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xixisss Isis

Apesar das diferenças óbvias e das brigas constantes a convivência dos colegas de quarto Kageyama e Hinata era tão boa quanto poderia ser. Isso até as coisas começarem a ficar incômodas para Kageyama. Ele nunca pensou que poderia ser preconceituoso, mas simplesmente não estava confortável em presenciar as relações do ruivo, e precisava agir se não quisesse perder sua amizade. Mas, talvez, deixarem de serem amigos fosse a melhor coisa que pudesse acontecer.


Фанфик Аниме/Манга 18+.

#yaoi #fanficsotaconda #haikyuu #kagehina #universo-alternativo #Hinata-Kageyama #CollegeAU
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Desde que seja eu...

Que sensação boa. Foi a primeira coisa que Kageyama pensou ao abrir a porta do dormitório que chamaria de seu pelos próximos anos. Depois de toda sua dedicação desde a escola primária tinha sido recompensado entrando na Universidade que almejava com a tão sonhada bolsa de atleta. Não só iria jogar vôlei recebendo para isso, ainda teria a oportunidade de cursar uma faculdade e ser dirigido por Ukai, um dos mais renomados treinadores do momento. Era extremamente bom o sentimento de estar alcançando seus objetivos. E, poderia parecer algo sem sentido, mas Kageyama sentia como se fosse viver coisas muito importantes a partir do momento em que entrasse naquele espaço, para além do vôlei.

Porém, era também um pouco estranho saber que viveria com outra pessoa durante todo esse tempo, e isso era a única coisa que deixava o mais novo levantador do time da Universidade Karasuno um pouco ansioso. Se tivesse que passar os próximos anos convivendo diariamente com alguém como Tsukishima, um loiro bastante irritante que fora seu colega de time durante o colegial, Kageyama não sabia se ainda pensaria na experiência como seu sonho se realizando ou como um pesadelo. Seu colega de quarto ainda não tinha chegado, pelo que pôde notar ao observar a área comum do dormitório e percebendo o silêncio do local. Tobio foi até um dos quartos, decretando-o como seu e começando a guardar suas coisas. A única que informação que Kageyama tinha sobre aquele com quem dividiria o dormitório era seu sobrenome, que estava gravado acima do seu na placa de identificação afixada na porta. Hinata. Espero que você não seja um babaca e nem me cause problemas.

◎◎◎

Hinata Shouyou estava radiante. Após deixar seus documentos com o professor conselheiro do time de vôlei da Universidade e tendo ouvido dele que muito provavelmente, sim, conseguiria a vaga, já que fora o primeiro a entregar o formulário de inscrição, mal podia conter sua animação.

Tinha sido muito frustrante quando, no meio de seu último ano no colegial, Hinata havia descoberto a lesão que lhe impediu de continuar fazendo aquilo que mais gostava: jogar vôlei. Mesmo que seu treinador já tivesse lhe dito que seria bastante difícil que conseguisse uma vaga de atacante em um time universitário por conta de sua estatura, - embora tivesse quase alcançado a marca de 1,80m, tendo crescido 13cm durante seu ensino médio - Hinata não era do tipo que desistia sem tentar. Sabia que compensava os centímetros a menos com sua velocidade e impulsão.

Mas foi justamente esse o motivo responsável pela interrupção precoce de sua sonhada carreira. Mesmo com toda a preparação física e com o uso dos equipamentos corretos, o impacto causado pelos pulos extremamente altos fora mais forte do que seus joelhos poderiam aguentar. Quando o médico lhe disse que, se continuasse com os treinos constantes e tentasse jogar em ritmo competitivo fatalmente teria sérias complicações, Hinata sentiu seu mundo cair. Foi a única vez que de fato se abalou por não ser mais alto.

Porém, a personalidade de Hinata sempre fora expansiva e agitada demais para que ficasse muito tempo sofrendo por algo. Além do fato de possuir uma enorme determinação. Assim, decidiu que, se não poderia mais jogar competitivamente, o faria apenas por prazer e encontraria outra maneira de manter o vôlei em sua vida. Foi assim que decidiu que prestaria o vestibular para cursar Educação Física e traçou o novo objetivo: aprender tudo o que pudesse sobre o esporte com um dos melhores, o técnico Ukai. E, quem sabe, um dia se tornar um grande treinador também.

E isso o levou a este momento, em que tinha acabado de entregar sua inscrição para ser um dos estudantes assistentes do time de vôlei da Universidade de Karasuno. Teria 4 anos inteiros para aprender tudo o que pudesse e, de quebra, ainda poderia se dar ao luxo de jogar um pouco quando a saudade batesse muito forte.

Era nisto que pensava quando encontrou a porta do dormitório que seria seu pelo tempo que passaria na Universidade. Viu o nome de quem dividiria o quarto consigo e não pôde acreditar até ter aberto a porta e ver que sim, era mesmo Kageyama Tobio seu colega de quarto.

◎◎◎

Kageyama estava arrumando seus suplementos na bancada da cozinha. Arrumando é modo de dizer. O moreno apenas colocava tudo ao seu alcance, não se importando muito em como dispunha os potes e nem em deixar espaço para que o outro ocupante do quarto pudesse utilizar. Ele que arrumasse se precisasse. Ninguém mandou demorar tanto a chegar. E como se o pensamento tivesse algum poder de invocação, neste momento a porta do dormitório se abriu e antes mesmo de se virar completamente para conseguir olhar quem estava entrando, Kageyama foi atingido pelo grito do outro.

— GWAAA, é você mesmo!

Com o susto, Tobio acabou deixando o pote que estava em sua mão cair e é claro que a tampa se abriu, espalhando o pó do suplemento pelo chão da cozinha. Por sorte era um pote que estava quase no fim, então a bagunça não foi tão grande e nem o desperdício tão doloroso. Mas isso não impediu que Kageyama se irritasse instantaneamente.

— Argh, seu idiota! Por que está gritando? Olha a merda que você fez!

— Assustador. - Kageyama ouviu o outro dizer baixo enquanto dava um passo para trás.

— O que você disse?

— Ah, eu… Foi mal Kageyama, desculpe se te assustei. Aqui, vou ajudar a limpar.

E com isso o outro se aproximou, largando as coisas que carregava no chão e indo até a área de serviço buscar uma vassoura. Não acredito que esse é o…

— Aliás, muito prazer, Hinata Shouyou. Seremos colegas de quarto.

Kageyama observou a mão que não segurava a vassoura ser estendida para si e o sorriso enorme tomar conta da face redonda do ruivo e pensou: definitivamente bem diferente do Tsukishima. Não só por ser obviamente uns 20cm menor, mas em dois segundos já posso dizer que a personalidade também é completamente oposta. Mas já não sei se isso é bom. A única coisa que respondeu, porém, foi:

— Kageyama Tobio.

— Eu sei! Nem acredito que é com você que vou dividir o quarto! Não que eu seja um stalker ou fã maluco ou algo assim, mas eu acompanho vôlei juvenil há alguns anos, e vi quem viria pra cá esse ano e pensei “seria tão legal se dividisse o quarto com alguém que gosta de vôlei, melhor ainda se fosse alguém do time” e aí é você, e eu já vi uns jogos seus no colegial, eu jogava também, sabia? Mas aí...

