Royal blood Подписаться

caulaty Cau

Londres, ano de 1902. Seres humanos e seres sobrenaturais coexistem na Sociedade Inglesa sob o punho de ferro de um rei tirano há trezentos anos. Uma rebelião prestes a eclodir dos dois lados; os vampiros se erguem, liderados pelo sobrinho do rei, enquanto os humanos lutam nas ruas pela própria sobrevivência. Todos querem a cabeça do rei. E Kyle Broflovski, um vampiro ainda apegado às raízes humanas, acredita que as duas raças serão consumidas se não trabalharem juntas. Sua única esperança é convencer o líder dos vampiros, com quem cultiva uma relação complexa e doentia.


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#vampiros #south park #Gregory/Kyle #greyle #AU histórico #universo alternativo #vampire AU
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A fonte da qual se bebe

 “Esta é a sua verdadeira casa. Aquelas pessoas, as que você costumava chamar de pai e mãe e irmão, elas não existem mais em sua vida. Elas não são mais o centro de tudo. Nós somos. Esta é sua família, garoto, nós somos seus irmãos. Essa é sua casa. E você voltará um dia.”


Chovia sobre o castelo, a fortaleza imponente de pedras escuras que parecia alcançar os céus, olhando-se de baixo para cima. À luz do dia, seria possível enxergar o maltrato de quase dois séculos de existência sobre aquela construção; mas era noite. A camada antiga de tintura já se descascava, deixando à vista os tijolos por baixo. O homem atravessava a imensa ponte suspensa sobre o lago que cercava a fortaleza, apertando os olhos com curiosidade conforme o castelo ficava cada vez mais nítido. As gotas de chuva produziam pequenas ondas no espelho do lago. Já haviam enxergado o seu cabelo crespo no caminho até ali, mas a chuva não o amedrontava, não era o suficiente para fazê-lo andar mais rápido. A palma de sua mão deslizava sobre as cordas da ponte, apertando-a por vez ou outra sem perceber que isso aliviava a angústia em seu coração. Um pouco, pelo menos.

Ao chegar ao outro lado, tudo o que faltava era atravessar o pátio onde eram exibidas as mesmas estátuas representando anjos caídos de asas extraordinariamente detalhadas. Ah, as lembranças de se sentar naqueles mesmos bancos de pedra por horas a fio para admirar o jardim de primavera no meio da noite. Quanto tempo fazia? Cinco anos, já? Ele nem saberia dizer. Parecia muito mais do que isso, uma vida inteira atrás. Mesmo assim, sua pele continuava intacta, com o mesmo brilho jovial daquela época. O tempo não o havia tocado, jamais o tocaria novamente. Continuava com o mesmo rosto de dezoito anos de quando foi trazido para essa prisão pela primeira vez. O mesmo rosto de quando jurou nunca mais pôr os pés ali. E agora lá estava ele, Kyle Broflovski, batendo na porta do próprio inferno mais uma vez.

Tocando a campainha, para ser mais específico.

O som ecoou através dos corredores do castelo. A chuva começava a diminuir. Levou quase dois minutos até que Kyle ouvisse o som de sapatos de salto baixo caminhando através do hall de entrada, produzindo um som constante no piso de mármore. A imensa porta vermelha se abriu com um barulho alto ao ser destrancada. Kyle ficou grato pelo rosto que apareceu à sua frente. A pequena mão branca da mulher segurava a porta aberta, pálida e magra como sempre, os longos cabelos vermelhos presos em um coque solto, quase caindo, feito às pressas. Havia muito cabelo naquela cabeça. Cabelos lisos, longos e brilhantes, de um vermelho alguns tons mais claros do que os de Kyle. Os lábios de boneca se entreabriram sem sorrir. As sobrancelhas quase castanhas se franziram rapidamente. Ela quase deu um passo para trás. Kyle podia sentir que ela lutava contra a tentação de fechar a porta e fingir que aquilo nunca havia acontecido. Que ele não estava ali. Felizmente, Red não teria essa coragem. Sem fazer qualquer pergunta, suspirando de forma cansada, ela deu espaço para que ele entrasse.

Não havia nada de diferente. E por que haveria? Kyle estreitou um pouco os olhos pela luminosidade do ambiente ao colocar o pé no hall de entrada. A luz provinha do lustre de ferro desnecessariamente extravagante que pendia sobre a estátua no centro do cômodo. Hades, esculto em gesso nos detalhes mais minuciosos, o tronco nu e uma saia negra longa que se esparramava pelo chão como tecido de verdade, o rosto coberto por um capacete com dois chifres. Imponente. O Deus dos mortos. Apenas um dos cantos da boca de Kyle subiu, não em um sorriso, mas em uma careta impossível de determinar, relembrando os últimos momentos que passara naquele mesmo espaço. Os painéis de vermelho escuro ainda cercavam as paredes com seus detalhes dourados, o espelho de moldura rica continuava pendurado no mesmo lugar. Havia dois arcos nos dois lados do hall e a imensa escadaria, esta também construída em detalhes barrocos excessivos, como tudo que é barroco. Kyle havia passado tanto tempo afastado desse tipo de mundo que, agora, a riqueza dos detalhes trabalhados no mármore eram apenas poluição visual. Ele voltou sua atenção à mulher que o encarava com gigantes olhos castanhos.

