O Visitante (ou Habitante das Solidões) Подписаться

C
C Clark Carbonera


Um visitante se apresenta no Castelo Amarelo com um pedido inusitado: ele pede a concordância do filho do Lorde para matar o capitão de um bando de delinquentes, conhecido pelo nome de Dod, o capitão. No entanto para isso ele deverá mostrar até onde irá para matar seu inimigo.


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Короткий рассказ
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Capítulo único


Um homem de aparência arredia, cabelos e barba desgrenhados, parou alguns metros do portão de entrada da Cidade do Leste, em frente a um painel de madeira. Ele estudou atentamente o retrato desenhado do líder do grupo mais temido das estradas e cuspiu na terra antes de entrar na cidade.

No Castelo Amarelo, centro dos comandos político, econômico e marcial das terras ao Leste, um menino ruivo, na flor dos seus 15 anos, estava sentado no trono displicentemente, o rosto apoiado numa mão, enquanto a outra segurava uma espada de lâmina longa, a ponta fincada numa ranhura do chão de pedra.

– Ah, Karo! Que manhã entediante...

Karo, o escudeiro e professor de poesia do menino, ergueu a cabeça do pergaminho que lia e olhou-o com certa reprimenda.

– Sinaa, o trono é lugar para o Lorde e para mais ninguém, saia daí já.

O menino fez beicinho e se espreguiçou.

– Ahhhhhhhhhhhhhh – soltou aliviado e levantou-se logo em seguida com uma explosão de excitação infantil. – Karo! Acho que nós devíamos marchar pro Oeste! Prepare as tropas, partiremos amanhã, antes do sol nascer!

E lançando um olhar malicioso para o professor, continuou:

– Vou ter uma conversinha com aquele lorde velhota...

Karo suspirou e largou o pergaminho na cadeira.

– Não é possível chamar tropas em quantidade necessária para seus intentos, porque a maioria está em mar com seu pai, a procura de terras. E eu, conhecendo seus ânimos, sei que nada de bom sairia dessa conversinha.

Sinaa encarou-o enfurecido e bateu com a espada no chão, o som reverberou por todo o salão principal.

– Pela última vez, Karo. Isso será necessário uma hora ou outra! Eu estou falando sobre ser Rei!

– Não, você está falando de assassinato.

– Talvez os fins justifiquem os meios, então – Sinaa deu de ombros.

Nesse momento, o som das pesadas portas que davam para o salão chamou a atenção de ambos. Os olhos dos dois se arregalaram ao ver quem entrava, mas enquanto um olhava fascinado a figura, o outro olhava com temor respeitoso.

O homem de cabelo e barba selvagens andou com segurança, acompanhado de dois guardas, até o trono.

– Onde está o Lorde?

Sinaa ergueu o queixo, arrogante.

– Na sua frente.

Karo e o homem rolaram os olhos, impacientes.

– O Lorde não se encontra, mas seu descendente pode fazer concessões, dependendo da natureza do seu pedido.

O homem, então, ajoelhou-se.

– Peço permissão para cometer assassinato nas terras de seu império.

Sinaa e Karo, e até os dois guardas acompanhantes, se entreolharam surpresos.

– Assassinato? Por quê?

Por que você pergunta? Isso não importa! – disse Sinaa com olhos brilhantes, voltando a se sentar no trono. Finalmente algo de interessante iria acontecer naquela manhã sem graça. – Assassinato de quem?

– O motivo, questão de honra – o homem disse, olhando de soslaio para Karo e, voltando a se dirigir para Sinaa –, a pessoa, Mondod.

– Mondod? Como Dod, o capitão? – perguntou Karo, a testa enrugada em preocupação e as costas eretas.

O homem assentiu e se levantou. Sinaa deu uma risadinha animada e de levantou também.

– Muito bem, pedido concedido! Com uma ressalva.

O homem olhou atentamente para o menino e Karo respirou fundo, apertando acima do nariz com os dedos indicador e polegar.

– Você pode matar quem quiser, contanto que volte aqui para ser meu professor de espadas – Sinaa desceu os degraus que o separavam do visitante e ficou bem perto dele. – Só uma pessoa corajosa e boa de luta é que sairia atrás de Dod, o capitão. E você pode ter certeza de que o pagamento que receberá te dará tranquilidade pro resto da sua vida.

O olhar do visitante endureceu e perdeu o brilho. Ele arreganhou os dentes e, sem que houvesse tempo de reação dos guardas e de Karo, agarrou o pescoço fino da criança e a ergueu do chão alguns centímetros, tirando do cinto uma espécie de faca curta e negra.

– Eu me ajoelhei para você só para conseguir uma boa primeira impressão, moleque. Vou matar aquele desgraçado com ou sem a sua concessão, mas nós dois sabemos que será mais fácil com ela.