E Hinata começou a tagarelar sem parar. Terminou de limpar a sujeira da cozinha, passou a guardar seus pertences pelo quarto e não calava a boca um instante. Em menos de uma hora Kageyama já conhecia toda a história do outro com o vôlei e sabia que ele tinha se voluntariado para ser assistente discente do time. Ótimo, mais tempo ainda pra passar com essa bola de energia irritante, Kageyama pensava, até que percebeu que o outro lhe olhava como que esperando algo.

— O que?

— Eu disse que um amigo de Tóquio conseguiu assistir o último treino aberto da seleção antes do mundial e me deu uns vídeos. Estão no meu pendrive, quer assistir?

— Hm, pode ser. — Kageyama respondeu e girou os olhos quando o outro foi praticamente saltitando buscar o notebook em seu quarto para que pudessem ver os vídeos.

Enquanto assistiam e conversavam sobre os lances, Tobio não pôde deixar de pensar que, apesar de se irritar com alguns comentários idiotas do outro ou com como às vezes ele se empolgava tanto que acabava bloqueando a visão de Kageyama, fazendo com que tivessem que voltar o vídeo para que o moreno pudesse ver direito, a coisa não era tão ruim. Pode ser que dê certo, afinal.

◎◎◎

E até que deu. Quase um ano depois ambos ainda viviam em uma relativa harmonia. Brigavam o tempo todo, claro. Mas nenhuma briga era realmente séria. Tudo não passava de uma implicância divertida entre os dois. Costumavam dar-se bastante bem no tempo que passavam juntos, tanto nas atividades do time de vôlei quanto no dormitório falando sobre… vôlei, claro. Na verdade tinham algumas outras coisas em comum, como a comida favorita, a preguiça de estudar, o jeito meio desorganizado, o gosto e a falta de habilidade para jogos de videogame.

Mas tinham ainda mais diferenças. Kageyama era naturalmente mais recluso e não fazia muita coisa além das atividades comuns da Universidade. Hinata por sua vez era bem mais sociável, tinha muitos amigos e as vezes tentava arrastar Kageyama para alguns dos muitos encontros e festas a que comparecia. Enquanto Kageyama pouco falava e definitivamente mal sorria, Hinata era todo tagarela e vivia com um sorriso aberto. Tobio preferia se concentrar em uma coisa por vez, fazendo tudo em um ritmo confortável. Shouyou fazia mil coisas ao mesmo tempo, sempre afobado, e muitas vezes acabava deixando algo pela metade. E se fosse algo que tivesse a ver com a convivência de ambos, eles brigavam de novo, mas só para depois fazerem as pazes assistindo alguma partida de vôlei ou tentando jogar algum novo game.

Apesar de todas as diferenças e implicâncias, os dois tinham construído uma amizade significativa. Um respeitava muito bem a privacidade do outro - por sorte no dormitório dispunham de uma área comum mas os quartos eram separados, cada um tendo seu pequeno espaço pessoal - e nenhum dos dois era dado a conversas muito profundas. De fato, a conversa mais séria que haviam tido foi quando Hinata contou que era gay, e isso já fazia muito tempo.

Tinha acontecido umas duas semanas após se conhecerem. Kageyama estava saindo da aula quando avistou a cabeleira ruiva de Hinata um pouco mais a frente. Se lembrando de que era o dia do ruivo providenciar o jantar para ambos, seguiu-o com a intenção de avisar para que ele não se atrasasse e, ao passar pela porta na sala em que o ruivo tinha entrado, o viu aos beijos com um rapaz muito alto e forte, de cabelos escuros e curtos. Tentou sair de fininho mas acabou esbarrando numa mesa - quem põe a porra de uma mesa bem ao lado da porta?— e Hinata se virou e o encarou com o susto. Mais tarde, no dormitório, o ruivo tinha apenas dito que esperava que saber desse detalhe sobre si não fosse uma questão para Kageyama, ao que este respondeu que definitivamente não era.

Na verdade, Kageyama já tinha tido um amigo gay antes, não era realmente algo que o incomodasse. E mesmo que não tivesse sido próximo de Oikawa, seu veterano no colegial que passava boa parte do tempo em que Tobio insistia para treinarem juntos - afinal o outro era um levantador muito bom - falando de sua eterna paixão platônica pelo melhor amigo Iwaizumi, não entenderia bem porque algumas pessoas se incomodavam tanto com a vida dos outros.

À época, Kageyama e Hinata aproveitaram o assunto e combinaram que não tinha problema algum em levarem companhia para o dormitório, desde que fosse avisado e que ambos fossem discretos, arranjo que sempre funcionou muito bem. Mesmo sendo bastante popular Hinata não era do tipo que se envolvia com muitas pessoas diferentes e poucas vezes levava alguém até seu quarto. Tobio, por sua vez, era ainda menos interessado em relacionamentos.

Tinha tido uma ou outra namorada no colegial, mas os relacionamentos nunca duraram muito pois, mais cedo ou mais tarde, as garotas reclamavam de sua dedicação ao vôlei, o que tornava a relação bem cansativa. Depois de passar por isso algumas vezes, nunca mais chegou ao ponto de assumir um compromisso realmente sério com nenhuma das meninas com quem ficou. Alguns meses depois de ingressar na faculdade, iniciou uma espécie de relacionamento com uma colega de turma. Na verdade era mais uma situação de “amizade colorida”. Nenhum dos dois estava realmente interessado em ter que se preocupar com as obrigações que uma relação séria trazia, mas não podiam negar que as vezes era bom ter alguém com quem, digamos, aliviar as tensões.

A situação era confortável para os colegas de quarto. Por vezes até mesmo tinham brincadeiras que aos olhos de outras pessoas poderiam parecer um tanto estranhas, mas para eles era algo normal. Por exemplo, certa noite Hinata estava se arrumando para ir à uma festa e tentava insistentemente convencer Tobio a ir junto:

— Ah, qual é Kageyama, o pessoal do time vai estar lá. Vai ser legal.

— Mesmo que eu quisesse ir, e eu não quero, não ia dar. Tenho que terminar esse trabalho porque o professor fez questão de dizer que “é claro que dou todo apoio ao time de vôlei, mas não seria justo te dar mais prazo só porque você teve um jogo importante, não é mesmo?”. É pra amanhã e eu não ‘tô nem na metade.

— Ah, ‘tá bem então. Mas já que você não vai comigo, pelo menos seja útil. Como eu estou?

Nesse momento Hinata fez uma espécie de desfile para Tobio, se empinando e exibindo nos jeans apertados e na camiseta azul bebê que lhe caía muito bem, deixando amostra os músculos firmes de seus braços. Kageyama disse apenas:

— ‘Tá bom.

— Bom? Bom não é suficiente Kageyama! Me diz, você repararia em mim? Ia tentar ficar comigo se me visse na festa? E se não fosse ridiculamente hétero, é claro.