O contraste do homem ruivo com a riqueza que o cercava era evidente. Suas roupas eram pobres e rasgadas, seu rosto e cabelos eram sujos e ele pesava pelo menos dez quilos a menos do que na última vez que Red o vira. Não pertencia àquele castelo. Usava sua única capa marrom e grande demais para o tronco esguio, com botões fechados na frente, uma camisa branca e imunda por baixo, uma calça escura e larga que o abraçava apertado nos tornozelos, a sola dos sapatos soltas deixando que a umidade tocasse seus pés. Não havia saúde ou vitalidade em sua aparência, as bochechas brancas como se ele não se alimentasse há anos. Apesar de tudo, a imagem doeu no coração de Red.

Ela tinha sardas pelo rosto, muito mais visíveis do que as dele. Era tão expressiva, incapaz de (ou indisposta) disfarçar tudo o que transbordava dentro dela: defensiva, julgamento, rancor, alívio. Ela o espreitava como se lidasse com um bicho perigoso, e Kyle se perguntou se era isso que ela via agora.

-Oi, Red. - Ele tentou.

Ela agarrou a saia do pesado vestido azul-marinho, cujo busto era quase bege na frente, abraçando a curva da sua cintura de forma sensual. Mas a beleza de Red era dura, excêntrica, difícil de entender em um primeiro olhar. Ao ouvir as palavras dele, ela se lembrou de respirar novamente.

-Você veio para ficar?

-Ele está aqui?

-Você veio para ficar? - Ela repetiu entredentes, fechando a porta pesada com um estrondo natural.

Kyle umedeceu os lábios e desviou o olhar para o lustre mais uma vez, piscando até lubrificar bem os olhos secos, correndo as duas mãos pelo cabelo úmido. Ele estava molhando todo o piso de mármore, o tapete de veludo quase marrom, conforme se movia pelo cômodo. Suas pernas estavam inquietas.

Antes que ele pudesse responder, a movimentação teve início. Perceberam olhos curiosos que os observavam há sabe-se lá quanto tempo, olhos que estavam por toda parte; no topo da escada, nas portas laterais, na porta sob a escada que dava para a cozinha. Vampiros tinham instintos aguçados o bastante para cheirar um problema de longe, Kyle não ficou exatamente surpreso. Todos os rostos eram conhecidos, pessoas das quais ele saberia o nome e a idade, dentre tantas outras coisas, porque aquela foi a sua família durante… Durante o tempo que tiveram que ser, ele pensava. Eles sussurravam entre si, nenhum deles realmente dirigindo a palavra a ele. Ele já podia imaginar. Era um desertor, afinal de contas. Mas havia algo de inesperado nos olhos daquelas pessoas, algo além de julgamento e reprovação. Havia… Havia medo, Kyle pensou. Por que haveria medo?

-Merda. - Alguém disse. Ao virar a cabeça em direção ao som, Kyle reconheceu o rosto pálido de Damien Thorn. Os olhos mais vermelhos do que nunca, casualmente apoiado no corrimão na metade da escada, a camisa preta aberta nos primeiros botões, as presas aparecendo. Mas havia um sorriso de curiosidade que ele tentava esconder.

De repente, sem aviso, Red o agarrou pelo braço. Ele não hesitou ao ser puxado em direção ao corredor que ficava atrás de um dos arcos. Ela não deixou de lançar um último olhar de reprovação para Damien antes de puxar Kyle com mais força.

-O que foi isso? - Kyle perguntou assim que adentraram uma pequena saleta de reuniões com uma mesa longa no centro. Não havia muito espaço para se mover. Havia duas estantes grandes, uma cheia de livros, a outra, cheia de artefatos e cristais expostos. As cortinas eram pesadas, presas por uma corda dourada nas laterais da janela.

Red havia acabado de fechar a porta, ainda segurando a maçaneta com aflição, de costas para ele. Kyle soltou sobre a pesa sua sacola de pano onde carregava todos os pouquíssimos pertences de sua vida. Duas camisas, uma outra calça, nenhuma roupa debaixo, um par de meias. Só o próprio Hades seria testemunha dos invernos rigorosos que ele sobrevivera nas ruas de Londres. Se seu corpo ainda fosse humano, certamente ele não estaria de pé naquela sala. Encontrava-se capaz de caminhar descalço sobre a neve sem grandes problemas, mas houve dias em que Kyle preferiu a própria morte. Morte real. Não essa morte fajuta que lhe foi dada aos dezoito anos.

