taehmyres-autora1620490624 Taehmyres Autora

Em um vilarejo aterrorizado por uma maldição, que fazia todos temerem a grande lua no céu, dois jovens apaixonados sonham com a liberdade, mas a quebra de um pacto muda o rumo dos seus planos e a única saída era pôr um fim à maldição. Um amor, uma capa vermelha, uma lua de sangue, e um mistério. Quem seria a fera que lhes atormentam toda noite de lua cheia? Baseado no clássico, adaptado para longa metragem: A garota da capa Vermelha. Conheçam a história de amor e mistério de Kim Taehyung e Jeon Jeongguk.


Фанфик Группы / Singers 18+.

#BTS #Taehyung #Wolf #Jungkook #Taekook #lendas #mpreg # #lemom
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Blood Moon

"... ⁠Sobre luas ... sempre sinto calafrios ao pensar na lua nova, afinal nunca sabemos o que a nossa ancestralidade pode a qualquer momento nos revelar. "

Kate Salomão



Mamãe sempre me dizia para ser um bom menino, e nunca sair da trilha quando fosse visitar a vovó. Ela sempre me contava dos perigos que rondavam a floresta e das lendas que fizeram o nosso pequeno vilarejo ser esquecido e temido, principalmente nas noites de lua cheia.

Eu tentei ser um bom menino e obedecê-la. Eu juro que tentei.


— Nunca te contaram que é perigoso entrar sozinho na floresta?


Eu sei que bons garotos não deveriam usar a saudade da vovó como desculpa para perder-se entre arbustos e beijos roubados, mas desde quando éramos crianças ele sempre conseguia me fazer ser desobediente.


— Estou seguindo a trilha como o bom menino que sou — continuei a caminhar ignorando sua presença atrás de mim.


— E o bom menino pode me dizer aonde está indo? — Pude sentir o calor da sua respiração em minha pele quando se inclinou para falar em meu ouvido.


— Mamãe me alertou sobre falar com estranhos — anunciei, fingindo não conhecê-lo, tentando desviar dos seus dedos ágeis que buscavam tocar-me a pele, porém, não fui rápido o suficiente.


— E sobre o que mais ela te alertou?— Já estava em seus braços, enredado em seu olhar faminto.

Sentia-me sitiado, cercado de todos os lados por sua presença. Era sempre assim, Taehyung não precisava de muito para me ter.


— Homens bonitos são os mais perigosos — segredei rente ao belo rosto, vendo um sorriso malicioso surgir em seus lábios.


— Então ela não mensura o tamanho do perigo que expôs a todos quando te deu a luz. — Sua voz grave me arrepiava a nuca, e a sua proximidade fazia-me ansiar pelo seu beijo. Mas, antes que os nossos lábios se encontrassem, nossos ouvidos captaram o tenebroso som do shofar¹ dos sacerdotes.


Alguém não escapara das garras da fera.


Moramos em um pequeno vilarejo à beira da floresta das sombras, entre todo o reino, muitos nem o conheciam de nome, mas temiam as histórias terríveis que aconteceram aqui. Promovemos a paz, todos os meses durante a lua cheia, ofertamos o nosso melhor novilho². Amarramos suas patas, escovamos sua pelagem, o colocamos sobre o altar no centro da praça, nos trancamos dentro de nossas casas e aguardamos. O silêncio era o som do nosso medo, dentro dos nossos lares nos abraçamos sobre as camas, tampamos os ouvidos até os guinchos agonizantes do animal silenciar, anunciando a sua morte e o fim do sacrifício. Ainda assim, o som contínuo como um longo suspiro do shofar dizia que o pacto havia sido quebrado.


O lobo matara outra vez.


Aos pés da montanha rochosa, sobre o branco da neve que cobria o vilarejo, os moradores se aglomeraram. Assim que cheguei com Taehyung ao local, senti seus olhares se voltarem para nós, por um instante pensei que era por estar acompanhado do lenhador, porém eles não olhavam para nós dois, seus olhares eram unicamente para mim, então tive medo. Busquei meus pais em meio a multidão e não os encontrei, a medida que me aproximava do epicentro das atenções um rastro de sangue manchava o gelo, mais olhos de lamento me fitavam fazendo meu peito comprimir e minhas pernas vacilarem. Então eu vi. Minha mãe, pranteando de joelhos sobre a mancha escarlate do sangue de minha irmã.


Suas roupas estavam em frangalhos, sua pele marcada por mordidas e profundos arranhões, sua garganta foi dilacerada de maneira brutal, covarde, selvagem… tudo ficou turvo por um momento, e então eu senti a dor percorrer o meu corpo e saltar para fora de mim em um choro alto e penoso. A Sam era uma boa menina, não merecia uma morte tão horrenda. Apesar de ser alguns anos mais velha, ela e eu éramos cúmplices, confidentes, não havia nada que se passasse com a Sam que eu não soubesse, assim como ela era conhecedora de todos os meus segredos.


— Minha irmãzinha… S-Sam… n-não... — As palavras eram devoradas pelo meu choro. Não me recordo de muita coisa depois de vê-la naquele estado. Tudo o que aconteceu depois que cobriam o seu corpo e o removeram dali não passa de um borrão em minha mente, minha visão estava turva, embaçada por incontáveis lágrimas.


Ver o seu corpo sem vida, tão longe de casa, era trágico e não fazia sentido. O que teria levado a minha amada irmã até as montanhas para um encontro com a morte? E porque depois de tantos anos o lobo voltara a nos atacar? Era incoerente! Fizemos os sacrifícios! Depositamos sobre seu altar de sangue o nosso melhor bezerro, e ainda assim, a vida da minha irmã foi tragada como de um cordeiro levado ao matadouro.


— Jeongguk, precisamos da sua ajuda. — Tínhamos que seguir a tradição, em algumas horas a pira seria acendida e daríamos adeus a Sam.


Eu precisava ser forte. A mamãe e a vovó precisavam de mim para terminar de preparar o corpo da Sam para o ritual. Elas já tinham limpado as suas feridas e lavado seus cabelos, a vovó penteva seus fios tão negros quanto os meus, enquanto mamãe escolhia um dos seus vestidos.


— Ela adorava esse azul — indiquei o vestido longo azul bebê com rendas nas mangas, ela ficava linda sempre que o vestia. — Onde está o papai?


— Seu pai não está bem, meu menino. — Eu sabia o que aquela frase significava. Meu pai não conseguia ficar sóbrio nem em respeito a morte da sua primogênita.


