Um Conto de Testemunhas da Noite Подписаться

C
C Clark Carbonera


"A noite em que Saci-Pererê convocou as lendas Angoera, Bicho-Homem, Caipora, Curupira, Romãozinho, Pisadeira, Tibungue, Canhambora, a Mula-Sem-Cabeça e o Uaiuara para uma reunião nas matas amazônicas a fim de proteger suas terras do diabo branco." Para quem ignora, o título extenso desse conto é proposital, de tal forma que se ilustra como uma homenagem às antigas histórias folclóricas cujos títulos eram no mesmo formato. Acho que não precisamos mais do que esse título como sinopse, não? Hehe Aproveite a história ;) P.S.: esse conto faz parte do universo novelesco de Testemunhas da Noite.


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#mitos #português #lendas #literatura-brasileira #folclore-nacional #testemunhas-da-noite
Короткий рассказ
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Capítulo único


Todas essas personagens são convocadas pelo Saci, no meio das matas amazônicas:

– Chega, Angoera, que a noite é farta, mas logo acaba.

O índio mestiço que usava algo parecido com uma batina marrom-clara afastou umas samambaias novas e olhou para as outras lendas antes de sentar na terra úmida. A modesta fogueira feita Romãozinho iluminava fantasmagoricamente cada uma delas. Angoera segurou sua mão para não fazer um sinal da cruz e rezar um Pai-Nosso (não queria ouvir caçoada de ninguém naquele dia, especialmente de Canhambora) e respondeu:

– Se mim chego, Saci, é porque coisa mansa não é. Que ocorre nessas paradas pra convocação lendária dessas?

– Calma lá, que falta Curupira chegar, aquele bicho velho...

Saci cuspiu nuvens cinzas depois de sugar seu cachimbo.

As 9 lendas esperaram em silêncio numa noite fatídica para aquela terra que se abria ao mundo. Apenas se ouvia os grilos cantarolarem. Mas quando Curupira chegou, as criaturas se aquietaram, sentido a presença dele.

Saci saltou do galho em que estava e guardou o cachimbo ao se aproximar da décima lenda convocada.

– Onde s’tá Uaiuara? – Saci olhou atrás de um ombro do Curupira, depois do outro.

– Uaiuara tá tocando terror nos Acarapi que trocaram flechas de fogo com os Ipuriná por causa de caça. Fiquei irritado porque a gritaria me acordou em dia meu, aí mandei Uaiuara atrás deles.

– Ahhhhh – Saci arregalou um olho do tamanho da lua, sapecamente brilhante, e colocou um dedo no queixo. – E foi só isso que te aconteceu, Curupira?

Ele mostrou os dentes verdes e afiados para Saci e mandou Canhambora apagar aquela fogueira.

– Se a floresta pega fogo, faço da sua vida um inferno, preto escravo.

Canhambora olhou enfurecido para Curupira, depois apagou o fogo com um punhado de terra, desgostoso e carrancudo ao ouvir as últimas palavras.

Saci se aproximou da fogueira apagada, sentindo na perna o calor que os galhos queimados e a terra ainda soltavam. Seus olhos divertidos pingaram por cada uma das lendas.

– Convoquei vocês porque algo novo se achega nessas terras...

– Não é coisa nova, não – Angoera abanou uma mão mole para Saci, como se aquilo não fosse importante. – São só mais padres da terra antiga, velho manco.

– Você fala em terra antiga, Angoera, mas acha que esses seus amigos são mais velhos que a gente? Que essa terra aqui?

Saci cruzou os braços imperioso, dando pequenos pulos na perna só e olhando duramente para o outro, pedindo com a cabeça a anuência dos demais mitos, que concordaram aos murmúrios estridentes, com exceção de Bicho-Homem que, sabendo fazer-se ouvido por léguas de distância caso o fizesse, dignou-se a estremecer a terra com uma batida da mão e balançar algumas árvores frondosas em anuência, assustando e fazendo voar vários pássaros meio adormecidos. Curupira e Caipora se enfureceram com aquele gesto estúpido, mas não menos do que o esperado, vindo do Bicho-Homem.

