K. no Clube dos Homens Bonitos Подписаться

carlos-franco9608 Carlos Franco

Ao preparar sua mudança, buscando dar uma guinada em sua vida, K. se depara com o livro Clube dos Homens Bonitos, de Marco Lacerda, que o leva de volta a um sonho acalentado no passado e que agora volta a fazer sentido.


Короткий рассказ 18+.

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Короткий рассказ
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CAPÍTULO ÚNICO

K. estava apressado. Precisava colocar os livros dentro da caixa e ainda tinha que mostrar a compradores alguns móveis que não levaria na mudança: uma estante antiga, de madeira nobre, de lei como dizia seu pai, e uma escrivaninha onde guardava seus documentos, chaves, enfim sua vida, aquela vida que os papéis atestam que foi vivida e os seus dividendos, além de um lustre, algumas almofadas e outros tantos eletroeletrônicos, como um forno de micro-ondas, uma geladeira e um fogão.

No meio da confusão entre jogar fora o que não carregaria mais, separar o que daria aos amigos de presente, K. se deparou com o livro Clube dos homens bonitos. O texto do jornalista, como ele, Marco Lacerda o encantou quando o leu no final dos anos 1990 (a obra fora lançada pela Objetiva em 1996), pois abriu a sua percepção para livros de reportagens. De repente, esqueceu-se das tarefas daquela tarde e que seriam muitas, sentou-se no sofá que deu de presente a A., que o pegaria no dia seguinte, e decidiu reler o que tanto o encantara enquanto aguardava os possíveis compradores.

As páginas pareciam ter perdido aquele frescor da novidade. Não que tivessem amarelado, pois ele guardava muito bem os seus livros, por vezes até os embalava com plástico para evitar o acúmulo de poeira, mas não encontrou nas primeiras frases aquele sabor da novidade quando um jornalista livre das amarras das redações, o desenho das páginas enquadrando o texto e os ponteiros do relógio convidando para um desfecho rápido na narrativa ganha a liberdade de criar. O que o encantara na leitura há 20 anos, era essa possibilidade de transitar entre a literatura e o jornalismo de que desfruta quem escreve uma reportagem em forma de livro.

Mas ao abrir a porta desse clube, o Clube dos Homens Bonitos, K. encontraria algumas das respostas que tanto procurava para o sumiço de G., que precipitara a sua mudança e a intenção de realizar o antigo sonho de morar numa praia distante, vivendo da parca aposentadoria e a complementando com um bar ou restaurante, ele ainda não sabia ao certo. Por sugestão da amiga D. também desenhou nos planos uma cafeteria onde pudesse colocar os livros para leitura e também vendê-los, já que eram muitos na sua bagagem. A ideia de outro amigo de fazer um curso rápido de cabeleiro e de ter um pequeno salão não o convenceu. Tesouras e navalhas estavam distante do seu mundo. Dar aulas também estava fora cogitação.

O que K. queria mesmo era entender o que acontecera a G. numa tarde do último verão, quando partiu sem dar nenhuma explicação. Lá se vão quatro meses que sumiu; simplesmente desapareceu do seu raio de visão, do bairro, talvez da cidade. E o ponto de partida do livro que tinha em mãos era justamente o mistério que envolve um crime no cenário deslumbrante do Golden Gate Park, em São Francisco, nos Estados Unidos. G. ele sabia que G. não foi assassinada ou algo parecido, mas seu sumiço está envolto numa cortina de mistério e ele precisa de uma faca, uma tesoura, um bisturi, uma navalha ou algo cortante para rasgar esse véu. Exatamente como o faz o jornalista escritor Marco Lacerda ao mergulhar no submundo de São Francisco, atravessando os anos loucos do final da década de 1960 até os anos 1990, onde os ventos sombrios da Aids diluem a alegria esfuziante desta cidade norte-americana para desnudo mostrar o crime e seus antecedentes com passagens pelo Nepal e Minas Gerais. O autor constrói um texto dinâmico e arrojado, uma reportagem policial com pinceladas precisas de literatura.

Esse tipo de narrativa de Marco Lacerda levou K. a ler também, naquela época, a obra Favela high-tech, onde o mesmo jornalista deixava transpassar as qualidades literárias de seu texto e a sua vontade de desvendar o submundo das megacidades por meio de livros reportagens. A prostituição em Tóquio cedeu lugar, assim, a de São Francisco e, unindo as duas obras, a cultura e o universo zen como chaves.