Karo e os guardas, com espadas desembainhadas, postavam-se já prontos para uma luta a fim de libertar o descendente do Lorde.

Sinaa, com olhos arregalados, não sabia se o seu corpo tremia de medo ou de excitação (mas era óbvio que se fosse por medo, ele falaria o contrário para seus amigos no dia seguinte). Ele sentiu o aperto no pescoço ficar mais forte e o hálito do homem lembrava o dos cavalos selvagens demais para serem domados. O jovem Sinaa, apesar de ser estúpido e inconsequente na maioria das vezes, tinha um estalo de luz na mente vez ou outra, como se trouxesse consigo uma ínfima parte do seu pai, o Lorde. Ele ia deixar o visitante ir, sem sombra de dúvida. Mas ainda assim, Sinaa queria ver do que aquele homem era realmente capaz.

Ele tocou a mão grande e peluda que lhe apertava a garganta e disse, com um sorrisinho maroto:

– Muito bem, é claro que seria mais fácil, sim, mas antes de ir você vai ter que provar pra mim que é capaz de matar Dod, o capitão. Se é que ele está em minhas terras.

Sinaa podia jurar que, ao dizer aquilo, viu nos olhos do visitante um brilho assustador e, em meio àquela barba desgrenhada e castanha, um rasgo no lugar da boca que, tempos depois, ele iria entender, era o sorriso do homem.

Com um movimento rápido como um raio, a faca pequena e negra voou da mão do homem e cravou-se na garganta de um dos guardas, que largou a espada e colocou as mãos no pescoço, soltando sons fracos e desesperados de quem tenta respirar. O sangue começou a brotar da boca e escorrer pela armadura do guarda. Sinaa não conseguiu desgrudar os olhos do homem que morria lentamente e em agonia. O visitante ainda não o soltara, nem o baixara, e ele estava tendo dificuldades para respirar. O medo o invadiu, ele certamente fizera uma coisa errada, uma jogada mal feita. Seria o próximo a morrer! Sinaa começou a se debater desesperado até que o homem o soltou.

Cambaleando para trás e tropeçando nos degraus da escada de pedra, Sinaa olhou para o visitante que, a passos lentos, foi até o guarda caído. Ele pegou a espada do guarda que estava jogada no chão e ergueu-a alta acima da cabeça, a lâmina apontada para baixo, e cravou-a no corpo do moribundo, girando a espada em seguida e acabando com o sofrimento dele.

Sinaa tentava dizer algo, mas apenas balbuciava. Uma parte da sua cabeça sabia que o outro guarda tinha saído do salão, provavelmente chamando por outros guardas, apesar de ele não ouvir nenhum grito, nada.

– Ka- Ka- Karo – gaguejou Sinaa, a procura do professor. Mas no lugar onde Karo estava antes de toda aquela loucura começar, havia apenas um rastro de sangue.

O visitante deixou a espada cravada no corpo do guarda e arrancou com cuidado excessivo o pequena faca negra da garganta do cadáver, limpou-a nas vestes do guarda e colou-a na cinta novamente. Depois andou até o rastro de sangue de Karo.

Um choque percorreu o corpo de Sinaa ao compreender o que o homem faria com seu professor.

– KARO! – gritou Sinaa, dando um salto para pegar sua espada e ir até o professor.

Dando a volta no trono principal, Sinaa viu a cena mais lastimável. Karo rastejava pelo chão, respirando pesadamente e tentando chegar à porta secreta que existia atrás da tapeçaria azul. Ele olhou para trás apenas uma vez para ver onde o visitante estava.

Sinaa soltou um grito de batalha e voou para frente, posicionando-se entre o visitante e Karo.

– Nem mais um passo! – gritou Sinaa, apontando a espada para o homem.

O visitante parou por um segundo, só para ver as mãos trêmulas do garoto que o desafiava, depois pendeu o corpo para o lado, a fim de ver o outro homem rastejando no chão.

– Garoto, você não faz ideia do quão ridículo você parece nessa situação.

As feições de Sinaa se contorceram numa mistura de medo, raiva e confusão e uma parte dele tinha certeza absoluta que aquele homem tinha algum tipo de demência. Só podia ser. Sinaa arreganhou os dentes e gritou ao avançar para o visitante, pronto para golpeá-lo e defender Karo.

Mas o golpe foi facilmente aparado pelo visitante, que abaixou-se no momento da investida de Sinaa e deu um forte soco no estômago da criança, deixando-a sem ar. Com isso Sinaa cambaleou, tossindo, uma mão na barriga. O visitante avançou e com um golpe na mão que segurava a espada, fez a arma sair voando, e deu um chute no peito de Sinaa apenas para que a criança saísse de sua frente.

Sinaa, respirando com extrema dificuldade, a garganta dolorida e o peito machucado, apenas pôde olhar as cenas seguintes horrorizado.