Ela respirou fundo, virando o rosto de perfil para ele, sem procurá-lo com os olhos.

-O que você quer aqui, Kyle?

-Eu preciso falar com ele.

-Você vai ficar? - Ela perguntou pela última vez, virando-se de frente. Ele estava do outro lado da mesa, próximo à grande janela que dava para o quintal dos fundos. Havia cobrança na voz de Red, uma cobrança raivosa e pessoal, como se a resposta para essa pergunta definisse tudo o que viria dali para frente.

-Isso depende do seu líder, na verdade. - Ele respondeu com um riso fraco e amargurado, cruzando os braços. - Pelo visto, desertores não são bem-vindos de volta.

-Se depende do Gregory, então você vai ficar.

Ele não tinha tanta certeza. Fitou-a com desconfiança, estranheza no olhar, passando a língua sobre as próprias presas dentro da boca.

-O que te faz achar isso?

Red soltou um riso amargo enquanto afundava as unhas no estofado verde-escuro de uma das cadeiras, sacudindo a cabeça como se passassem milhares de coisas dentro de seu crânio naquele momento.

-Aonde você estava? - Ela perguntou com um tom de acusação. Conforme falava, mexia a cabeça sem perceber e o seu coque caía cada vez mais, até que a amarração se soltou por completo e os cabelos longos caíram sobre seus ombros. Mas ela não reagiu a isso. - Parece que você não bebe há semanas. Eu consigo ver os ossos do seu rosto. Posso te arranjar uma refeição decente. Você não quer sentar?

-Não, eu… Eu só quero falar com ele.

O maxilar de Red ficou tenso. As pupilas estavam tão dilatadas que seus olhos estavam quase completamente pretos. Ela parecia inquieta, confusa, batendo o pé contra o tapete macio que abafava o som.

-Você deveria se banhar primeiro. Está com cheiro de cachorro.

-Eu estou bem, Red, só me diga onde ele está.

Ele queria acabar logo com aquilo. Mas os olhos dela, que agora começavam a esboçar algo como compaixão ou angústia, diziam que não seria tão simples assim. Os lábios de Red estremeciam para ocultar algo que ela não sabia como botar em palavras e a antecipação mexeu ainda mais com o nervosismo que já corroía o estômago de Kyle. Ele não queria estar ali, não devia estar ali, e ainda assim, não havia outro lugar no mundo em que pudesse estar.

-Você… Conhecia aquele rapaz, não é? O que decapitaram em praça pública. O humano. Eu estava lá, foi… - Qualquer traço de irritação havia desaparecido da expressão dela. - É por isso que você voltou?

Mas aquilo pareceu invasivo demais. Pessoal demais. Kyle agarrou a sacola de pano junto ao seu corpo novamente e deu a volta na mesa para caminhar em direção à porta. Aquele castelo já foi a sua casa, ele não precisava de uma acompanhante para saber onde encontrar aquilo que veio em busca. Entretanto, Red o segurou, não com um aperto rigoroso, mas com uma mão delicada de apoio em seu ombro.

-Eu sinto muito. Mas Kyle, você não pode… - Ele se virou para encará-la de perto, um desafio implícito nos olhos. - O problema não é você ser um desertor. Não é por isso que você não é bem-vindo. O problema é que a rebelião está quase atingindo o seu apogeu e nós precisamos do nosso líder com a cabeça no lugar. Isso não vai acontecer se você atravessar aquela porta e falar com ele. Se ele souber que você está aqui…

-De que merda você está falando, Red?

-Você não pode imaginar o rastro de destruição que você deixou quando foi embora.

Ele piscou algumas vezes, parecendo mais incomodado do que propriamente confuso. Ela tentou segurá-lo pelo pulso, mas ele se afastou, acuado contra uma estante. A cabeça pendendo para frente, os olhos baixos.

-Eu sei que isso não é culpa sua. - Ela prosseguiu. - Mas se você não veio para ficar, nem se dê ao trabalho de vê-lo. Ninguém mais tem tempo de catar os pedaços dele.

-Red, faz cinco anos.

-Eu sei que isso parece muito pra você, mas não para ele.

