Короткий рассказ
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Capítulo Único

Como devo começar? Pelo amor ou pela morte?

Há 3 anos, uma comitiva da qual meu marido e eu fazíamos parte saiu do Japão com destino a uma cidade Russa. A companhia era formada por engenheiros e físicos nucleares. Meu esposo, Sasuke Uchiha, era um deles. Nós largamos tudo o que tínhamos em nossa cidade natal e fomos em busca de uma condição de vida mais elevada e do reconhecimento profissional do Uchiha.

Lembro até hoje da felicidade com que ele me contou sobre seu primeiro dia na Usina Nuclear de Tchernobil, ele fazia parte do grupo de pessoas que cuidavam da Central Elétrica Atômica do local.

Engraçado como algo que nos proporcionara tanta felicidade podia se transformar em nosso pior pesadelo.

Há pouco tempo nós tínhamos contraído matrimônio. Andávamos de mãos dadas pelas ruas de pedra da cidade, nos abraçávamos e em nossas noites de amor esquecíamos de todo o resto do mundo. Eu dizia “eu te amo”, mas nunca havia mensurado a grandiosidade de meus sentimentos por ele.

Na madrugada do dia 26 de Abril de 1986, houve uma série de explosões na CEA (Central Elétrica Atômica) de Tchernobil. Sasuke estava trabalhando nesse dia.

Só fiquei sabendo do desastre quando pela manhã, percebi que ele não respondia as minhas ligações e vi a fumaça negra na direção da Usina. Desesperada, fui o mais rápido que pude para o local em que ele trabalhava.

Às vezes ouço sua voz... Mas ele não está aqui, nem em fotografias, nem em meus sonhos mais realistas. Quando ele me visita durante a noite, não diz meu nome, sou eu que o chamo. A vida sem ele é dolorosamente sem sentido.

Naquele dia, quando cheguei, vi oficiais da polícia impedindo que qualquer um passasse. Esposas e mães choravam copiosamente em frente o portão da Usina, provavelmente queriam notícias como eu.

Ambulâncias entravam e saíam rapidamente, nenhum civil tinha o direito de entrar. Quando vi minha amiga enfermeira entrar, corri até ela e pedi para que me deixasse vê-lo.

— Você não pode. Ele está mal, todos estão. — ela disse.

— Só me deixe entrar — pedi agarrando-a — Por favor!

— Está bem, mas só 15 minutos.

Quando o vi, fiquei horrorizada. Ele estava inchado, cheio de feridas, inflamado. De tão inchadas, suas pálpebras nem se moviam.

— Leite, ele tem que beber leite. — ela me falou.

— Mas ele não gosta de leite.

— Agora vai ter que gostar.

Ele e mais alguns de nossos colegas que vieram do Japão estavam no hospital. Um amigo de Sasuke, ficamos sabendo, fora emparedado no concreto. Outras mortes vieram depois dessa e nós não sabíamos, ninguém sabia, mas os médicos, as enfermeiras e os trabalhadores do hospital com o tempo iriam adoecer e morrer.

Em minha barriga eu carregava o fruto de nosso amor e ali, entre tantos doentes, ele só piorava. Eu não sabia o que fazer.

— Sakura, vá embora! — ele pedia, mas como eu poderia deixá-lo ali?

— Não posso te deixar...

— Salve nosso filho! Por favor.

Eu ignorava seus apelos e junto das esposas de nossos amigos também afetados, buscávamos leite em lojas e mercados. Diziam que o leite iria ajudá-los, mas quando beberam um pouco dele, começaram a vomitar e logo perderam os sentidos.

Os médicos os colocaram no soro. Ninguém falava em radiação.

O dia a dia das pessoas continuava, porém agora ele era lotado de um pó branco que carros do governo jogavam nas ruas. Militares chegaram, os trens pararam e eu só pensava em como iria fazer para comprar o leite de meu marido.

De noite, minha entrada foi barrada.

Várias mulheres tiveram sua entrada interrompida.

A multidão do lado de fora do hospital gritava por respostas. Um médico apareceu e disse que os enfermos seriam levados para a capital. Um coro de mulheres raivosas do qual eu participava exclamava de várias formas para que nos levassem também, não era justo que tirassem nossos maridos e filhos dessa forma!

Numa ação astuciosa, o médico disse que eles precisavam de alguns materiais e que nós deveríamos busca-los em nossas casas. Todas fomos ludibriadas: enquanto aprumávamos o que haviam pedido, eles foram transportados para Moscou.