Hinata falava com um sorriso sacana nos lábios enquanto girava no próprio eixo, dando a Kageyama a visão de todo seu corpo. E o moreno já estava acostumado o suficiente com essas brincadeiras do outro para entrar no jogo. Era estranho como se sentia à vontade com o ruivo, sendo mais aberto a agir de maneira mais espontânea e leve do que de costume.

— Ah, claro. Ia usar todo o charme que tenho pra te seduzir.

— Hmm, você não ia sossegar até me ter nos seus braços, então?

— Definitivamente. Já viu como suas coxas ficam nesses jeans?

Hinata soltou uma risada alta e um “valeu Kags”, pegou as chaves e o celular e saiu pela porta, avisando que Kageyama não precisava esperar acordado.

Isso tinha se repetido várias vezes. Quando Kageyama estava saindo do banho, Hinata costumava assoviar. Às vezes dizia, com um olhar carregado de malícia, “está me provocando, Tobio?” ao que o moreno respondia “e se estiver? Vai fazer o que a respeito?” e logo depois ambos caíam na gargalhada.

Hinata sabia que Kageyama era hétero, sabia da amizade colorida que ele tinha com a colega de classe, visto que vez ou outra ela até passava algum tempo com os dois amigos no dormitório destes e, apesar de não terem intimidade, ela e Hinata até que se davam bem. Então os flertes de brincadeira eram frequentes e nada desconfortáveis, nem para um nem para o outro.

— É bom ter um amigo hétero que não fica na defensiva por causa da minha sexualidade, pra variar. - Hinata costumava dizer.

◎◎◎

Depois de alguns meses Kageyama terminou o relacionamento com a colega de classe. Sem nenhum drama, nem qualquer grande motivo, apenas não estavam mais na mesma página.

Sendo assim, nos últimos tempos apenas Hinata levava alguém até o dormitório. No geral, Kageyama sequer encontrava com eles. Em raras ocasiões no passado tinha esbarrado com algum “amigo” do ruivo saindo do dormitório. Nunca tinha prestado muita atenção nisso. Mas, ultimamente, cada vez que Hinata avisava que levaria alguém - não que fosse muito frequente, mas ainda assim - Kageyama sentia-se um tanto… desconfortável. E temia que isto estivesse ficando visível para o outro.

E a coisa começou a ficar alarmante após um episódio. Certa manhã Kageyama teve uma aula cancelada e acabou voltando para o dormitório a fim de pegar sua bola e aquecer um pouco do lado de fora do ginásio, enquanto o capitão do time não chegava para abrí-lo na hora do treino. Ao entrar, deu de cara com Hinata no sofá, se agarrando com um rapaz de cabelos compridos com as pontas tingidas de loiro. Kageyama ficou extremamente constrangido. Os dois já estavam sem as camisas e era bastante óbvio o rumo que as coisas estavam tomando. Foi o “amigo” de Hinata quem o viu primeiro, paralisado na porta sem saber como agir. Quando o ruivo percebeu a situação ficou tão constrangido quanto o colega de quarto.

— Kageyama… eu… achei que você ia direto pro treino depois da aula.

— É, a última aula foi cancelada, eu vim buscar minha bola. Desculpe atrapalhar.

Com isso Kageyama rumou para seu quarto, sentindo seu estômago revirar. A sensação que tinha era de que, caso visse mais da cena, poderia mesmo vomitar. E instantaneamente sentiu-se péssimo por estar tendo este tipo de reação.

Quando saiu do quarto, Hinata já estava completamente vestido. E sozinho. Kageyama ainda devia estar com uma péssima expressão no rosto, porque Hinata abaixou os olhos, envergonhado, e pediu desculpa mais uma vez.

— Tudo bem. Você não precisava ter mandado ele embora. Eu é que passei aqui de surpresa.

Mas a verdade é que parte de si estava bem aliviada em saber que, o que quer fosse acontecer ali naquele momento, não ocorreria mais.

Infelizmente para Kageyama, essa sensação passou a se repetir. Nos meses que se seguiram a cada vez que ficava sabendo que Hinata estava com alguém ou, mesmo que nunca mais tenha presenciado nada, que alguém tinha estado em seu dormitório com o ruivo, Kageyama se sentia irritado, desconfortável, enojado… Mesmo sem querer acabava por imaginar as coisas que deveriam ter ocorrido no quarto de Hinata e a sensação ao pensar nisso era sempre muito, muito ruim.

Tobio começou a se sentir cada vez pior com isso. Por mais que não fosse de demonstrar, a amizade de Hinata era importante para o levantador. Além disso, não conseguia entender porque estava tendo reações tão fortes às relações do outro. Nunca se imaginou sendo uma pessoa preconceituosa, mas não conseguia tirar da cabeça que estava agindo como alguém extremamente homofóbico. Por mais que tivesse tido a amizade com Oikawa, nunca havia estado na situação de conviver com um relacionamento homossexual de relativamente perto, como tinha passado a ocorrer ao morar com Hinata. Quando Oikawa e Iwaizumi se acertaram, já estavam prestes a se formar e foram cursar a universidade em outra cidade, de modo que Tobio não acompanhou a relação que eles desenvolveram. Se perguntava se estaria se sentindo assim por, no fundo, ser uma daquelas pessoas que diziam que não se de incomodavam com homossexuais, desde que mantivessem certa distância. Era um pensamento horrível para Kageyama se imaginar sendo esse tipo de gente.

E, claro, esse seu desconforto aparente estava afetando sua amizade com Hinata, o que Tobio mais temia. Em um dia que Tobio chegou justo na hora em que o mesmo “amigo” de cabelos loiros de Hinata estava saindo do dormitório, acabaram tendo uma discussão feia. Por mais que o cara tivesse sido educado, Kageyama não pôde evitar de ser grosso com ele, deixando a irritação acumulada transparecer. Hinata, é claro, não aceitou isso:

— Por que raios você tem estado tão idiota ultimamente, Kageyama?

Kageyama não sabia o que responder e Shouyou, irado, continuou:

— Qual é o teu problema com o fato de eu ficar com caras? Hein?

— Nenhum.

— Nenhum? Nenhum problema? Você… aaargh! Eu nunca reclamei quando você trazia sua amiga aqui. Nunca tratei ela mal. Você não tem o direito de ser o babaca que está sendo agora!

Hinata parecia ainda mais irritado após a resposta de Kageyama e falava cada uma dessas coisas lhe cutucando no peito com uma das mãos, enquanto a outra estava fechada em punho ao lado do corpo, tremendo levemente. Kageyama sentiu-se mal por estar brigando com seu melhor - talvez único - amigo então, estranhamente, não revidou.

— Você tem razão. Eu não deveria fazer isso. Não estou num bom dia, foi mal.

Ao contrário do que seria de costume, isso não acalmou os ânimos de Hinata:

— Eu vou no quarto do Noya esfriar a cabeça.

