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malki Malki Choccola

Sasuke estava acostumado com situações atípicas naquela profissão. Mas, quando seus olhos encontraram aquelas íris azuladas, soube que havia algo muito errado. Aqueles eram os olhos de quem pede por socorro.


Фанфик 13+.

#Sasuke #narusasu #shounen ai #yaoi #Sasunaru #Naruto
Короткий рассказ
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Capítulo único

Definitivamente algo estava errado.

Sasuke Uchiha aprendeu muitas coisas durante o treinamento para trabalhar a bordo de um avião. Dentre elas sinais de possíveis perigos, medidas drásticas de emergência, reconhecer passageiros suspeitos ou comportamento estranho… Todo o treinamento rigoroso para se tornar comissário de bordo inclui saltar de um avião em movimento direto para um lago em pleno inverno, técnicas de sobrevivência, combate a incêndio… A preparação para seguir a profissão dos sonhos não foi barata, e nada fácil. Mas era uma boa saída. Sasuke sempre possuiu espírito livre, de modo que viajar para diferentes locais sem se sentir “preso em um escritório” sempre o atraiu.

Sabia que todo o treinamento possuía o propósito de salvar a sua vida e da maior parte possível de passageiros caso algo de errado acontecesse. Era seu dever ficar alerta a todos sem exceção, se estavam confortáveis, se porventura se sentiam mal… Coisas triviais aos quais já estava habituado.

Mas, aquele vôo em especial estava deixando-o desconfortável. E nem era por conta da pequena turbulência que o avião atravessava. Sasuke disfarçou o incômodo enquanto caminhava pelo corredor estreito da classe econômica, olhando os rostos das pessoas que estavam sentadas. Sua função era se certificar que todos estavam com os cintos afivelados e pedir a qualquer passageiro que estivesse fora de seu assento para retornar, ou fechar as bandejas destinadas à alimentação que estivessem abertas. Eram normas comuns de quando o avião atravessava uma turbulência, mesmo leve.

Foi então que, em meio à inspeção rotineira, seus olhos bateram nos de um passageiro que realmente estava lhe intrigando. Acostumado a não transparecer qualquer tipo de emoção, Sasuke demorou o olhar naquele rapaz, apenas por tempo o suficiente para perceber que havia algo errado.

Tratava-se de um jovem com a aparência muito debilitada, apático e tão magro que os ombros pareciam ossudos debaixo da camiseta velha e gasta de tom de laranja desbotado. Ele possuía olheiras enormes abaixo dos olhos, a pele tinha uma aparência nada saudável, como quem não toma sol há tempos. Os cabelos loiros não possuíam um corte definido, desleixados e bagunçados. As mãos sobre o colo eram visivelmente machucadas, calejadas e as unhas estavam sujas.

Em contraste ao rapaz em estado tão deplorável, havia dois homens de ótima aparência ao lado dele. Vestidos com roupas limpas, camiseta pólo de uma boa marca, relógios caros no pulso. Em nada pareciam pertencer àquela classe de vôo. Sasuke concluiu sua análise de poucos segundos enquanto continuava a andar pelo corredor apertado em direção à cabine. Sentiu que os olhos azuis daquele rapaz continuavam postos nele, como se pedissem para ele ficar. Ignorando isso, continuou seu caminho.

Fechou a porta detrás de si e procurou sua superior imediatamente. Ela avaliava a quantidade de pequenos lanches que seriam servidos aos passageiros, alheia a presença dele no recinto.

- Senhorita Haruno, preciso de informações sobre alguns passageiros da classe econômica - se aproximou e sem delongas informou os números dos assentos cujos passageiros lhe chamaram atenção.

Sakura Haruno estranhou aquele pedido. Trabalhava com Sasuke há pouco tempo, mas sabia que se ele desconfiava de alguma coisa o melhor a fazer era mesmo checar.

- Estranho você vir me pedir informação de alguém, sr. Uchiha - interrompeu o que fazia e seguiu pela cabine, pedindo licença educadamente a outro comissário de bordo que passava por ali. Um movimento mais brusco a fez tombar de leve o corpo para o lado, se apoiando nas paredes da cabine.

Odiava usar salto, mesmo que baixo. Quando o avião seguia com movimentação irregular era difícil se equilibrar.