Ele deveria estar ali, é tradição, todos da família preparar o ente perdido para o ritual. Parece torturante, mas para a nossa cultura o fato dos próprios familiares arrumarem o corpo pós-morte, é uma forma de demonstrar o nosso amor através do cuidado, enquanto nos despedimos. E meu pai não estar participando desse momento diz muito sobre ele. Eu o amo, mas não o compreendo.


Sam estava pronta, minutos depois o Sr. Kim, pai de Taehyung e lenhador por profissão, chegou a nossa porta anunciando que a pira estava concluída. O ritual poderia ser iniciado.


Mamãe voltou a chorar copiosamente ao lado da minha avó, e o meu pai, como mamãe disse, não estava nada bem, eu tive que me conter, me abster da minha própria dor e ser forte, alguém precisava ser o ponto de apoio para tudo sair conforme a Sam merecia.


— Estamos prontos, Sr. Kim. — Respirei fundo e ergui a cabeça. Daria uma cerimônia digna para minha irmã. — Peça para os carregadores entrarem — solicitei, me pondo entre minha avó e a mamãe, lhes ofereci os braços para caminharmos juntos para fora de casa.


O soturno som do shofar foi ouvido novamente, dessa vez em uma melodia de lamento, o toque contínuo interrompido por curtíssimos sons, como soluços entrecortados em prantos, dava início ao nosso cortejo. Todos vestiam vestes claras e em silêncio se juntavam à nossa caminhada, à medida que atravessamos a aldeia a caminho dos limites do nosso território, na clareira à margem da floresta.


Não eram todos que tinham um cortejo em sua morte, ainda mais famílias simples como a nossa. Éramos confeiteiros, mamãe e minha irmã faziam pães e doces durante a noite e logo cedinho eu as ajudava a vender de porta em porta, meu pai ajudava quando estava bem. Entretanto, a sacerdotisa do vilarejo anunciou que Sam seria velada em uma cerimônia completa, pois o pacto havia sido rompido, seu corpo violado, sua alma maculada e somente o fogo poderia purificá-la para que partisse em paz.


Repousada sobre uma enorme pira de sândalo, Sam estava serena, desfrutando de um renovador sono profundo ao fim de tarde. O céu estava coberto de nuvens cinzas, carregadas, traduzindo o sentimento em meu peito. Todos do vilarejo estavam presentes, até meu pai resolveu se juntar a nós, ele ficou escorado em uma das árvores assistindo a cerimônia de longe, suas feições não estavam nada boas, eu só pedia aos céus que ele não fizesse nenhum ato que pudesse interferir no ritual e envergonhar a memória da própria filha.


Alguns aldeões se posicionaram nos poucos metros que nos separavam da pira e formaram uma linha, lado a lado, cada jovem, muitos amigos de Sam, foram dando início ao rito. Abaixei a minha cabeça, respirando fundo com dificuldade, amarrando o choro com minhas cordas vocais e no momento que a levantei, não pude conter as lágrimas silenciosas. Taehyung estava na minha frente, a metros de distância, mas em minha direção, me olhando com seus grandes olhos de corsa. Eu podia sentir o quanto naquele momento ele queria me envolver em seu abraço, porque era o que também queria. A sacerdotisa Hwasa, se colocou à minha frente, tapando a visão que eu tinha dele, ela me entregou a tocha acesa com as chamas do altar, que seria usada para acender a grande fogueira. Firmei meus dedos trêmulos na base do objeto e o segurei com toda força, fixando meu olhar nas chamas, faria isso por ela.


— Bem-aventurado os que na morte encontram a paz. — Ela iniciou os dizeres sagrados, caminhando por entre os aldeões. — Pois ainda que sua alma viva, de nada adianta se viveres atrelada ao desalento. Nós também esperaremos o nosso fim, e no bradar da voz da morte a ordem do nosso descanso. Que assim como os nossos ancestrais que descansam aos pés do Soberano, que a nossa querida Sam encontre a paz nas chamas do fogo purificador.


A nossa pequena capela em ruínas era a grande responsável por nos mantermos seguros durante todos esses anos. Lobos não podem tocar o solo sagrado. Por isso ela estava sendo cremada. Existe algo mais divino que as chamas flamejantes do fogo sagrado?


— Jeongguk. — Meu nome foi chamado me tirando do transe em que me encontrava. Era hora de pôr um fim à dor da alma de minha irmã.


Os jovens à minha frente se moveram, formando um longo corredor até a grande pira onde Sam repousava. Abandonei minha mãe e minha avó e passei a caminhar quando o timbre grave e melodioso de Taehyung iniciou o canto em meio ao silêncio. Minhas pernas tremiam, mas eu me forçava a ir, passo a passo, de encontro a ela. Os demais passaram a acompanhar a sua bela voz e em pouco tempo um grande coral se iniciava, enquanto eu batalhava com a dor em minha caminhada. Assim que me aproximei e acendi a grande pira, o perfume do sândalo impregnou a atmosfera, o canto prosseguia e não consegui mais manter-me forte, desabei em frente às chamas e despedi-me de minha irmã em prantos.


O céu, e também o frio do inverno, que só aumentava ao cair da noite, já anunciava o fim de mais um dia. As chamas que consumiam o corpo de Sam eram a única fonte de luz na clareira, o canto cessou e os únicos sons ouvidos eram o crepitar das chamas e o meu choro. Mamãe não tinha mais forças nem para chorar, minha avó era uma mulher forte, eu a admirava, ela se manteve firme a aparando durante toda a cerimônia.


Estava feito. A Sam enfim poderia partir em paz.


Todos já se dispersarvam quando eu senti braços fortes me erguerem do chão. Quão surpreso eu fiquei quando me deparei com Kim Namjoon, herdeiro do comércio mais próspero do vilarejo e primo de Taehyung, me direcionando um sorriso singelo e acolhedor.


— Me pediram para acompanhá-lo até sua casa. — Olhei ainda meio atordoado para os lados tentando encontrá-las. — Elas já foram, meu pai as levou. Sua mãe precisava descansar — sanou minhas dúvidas.


— Tudo bem — Sequei as lágrimas como pude e falei sentindo as palavras arranharem minha garganta. — Estou bem, não precisa me acompanhar.