Kyle ainda não havia sido vampiro por tempo o suficiente para perceber o quanto era relativo, lutando pelos seus últimos apegos de humanidade. Era assim para todo mundo, Red imaginava, pelo menos nas primeiras décadas. O conceito de “eternidade” era algo efêmero demais para ser absorvido, algo que existia apenas no campo do exagero. Red já havia sido transformada há quase setenta anos e, mesmo para ela, ainda era difícil de entender. A velhice deixa de existir, não somente em seu corpo físico, porque para haver velhice, é preciso que haja uma ideia de que o final se aproxima, um contato com a morte do corpo. Vem a experiência sem o cansaço, a maturidade sem a impotência, tudo está ao alcance do amanhã e a bagagem fica cada vez mais pesada. O tempo se dilata, se torna uma coisa maneável.

E para um homem como Gregory de Yardale, que estava vivo e íntegro há trezentos e vinte anos, que havia assistido ao mundo mudar e atravessado transformações, adaptado-se a elas, cinco anos não era nada. Era ontem.

Mas nem era a isso que Red se referia. Na sua percepção, ainda que se passassem mais trezentos anos, não seria o suficiente para que Gregory esquecesse esse garoto magro, franzino e egoísta à sua frente. Red gostava de Kyle. Amava-o, até, como um dos seus irmãos. Mas isso não a impedia de odiar tudo o que ele representava para o seu líder. Ela nem sequer conseguia entender como uma criança como essa poderia ter tanto poder sobre um homem de três séculos.

Na verdade, fazia sentido. São as crianças que, inconscientemente, seguram nas mãos um potencial de vida extraordinário que enlouquece os adultos. Red chamaria isso de um bom e velho instinto de proteção.

O rosto de Kyle se mostrava irredutível. Ele se mantinha de braços cruzados, sua bolsa pressionada contra o tronco, sem mover um músculo. Porque não havia nada que ela pudesse dizer que o convenceria a voltar atrás. Os dois seguraram o contato visual durante alguns segundos, até que a mulher respirou fundo e esfregou o rosto, balançando a cabeça.

-Certo. Ele está no escritório, eu te levo até lá.

-Eu sei onde é o escritório.

-É, mas visitantes não têm permissão de perambular sozinhos pelo castelo. - Red respondeu com um sorriso de provocação enquanto abria a porta.

O escritório ficava no terceiro andar. Kyle seguiu Red respeitosamente como se nunca tivesse subido aquelas escadarias extravagantes, observando como os séculos de uso desgastaram os degraus de mármore. Passaram por alguns vampiros, nenhum deles fazendo questão de desviar a atenção quando Kyle os encarava diretamente nos olhos. Sentia-se como uma atração de circo, um animal exótico de zoológico, as palavras de Red ressoando em seu cérebro: “O problema não é você ser um desertor. Você não pode imaginar o rastro de destruição que você deixou quando foi embora.” Ele não sabia exatamente o que isso queria dizer. Entretanto, enxergava nos olhos avermelhados, negros e castanhos dos residentes do castelo que Red teria dito a verdade.

Caminhavam pelo corredor longo e escuro de carpete vermelho, passando por quadros imensos de pinturas renascentistas, muitas com temas religiosos. Gregory adorava esse tipo de coisa. Durante algum tempo, Kyle apenas encarou a nuca branca de Red – que havia prendido os cabelos novamente, agora com mais firmeza – para não cair na tentação de virar para os olhos atentos das pinturas que sempre pareciam segui-lo. Nunca gostou daquele corredor. Eles passavam por baixo de arcos brancos e dourados no teto. Kyle olhava para eles também.

Ao parar em frente à porta, Red ofereceu a ele um breve olhar que poderia significar milhares de coisas. Compaixão, incerteza, um aviso de “cuidado” que poderia valer para qualquer um dos dois, um pedido de “não faça isso”. Foi apenas um olhar, não durou mais do que dois segundos. O suficiente para arrepiar a espinha de Kyle. Não o suficiente para fazê-lo hesitar.

Ela bateu à porta três vezes.

-Senhor? - Chamou, diante do silêncio. Sua mão já girava a maçaneta dourada antes de esperar por uma resposta.

Lá estava ele. De pé em frente à imensa janela, as cortinas bordô abertas, banhado pela luz da lua. De costas para eles. Os braços para trás, segurando o próprio punho. Kyle reconhecia a largura daqueles ombros, o tronco vestindo o veludo azul mais rico, o paletó com uma faixa na região da cintura. O cabelo dourado na altura do pescoço, mais longo do que quando se conheceram, os fios quase tocando os ombros. Ele já sabia. Não reagiu imediatamente, o rosto ainda oculto no campo de visão de Kyle, encarando através do vidro da janela. Lá estava ele. O homem que Kyle mais desprezava nesse mundo.

-Obrigado, Red. - Ele disse sem se mover. - Pode ir.

