse para as festas de fim de ano e cruzasse com ele pela rua. Se Deus for gentil, talvez Craig já teria morrido de tristeza até lá.

Sobraram apenas Craig e Kenny em South Park: os pobretões das famílias caipiras de bosta daquela cidade estúpida. Kenny nunca almejou sair de South Park, ao menos nunca deu a entender isso, e atualmente trabalhava em um Cine Privê que era difícil de acreditar que ainda estava aberto depois da evolução da internet nos anos 90 (mas se fosse considerar que os dois moravam na porra do fundo mundo, talvez o fato de ainda existir expectadores para um Cine Privê ali não era tão absurdo assim).

Em se tratando de Craig, o assunto era diferente. Seus sonhos infantis eram grandes: ele queria ser astronauta da NASA e, depois de crescer um pouco e cair na real, ele simplesmente decidiu que queria se tornar astrônomo (não que fosse simples, mas com certeza era mais possível do que se tornar astronauta). Por mais que nos últimos anos da escola ele se dedicou a estudar mais a fundo matemática e física, o que definitivamente resultou em boas notas no boletim, ainda não era o suficiente para conseguir o status de bolsista em uma universidade — e ele tentou todas, no país inteiro! Pagar os estudos estava fora de cogitação: seu pai caipira e sem formação mal conseguia manter um emprego para sustentar a família, quiçá o ajudar no pagamento de uma universidade. E, a julgar pelos preços que vira por ai, mesmo que ele se prostituísse não iria conseguir manter a mensalidade de um curso de astronomia.

Tweek tinha planos: queria que Craig fosse com ele para Nova York, disse que iria tentar juntar um pé-de-meia e Craig poderia cursar astronomia daqui uns anos na Universidade de Columbia; ele apresentou até mesmo um planejamento orçamentário que muito provavelmente pedira para Kyle fazer, indicando que a espera seria de, no máximo, três anos. Contudo, por mais que Craig amasse Tweek de todo seu coração, ele tinha um orgulho grande demais para deixar de lado. E então Tweek se mudou, com lágrimas e indignação no olhar, e Craig ficou para trás trabalhando na Cafeteria Tweek Bros., porque aparentemente seus sogros (ex-sogros?) tiveram pena o suficiente para lhe dar um emprego (até parece, eles só o empregavam porque precisavam de um trouxa que aceitasse trabalhar ganhando uma mixaria e Craig estava desesperado o suficiente para isso).

O namoro dos dois, que se iniciara desde a pré-adolescência, continuou a distância; mas não foi fácil convencer Tweek a ir para Nova York. Mesmo depois de passar no teste, Tweek ainda tinha dúvidas se deveria deixar seu namorado em South Park (e Craig, apoiando seu amor como sempre fizera desde o início daquele relacionamento, nunca o pediu para ficar). Tweek só foi convencido a se mudar depois que Butters conseguiu uma oportunidade de trabalhar como coreógrafo em um novo espetáculo de Nova York (ele superou no início da adolescência o desastre ocorrido no campeonato nacional de sapateado quando era criança, e voltou a se dedicar a dança em níveis profissionais); agora os dois estavam dividindo uma quitinete (com uma única maldita cama de casal) no Bronx.

Lógico que o ciúmes bateu forte: Craig se controlou até onde pode, mas depois de algumas chamadas de Skype recheadas de Butters e Tweek rindo de piadinhas internas e parecendo possuir uma sintonia invejável, Craig e Tweek acabaram tendo uma briga colossal por causa de ciúmes e já não se falavam há três semanas. Craig, que já estava se sentindo um lixo desde a mudança do seu namorado, se trancou no quarto e nem sequer comparecia ao trabalho (não que tivesse medo de ser substituído, Richard Tweak teria dificuldade de encontrar outro escravo).

De qualquer forma, Craig e Kenny compreendiam a amargura um do outro. E, bom, isso não era algo necessariamente motivador, não é mesmo?

— Eu também sinto falta dele. — Kenny voltou a falar depois de uma longa pausa, e Craig ouviu um barulho característico que indicava que o loiro havia sentado na frente da porta de seu quarto. Droga, ele não vai sair daqui tão cedo... — Butters faz falta pra mim, cara, eu o amo pra caralho mesmo. Mas é o sonho dele, e eu não posso egoisticamente segurar ele aqui nesse fim de mundo. Eu entendo você mais do que você imagina.

