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crazyclara Crazy Clara

Os dois maiores rivais japoneses dentro do futebol europeu possuem o que chamariam de apenas uma saudável e construtiva relação competitiva. Ou mais que isso? Uma fã acha que não. | Omoi/Kiba Spin-off de O Suporte.


Фанфик Аниме/Манга 18+.

#ua #Omoi-Kiba #Omoi #kiba #suporte #spinoff #crackship #naruto
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BarcEal


Estava lá em letras claras e em perfeito inglês as palavras “Omoi, estrela do Real Madrid, visita o rival do Barcelona, Kiba, no hospital".

Foi obrigada a ler por semanas que aquela era uma linda relação de apoio mútuo entre antagonistas do futebol. Ah, claro. Como se a tensão sexual contida não existisse. E como se fosse um caso especial entre eles que os impedisse de se contatar por telefone. Kiba podia até gostar da mídia e querer aparecer em todos os tabloides, mas Omoi era recluso. Mesmo que ele se importasse como um colega, faria de tudo para evitar a mídia, o que incluía não ir a um hospital.

Frisando: COMO UM COLEGA.

Eles não eram só colegas. Ah, nananinanão. Omoi não se exporia e visitaria só um colega. Eles também não eram amigos, estava mais que claro.

Ainda ouviu mais disso depois do evento de caridade em Liverpool, onde Omoi fez um discurso para incentivar o rival. Pelos deuses, mesmo depois das fotos divulgadas com aquela expressão de choro de Kiba com pura emoção ainda insistiam em uma grande amizade! Não, mundo, não! Não era só amizade!

Por isso ela abraçou a guerra. Que batalhas sem sentido se seguissem, mas ela precisava fincar aquela bandeira de ridícula na situação.

Se as pessoas não estavam vendo, ela os faria ver.


O


Naruto enrolou a macarronada no garfo e serviu-se uma boa porção enquanto rolava o feed de notícias para baixo com o polegar livre. Desde que havia se formado como fisioterapeuta, ficar de olho em lesões de esportistas se tornou uma rotina. Poderia parecer mórbido, mas quando ele era fã de metade do mundo de competidores de tantas modalidades, era o mínimo de preocupação que deveria mostrar.

Como estava tão focado no caso de Kiba, agora via a repercussão do nome dele e do Omoi que se repetia tanto entre as notícias que ficou chato acompanhar. Não havia nada novo.

Até fisgar um resultado diferente que o fez parar de mastigar.

Abriu o link, tão rebuscado com palavras de protesto e outras de apoio. Não era sobre a carreira deles, mas ainda havia um mutirão de garotas furiosas com a situação dos dois.

Franziu o cenho para as alegações que pouco lhe faziam sentido. Eles não deveriam se falar? Por quê? Também não deviam se emocionar tanto? Do que diabos elas estavam falando?

Até que surgiu um segundo link em uma competição de ‘BarcEal’. Ainda não fazia ideia de no que estava se metendo, mas acessou a página e viu a lista de títulos em ordem de votação. O primeiro se chamava ‘Para aquele a quem amo: prepare-se para morrer’¹.

Do lado de fora da cozinha da mansão do Inuzuka, a velha governanta passava minutos depois alisando seu uniforme. Parou de repente ao ouvir a alta gargalhada de Naruto irradiando do cômodo ao lado.

Ah, esses estrangeiros…


O


Kiba finalmente se deixou cair deitado assim que o exercício foi dado como encerrado.

— Agora posso treinar no campo? – rosnou irritado. Se havia uma grande motivação em fazer aqueles exercícios com tanto afinco era poder sair da bendita rotina dentro daquela sala. A pior parte, sem dúvidas, havia sido a cadeira de rodas, onde se sentia muito indefeso. Com as muletas ainda podia usar como uma suposta arma com qualquer engraçadinho que viesse com piadas para cima dele. Agora sua nova determinação residia na vontade de fogo de deixar a sala e voltar a pisar no gramado.

— Estava falando com Naruto e sim, vamos trabalhar um pouco lá fora. – Tenten lhe sorriu e apoiou as mãos na cintura. – Mas descanse agora ou vai c-

— Kibaaa! Tenten! Ten-Ten, você não faz ideia! Kiba, oi, Kiba!

Naruto surgiu como se possuísse molas no lugar das pernas, saltando da entrada da sala de tratamento com o celular em mãos. Ele fez aquele estranho gesto de erguer o anelar e o polegar para Kiba, que nas últimas semanas insistia para que o artilheiro também fizesse.

— Eu não vou fazer isso. – Kiba estreitou os olhos enquanto o fisioterapeuta se aproximava.

— Você ainda vai se entregar ao hangloose, Kiba. – ele parou ao lado de Tenten, dando atenção para o joelho lesionado. – Como foi hoje, Tenten?

— Tudo nos conformes. – Tenten exibiu um amplo sorriso e deu um tapa de camaradagem no ombro de Kiba que faltou apenas saltar para frente com a força. – Nosso menino já quer se aventurar no gramado e logo vai chutar a bunda do Omoi.

Os olhos de Naruto dobraram de tamanho e o sorriso cobriu um terço de seu rosto.

— Sim, Omoi! – Naruto ergueu o celular, desbloqueando rapidamente e mostrando para Tenten. – Olha isso.

Kiba resmungou baixo de dor enquanto os dois médicos olhavam a tela. Longe do artilheiro ser uma pessoa curiosa. Claro que não era, cuidava dos próprios assuntos, não estava interessado na vida alheia.

Mas por que diabos eles tinham que olhar secretamente algo diante dele depois de falar ‘Omoi’?!

— Mentira. – Tenten subitamente arqueou as sobrancelhas enquanto o sorriso perdurava no rosto de Naruto. – Onde você conseguiu isso?! – O sorriso nasceu também na ortopedista que se inclinou mais para o aparelho.

— Tropecei nisso no almoço.

— E ficou lendo?

Era alguma declaração de guerra de Omoi destinada a ele e não havia sido informado? Porque, se fosse, teria que contratar novos empresários que chegavam com notícias antes de seus médicos.

E aqueles dois permaneciam inabalados pelo seu olhar de ódio por ser deixado de fora.

— Kami-sama, isso é bom. – Tenten levou uma mão ao rosto, cobriu a boca, descobriu e sorriu mais. – Me passa o link.

— Do que caralhos vocês estão falando do Omoi? – novamente, não era porque se preocupava com a vida alheia. De jeito nenhum Inuzuka Kiba, artilheiro titular do Barcelona e lenda do futebol japonês estava querendo saber de fofocas. Era o nome do outro jogador que não deveria entrar tão facilmente naquela casa que estava envolvido.

Naruto e Tenten lhe direcionaram a atenção como se, de repente, lembrassem de sua presença.

E exibiram sorrisos cúmplices e maliciosos.

— Primeiro a gente precisa tirar você daqui. – Naruto colocou uma mão na cintura. – Gramado, hein?

