Entaramelada Подписаться

ditto Liiz Lestrange

Não que Sasuke tivesse olhado naquela direção de propósito, mas já era a quarta vez que pegava Naruto o encarando. Não que Naruto estivesse olhando de propósito, também, e afinal, eles eram amigos, então não tinha de demais em olhar um para o outro. Aquele nervosismo definitivamente era por acaso. Com certeza não significava nada estarem gaguejando, não era como se tivessem alguma intenção por trás. E também, se tivessem, não era como se fosse fácil dizer em voz alta.


Фанфик Всех возростов.

#naruto #narusasu #sasunaru #naruto/sasuke
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Entaramelada

Era a quarta vez que Sasuke pegava Naruto o encarando. Tal como das outras vezes, o loiro virou o rosto de imediato quando foi flagrado, mas desta vez, diferente das anteriores, ele mordeu forte os lábios numa tentativa miserável de disfarçar o riso. O Uchiha franziu as sobrancelhas consternado e abaixou os olhos para o seu livro, sentindo um súbito pinote no peito com a reação do outro e, pelos próximos longos minutos, nenhum dos dois ousou desviar a atenção de suas respectivas leituras.

Naruto estava na biblioteca por obrigação. Kakashi o havia mandado estudar incontáveis materiais sobre os shinobi e tudo o que havia a respeito como condição para merecer o título de Hokage algum dia. Era um trabalho extremamente maçante e exaustivo, sendo o Uzumaki quem ele era, manter atenção ininterrupta naquilo era impossível. Ainda assim, claro, havia uma infinidade de outras distrações que ele poderia escolher além de se devanear admirando o moreno do outro lado da sala de leitura. Sasuke, por outro lado, não tinha obrigação alguma de ler nada. Na verdade, estava lá porque… Bem, ele estava lá porque Naruto estava. Não era por acaso que havia apanhado o loiro o encarando todas as vezes, ele também estava olhando.

Não era uma novidade os dois espiando um ao outro de longe, muito pelo contrário. Levando em consideração que faziam aquilo desde os oito anos, já era um hábito consolidado. Entretanto, a última vez que haviam praticado o costume, época em que conviviam diariamente, ambos não tinham mais que treze anos de idade. Em tal ocasião, quando seus olhares se cruzavam por acidente tudo o que tinham que fazer era desviar o rosto com uma careta emburrada e agir como se não houvesse nada entre eles além de desprezo. Mas eles não tinham mais treze anos, tinham dezessete, e definitivamente não tinham mais nem a falta de maturidade e nem justificativa para agir assim. Haviam cometido o terrível erro de admitir um ao outro a admiração e afeto recíproco que sentiam, reagir com falsa aversão àquela altura seria patético, para dizer o mínimo. Aliás, desde que haviam retornado da guerra estavam particularmente amigáveis um com o outro, como se jamais houvessem mantido a tal da admiração mútua em segredo na vida. Aquilo, lógico, tornava os olhares furtivos ainda mais constrangedores.

Sasuke ficou um tempo encarando seu livro. Encarando, porque não o lia, sua atenção às palavras escritas ali era esta que se o livro estivesse de ponta cabeça, ele não teria se dado conta em nenhum momento durante as duas horas e tanto que ficou ali travado na mesma página. Por fim, inquieto, arriscou mirar novamente o garoto do lado oposto. Naruto estava estudando muito comportado, uma postura correta, o braço descansando sobre a mesa, o livro aberto em sua frente, e a cabeça baixa. O cabelo bagunçado lhe cobria um pouco os olhos pelo ângulo que o observava, mas podia ver que ele mordiscava o lábio inferior enquanto lia e achou graça em vê-lo concentrado assim.

Enquanto Sasuke o observava, o loiro ergueu o antebraço e deitou o rosto sobre a mão com um ar entediado, deu um demorado suspiro e resolveu se atrever uma vez mais, lançando um olhar escuso ao moreno. O que ele não sabia era que, daquela vez, o outro já estava o encarando. A reação (patética) de ambos foi desviar os olhos no susto. Sasuke arregalou os olhos, aterrado de ter sido o flagrado da vez, e os colou ao livro com o coração acelerado como se houvesse sido pego cometendo um crime e o rosto queimando de súbito. Naruto não o viu corar, entretanto, porque deitou imediatamente a cabeça em seu braço sobre o livro para silenciar uma crise de riso e acabou sendo conveniente para esconder o rubor que surgiu em seu próprio rosto antes que o outro tivesse chance de ver. Ele riu em silêncio por um momento, sentindo-se completamente ridículo com o que quer que estivesse fazendo até resolver erguer a cabeça para o Uchiha com um semblante embaraçado e aguardar que ele retribuísse mais um vez. Ele demorou um pouco mais, estava bastante enfurecido consigo mesmo por toda aquela situação, mas já havia chegado a um ponto decididamente sem saída. Ambos sabiam muito bem que estavam encarando um ao outro, até podiam depois agir como se nada tivesse acontecido, mas continuariam cientes de que, querendo ou não, aquilo havia acontecido.

Dando-se por vencido, Sasuke subiu os olhos lentamente e constatou que Naruto o fitava constrangido, mas, pela primeira vez, mantinha o olhar firme. Fez o mesmo, sustentou a mirada do outro e lhe franziu as sobrancelhas num sinal de confusão, o loiro respondeu cobrindo a boca com a mão e desmanchando-se numa risadinha muda. Quase como um espelho, os dois apoiaram o rosto nas mãos com o cotovelo sobre a mesa e permaneceram com os olhos colados por mais um tempo.

Estavam flertando um com o outro, não estavam? Naruto não tinha ideia do que estava tentando fazer, mas começava a desconfiar que os olhares que o moreno vinha retribuindo tinham a mesma motivação que os seus e aquilo o deixava afoito. Não fazia lá muito tempo que havia constatado a própria motivação, na verdade. Tinha uma crescente dúvida que surgira desde seu primeiro reencontro, mais de um ano antes, e a certeza só foi se consolidando conforme lutavam lado a lado na guerra. Já os sentimentos do outro, ele, obviamente, não tinha como saber ao certo, todavia tentava manter o pensamento positivo e interpretar as ações dele da forma mais otimista que podia. E vê-lo sempre com os olhos em si e desviando vexado ao ser percebido (igual ele próprio estava fazendo) parecia um ótimo sinal.

Sasuke, por outro lado, sabia muito bem seus motivos fazia mais tempo do que ele gostaria de admitir. Mas definitivamente não tinha segundas intenções quando fora à biblioteca, e ver que Naruto estava fazendo exatamente o mesmo o deixava um tanto aterrorizado por um motivo muito simples: agora ele tinha que fazer alguma coisa. Por muito tempo sequer havia considerado a possibilidade de ter seus sentimentos retribuídos, vendo o loiro sempre se assanhando para o lado de Sakura e jogando a carta do “amor de irmão” mais de uma vez quando pressionado sobre o que havia entre eles. Mesmo assim, vez ou outra ele tentara arrancar outro tipo de resposta quando Naruto se excedia muito na devoção e, por mais que a resposta não houvesse mudado muito desde então(ainda que a palavra “irmão” houvesse desaparecido do discurso fazia um tempo), desviar os olhos com risadinhas tímidas ao ser pego observando alguém não era lá muito platônico.

E eles estavam se entreolhando com sorrisinhos mínimos e um jeito bobo, um tentando adivinhar o que o outro estava pensando e, ao mesmo tempo, tentando gritar em silêncio para que o outro entendesse o que queriam. Somando ainda o que eles de fato queriam, aquilo era flertar, não era?

Só que havia um problema técnico naquela troca de informações, porque ao mesmo tempo em que eram ótimos em se entender em silêncio, ambos eram uma lástima em confiança, orgulho e experiência. Em outras palavras, nenhum dos dois queria dar o braço a torcer primeiro, porque não tinham ideia do que fazer e tinham pavor de estar interpretando alguma coisa errado.

Passado tempo o suficiente para aquela troca de olhares se tornar imensamente constrangedora por si só, Sasuke desviou os olhos novamente e deu um suspiro pesaroso. Não tinha mais muito o que fazer ali, seu plano inicial fora por água abaixo, já que havia sido pego no ato, e continuar admirando Naruto de longe àquela altura seria fazer papel de ridículo. Ou decidia ler de fato, ou ia embora. Não estava com cabeça para ler, provavelmente passaria dias sem conseguir se concentrar em absolutamente nada além da lembrança daqueles olhos sorridentes o mirando de longe e a forma que a bochecha, vermelha de vergonha, fazia covinhas do lado que estava apoiada na mão e de como ele mordia os lábios para tentar conter os sorrisos, deuses, tamanho suplício!