Craig suspirou, já se arrependendo do que iria fazer, mas fazendo mesmo assim:

— Se você entende, então caia fora. — respondeu, a contragosto — Não quero ver sua cara e ficar remoendo essa merda toda. Tweek e eu terminamos, não há o que fazer.

— Meu "Buttercup" me contou que a briga foi feia, eu sei os detalhes.

Craig subitamente arregalou o olhar; ok, Kenny falou as palavras mágicas desta vez: agora ele queria saber o que Tweek falou dele para Butters e o que Butters falou para Kenny, e se Tweek sentia falta dele e-...

— Antes que você pergunte, Tweek também não 'tá bem com todo esse rolê. Vocês são muito trouxas, seus merdas. — Kenny declarou, praticamente ouvindo os pensamentos de Craig — Mas ele aprendeu um monte de coisa com você nesses anos, e acho que o orgulho foi uma dessas coisas. Um de vocês vai ter que ceder, mano, e não vai ser o "twitchy" dessa vez.

— Fala pro Butters "consolar" o Tweek por mim, se é que ele já não tá fazendo isso. — respondeu, cheio de veneno em seu tom, sentindo vontade de bater em Butters só de lembrar de como o viu com o braço ao redor dos ombros de seu (ex?) namorado na última chamada de Skype.

— Provavelmente está, cara. Não foi só o Tweek que aprendeu alguma coisa do namorado nos anos de relacionamento.

Craig mordeu o lábio com força, sentindo uma ira descomunal. O pior de tudo é que não era segredo nenhum: Butters e Kenny namoravam há bastante tempo, mas nunca fecharam o relacionamento. Butters tentou, os dois brigaram bastante por causa disso no início, mas não há a palavra "monogamia" no dicionário de Kenny McCormick e, depois de muita confusão, Butters aceitou e resolveu dar uma chance a essa maneira de se relacionar. Aparentemente funcionou para eles, pois, apesar de Kenny ser visto aqui ou acolá com casos passageiros, era com Butters que ele andava de mãos dadas e era reconhecido como namorado. Craig não sabia como era a vida sexual de Butters, mas sabia que Kenny não botava qualquer empecilhos para que ele pudesse explorar outros lençóis também.

Ele não conseguia entender como esse absurdo de "namoro aberto" podia funcionar. Só de pensar em alguém tocando em Tweek seu sangue fervia de um jeito que ele achava ser capaz entrar em combustão espontânea! Ele sabia que no fundo Butters jamais daria em cima de Tweek enquanto eles estavam namorando (mesmo que a distância) e Tweek não era, em hipótese alguma, uma pessoa infiel. Ainda sim, ver os dois cada vez mais próximos e morando juntos, tendo a vida que ele desejava ter com Tweek desde o início da sua adolescência (Céus, ele queria ter casado quando fizeram 18 anos! E dormir numa cama de casal com ele uma vez na vida seria um sonho!) o deixou fora de si. Foi a primeira briga que eles tiveram de fato, e parece que acumulou os problemas de todos os 10 anos de namoro numa briga só.

Foi... descomunal. E ele se sentia um lixo por conta disso.

— Brincadeira, raio de sol. — Kenny falou dentre uma risada — Butters infelizmente não topa nem ménage à trois, duvido que vai tentar tirar casquinha do Tweek, mesmo tendo minha permissão para isso. Eu sei como deixar meu namorado bastante satisfeito, obrigado.

Craig nunca iria confessar isso, mas naquele momento ele deixou escapar o mais revigorante suspiro de alívio de sua vida toda. Essa sensação de paz não durou muito: afinal, não mudava o fato de que Tweek e ele tinham terminado, e que Tweek tinha muitas outras possibilidades em Nova York (provavelmente com pessoas mil vezes mais interessantes do que o apático e chato Craig Tucker).

— Eu quero entender como você pensa que vir aqui em casa e falar essas bobagens pode ajudar em alguma coisa. — Craig exclamou, sentindo um nó em sua garganta só de lembrar das coisas estúpidas que ele falara para o amor de sua vida, sem nem pensar nas consequências de seus atos. Ele definitivamente não merecia Tweek, e tinha sim que ficar ali sozinho remoendo o passado durante muito tempo; ele merecia o sofrimento — O que você quer aqui, seu merda?

— Cara, não vou vir pra cá e mentir pra você. — Kenny respondeu, e Craig quase podia vê-lo dando de ombros — Tu fez merda, se pá nem tem volta mais. Mas quero te ajudar sim a superar, nós só temos um ao outro nessa cidade de bosta, Craig.