Caipora bateu levemente no ombro do Curupira, prometendo que pegaria de volta cada um dos pássaros e os traria sob sua proteção em troca de um pote de mingau sem açúcar ou sal, de preferência vindo da fazendo do Seu Borges.

Curupira rolou os olhos e mexeu as orelhas longas e finas:

– Eu me viro, melhor não deixar Caipora perto de bichos de pena...

Angoera deu de ombros para tudo aquilo, não querendo acreditar na seriedade da notícia como os demais. Não queria problemas para sua vida pacata. Desejava mesmo, no seu íntimo, voltar para suas igrejinhas, assustar de vez em quando alguma casa ou um cômodo e pedir uma canção em seu nome. Encostou num tronco e colocou um ramo de samambaia na boca.

Saci continuou.

– Falo a verdade. Falo o que as pessoas da terra s’tão dizendo: chegou coisa nova aqui. Criatura branca como a mais branca nuvem, de olhos coloridos como o arco-íris.

Então, Saci baixou a voz, na tentativa de relevar a importância daquilo:

– Dizem que chegou pra caçar todas as lendas.

Um vento curto e cheio de umidade foi proferido por entre eles. Saci deu um sorrisinho para Caipora e uma piscadela marota:

– Obrigado, Caipora.

– Quer parar de brincadeira, criança besta! – gritou estridente a velha Pisadeira, quase pulando no peito do Saci. Também Tibungue fez sinal de que arrancaria da testa a flecha em fogo e a lançaria no outro.

Romãozinho gargalhou com o gesto de Tibungue, apontando-lhe um dedo negro que se esfumaçava no ar da noite:

– Vai, vai, falso saci! Tenta tirar essa flecha, quero ver se consegue! Ká, ká, ká, ká!

Angoera gesticulou com as duas mãos finas como se abanasse fogo inexistente a sua frente e tentou acalmar as coisas, ignorando os dois duendes.

– S’inquieta não, Pisadeira. Só dizer três Ave-Maria e fazer sinal da cruz que esse diabo branco vai s’imbora.

– Ihhh, mas ó lá. Tá passando é tempo demais em igreja de branco, Angoera. Tempo demais, bicho burro... – Canhambora fechou a cara para a lenda e cuspiu no chão. – Devia era acabar com essa sua raça de índio mestiço.

– Sô índio mestiço, não, preto escravo. Eu decidi minhas companhias, não fui obrigado a nada, nem a trabalhar pra ninguém, nunca!

Canhambora levantou-se de um salto, sacando os dois facões que levava à cintura, um em cada mão, girando-os alucinadamente.

Saci-Pererê rapidamente pulou, transformando-se num pequeno, mas potente, tornado, que agitou toda a mata ao redor, fez as cigarras e os grilos calarem-se novamente e quase apagou o fogo da Mula-Sem-Cabeça que empinou-se irritada.

– Prestem atenção no que digo!

Saci voltou ao seu estado normal, mas os olhos em chamas. Aquilo era sério e, apesar das suas brincadeiras, ele não perderia tempo convocando uma reunião daquelas se assim não fosse, preferível seria fazer brincadeiras com o povo local. As dez lendas se aquietaram, mas sentiam ainda o ar elétrico entre todos.

– Temos que nos informar sobre essa pessoa que se achega aqui. Cada um de vocês tem uma tarefa: descobrir quem ela é e o que realmente quer – Saci encarava um por um. O ar de criança marota se apagou fazia tempo em seu rosto escuro e circunspecto. – Como farão isso? Vai de cada um. Mas se descobrirem que essa pessoa veio pra nos caçar...

Ele pausou a fala, fazendo os demais mitos silenciarem-se ainda mais, sentindo, em todos, o peso histórico-cultural-espiritual de cada convocado, que se agigantava na escuridão da mata densa como as entidades sobrenaturais que eram.

– ...vamos mostrar a ela do que as lendas são feitas.


5 июня 2018 г. 21:26:45 0 Отчет Добавить 0
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C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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