Endireitou o corpo e procurou os papéis com os dados dos passageiros. Lia atentamente, quando voltou a conversar com ele.

- Não foi encontrado nada de anormal com eles na verificação de embarque. O homem no assento junto à janela atende pelo nome Orochimaru, o que está a seu lado é Kabuto e o mais jovem que está no corredor se chama Naruto. Os três embarcaram na cidade de Amegakure. O que notou de estranho?

Sasuke levou a mãos ao cabelos, amarrando-os melhor em um rabo de cavalo. Enquanto o fazia se pôs a pensar seriamente.

Amegakure era conhecida por ser uma cidade muito pobre, inóspita, cheia de bairros perigosos e criminalidade alta. O que duas pessoas de aparência tão imponente estariam fazendo nesse tipo de lugar?

Ergueu os olhos aos da superior imediata, imaginando se soava incomum ou preconceituosa a sua forma de pensar.

- Não acha estranho dois homens de tão boa aparência em companhia de um rapaz maltrapilho e visivelmente debilitado?

Sakura franziu as sobrancelhas, salientando a testa imensa, ainda mais visível devido ao coque que mantinha os cabelos rosados primorosamente presos.

- Você ouviu alguma coisa?

- Não, o olhar do rapaz é que me incomodou - cruzou os braços - Ele fica o tempo todo de rosto baixo, e o homem a seu lado parece sussurrar constantemente algo para ele. Mas, quando ele olhou para mim parecia desesperado, aquele é o olhar de quem pede socorro - frisou.

Sakura nem quis argumentar e foi surpreendida pela voz do comandante do avião que soou. A luz que marcava que os passageiros deveriam ficar sentados se apagou, indicando fim da turbulência. Ela volveu então o rosto ao seu subordinado.

- Vou manter a equipe alerta. Quanto à você leve o carrinho para o corredor e tente descobrir se suas suspeitas estão certas.

Sasuke apenas assentiu com a cabeça, um tantinho nervoso de que seu palpite estivesse certo.

--

Empurrava devagar o carrinho pelo corredor, oferecendo aos passageiros o lanche cedido pela companhia aérea. Um pacotinho pequeno de cookies e um copo de água. Ao seu lado, uma comissária ajudava efetuando pagamento de algum cliente que quisesse algum item diferente. Sasuke nem se importava e fazia tudo focado somente nos passageiros que ocupavam assentos no meio do avião. O tal rapaz de nome Naruto olhava nervosamente para os lados, mordia o canto do lábio e vez ou outra erguia a cabeça para frente, mas logo era ordenado a baixá-la de novo.

A certeza era mais nítida do que nunca agora. Aqueles homens pareciam suspeitos. Assim que chegou ao lado do rapaz, que já sabia se chamar Naruto, Sasuke ofereceu seu sorriso educado e lhe perguntou:

- Prefere cookie salgado ou doce, senhor? - aguardou Naruto responder, mas quando ele abriu a boca para dizer alguma coisa, o homem ao seu lado se pronunciou.

- Não queremos nada, obrigado - fez um sinal impaciente com a mão, como se quisesse que ele fosse logo embora.

Sasuke entendeu pelo tom de voz que não adiantaria tentar prolongar o assunto ou perguntar nada. Fingiu baixar para guardar o pacote em suas mãos na parte inferior do carrinho, fora das vistas dos dois, mas ao lado de Naruto. Sussurrou tão baixo e tão discreto que ninguém mais ouviu, somente o jovem de cabelos loiros.

“Venha ao banheiro no final do corredor” - ergueu o corpo em seguida e continuou atendendo os demais passageiros.

Naruto sentia o suor brotando na testa, debaixo da franja desordenada. Aguardou algum tempo e informou aos dois homens que precisava ir ao banheiro. Eles o seguiram com o olhar até o final do corredor, até que a porta se fechasse, e pareciam aguardar sua volta observando cada detalhe.

Sozinho naquele banheiro minúsculo, Naruto não sabia mais o que fazer. O cheiro nada agradável nem passou por seu nariz. Apoiou as mãos na pia pequena querendo ao menos lavar o rosto para aliviar a tensão.