Não queria ser mal educado, mas em minha busca por minha família, avistei Taehyung ao longe, ele me aguardava. Queria correr e acalentar-me em seus braços, e me permitir ser consolado pelo meu amado. Porém quando tentei desviar de Namjoon e seguir em sua direção, ele fez um breve sinal de negativa, vi seus lábios se moverem e entendi que depois ele me encontraria. Teria que seguir com o outro Kim de volta ao vilarejo. O retorno foi silencioso, ainda não conseguia conter por completo as minhas finas lágrimas, apesar disso o trajeto não foi tão desagradável, Namjoon era um bom rapaz, solícito e muito bonito. Não era atoa que a maioria das famílias tentavam a muito custo desposá-lo com um de seus filhos ou filhas. Ele era um bom homem, mas há muito tempo meu coração já pertencia a um Kim, o que não era herdeiro, o que era um simples e belo lenhador.


— Lamento por sua irmã. A Sam era uma boa garota. — Assim que chegamos em frente a minha casa, Namjoon curvou-se e prestou condolências. Porém antes que pudesse de fato se retirar, meu pai abriu a porta abruptamente, tropeçando nos próprios pés, com uma caneca de vinho em mãos, tentando arrastar-me para a taverna, para assim como os homens do vilarejo encher a cara e desvanecer o luto em álcool. A taverna era o último lugar que desejava ir, e quando tentei negar, Namjoon foi mais rápido em me livrar daquela situação incômoda.— Venha, Sr. Jeon, eu o acompanho até a taverna, deixe Jeongguk. Deixe-o sofrer à sua maneira.


Estava em meus aposentos. Quando deixei meu pai e Namjoon para trás, fui ver como minha mãe estava, ela dormia abraçada às cobertas da Sam, a vovó tinha lhe preparado um chá calmante, ela tentou me fazer beber também, mas recusei, queria estar desperto, precisava falar com Taehyung. As horas se passaram e os únicos sons que eram ouvidos era do vento batendo nas portas e janelas de madeira, por alguns instantes ouvi barulhos vindos da taverna, mas não durou muito. Minutos depois, escutei passos do lado de fora da minha janela, alguém se aproximava rapidamente fazendo a neve fresca derreter sobre as solas de um calçado pesado. Levantei e me aproximei lentamente da janela, acabei abafando um grito amedrontado quando ela se abriu de vez com a força do vento, ainda meio trêmulo, puxei as suas bandas para fechá-las, porém fui surpreendido quando um corpo masculino surgiu em minha frente.


— Não grita, sou eu! — Taehyung foi rápido em tapar-me a boca, assim que viu meus olhos de jabuticaba, como ele chamava, triplicarem de tamanho e meu peito subir e descer rapidamente devido ao susto.


— Tae… — Bastou ele pular a janela para eu ser acolhido em um terno abraço. Não chorei novamente, pensei que minha irmã não gostaria de me ver em um estado tão abatido. — O que está acontecendo?


Eu sabia das lendas sobre o lobo negro de grandes olhos vermelhos, sabia do pacto firmado a anos e não entendia o que tinha levado o lobo a quebrar o acordo.


Quando era criança, a vovó me contou sobre os perigos da grande lua. Dizem que há muitos anos um viajante tão formoso quanto as flores da primavera, chegou ao nosso vilarejo e fez morada. As jovens moças se encantaram por sua beleza e suspiravam na esperança dele escolher uma delas para cortejar. E assim aconteceu, o belo estrangeiro desposou uma das moças, viviam felizes, até a noite da lua vermelha. O planeta vermelho se alinha com a lua a cada treze anos, somente nesse período que um novo lobo em pele de humano pode ser criado. O belo viajante estava retornando para casa quando foi atacado na floresta, não encontraram nada além de suas roupas rasgadas em meio a mata. Dizem que ele foi transformado, há duas luas de sangue atrás.


Durante a semana da lua de sangue, o lobisomem pode passar sua maldição em uma única mordida. Durante uma lua cheia normal uma mordida pode nos matar, mas durante uma lua de sangue nossas almas estão em perigo e até ela minguar não estaremos realmente seguros.


— Amanhã é o primeiro dia da lua de sangue. — Taehyung me recordou daquela informação, enquanto caminhávamos a passos cautelosos até a minha estreita cama. Esperei ele se acomodar para deitar sobre seu corpo, era a única forma de nós dois cabermos ali.


— Mas, fizemos a nossa parte. — Eu tentava entender. Pude sentir seus dedos longos entrando em meus fios negros em um carinho gostoso. Ele sabia que era o único jeito de me acalmar.


— Por isso dessa vez vamos atrás dele, vamos matar o lobo, antes que ele passe a outro a sua maldição.


Ergui o tronco, apoiando as mãos em seu peitoral, para olhar-lhe nos olhos, um brilho de determinação flamejava em suas íris, deveria imaginar que ele não recuaria se alguém lhe propusesse tal absurdo. Taehyung sempre foi muito aventureiro e intenso em tudo que se dispusesse a fazer, era uma das características que mais me atraia nele, além do olhar penetrante e presença dominante.


— Não adianta eu dizer que é loucura e pedir para você ficar, não é? — Era uma tentativa de fazê-lo recusar a proposta em um tipo de pensamento reverso.


— Não. Seu pai tem razão, querido. Temos que matar o lobo.


— Meu pai? — Um arrepio percorreu a minha espinha, fazendo-me encolher e Taehyung puxar as cobertas mais para cima dos nossos corpos e me abraçar com mais força.


— Ele incitou a todos na taverna, iremos assim que amanhecer, caçaremos o lobo nas montanhas e daremos o fim a esse tormento.


— Isso é loucura!


Além do perigo, como podiam dar ouvidos a um bêbado como meu pai?


— Eu também irei — ditei, não o deixaria correr tamanho perigo sozinho. Se fosse para livrar a nossa vila dessa maldição e vingar a morte de Sam, eu também iria.


— Sua mãe não permitirá, Jeon. — Tinha algo diferente em sua voz ao dizer aquelas palavras. Ele nunca me impediria de ir, caso quisesse. — Eles não te contaram, não é? — O pesar em sua voz me deixou aflito.


— Contar o quê?


— Sobre seu casamento arranjado com Kim Namjoon.


Ouvi atentamente, meu amado me contar como descobriu em meio a brindes, brados bêbados e discussões acaloradas que eu estava prometido ao seu primo, enquanto planejavam uma caçada impiedosa à fera.


— Assim que cheguei na taverna, me deparei com seu pai e meu tio em um debate sobre ir ou não atrás do lobo. Meu tio, assim como você, não gostou da ideia a princípio. Ele contou que a sacerdotisa chamou o Padre Min e que ele deveria chegar a qualquer momento para nos ajudar.