Kiba estreitou o olhar. Qualquer coisa, ordenaria Akamaru que mordessem suas canelas.


O


Entre as coisas que Sasuke poderia fazer para preocupar Itachi estavam demonstração de afeto em público, aceitar abraços em qualquer que fosse o local e chamadas de vídeo.

Quando seu celular exibiu o ícone da chamada, primeiro achou que fosse um erro e esperou que Sasuke desligasse. Quando o toque permaneceu, soube que havia algo errado.

Assim, pediu licença ao tio e ao cliente e deu alguns passos adiante no corredor. Ficou de costas para a parede antes de puxar o discreto fone sem fio do bolso do paletó, colocá-lo e aceitar a chamada.

Sasuke estava diante da câmera, encarando a tela. Nenhum ferimento, pupilas normais, olhar calmo. Certo, fisicamente bem. No entanto, podia ouvir os berros distantes de onde Sasuke estava, os palavrões denunciando Kiba.

Má hora? – seu irmão perguntou.

— Não, só conversa trivial. Aconteceu algo?

O barulho de algo caindo e quebrando atraiu a atenção de Sasuke para algum ponto acima do celular. Um segundo depois, o advogado voltou a encarar o outro.

Uma digital influencer lançou um desafio de escrita entre amadoras para histórias que protagonizassem Kiba e Omoi como um casal.

Itachi arqueou as sobrancelhas.

— Fanfics. – falou. Sasuke não pareceu surpreso e assentiu. – Por que o estardalhaço?

Kiba leu algumas e quer processar a garota. Está assim. – e o aparelho foi virado, saindo do foco de Sasuke e exibindo o quarto do artilheiro.

A cama estava virada. Ocidental, mogno, king size. E com joelho torcido. Ele havia virado a cama. Como?

O Inuzuka estava equilibrado em uma das muletas, brandindo a outra na direção de Shino, uma figura calma conferindo o celular. Hinata estava perto da janela, conversando com Naruto e apenas o loiro parecia confortável com o quadro.

Sasuke voltou a imagem para si.

Como ela é uma influenciadora, Aburame e Hyuuga querem saber nossas chances.

Itachi piscou devagar.

— Por que essa reação extrema? É algo muito ofensivo?

Ainda não cheguei a ler, mas o Uzumaki disse que é explícito.

— Ele está com alguma dúvida a respeito da sexualidade?

O canto da boca de Sasuke se repuxou num discreto sorriso que rapidamente escondeu em prol do profissionalismo.

Ele está apenas irrit-

É o Itachi?! – Sasuke ergueu o olhar para além do celular e assentiu enquanto os baques ficavam altos, logo em seguida a imagem girou para focar em um furioso e vermelho Kiba. – Uchiha, essa garota acéfala está fazendo pessoas olharem para mim e para o Omoi como um casal. Porra, Itachi! A gente só joga futebol e viemos do Japão! Não temos nada em comum! Tipo, nada! E me botaram para ser fodido por aquele fominha! Tem várias delas vendo nós dois fazendo sexo! Como diabos eu vou para a Eurocopa lembrando da merda que escreveram sobre a gente?! Porra! Merda! Desgraça!

Kiba-kun, deixe Sasuke lidar com isso agora. – uma nesga da figura de Hinata surgiu no canto da imagem com a mão no ombro de Kiba.

Kiba, você está passando vergonha.

Houve mais xingamentos e a imagem revirou antes de voltar a focar no rosto de Sasuke, agora com uma ruga de irritação entre as sobrancelhas.

Já avisei que é uma bobagem que pode ser ignorada, mas, como você vê, ele não está aceitando muito bem.

— Envie-me o link dessas histórias e vejo com Madara se compramos a briga.

Sasuke arqueou uma sobrancelha.

Você vai ler?

— Claro. E você também.


O


Para aquele que amo…

Prepare-se para morrer

Por PearEyes11



Avisos: linguagem imprópria, nudez, sexo, drama, homossexualidade, omegaverse


Olá, pessoal! Essa é minha entrada para o Desafio BarcEal. Obrigada à Vivi-Chan pela capa. Ficou linda!

Edit: FANFIC VENCEDORA! Obrigada a todos pelo apoio!!!



Único


O Vale Castelhano era um local de harmonia entre as espécies. Mesmo humanos ali eram adeptos do pacifismo quando chegaram e aprenderam com a natureza a arte do convívio entre o equilíbrio. Desfrutavam de belas paisagens, água fresca, terra fértil e frutos doces. Embora fosse chamado de “Vale”, a estrutura era bem mais ampla do que apenas um vão entre dois montes. Era um país inteiro com uma diversidade de territórios e moradores.

Eram divididos em tribos, cada tribo com um deus regente que os guiava em suas escolhas e dia a dia, a maior parte deles espelhando o que o Vale era: um antro de amor.

Havia uma tribo, porém, que tomou como exemplo para si o deus da ganância e soberba. Uma tribo pequena, reclusa e indesejada, que, com seus costumes e desejos, começou a engolir outras pequenas tribos até crescer cada vez mais.

Rivalve se tornou uma tribo aniquiladora em décadas de crescimento, passando os costumes por gerações, até que o Vale temeu por sua harmonia e todas as outras tribos temeram por suas vidas.

O problema era ainda a natureza humana da desconfiança. As tribos podiam coexistir, mas havia uma enorme diferença entre dividir a cerca e conviver dentro dela. Quando foi decidido que precisariam se unir para derrubar a grande ameaça que vinha do norte, querendo destruir seu estilo de vida, os líderes já sabiam que não seria uma tarefa fácil.

Se reuniram em uma noite, no farol de pedra, o ponto central no Vale, onde a mesa redonda o esperava com a Chama da Europa, deusa da justiça e união, acesa, iluminando o debate das Cinco Grandes Tribos: Tribo Real, Tribo Bilbao, Tribo Valencia, Tribo Atlético e Tribo Barça. Uma discussão já polêmica em sua própria natureza.

A Tribo Real foi a primeira a ter seu líder dando um passo à frente. Ele era alto, forte, usando o pesado casaco de pele de lobo sobre os ombros. Sua pele era escura como cacau, com um contraste forte com os cabelos brancos como a neve. Os olhos estreitos e repuxados analisaram os demais líderes, sua aura de alfa nato forte demais para ser ignorada. Omoi, o Pesado.

— A todos aqui presentes. – ele começou. Havia algo na voz dos membros da Real que passava a sensação clara de aquele ser o lar dos mais sábios do Vale, carregando a sabedoria dos lobos, animais criados pelo deus regente Okumo². – Sabemos que precisamos deixar as diferenças de lado nesse momento crucial. Unirmos contra o Rivalve será difícil, eu compreendo. Mas é necessário, como nossos antepassados uma vez fizeram ao criarem o Vale Castelhano. Rivalve ameaça nossas fronteiras, devora nossa cultura, suga o que há de melhor e cospe em nossas tradições. – ele apoiou uma mão na mesa de pedra. – Precisamos atacar. E precisa ser agora.