Prontamente, sem hesitar ou lançar qualquer outro olhar compreensivo na direção do ruivo, ela os deixou a sós. Kyle gostaria de dizer que não sentiu um calor insuportável ardendo de dentro para fora diante da ideia de ficar sozinho com aquele homem, gostaria de dizer que houve coragem e certeza o tempo inteiro, mas isso seria mentira. Fechou os olhos por alguns segundos, adentrando mais a sala, afastando-se da porta que Red fechou ao sair. Era uma das salas mais espaçosas de todo o castelo. O fogo aceso na imensa lareira estalava devido à lenha, o único barulho preenchendo o espaço durante uma eternidade. Ou cinco segundos, Kyle não soube dizer.

Havia dois degraus que levavam a uma pequena elevação onde ficava a mesa de Gregory, logo em frente à janela. Era ali que ele estava, alto e imponente, dono do seu pequeno mundo. As cortinas tinham uma estampa bordô e dourada em desenhos barrocos. O brilho alaranjado da lareira tocava a lateral do corpo de Kyle enquanto ele se aproximava de uma das poltronas brancas, repousando sua sacola sobre ela, mas continuou de pé.

Quando ergueu a cabeça, Gregory havia se virado. Não saiu do lugar, mas mesmo assim, foi um susto encontrar aqueles olhos imensamente azuis o estudando. O azul da íris tomava conta de tudo, as pupilas eram tão finas que apareciam muito pouco. Kyle enterrou as pontas dos dedos no encosto da poltrona que segurava, encarando-o de volta como se não estivesse assustado.

-Olá, Gregory.

Lentamente, um sorriso nasceu nos lábios do vampiro loiro a alguns metros dele. Era tão bonito, aquele rosto. Um maxilar quadrado, mas delicado ao mesmo tempo, um nariz reto e fino, traços fortes e elegantes desenhando suas sobrancelhas e as maçãs do rosto. Os lábios eram suaves, o inferior levemente mais grosso, uma curva bem marcada no arco do superior, cuidadosamente esculpidos como todo o resto. Nem parecia o rosto de um monstro. A ideia fez Kyle retribuir o sorriso, mas não com felicidade; soltou o ar pelas narinas em um bufo amargurado, erguendo um pouco o queixo ao observar a reação do homem que o transformou no que era hoje.

Gregory tinha os cabelos cuidadosamente jogados para trás, apenas um fio teimoso caindo sobre a testa. Os fios eram tão claros que quase pareciam brancos, reluzindo o seu brilho dourado apenas quando ele se aproximava da luz.

-Eu sabia que era você. - Ele disse com um suspiro que parecia aliviado, descendo os dois degraus para se aproximar. Kyle não se moveu. - Senti o seu cheiro assim que você colocou os pés no meu castelo.

Até que estivessem diretamente de frente um para o outro, nenhum dos dois disse nada. Kyle continuou com uma das mãos apoiada na poltrona, deitando o rosto um pouco de lado enquanto o observava de perto, sem lutar contra a proximidade. Mas cada pelo em seu corpo se arrepiou e seus músculos enrijeceram, não houve como ocultar. Sua expressão também endureceu, o franzindo o cenho e entreabrindo os lábios de forma pensativa. Gregory, ao contrário, não tinha nada além de seu carinho desprezível a oferecer. Trouxe sua mão gelada ao rosto do ruivo, tocando-o com uma intimidade que fez Kyle quebrar o contato visual por um momento, mas não podia se dar ao luxo de rejeitá-lo. Não quando precisava dele.

-Olha só pra você. - Gregory murmurou, uma dor piedosa brotando em sua expressão. - Por Deus, o que você não deve ter passado.

-Eu estou bem. - Ele repetiu o que sempre repetia, esquecendo-se há muito tempo de se preocupar com a verdade. - Gregory. - Kyle ergueu a mão fraca para segurar o braço dele, sentindo contra sua palma a textura macia do casaco dele. “Me escute”, era o que o gesto comunicava. Ele havia se preparado para isso. Para voltar com o rabo entre as pernas como um vira-lata arrependido, parecendo frágil e desnutrido demais para ouvir um “não”. Não que essa parte fosse uma escolha. Levou toda força que havia em seu corpo para engolir o próprio orgulho e pronunciar aquelas próximas palavras. - Eu preciso de você.

Elas deixaram um gosto amargo em sua boca, mas funcionaram como um encanto. As pupilas de Gregory se dilataram de imediato, os caninos aparecendo através do sorriso satisfeito. Como se ele soubesse que isso aconteceria uma hora ou outra. Mas antes que Kyle pudesse continuar, Gregory afastou-se alguns centímetros e soltou o seu rosto para levar o próprio pulso à boca, cravando as presas na parte interna para perfurar a própria carne, franzindo o nariz ao fazê-lo. Kyle o observou com curiosidade, demorando a entender qual era a sua intenção. Logo, o homem lhe ofereceu o pulso ensanguentado, o líquido quente e viscoso escorrendo por aquela pele tão pálida. Gregory passou a língua pelos lábios sujos de sangue, encarando-o em expectativa. O cheiro era doce e forte, a ponto de deixar Kyle tonto, mas ele resistiu.