Kageyama apenas concordou. Estava frustrado, mas ainda sentia a irritação por ter visto o cara saindo de seu dormitório depois de fazer sabe-se lá o que com Hinata, e prolongar o assunto poderia fazê-lo explodir de novo. Antes de sair, porém, Hinata ainda disse:

— Seu problema é que eu traga eles aqui, certo? Você não se importa com quem eu ‘tô transando se fizer isso na casa deles, né?

— Eu não tenho nada a ver com o que você faz fora daqui, Hinata.

Isto foi o que Tobio respondeu. Mas a verdade é que o que o ruivo tinha dito lhe deu uma sensação fria de embrulho no estômago. Naquele dia, apesar de eles terem planos de assistirem juntos a uma partida da seleção brasileira de vôlei, Hinata não apareceu e nem entrou em contato. Ele nunca tinha dado um bolo em Kageyama antes e isso fez o levantador se sentir mal a ponto de sequer conseguir se concentrar no jogo que passava na TV.

Não se concentrar em vôlei por causa disso era algo muito significativo. Ter o assunto martelando em sua cabeça fez Tobio chegar à conclusão de que precisava conversar. O problema era que a única pessoa com quem se sentia à vontade para isso era justamente aquela com quem estava agindo mal. Portanto, ciente do quanto a amizade de Hinata era importante para si, decidiu que deveria se esforçar para não estragá-la.

Assim, Kageyama recorreu ao que sempre recorria quando tinha alguma dúvida insistente e ninguém com quem compartilhar seus pensamentos: a internet. Não sendo a melhor pessoa em criar amizades, por sua clara inabilidade social, o moreno via no mundo virtual uma boa válvula de escape em momentos de insegurança como este. Entrou em um desses fóruns online, explicou toda a situação em um post e foi tomar um banho enquanto aguardava uma resposta que pudesse lhe ajudar.

A primeira resposta que recebeu dizia:

~ será que você não se incomoda com o comportamento promíscuo, quero dizer, de ele sempre estar com alguém diferente? ~

Kageyama sequer precisou pensar muito para descartar a hipótese. Primeiro, pois nunca tinha julgado esse tipo de comportamento, ele mesmo não sendo muito apegado a relacionamentos firmes. Segundo, porque não era como se Hinata trouxesse uma pessoa diferente a cada semana. Era esporádico e mesmo assim Kageyama estava incomodado. Terceiro… bom, terceiro porque o simples fato de imaginar Hinata firme com alguém, namorando, deixava Kageyama com o estômago embrulhado. Só ter visto o mesmo rapaz com quem pegara Hinata no sofá já tinha feito seu sangue ferver. Não, com certeza não é esse o problema.

Demorou alguns minutos até que outra resposta surgisse. Esta dizia:

~ vc já considerou a hipótese de estar com ciúmes? ~

Isto fez Kageyama pensar um pouco mais. Mas não conseguia imaginar do que estaria tendo ciúmes exatamente. Claro, Hinata tinha uma vida sexual mais ativa que a sua e seria mentira dizer que as vezes Kageyama não se sentia frustrado com a falta de contato com outra pessoa. Mas não era algo assim tão relevante para si a ponto de causar as reações exageradas que vinha tendo. Afinal, se realmente quisesse, poderia encontrar alguma menina legal com quem ficar. Adicionou este pensamento no tópico que havia criado e foi tentar dormir, já que teria que acordar cedo.

◎◎◎

Nos dias que se seguiram praticamente só encontrava Hinata na hora do treino. Shouyou tinha adquirido o hábito de sair do dormitório antes mesmo que Tobio se levantasse. Quando se viam, o ruivo o cumprimentava normalmente mas, ao invés de se aproximar de Tobio para conversar durante os intervalos dos treinos, por exemplo, como tinha o costume de fazer, mantinha-se ocupado com o técnico Ukai ou com outros jogadores. Tobio sabia que isso era devido à discussão anterior e, apesar de se sentir um tanto culpado, também sentia uma espécie de raiva, o que o impedia de tentar se aproximar do colega de quarto.

Quando voltavam para o dormitório as coisas pareciam estar mais ou menos como sempre, embora Shouyou estivesse um pouco mais quieto do que de costume. Kageyama sempre abria o tópico da internet para ver se tinha mais alguma resposta que fizesse sentido. No meio de algumas pessoas mandando que ele deixasse de ser um idiota - é justamente o que estou tentando, droga! — e uns dois comentários que sugeriam que ele fosse fazer terapia, encontrou a resposta da pessoa que sugeriu que ele poderia estar com ciúmes alguns dias antes:

~ o que me vem à mente é que talvez vc ñ goste de ver ele com outros caras pq quer a atenção dele só pra si...~

Mais uma vez Kageyama se viu considerando a possibilidade que a pessoa levantava. Mas ainda não conseguia ver sentido nisso. Antes de começar a agir como um idiota os dois sempre passaram bastante tempo juntos. Além do mais, que sentido teria ele competir com pessoas que recebem um tipo completamente diferente de atenção?

Por coincidência a pessoa estava online no momento e, logo após Kageyama respondê-la, recebeu outra mensagem:

~ nem sempre nossos sentimentos fazem sentido, né? Tem certeza que vc ñ está a fim dele? Pelo jeito que fala me parece ter algo por trás de todo esse “nojo”. ~

Neste momento Kageyama se engasgou com o leite que bebia. Eu? A fim do Hinata? Que ideia mais absurda! E, sem nem pensar muito, já respondeu:

~como poderia estar a fim dele? Eu sou hétero, nunca me interessei por nenhum cara antes! Seria muito estranho que isso acontecesse agora que já tenho quase 20 anos…~

A resposta não demorou a vir.

~ bom, sempre tem a primeira vez, né? Eu só tive certeza da minha sexualidade aos 23, cada pessoa tem uma experiência… pensa um pouco: esse sentimento de nojo é direcionado ao seu amigo diretamente ou aos caras com quem ele fica? ~

Kageyama saiu do quarto e foi até a pequena sala de estar do dormitório. A conversa na internet estava tomando um rumo estranho e Tobio não sabia se queria continuá-la - embora ela não fosse sair de sua mente tão facilmente. Hinata estava na cozinha, usava fones de ouvido e se mexia suavemente, provavelmente no ritmo da música que escutava, enquanto procurava por algo dentro da geladeira. Como se percebesse que estava sendo observado, se virou e encontrou o olhar do moreno. Sua expressão era neutra quando tirou os fones de ouvido e disse:

— Eu vou fazer um sanduíche, você quer?

— Ah, quero sim, vim mesmo procurar alguma coisa pra comer. Valeu.

Hinata preparou os sanduíches e ambos comeram mantendo uma conversa casual sobre o treino do dia e o próximo adversário que o time enfrentaria. Quando terminaram de comer Kageyama tomou a iniciativa de recolher as louças da mesa para lavá-las. Quando Hinata foi lhe passar o prato que havia usado, suas mãos se tocaram levemente. Não era nada de incomum e nem causou qualquer reação em nenhum dos dois. E justamente essa falta de reação foi suficiente para Kageyama ter uma comprovação daquilo que já sabia. Com certeza não se sentia enojado perto de Hinata. Era mais a ideia dele com alguém que o incomodava. Mas chegar a essa conclusão não ajudava em nada no objetivo de entender por que raios estava se importando tanto com isso.