Fechou o livro consternado e foi colocá-lo na prateleira. Naruto, claro, percebeu sua movimentação e passou a acompanhá-lo com o olhar. Mas ele não viu, estava evitando fitar sequer o lado da biblioteca onde o outro estava, ia decidido em direção à saída quando uma voz petulante em sua cabeça o repreendeu com um cinismo ácido e o convenceu a dar meia volta e parar ao lado do loiro. Por deuses, o que ele estava fazendo ali?

Naruto (que, claro, havia se voltado ao livro novamente quando viu o moreno vindo) ergueu a cabeça para ele devagar. Tinha uma expressão engraçada na face, com as sobrancelhas erguidas e mordendo a boca num jeito meio culposo que lhe dava a impressão de que ele estava tão nervoso e desorientado quanto o outro (e de fato, ele estava). Sasuke pigarreou.

-Usuratonkachi… - murmurou desviando o olhar casualmente para baixo e tentando parecer tão indiferente quanto possível - você vai ficar… aqui... até que horas?

-A-ah… Eu… - Naruto balançou a cabeça e começou a enrolar a manga vazia do braço direito com os dedos - Eu não sei… Até a hora que eu cansar, acho.

-Você, er… Eu tava pensando… em ir dar uma volta pela vila. Eu não tive tempo de fazer isso ainda desde que… eu voltei - ele coçou o queixo e se forçou a fitar o loiro novamente - Se você não tiver nada pra fazer… eu pensei, er… digo… Se… se você quiser ir junto, depois a gente podia passar daquele negócio, er… ichi… Ichiraku?... Digo… se… se você também não tiver nada pra fazer… Além, claro, dos livros, você tem que… ler seus livros.

Enquanto mais Sasuke gaguejava, mais ficava nervoso. E enquanto mais ficava nervoso, lógico, mais ele gaguejava. Naruto queria rir, mas ele próprio estava tão confuso e aterrado com o que aquele convite significava e os possíveis rumos que aquilo poderia tomar dependendo de sua resposta, que a sensação que tinha era que, se seu cérebro era a cabine de controle, os pilotos haviam largado o painel e resolvido correr em círculos gritando pela sala. Seu corpo não se movia e sua mente estava caótica.

-Claro! - respondeu meio esganiçado, depois de uma pausa demasiado longa - Vamos, podemos ir agora!

Mas nenhum dos dois se moveu nem disse nada, continuaram se encarando num silencioso pânico, como se debatessem telepaticamente se aquilo era de fato o que poderia ser. Bom, não era necessariamente um encontro, mas o que exatamente qualificava um encontro? Não que seria ruim se fosse um encontro, mas talvez fosse melhor não ser. Será que podia ser e não ser ao mesmo tempo? Eles ainda estavam parados. Sasuke fez um sinal de impaciência com a cabeça e Naruto se sobressaltou, erguendo-se da cadeira apressado, trombando com a mesa por consequência e fazendo um barulho horrível do taco arrastando no chão que ecoou alto pela biblioteca fazendo os outros presentes olharem em sua direção. E teria parado aí, óh céus, se eles não houvessem ficado desconfortavelmente colados um ao outro quando Naruto se levantou, fazendo com que ambos dessem um passinho agoniado para trás e o loiro esbarrasse desta vez com a cadeira e repetisse o som. Os dois apertaram os olhos e fizeram uma careta com ruído estridente, Naruto olhou hesitante para os outros leitores encarando feio e fez um sinal de desculpas pela interrupção.

Sasuke foi na frente e Naruto quase o seguiu para fora da biblioteca, mas se lembrou do livro largado sobre a mesa e voltou para guardá-lo na devida prateleira. Logo os dois alcançaram a rua em silêncio. E no incômodo silêncio os dois continuaram por algum tempo, andando lado a lado sem ousar produzir um som sequer e nem, ironicamente, olharem um para o outro nem de canto. O Uchiha estava quase se arrependendo amargamente de ter o chamado para passear quando o Uzumaki deu um suspiro animado e se virou para ele.

-Então… - disse o loiro, procurando agir com calma e naturalidade - Você vai ficar aqui por mais quanto tempo?

-Ainda não sei - Sasuke agradeceu mentalmente pelo outro rapaz ter quebrado o gelo. Havia tomado a iniciativa de convidá-lo totalmente por impulso e a verdade era que não tinha ideia do que fazer dali em diante, era bom Naruto fazer a parte dele também - Eu ia partir assim que tivesse alta, mas você… ficou bravo comigo, então eu resolvi ficar mais um tempo.

Ele deu uma risadinha discreta na última frase, fazendo o loiro corar lembrando-se do surto de raiva que teve quando Sasuke anunciou sua decisão de viajar pelo mundo. “Você mal pisou direito na vila e já vai largar tudo de novo! Seu lugar é aqui com a gente, aqui que é sua casa!”, bradou furioso antes de virar as costas e deixar o escritório de Kakashi quando foi repreendido pela explosão. Apesar disso, no fundo, entendia muito bem os motivos do outro para ir embora e dissera tudo por ímpeto com a frustração de pensar que, depois de tudo o que havia feito para trazê-lo de volta, ele sequer ficaria em Konoha. Por mais que o quisesse ao seu lado, queria em primeiro lugar que o Uchiha fizesse o que fosse melhor para si e se sentiu péssimo por tê-lo feito mudar de planos só para satisfazer um egoísmo seu.

-Mas sabe, eu acho que foi uma boa ideia - Sasuke, atencioso ao Uzumaki, notou sua chateação e logo entendeu o motivo - Acho que eu precisava mesmo ficar aqui por alguns dias antes de ir. Já que eu quero ver o mundo com outros olhos, o primeiro lugar onde eu tenho que fazer esse exercício é na vila onde eu nasci e onde tudo aconteceu, não acha?

Naruto lhe cedeu um pequeno sorriso e balançou a cabeça.

-E o braço? - perguntou alegrando-se novamente - Ainda dá tempo de mudar de ideia sobre isso também.

-Não, isso eu tenho certeza - Sasuke sorriu olhando em frente e tocou a manga vazia de leve com os dedos - É importante pra mim. E, pra ser sincero, já tô começando a me acostumar.

-Aaahhh, eu não! - exclamou o loiro torcendo o rosto - Não acostumaria nunca, eu vivo esquecendo! Aí eu demoro mais pra fazer as coisas, porque eu tento primeiro fazer com a mão direita, só que nada acontece, porque eu não tenho mais a mão direita! Daí eu vou fazer com a esquerda e faço tudo torto!

Sasuke deu uma gostosa risada com a indignação do outro e fez com que Naruto se virasse para ele boquiaberto, admirando seu sorriso com um olhar desnorteado. O moreno virou a tempo de ver a expressão pasma do outro.

-O que foi?

-Nada - ele se apressou em dar de ombros sorrindo e sacudindo a cabeça, mas o Uchiha franziu o cenho, ainda intrigado.

-Não, agora fala o que foi, por que tava me olhando com essa cara?

-Não é nada, é só que… - Naruto mordeu os lábios e desviou os olhos para o caminho em frente. Como ele poderia descrever a sensação de ver Sasuke rindo despreocupadamente ao seu lado? Como ele poderia colocar em palavras o sentimento de ter aquilo acontecendo de verdade depois de anos desejando desesperadamente, depois dos dias em que ele temia que aquilo jamais voltasse a acontecer, depois de tantos sonhos? Como explicar a emoção de saber que aquilo era real e não outro devaneio seu? Como poderia dar um nome ao sentimento que o preenchia e tomava por inteiro quando olhava para aquele sorriso tão raro e tão sublime? Bom, para esta última ele tinha um palpite bem forte de qual era a palavra. Ele estalou a língua deu de ombros mais uma vez - Eu tô feliz que você voltou, só isso.

Desta vez foi Sasuke quem ficou sem reação. Esperava que ele o zombasse pelos sorrisos quando costumava ser tão carrancudo ou o repreendesse por ter rido de sua desgraça. Entretanto, a resposta lhe causou um sentimento parecido com o que o próprio Uzumaki tivera. Era simplesmente surreal que depois de tanto tempo eles estivessem caminhando despreocupadamente pelas ruas de Konoha, em paz, sorrindo, flertando. Por deuses, fazia mais de quatro anos que Sasuke havia se convencido de que isso jamais aconteceria e, até poucos dias antes, ele ainda tinha plena certeza de que tal cena nunca teria espaço em sua vida. Estava tão nervoso com toda a situação e tentando colocar ordem em suas atitudes impensadas que mal se dera conta de que aquela era a primeiríssima vez em que não havia absolutamente nada entre ele e Naruto.

-Eu estou feliz em estar de volta - murmurou dando-lhe um sorriso fraco que o loiro retribuiu.