K. ficou impressionado com a sugestão de um monge no livro que tinha em mãos de que “os segredos da vida estão nas sombras, nunca a céu aberto”. Ficou imaginando o que teria acontecido a G. e voltou a aprender que, “se você quiser entender os segredos dos mortos, procure a resposta na sombra dos vivos”, não que G. tivesse morrido, mas era uma quase-morte, na realidade uma morte para ele que já não a via faziam meses. Entendeu, então, que as pessoas por vezes somem, por amar demais ou não querer amar mais como antes. O livro fluía e G. desaparecia gradualmente da sua retina.

Nessa mescla de pensamentos, deu vazão à leitura do Clube dos Homens Bonitos, onde para reconstituir a história real do personagem, Marco Lacerda traça um painel detalhado da aristocracia mineira no início da ditadura militar brasileira após o golpe de 1964. O personagem central da trama, o milionário Bruno Fraga, filho do empreiteiro Herculano Fraga, tem um destino traçado pelos pais: curso de Direito em Harvard, em 1968, casamento em sociedade e, posteriormente, como filho único, o comando das empresas da família.

O endurecimento da ditadura militar, em 1968, quando Bruno completa 18 anos e deveria partir para os Estados Unidos, abrirá, porém, os seus olhos para outra realidade: a repressão financiada pela aristocracia empresarial na figura de seu pai. E, ao mesmo tempo, a descoberta de um mundo novo no Stage Door, um bar de mezanino do Teatro Marília, em Belo Horizonte: drogas, sexo e rock. Pelas mãos de Chocolate Jorge, uma espécie de guru anarquista da turma desse bar, Bruno descobrirá o LSD e a homossexualidade. E, na sequência, a reação familiar, a perda do amigo recém-conquistado e, depois, o vazio.

Por fim, a viagem aos Estados Unidos, não mais para estudar em Harvard, mas para viver, agora por conta e risco próprios, na cidade californiana de São Francisco. Como tantos brasileiros que partem para outro país, Bruno irá se virar por meio de pequenos biscates até se transformar numa das mais famosas drag queens do Clube dos Homens Bonitos de São Francisco e perder sua identidade em meio a drogas e sexo até, de novo, nessa busca frenética por si próprio e outros, se reencontrar num templo

Ao seu encontro parte de Belo Horizonte, outro jovem, Teodoro Nava, à procura de sua identidade. Marco irá conviver com Bruno na tentativa de desvendar essa busca de Teodoro. Entrará nos templos Zen e conviverá com o monge Taizen Korematzu, acusado da morte do brasileiro, encontrado com um tiro e sinais de violência no corpo no cenário deslumbrante e cinematográfico da ponte que emoldura o Golden Gate Park.
Esse é o mistério do livro reportagem, cujas sombras serão pinceladas ao longo de 130 páginas até o surpreendente desfecho final.

Uma das qualidades que K. percebeu em Marco Lacerda foi o uso adequado da tática do quebra-cabeça, que leva o leitor a percorrer ansioso a história à procura da verdade, uma vez que os personagens a ocultam, são sombras da narrativa. Outra característica marcante na obra, pensou K., estava no falar a verdade, sem preconceitos. Os fatos apresentados com crueldade, não escondem a preocupação em preservar e querer entender o outro. E, sobretudo, fazer com que o leitor compreenda a geração, na qual se enquadra a história, que conviveu com o golpe militar, a repressão, as alucinantes viagens dos anos 1960, as utopias e a morte, nesse caso, representada pela Aids que diluiu muitos dos sonhos de liberação sexual.

K. fechou o livro, certo de que é preciso viver, viver intensamente e ainda há sonhos a serem realizados, clarões distantes das sombras, revelando os segredos da vida. Talvez o que sonhou no passado, há 20 anos, quando entrou pela primeira vez nas páginas do Clube dos Homens Bonitos possam tornar-se reais. Na praia, distante das dores do mundo, poderia, enfim, deixar os dias fluírem. Quem sabe até voltar a escrever. Quem sabe até G. apareça para uma visita. O interfone do pequeno apartamento tocou e, revigorado, K. atendeu. Era G..

20 марта 2018 г. 18:13:28 0 Отчет Добавить 0
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