Foi dormir com a possibilidade levantada pela pessoa no tópico ainda martelando em sua mente. Não poderia estar mesmo sentindo algo por Hinata. Poderia? A simples possibilidade lhe causava uma sensação diferente dentro de si. Era um frio no estômago, um nervosismo… mas que não tinha nada a ver com nojo ou repulsa. De tanto pensar nisso, mal dormiu naquela noite e se tinha uma verdade sobre Kageyama Tobio era que, quando não dormia direito, não funcionava bem. Isto ficou visível quando cometeu mais erros do que de costume no treino do dia seguinte. Claro que era pela falta de sono e não por ver Hinata jogando com os reservas na quadra adjacente e ter seu olhar atraído para ele, inconscientemente tentando definir se sentia algo ou não; óbvio que não seria isso.

Mais uma vez o ruivo se manteve um pouco mais distante que de costume, mas o chamou para irem embora juntos. Porém, antes que Kageyama pudesse responder, Sugawara, vice-capitão do time, se aproximou dos dois.

— Ah, Hinata, desculpa, mas você se importa de eu roubar sua companhia? Preciso conversar um pouco com o Kageyama.

— Ok. Eu vou indo na frente e vejo se arranjo algo pra gente comer então, ta bom Kageyama?

— Certo.

Kageyama não estranhou o fato de Suga querer conversar. Ele era bastante observador e com certeza teria reparado que o levantador mais novo não estava nos seus melhores dias. Além disso, o vice-capitão era uma das poucas pessoas além de Hinata com quem Tobio se sentia à vontade.

O levantador de cabelos platinados esperou até que todos tivessem deixado a quadra, disse a Daichi, o capitão do time, que o encontraria depois, e chamou Kageyama até o depósito para lhe ajudar a organizar alguns materiais. Foi gentil, porém direto ao iniciar o assunto.

— O quê está havendo, Kageyama?

— Desculpe pelos erros hoje, eu não dormi bem essa noite.

— Eu não estou preocupado com os erros. Até os melhores jogadores do mundo têm dias ruins. Além do mais, é pra isso que servem os treinos, pra gente errar e aprender a consertar. Estou preocupado com você. E não estou falando só de hoje. O que está tirando seu sono?

Kageyama suspirou. Não sabia bem como explicar. Ele mesmo já não estava entendendo bem. Até ontem estava com medo de estar sendo homofóbico e agora, mesmo que não quisesse, não conseguia evitar de pensar na possibilidade de ser justamente o contrário. Suga, entendendo que o silêncio de Kageyama era fruto da confusão que este sentia, deu um sorriso terno e perguntou:

— Tem a ver com o Hinata?

Kageyama arregalou um pouco os olhos. Estava sendo assim tão óbvio?

— Olha, não é que esteja na cara, - o platinado continuou, como se tivesse lido os pensamentos do mais novo - mas eu reparei que vocês andam um pouco distantes essa semana. Considerando que vocês viviam grudados, deu pra ver uma mudança. Acertei, então?

Tobio apenas concordou com um aceno de cabeça, sem tirar os olhos da rede que desembolava. Então Suga prosseguiu:

— Olha, se não quiser falar por ser algo que só diz respeito à relação de vocês, eu…

— Relação? Que relação? - Kageyama cortou o mais velho, exasperado.

— A amizade de vocês, é claro. - Suga respondeu com um sorriso de quem entendia muito bem o motivo de Tobio estar na defensiva, ainda que o moreno não tivesse dito nada. - Como ia dizendo, eu entendo se não quiser falar, mas saiba que se precisar, estou à disposição.

Tobio apenas agradeceu, mas não falou mais nada sobre o assunto enquanto terminavam de arrumar os equipamentos. Se despediram após trancar o ginásio e o moreno foi caminhando lentamente na direção de seu dormitório. Logo pensou que ao chegar provavelmente Hinata já estaria em seu quarto, ou estaria com os fones de ouvido, diminuindo qualquer chance de conversa - que já eram baixíssimas levando em consideração que o ruivo não as iniciaria. Vinha sendo assim nos últimos dias, afinal. Olhou para trás e viu que Sugawara ainda estava em frente ao ginásio, falando ao celular. Em um surto de coragem, Tobio deu meia volta e chamou pelo mais velho.

◎◎◎

— Eu posso ver? Sua postagem no fórum, digo.

Quando Tobio chamou por Suga este prontamente disse que eles deveriam ir até a sorveteria ali próxima e conversar um pouco. Lá, Kageyama contou, sem muitos detalhes, que estava envergonhado porque vinha se incomodando com os relacionamentos de Hinata nos últimos tempos, e que era isso que estava gerando os atritos entre os dois. Disse que como não tinha com quem conversar, acabou recorrendo a internet mas, ao invés de ajudar, os conselhos online só o tinham deixado mais confuso. Foi então que Suga pediu pra ver o tópico.

— Ahn…

— Olha, Kageyama, eu acho que estou te entendendo, mas sabe, talvez você tenha sido mais claro ou mais aberto em explicar o que está sentindo escrevendo do que falando. Eu realmente quero te ajudar e garanto que não vou espalhar nada por aí.

— Eu sei que você não faria isso! Ok, pode ver, vou abrir no celular…

Faz todo sentido que ele esteja cursando Psicologia, Tobio pensou enquanto buscava o tópico no histórico do celular. Entregou o aparelho ao mais velho e ficou observando-o atentamente, tentando ler suas reações. O platinado tinha um pequeno sorriso nos lábios. Não era um sorriso de escárnio; na verdade ele parecia transmitir familiaridade, certa sabedoria. Suga lhe olhou diretamente nos olhos ao falar:

— Kageyama, eu estou tendendo a concordar com essas pessoas que estão dizendo que você tem um crush no Hinata.

— Pessoas? Mas foi só uma…

— Bom, desde que você acessou pela última vez a teoria ganhou alguma popularidade. Já tem mais uma meia dúzia de respostas de pessoas que passaram por algo parecido.

Kageyama recebeu o celular de volta e viu que, de fato, tinham várias respostas no diálogo em questão. Em uma delas a pessoa dizia que tinha passado por algo semelhante, contando que sentia uma raiva enorme de todo e qualquer namorado que sua melhor amiga arrumasse e que, algum tempo depois, se descobriu lésbica e apaixonada pela tal amiga. Kageyama sentiu que seu rosto esquentava, e começou a falar, não exatamente com Suga, mas apenas como se não houvesse nenhum filtro entre o que pensava e o que saía de sua boca.

— Eu… não pode ser… eu achei que estava sendo homofóbico, sei lá...

— Kageyama. - o mais velho chamou sua atenção.

— Hum?

— Quero te dizer que não ‘tô com pressa, mas Daichi está me esperando porque teremos um encontro hoje para comemorar nossos 6 meses de namoro, tudo bem?