De repente lhe ocorreu que aquele era um momento perfeito para sorrateiramente roçar os dedos nos de Naruto e ir entrelaçando suas mãos, aproveitando a deixa para reforçar que aquilo talvez fosse um provável-mas-não-necessariamente encontro, se ao menos os dois não estivessem andando ao lado um do outro para o lado em que nenhum dos dois tinha braços! Não só isso como também era o lado em que tinha o rinnegan e, portanto, ficava com o olho fechado e era obrigado a virar o rosto por completo na direção de Naruto para conseguir vê-lo com o olho normal. Por que raios estavam andando desse lado? E ele sequer tinha um bom motivo para justificar inverter as posições subitamente, quase rosnou de frustração.

Bem a tempo de salvar os dois de voltar ao temível silêncio constrangedor da falta de assunto, Sasuke se deu conta de que estavam prestes a chegar ao píer onde costumava ir quando criança para passar o tempo.

-Aquilo ainda tá inteiro, é? - admirou-se apontando o local e mudando sua rota para descer até lá.

-É… Deu sorte, acho, quando o Pain atacou a vila foi mais pro centro, se tivesse destruído isso aí eu não sei se alguém ia lembrar ou se importar em reconstruir esse pier.

Naruto foi atrás do Uchiha distraidamente até metade do caminho e então quase travou quando bateu-lhe a realização. Estavam os dois sozinhos, descendo para a beira de águas calmas e cristalinas, frente a um horizonte límpido, bem a tempo do pôr do sol que ia lentamente tingindo o céu de laranja e mesclando-se ao azul, a rua atrás deles praticamente deserta… Ah, ele havia assistido filmes o suficiente para saber aonde aquilo ia chegar. Principalmente quando eles estavam no meio de um possível-mas-não-decididamente encontro. Não que ele não quisesse, ele só não havia pensado na possibilidade de acontecer tão cedo até notar o cenário propício.

Mesmo assim, travou por apenas um segundo e logo voltou ao caminho, em passos um poucos mais lerdos. Afinal, o que ele poderia fazer? Recusar-se a descer com Sasuke sem um motivo soaria rude, dizer que estava hesitante pelo que poderia acontecer soaria extremamente precipitado - ele sequer sabia se Sasuke tinha o mesmo em mente. Até porquê, nenhum dos dois havia ousado falar abertamente sobre o que talvez pudesse estar acontecendo entre eles e Naruto definitivamente não queria ser o primeiro a tocar no assunto.

Sasuke, no entanto, não tinha a intenção que o loiro temia. Pelo menos, não até se dar conta, mais ou menos ao mesmo tempo que o outro, do quão adequado estava todo o contexto. Depois de tal observação, como não podia deixar de ser, ele voltou a ficar pateticamente nervoso com a expectativa. E para o seu desespero, tendo se adiantado até o pier e Naruto chegando depois, acabaram por naturalmente inverter as posições e ficarem do lado em que ambos tinham braços.

-Eu, ahn… - ele pigarreou, respirou fundo e perdeu o olhar na linha onde o céu encontrava-se com as águas plácidas - Eu costumava ficar sentado aqui...Contemplando o quanto eu era sozinho, pensando em todas as coisas que eu tinha perdido, remoendo o quanto a vida é injusta… Patético, não?

-Eu também fazia isso - murmurou Naruto, que parou ao seu lado e também olhava para o horizonte colorido com os pensamentos distantes - Eu também tinha um lugar especial.... pra ficar assistindo as outras crianças com os pais e sentindo pena de mim mesmo por não ser uma delas… Acho que, pelo menos, nós dois estávamos sendo patéticos juntos. É menos patético assim, não acha?

-O balanço na árvore, certo? - Naruto virou para ele com um ar surpreso, mas mesmo percebendo isso, Sasuke não conseguiu se forçar a retribuir o olhar - Que foi, achou que era só você que ficava… admirando de longe…?

-Quem disse que eu ficava te admirando de longe? - exclamou o loiro corando violentamente.

-Você mesmo, idiota - dessa vez ele virou, franzindo o cenho - Mais de uma vez, aliás.

-N-não disse “admirando”! - Naruto voltou a olhar para a frente e tentou cruzar os braços em vão, acabando por enrolar o braço esquerdo na manga vazia do braço direito sem querer e o posicionando como se o outro braço estivesse lá e o nó que quase acontecera fosse totalmente intencional - Eu nunca disse… Nunca disse “admirando”...

-Ok, me dá uma diferença entre o que você disse que fazia e “admirar”, então - zombou o Uchiha o mirando divertido, ainda que ele próprio estivesse quase tão corado quanto o outro, que bufou irritado e inchou as bochechas frustrado enquanto procurava (e não encontrava) diferença alguma para retrucar - Nem sei porque você se chateia com isso se eu acabei d-de dizer que fazia ams.. a mesma coisa com você!

-A diferença é que…! - Naruto franziu o cenho emburrado e tentou pensar em alguma coisa. Entretanto, tudo o que vinha em sua cabeça poderia ser facilmente descrito como “admirar”. Ele soltou uma exclamação frustrada e lançou um olhar escuso ao outro, mordendo os lábios hesitante - Mas porque… você ficava me admirando?

Sasuke sentiu o estômago gelar. Ok, talvez trazer aquilo à tona não tivesse sido uma boa ideia. Ele parou e tentou pensar em alguma coisa para dizer que não soasse brega ou deprimente, mas era particularmente difícil quando os motivos que ele tinha para observar o loiro de longe quando criança eram exatamente ou bregas ou deprimentes. Ou, talvez, ambos ao mesmo tempo.

-Ahn… Eu só… Não sei, eu só gostava de olhar pra você. Ah, não, que droga, isso foi muito pior...

-O quê?! Pior que o quê?

-Argh… Ok… Eu me sentia menos sozinho de te ver - não teve certeza se aquilo melhorava ou piorava a situação, mas pelo menos tirava o foco de “gostar de olhar para ele”. Como raios ele pensou que aquela resposta seria de alguma forma mais desinteressada que dar um motivo real? No fim, havia apenas soado muito… Bem, soava muito.

Naruto riu baixinho, mirou o chão com um ar bucólico e encolheu os ombros de leve. O outro o mirou um tanto preocupado com a reação, mas relaxou ao ver a expressão serena em sua face, o loiro não parecia estar rindo dele, mas sozinho.

-Engraçado, não? Quem vê pensa que nós somos completamente diferentes um do outro, - murmurou o Uzumaki com um sorriso mínimo e distante - mas a gente é igualzinho de um jeito meio idiota.

-É por isso que nos entendemos tão bem.

Os dois se entreolharam por um instante, confirmando aquela afirmação nos olhos um do outro, e então Naruto abriu ao moreno um sorriso radiante, fazendo-o sorrir também. Aquilo se estendeu por algum tempo, como se houvessem entrado numa redoma particular momentaneamente. Mas não por muito tempo, pois hipnotizados por um sorriso, ambos temiam atropelar-se e deixar escapar alguma coisa confidencial demais se dessem chance das palavras terminarem o caminho do coração até a boca.

-E então… - Sasuke disse pausadamente - Já tá com fome? Topa ir no Ichiraku?

-Eu sempre topo ir no Ichiraku - viraram-se desapressadamente para fazer o caminho até o restaurante, voltando a caminhar lado a lado (desta vez mantendo-se do lado certo) - Mas você que me chamou, você paga.

-Eu pago se você comer uma tigela só.

-Ah, não é justo!

-Não é justo digo eu!

-Você sabe que eu sempre peço mais de uma!

-Duas, então.

O Uchiha lançou-lhe um sorriso mínimo. A verdade era que não se importava de pagar por quantas o outro aguentasse e Naruto, por mais que fizesse cara de bravo e protestasse, também sabia disso. Mas eles precisavam discutir de qualquer jeito, era de praxe.

-Mas ok, - disse Naruto desviando os olhos para o chão com um ar meio travesso, meio encabulado - você ficava me olhando porque se identificava e não tinha coragem de puxar assunto, igual eu fazia, certo?

-Hm.

-E hoje, você tava me olhando estudar por quê?

Sasuke olhou para o outro lado também, quase desesperando-se com a pergunta. Pensou, no primeiro segundo, uma série de soluções histéricas para a situação, a maior parte incluía ser extremamente grosseiro, uma outra era negar veementemente e alegar que estava apenas olhando porque reparara que Naruto estava o encarando primeiro. Estava quase decidindo-se por esta última, quando uma melhor lhe ocorreu.

-Depois de tudo e você ainda pergunta? - disse com um quê de cinismo - Você já sabe o motivo.

Naruto arregalou os olhos para o chão numa silenciosa crise de pânico, ainda se recusando a mirar na direção do outro.

-Como assim? O que que eu sei?

-É porque você é meu amigo.

-Como assim? O que isso signific-ah, não… - finalmente virou-se para ele, inconformado de entender a chacota - Você tá só repetindo o que eu te disse semana passada!

-Talvez eu esteja - o moreno não conseguiu segurar um sorriso, sentindo uma satisfação imensa de usar aquele diálogo contra o próprio criador.