— Você tem meia dúzia de fuckbuddies fixos, Kenny. — ele argumentou, amargurado — Duvido que eu seja a primeira opção pra você, mesmo dentre os idiotas que sobraram aqui pra passar tempo contigo.

— To falando de amizade, Fucker. Não vim aqui pra afogar suas mágoas numa trepada, mas se você quiser to aberto a isso também. — o loiro respondeu, seu tom de voz ainda mais compenetrado do que antes; de certa forma, Craig sabia que a oferta não era uma mera brincadeira — Todo mundo vazou cara, eu sei que é foda, é foda pra caralho. Você acha que eu também não sinto vontade de sumir as vezes? Você acha que eu 'tô feliz nessa porra de cidade?

— Você está sempre feliz.

— Parecer feliz e ser feliz são coisas totalmente diferentes. — Kenny soltou uma risadinha sem graça — Eu vivia minha vida toda na bosta, né? A gente meio que aprende a viver assim e não demonstrar tanto.

Craig soube desde o início da adolescência que Kenny usava aquelas roupas que cobriam o corpo todo para esconder as marcas de agressão de seu pai alcóolatra e mais de uma vez o viu roubando restos das bandejas do refeitório porque não tinha um centavo para comprar almoço; ele sabia que a vida do garoto não fora fácil. Kenny nunca se permitiu sonhar com nada além de uma revista playboy escondida debaixo da cama, porque ele nunca teria oportunidade para ter algo além disso.

Diante da porcaria que certamente era a vida de Kenny, era até mesmo injusto Craig se sentir assim, mas ele não conseguia deixar de vivenciar a dor no peito toda vez que ouvia o nome de Tweek. Era mais forte do que ele. Ainda sim, ele ainda tinha um coração. E, bem... Ele gostava de corrida, NASCAR não era bem uma F1, mas era interessante também, e Kenny... Ele ainda estava ali, não estava?

Infelizmente, eles só tinham um ao outro no momento.

Levantou-se da cama, colocando a primeira camiseta com o símbolo desbotado da NASA que encontrara pelo chão, sentindo que provavelmente ela deveria estar no cesto de roupa suja e não no seu corpo, mas não dando a mínima pra esse detalhe. Calçou seu par de all-star surrado sem se incomodar em amarrar os cadarços, pegou a carteira no canto da escrivaninha e deu uma espiada de rabo de olho para o espelho em sua parede, observando que seu cabelo estava tão bagunçado que seria impossível pentear sem arrancar metade dos fios. Pensou em colocar o seu característico gorro azul que usava desde que se entendia por gente, mas optou pelo "foda-se". Aquele gorro maldito o lembrava Tweek (porque Tweek achava "bonitinho" o fato de ele usar sua única lembrança do Peru) e a última coisa que ele queria nesse momento era remoer essas lembranças.

Abriu a porta, olhou para Kenny sentado de pernas cruzadas no chão, e chutou-lhe a coxa.

— Bora. — ordenou monotonamente.

— Meu caralho! — Kenny exclamou, se colocando de pé rapidamente e lhe mostrando um sorriso cheio de dentes; o loiro ainda tinha os dentes da frente levemente separados, mantendo aquela cara de moleque levado mesmo depois de se tornar um adulto (Butters achava charmoso, Craig achava idiota) — Eu realmente te convenci?

— Não, eu to indo porque quero ver NASCAR. Não por sua causa. — Craig mentiu, mostrando-lhe o dedo do meio numa tentativa de fingir que não ligava — Foda-se você.

Kenny sorriu de canto de boca, metendo as mãos no bolso de seu jeans e adotando uma postura de vitorioso.

— Se você diz...

Independente da idiotice que Craig falava, Kenny sabia a verdade. Não precisavam afirmar em voz alta, mas a realidade era impossível de ignorar: eles só tinham um ao outro agora, e a vida tinha que seguir.


... Continua...


N/A: Esse capítulo é o menor da fanfic, e ela vai possuir mais dois capítulos (Tweek aparecerá no próximo). O próximo capítulo está concluído em 70%. Me digam o que acharam pra eu continuar a escrita! Reviews são super bem-vindas, ainda mais por ser primeira fanfic minha no fandom! =)

Um beijão, espero que tenham gostado!

23 декабря 2018 г. 20:05:06 1 Отчет Добавить 1
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Caty Bolton Caty Bolton
Reler essa fanfic nunca é demais <3
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