— Ah, tudo bem Suga, a gente conversa outra hora então. - Kageyama já ia se levantando, ainda parecendo meio aéreo. Suga segurou sua mão, impedindo-o de se afastar.

— Não, ainda temos alguns minutos. O que você acha disso?

— Disso o que?

— Do fato de eu e Daichi sermos namorados?

— Ah, eu não sabia. Mas fico feliz por vocês.

Era visível para Suga que as palavras do moreno eram sinceras, apesar de ele não parecer muito atento ao assunto. Além disso, o mais novo não demonstrava nenhum desconforto com seu toque.

— Bom, acho que isso deixa bem claro que homofobia definitivamente não é o problema aqui.

Kageyama deu um sorriso sem graça e se sentou novamente.

— Ai, Kageyama, você demora mesmo a perceber as coisas, né? Mas olha, pra mim está bem claro que tem algum sentimento por trás disso tudo. Afinal, seu problema é ver o Hinata com outras pessoas. Acho que você estaria se sentindo do mesmo jeito ainda que fossem meninas e não rapazes a se relacionar com ele.

— Eu… eu sou um idiota. Como isso foi acontecer? Nunca tinha sentido nada assim antes… eu não sei o que pensar.

— Sexualidade não é algo engessado, Tobio. As pessoas passam por processos muito diferentes para entenderem de fato como se sentem em relação à isso. E não tem idade certa ou errada para se redescobrir. Além do mais, sentimentos são sentimentos e não deveriam ser limitados por questões tão pequenas como o gênero das pessoas, não acha? Esses comentários aqui são prova de que você não é o primeiro e nem será o último a se ver confuso com algo assim.

— Verdade. Mas o que faço agora? Acho que está bem claro que eu não lido bem com o ciúmes, como vou conviver com o Hinata assim?

— Você tem que conversar com ele.

— E dizer o que? “Olha Hinata, eu sei que tenho sido um grande babaca mas é porque na verdade pelo jeito eu não sou tão hétero quanto imaginava e estou a fim de você, então você pode por favor me poupar de te ver com outros caras”? Imagina que surreal!

— Eu não diria pra você já fazer qualquer exigência, mas sim, me parece um bom começo.

Suga deu uma risadinha e Kageyama contorceu a face com a agonia de pensar em ter uma conversa assim com o colega de quarto.

— Sério, Kageyama. Converse com ele, você pode se surpreender.

— O que quer dizer?

— Digamos que me pareceu um pouco suspeito ele ter revivido a memória da sua amiga colorida, ele fazer questão de te perguntar se tudo bem quando ele está com outras pessoas longe de você e ter ficado tão nervoso quando você disse que não se importava com isso. Não sei, mas… talvez ele quisesse te causar ciúmes? Olha, só vocês podem resolver isso e dizer o que realmente sentem.

Kageyama passou a mão no rosto em sinal de frustração. Era coisa demais pra assimilar. Mal escutou quando Suga se despediu, dizendo que já estava em sua hora, mas garantindo que o moreno poderia procurá-lo se precisasse conversar um pouco mais. Tobio foi para o dormitório e agradeceu pelo fato de Hinata já estar no quarto, não saberia como agir se o encontrasse naquele momento. Trancou-se no seu próprio quarto e voltou a abrir o tópico lendo as experiências das pessoas que haviam comentado. E naquela noite, mais uma vez Kageyama não conseguiu dormir.

◎◎◎

Hinata tinha escutado quando Tobio chegou ao dormitório. Esperou alguns minutos e foi até a área comum, mas o moreno já tinha ido para o quarto. Shouyou se sentia frustrado. Tinha muitos bons amigos na universidade, mas definitivamente Kageyama era o mais especial para si. Mas, devia ter imaginado. Estava bom demais pra ser verdade que estivesse conseguindo manter uma amizade tão aberta e tranquila com um cara hétero.

Não era a primeira vez que se decepcionava com alguém assim. Mas era um bocado doloroso ter que ver o olhar de repulsa de Kageyama. Por mais que tentasse não ligar e manter a relação como sempre, pelo bem da sua convivência diária tanto nos treinos do time quanto em casa, Hinata estava profundamente magoado. Se perguntava se deveria levantar o assunto novamente e, quem sabe, tomar alguma atitude dependendo do que conversassem.

Não queria ter que recorrer a medidas drásticas, mas era visível que a situação estava fazendo mal à ambos. Talvez devessem pensar na possibilidade de um dos dois arranjar outro lugar para morar. Ao ponto que tinham chegado, de estarem tão estranhos depois da última discussão, o ruivo duvidava que simplesmente ignorar o assunto fosse dar resultado.

Noya dizia que eles deviam tentar deixar isso de lado. Kenma, que tinha sido alvo da grosseria de Kageyama, pontuava que por mais que fosse incômodo tocar num assunto assim, a atitude de Kageyama era um tanto séria demais para que Hinata deixasse passar. E o ruivo ficava cada vez mais confuso. Não sabia o que Suga tinha conversado com o moreno, mas, sabendo como o mais velho era observador, Hinata esperava que ele tivesse conseguido ajudar em algo. Era fato que não suportaria a situação por muito mais tempo. Tinha saudades de poder conversar e brincar com Kageyama como sempre. Ao mesmo tempo, sentia no fundo de seu ser, que nunca mais as coisas seriam como antes.

◎◎◎

A conversa com Suga havia sido na quinta-feira e no sábado à tarde Kageyama ainda não sabia bem como lidar com tudo o que vinha passando em sua mente. Tinha fugido deliberadamente de Hinata desde então. Na sexta, saiu bem cedo e só retornou ao dormitório tarde da noite, evitando sequer trocar olhares com Hinata durante o treino, do qual saiu até mais cedo - deixando os outros membros do time um tanto quanto chocados. E no sábado, tinha ficado o tempo todo em seu quarto, basicamente olhando para a parede e tentando entender o que se passava consigo.

Parecia inútil tentar negar a esta altura: devia estar mesmo gostando de Hinata. Tudo encaixava com esta explicação. Tentou encontrar na memória o momento exato em que isso tinha acontecido, como os seus sentimentos em relação ao ruivo tinham ultrapassado a barreira da amizade, mas não conseguia encontrar. Sempre esteve muito à vontade com Hinata. As discussões bobas, que geravam briguinhas leves em que se engalfinhavam por alguns minutos, sempre estiveram lá. Os flertes de brincadeira também, pareciam parte de uma rotina há muito instaurada. Quanto daquilo tinha sido apenas brincadeira e quanto tinha seu fundo de verdade? E quando exatamente tinha passado a haver verdade?

Kageyama recordava-se de que, quando elogiava Hinata, estava sendo totalmente sincero. Realmente achava que o ruivo era muito bonito e que, se não fosse hétero, certamente repararia nele. Bom, pelo jeito tinha reparado mesmo se considerando hétero, reparado até demais. Mas a questão que não saía de sua mente era como Hinata lidaria com essa situação, caso Kageyama seguisse o conselho de Suga e conversasse com ele. Não fazia a menor ideia do que pensar. Por um lado, pensava que a situação toda era absurda demais para ser sequer falada em voz alta. Por outro, morria de medo de deixar isso passar e depois se ver obrigado a lidar com Hinata namorando algum cara e acabar perdendo sua amizade de um jeito ou de outro - afinal, já estava bem claro para si que não saberia lidar bem com essa situação.