-Seu… - Naruto estreitou os olhos para ele com um meio sorriso e lhe virou a cara com jeito de ofendido, mas não podia negar para si mesmo que estava achando muita graça naquilo - Isso nem responde minha pergunta, ninguém fica encarando outra pessoa enquanto ela lê só porque são amigos!

-Tem muitas coisas que não se faz só por amizade, não acha? - retrucou Sasuke mantendo o tom cínico - Mas você tem razão, ficar encarando outra pessoa enquanto lê é mesmo uma delas. Por que você não explica por que você tava fazendo isso?

-Hn! Não! Você não pode fazer isso, eu perguntei primeiro!

-Exatamente. Se você quer saber meus motivos, é de bom tom começar explicando os seus.

-Babaca… - murmurou, tornando a virar para o outro lado com um sorrisinho insistente na face, tingida de púrpura, como não podia deixar de estar com tal assunto - Ficou engraçadinho agora, é?

O Uchiha riu em voz alta. O loiro quase virou para admirar tal feição em seu rosto novamente, mas desta vez decidiu limitar-se a apreciar o som melodioso daquela voz, tão preciosa quanto a visão de seu sorriso lhe seria. Estava ficando muito mal acostumado com aquele Sasuke alegre, risonho e amigável dos últimos dias, só tinha certeza de que não estava sonhando porque… Bem, nem em seus sonhos as coisas eram tão agradáveis assim, se fosse um sonho o passeio já teria sido interrompido por pessoas correndo e gritando fugindo de Madara atirando meteoros ou algo do gênero. Estava prestes a se distrair imaginando alguma catástrofe fantasiosa quando sentiu um toque suave em sua mão.

De primeiro, Naruto mal conseguiu reagir, ficando quase sem ar quando Sasuke roçou as costas dos dedos nos seus. Dois segundos depois, entretanto, ele enroscou os próprios dedos aos dele de um jeito meio desajeitado e hesitante. Nenhum dos dois se atrevia a olhar ou mesmo respirar, continuaram andando em silêncio por algum tempo, preocupados demais com a bagunça que suas mentes haviam se tornado, o resto do mundo estava completamente mudo por um instante.

Sasuke mal conseguia acreditar que havia feito aquilo. Quase se arrependeu ao não receber nenhuma reação imediata, mas quando deu-se conta, estavam com os dedos entrelaçados e, bem, ele não estava em posição de se arrepender disso. Aliás, havia o chamado para passear, iria lhe pagar um jantar em seu restaurante favorito e agora andavam meio que de mãos dadas. Aquilo era um encontro, afinal, não? Se antes não havia mais que a mera possibilidade de quem sabe ser, até aquele ponto havia definitivamente se tornado… uma possibilidade maior de ser?

Infelizmente, saíram da rua vazia e viraram numa movimentada, soltando os dedos um do outro e recolhendo as mãos para junto do corpo de imediato, antes que alguém tivesse chance de notar. Mas não levou tempo o suficiente para que outro silêncio estranho surgisse entre eles, Naruto logo apareceu com assunto.

-Então! - disse ele com animação - Você tinha uma equipe viajando contigo desde que deixou o Orochimaru, não?

-É sim.

-E…? Quem eram?

-Bem… - Sasuke lançou um olhar hesitante a Naruto, o loiro parecia mesmo muito interessado em ouvi-lo contar sobre aquilo - O Suigetsu era de Kirigakure, foi fácil de convencer a vir comigo, ele era usado pra experimentos e detestava o Orochimaru. O Juugo foi de onde surgiram os selos amaldiçoados, como o que eu tinha.. A Karin… Ela gostava de trabalhar com o Orochimaru, na verdade, eu a convenci…- ele parou e deu uma risadinha sem graça, inclinando a cabeça de leve com um olhar meio culpado - Bom, ela veio porque tinha uma queda por mim.

-Ah, é claro que tinha! - zombou Naruto com um sorriso cínico - Qual garota no planeta conseguiria pôr os olhos em Sasuke Uchiha e não cair de amores?

-Cala a boca - defendeu-se dando-lhe um tapinha no braço com as costas da mão - Não é como se eu quisesse ser obrigado a conviver diariamente com alguém dando em cima de mim quando eu tenho coisas mais importantes com o que me preocupar.

-E se você não tivesse algo mais importante, - o loiro lançou um olhar oblíquo ao outro - você ia querer alguém dando em cima de você?

Aquela pergunta claramente era uma armadilha. Sasuke retribuiu o olhar estudando seu semblante sem muito sucesso em decifrar qualquer coisa.

-Só me interessaria ter alguém apaixonado por mim se eu tivesse interesse nessa pessoa.

-Certo… - Naruto mordeu a boca e desviou os olhos para a frente, pensativo - E seu time, então… Como era o nome mesmo?

-Time Taka.

-Taka… Como era com eles? Vocês… se davam bem?

-Muito, na verdade. Eu admito que até fiquei impressionado… Acho que no começo todo mundo só estava junto por conveniência ou interesse, mas nós funcionávamos bem como time e, convivendo diariamente, acabamos criando muita proximidade.

Ah… - Sasuke olhou para o loiro e se surpreendeu um pouco de notar um bico emburrado evitando virar em sua direção - Imagino que você nem sentiu falta do time 7 acompanhado de pessoas tão maravilhosas.

O Uchiha riu e balançou a cabeça devagar.

-Isso é ciúmes? - provocou com um olhar esguio, ainda que o outro estivesse olhando para o outro lado - Não, na verdade eles me faziam até sentir mais falta. Ver o Suigetsu e a Karin discutindo por qualquer coisa, como eu e você costumávamos fazer, o Juugo sempre o mais maduro, apartando os desentendimentos e cuidando de todo mundo, como o Kakashi, a Karin tentando se fazer de séria, mas… ugh… se atirando pra cima de mim a cada chance infeliz que ela arranjava… E o Suigetsu sempre se divertindo com qualquer coisa e fazendo piada de tudo… Muita coisa me fazia lembrar do time 7, era difícil não sentir falta dos velhos tempos.

Naruto levantou a cabeça e mirou o moreno com um ar ainda injuriado com a conversa, mas também curioso.

-Então esse tal de Suigetsu se parece comigo?

-Não. Não, absolutamente não, nenhum deles realmente se parece com nenhum de vocês, são pessoas totalmente diferentes, era só uma dinâmica parecida. Por exemplo, o Suigetsu cumpria o mesmo papel de palhaço do grupo que você - o loiro o fitou com um olhar cômico de censura, respondido com um sorriso - Mas, mesmo assim, nem no senso de humor ele se parece com você, nem na ética, nem na forma de pensar, nem nos trejeitos, nem na voz e nem na aparência, com toda certeza.

Naruto mordeu a boca por dentro e voltou a mirar em frente com um jeito pensativo que não dava dica alguma a Sasuke sobre o que se passava em sua mente.

-Você me acha bonito?

-Hm?

-É que você deu uma ênfase… que eu não pareço com esse cara em questão de aparência e eu imaginei se ele seria um tipo bonitão ou…

Ele sabia muito bem que Sasuke não havia falado naquele sentido e, honestamente, tinha muita certeza de que não havia com o que se preocupar entre a relação do moreno com o outro rapaz, muito menos com a aparência física dele, fosse como fosse. A verdade era que Naruto só queria provocar um pouco e se aproveitar daquela situação. Afinal de contas, eles provavelmente estavam em um encontro, certo?

-Não, eu só falei porque vocês dois não tem nada a ver um com o outro, mesmo, não era por… nada do tipo.

-Mas você acha?

-O que?

-Que eu sou bonito? - fez um esforço sobre-humano para manter a expressão o mais neutra o quanto era possível enquanto lançou um olhar curioso a Sasuke. Deliciava-se em segredo de vê-lo ficando vermelho e se tornando indiscretamente nervoso com a pergunta, ainda que ele próprio não pudesse conter muito do próprio nervosismo e da sensação de ardência em suas bochechas que só poderia significar que estava corado também por tanto atrevimento. De qualquer jeito, estava valendo a pena.

-Er… Eu não sei - Sasuke franziu o cenho contrariado e desviou o olhar para a frente, sentindo-se miseravelmente confuso sobre como deveria agir e o que deveria responder quando a pergunta o deixava tão encurralado. Tinha jeito no mundo de responder um negócio daqueles sem cortar o clima de flerte entre eles e, ao mesmo tempo, sem soar ridículo e humilhante? Provavelmente não - Depende muito de gosto, cada pessoa tem uma ideia diferente de beleza.

-Sim, gênio, mas eu especificamente perguntei o que você acha.

-Eu... Ahn… Eu acho que você… - ele pigarreou - Não é nada mal.

-Hm! - respondeu com um leve ar interessado antes de os dois se silenciarem.