O murmúrio de concordância percorreu o círculo e olhares foram trocados.

Uma voz, no entanto, se ergueu. Destemida e altiva.

— E quem é que vai liderar a todos?

Ela vinha de um homem também alto, também se aproximando da mesa. Não era o líder de sua Tribo, mas um representante de olhar incisivo que encarava os demais líderes.

Kiba, o Devorador de Feras. Tinha sobre os ombros a pele de uma raposa e os cabelos presos em um rabo de cavalo tradicional dos guerreiros. Era forte, decidido e um Ômega. Não importava o tom de sua voz, o cheiro que desprendia do herdeiro da Tribo Barça era de um ômega fértil.

Só sua presença já era uma surpresa, mas não para aqueles que conheciam a história de sua alcunha. Aqueles que ousavam desafiar os desejos do ômega, que tentavam tomá-lo para si ou mesmo um dos seus, eram destroçados.

Naquele momento, ele parecia ter tomado Omoi como alvo, pois os olhos ferinos foram travados no líder de Real.

— Acredito que a experiência deva ser levada em conta. – respondeu Omoi. – As vitórias e o conhecimento para liderar tantos guerreiros.

— Nesse caso, precisa ser um dos anciãos que não arriscarão sua vida em batalha? – Kiba riu com escárnio claro. – Escute só: Rivalve está vindo para destruir tradições. Já destruiu outras tantas. Não adianta usar o velho contra eles, precisamos de algo novo.

— Como ômegas liderando? – jogou um dos outros líderes, ao que o círculo se levantou em risadas.

O punho de Kiba se chocou fechado contra a mesa de pedra, ecoando um duro som do minério rangendo em uma força soberba. As risadas imediatamente se silenciaram enquanto o cheiro do ômega e sua intenção assassina corriam pela sala.

— Quero ver algum de vocês tentar lidar com esse ômega. – o herdeiro de Barça rosnou.

Para muitos ômegas, liberar seu cheiro daquela forma era um convite ao acasalamento. Ainda mais um cheiro tão exótico, limões, terra molhada e uvas. Era o cheiro de verão entre as parreiras, a promessa de vinho e festança. Sua intenção, por outro lado, era forte o suficiente para também prometer sangue e dor. E não de Kiba.

Os alfas pareciam ter compreendido a mensagem. Omoi também compreendeu. Mas aquela selvageria o atraía muito. Tanto para o duelo quanto para a posse de seu corpo.

Eram de uma longa e complexa história. Até desajeitada e sem tato. Desde que haviam sido apresentados, Kiba ainda um menino, Omoi havia sentido o tom de rivalidade que as íris estreitas lhe dedicavam. E para o herdeiro de Real havia apenas o sentimento de curiosidade. Como aquela figura conseguia ser tão ameaçadora em sua suposta natureza delicada?

Infelizmente, nunca haviam passado daquilo.

Apoiou ambas as mãos na mesa, voltando a elevar a voz em mais um discurso.

— Sim, Kiba está certo. Precisamos de novas estratégias, o velho não pode contra alguém que já sabe de tudo. – deixou que seu olhar se demorasse em cada representante e respectivo conselheiro. – Eles esperam que usemos a tradição e façamos a linha de ataque entre os nossos, marchando para uma morte entre armadilhas. Vão jogar sujo, mas não precisamos fazer como eles. Podemos apenas usar novas estratégias, novas abordagens. – seu olhar recaiu sobre o de Kiba. – Precisamos de algo diferente e aterrador.

Kiba nunca tinha a guarda baixa. Enquanto encarava Omoi, o herdeiro de Barça ainda transmitia sua ofensiva característica, um silencioso desafio travado que os dois jogavam um com o outro.

Queria aceitar o desafio do ômega e, sem dúvida alguma, queria mostrá-lo a fera paciente e indomável de Real. Mas não era o momento.

— O herdeiro de Barça tem uma sugestão de como podemos lidar com a ameaça? – perguntou mantendo o tom diplomático.

Kiba permaneceu em silêncio, como se avaliasse a seriedade da pergunta, ainda com a ameaça em adagas no seu olhar.

Por fim assentiu, firme, a voz de um líder se pronunciando.

— Os mercenários do País Nipon. A Tribo Uchiha. – Kiba olhou ao redor enquanto os murmúrios de espanto se erguiam. – São uma tribo treinada para a guerra, melhores dos melhores. Com o incentivo certo, darão suas vidas para nos proteger.

— São caros! – gritou um.

— Mercenários oportunistas! – gritou outro. – Nos darão as costas assim que Rivalve oferecer mais!

— São bruxos das trevas! – um terceiro se pronunciou.

— São honrados! – ergueu outra voz. – Minha tribo sabe!

— Sim, são honrados. – Kiba salientou. – Minha tribo também já teve negócios com eles e nos foram fiéis mesmo que nosso inimigo tivesse oferecido uma troca. Não darão para trás, estarão conosco no momento em que aceitarem, por mais que Rivalve faça uma oferta maior. – o ômega encarou Omoi novamente. – E o que acha o líder de Real?

Omoi olhou sobre o ombro, seus conselheiros falando entre si. Um deles já lhe adiantava a sentença com um breve gesto, erguendo os ombros, pois estavam divididos. Bem sabia porquê. O pai e líder antecessor do antigo líder de Real tivera um desentendimento com a Tribo Uchiha há décadas graças a um sequestro do herói da tribo. Ainda que tudo já houvesse sido esclarecido, era comum que os lobos hesitassem diante da presença dos regidos pelo deus Karasu.

Então o líder de Real optou por confiar em seus instintos. Assim, ao tornar a olhar o herdeiro e encontrar o mesmo desafio, sabia que queria abraçar tudo o que aquela chama de rebeldia queria apresentar.

— Vamos ver o que eles têm a nos dizer.

O cenho de Kiba franziu diante da concordância. Não esperava obter o consentimento de Real assim tão fácil. Afinal, os lobos eram os mais tradicionais, algo que frustrava Kiba desde que precisou lidar com o antecessor de Omoi ao se apresentar como herdeiro em um conselho anos atrás.

Todavia, os lobos também eram sábios. Teria sido sua decisão tão sábia a ponto de convencê-los?

Omoi também lhe irritava, mas não como o antigo líder. Sua figura e o que ele representava sim. O que ele era para Kiba.

Foi fácil com o suporte de Real. Os demais líderes seguiram Omoi tão natural como uma correnteza. Terminaram aquela noite enviando mensageiros aos Uchiha e em três dias os mensageiros da sombria tribo se apresentou no farol de pedra. O preço era alto, como bem já sabiam. Praticamente metade da fortuna de cada tribo teria que ser oferecida junto da garantia de que todos os guerreiros fariam parte do plano de guerra desenvolvido pela Tribo Uchiha.

Estariam prontos para a guerra em uma semana.