O homem praticamente voou para cima de Karo, virando-o para si. Karo soltou um gemido de dor ao ser virado, seu rosto era um misto de agonia e raiva, o medo já tinha sido afastado há tempos. Sinaa viu que um objeto fino e negro saía da barriga de Karo, na linha da cintura e abaixo do umbigo, a roupa fina e branca que ele usava já estava manchada com muito sangue. O garoto compreendeu que, na verdade, o visitante havia lançado não uma adaga, mas duas, atingindo tanto o guarda como Karo!

Mas o cansaço de Karo não podia ser explicado apenas por aquele ferimento. Sinaa já tinha visto Karo lutar várias vezes antes e ele sabia que o professor era mais resistente que aquilo.

– Hehe – riu secamente Karo, olhando fixamente para o visitante. – Boa jogada... Veneno na adaga, Salek... Mas, argh – ele gemeu e apertou o abdômen perto da adaga, sua respiração era seca também e pesada. – Que veneno é esse?

O visitante não riu e nem respondeu a pergunta de Karo, continuou a olhá-lo como um cachorro selvagem que mira sua caça. Ele tirou novamente a segunda adaga negra que tinha na cintura e passou o dedo na lâmina, pensativo. Então, virou-se para Sinaa.

– Você realmente não faz ideia de quem é esse homem?

Sinaa contorceu o rosto, tentando aparentar raiva e poder, mas era o mesmo que um filhote de gato fingindo ser um leão.

– Ele é meu professor e escudeiro...

O homem fez um barulho que parecia um relinchar de cavalo e coçou a barba castanha.

– Eh, bom. Escudeiro ele sabe ser, até porque antes esse – ele apontou para Karo, que tinha forças agora apenas para olhar o visitante. O veneno correndo mais e mais rápido por seu corpo já fraco, – que você chama de Karo, era o escudeiro de Mondod.

– O quê?

A cabeça de Sinaa não parecia estar trabalhando como deveria, ele não estava entendendo o que aquele homem queria dizer com aquilo. Era impossível, simplesmente impossível! Anos antes os guardas do Lorde haviam feito as investigações necessárias sobre Karo, para que ele se tornasse seu escudeiro e professor. E dizer que o nome dele não era Karo, então? Ora, mas quem era esse homem? E quem era esse visitante?

– Prove! – gritou Sinaa.

O visitante sorriu e agarrou Karo pela gola da camisa branca, rasgando-a até o umbigo. Sinaa arregalou os olhos, não acreditando no que via. No peito de Karo, uma tatuagem escarlate com o desenho de uma cabra sobressaía na pele branca e pálida do homem.

Como todas as crianças da Cidade do Leste, Sinaa já tinha ouvido histórias a respeito do bando do capitão Dod. Cada um dos integrantes tinha uma tatuagem no peito na forma de um animal, por causa de um pacto mágico. Pelo que Sinaa lembrava das histórias, Gyl, o trovador, era quem tinha a tatuagem da cabra no peito.

– Você... nunca... vai encontrar... – Karo, ou melhor, Gyl, falava com extrema dificuldade, como se as palavras tivessem o peso do mundo em seus lábios.

O visitante se abaixou, quase que se sentando em cima de Gyl, e encostou a lâmina negra na bochecha do falso professor, fazendo pequenos círculos sem perfurar a pele.

– Eu encontrei você, não?

E sem esperar por qualquer resposta, o homem cortou a garganta de Gyl num movimento fluido e rápido como o rasante de um corvo. O sangue espirrou pelo seu rosto e suas vestes e ele se afastou, ouvindo o gorgolejar do moribundo que não demorou muito para acabar.

O visitante desceu os degraus, sem olhar para Sinaa, e se dirigiu até a porta por onde havia entrado. O garoto tinha as mãos levemente trêmulas, o suor cobria seu rosto e empapava seus cabelos na testa. Ele observou o visitante se distanciar cada vez mais e, do lado de fora do Castelo Amarelo, uma nuvem desbloqueou o Sol, que lançou um raio de luz forte, atingindo toda a sanguinolência no interior do salão, bem como os cabelos ruivos de Sinaa, que brilhavam como fogo.

– Qu- Quem é você? – gaguejou Sinaa, tentando se levantar do chão frio de pedra, mas caindo de joelhos.

Ele parou na entrada da porta e olhou por sobre o ombro.

– O nome é Salek, moleque. E você devia ficar esperto, pois o seu cabelo não é a única coisa que pode queimar aqui.

Sinaa abriu a boca para dizer alguma coisa, mas decidiu que era melhor não e engoliu em seco. O filho do Lorde podia não ser muito inteligente, mas ele sabia quando era o momento de deixar um homem seguir seu caminho.


10 мая 2018 г. 2:41:41 0 Отчет Добавить 1
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C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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