Exigia um esforço fenomenal e uma mordida doída nos lábios para Naruto não desabar de rir com tal diálogo, mas ele deu o seu melhor. Tinha a impressão que uma gargalhada histérica naquele momento poderia ser interpretada de forma errada e, por mais que o lado da provocação parecesse bastante atraente, o lado “talvez dar risada da cara dele soe como se eu só estivesse aqui pra zoar e não tivesse correspondendo o-que-quer-que-seja-isso de verdade” parecia perigoso.

Como se o momento não fosse delicado e tenso o suficiente, Kurama decidiu que o silêncio desconfortável que se estendeu era uma ótima oportunidade para intrometer-se.

-Ei, posso fazer um comentário? - a raposa perguntou repleta de enfado. Naruto, dentro de si, lançou um olhar escuso e preocupado ao bijuu.

-Diga.

-Vocês dois são completamente ridículos.

Naruto não se aguentou mais e irrompeu num riso tão intenso que até desequilibrou-se num passo ou dois e parou um breve instante para estabilizar o suficiente para, ao menos, continuar andando enquanto ria. Sasuke, lógico, parou de andar num meio termo entre alarmado e intimamente ofendido e não acompanhou o loiro quando este voltou a andar.

-Do que você tá rindo? - ele perguntou com uma nota de fúria na voz.

-Nada… - o loiro desconversou balançando a cabeça e tentando refrear-se - O Kurama falou uma coisa… Não é nada.

Se havia uma coisa no mundo que Sasuke adoraria saber era que Naruto estava caçoando de tudo o que estava acontecendo em tempo real com o bichinho demoníaco de estimação dele. E “adoraria”, neste caso, significa “quis lançar um amaterasu em si próprio e desintegrar-se da face do planeta”. Contrariado e, depois de todo o tempo que levou para tomar confiança até aquele ponto, novamente reduzido a uma pilha de nervosismo e insegurança, o Uchiha se silenciou por completo e voltou a acompanhar o outro até a tenda de lámen. Por sorte, já estavam bem perto e não levaram mais que dois minutos para finalmente alcançarem a banca e serem recebidos com sorrisos conforme acomodavam-se em seus bancos.

-Olá! - cumprimentou a atendente com um ar animado - Como tá indo a recuperação, Naruto-kun?

-Já tô ótimo, ‘ttebayo! Bem melhor que o outro dia!

-Ah, que bom! Vai o de sempre?

-O de sempre!

-E o seu amigo, - ela se virou para Sasuke e sua postura automaticamente mudou, ela apoiou-se sobre o balcão e inclinou o corpo de leve em sua direção com um olhar nada inocente - já sabe o que vai querer hoje?

O sorriso desapareceu do semblante do loiro. Ele teve a impressão de sentir um leve tique na sobrancelha quando encarou a moça, atônito, mas ela sequer percebeu, já que estava com os olhos grudados no outro rapaz. Este, por outro lado, lançou um rápido olhar de soslaio para Naruto e imediatamente notou sua discreta, porém imensa, irritação.

-Sei sim, - respondeu à jovem com um tom decidido, virando em seguida para o Uzumaki e lhe abrindo um sorriso diminuto enquanto falava - quero o mesmo que ele, vou confiar no bom gosto do meu… amigo.

Naruto dirigiu ao outro um olhar agradecido de cumplicidade e a mera sombra de um sorriso antes de virar para a frente. A atendente percebeu a dica, já que há poucos sinais de desinteresse mais óbvios que falar com uma pessoa mirando os olhos de outra. Ela respondeu com um murmúrio frustrado, estudou os dois rapazes com desconfiança e foi para dentro preparar os pedidos.

-Então quer dizer que nem bem voltamos da guerra e você já tinha vindo comer aqui?

-Não aguento ficar muito tempo longe, é muito sofrimento pra mim - Sasuke rolou os olhos - O maior tempo que eu fiquei longe foi os anos que eu passei treinando com o Jiraya, quase morri de abstinência.

-Sério? Não sabia disso.

-É verdade, não tem lámen igual ao do Ichiraku em lugar nenhum do mundo, foi uma tortura!

-Não isso, seu idiota, sobre você ter ficado anos fora da vila treinando.

-Ah! Sim, eu fiquei! Dois anos e meio com o Jiraya!

Naruto começou a contar sobre o tempo que passou fora com enorme empolgação enquanto esperavam pela comida e Sasuke ouviu atenciosamente a cada palavra. Talvez a história nem fosse tão interessante, mas o entusiasmo fazia parecer que era, e se a solene narrativa não fosse entretenimento o suficiente, as caras e bocas e gesticulações exageradas completavam o show. Até que a moça finalmente voltou com duas grandes tigelas fumegantes, o loiro se calou com os olhos brilhando para o seu pedido enquanto ela os servia e colocava sobre as tigelas um par de hashis para cada um.

-Bom apetite! - ela sorriu e se afastou fitando os dois com um ar astucioso.

Ambos os rapazes notaram a suspeita no olhar dela, mas Sasuke não se importou. Naruto, por outro lado, abaixou a cabeça e fez uma careta preocupada para o próprio macarrão enquanto murmurava um ‘itadakimasu’ e começava a comer. De repente, Sasuke lançar olhares, sorrisos e elogios para ele como forma de dispensar uma garota não parecia uma ideia assim tão boa. E como se não bastasse o nervosismo imenso que toda aquela situação lhe causava, ele definitivamente não tinha habilidade nenhuma em usar o hashi com a mão esquerda.

-Mas que droga…

Sasuke deu uma risadinha ferina.

-Tá muito difícil aí? - ele perguntou quando o mesmo punhado de macarrão escorregou do hashi de Naruto pela terceira vez seguida.

-Bom, não é como se eu tivesse acostumado a não ter o braço direito com frequência - retrucou o Uzumaki com uma nota de irritação na voz.

-Desculpa por isso - o moreno mordeu os lábios com certo pesar, mas recebeu um olhar complacente em resposta, absolvendo-o da culpa. Um sorriso mordaz foi lhe surgindo quando Naruto voltou a lutar contra os hashis para comer. Estava esperando uma boa oportunidade de se vingar pela pergunta sobre achá-lo bonito, a última coisa que faria no mundo era deixar que o loiro saísse por cima naquela brincadeira e ele ficasse apenas fazendo papel de bobo, afinal ele também sabia jogar - Pelo jeito, você vai ficar nessa pra sempre, dobe. Quer que eu te dê a comida na boca?

Naruto se virou devagar para o outro e os dois praticamente fuzilaram-se com o olhar num silencioso cabo de guerra. Contrariado, o loiro rolou os olhos e deu uma risadinha cínica.

-Vai se catar, cretino.

-Ué, você ficou bravo? - Sasuke correspondeu o cinismo, fazendo-se de desentendido - Não é como se fosse a primeira vez, afinal. E da outra vez você não se incomodou nem um pouco, ficou até muito feliz que eu te dei comida na boca.

Novamente, ele lançou um olhar cortante. O Uchiha só havia esquecido de mencionar que a tal outra vez fora quando eram crianças, ele estava amarrado a um tronco e não havia comido nada desde o dia anterior.

-Dessa vez eu posso me virar sozinho.

Contrariando a si próprio numa decisão pouco inteligente, Naruto foi muito confiante tentar pegar uma metade de ovo cozido. Acontece que objetos redondos, molhados e escorregadios não são algo muito fácil de se segurar com palitos roliços, principalmente quando a pessoa em questão está ligeiramente nervosa e, apesar de destra, está usando a mão esquerda. Estava muito concentrado em apanhar miseravelmente do ovo sem sucesso algum até que outro par de hashis cortou seu caminho e ergueu o condimento até ele. Naruto mordeu a boca e respirou fundo, mirando mortificado o bendito ovo, depois virou-se colérico para encarar Sasuke, que o fitava com uma petulância exuberante em seu mínimo sorrisinho.

-Abre a boca - disse o Uchiha num tom desgraçadamente lascívo.

Naruto lhe atirou faíscas com os olhos, incapaz de sequer respirar direito, e então quebrou a tensão instaurada imediatamente abocanhando a metade inteira de uma só vez.

-Obfigado, - ele respondeu cinicamente com a boca cheia - muido ffentil da shua paate.

-Disponha - Sasuke riu e rolou os olhos.

Os dois se calaram depois disso, terminando de comer em silêncio (exceto por ocasionais resmungos frustrados de Naruto quando se desentendia com o hashi). Nenhum dos dois quis repetir e, mesmo que quisesse, o loiro não estava disposto a prolongar seu sofrimento por mais outra tigela inteira. Sasuke pagou à atendente, que lhes agradeceu entre sorrisinhos e olhares cheios de malícia que fizeram Naruto corar e resmungar para si alguma coisa que o outro não entendeu.

-O que você disse? - perguntou Sasuke quando se afastaram.