Não aguentando mais ficar no quarto e, olhando pela janela e vendo que já havia anoitecido, Kageyama decidiu ir até a sala tentar se distrair vendo um pouco de TV. Não que achasse que conseguiria de fato se concentrar no que quer que fosse, mas precisava tentar ou sentia que sua mente ia explodir de tanto pensar. Não estava nem um pouco acostumado a se analisar tão profundamente assim. Imaginou que, provavelmente, Hinata não estaria em casa, já que sempre tinha algum compromisso nos sábados à noite. Tão logo se viu pensando se ele encontraria com o loiro com quem tinha estado na semana anterior ou com algum outro amigo deste tipo, Kageyama sentiu seu interior se contorcer em raiva.

Ciúmes é mesmo uma droga, pensou, enquanto abria a porta de seu quarto. Quase deu meia volta quando viu que Hinata estava sim em casa e tinha acabado de pegar o controle da TV e do videogame e se sentar no sofá da sala. Porém, sentindo a necessidade de estar perto do amigo, Tobio marchou até a cozinha, pegou uma lata de cerveja - espero que álcool seja mesmo coragem líquida, como dizem por aí — e se sentou ao lado do ruivo. Respirou fundo antes de puxar assunto.

— Vai jogar o que?

— Me recomendaram Murdered Soul Suspect, é sobre um policial que é assassinado, vira um fantasma e precisa achar o culpado por sua morte para poder seguir em frente. Decidi ver se gosto. - Hinata respondeu sem lhe olhar por mais do que um segundo, concentrando sua atenção na tela à sua frente.

— Hm. Parece interessante.

— Você bebendo cerveja? Essa é nova…

— Sei lá, deu vontade.

— ‘Tá né.

Kageyama observou Hinata jogar por alguns minutos. O jogo era mesmo interessante, mas não tinha tanta ação quanto imaginavam, além de não ser multiplayer, então logo o ruivo de se entediou.

— Aaaah, é tão legal, mas não estou na vibe certa pra isso hoje. Quer tentar, Kageyama?

— Passo. Também não estou querendo ter que pensar muito.

— Vamos ver um filme então? Ou umas partidas de vôlei?

— Você não vai sair hoje?

— Não, não ‘tô com vontade.

— Hm, eu acabei não vendo o jogo da seleção brasileira… é… naquele dia. E você?

— Ah, é. Eu também não. O Asahi disse que precisava estudar e não deixou a gente ligar a TV naquele dia no quarto do Noya.

— Ficou gravado aí, você quer ver?

— Claro, vamos lá.

Havia certa tensão no ar, por falarem do dia em que haviam discutido sem terem resolvido a situação, mas ela logo foi quebrada quando deram o play na gravação do jogo e começaram a comentar os lances. Era bom voltar a fazer isso com Hinata depois desses dias de estranheza. Num dado momento, o ruivo acabou bloqueando a visão de Kageyama quando se levantou para comentar mais energicamente um lance duvidoso, e o mais alto puxou o outro pela camisa, tentando pegar o controle de sua mão para voltar até a parte que tinha perdido. Isto fez com que Hinata se desequilibrasse e caísse por cima de Tobio no sofá. Ambos ficaram paralisados por alguns momentos, olhando um nos olhos do outro e sentindo o rosto esquentar. Foi Shouyou quem quebrou o transe, se levantou e, rapidamente, deu às costas ao outro, indo até a cozinha, enquanto reclamava:

— Bakageyama! Cuidado! - abriu a geladeira. - Você quer outra cerveja?

Mas Kageyama não queria outra cerveja. O que ele queria era resolver a situação em que se encontravam de uma vez por todas. Ter Hinata acima de si daquela maneira o tinha deixado com o rosto em chamas e o coração batendo tão rápido que era como se pudesse pular para fora de seu peito. Era ridículo. Era uma situação que já tinha acontecido muitas outras vezes. Se Tobio ainda tinha alguma dúvida sobre como estava se sentindo em relação ao colega de quarto, ela tinha morrido ali. Talvez não fosse o melhor momento, falar de algo assim depois de jogar um jogo de mistério e assassinato e verem uma partida de vôlei antiga. Definitivamente, zero clima de romance. Mas Kageyama não queria mais esperar. Reuniu coragem e falou:

— Não, não quero. - e com a resposta, Hinata fechou a geladeira e retornou até a sala com apenas uma lata em mãos, parecendo recuperado da situação anterior - Na verdade, eu quero conversar com você.

Kageyama viu os olhos grandes do outro se arregalarem minimamente, mas em seguida ele soltou um suspiro resignado antes de responder:

— É, acho que a gente precisa mesmo.

Tobio não sabia como começar. Olhava para todos os lados menos nos olhos do ruivo ao seu lado. Então, foi Hinata quem iniciou:

— Eu não vou pedir desculpas por ser quem sou, Kageyama. Eu achava que isso não era um problema, mas se é… eu sinto muito. Pela situação, mas não pela maneira como vivo minha vida.

— O único que tem que pedir desculpas aqui sou eu, Hinata. Eu tenho sido muito idiota e sinto muito por isso. Mas… eu tenho um motivo.

— Kageyama Tobio pedindo desculpas. Eu deveria filmar isso. - Hinata disse, tentando aliviar um pouco o clima. - Eu aceito suas desculpas, mas... não tem muita coisa que justifique a maneira como você vinha agindo, sabe? Eu realmente não esperava por isso.

A voz de Hinata foi ficando mais baixa e Kageyama pôde ver em sua expressão como ele estava magoado. Uma raiva tomou conta de si. Raiva de si mesmo, por ser a causa da mágoa do ruivo. A parte boa dessa raiva foi que Kageyama sequer teve tempo para sentir insegurança ou vergonha, apenas despejou de uma vez a verdade que já tinha aceitado a essa altura.

— Eu ‘tava com ciúmes, ‘tá legal? Não é como se pudesse controlar!

Agora os olhos de Hinata pareciam que iam saltar das órbitas, de tanto que ele os arregalava. Em seguida, começou a rir suavemente, balançando a cabeça em descrença.

— Ciúmes? Você quer dizer que estava com inveja de mim, ou algo assim? Porque, sério, isso nem faz sentido. Olha só pra você. Não é como se você fosse ter alguma dificuldade em arranjar alguém com quem transar, se realmente quisesse.

— Não é isso, seu idiota! Não era inveja, era ciúmes! Entende? Me dava nos nervos a ideia de você com aqueles caras aqui e…

— Mas não é como se fosse da sua conta. - Hinata parecia um tanto confuso.

— Não era, claro que não, mas desde quando ciúmes é algo racional? Só de imaginar o que acontecia entre vocês eu já ficava… argh… nem sei explicar.

— Wow. Rude, Kageyama.