Os exércitos foram chamados e o território reconhecido. Os novos líderes que anda não se conheciam bem como as passadas gerações agora se encontravam frente a frente.

E nenhum deles era mais polêmico e brilhante quanto Kiba.

Nenhuma outra tribo havia confiado tanto na liderança de um ômega. E nenhum outro ômega inspirava tanta lealdade.

Bastava ficar alguns minutos na presença do herdeiro de Barça. Talvez fosse sua essência, inebriante como vinho, lembrando festas e boas tardes com amigos. Talvez fosse sua ferocidade somada a um bom humor ferino e ao vocabulário nada cortês. Ou todo o conjunto.

Para Omoi era o conjunto. Junto das ameaças, junto do renome, junto do perigo eminente da aproximação e da valentia em desafiar as regras e o consenso comum. Queria aquela alma selvagem para si e tinha a dolorosa impressão de que aquilo poderia nunca acontecer após a guerra. Pessoas morrem na guerra, afinal.

Kiba percebeu o olhar sobre si junto daquela intenção lhe focando como um holofote. Voltou-se para Omoi, enquanto seus colegas riam do comentário que havia feito, e viu os olhos negros travados sobre si, como um lobo à espreita de sua caça, cem metros de distância.

Ainda daquela distância conseguia sentir a essência do alfa. Era sutil, levando em conta sua posição, mas não menos intensa em seu efeito. Eucalipto, chuva e ozônio. Os odores das montanhas tempestuosas onde a Tribo Real vivia. O sutil toque de perigo provocava arrepios em Kiba, que apenas se irritava mais.

Ele devia querer algo e seria melhor que resolvessem essas diferenças logo antes de seguirem para a guerra.

Acenou para seus homens, dispensou sua guarda e se virou, rumando para o fim do acampamento. Lançou um olhar para Omoi e esperava que com apenas aquilo ele compreendesse.

A medida que andava, começou a perceber a presença lhe seguir. Havia anos que ômegas já participavam do exército em várias tribos, fazendo uso de colares que lhe auxiliavam no afastamento de alfas indulgentes. Ele, no entanto, era o primeiro que se colocava como herdeiro, sendo assim um interessante alvo para os mais imprudentes. Uma tribo dependida dele como líder e marcá-lo seria o mesmo que tomar a liderança para si. Não era um alvo fácil. Na verdade, era o mais difícil entre eles, pois usava daquela imagem subestimada que tinham de um ômega para degolá-los antes de ser tocado. Ainda assim, sua mãe, alfa e atual líder, detestaria saber que agora se dirigia sem sua escolta para fora dos limites do acampamento, tendo como companhia um alfa de outra tribo.

Seguiu quilômetros floresta adentro. Estavam próximos de um dos planaltos do Vale Castelhano, fronteira entre os territórios das tribos livres e o terreno conquistado de Rivalve. Provavelmente lá seria a batalha. Se dirigia ao monte mais distante, se afastando daquele que seria o túmulo de muitos homens no dia seguinte.

Que coisas como aquela fossem ditas no antro da natureza, sob as copas das árvores e no berço dos selvagens.

Havia uma caverna ampla sem sinais de utilização animal. Entrou, apoiou as costas na parede áspera e aguardou a aproximação de Omoi.

O alfa chegou à entrada com passos macios, uma sombra contra a luz do fim da tarde. Ele entrou devagar e Kiba permaneceu com os braços cruzados e expressão dura. Deixava claro que o outro tinha um limite em aproximação e qualquer outra liberdade que quisesse tomar.

Mas ele parou com bons três metros os separando. Embora estivesse com a postura relaxada, a mão apoiada displicente na katana era um singelo lembrete de que era um guerreiro preparado para um embate.

Não era um embate que Kiba queria naquele momento.

Deixaram que o silêncio da análise alheia perdurasse, a presença um do outro denotando a curiosidade de ambos.

Enfim, Kiba se pronunciou.

— Por que aceitou a proposta dos Uchiha?

Omoi inclinou a cabeça, balançando o palito que tinha entre os lábios.

— Por que a surpresa? – questionou com o mesmo tom.

— Eu sei que Real não possui um bom histórico com eles. Mas aceitou minha proposta de primeira. Por quê?

Uma pálida sobrancelha se ergueu, gesto espelhado pela de Kiba.

— Queria que eu negasse?

— O normal seria ao menos considerar por mais tempo.

Omoi deu de ombros.

— Era uma boa proposta. As intrigas ficaram no passado com um antepassado meu e com um antepassado deles. Outro contexto e outras pessoas estão em jogo, coisas assim não podem afetar o julgamento de um líder.

— Mas devem ter afetado o seu conselho. – Kiba ergueu mais o queixo. – Está desafiando os seus.

O líder de Real riu. Era um riso despojado, baixo e curto, mas o suficiente para provocar um arrepio involuntário em Kiba ao perceber que a presença de Omoi havia se intensificado com aquela frase. O cheiro de tempestade que se aproximava.

— Você desafiou mais e saiu vivo. – disse o grisalho. – Acho que tenho boas chances.

Kiba estreitou os olhos.

— Desafiar como?

— Um ômega não marcado como líder de um exército. – Omoi balançou a cabeça. – Kiba de Barça, você é muito imprudente.

— Não é imprudência. – foi a vez do herdeiro sorrir. – Ninguém que tentou tocar em mim sem minha permissão saiu com menos do que uma mão cortada.

— Eu sei que você pode se defender. Só não viveu o suficiente ainda para morrer.

Kiba franziu o cenho. Não entendeu o rumo daquela conversa. Estavam falando do perigos de ele ser marcado contra sua vontade, não era?

— Nessa sua lógica, pessoas não casadas não deveriam estar no exército. Onde quer chegar?

Omoi deu um passo, ao que Kiba descruzou os braços devagar, pronto para sacar os chakrams de sua cintura caso fosse necessário. Não foi, pois foi o único passo de Omoi.

— Estou procurando uma desculpa para me oferecer a te mostrar coisas interessantes. – o palito dançou entre os lábios escuros até ir parar no outro canto. – Como quase ser marcado. Ou como é se deitar com outro herdeiro alfa.

Kiba estreitou os olhos. Deixou que sua presença se tornasse hostil ao desapoiar da parede. Não mais se interessava nos objetivos de Omoi. Se fosse para ser tratado como qualquer outro ômega, como normalmente era o que pensavam, não perderia seu tempo.

— Não preciso disso. – cuspiu a frase, passando por Omoi e ignorando o agradável cheiro do alfa.

— Então me diga você, Kiba. – Omoi disse antes que saísse da caverna. Parou de caminhar, mas não se virou. – Por que eu lhe incomodo tanto?

Então sua hostilidade nunca havia passado despercebida. Achava que Omoi nunca havia comprado sua briga por parecer apenas um alerta, como fazia com os demais. Claro que com Omoi era diferente.

— Você nunca acatou nenhuma provocação minha. – falou sobre o ombro, ainda sem se virar, sem ver o alfa. – Eu pedia um duelo justo e você desprezava, tratando como uma bobagem.