-Ahn? Ah… Nada, não foi nada.

Ficaram ali parados, ao lado da banca (ainda à vista da moça), um de frente para o outro, mas ambos mirando o chão num silêncio constrangedor.

-Então, er… - Sasuke pigarreou - Você quer… Você vai pra casa agora?

Naruto coçou a bochecha e deu um suspiro como forma de tomar coragem.

-Na verdade, eu… não queria ir pra casa ainda.

-Quer… voltar pro píer? Nós podemos sentar lá pra conversar um pouco.

Os dois entreolharam-se com certo nervosismo, debatendo mais uma vez em silêncio o que aquilo significava.

-Tá, parece ótimo!

-Certo… - Sasuke começou a andar na frente e o outro o acompanhou. Mas se estavam indo para conversar, então iriam precisar de um assunto, e Sasuke sabia bem o assunto que ele queria trazer de volta - Então… Já que você me perguntou, eu também quero saber…

-O quê?

-Você me acha bonito?

Naruto fez um som irritado e se remexeu de um jeito engraçado que fez o outro precisar se segurar para não rir.

-Nada a ver! Eu perguntei isso com um contexto!

-Você perguntou se eu tinha falado de aparência por uma questão de beleza, eu te disse que não e mesmo assim você quis saber. E meu contexto é que se você quis saber, eu também quero.

-Você não consegue nem ir comer sem aparecer uma menina apaixonada caindo aos seus pés - resmungou franzindo o cenho, sem conseguir distinguir se o rancor que emanava em sua voz era por inveja ou ciúme (provavelmente ambos) - Você já sabe muito bem que todo mundo te acha lindo e maravilhoso.

O Uchiha deu uma risadinha orgulhosa.

-Mas eu quero saber de você: concorda com todo mundo ou não?

Naruto torceu a boca e virou para ele, examinou o outro de cima a baixo com certo desdém e subiu novamente os olhos para os seus. Por um segundo, deixou escapar um sorrisinho que denunciava exatamente o quanto o achava estonteante, o quanto o olhar algoz do moreno o prendia, o quanto ele adoraria perder horas apenas admirando aquele rosto perfeito, o quanto já havia se exaltado discutindo que outro rapaz não chegava nem aos seus pés, o quanto havia se paralisado sem fôlego da primeira vez que o vira depois de quase três anos, impressionado do homem encorpado que seu amigo de infância estava se tornando e do quanto passara infinitas noites confuso pensando naquilo, no quanto cada vez que o via depois daquilo admirava-se mais de que ele estava ficando a cada dia mais homem e, por deus, que homem. Mas o olhar durou apenas aquele um segundo, tempo o suficiente só para lançar a mensagem que carregava. Depois o loiro voltou a expressar azedume e deu de ombros.

-Não, não faço ideia do que todo mundo vê em você.

-Ah, é mesmo? - desdenhou Sasuke cinicamente erguendo uma sobrancelha.

-É, pra mim você não é lá grande coisa, não.

-Se você não me acha lá grande coisa, - um tom mordaz foi crescendo indiscretamente em sua voz - então por que é que você não conseguia parar de me ohar na biblioteca?

Naruto gelou

-De novo com isso?

-Você não respondeu da outra vez.

-Você também não!

-Eu já falei que só respondo quando você responder.

-P-pois eu... eu tava muito curioso sobre o que você tava fazendo lá que não voltava pra vila fazia três anos e logo nos primeiro dia livre se enfia na biblioteca pra ler! E depois ainda me vem com desculpa esfarrapada que não teve tempo de passear pela vila pra me chamar pra sair!

Desta vez, quem gelou foi Sasuke. Ou melhor dizendo, ambos, porque Naruto definitivamente não havia considerado que “chamar para sair” soaria tanto como se referindo a um encontro quanto soou em voz alta.

-Quero dizer… Pode me chamar pra ir nos lugares com você sem precisar… de uma desculpa, afinal eu sou seu… amigo - ele murmurou tentando se consertar, mas a voz foi meio morrendo no final conforme se dava conta de que estava repetindo aquela uma frase que não queria ter repetido naquele dia em específico. Sem se atrever a fitar o outro, ele fez uma careta preocupada para si mesmo e resolveu passar a bola antes que fizesse (mais) papel de ridículo - De qualquer forma, já respondi, ‘ttebayo! Agora é sua vez de falar porque tava me encarando e, aliás, porque tava na biblioteca, também!

O moreno lhe lançou um olhar presunçoso.

-Eu fui pra biblioteca porque eu não tava acreditando quando me contaram que você tava estudando, então fui ver com meus próprios olhos. Imagine só: logo você, num lugar em que se faz silêncio, sentado pra ler livros e se concentrar! Mas lógico que não era tão verídico, porque invés de estar estudando concentrado, você tava era me secando com os olhos…

-Cala a boca! Eu tava estudando sim!

Sasuke riu da indignação do Uzumaki, que lhe mostrou a língua meio bravo, meio risonho. Ele tomou um instante para pensar, estudou o meio sorriso do loiro e o leve rosado em suas bochechas, que podia variar de tom vez ou outra, dependendo do rumo da conversa, mas não desaparecia do rosto dele nem por um instante desde a primeira vez que seus olhos se cruzaram mais cedo naquele dia. E ele próprio também, certamente não estivera diferente, visto que vinha sentido as bochechas queimando sem trégua. Mas coisas estavam indo bem. Naruto ainda estava ao seu lado por vontade própria e ainda parecia estar se divertindo, afinal, o que havia a temer?

-Eu falei brincando.

-Lógico que sim, porque você sabe muito bem que eu sou super inteligente, genial e centrado!

-Eu fui na biblioteca pra ficar te olhando.

Um pequeno silêncio se seguiu, no qual somente seus passos e a respiração trêmula do loiro se ouvia entre os dois, o barulho da parte movimentada da vila já ficando distante.

-Por quê? - Naruto murmurou numa voz fraca sem o mirar.

-Você é o motivo de eu estar na vila agora - a voz de Sasuke não saiu muito mais alta do que a do loiro e não olhou para ele ao falar, tampouco - Não só por eu ter decidido ficar mais tempo, mas o motivo de eu ter mudado minhas concepções e voltado, mesmo que absolutamente tudo mais no mundo fosse desfavorável pra eu fazer isso. Você é meu porto seguro aqui, te observar de longe ainda me conforta tanto quanto me confortava há sete, oito anos atrás.

Os dois se calaram novamente, mas desta vez por um bom tempo. Estavam já chegando ao pier novamente, havia uma escada para descer até lá em algum lugar próximo, mas tal como mais cedo naquele dia, não procuraram por ela, apenas desceram pela grama. Diferente da primeira vez, entretanto, já havia escurecido e a descida íngreme parecia um pouco mais complicada. Não que isso se tornasse um problema: como se fosse a coisa mais comum de suas vidas, os dois simplesmente deram-se as mãos para darem suporte um ao outro até chegarem em baixo. E como se não houvesse nada mais costumeiro entre eles, continuaram segurando as mãos com firmeza até chegarem à ponta da plataforma e se sentarem ali. Depois de se ajeitarem, afastaram as mãos, não por não terem vontade de continuar assim, mas porque ambos estavam um pouco trêmulos e suando frio e não queriam que o outro notasse o nervosismo.

Sasuke estava inflado de uma deliciosa satisfação por estar naquele lugar ao lado do Uzumaki. Mesmo com a pouca luz, conseguia enxergar águas plácidas refletindo o céu, a linha que separava os dois quase não se percebia, tornando tudo o que dava à vista em um imenso azul escuro os cercando. Gostava de lá, dava-lhe uma sensação de familiaridade e conforto que lhe ajudava a ter mais confiança. E estar ao lado de Naruto era ainda mais simbólico, já que todas as vezes que sentara-se ali, estava sozinho, e desta vez tinha a uma pessoa que amenizava sua solidão naquela época sentado consigo. Não estava mais sozinho. Nenhum dos dois estava.

-Sabe, - ele suspirou pensativo, contemplando o horizonte - foi aqui que eu aprendi a fazer o katon.

Naruto sorriu para si mesmo e balançou os pés, pendurados para fora da plataforma.

-Eu acho tão legal você conseguir cuspir fogo, tipo um dragão… - Sasuke riu incrédulo do comentário - É verdade! E você atira fogo com o olho também, isso é tão da hora! Eu não faço nada tão interessante quanto cuspir fogo…

-Você inteiro vira uma luz amarela incandescente que parece estar pegando fogo, não é interessante o suficiente?

-Hm… É, você tem razão, eu sou muito da hora. Mas eu podia virar uma raposa de nove caudas amarela incandescente que parece estar em chamas e cuspisse fogo igual um dragão, ia ser mais foda.

-Certo…

-Meu elemento é vento, se eu fosse soltar um jutsu com a boca ia ser vento. Sabe quem mais solta vento com a boca? Todo mundo. Chama-se assoprar.