Estava esgotado, apavorado! Nem sabia para onde iria quando o avião pousasse! O arrependimento que o seguiu foi sufocante! Daria tudo para não ter acreditado neles, para não ter embarcado nunca!

Foi então que reparou em algo que havia passado despercebido, dado seu nível de nervosismo. Havia um pedaço de papel grudado no espelho com fita adesiva.

Intrigado, ele pega entre as mãos trêmulas o pedaço de papel, desdobrando-o rapidamente. Ficou incrédulo ao ler uma mensagem apressada escrita ali.

“Você está com problemas? Se estiver nós podemos ajudá-lo. Tem uma caneta na pia. Conte-nos o que está acontecendo e deixe o papel no mesmo lugar que encontrou”

Internamente, Naruto sentiu que a ansiedade poderia matá-lo. Rapidamente pegou a caneta, as mãos sem firmeza sequer para tirar a tampa direito. Rabiscou rapidamente uma resposta, porque sabia que se demorasse demais aqueles homens viriam atrás dele. Terminou o que fazia e tornou a colar o papel no espelho. Acionou descarga somente para disfarçar e lavou as mãos, deixando o banheiro em seguida.

Para sua surpresa, o rapaz de cabelos negros que sussurrou a mensagem minutos atrás estava na cabine ao lado, e pareceu lhe dar um olhar firme. Naruto lentamente acenou com a cabeça, os olhos assustados postos à frente e então seguiu ao seu lugar, sem dizer nada. Sasuke não esperou duas vezes e entrou no banheiro, trancando a porta e retirando o pedaço de papel do espelho.

Leu atentamente e um meio sorriso surgiu no rosto bonito ao perceber o teor da mensagem descrita ali.

“Minha intuição nunca falha” - disse convencido a si mesmo, mentalmente. Dobrou e colocou o bilhete no bolso, saindo alguns minutos depois, caminhando calmamente e dessa vez sem observar os passageiros que haviam despertado sua atenção. Ao chegar à cabine destinada aos comissários de bordo procurou logo por Sakura, que já esperava por ele.

- E então? - ela quis logo saber.

- Chame a polícia e peça para barrarem aqueles homens na saída do aeroporto - retirou do bolso o pequeno pedaço de papel amassado e o entregou à mulher que compreendeu tudo ao ler a mensagem.

- Vou avisar o comandante. Faremos um pouso de emergência no aeroporto mais próximo daqui. Isso é algo muito sério.

--

Nas horas restantes de vôo a esperança de Naruto foi por água abaixo.

Quando o rapaz lhe sussurrou mais cedo, quando leu aquele bilhete, achou realmente que fariam alguma coisa para ajudá-lo.

Mas, depois que voltou do banheiro não recebeu nenhum sinal de volta, nada que o fizesse sentir que estava à salvo. Ao invés, ouviu a voz do comandante dizendo que fariam um pouso rápido que não estava previsto, por problemas técnicos. Tinha medo de descer, de ter de aguardar. Será que ao menos conseguiria fugir?

Olhou de relance o rosto impassível de Kabuto. Ao lado dele, Orochimaru parecia igualmente sem expressão.

O que não daria para não precisar vê-los nunca mais? O que não daria para ter a possibilidade de fugir?

Não poderia, não quando eles ameaçaram acabar com sua família. Sabia que estava marcado para sempre, que seria levado a um lugar ainda pior do que aquele em que viveu nos últimos anos. Passaria ainda mais fome, teria ainda mais obrigações.

O “tipo” de obrigações era o que mais o atormentava!

E pensar que um dia acabaria numa situação dessas… Tinha vontade de gritar!

O som da voz anunciando a preparação do pouso trouxe o jovem rapaz de volta à realidade. À sua realidade. Não era livre para sonhar com o que bem entendesse, aquele foi o preço escolhido para proteger sua família.

Não havia volta, ainda que quisesse.

--

Passando pela área de desembarque sentia somente a mão gelada de Orochimaru em seu ombro, quase que marcando território e fazendo-o caminhar na direção imposta. Seguiam pelo portão de desembarque para aguardar que o vôo fosse liberado. Permaneceriam ali próximo porque ficar perambulando era um grande erro.