O Padre Min, era conhecido na região por destruir lobisomens e bruxas por todo o reino. Era a esperança divina em meio a escuridão.


— E meu pai convenceu a todos?


— Eu os convenci.


— Taehyung! — Tentei enxergar seus olhos, e só tive o vislumbre de um sorriso cínico em seus lábios.


— É a nossa única chance, querido. Meu primo foi bem claro ao dizer a todos que vingaria a morte da irmã do seu noivo. — Sua voz estava baixa e pesarosa. Não sabia como deveria estar seu coração. Sabia que, apesar da dissemelhança social, eles foram criados como irmãos.


— Por isso ele me acompanhou no fim do cortejo? — Ouvi um murmúrio seu confirmando. — Não acredito que todos sabiam. — Eu já esperava que cedo ou tarde, mamãe tentaria algo do tipo. Ela sempre se preocupou com o meu futuro e o da Sam, mas não imaginei que algo assim seria anunciado em um momento tão conturbado. — Mamãe finalmente terá o que sempre sonhou, dinheiro.


— Namjoon terá o que sempre quis. — Senti seus braços me envolverem com domínio. — Você.


— E o que faremos agora? — Tínhamos que encontrar uma saída.


— Você quer casar com ele? — Ele ainda perguntou com a voz vacilante. Apesar de determinado, sei bem qual é a sua fraqueza.


— Você sabe que não. — Sorri para sua pergunta descabida.


— Prove.


— Como?


— Fuja comigo.


— Para onde iríamos?


— Para onde você quiser.— Ouvi sua voz sussurrar gravemente em meu ouvido, me levando a imaginar um futuro próximo ao seu lado. — Para o litoral, a cidade, as montanhas... Você viria comigo? Deixaria tudo para trás?


— Eu faria qualquer coisa para estar com você — disse inebriado por sua voz. Abrindo os olhos logo depois que sentir seus lábios tocarem os meus suavemente e sua voz voltar a soar leve e divertida.


— Imaginei que diria isso. — O casto sorriso ainda estampava seu rosto, em contraste com seus castanhos olhos sagazes. — Por isso precisamos nos livrar do lobo, não conseguiremos ir muito longe com ele à solta. Dizem que durante a lua de sangue ele fica ainda mais forte.


— Será difícil deixar a mamãe em um momento tão doloroso, mas não posso ficar e permitir que ela decida por mim a quem devo me entregar. — Estava decidido, partiria com Taehyung assim que fosse seguro.


— Não quero que pense nisso agora. — Ele voltou a afagar os meus cabelos, sentia meu corpo pesado e não demoraria para pegar no sono, sentindo seu calor embaixo do meu e o som ritmado do seu coração. — Ainda está de luto, tente descansar, pensaremos nos detalhes quando não houver mais nenhuma ameaça.



Ao amanhecer ele não estava mais comigo. Ouvi passos firmes no assoalho e me deparei com a porta do meu quarto entreaberta, eu podia jurar tê-la fechado na noite anterior. Os passos pesados não foram mais ouvidos depois que a porta da entrada foi fechada com força. Não sabia o que estava acontecendo, mas pela seriedade no rosto de mamãe, presumi não ser algo muito bom.


— Dormiu bem, meu menino? — Sua voz estava baixa e rouca devido ao choro do dia anterior. Seus olhos estavam fundos e rodeados de profundas olheiras. Era doloroso vê-la nesse estado.


— Um pouco — respondi me colocando em pé, porém mamãe terminou de atravessar a porta do quarto e me pediu para sentar novamente. Acho que estava na hora dela me contar do meu noivado arranjado. — Mamãe, eu mal o conheço — antecipei o assunto.


— Mas, vai conhecê-lo. — Ela já sabia do que se tratava a minha fala, nosso vilarejo é pequeno demais, as notícias correm aos ventos. Não a espantaria eu já saber de suas pretensões com o Kim mais ricos. — Eu não amava seu pai quando me casei com ele.


— Não? — Fiquei surpreso, mamãe sempre demonstrou amar muito o meu pai, apesar dos pesares.


— Eu amava outro homem, mas aprendi a amar o seu pai, e ele me deu dois filhos lindos. — Suas mãos macias e carinhosas encontraram as minhas, ela me olhou com todo o amor de mãe e me disse. — Eu sei que Taehyung esteve esta noite aqui, mas filho, tens um noivo agora, eu já perdi uma filha e quero que tenhas um bom futuro. O Namjoon é um bom rapaz, ele cuidará de ti.


— Mas, eu não o amo, mamãe, amo o-


— Por favor, meu menino. — Interrompeu minha declaração. — Ao menos me prometa que tentará conversar com Namjoon, tente ao menos conhecê-lo melhor.


Cedi ao seu pedido, abaixando minha cabeça e concordando lentamente. Mamãe estava frágil e ainda assim, lutava pelo que julgava ser o melhor para mim. Não podia decepcioná-la apesar de ser algo inevitável. Não me casaria, assim que possível fugiria com o homem que amo.


De repente um burburinho foi ouvido, ao que parecia os moradores estavam se aglomerando na praça, a caçada iria começar. Troquei minhas vestes e sai sob protestos de mamãe, tive que prometer a ela que não acompanharia o grupo que estava disposto a dar um fim ao lobo. Não vi a vovó, acho que ela voltou cedo para sua casa do outro lado da floresta.


A pequena multidão estava agitada, um grupo composto de alguns aldeões, entre eles, os senhores Kim, meu pai, meu noivo e o homem que eu amo, estavam apostos e armados com lanças, machados e algumas espadas de prata. Tentei me aproximar e falar com Taehyung, todavia alguém tomou o meu campo de visão. Namjoon era um homem bonito, alto, com braços fortes devido ao ofício de ferreiro, a oficina de sua família era a mais próspera da região, a forja dos Kim estava sempre a todo vapor, sua pele assim como a de Taehyung e diferente da minha, era abençoada pelo beijo do sol, linda, dourada e fascinante. Mas, o que mais chamava atenção com toda certeza eram as covinhas do seu sorriso gentil, era inevitável não corresponder a um sorriso seu com outro.


— Eu fiz algo para você. — Sua proximidade me deixou ansioso, eu não estava acostumado em ter alguém além de Taehyung e dos meus amigos assim tão próximos. Instintivamente dei um passo para trás. Ele percebeu e sorriu fazendo-me sentir acanhado por suas marquinhas fundas na face. — Eu queria lhe dar durante o nosso noivado, mas devido às circunstâncias acredito que será mais viável anteciparmos a cerimônia.