— Não, você não ‘tá entendendo, o problema não é você…

— Pois parece muito que sou eu, sim…

— Você não me deixa explicar, idiota!

— Você que não está falando coisa com coisa, Bakageyama!

Os dois já gritavam e a coisa começava a sair do controle. Pelo jeito ele é tão lerdo pra entender as coisas quanto eu, Kageyama pensou. Mas não tinha ideia de como ia explicar tudo. Nunca tinha sido bom com as palavras, ainda mais estando nervoso. Então, sob o olhar irritado e confuso de Hinata, Kageyama tomou a cerveja da mão dele, deu um grande gole antes de colocar a lata no chão ao lado do sofá e tratou de tomar uma atitude.

— O que eu ‘tô querendo dizer é…

Ao invés de completar a frase, Kageyama agarrou a parte da frente da camisa de Hinata e o puxou, colando os lábios aos do outro de maneira firme, mas um tanto desajeitada. Quando abriu os olhos, que tinha fechado por instinto, Tobio se deparou com a face surpresa de Hinata muito de perto. Tão de perto que era possível ver a vermelhidão que se espalhava por ela, deixando as sardas claras um pouco mais visíveis. Ficaram se encarando por alguns segundos, nenhum dos dois parecendo ter racionalidade o suficiente para articular palavras. Até que Hinata se afastou um pouco e quebrou o silêncio.

— Por essa eu não esperava MESMO!

Kageyama deu um sorriso constrangido.

— Eu muito menos. Mas é. O que estou tentando dizer é que eu fui mesmo um babaca, sei disso, mas era porque estava com ciúmes...de você.

— Mas, como? Digo, você não é, não era, hétero? Por que, de repente… quando?

— Eu não sei, ‘tá legal?! Não sei como, nem quando e definitivamente nunca estive tão confuso com uma coisa como estou com minha sexualidade agora, mas é isso.

— Eu achei que você estava com nojo de mim…

— Me desculpa. - Kageyama baixou a cabeça, mas Hinata tocou seu queixo muito levemente, como se estivesse testando a reação do moreno ao contato, fazendo-o lhe olhar nos olhos novamente. - Eu cheguei a achar isso também. Mas percebi que não tinha nojo de você, mas me deixava muito mal imaginar você com algum outro cara e…

— Por que você não me disse nada?

— Eu nem saberia o que dizer! Eu estava achando que estava desenvolvendo algum tipo de homofobia, sei lá, e não queria perder sua amizade… No fim das contas era tudo ciúmes. Eu me sinto um idiota. - esta última parte Kageyama falou bem baixo, um resmungo só para si. Mas, estando tão perto, é claro que Hinata ouviu.

— Você é um idiota! - Hinata começou a gargalhar alto, deixando Kageyama ao mesmo tempo irritado e maravilhado, já que há tempos não via o ruivo rir assim perto de si, e era uma visão a qual era impossível ficar indiferente. - Confundir ciúmes com homofobia! Como você pode ser tão burro, Kageyama?

— Ei, para de rir de mim! A situação já não está constrangedora o suficiente?

— Desculpe. Sério, foi mal mesmo, não deu pra segurar. Isso tudo é muito bizarro. Como foi que você percebeu o que era na verdade?

— Bom, algumas pessoas levantaram a possibilidade no fórum que eu coloquei na internet e…

— Você falou sobre isso na internet?

— Falei, não é como se desse pra eu conversar com meu melhor amigo, né? Enfim, eu não disse nossos nomes nem nada, mas postei num fórum e algumas pessoas falaram que passaram por situações parecidas. Mas eu só percebi mesmo depois de conversar com o Suga.

— Ah, então foi disso que vocês falaram.

— É, ele percebeu que tinha algo errado e veio me perguntar. E você sabe como ele é. Realmente me ajudou.

— Hm. Que bom. Mas isso já tem uns dias, por que você demorou tanto pra me falar?

— Foi anteontem Hinata! Mas também, não é como se fosse o assunto mais fácil do mundo pra mim, ok? Além do mais… - Kageyama mordeu o lábio inferior, inseguro, e não pôde deixar de notar que Hinata encarou este movimento muito intensamente.

— Além do mais…?

— Não sabia como você iria reagir, né? Eu não sei se você está gostando de alguém, se está namorando aquele menino loiro… Mas olha, eu não estou cobrando que você me corresponda nem nada, é só que…

Desta vez foi Hinata quem lhe puxou pela frente do agasalho que vestia e lhe deu um beijo suave, mas não perdendo a oportunidade de lamber levemente o mesmo local aonde Tobio tinha acabado de morder em nervosismo.

— Você é MESMO um idiota, Bakageyama.

— Não precisa me insultar. Então…

— Bom, eu pensei que fosse óbvio que eu tinha uma queda por você, com o tanto de coisa que eu fiz pra te provocar.

— O que? Os flertes? Eu achava que era brincadeira…

— E era… mas só porque eu tinha certeza que você era hétero demais, desinteressado demais em mim pra notar o fundo de verdade. Sabe aquilo de “to brincando, mas se você quiser, eu quero”? Digamos que era isso. Eu vinha tentando superar isso e me conformar que não tinha chance, que deveria dar valor à nossa amizade…

— Nós somos duas mulas empacadas, é real.

— Somos. Mas pelo jeito empacamos na mesma direção, né? Então…

— Então…

Dessa vez não foi possível definir quem tomou a iniciativa primeiro. Ambos foram se aproximando lentamente até os narizes se encostarem e as respirações se misturarem. Logo beijavam-se intensamente, aproveitando o momento para conhecerem o gosto um do outro e testarem as reações aos movimentos que faziam. Hinata percebeu que Tobio gostava quando ele lhe mordia suavemente. Kageyama notou que a boca de Hinata era tão macia que não era muito diferente de beijar uma garota, a não ser pelo fato de que era melhor. Muito melhor. Talvez pelos sentimentos que sabia estarem brotando, e que eram totalmente novos para si de muitas maneiras; talvez pelo fato de as mãos de Hinata lhe segurando os cabelos e o ombro serem muito mais firmes; talvez pelo cheiro tão familiar que se desprendia dos cabelos ruivos que tinha entre os dedos. Ou talvez simplesmente por finalmente estar em paz com toda a situação.

A história era tão bizarra que poderia muito bem estar nas páginas de um livro de romance ou ser o roteiro de alguma série de TV. E enquanto observava o sorriso sincero de Hinata após a quebra do beijo, Kageyama não pôde deixar de pensar que sua vida parecia um elaborado plot twist. Porque, afinal, parece que eu não me importo nem um pouco com o fato de Hinata beijar homens… desde que esse homem seja eu.


25 февраля 2018 г. 1:19:21 1 Отчет Добавить 10
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Ravena Nzuri Ravena Nzuri
Eu ameeei! Adorei a construção deles, e até a confusão do Kageyama porque me identifiquei horrores, foo tão eu descobrindo que sou bi XD. E esse final fofo??? Aaaaaa, nem sei o que dizer! Maravilhoso ❤
26 сентября 2018 г. 6:06:19
~

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