-De onde você tira essas ideias? - Sasuke o mirou risonho e incrédulo, o loiro apenas deu de ombros - … Bom, mas vento complementa fogo. Nós temos elementos complementares.

-Nós temos!

Naruto quase pulou ao dizer aquilo e sua voz saiu um tanto mais entusiasmada do que ele gostaria. O outro, claro, notou sua reação exagerada e ele, claro, percebeu e, pela milésima vez naquele dia, virou o rosto embaraçado. Na verdade, estava morrendo de vontade de falar com o Uchiha sobre como tinham elementos complementares desde que descobrira a informação, como se fosse uma descoberta das mais fenomenais e bombásticas. Agora que haviam falado disso em voz alta, no entanto, parecia uma coisa muito menor, no máximo a ser considerada como tática em batalha. Sua empolgação, pensou, era algo bem infantil, como uma criança que descobre que o amigo tem um boneco da mesma coleção que o seu favorito.

Imaginou que Sasuke estivesse o achando um completo bocó com toda aquela conversa, mas aquilo desapareceu de sua mente instantaneamente ao sentir a mão dele deslizar até encostar na sua. Levou um momento, então o moreno passou suavemente o dedo mínimo por cima do seu e, prontamente, Naruto deixou que eles se intercalassem.

Afinal, conheciam-se desde crianças, era difícil dizer uma opinião neutra de si mesmo baseado na própria memória, mas achava justo supor que seu eu de doze, treze anos, no auge da imaturidade, era infinitamente mais apalermado e irritante do que sua versão atual. E mesmo assim, fora por aquela versão de si que Sasuke o conheceu e por quem criou tamanho afeto que todo o esforço do mundo não fora capaz de apagar em três anos de afastamento. Uma vida de se educar a não dar a mínima para o que os outros pensavam sobre si e, de repente, sua cabeça inventava de querer se preocupar justo com a pessoa com quem mais podia ser ele mesmo à vontade. Desceu os olhos para mirar suas mãos juntas, eram apenas dois dedos enroscados, mas parecia todo um universo.

-Sabe, quando a gente desceu aqui mais cedo, - murmurou pensativo, sentindo o peito se preencher com o alvoroço de seus batimentos - com o pôr do sol e toda aquela conversa sentimental... eu achei que você fosse tentar…

Sua voz sumiu no final da frase, tocar no assunto era mais fácil na teoria do que na prática. Mas não precisava completar, Sasuke entendeu muito bem do que ele estava falando. A mão dele estremeceu, mas não saiu do lugar.

-Se eu tentasse… você ia deixar?

Desta vez, foi o Uzumaki quem estremeceu.

-Bom, estamos aqui de novo, por que ao invés de perguntar você não simplesmente tenta?

O tom de desafio em sua voz fez o Uchiha virar para procurar em seu olhar a confirmação de que estava falando sério. Levou um momento para tomar coragem, mas o loiro levantou os olhos para encará-lo de volta. Ele estava falando sério, ainda que, agora que fitavam um ao outro a uma distância tão tortuosamente pequena, com as mãos se tocando e o desafio lançado, o nervosismo que lhe subiu dos pés à cabeça quase o fez se arrepender de ter ido comer antes daquilo.

Não era por acaso que Sasuke havia o chamado para voltar justo ali. Por mais que não tivesse sido intencional da primeira vez, ele percebera o potencial do lugar afastado, discreto e bucólico que quase gritava para que fizessem algum avanço e sabia que Naruto também tinha pensado na mesmo (teoria agora confirmada pelo próprio). O convite para retornar até ali era, portanto, estratégico: precisava ter certeza de que o Uzumaki queria o mesmo que ele e, uma vez que o loiro aceitou, os dois selaram um acordo silencioso de que estavam indo até lá com um propósito único. E quem diria? Chegaram a ele bem rápido.

Por um segundo de pânico, Sasuke imaginou se poderia estar entendendo alguma coisa errado e procurou algum sinal na expressão pávida na face do outro, mas ele não deixava dúvidas. Estava tingido de vermelho, a boca minimamente entreaberta e os olhos transbordando o nervosismo que sentia. O moreno ficou o encarando atônito, tão nervoso quanto (mas provavelmente pálido ao invés de corado), contemplando incrédulo o fato de tê-lo ali e do que estavam prestes a fazer pelo que lhe pareceu uma eternidade. Até que Naruto, sentido a boca tão seca de tal nervosismo, instintivamente umedeceu os lábios devagar, o que causou tamanho rebuliço no peito do outro que o fez finalmente se mover. Inclinou-se meio rápido em direção ao loiro e parou no meio do caminho, com os olhos fixos em sua boca, mas não levou mais que um segundo para voltar a se aproximar. Desta vez o loiro acompanhou o movimento, ajudando a eliminar a distância até estarem próximos o suficiente para sentirem o hálito quente um do outro na própria pele e irem então desacelerando. Naruto mordeu a boca e se retraiu um mínimo centímetro. Sasuke notou o movimento e se imobilizou aguardando a reação dele, que fez um som engasgado e, num movimento brusco, puxou a própria mão de volta para cobrir a boca e encolheu-se numa risada aflita.

O Uchiha lançou-lhe um olhar incrédulo e abriu um minúsculo sorriso ácido ao voltar-se para a frente e trazer sua mão (agora subitamente abandonada) ao colo.

-Me desculpa! - ganiu o loiro, meio rindo, meio choramingando enquanto tentava se recompor (e mesmo assim, continuava com um ar esbaforido e desesperado) - Não é que eu… É só que… Caramba, isso é muito surreal… Digo, porque nós dois somos… Não que isso importe muito, na verdade com essa parte eu já tô ok, mas é que você é o Sasuke!

-... É, acho que sou.

-Não me olha assim! É porque… Argh, eu tô nervoso! Digo, o que raios é isso? O que a gente tá fazendo, sabe? Desculpa, que droga, eu não queria arruinar o momento! Já era, arruinei tudo, arruinei o dia inteiro, cara. Não acredito nisso, eu só queria…

-Naruto, cala a boca.

-Tá.

Sem dar mais tempo para outras crises inconvenientes de nervoso, Sasuke levou a mão à nuca de Naruto e o puxou para um beijo. Ficaram um bom tempo apenas com os lábios pressionados um ao outro, timidamente evoluindo para um beijo lento e hesitante. E ainda que inexperiente, também era ávido, conduzido por uma mútua sensação sedenta de saciar a curiosidade e sanar a abstinência de algo que nunca sequer haviam provado. Conforme iam avançando pouco a pouco, a mão do Uchiha foi meio hesitante enroscar-se nas madeixas loiras, já o outro, sem nenhuma ideia do que fazer com a sua, apoiou o punho no chão.

Ficaram naquilo por um bom tempo até separarem os lábios por fim, permanecendo com as testas coladas e dividindo o mesmo ar enquanto retomavam o fôlego e, afinal, afastaram-se novamente. Um momento estranho de silêncio se estendeu entre os dois.

-Er… - a voz de Sasuke ameaçou falhar, ele pigarreou - Então?

-Eu acho que… - o Uzumaki coçou a cabeça e olhou para o outro lado desconcertado, depois mirou o moreno com um olhar ansioso - Será que a gente pode... de novo?

-De novo.

Com prontidão, Sasuke praticamente pulou para mais perto do outro e abraçou sua cintura enquanto os dois se atiravam num beijo muito mais confiante e livre que o anterior. Naruto, também mais seguro, tratou de logo passar o braço em torno dos ombros do moreno. Não começaram devagar como da outra vez, foram direto ao cume, devorando a boca e a língua um do outro com certa urgência, e confiando na sorte de que nenhuma alma viva passaria ali por perto durante um belo tempo. E era bom que não passasse mesmo ninguém, pois estavam demasiado imersos e afoitos em seu próprio momento para notar se houvesse qualquer outra movimentação alheia, todo o universo parecia ter desaparecido de tal forma que seria necessário que alguém os empurrasse longe um do outro para interromper aquele amasso.

Por fim, separaram-se sem ar. Naruto percebeu, ao abrir os olhos, que havia ficado com tontura. Os dois permaneceram por mais algum tempo com as faces quase coladas, ofegantes, sorrindo meio abobalhados, perdidos numa troca cúmplice de olhares, o loiro usando o embrace como apoio enquanto continuava desnorteado. Até que soltaram-se devagar e o Uzumaki deitou-se para trás. Cobriu os olhos com a mão, deixando à mostra apenas um sorriso enorme de orelha à orelha. Sentia seu rosto queimando contra a palma, àquela altura tinha certeza de que sua circulação nunca mais voltaria ao normal depois daquele dia e que sua bochecha e maxilar doeriam a noite inteira, pois simplesmente não conseguia parar de sorrir nem com todo o esforço do mundo. Mas a quem importava? Jamais havia experimentado uma euforia tão intensa em toda a sua vida e qualquer efeito colateral daquilo era muito bem vindo.