Fiquei sem palavras, o pedido de mamãe martelava em minha mente. Não poderia lhe dizer que não me casaria, não naquele momento. Não quando seu sorriso me cativava, a medida em que seus dedos frios envolveram meu pulso e um anel de prata foi colocado em meu anelar.


— Quero que aceite, fiz de coração. — Dava para perceber que apesar das palavras firmes, de tentar manter os olhos fixos nos meus, seu olhar vacilava para os meus lábios e eu não sabia como agir. — Eu não deveria fazer-lhe promessas antes do casamento, mas só por precaução. — Ele se aproximou novamente e meus pés se esqueceram como andar, não consegui recuar. Senti seu perfume cítrico entrar de vez em minhas narinas quando se inclinou e beijou-me o canto dos lábios. Tremi, e tenho certeza que o calor em minhas bochechas denunciavam a minha vergonha. Antes de se afastar totalmente ele mirou seus nobres olhos-de-dragão e sussurrou rente a minha face. — Você será feliz outra vez, eu prometo.


O segui com o olhar enquanto se afastava percebendo que Taehyung esteve o tempo todo nos observando, entretanto antes que eu pudesse ir até ele, alguns poucos aldeões começaram a sua marcha mata adentro, o arrastando junto. Meu coração estava aflito, o que iriam fazer era muito perigoso, e a única coisa que me restava era rezar e esperar que todos voltassem vivos.


— Que Deus os proteja. — Acabei por acompanhar a sacerdotisa até a capela. No caminho encontrei meus amigos, Hoseok, Dawon sua irmã mais velha e Sana. Ficamos na capela, rezando para que tudo ocorresse bem. Eu tentei rezar por todos, mas meus pensamentos eram dominados pela figura de Taehyung em perigo, e eu só conseguia pedir com todas as minhas forças por ele. Eu já tinha perdido a minha irmã, não aguentaria perdê-lo também.


— Ela deve ter ficado devastada, por isso se entregou para o lobo. — Minhas preces foram interrompidas pelos cochichos dos meus amigos que estavam em um banco atrás de onde estava ajoelhado rezando. Eles falavam da Sam, e não pude deixar de me envolver na conversa.


Abri meu olhos e com as mãos ainda juntas, girei o pescoço para olhar os três e questionar porque estavam dizendo tamanho absurdo.


— Minha irmã não se entregou à morte! — Os repreendi em tom baixo, a capela não era o lugar adequado para discussões. — A Sam não faria algo assim!


— Ela pode ter ido se encontrar com algum rapaz. — Hoseok sugeriu acanhado, suas mãos repousadas sobre a pequena barriga que despontava. Ele descobriu sua gestação a pouco tempo.


— Não. — Fui incisivo. — A Sam me contaria.


Eles se entreolharam e era visível o desconforto, claramente sabiam de algo que eu não sabia. Então somente com um olhar duro lhe fiz me contar o que estavam me escondendo e fofocando pelas minhas costas.


— Sua irmã era apaixonada pelo Namjoon. — Sana falou com receio, enquanto eu negava veementemente. Minha irmã nunca me contou nada, eu saberia!


— Jeongguk, ela estava encantada pelo Nam, vivia o visitando e o seguindo por aí. — Hoseok incitava a minha mente a cogitar a possibilidade. — Você nunca reparou?


Flashs surgiram em minha mente, me fazendo duvidar da cumplicidade da minha irmã mais velha. Momentos em que ela parecia perdida em pensamentos olhando um ponto qualquer, ou às vezes em que ela insistia para levar as encomendas para o estabelecimento dos Kim, não era possível que ela tivesse escondido algo tão importante. Eu sempre contei tudo a ela, principalmente quando percebi que estava tendo sentimentos por Taehyung, ela me ouvia suspirando pelos cantos, ouviu quando contei e recontei sobre o nosso primeiro beijo na floresta a caminho da casa da vovó, e ela sempre sorria e dizia o quanto ficava feliz em me ver assim, mas nunca falou sobre estar apaixonada também.


— Ela soube naquela noite, que o Nam se tornara seu noivo. — Dawon nos contou, fazendo meus olhos arderem, me negava a chorar outra vez. — Deve ter sido muito doloroso para ela.

— Talvez tenha preferido morrer a viver sem ele.


— Não fale bobagens, Sana. — A repreendi friamente. Antes de sair a passos rápidos da capela.


Estava sufocando, eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e a única coisa que eu desejava era correr, até meus pés não aguentarem mais. Fugir de todo esse medo que nos fez de refém, e viver o meu amor sem a recente culpa que começava a brotar em meu âmago.


Não tinha noção de que passamos tempo demais ali, até sentir meu estômago roncar me alertando que não tinha me alimentado ainda. Resolvi passar em casa e pegar alguma fruta para amenizar a fome. Iria até a casa da vovó, almoçaria com ela enquanto conversávamos. Ela sempre foi meu porto seguro quando não tinha a quem recorrer, sempre usava as palavras certas e carinhos que só uma avó é capaz de dar. Saí sem que mamãe me visse, ela não permitiria de forma alguma que eu atravessasse a floresta, mas eu não iria desviar da trilha, não teria motivos, não dessa vez.


Segui a trilha sentindo uma sensação estranha de estar sendo observado, era instintivo e apreensivo, apressei os passos e não ousei olhar para nada além da trilha de pedras coberta por uma camada densa de neve. Quando avistei o seu casebre a alguns metros de distância, pude ver a vovó em pé na entrada, ela parecia adivinhar que eu estava a caminho.


— Venha meu menino, aqui fora está muito frio. — Me abraçou, esfregando os meus braços cobertos. — Você vai congelar com essa capa tão fina. Venha, entre rapidamente.


Vovó me guiou para dentro da sua casa da árvore selvagem, era assim que eu a chamava desde de pequeno. Eu adorava a casa da vovó, construída toda em madeira rústica, isolada na mata, adornada com amuletos e talismãs sobre as portas, tapetes de pele na sala e quartos, era diferente, mas não menos aconchegante. Eu amava a forma que ela vivia apesar disso já lhe render alguns problemas, a vovó é um ser singular, uma bela jovem apesar dos cabelos já cinzentos sempre presos em uma longa trança, seu rosto sem nenhuma ruga, não era de se admirar a acusarem de bruxaria e até mesmo ser a responsável pela presença do lobo. Um completo disparate.