-Beba.

-Eu não quero.

A outra mão de Gregory, suave como sempre, envolveu sua nuca para trazê-lo para mais perto. Antes que o ruivo percebesse, estava fechando os olhos e aceitando se embebedar do sangue escuro que não parava de escorrer, lambendo a pele do pulso dele de forma tímida primeiro, abrindo as pálpebras para observar o homem que o alimentava como se buscasse por aprovação, os olhos verdes carregados de desconfiança. Havia algo mais forte, algo que ele não podia controlar, mais instintivo e primitivo do que a sua própria existência. Havia fome. Havia, também, a submissão genética que tornava tão fácil para Gregory convencê-lo apenas com apenas um toque delicado na nuca, sem violência. Kyle, às vezes, preferia que ele fosse violento. Os métodos de controle daquele homem eram muito mais sutis e perigosos. E, apesar de tudo, o ruivo se encontrava novamente cravando as presas na perfuração feita por Gregory para se deleitar daquele sangue real, o mais doce e mais delicioso que Kyle já provara em toda a sua curta vida como vampiro. Segurou o pulso de Gregory com a própria mão, as pupilas dilatadas pelo cheiro e o gosto de vitalidade, sugando de forma desleixada, fora de controle, produzindo um barulho que Gregory parecia amar. Quando cruzou olhar com o loiro, deu-se conta do pequeno instante de descontrole e afastou a boca besuntada de sangue, assentindo para dizer que era suficiente.

Limpou os lábios com as costas da mão, mas ainda havia sangue escorrendo em seu queixo. Gregory sorriu para ele, segurando seu queixo com o indicador e o polegar, limpando a gota que escorria pela sua pele. Suas unhas eram longas, Kyle percebeu. Com esse tipo de proximidade, Kyle não podia disfarçar o incômodo em seus olhos tão transparentes para tudo o que sentia. Apesar dos pesares, Gregory o conhecia muito bem.

-Bom menino. - Foi tudo o que disse, desinteressado em qualquer coisa que não fosse o rosto à sua frente. Kyle duvidava que ele fosse ouvir qualquer coisa que saísse de sua boca naquele momento. Então desviou, afastando-se o bastante para que Gregory retirasse as mãos dele.

-Você não vai perguntar o que me trouxe de volta?

-Eu sei o que te trouxe de volta. - Gregory respondeu com um riso fraco, sentando-se no sofá vitoriano bem ao lado da poltrona, ajeitando as mangas do casaco. Lambeu o próprio pulso para limpar o excesso de sangue que ainda escorria. O estofado do sofá tinha uma cor de pêssego clara que contrastava com as roupas escuras dele.

Kyle respirou fundo. Era esse o momento. Não haveria outro.

-Eu preciso que você me ajude a matar o rei.

Os olhos azuis o encararam com curiosidade, enquanto ele ainda tinha o pulso próximo da boca crescendo em um sorriso de deboche, seguido de uma gargalhada que deixava à mostra aqueles dentes tão brancos, agora ensanguentados. Era uma gargalhada forte, sincera, do tipo que ele raramente dava. Kyle umedeceu os lábios, encarando os próprios pés por um instante, cruzando os braços em frente ao tronco.

Gregory apoiou os braços no encosto do sofá e cruzou as pernas, o sorriso ainda plantado no rosto.

-Você quer matar o meu tio?

-O que eu quero é… - Ele fez uma breve pausa, dizendo a si mesmo para escolher as palavras com cuidado. Para soar menos raivoso. Aproximou-se do sofá onde ele estava sentado, mas continuou de pé. - O que eu quero é ajudar. Essa sempre foi a ideia, não? Cortar a cabeça do desgraçado?

-Então por que parece que você veio pedir por um favor, Kyle?

Durante alguns instantes, ele não soube o que dizer. Tensionou o maxilar e apenas encarou aquela expressão arrogante de quem segurava o mundo na palma da mão. Deus, como Kyle o odiava.

-Os humanos estão sendo massacrados. - Ele disse devagar, como se isso fosse suficiente.

O Rei Balthazar de Yardale II governava a Inglaterra há trezentos e tantos anos. Um punho de ferro, uma sombra gigantesca imperando sobre todos os seres sobrenaturais ou humanos que habitassem aquela grande nação. Irmão mais velho do pai de Gregory, um homem humano que serviu a guarda real a vida inteira e morreu em batalhada. Balthazar foi o primeiro rei vampiro a existir. Uma das únicas pessoas a se transformar em vampiro por vontade própria, embebido pela necessidade de viver e reinar para todo o sempre, já como um homem velho. Em Londres, a convivência entre vampiros, humanos e outras raças sobrenaturais era, simultaneamente, mista e tensa. O primeiro rei vampiro gerou um histórico de hierarquia da raça vampírica sobre todas as outras. Algumas regiões da Inglaterra eram habitadas apenas por humanos, pequenas vilas rurais e condados, enquanto os vampiros costumavam se concentrar nas cidades grandes.