Subitamente, Naruto avistou policiais rodeando a saída. Achou que fosse um procedimento de rotina, afinal nunca tinha voado antes. Mas percebeu como a mão em seu ombro cravou os dedos em sua pele. Olhou de relance o rosto de Orochimaru e ele parecia transtornado.

- O que você fez??? - Orochimaru nem bem teve tempo de perguntar a Naruto e foi abordado, forçado a colocar as mãos para trás e levado rapidamente a uma sala reservada, em companhia de Kabuto que negava veemente, dizendo que tudo não passava de um engano, um mal entendido!

Naruto se viu sozinho por um instante, mas logo foi igualmente abordado por policiais, encaminhado para outra sala.

Estava confuso, não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo e só conseguia se lembrar do comissário de bordo com quem falou horas atrás.

Havia sido ele? Aqueles policiais estavam ali para salvá-lo?

Seguia sendo escoltado, confuso demais para assimilar, quando ouviu uma voz familiar detrás de si. Volveu o rosto a tempo de ver o rapaz de cabelos negros vir em seu encalço. Sasuke respirou esbaforido antes de questionar os policiais.

- Conseguiram prender aqueles homens? - nem bem esperou por uma resposta e volveu o rosto aliviado ao rapaz - Que bom que tudo deu certo para você!

- O que está acontecendo? - Naruto estava embasbacado, sem entender coisa alguma.

- É natural que esteja confuso, imagino sua situação. Está seguro agora, Naruto. Aqueles homens foram presos e não vão mais ameaçar você.

Os olhos azuis se abriram em total espanto e a voz alta e estridente que Naruto nem lembrava ter escapou sozinha da garganta.

- Isso é mesmo sério??? Mas como????

- Você me pediu socorro, não é? Quando me olhou tão desesperado eu logo entendi tudo. Nós da companhia aérea somos treinados para identificar rapidamente esse tipo de situação e reagir.

- Mas os meus pais… - o rapaz nem conseguia acreditar - Aqueles homens vão matá-los se eu não for com eles…

Sasuke sorriu, tomado pela inocência de quem não consegue acreditar que está livre.

- Eles estão presos. Aqueles dois são criminosos, conhecidos da polícia por venderem jovens como escravos. Você não terá esse fim, está livre agora.

Levou longos minutos para o rapaz entender as palavras do comissário de bordo. Precisou assimilar, até porque era um tantinho lento. Franziu então o rosto e desatou a chorar alto e escandaloso, no meio do saguão principal do aeroporto e chamando atenção de quem passava por ali. Sem cerimônias começou a agradecer os policiais, apertando efusivamente a mão deles. Quando seguiu para Sasuke este estendeu a mão para um cumprimento, mas foi surpreendido por um abraço furtivo, muito apertado, e dezenas de “obrigado” “muito obrigado”, repetidos entre grandes soluços de choro. Sasuke não ligou para a comoção de pessoas, ou para os policiais que esperavam o garoto terminar o choro escandaloso para fazer um depoimento. Passou os braços em redor do corpo, tão alto quanto o seu, e o abraçou apertado, aliviado que tivesse conseguido salvar-lhe a vida.

Pensar no que poderia ter acontecido lhe deu um medo incompreensível e de repente, aquele abraço lhe deu toda a calma que precisava sentir.

Para ser franco, uma paz que jamais sentiu antes.

--

Após o depoimento as pessoas que estavam no interior da sala estavam perplexas com a crueldade dos acontecimentos que envolviam a vida daquele jovem.

Trabalhava desde muito cedo para ajudar em casa, filho de pais doentes. Aceitou a proposta para um emprego que pareceria mudar sua vida, lhe dar uma remuneração decente. Foi iludido que trabalharia na capital, que seria bem pago numa grande indústria. E aquele foi seu maior erro.

Orochimaru bem sabia da beleza estonteante daquele rapaz de cabelos cor de sol e olhos tão límpidos quanto um riacho. Ele valeria muito em qualquer casa noturna, estava certo disso.

Ao terminar de escutar aquela história fascinante, Sasuke, que acabou envolvido sem querer naquela comoção, só conseguia pensar em uma coisa.

“ Ele vai voltar para a mesma vida miserável a que estava acostumado, ainda terá os pais doentes, contas para pagar… Eu realmente fiz alguma coisa por este garoto?”