Vovó me entregou uma tigela de guisado fumegante, então me pus na janela soprando a fumaça que saia dela, distraidamente, como velas de aniversário. Da sua janela pude avistar pontos distantes de luz, eram as tochas dos homens que subiam as montanhas, fiquei olhando atentamente até a última fagulha de luz sumir por entre rochas íngremes, e a tigela em minhas mãos já estivesse em uma temperatura aceitável. Pensava em todos que estavam lá, arriscando suas vidas, senti meu estômago revirar e me afastei da janela, pedindo mais uma vez para que todos voltassem vivos.


— Eu deveria ter ficado com ela — lamentei, afinal eu era seu irmão, tinha que cuidar dela. — Mas, preferi vir para cá porque aqui eu poderia ver Taehyung ao amanhecer antes dele se juntar aos outros lenhadores no bosque.


— Não se culpe, meu menino. — Ela se afundou na cadeira velha de balanço enquanto alinhava algumas roupas. — E nem fale seus segredos assim aos ventos, pois como minha avó me dizia, depois você não pode culpá-lo por contar as árvores. Coma e se aqueça, está tremendo de frio.


Não era frio. Era medo. Medo do que poderia estar acontecendo nas cavernas no alto da montanha, medo do que Taehyung pode ter pensado em me ver com o seu primo, medo de no fim ter que me casar com Namjoon, puro e palpável medo. Parece até loucura, que em meio a uma maldição de um lobo feroz à solta, matando impiedosamente, eu esteja temendo e tremendo pelas dores do meu coração.


— Aqui, meu menino. — Ela veio por trás e colocou algo sobre os meus ombros.


— Vovó… — Perdi a voz.


Nunca tinha visto um vermelho tão lindo, já tinha visto vermelho em vários lugares, nas maçãs que mamãe descascava para fazer as tortas, o escarlate do sangue de Sam, o vermelho dos lábios de Taehyung depois dos beijos que trocávamos, vários tons, mas nenhum comparado àquele. As outras capas pinicavam, eram feitas de lã sem graça ou de couro duro, essa não, seu tecido era macio e quente, pesado apesar da delicadeza quase fluida.

— Fiz para o seu casamento. — Olhei para o anel. Me sentia sendo vendido. — Eles não aprovariam o garoto Taehyung. Como eu gostaria que você pudesse seguir seu coração. — Seu olhar era de lamento, ela sempre soube das minhas escapadas para encontrar o Kim na mata.


— Parece algo impossível agora, o lobo ter voltado a matar mudou o rumo de muitas coisas.


— Sabe que na minha época de mocidade, o lobo matou famílias inteiras, era tanta brutalidade e saber que isso pode estar acontecendo outra vez me assusta.


— Desculpe, vovó. — Me senti culpado, estava sendo insensível, colocando meus desejos acima de uma questão muito maior. Lembrei da Sam, minha irmã estava morta.


O tremor em meu corpo voltou feito uma avalanche, nem o tecido grosso da capa sobre meus ombros foi capaz de conter o chacoalhar dos meus ossos. Novamente não era frio, era o momento da compreensão, o vislumbre de sapiência, a cognição da minha mente conturbada. A ficha caiu em um baque tão alto quanto meu choro. Me senti com nove anos outra vez, quando brincava em volta da casa da vovó com Taehyung e Hoseok, escalando árvores e catando gravetos, sempre correndo choroso para os braços dela, quando no meio das traquinagens acabava me machucando. Ela me acolheu até o sono me arrancar os sentidos.


O som contínuo do shofar soou ao longe, me despertando bruscamente do meu frágil sono, era o toque de alerta da morte, o que significava que os homens já haviam retornado e que baixas ocorreram, precisava correr, precisava ver com meus próprios olhos que eu não o havia perdido. Somente com as roupas do corpo e a capa vermelha e longa sobre os ombros, sai em tropeços, fazendo o assoalho ranger sobre os meus pés inquietos, por pouco não derrubei suas incontáveis garrafas de infusão pela pouca luz do ambiente. A noite tinha chegado outra vez, me recordando que no alto céu uma grande lua cheia rubra despontava. Era a primeira de três noites da lua de sangue. Deixei vovó ainda adormecida e corri, sentia o vento frio e alguns finos flocos de neve baterem contra o meu rosto, deixando meus lábios tão vermelhos quanto a capa que fui presenteado, o tecido dela se esvoaçava com minha corrida, o capuz despencou de minha cabeça, a cauda longa sacudia contra o vento.


O pouco ar que forçava entrar em meus pulmões se foi no momento em que cheguei no vilarejo e o encontrei em completo caos, de um lado alguns homens comemoravam, uma cabeça de animal enfincada na lâmina de uma lança era afamada pelo som alto de seus gritos, que abafava o choro metros a frente, as crianças corriam livres festejando, uma grande fogueira estava sendo acesa e um grupo estava ao longe, em frente a capela cochichando, balançando as cabeças em negativa. Olhei para todos os lados, e para o meu desespero eu não o encontrava, a angústia me dominou, já podia sentir minha respiração pesada, as vistas temiam não focar, as lágrimas já se formavam, e como um bálsamo aliviando feridas, encontrei seus lindos olhos de corsa em mim, em meio a multidão, era sempre assim, podia pressentir sua presença, seus olhos estavam sempre em mim.


Atravessei a multidão tentando em vão não me esbarrar nos tempestivos aldeões, tinha que tocá-lo, sentir o calor de sua pele sobre meus dígitos, constatar que de fato ele estava bem. Taehyung recuou à medida que me aproximava, estava fugindo de mim. Não podia acreditar nisso, depois de toda a minha aflição ele não poderia render-se às circunstâncias. Por um instante o perdi de vista, mas avistei a sua silhueta atravessando os portões de um dos estábulos.


— Não ouse fazer isso, Kim Taehyung! — O fiz parar de costas para mim, quando tentou escapar novamente pela porta dos fundos.


— Tudo isso está muito errado, Jeongguk. — Ainda de costas, sua voz grave me trouxe um misto de alívio e receio. Ele estava desistindo de nós. — Você precisa fazer isso, tem que se casar com Namjoon.


— Não! Eu não vou suportar perdê-lo também. Olha para mim, Taehyung! — Me senti um idiota implorando para ter seu olhar sobre mim mais uma vez.


— Sua irmã está morta, Jeongguk, sua mãe tem razão.


— Não se atreva a usar isso. — Todo o meu receio transformou-se em raiva.