O rádio nos dava uma intimação: dentro de 3 a 5 dias, deveríamos evacuar a cidade. Diziam que nós iríamos viver em barracas na floresta. Levávamos roupas esportivas e agasalhos e todos ficaram felizes com a ideia de irmos para perto das árvores.

À noite, vomitei tudo o que havia comido. Estava no sexto mês da gestação. Sonhei com Sasuke, ele estava morrendo... Decidi ir para Moscou, ele precisava de mim.

Da viagem até a capital e a chegada ao hospital só me recordo de pedir informações sobre os homens que haviam sido transferidos de Tchernobil. Com o que consegui, cheguei à seção de radiologia de um hospital e falei com uma mulher loira que também era do Japão.

— Você tem filhos? — ela perguntou.

— Tenho um — lembro-me de dissimular uma mentira, pois se eu dissesse que estava grávida, não me deixariam entrar ali. Ainda bem que eu era magra e que minha barriga não estava muito grande.

— Pois não terá mais. Ouça: o sistema nervoso dele está comprometido e sua medula foi afetada — ela disse — Mais uma coisinha, se você chorar eu te tirarei de lá e nada de beijos ou abraços. Você tem 30min.

Meia hora? Eu só sairia dali com ele, nada faria com que eu me separasse do meu amor.

Quando entrei na sala ele estava conversando com seus colegas. Estava menos inchado e injetavam algo nele. Suas roupas estavam muito largas e em seus pés, sapatos de um número bem maior os comportavam.

— Sasuke...

Ao me ver, ele tentou se aproximar para me abraçar. Nossos colegas perceberam que precisávamos de um tempo a sós e cada um arrumou um pretexto para sair.

Sozinhos, ele me questionou sobre a cidade e eu o respondi com um beijo carregado de saudade e paixão. Repreendeu-me: não devíamos ficar muito perto. Conversamos por algum tempo e eu fui para um hotel.

Uma das esposas de nossos amigos veio para Moscou também. Hinata sofria tanto quanto eu. Nós íamos juntas para o hospital.

No outro dia todos os rapazes estavam separados.

Nós duas fazíamos comida para os homens de nossa cidade que estavam lá. Todos os dias, cozinhávamos e levávamos para eles algo que os fizesse lembrar-se de seus lares.

— Eles vão sobreviver. — certo dia ela me disse.

Viver...

As enfermeiras nos olhavam com pena e na rua as pessoas, ao perceberem de onde vínhamos ou para onde íamos, desviavam do nosso rumo. As histórias a respeito do contágio se espalharam. No meio de tudo isso minha vida se resumiu a ele... Só a ele.

— Há doenças que não possuem cura. — uma enfermeira havia me dito — Nesses casos, você só fica ao lado da pessoa e espera a hora chegar.

Hinata e eu ainda cozinhávamos, e não paramos quando um médico nos informou de que aquilo era inútil: o estômago deles não absorvia nada.

A cada dia que eu via Sasuke, percebia que seu corpo mudava... Feridas saindo... Pequenas chagas se tornavam enormes machucados. Sua pele adquiria tonalidades diferentes: azul, vermelho, cinza-escuro. Apesar de estar se modificando constantemente, ele ainda era meu amor.

Tudo aconteceu de forma tão rápida que não deu tempo para pensar ou chorar. Eu só o amava e provava que meus sentimentos por ele eram infindos.

Meu amor por ele era tão grande e eu não sabia! Andando pelas ruas, as pessoas sorriam ao ver o que sentíamos transparecer por meio de nossos atos. Mesmo que ficássemos juntos por horas, nunca atingíamos a saciedade um pelo outro.

Os dosimetristas mediam meus níveis. Eu “ardia”. Tudo foi retirado de mim, exceto meu dinheiro. Não tocaram nele.

Quando me viu, Sasuke perguntou o que havia acontecido.

Eu ainda fazia comida para ele, mas nem beber ele conseguia. Nada que ele ingerisse ficava no estômago, tudo era jogado para fora. No entanto, eu ainda mantinha a ideia de que aquilo pudesse de alguma forma ajudar.

Era o dia do aniversário de nosso casamento.

— Sakura, é dia ou noite? — ele me perguntou quando me sentei ao seu lado.

— Noite.

— Descreva-a.

— É escura, com lindos pontinhos cintilantes. A lua está lá, eterna e brilhante. Ela zela por nós e...