E, de ambos os lados, havia rebelião para derrubar um tirano que jamais morreria pelas mãos da velhice.

-E o que eu tenho a ver com isso? - Gregory fez a pergunta que Kyle esperava dele, repousando as mãos sobre o joelho.

-Os vampiros também. Se os rebeldes continuarem brigando entre si, aquele homem vai continuar imperando por mais quinhentos anos e nada vai mudar.

Os interesses eram distintos, é claro. Os vampiros enxergavam a raça humana como pequenos animais de estimação que tinham permissão de coexistir com eles, mas não com os mesmos direitos. E por mais que nenhum vampiro estivesse satisfeito com o reinado tirânico de Balthazar, praticamente todos desejavam que um outro vampiro assumisse a linha de sucessão. Os humanos não estavam dispostos a atravessar séculos sob o domínio de um novo tirano que não renunciaria e não morreria, a menos que fosse assassinado.

Matar um rei não era fácil. Matar um rei vampiro, cuja resistência física só parecia ficar mais forte ao longo dos séculos, parecia impossível.

Esse homem sentado no sofá antigo à frente de Kyle, esse homem era o líder da rebelião. O rosto que todos os vampiros desejavam como seu próximo líder supremo. Para os humanos, entretanto, ele era apenas o próximo tirano esperando sua vez. E foi exatamente por isso que Kyle, cinco anos antes, olhou em seus olhos azuis e disse as palavras que assombrariam o sono de Gregory desde então: “Eu não o sigo mais. Você não é mais meu líder.”

A julgar pela expressão inabalável de Gregory, Kyle jamais saberia que essas duas frases tão simples foram como uma adaga rasgando os órgãos dele durante cinco anos. E, mesmo hoje, tendo Kyle de volta sob seu teto, a adaga continua no mesmo lugar.

Ele se ergueu do sofá. Kyle pensou que ele fosse se aproximar novamente, mas em vez disso, caminhou até uma mesa redonda coberta por uma toalha dourada que ia até o chão. Sobre ela, havia uma bandeja de prata com uma garrafa de cristal cheia de sangue viscoso, muito mais avermelhado do que o que Kyle havia bebido há poucos minutos. Era sangue humano. O ruivo respirou fundo ao se dar conta de que Gregory poderia facilmente ter-lhe enchido uma taça em vez de oferecer o sangue do próprio corpo, mas é claro que ele precisava provar que Kyle ainda beberia de seu pulso se ele mandasse. O loiro encheu uma taça de cristal até a boca, cheirando o líquido antes de virar um gole que deu fim a metade do sangue, lambendo os lábios.

-Eu te ofereceria, mas sei que você prefere direto da carne. - Gregory se virou de volta com um sorriso fraco, erguendo a taça para ele antes de voltar a beber. A malícia no seu tom de voz arrepiou os cabelos da nuca do ruivo. - Foi com ele que você passou esse tempo todo? Com os humanos?

-Não.

Durante algum tempo, nenhum dos dois disse nada. Perderam-se em um contato visual demorado. Kyle apenas esperava por uma resposta melhor, tentando aquietar a ardência doentia dentro de seu corpo, a vontade de gritar. Gregory, por sua vez, o observava com um carinho curioso, algo próximo de compaixão.

-Meu menino. - Sussurrou sem perceber, o coração carregado pela tristeza que Kyle nem sabia que carregava nos olhos.

-Por quanto tempo você vai deixar isso continuar?! Você sai dessa sua fortaleza de vez em quando para ver o que estão fazendo lá fora?! Decapitando pessoas em praça pública como se essa ainda fosse a era medieval? Eles são pessoas, Gregory, não são cachorros. - Ele permitiu que a voz se descontrolasse por genuíno desespero de bater contra uma parede de tijolos.

-Você acha que eu concordo com isso? - A resposta veio no mesmo tom irritantemente contido, calmo, sob controle. Ele remexia o sangue dentro da taça de forma distraída. - A questão não é essa. Eu sei exatamente que tipo de monstro o meu tio é, ninguém quer a cabeça dele mais do que eu. Mas o que te faz achar que os humanos gostariam de se unir a nós?