Estava farto! Tudo estava acontecendo tão rápido me deixando zonzo, eu precisava acertar os ponteiros do meu relógio e comandar a cada instante. A partir de agora seria tudo no meu tempo, do meu jeito, do meu modo, do meu querer! Puro egoísmo? Sim! Mas, a essa altura, isso não me importava. Em uma ferocidade animal, eu sentia que podia fazer qualquer coisa.


Caminhei em passos duros até ele, e o puxei pelo braço, o empurrando de forma arrojada em uma das colunas de pinheiro que sustentava o teto sobre nós. Ele pareceu surpreso, mas seu olhar caprichoso e o repuxar ladino de lábios, denunciou que eu consegui atrair a sua atenção.


— Minha mãe o persuadiu?


— Eu nunca serei capaz de lhe dar algo assim! — Ergueu a minha mão indicando o anel. Estávamos tão próximos que podia sentir o calor da frustração fluindo pelo soprar do seu hálito. — Não transforme isso em algo que não era para ser, não sou a pessoa certa para você.


— É, ela o persuadiu — afirmei, sabia que mamãe tentaria nos afastar. — Eu não ligo para o dinheiro do Namjoon, é você que eu quero.— Agora eu que o tinha cercado como um predador, e não deixaria minha presa escapar. Findei o espaço, resvalando a língua por seu maxilar marcado, parando rente ao seus lábios para sussurrar meus desejos. — Eu te quero e sei que você sente o mesmo que eu — trilhei um caminho perigoso me pondo entre suas pernas. — Sei que também está queimando por dentro.


— Jeon, eu não sirvo para você. — Seus olhos se fecharam, um leve tremor percorreu seu corpo, pude ver suas mãos se fechando em punhos, ele queria me tocar.


Era a minha chance de persuadi-lo. Umedeci os lábios e lhe beijei lentamente o pescoço, podia sentir sua jugular pulsar sobre meus lábios. Uma única investida, um único ataque.


— Você me deseja? — Perguntei com os lábios ainda presos em sua pele.


— Eu poderia te devorar. — Seu tom arrepiou-me por completo, era gutural como um rosnado.


— Então faça, me devore.


Meu corpo foi girado e antes que estivesse em seu lugar contra a pilastra, seus lábios me atacaram, agressivos, com fome, consumindo todas as minhas forças. Abracei o seu corpo buscando equilíbrio, minhas pernas não mais me respondiam, ele sugava os meus lábios e por fim os mordia me fazendo senti-los formigar. Suas mãos afoitas percorriam o meu corpo, amassando o tecido das minhas vestes, tentando arrancá-las de mim.


E a caça se tornara o caçador. Ele me tinha em suas mãos.


Minha tez queimava em brasa a cada toque, engolia em lufadas os sons da sua cobiça e compartilhamos um gemido sôfrego quando o senti ondular os quadris fazendo nosso desejo ser palpável.


— Os cavalos estão logo ali. — Quebrei o nosso beijo e lhe olhei com toda lucidez entorpecente que o momento me dispunha. — Já estaremos longe quando derem a nossa falta.


O brilho de seus olhos castanhos e o sorriso que despontou em seus lábios, fez a agitação em meu estômago aumentar em escalas assustadoras. Eu o amava mais do que poderia conter em mim, eu transbordava por ele. Bastava atravessarmos a praça, os cavalos estavam presos em um tronco em frente onde estávamos.


— Ainda aguenta correr? — Me desafiou, levantando uma das sobrancelhas, enquanto a ponta de sua língua brincava entre os lábios, se referindo ao meu estado, derretido em seus braços.


Cínico.


Não tive tempo de lhe responder, senti o vento gélido contra o meu rosto quando ele se afastou e segurou firme minha mão direita e se pôs a correr, me fazendo acompanhá-lo subitamente. Um sorriso brotou em mim, vendo suas costas largas e seus cabelos lisos balançarem contra o vento, viveríamos enfim o nosso amor. Porém, algo me fez frear e seus olhos confusos me questionaram o motivo.


— Mamãe... — Ela estava chorando com as mãos sobre a boca para abafar o som, podia ver de longe seus ombros tremerem. Então me lembrei. A melodia do shofar, o alerta, a morte.


O lamento de minha mãe em frente a um corpo deitado na carroceria de uma charrete, coberto em partes por um pano escuro, me fez andar ao seu encontro, estava apavorado, temendo que nossa família tenha sido visitada novamente pelo ceifador. Involuntariamente minha mente conduzia os meus olhos a procurar meu pai em meio ao escarcéu de gente. Não o encontrava em lugar nenhum.


Quando me aproximei de mamãe pude ver quem foi a próxima vítima do lobo, meu corpo gelou, minha boca secou, então eu compreendi o estado em que ela se encontrava.


— Era ele, não é? — Lhe questionei ainda os olhos presos no corpo do Sr. Kim, um dos pais de Namjoon.


Ela tentou se recompor, escondendo as lágrimas, mas era tarde demais. Eu já tinha entendido tudo.


— Era ele o homem que você amava — afirmei sem nenhuma dúvida.


— Jeongguk…


— A Sam era apaixonada pelo filho dele — comecei a juntar os pontos, lhe questionando simultaneamente. — Ela era mais velha, poderia ter se casado com ele. Porque insistiu que fosse eu?!


— Você já sabe a resposta — retrucou se afastando e eu a segui. Precisava ouvir da sua boca.


— O papai sabe?


— Deus! Não, ele não sabe, e você precisa me prometer que não contará. — Ela agarrou meus braços e seus olhos suplicantes marcaram meu peito. — A Sam era meia irmã do Namjoon.


Antes que eu pudesse lhe dizer alguma coisa, um estrondo alto chamou a atenção de todos, e logo depois tudo silenciou tamanho foi o nosso espanto, até um grito de horror rasgar o silêncio e o caos recomeçar, as pessoas corriam desgovernadas procurando abrigo, gritos e choros eram ouvidos, foi quando eu o vi, o monstro de pelos negros e olhos sanguinários, apoiado em quatro patas, rosnando ferozmente sobre o corpo de uma jovem moça. Estávamos apavorados, como aquilo podia ser possível? O maldito lobo deveria estar morto, e a sua cabeça pendurada em uma espada.