— Nunca desprezei.

Então se virou.

— Não? – ergueu as sobrancelhas. Agora, estando contra a luz, conseguia ver melhor as feições de Omoi. Ele estava com o cenho franzido e com a com a covinha acentuada em sua bochecha. – Então achou engraçadinho. Um ômega querendo duelar. Querendo provar a própria força. Mesmo que seja um herdeiro, não queria perder seu tempo disputando quando pode apenas trepar com ele, certo?

Omoi estreitou os olhos. O palito que balançava até então parou. Kiba não deixou que ele falasse, continuando a esbravejar com a raiva em cada sílaba pronunciada.

— Omoi, o Pesado, a sábia mão de ferro que massacrou os inimigos do leste com apenas dezessete anos. O das mil espadas que corta fileiras como o próprio trovão. Por que reconheceria um ômega que está escalando para alguma posição de poder? No máximo como uma boa diversão um dia antes da batalha, óbvio. – soltou uma risada sarcástica que ecoou pela caverna. – O que mais esperar de um ômega?! – ergueu os braços e os deixou cair novamente. – Sabe, você é o cara que eu respeitava para caralho. Batia de frente com quem fosse, ficava manso sempre, cabeça fria que eu nunca fui. Sim, você é um guerreiro muito bom, era um exemplo pra mim, um merdinha na vila dos cães que descobriu que teria que dar o cu se quisesse ser alguém na vida. Aí vi um zé ninguém tomar o posto de liderança aos 14 anos, se tornar líder da tribo aos 17 e fazer aquele conselho de merda ouvir cada palavra sendo o líder mais jovem da sala, mesmo com 23 anos. Eu queria ficar do seu lado e ser tratado como igual. Queria que você me considerasse também um rival, como nas lendas de Okumo e Inuzuka em que lobos e cães disputavam o controle do bosque que nunca amanhece. Você me vê como a porra de uma noitada, o caralho de-

Não chegou a completar a sua fala, pois precisou desviar seu foco para pegar o chakram em seu cinto e bloquear o ataque com a katana de Omoi. Precisou dar um passo para trás e retirar o outro círculo de ferro do suporte para conseguir sustentar o segundo ataque. E o terceiro e o quarto.

Entendeu porque chamavam Omoi de “O Pesado”. Sim, suas investidas e cortadas certeiras eram as mais fortes que Kiba já havia enfrentado, como se lidasse com um pedregulho despencando da montanha. Não bastasse isso, ele era rápido, dando pouca abertura para Kiba contra-atacar.

Mas nada impossível. Havia treinado para lidar com alfas mais fortes que si. O Devorador de Feras dançava em torno do lobo da montanha e fazia seu cerco em recuos e passadas rápidas, buscando a brecha fatal que derrubaria seu oponente.

Encontrou duas. Uma rendeu a Omoi um talho grande em sua face esquerda que arrancou a ponta de sua orelha e a outra cortou-se a fronte da yukata, passando a centímetros de seu pescoço.

O mais velho precisou recuar e levou a mão à própria orelha. Kiba se manteve de pé com as pernas afastadas, joelhos flexionados e chakrams erguidos com um sorriso ferino despontado, exibindo suas presas.

— Lobos só atacam com a alcateia unida, não é? – levou um dos círculos de aço aos lábios, lambendo lentamente o gume, provando do sangue do alfa. – Cães aprendem a lutar mesmo sem a matilha.

O líder de Real estreitou os olhos. Quando voltou a segurar a katana com as duas mãos, Kiba soube que a luta continuaria.

O herdeiro de Barça se viu obrigado a deixar a caverna quando seu oponente demonstrou menos piedade ainda. Batalharam naquela dança mortal em um terreno desnivelando, desviando de árvores e pedras, brandindo um com o outro suas lâminas. Kiba começou a sentir o peso do embate em seus braços, nada fracos, mas pouco a pouco se submetendo ao peso que eram os golpes de Omoi.

As falhas começaram a surgir quando surgiram cada vez mais cortes suaves. Em seu rosto, braços, pernas. A espada chegava cada vez mais perto e Kiba ficava cada vez mais longe. Percebeu que precisaria reservar toda a sua energia em um único, último e fatal golpe.

Quando viu a oportunidade perfeita, deu tudo de si. Deixou que um único chakram disparasse contra a katana amparando o doloroso golpe, para que o segundo se erguesse para cortar a garganta de Omoi. O alfa, no entanto, se jogou para trás um milésimo de segundo antes de ser atingido, rápido demais para manter o próprio equilíbrio. Um dos pés atingiu a perna de Kiba, em sua frágil posição congelada no ataque e acabou também caindo.

Teve tempo de afastar as armas de si, mas isso fez com que caísse com tudo sobre o outro corpo, ambos perdendo o ar por segundos. Omoi foi mais rápido em sua recuperação, segurando logo os pulsos de Kiba que já não tinha mais força nos braços para se soltar daquela prisão. Por isso não importou o quanto rosnou e tentou se puxar. Mas não parou, nem com a proximidade do cheiro alfa nem com a hostilidade em sua presença.

— Pare, merda!

Mas uma ordem tão direta assim quando estava já no limite de suas forças sim. Isso fez seus instintos se ampliarem e seu corpo encolher, buscando diminuir o contato com o comando alfa.

— Olhe para mim.

Rosnou. E, para obedecer, olhou apenas de soslaio, deixando clara sua irritação. Omoi o encarava, tão ofegante quanto ele.

Havia lutado tudo o que havia sobrado de tempo de luz e agora era noite. Ele e Omoi eram sombras entre sombras, ofegando pelo exercício que quase lhes custara a vida.

— Eu percebia… – o alfa tomou fôlego. – Mas não desprezava. – o cheiro de ozônio nunca esteve tão forte. Talvez fosse a raiva. Sim, o atrito da raiva e da adrenalina faziam narrações do cheiro de relâmpago girarem em torno das lendas de Omoi em seus ataques. – Eu só queria que me visse além do guerreiro.

— Que merda você está falando? – rosnou Kiba. Tentou mais uma vez soltar os braços para lhe dar um bom soco, mas o aperto era de ferro.

— Eu não sei flertar. Não sou bom com palavras para tentar me aproximar. Minha irmã sempre me diz que não levo jeito para relações, que sou direto demais.

— Que porra é essa?! – deu um bom puxão do punho que se soltou, e assim direcionou um soco no rosto de Omoi.

Ele não desviou e Kiba sentiu satisfação ao ver o contorno do rosto do outro se virar com o golpe desferido.

Ou achou que era satisfação. Não se sentiu bem quando o viu e ouviu cuspir para o lado. Nem enquanto ele se mantinha em silêncio, ainda tendo Kiba sobre ele. Nem quando ouviu o líder de Real voltar ao seu discurso.