Ouvia os policiais conversando com ele, lhe dando as recomendações de como retornar à salvo para sua casa. Não pode evitar observar o pescoço muito magro, o tronco ossudo. Ele parecia muito abaixo do peso normal.

Mordeu o canto do lábio.

Por que se importava tanto? Havia feito sua parte, garantiu ao menos um futuro para aquele rapaz. Seu trabalho estava feito, acabava ali.

Então por que diabos sentia que não havia feito o bastante???

Provavelmente nunca mais o veria e isso o feriu por dentro.

Sem compreender o que estava acontecendo consigo mesmo pediu licença por um instante, saindo da sala para ir conversar com uma pessoa.

Não podia fazer muito, visto que era jovem, cheio de dívidas. Mas sabia quem poderia ajudar. Esperava ter tempo de fazer uma ligação e convencer o amigo de longa data de seu pai a conseguir uma solução para o caso daquele rapaz.

--

Naruto piscou dezenas de vezes, ainda incrédulo demais que tantas coisas estivessem acontecendo tão depressa.

-... Uma proposta?

- É - cortou-o abruptamente - Conheço alguém que pode te oferecer um emprego. Não é a melhor remuneração do mundo, mas é melhor do que nada. Creio que também consiga um abrigo de algum plano do governo de Konoha, ao menos por hora, dada a sua situação. Vai conseguir enviar algum dinheiro para seus pais, acho que é a melhor solução que temos por hora e...

- Por que está indo tão longe por mim? - a cara de confusão só aumentava. Em sua cabeça simplesmente não havia sentido algum em ser ajudado tão avidamente por um total desconhecido.

O que ele ganhava em troca?

Internamente, Sasuke se fazia a mesma pergunta.

Por que ficou compadecido pela situação dele? Talvez porque foi arrebatado pela beleza surreal daquele rapaz?

Temia dar essa resposta. Pigarreou.

- Eu não faria grande coisa na sua vida se somente te livrasse daquelas pessoas, Naruto. Meu trabalho não estaria completo e eu sinto que seria um inútil.

- Não é verdade! Você salvou a minha vida! Eu farei qualquer coisa que puder para te agradecer.

A frase tão enfática remexeu o interior do Uchiha. Quase que involuntariamente ele respondeu.

- Então prometa que vou poder te ver de novo - sua voz saiu um tantinho mais emotiva do que queria.

Era estranho dizer a um rapaz desconhecido que a ideia de não tornar a vê-lo nunca mais fosse tão assustadora.

Para sua surpresa, Naruto abre um imenso sorriso. Um tão grandioso, puro e radiante que deixou Sasuke sem ação por uns minutos.

- Claro! Mas eu preciso ao menos saber seu nome.

- Oh, claro - murmurou sem graça, estendendo a mão para cumprimentá-lo - Sasuke Uchiha. É um prazer.

- Naruto Uzumaki - apertou bem a mão entre a sua, olhando o fundo dos olhos negros - Eu nunca vou esquecer o que me fez, Sasuke. Nunca.

--

O contato que tiveram durante o ano seguinte se resumia a conversas e vídeos de whatsapp, após o Uzumaki conseguir se estabilizar. Para ser bem sincero, Sasuke achou que eles se tornariam estranhos depois de todo o ocorrido.

Entretanto isso não aconteceu. Ao invés, Naruto insistia em falar com ele todos os dias. Mandava mensagens de “bom dia” todas as manhãs sem exceção. Enviava fotos detalhadas do que estava fazendo, relatos de todos os seus planos, dos progressos que teve. A mudança do abrigo temporário para um alojamento, ainda que pequeno demais, mas que era pago com seu dinheiro. O ganho de peso, o corte de cabelo mais curto que o normal… Em pouco tempo Sasuke se converteu em seu melhor amigo, coisa que fazia o Uchiha rir sempre que pegava o celular para olhar as mensagens, entre os vôos muitas vezes tão distantes do lugar em que o Uzumaki estava.

Nunca se sentiu tão próximo assim de ninguém e nunca quis tanto voltar para casa antes. Jamais imaginou que questionaria a profissão que escolheu. Esperava ansiosamente o dia em que estivesse novamente em sua cidade natal, para ver com os próprios olhos aquele rapaz tão bonito,dono de uma satisfação de vida invejável.