-Gregory, por favor. - Kyle se encontrava apelando para aquilo que funcionava: fazer esse homem acreditar que partiria o seu coração negar qualquer coisa. Aproximou-se dele novamente, com seus próprios pés, como se essa fosse a sua vontade. Propositalmente, hesitou com as mãos antes de tocá-lo no peito, apertando delicadamente o tecido do colete entre seus dedos. - Eles não têm escolha, eles estão caindo como moscas. Os vampiros vão te seguir até o inferno. Se você declarar apoio, ninguém vai questionar.

Gregory não se moveu durante alguns segundos. E durante aquele curto espaço de tempo, Kyle achou que ele pudesse concordar. O loiro umedeceu os lábios, erguendo um pouco o queixo, abrindo a boca para falar e fechando-a em um sorriso fraco. Descansou a taça sobre a mesa atrás de si, voltando as duas mãos livres ao rosto de Kyle com firmeza. Não disse nada durante um bom tempo, apenas estudando cada nuance daquele rostinho, da expressão pedinte. Não podia evitar sentir um pouco de orgulho. Kyle realmente havia refinado as habilidades de manipulação desde a última vez que se encontraram. Gregory não queria tirar essa satisfação dele.

-Você me machucou tanto. - Enfim, o loiro murmurou ao fechar os olhos, abaixando-se até que sua testa tocasse a de Kyle, que franziu o cenho imediatamente. Gregory roçou o nariz pelo dele, acariciando-o com as pontas dos dedos. - Tanto…

A angústia começou a crescer no peito de Kyle. Angústia, acima de tudo, por sentir que aquele monstro estava sendo honesto com ele. A voz sussurrada de Gregory parecia tão carregada de dor, mas mesclada a algo doentio, algo que Kyle não sabia dar nome. Apertou os olhos com força, incomodado pelo sorriso fraco que nascia em torno das presas de Gregory quando ele sussurrava tais coisas. Quis se afastar, quis romper aquele encanto maldito, aquele calor interno que sempre tomava conta da sua região abdominal quando Gregory o segurava assim. Como se Kyle ainda lhe pertencesse.

-Por que você me deixou? - Gregory murmurou ao abrir os olhos, encarando-o perto demais para enxergá-lo realmente. Kyle nem sequer piscava.

-Porque você não era mais o líder que eu queria seguir. - Segurou os antebraços do homem com as duas mãos desesperadas, enterrando as unhas curtas e imundas na carne dele, afastando o rosto alguns centímetros para poder olhar naqueles olhos que mais pareciam dois lagos. - Prove que eu estava errado, então. Que eu nunca deveria ter partido.

Gregory riu de olhos fechados, as presas afiadas roçando pelo lábio inferior, balançando a cabeça como se ouvisse alguma bobagem de criança. Quando encarou Kyle novamente, sua expressão ficou séria. De um segundo para o outro, assim. Eram esses os momentos em que Kyle via relances da insanidade de Gregory, mas sempre fingia não ter visto.

-Gregory…

As unhas longas do loiro enterraram-se no pescoço de Kyle quando o homem o segurou com força, puxando-o contra seu corpo bruscamente, olhos azuis levemente arregalados de algo que se parecia muito com ódio. A expressão no rosto de Kyle não se alterou. Podia sentir o corpo de Gregory como uma parede, tão alto e forte e imponente, mas uma parede de carne que, apesar de todos os seus protestos interiores, fazia seus joelhos estremecerem. Ainda podia sentir o gosto do sangue do homem em sua boca, preenchendo-o, fazendo-o se sentir forte e cuidado e especial. Esse era o maior perigo de estar próximo do verdadeiro líder dos vampiros, o quão rápido Gregory fazia você pensar que precisava dele. Kyle tinha a boca seca, um tremor fraco de prazer e medo percorrendo-o dos dedos do pé aos últimos fios de cabelo. Mas o encarou de volta com a mesma intensidade, como se Gregory não pudesse atingi-lo, apesar de saber que o loiro farejava tudo o que sentia.

-Eu deixei o seu quarto exatamente como era antes. - Gregory disse em uma voz afetuosa, quase patética, que não combinava em absoluto com o aperto forte de sua mão em torno da garganta de Kyle. Não chegava a machucá-lo, mas o ruivo deixava escapar sons fracos por conta da pressão. - Eu esperei. Eu esperei, porque eu sabia… - Ele afrouxou o aperto da mão quando se deu conta do que fazia, arrastando os dedos pelo queixo de Kyle para segurá-lo pelo maxilar, as pontas do indicador e dedo médio tocando os lábios do ruivo. - Eu sabia que você voltaria para mim.

Então, soltou. Com a mesma precisão e agilidade com que o agarrou para começo de conversa. Assim, de repente, a mão não estava mais lá. Kyle levou alguns segundos para se orientar enquanto Gregory plantava um beijo demorado em sua têmpora.

-Eu sei que você vai se comportar dessa vez.

3 марта 2018 г. 0:46:13 0 Отчет Добавить 0
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