Sasuke, ainda que mais comedido, estava igualmente eufórico. Mal conseguia se mover, encarava (boquiaberto e um tanto ofegante) qualquer ponto vago no horizonte enquanto contemplava a falta de palavras existentes do mundo que fossem capazes de descrever a magnitude do que havia acontecido. Umas risadinhas eventuais que escaparam do loiro atirado no chão ao seu lado o fizeram virar para vê-lo, ainda que o outro continuasse cobrindo os olhos e não pudesse retribuir o olhar. Mas não importava, porque tudo o que o Uchiha precisava ver era o tamanho e esplendor daquele sorriso. Aquele sorriso cuja culpa era unicamente sua. E, céus, a constatação de que ele era o motivo daquele sorriso lhe causava uma sensação equivalente a levar um soco na cara, só que em satisfação.

-Já… - a voz de Sasuke falhou ao quebrar o longo (e entusiástico) silêncio, ele pigarreou - Já deve estar ficando tarde.

-Uhum… - Naruto finalmente havia conseguido adestrar o próprio sorriso e voltou a sentar-se, respirando fundo. Esfregou o rosto com cansaço, sentindo aquela onda arrebatadora de adrenalina ir aos poucos dissipando-se em seu sangue - É melhor eu ir indo pra casa logo.

Não que ele quisesse se separar do Uchiha, muito pelo contrário. Se pudesse, amarrava-se a ele para que nunca mais ficassem distantes por sequer uns poucos metros um do outro por sequer um segundo. Mas, por outro lado, sentia que precisava muito daquela noite sozinho para pensar em tudo o que estava acontecendo e no que estava por vir. Além, é claro, da imensa necessidade que estava sentindo de enterrar a cabeça no travesseiro e gritar.

Sasuke, de primeiro, fez que sim com a cabeça, mas logo em seguida mordeu a boca pensativo. Parecia até idiota hesitar com alguma coisa àquela altura.

-Será que eu posso te acompanhar até a porta?

O loiro virou para ele com um sorriso travesso e tombou a cabeça de leve ainda o encarando.

-Isso aqui tá sendo um encontro, né? - perguntou pausadamente. O outro enrubesceu um pouco mais do que já estava, torceu a boca e rolou os olhos meio encabulado.

-Eu diria que… vai ser um oficialmente se você aceitar.

-Então, se eu disser que não, isso vai ser aberto à interpretação?

-Suponho que sim.

O sorriso de Naruto cresceu e um brilho curioso passou por seus olhos, ainda encarando o olhos do outro com firmeza.

-Pode me acompanhar, sim - ele disse com um ar triunfante antes de erguer-se do chão, seguido pelo outro rapaz - Então, isso sendo um encontro, certo?

Sasuke lançou-lhe um sorrisinho cínico e ergueu o cenho.

-Bem, agora oficialmente.

Os dois viraram-se para voltar à rua e fazer o caminho de volta, desta vez tomando o cuidado de permanecer do lado certo. Só para garantir que poderiam tocar as mãos se quisessem, mesmo que não fossem fazê-lo em público de jeito nenhum.

-Hm, quer dizer, então, que Sasuke Uchiha me chamou pra um encontro? - zombou o loiro com prepotência. O moreno achou graça, mas fez ares de descaso e virou olhos.

-Não vai ficar se achando, usuratonkachi.

-Há! Você que não fique se achando só porque eu aceitei, teme!

Naruto logo emendou algum assunto frívolo sobre algum colega de academia. Os dois logo alcançaram as ruas mais movimentadas conversando com tal naturalidade como se jamais houvesse acontecido nada de atípico entre eles. Era inevitável, davam-se bem por natureza, sabiam entender bem um ao outro até quando queriam se desentender. Tudo sempre fluía fácil. Pelo menos até chegarem à porta do apartamento.

Com a súbita realização de que precisavam se despedir - não como colegas de time ou amigos, mas como duas pessoas que estavam em um (agora decidido oficialmente por mútuo acordo) encontro - os dois se calaram. O Uzumaki encostou as costas na porta e mordeu os lábios para impedir um sorriso embaraçado que já ameaçava surgir.

-Bom… Acho que é isso - Sasuke murmurou beliscando a barra da própria blusa distraidamente.

-É… A gente vai sair de novo... amanhã? - Naruto, sem perceber, imitou o movimento do outro. O moreno também não notou que repetiam o mesmo tique nervoso, mas sorriu com a pergunta.

-Vamos. Amanhã é sua vez de pagar.

-Certo… - depois de ter sido obrigado a soltar a boca para falar, o sorriso enorme e persistente iluminou a face corada de Naruto. Ele rolou os olhos, inconformado consigo mesmo, e suspirou - Caramba… Enfim, então a gente…

Um som de passos subindo a escada fez o Uzumaki se calar. Ele virou para ver uma senhora idosa, sua vizinha, chegando com umas sacolas de compras nas mãos. Um silêncio estranho e constrangedor se estendeu enquanto ela ia até a porta de seu apartamento em passos lentos e parava para procurar a chave na bolsa. Ela mirou os dois rapazes parados mais adiante e sorriu para o loiro, completamente obtusa ao que estava interrompendo ali. Cumprimentou o jovem vizinho, que retribuiu com um sorriso meio estrangulado e um aceno simpático de cabeça, e finalmente entrou em seu apartamento.

Sasuke, que estivera aguardando em perfeito silêncio, olhos fixos no chão e um minúsculo sorriso no canto dos lábios, finalmente ergueu o olhar novamente para o outro. A expressão meio desesperada, meio risonha de Naruto o fez sorrir ainda mais, que por sua vez fez com que o loiro voltasse a abrir aquele seu sorriso enorme e começasse a rir de nervoso.

-Para de me olhar assim! - ele reclamou tentando parecer sério em vão.

-Assim como?!

-Você tá rindo de mim!

-Eu?! Você que tá rindo!

-É porque… Ah!

Ele estalou a língua, fechou os olhos e deu um longo suspiro, finalmente parando com as risadinhas. Sasuke lhe lançou um olhar curioso, olhou para um lado, depois para o outro, procurando algum sinal de algum outro vizinho inconveniente que pudesse os interromper e, certificando-se de que não haveria mais ninguém, voltou a mirar o outro com um olhar terno. Deu um passo para a frente e inclinou-se devagar, Naruto também inclinou o corpo em sua direção, encurtando o caminho, e então os dois selaram os lábios num beijo casto e não muito demorado. Era apenas uma despedida, um cumprimento singelo para reafirmar natureza das intenções e garantir que a sensação da boca um do outro se manteria firme na memória até a próxima noite.

-Amanhã… - o loiro murmurou hesitante.

-Seis da tarde.

-Na frente da biblioteca?

-Combinado.

-Certo… - o outro lhe sorriu e deu um passos para trás, indicando que finalmente iriam se separar. Ele virou para abrir a porta, meio atrapalhado com a chave já que mal conseguia prestar atenção no que estava fazendo com o estado em que encontrava-se sua mente naquele momento. Então paralizou-se no meio do caminho, a chave enfim encaixada na fechadura, e virou-se apressado para confirmar uma última dúvida crucial antes que o moreno partisse - Sasuke, espera. Amanhã também… vai ser um encontro, ou… fica em aberto?

O Uchiha, que ainda sequer havia se virado para ir embora, sorriu timidamente para o chão e se forçou a mirar os olhos do outro com o máximo de confiança que conseguia reunir.

-Definitivamente vai ser um encontro.

O sorriso enorme e o vermelho vivo voltaram ao rosto de Naruto.

-Então, até amanhã!

-Até amanhã, usuratonkachi.

26 февраля 2018 г. 6:46:39 2 Отчет Добавить 18
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Об авторе

Liiz Lestrange No mundo das fanfics há mais de dez anos, obcecada com sasunaru há mais de cinco, apaixonada por todo tipo de arte e sempre exaltando meu otp como se não houvesse amanhã.

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KL Kitsune Lyra
Ai meu Deeeus eu to apaixonadaaaaaaaaaa *---* Socorro, como faço pra tirar o sorriso da cara agora gente? Que coisa mais linda essa fic, você fez um excelente trabalho ao caracterizar os personagem, ficaram IC, o plot pós-guerra tá maravilhoso e a ambientação ficou linda! Os diálogos fluidos, eu to apaixonadíssima *---*
Leyla Mir-chan Leyla Mir-chan
amei..amei..amei tanto, tanto, mais tanto que quase chorei com o fim , eu vi isso acontecendo claramente no mangá, e assim q devia ter Isso,ele estavam perfeitamente interpretados, vc soube captar com exatidão as personalidades de ambos..Obg mesmo w minha fi c preferida até então.
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