Bem, dizem que pessoas que passam por situações muito difíceis na maioria das vezes se convertem em pessoas fortes. Sasuke duvidava ser capaz de passar por metade do que ele passou. Cada vez que observava as fotos antes de dormir, sempre que ouvia um áudio imenso (já havia pedido para ele mandar áudios menores!), mais e mais Sasuke era arrebatado por aquele rapaz. Chegou a ponto de pensar que se não pudesse mais vê-lo nem iria suportar.

“Acho que sei o motivo, e isso definitivamente é um problema. Eu vou me apegar e ele sequer se sente como eu. É ridículo pensar que Naruto me veja da mesma forma. Ele no mínimo é grato pelo que lhe fiz” - pensou desolado, pressionando o botão para desligar a tela do celular e rolando para o lado afim de dormir um pouco. Era sua última noite no hotel daquela cidadezinha no meio do nada. Na manhã seguinte voltava ao trabalho, indo para um novo país.

Isso pareceu bom. Talvez assim tirasse aquele loiro estúpido da cabeça.

Falhou miseravelmente em sua tentativa de esquecê-lo quando recebeu uma mensagem, minutos depois.

“Escuta, quando você estiver de volta nós podemos nos ver?”

A pergunta súbita fez Sasuke derrubar o celular no próprio rosto. Praguejou e massageou o nariz, se recompondo em seguida.

Não, não e não! Nada de alimentar esperanças!

Endireitou o corpo no colchão nada macio e digitou rapidamente uma resposta.

“Isso é o quê? Um convite para sair?”

Viu que ele escrevia e desistia em seguida, fazendo longas pausas como se pensasse no que dizer. Isso de fato deixou Sasuke nervoso. Quando se preparou para desconversar e explicar que foi somente uma brincadeira, recebeu outra mensagem.

“Não foi o que eu quis dizer”

“Tudo bem, eu não achei mesmo que fosse isso”

“Sei que você não ia querer sair num encontro comigo”

Houve uma nova pausa, dessa vez vinda de Sasuke. Ponderou milhares de vezes sobre o que deveria de fato dizer.

Mas qual o problema em ser sincero consigo mesmo? O máximo que poderia receber era um “não”. E para ser bem franco era o que esperava.

Respondeu com uma pergunta, já sabendo exatamente a resposta.

“Se eu quisesse seria diferente?”

Novamente Naruto ficou um tempo sem digitar nada. A essa altura, Sasuke sentia o rosto inteiro corado e quente, uma excitação súbita o fazendo fitar a tela do celular, ansioso por uma resposta.

“Qual a resposta certa pra essa pergunta???” - o Uzumaki mandou de volta em um tom obviamente aborrecido. Sasuke soltou o ar de uma vez pelo nariz, cansado de fugir e sendo o mais claro que podia para aquele cara lerdo!

“Você quer ter um encontro comigo, Naruto?”

“Se eu disser que sim isso é um problema?”

“Com certeza” - respondeu, percebendo que ele visualizou imediatamente. Riu abafado pelo nariz e digitou rapidamente antes que ele tivesse tempo de revidar “Porque eu só volto pra casa no mês que vem e terei de esperar todo esse tempo pra te ver”

Recebeu em resposta uma linha cheia de carinhas sorridentes.

“Idiota! Já faz mais de um ano que não nos vemos”

“E achei que eu fosse o único sofrendo com a distância. Agora que sei que não as coisas são diferentes”

“É muito estranho dizer que mesmo quando tento te tirar da cabeça, você teima em voltar?”

“Acredite, eu ando lendo livros sobre almas gêmeas! Devo me preocupar?”

Naruto gargalhou ao ler a resposta, lembrando de precisar ficar quieto porque estava dormindo num kitnet com paredes finas como papel. Ficou um tempo olhando a conversa, assim como a foto pequena na tela do celular velho.

Ainda lembrava do quão atraente aquele rapaz era, ou de como sua voz era linda. Lembrava com gratidão, mas também algo a mais. Algo que não sabia explicar.