— Eu te prometi que te daria flores por toda a minha vida nessa data...

Olhei para ele que retirava algumas rosas de debaixo do travesseiro. Tinha subornado uma enfermeira para que lhe desse algumas flores. Sorri enquanto lágrimas desciam por meu rosto. Beijei seus lábios e ele protestou:

— Não se aproxime desta forma de mim, é perigoso.

Aqueles médicos, aqueles malditos médicos. Eles haviam me proibido de tocar meu amado, de beijá-lo e abraça-lo... Como eu poderia viver desta forma? Quem o apoiava, quem trocava suas roupas, que o alimentava e limpava era eu. Como não o tocaria?

Ao sair do quarto me senti desnorteada. Fiquei tonta e um médico que passava por ali me ajudou. Tive que contar que estava grávida e mais rápido do que pude raciocinar, estava na sala de Tsunade.

Ela me questionou e repreendeu, mas quando disse que só queria estar perto dele, seus olhos me direcionaram a pena que sentia que sentia de mim. Tsunade Senju, uma pessoa maravilhosa, nunca me esquecerei dela!

Meu querido estava tão mal! Seu estado só piorava e ele chamava constantemente “Sakura! Sakura!”. Dizia meu nome sem parar e eu não saia de seu lado nem por um só instante.

Eu ouvia “Morreu Shikamaru”, “Morreu...”, “Morreu Sai”, mas nada disso me afetava. Só ele me importava. Sasuke era o centro de meu universo caótico criado a partir de gazes, machucados e sangue. Ele era minha única preocupação.

Seus cabelos... Seus lindos cabelos negros estavam caindo. Quando passava minha mão por sua cabeça, uma grande quantidade de fios ébanos saia. Sua pele estava rachando nas mãos e nos pés. Em todas as vezes em que evacuava, sangue e pus estavam misturados em sua urina.

Chegou o dia em que cortaram os cabelos de todos. Eu cortei o dele. Fazia tudo por ele. Se pudesse, ficaria 24h por dia ao seu lado. Evitava perder qualquer minuto que fosse.

Lembro-me de uma conversa que tive com alguém. A pessoa me dizia para deixar de ser louca e seguir em frente, ele morreria e eu ficaria doente e sozinha e como ainda era nova, dava tempo de arrumar outro marido.

Eu o amo.

Era o que eu respondia.

Todos as vezes em que podia, tentava afastar a perspectiva de morte de sua cabeça. Queria fazê-lo esquecer de sua doença e de que ela não tinha cura. Eu queria acreditar que ela tinha cura.

“Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez.”

Eu o amo.

Enquanto andava pelo hospital, pensava no quanto o amava. Arrumando suas roupas e limpando seu corpo, pensava “Eu te amo”. Ele havia pegado uma mania: só dormia segurando minha mão. Certa noite me disse:

— Gostaria de ver nosso filho.

— Como iremos chama-lo?

— Se for menino, será Sasuke; Sarada se for menina.

— Por que Sasuke? Eu já tenho um Sasuke!

Os médicos não sabiam, mas eu dormia com ele em seu leito. As enfermeiras me ajudaram, elas me chamavam quando amanhecia e eu corria para o hotel para depois voltar como se nada tivesse acontecido.

“Você é jovem. O que está inventando? Isso já não é um homem, é um reator nuclear. Vão queimar os dois.”

Eu o amava.

Aos poucos ele acabava. Quando ia ajuda-lo a se levantar, pedaços de pele ficavam grudados no lençol. Qualquer costura lhe feria. Meu cansaço era tão grande... Meu amor também. Eu estava à beira de um colapso quando finamente pensei: ele está morrendo...

“E o que você esperava? Ele recebeu 1600 roentgen, quando a dose mortal é de quatrocentos roentgen.”

De manhã fui ao enterro de Naruto. Sua esposa, Hinata era uma grande amiga minha e ela havia me pedido para acompanhá-la, pois dizia que sozinha não iria conseguir. Enquanto a acompanhava, pensava nos momentos felizes que tivemos, como tudo parecia ter acontecido há anos se não fazia nem meses?

Durante 3h me ausentei do hospital. E foi nessas três horas que Sasuke expirou. Quando cheguei, enfermeiras vieram ao me encontro dizendo “Ele está morto”. Suas últimas palavras foram meu nome: Sakura...

Quando cheguei a seu quarto, ele ainda estava lá.

Não me separei mais de seu corpo.