— Eu vi o quanto você cresceu e o acho incrível por isso. – O brilho dos olhos indicou que Omoi voltava a encará-lo. – Incrível por tudo o que é e o que ainda pode ser. – a outra mão de Kiba também foi solta. – Eu só temo não poder tê-lo ou falar isso quando a guerra vier. Então, se quiser me ver apenas como um rival, tudo bem. Lhe concedo uma luta. Eu só queria… algo diferente.

— Quer trepar comigo.

— Eu queria conhecê-lo. – Omoi cortou. – Tentei antes do conclave, tentei depois. Fiz excursões em suas terras, cartas. Me disseram para fazer um pedido formal de união como alfa e ômega, mas eu não queria forçá-lo por ser ômega. Mesmo que fosse beta ou alfa. Você só parecia querer luta. Achei que queria que eu fosse mais direto.

— Você só quer-

— Sim, eventualmente. Mas não apenas.

Kiba se viu sem palavras. Irritado e sem palavras. Torceu a boca, abriu, sem ter o que dizer e resmungou para o lado. Mais uma vez se deu conta da proximidade com o alfa e de seu cheiro. Rolou para o lado para se sentar no chão, coçou a cabeça em frustração. O eucalipto e a terra molhada agora eram mais intensos.

Nem passava por sua cabeça ter perdido aquela disputa com as armas. Seu foco era a confusão de informações passando por si, lhe tirando as certezas que tinha como mantra.

Omoi é um rival.

Omoi é um inimigo.

Omoi é alguém a ser superado.

Omoi é quem não quer reconhecê-lo.

Não podia mentir que ainda assim frustrava não ser visto como guerreiro. Mas percebeu que também só via o outro como um objeto assassino. Se encaravam de formas diferentes. Não se sentia errado, só… não fazia sentido. Ele não queria o título? Não queria por ser ômega? Era só… ele?

— Sempre falo demais, mas a sutileza não funciona. – ouviu Omoi murmurar ao seu lado para si mesmo, algo que esperaria de alguém fazendo sozinho, não com companhia tão próxima. – Treinos são mais fáceis. Tente de novo. Não dá para tentar de novo com as pessoas.

Kiba não queria ouvir o monólogo. Se levantou, olhou ao redor com a pouca luz em busca de seus chakrams, e os prendeu junto à cintura. Sentia o olhar de Omoi às suas costas.

— Está tarde, os nossos sentirão nossa falta. – disse ainda sem olhá-lo, mas esperou de pé sem caminhar.

Omoi se levantou devagar. Pegou a katana, limpou no próprio kimono e colocou em sua bainha. Já esperava que o sangue fizesse alarde quando chegasse, então precisava criar logo uma desculpa, ou começariam uma guerra no acampamento mesmo.

Mais uma vez, Kiba seguiu em frente. Omoi deixou-se ficar para trás, preferindo manter distância do cheiro cítrico e de parreiras para evitar maior tristeza do que sentia. Seja qual fosse o destino que tivessem amanhã, o que estava feito, já estava feito. Havia tentado, mas era apenas um rival para Kiba. Podia se conformar. Não podia obrigá-lo a querer mais. Aquela estranha relação que já tinham era divertida, de certa forma. Um melhorava em detrimento do outro.

Só viu que Kiba havia parado quando estava a trinta centímetros de trombar com ele. Percebeu que o cheiro de uvas desprendia com maior intensidade. Ele estava ansioso. Parecia prestes a pular.

O ômega estava parado, olhando a paisagem, e se virou de uma vez para Omoi. A lua havia se erguido o suficiente para ver suas feições. Sobrancelhas franzidas como se fosse jurá-lo de morte, Omoi não se surpreenderia. A ferocidade de Kiba era uma marca registrada dele, afinal. E a adorava.

— Você está preparado para morrer amanhã? – foi o que o mais novo disse.

— Você não? – arqueou uma sobrancelha. Sentia falta do palito na boca.

Olhou para o lado em busca de alguma planta cujo talho ou galho não fossem amargos para mordiscar.

— Ainda não.

Sentiu Kiba antes de vê-lo. Foram reflexos pobres para seu nível de treinamento, mas seus mestres podiam perdoá-lo se sentissem a essência de Kiba perto daquela forma, principalmente depois de tê-lo sobre si. De qualquer forma, teve os braços segurados e a boca tomada com volúpia antes de encarar os olhos abertos de Kiba, fendas irritadiças que logo se fecharam.

Graças ao soco de mais cedo, o beijo tinha gosto de sangue, mas era doce como Omoi gostava de imaginar ao ficar com Kiba. A curiosa marca da descendência de Barça vinha em forma de dentes afiados e as presas do ômega raspavam em sua língua e lábios, atritando beijo de uma forma selvagem e crua na sua forma mais faminta e necessitada. Omoi sentia que Kiba queria devorá-lo, em seu lado mais selvagem, e degustar daquele momento foi natural.

Tão natural quanto foi estender as mãos e agarrar a cintura alheia, firme entre seus braços. Kiba não era muito menor que ele e certamente não perdia em músculos. Nada importante, pois era um encaixe perfeito onde o beijo se estendeu, elevando o calor dos corpos e fazendo a essência de Kiba inebriar seus sentidos. Ah, o vinho, tão doce quanto se estender nas parreiras de verão.

Já Kiba se sentia enfrentando uma tempestade. No momento em que havia sido retribuído, descobriu que Omoi não era pesado apenas com os braços. Tudo nele exigia mais resistência de Kiba que se sentiu no céu ao ser empurrado pela trilha até ser deitado na vegetação, envolto do cheiro da montanha em sua eterna chuva.

Uma chuva densa, que desatou os nós de sua capa de pele de raposa e colete de couro. Omoi se apoiava nos joelhos, entre as pernas de Kiba, ainda longe demais para os dois. O herdeiro queria puxar o líder para tomar-lhe os lábios mais uma vez. A natureza paciente de Omoi, no entanto, foi responsável por despi-los. Nem Kiba sabia desatar as presilhas de sua armadura com aquela destreza, mas ainda assim estava impaciente.

A primavera havia acabado de chegar, ainda restava o frio do inverno que envolveu a pele nua de Kiba com a brisa. Resmungou palavrões da antiga língua dos Inuzuka que fizeram Omoi rir, mas não parar de apreciar o corpo do guerreiro que tinha diante de si. No auge de sua juventude e força, músculos trabalhados e delineados com pelos castanhos se arrepiando com o frio que lhes chegava.

— Anda logo, idiota. – resmungou Kiba puxando as fivelas da frente de sua armadura.

Omoi despertou de seu momentâneo transe e se despiu também, agora com igual pressa. Estavam a uma noite de seu destino que poderia ser fatal. Aquele poderia ser o último momento em que poderia ter algum prazer com Kiba e não queria perder mais um segundo.

Ambos impacientes, ambos com frio.

Não, o frio não era mais tão importante. Omoi estendeu os casacos de pele para apoiar Kiba. O ouviu resmungar sobre cuidado desnecessário, mas não se importou. O ômega também logo esqueceu quando arrastou os lábios quentes sobre a pele de seu pescoço, sentindo como a fonte do cheiro cítrico e doce de sua essência.