“Estou ansioso para nos encontrarmos de novo, Sasuke”

“Eu também. Durma de uma vez, dobe. Falo contigo amanhã”

Dessa vez desligou a tela do celular e deitou a cabeça no travesseiro, mergulhando na escuridão do quarto e se pondo a pensar como reagiria ao ver seu rosto mais uma vez.

--

Se tivesse sido escrito pelo destino, ou planejado desde o princípio, não seria tão perfeito.

Foi exatamente o que Sasuke pensou ao descer da rodoviária e dar de cara com Naruto o aguardando na saída principal. De pé, corado, ansioso! Ao vê-lo correr em sua direção apenas abriu os braços, aguardando o abraço que certamente viria. Apertou o rapaz entre os braços, repleto de paz e felicidade por encontrá-lo de novo.

Sentiu tanta falta, e de alguém que nem conhecia direito! Entendeu com perfeição o que significava ter uma alma gêmea. A forma inexplicável como se ligou à Naruto em um único encontro dizia absolutamente tudo. Queria tê-lo a seu lado sempre dali por diante. Não imaginava mais ficar sem ele.

Como esperou que ele fizesse, Naruto ergueu o rosto e se pôs a conversar animadamente sobre tudo que veio à cabeça. Sasuke por sua vez só conseguia ver o modo fofo como seus lábios se moviam enquanto ele falava e sem pensar duas vezes baixa o rosto, selando os lábios dele com os seus. Percebeu o corpo do outro ficar tenso, até achou que seria empurrado ou repudiado. Mas o inverso aconteceu e foi surpreendido por braços que passaram detrás de seu pescoço, e o próprio Naruto tratou de aprofundar o beijo. Sasuke riu e o deixou fazer o que quisesse, apoiando as mãos na cintura encorpada, deslizando a língua devagar contra a dele, movendo a boca para sentir com maior perfeição a dele, para sentir seu gosto. Esqueceu onde estava, nada fazia tanto sentido quanto ter Naruto em seu abraço naquele momento.

Quando se separaram, olhos postados um no outro, mas a pouca distância indicando que não queriam se separar, Sasuke foi o primeiro a falar.

- Temos um problema - alertou, em meio a um grande suspiro - Um grande problema!

- Que seria…?

- Passo tempo demais longe. Eu mal cheguei e já não quero ir embora.

Naruto riu, escandaloso como era típico.

- Eu te espero, não tem problema.

Sasuke então sorriu de volta, segurando o rosto dele entre as mãos, admirado com o modo como era cativado tão facilmente. Deslizou os dedos nas marcas peculiares que estavam nas bochechas.

- O que você fez comigo que me liguei tanto em tão pouco tempo?

Ele deu de ombros.

- E eu sei lá! Só sei que não acho que foi por mero acaso que nos encontramos. Essas coisas acontecem quando tem que acontecer. Eu devia encontrar com você, e foi a melhor coisa que já me aconteceu!

- Sinto o mesmo. Como se tivesse sido feito para você, para estar a seu lado.

Encaram-se afetuosamente e deram as mãos, saindo em direção à rua. O ruído das rodinhas da mala, o burburinho das pessoas, o som dos ônibus que embarcaram, nada disso atrapalhava a conversa fluída deles. Como a de amigos de longa data que não se vem a tempos.

Ou como de almas separadas há tempos, que voltaram a se encontrar e que não queriam mais se separar de jeito nenhum.

27 февраля 2018 г. 21:37:21 5 Отчет Добавить 25
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Cecilia Jarske Cecilia Jarske
eu amei essa oneshot! ❤
30 октября 2018 г. 10:31:43
Bia Schulz Bia Schulz
AMEI!!!!! Fico feliz que o Naruto tenha sido salvo, mas isso me fez pensar em quantas pessoas em situação de necessidade não são arrastadas para lugares piores para tentarem uma "vida melhor" ?
25 октября 2018 г. 14:12:04
Cecilia Jarske Cecilia Jarske
AAAAAAAAA que oneshot linda! E pensar que no início Sasuke foi guiado pela intuição, e acabou salvando a vida do Naruto além de ter ganho como recompensa, além da gratidão do outro, o coração! ❤ Sério. Achei super fofíneo o enredo, amei!
24 октября 2018 г. 20:18:27
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Chorei men ;-; kzkzkkzkzkkzkz
28 февраля 2018 г. 8:55:51
~

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