No necrotério, como ele estava se desfazendo, não puderam vestí-lo com uma roupa adequada. Somente cortaram um pano, cobriram-no e o enfiaram em um saco de polietileno.

Lembro-me de seus últimos dias: pedaços de seu pulmão e fígado saíam pela boca; ele se asfixia com partes de si mesmo que tentavam sair de seu corpo coberto de chagas. Com a mão enrolada em uma gaze, eu retirava essas coisas de sua boca. Ele se desfazia perante meus olhos!

Em seu enterro, não nos deixaram se aproximar do ataúde. Cobriram o caixote com terra rapidamente e no mesmo dia nos mandaram de volta ao nosso alojamento.

Ao deitar em minha cama, dormi como se não houvesse amanhã.

Com 23 anos, grávida, enterrei o pai de minha filha.

Seria uma menina. Uma linda menininha.

Quando soube da notícia, decidi ir a Moscou somente para dizê-la ao pai da pequena. No cemitério minhas contrações começaram. De táxi fui para o mesmo hospital em que havia pelejado por dias com Sasuke. Tsunade fez meu parto. Dei à luz algumas semanas antes do previsto.

“Sarada, Uchiha Sarada, bem vinda ao mundo.”

Era um bebê muito lindo. Tinha os olhos e os cabelos do pai. Parecia saudável, mas não era: tinha cirrose, uma lesão congênita no coração e 28 roentgen no fígado.

Tão cedo havia chegado, se foi.

Disseram-me que não me dariam seu pequeno corpo, mas diante meu desespero e tristeza, entregaram-me a caixinha em que ela repousava. Sarada Uchiha foi enterrada aos pés de seu pai, porém na lápide não há seu nome. Ela não tinha nome... Vida... Só a alma.

Foi ali que enterrei seu espírito.

Ela me salvou. Mesmo não sabendo de nada e não tendo vindo ao mundo ainda, enquanto eu cuidava de seu pai ela havia sugado toda a radiação que emanava dele. Com sua vida ela me impedira de morrer.

Toda vez que visito os dois, levo dois buquês. Um para meu marido e o outro para minha filha. A filha que eu matei... Ela morreu por mim... Fui eu. A personificação de nosso amor me salvara da morte. Aquele pinguinho de gente recebera tudo o que iria me prejudicar. Eu amava os dois. Eu amo os dois.

Será... Será que o amor pode matar?

Durante 14 dias cuidei de meu único amor. A cada dia vi sua vida diminuir e a morte chegar sorrateira; vi ele se acabar em um amontoado de sangue e feridas; vi sua voz clamar por meu nome incansavelmente; vi-o desaparecer. Durante 14 dias, absorvi o que mataria minha filha.

Esses 14 dias me pareceram a eternidade.

Agora só espero a morte me levar para onde meu amor e minha pequena me esperam. Amor e morte em Tchernobil andam juntos, mas no fim falei do amor... De como amei.


Sakura Uchiha, esposa do falecido físico nuclear Sasuke Uchiha.

2 июля 2018 г. 3:43:26 5 Отчет Добавить 3
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Blue Martell Blue Martell
É brilhante, sincero e real. Gostei de como procedeu a história. Foi muito... Natural. Gostei realmente, parabéns por essa naturalidade.
Fox Bella Fox Bella
Sério, eu tenho várias palavras para descrever o que estou sentindo mas nenhuma vai ser certeira. Devastada, chocada, arrepiada, chorosa, entre outras. Mas mesmo assim estou maravilhada, tanto sentimento passado em cada verso que me fez sentir vontade de chorar e gritar! Está maravilhosamente trágico, e eu amei!

  • Medhuza s2 Medhuza s2
    Muito obrigada pelo comentário! Fico feliz em saber que consegui atingir meu objetivo hahahahaha :3 3 июля 2018 г. 20:45:25
Ellen Chrissie Ellen Chrissie
Magnífico! Estupendo! Fascinante! Emocionante em tantos níveis... A história ficou indo e vindo em minha mente ao longo do dia, a cada lembrança me trazendo tantos sentimentos e impressões... Parabéns! Posso afirmar que este conto me marcou profundamente.

  • Medhuza s2 Medhuza s2
    Muito obrigada! O acontecimento em si é marcante, as histórias decorrentes dessa tragédia são profundamente trágicas. Fico feliz em saber que consegui repassar as emoções e sentimentos que planejei :3 <3 3 июля 2018 г. 20:49:02
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