Amava aquele cheiro. Fosse o que acontecesse no dia seguinte, estava fadado a nunca mais se interessar por mais nenhum além daquele. Foi capturado, envolvido e feito prisioneiro por aquele homem e ele nem tinha ideia.

O que Kiba pensava no momento era no corpo que se apoiava ao dele. Sentia-se já úmido com a lubrificação ômega o preparando para o que tanto ansiava. Porque seu corpo ansiava por aquilo. Foram anos em que apenas assistia, admirava e se inspirava, num acúmulo de sentimentos que descobriu estarem ganhando força ali, com o cheiro do alfa, com seu toque quente, com os lábios que lhe tomavam a respiração dos lábios com devoção. Deixou-se entregue. Abriu mais as pernas, o puxou para um abraço em que se encaixaram perfeitamente, mas ainda não o suficiente.

Mordeu-lhe o ombro com força quando Omoi parecia querer alongar aquela preliminar. O herdeiro de Barça o queria inteiro e queria agora.

Omoi o deu tudo de uma vez em uma só investida, que fez Kiba se arquear e um xingamento se arrastar por sua garganta. O alfa tremeu para se conter, pois a sensação era indescritível de tão boa. Queria apenas se mover de novo e se enterrar até esquecer que era humano. Foi paciente, esperou, murmurando para si mesmo palavras antigas de sabedoria de Real, pois precisava da ajuda dos deuses em se conter.

Noble y bélico adalid – ofegou e apoiou o rosto contra o cabelo de Kiba. – caballero del honor…³

— Por que caralhos você está rezando? – O ômega mal tinha voz, mas lhe sussurrou entre desejo e raiva. – Se mexe logo!

Não se preocupou em manter controle após aquela permissão. Recuou e jogou seu quadril imediatamente, arrancando gemidos profundos de si e de Kiba.

O ômega não era semelhante a nenhum outro com que já havia estado. Não só por ser um herdeiro, mas pela sua selvageria. Descobriu-a por seus gemidos altos e desinibidos. Por suas unhas lhe marcando as costas, afiadas como garras. Por seus dentes, fincando nos ombros de Omoi quando lhe atingia a próstata.

Em outro momento teria pensado em aproveitar mais cada segundo, mas Kiba foi capaz de despertar o lobo adormecido em si. Um animal que clamava por algo cru como sexo bruto sob o luar na floresta.

Sim, havia luar. A lua despontou em algum momento além das árvores, única testemunha da relação selvagem que desprendia gemidos e uivos dos dois homens em uma luxuriosa união.

Não se importaram com tempo, com com o lugar, muito menos em se conter. Foram ao limite um do outro, se mordendo e arranhando, provando mais do que o corpo ou o sangue. Naquela noite, atravessando a madrugada, uniram-se em espírito. Estavam conectados como nunca estiveram com mais ninguém.

Horas mais tarde, quando a aurora se erguia, ainda não haviam dormido. Se abraçavam, deitados na terra e cobertos com seus casacos de pele. Kiba tinha a cabeça deitada contra o ombro de Omoi. Precisavam ir antes da luz alcançar a copa das árvores. Era o fim daquela experiência.

— Agora está pronto? – perguntou Omoi. Kiba suspirou.

— Agora sim. Vamos até o fim com aqueles desgraçados.


O


Hinata abriu esperava no hall quando Itachi chegou. Era impossível para a agente negar a vontade de se encolher diante da presença do Uchiha. Não havia mortal que negasse a beleza, mas a aura medonha afastava a maior parte deles. Estava acostumada com Sasuke, mas Itachi era outro nível Uchiha.

De qualquer forma, ela ainda precisava lidar com ele e guiá-lo até Kiba.

— Itachi-san. – acenou com a cabeça.

— Hinata. – ele retribuiu o cumprimento.

— O cu dele na minha rola! – a voz de Kiba retumbou vinda do interior da casa.

Não era realmente necessário que Hinata o guiasse até Kiba. Ele já era um chamariz.

Itachi arqueou a sobrancelha em uma pergunta muda. Hinata apenas sorri, acostumada.

— Ele está assim desde ontem, mas ainda inofensivo. – virou-se para os corredores.

— E você não está incomodada com as histórias? – Itachi perguntou às suas costas.

— Por que eu ficaria?

Houve  um momento de silêncio em que podia sentir o olhar de Itachi queimar-lhe as costas. Hinata sentiu o costumeiro gelo do medo que a intimidação Uchiha poderia provocar.

— Não precisa fingir que não possui uma relação com Kiba.

Hinata sentiu o passo ficar mais leve quando chegaram no corredor da sala de visitas.

— Não se preocupe. – sorriu solene sobre o ombro, voltando a olhar para frente. – Nenhuma ficção me abala.

Kiba estava no sofá, brandindo a muleta na direção de Shino como se fosse uma espada. O empresário permanecia como uma estátua, inabalável diante dos xingamentos e rosto vermelho do artilheiro.

Sasuke esperava próximo à porta. Maleta em uma mão, celular na outra. Ele parecia digitar uma mensagem e se interrompeu com a entrada dois dois.

Os Uchiha se cumprimentaram silenciosamente, enquanto Hinata precisou ir até Kiba e colocar a mão em seu ombro para que o camisa 9 se acalmasse. Kiba a encarou, abaixou a muleta e resmungou baixo, soltando o ar para o lado. Parecia até um cão que havia ficado envergonhado de sua atitude com a chegada do dono.

— Vejo que já está voltando à empolgação natural, Kiba. – Itachi se aproximou junto de Sasuke e os dois sentaram-se no sofá diante do artilheiro. – Já adiantei com seus empresários para lhe comunicarem. Não encontramos nada que aflija diretamente sua imagem nas histórias. Estão sim usando seu nome, mas você sendo uma figura pública limita nossos recursos. Se quiser mesmo entrar na briga com essa garota, podemos ganhar, será lucro para nossa companhia, mas não para você. E será ruim para sua imagem.

— Ruim como? – Kiba cruzou os braços. – Mais do que ser fodido literalmente por Omoi?

— Você está exagerando. – Sasuke foi direto. – São pessoas que fantasiam relações de você e Omoi como fantasiam com novelas e outros romances. Inofensivo, mas você se sente afetado como se lhe apontassem um crime.

— O que Sasuke quer dizer – Itachi retomou a palavra. – é que você parece ter medo de acharem que é gay.

Foi visível para todos da sala o quanto o corpo de Kiba endureceu. Ele entortou a boca, deixou a muleta de lado e cruzou os braços.

— Não, não sou. E também não tenho nenhum preconceito. É só constrangedor para um caralho saber que pensam coisas assim quando eu for jogar com o Omoi. Caralho! Há muito contato nos jogos! Ele também pode achar estranho e os outros caras e…

— Kiba. – Itachi o interrompeu. – Se qualquer preconceito nascer disso, então sim, nós acabaremos com a raça de cada um que apontar o dedo. – um brilho sugestivo e maligno flamejou dos olhos escuros. – Eu garanto que não restará nem sobras.

Hinata conteve engolir em seco. Tinha um pai severo, mas Uchihas… Demandavam outro treinamento.

Kiba resmungou para o lado, direcionando seu olhar para Akamaru.

— Concordamos com Itachi-san, Kiba. – disse Shino, prostrado ao lado de Hinata, atrás do assento de Kiba, como dois guardas. – Prosseguir manchará sua imagem.

— E se quer desviar um pouco das atenções, pode assumir seu relacionamento com Hinata. – sugeriu Sasuke.

Kiba olhou para Sasuke de repente alarmado, o rosto se tingindo de vermelho. Hinata não chegou a ver esse detalhe, pois ela mesma estava encarando o Uchiha mais novo com a face esquentando. Kiba era a estrela a ganhar foco, não ela.

— Nós... não... – Kiba começou e Itachi abanou a mão uma fez em gesto de dispensa.

— Não é necessário. – ele voltou a falar. – Mas se isso lhe preocupa, é uma possibilidade que sugerimos que você discuta com seus agentes.

Devagar, o artilheiro assentiu.

— Isso inclui... casamento?

Hinata sentiu os joelhos vacilarem. Mal notou o surpreendente arregalar de olhos dos Uchihas, gesto que entrava na categoria de "raros" nas expressões da família, nem a tosse de Shino. Pelos deuses, Kiba não tinha tato? Não poderia haver pedido de casamento mais terrível que aquele.

— Na prática... sim. – respondeu Sasuke, lançando um olhar curioso na direção da agente. – Podemos fazer os arranjos legais, se lhe interessar.

— Kiba, isso é insensato. – Shino disse rápido.

— O quê? – Kiba olhou sobre o ombro. – Não é a mesma coisa.

— Kiba-kun. – Hinata precisou vestir sua máscara de empresária. Não era de seu feitio tratar Kiba com seriedade, podia ficar mais a vontade com ele, ser a doce e paciente Hyuuga. Mas ser colocada naquela posição foi demais e Hanabi jamais a perdoaria por deixar aquilo passar. – Eu não quero ser usada como uma prova de sua heterossexualidade.

O tom deixou os quatro homens paralisados, o silêncio a encarando de volta. Mesmo Akamaru pareceu subitamente interessado em observar a agente.

— Mas... não... eu... – Kiba franziu o cenho. Ele também mudava quando era com Hinata. Ele ficava amável e gentil. Sabia que atitudes como aquelas eram apenas para os outros.

Mesmo assim, não perdoaria.

— Não está pronto para casar se pensa em me fazer uma proposta dessa forma. Sei que mereço mais. – ela assentiu uma vez. A máscara de empresária podia durar horas para estranhos, mas ainda sentia os joelhos bambos. – Eu lhe aceito quando você se aceitar. Até lá, prefiro que mantenhamos esse arranjo.

Shino, Sasuke e Itachi repararam. Kiba não. Hinata podia ver pela visão periférica as sobrancelhas se erguerem, manteve a atenção no Inuzuka, que não parecia ter percebido a indireta lançada à sua sexualidade.

Não que fosse uma grande urgência.

— Certo. – o artilheiro abaixou a cabeça, torcendo a boca envergonhado, e murmurou. – Desculpe.

Hinata se permitiu sorrir. Com o silêncio que se estendeu, Itachi limpou a garganta.

— Muito bem, acho que chegamos a um acordo. – ele sorriu e se levantou. – Não se preocupe, Kiba. Ninguém vai levar uma coisa assim a sério por uma história de nível mediano.

Kiba assentiu, ainda em sua introspecção.

— Obrigado por tudo, Itachi-san, Sasuke-san. – Hinata sorriu e fez um gesto para que lhe acompanhassem.

Eles o fizeram em silêncio, apenas o som do solado dos três. Abriu a porta e fez uma respeitosa reverência com a cabeça.

— Me surpreendeu lá dentro, Hinata. – Itachi comentou enquanto retribuía o aceno. – Desejo-lhe o melhor.

Hinata não estava lidando bem com os próprios joelhos. Mas conseguiu se manter de pé ao sorrir e esperar que os dois saíssem.

Quando enfim a porta estava fechada, precisou se apoiar na maçaneta. Uchihas, fanfics, Kiba e pedido horrível de casamento. Estava chegando no limite de sua compostura.

Respirou fundo. Muito bem.

História mediana, certo? Precisava treinar mais.



¹ – Referência ao primeiro episódio do anime Basilisk Kouga Ninpouchou. Mas referência só do título mesmo.

² – "Okami" significa "Lobo" em japonês, mas quis fazer uma brincadeira com "Kumo", o vilarejo de Omoi no universo original.

³ – Eu joguei o hino do Real Madrid no meio de um lemon. Estou sem limites.

4 мая 2018 г. 23:00:17 4 Отчет Добавить 5
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Crazy Clara Eu sou só doida mesmo. Mas é um grande prazer conhecê-lo!

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Kaline Bogard Kaline Bogard
Primeiramente, fora temer. Não! Primeiramente, aqui é ShinoKiba forever. Mas quem nunca deu uma escorregada de vez em quando? Já disse no Nyah, mas vim reforçar. Essa história ficou muito boa. E a cereja do bolo: a fanfic dentro da fanfic! ABO me seduz facil. Quando bem escrito, então... não dá pra resistir! Aproveitei pra reler e morrer um pouco, por não saber como esse Alpha e esse Omega terminaram! NOOOO queria tanto saber... Além disso.... desculpa, shippei muito Itachi com Hinata ♥ Parabens pela história.
19 августа 2018 г. 9:30:43
Yoh Yoh
A Hinata meu deus! Kdkdjdjd Nossa, me surpreendi o tempo todo. Agora entendi o duplo sentido do nome da fic da Hinata... Ficou incrível, realmente genial. Ainda rindo ao lembrar dos detalhes
Stolas Stolas
você só pode tá de brincadeira comigo COMO VOCÊ CONSEGUE SER TÃO GENIAL? QUAL A FÓRMULA EU QUERO APRENDER Hinata sua linda vc arrasou querida mediana é o caralho tô de pau duro aqui scr aaaa quero gritar mto

  • Crazy Clara Crazy Clara
    Eu não acreditei que escrevi isso. Ainda não acredito, é muita loucuuuuuraaaaaa!!!! Mas sério mesmo que gostou? Fiquei num medão da recepção. Além de ser um crackship muito louco (g-zuis, que que Kiba e Omoi tem a ver um com o outro???), ainda taquei referências com times de futebol e universo ninja. Socorro, que suruba. Fico muito feliz que tenha te deixado de pau duro, satisfação encheu aqui. Obrigada pelo feedback! 6 мая 2018 г. 10:11:55
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