Como um borrão ele se pôs a correr, as patas batiam contra a neve, avançando sem piedade para cima dos aldeões que fugiam tentando salvar suas vidas. Empurrei mamãe para que corresse e se abrigasse na capela, estava atordoado, mas precisava correr também, entretanto avistei em meio a confusão, Yeri no chão, a pequena se encolhia com medo e as pessoas passavam por ela a ponto de pisoteá-la, tinha que ajudá-la a sair dali. Corri na contramão da multidão, caindo de joelhos e me levantando com dificuldade, meu coração batia afoito contra as minhas costelas, a adrenalina e o medo me moviam. Finalmente a alcancei, a carreguei nos braços e corri em direção à capela, precisávamos alcançar o solo sagrado para ficarmos seguros, mas o lobo passou a correr em nossa direção, me fazendo ter que desviar a minha rota.


Por um momento pensei… porque estou correndo? Seria inevitável, já pertencemos ao lobo, ele só tinha voltado para buscar o que era dele. A maldição fazia parte de nossas almas. O lobo sempre estará presente.


O lobo afundou as garras nas costas de um morador, não deu para reconhecer quem era, e em um salto longo parou na nossa frente. Estávamos sem saída. Não tinha mais para onde correr, então o rosnado veio baixo, seus olhos selvagem me paralisaram, naquele momento era um menino de oito anos, como a criança em meus braços, cativo naquele olhar que me reduzia a nada, me reconhecia, estava hipnotizado naquele olhar.


— Que… olhos… grandes você tem… — Pensei alto, aturdido.


“ São para te ver melhor, meu querido.”


Uma voz feroz e tenebrosa invadiu a minha consciência. Estava ficando louco, o medo estava me fazendo delirar, pois eu podia jurar que a besta estava se comunicando comigo.


“ Eu te conheço bem, Jeon, você sonha em sair desse vilarejo.”


— Deus! Você fala! — Yeri tremia em meus braços e a apertei com mais força para protegê-la.


“ Só você me compreende, Jeon, deixe-me levá-lo embora.”


— N-não! — Uma coragem desconhecida me dominou e respondi a besta, vendo o brilho escarlate de suas íris me dominarem.


“Então as ruas ficarão banhadas em sangue, começando pelo dela!”


Ele avançou em um rosnado raivoso e instintivamente desviei descendo a Yeri dos meus braços, a colocando atrás de mim. De repente um grupo encapuzado surgiu e o estalar de um chicote cortou o ar e atingiu uma das patas do lobo, o fazendo uivar em dor. Era a guarda do Padre Min, as armaduras de prata reluziam e com armas a postos singraram³ em nossa direção. Antes que nos alcançassem o lobo saltou por sobre nossas cabeças e antes que desaparecesse na escuridão, sua voz voltou a soar em minha mente de forma latejante.


“ Eu voltarei para te buscar antes da lua de sangue minguar. Não fugirá de mim!"


Um dos soldados pegou Yeri nos braços e a levou para longe, um outro mais baixo se aproximou de mim e me assustei saltando para trás.


— Calma rapaz, o perigo já passou, o lobo se foi.


— E-eu o ouvi. — Minha mente delirante tentava encontrar a razão.


— Todos ouvimos. — Ele falava pacientemente, me fazendo focar e me calar. Ele era um guarda do Padre Min, se percebesse que de fato eu falei e entendi o lobo, seria acusado de ser um bruxo ou de ter perdido minha sanidade. — Agora venha comigo, vamos encontrar sua família.


Andávamos pelos destroços, os olhos ardendo pela fumaça, eu me perguntava porque não estava me tremendo de medo como a pequena Yeri diante de tudo que aconteceu, ou até porque não estava entre os mortos. Então mais uma vez a voz da fera ressoou por minhas memórias. Ele queria a mim, eu era a razão.


— Tolos!


O Padre Min, andava de um lado a outro da pequena capela onde todos se espremiam como sardinhas, tentando reivindicar um pedaço do solo sagrado para assegurar a permanência do sopro de vida em seus corpos. Ele estava vermelho, irritado, exortando a todos.


— Mas, tínhamos a cabeça do lobo! — Alguém gritou entre a pequena multidão.


— Homens de pouca fé. — Ele cuspia as palavras com desgosto. — Subestimam as artimanhas das criaturas das trevas, diminuem o seu poder e continuam sem temer a maldição. O lobo enganou a todos. Vocês convivem com essa fera há duas gerações e ainda assim não sabem com o que estão lidando?!


Um burburinho se espalhou e de repente alguém passou por entre os aldeões. Hoseok carregava Sana nos braços, olhei para o meu amigo preocupado com seu estado, ele não devia estar passando por isso estando grávido. Ele pedia ajuda, dizendo que ela ainda estava viva.


— Jimin! — O Padre chamou o guarda que me ajudou.


Ele a pegou dos braços do meu amigo e analisou seu corpo por completo, podíamos ver a respiração mínima dela, seu peito subia e descia lentamente, então Jimin levantou a barra do seu vestido sujo com seu sangue revelando marcas de dentes em suas coxas, o lobo a tinha mordido.


— Jin, mate-a. — O padre ordenou e o guarda que tinha tirado Yeri dos meus braços mais cedo, levantou a espada no mesmo instante, Hoseok tentou avançar e impedir, tarde demais, a lâmina já tinha atravessado o peito de Sana.


Um som uníssono de espanto foi proferido por todos.


— Olhem para o céu sobre vossas cabeças, a lua de sangue já se iniciou. Todos que foram mordidos pela fera deverão morrer, ou se transformarão como ela. — Jimin, explicava para os aldeões.


— Ele os fez pensar que vivia nas montanhas, para que não procurassem no lugar mais óbvio. — Jin limpava o sangue em sua espada tranquilamente, enquanto falava em alto e bom tom. — O lobo vive entre vocês, nesse vilarejo. O verdadeiro assassino pode ser seu vizinho, seu melhor amigo, até a sua esposa.


Todos se entreolharam desconfiados, a dúvida pairando sobre nossas mentes, inevitavelmente pensei, quem poderia saber algo tão secreto como meu desejo de partir?


— Taehyung… — O primeiro nome iluminou a minha mente, não o tinha visto mais depois que fui de encontro à mamãe. Porém o sentimento que tive não foi medo dele ser o lobo, e sim dele estar entre os mortos. O procurei entre a multidão e não o encontrei, nem meu pai, a vovó, até o Namjoon veio à minha mente. Nenhum deles estava ao alcance dos meus olhos.


Olhei para o corpo de Sana sendo arrastado para fora da capela, lembrei de Sam, dos feridos, do medo em cada rosto ali. Era a mim que ele queria, eu poderia salvá-los, não podia permitir que mais almas fossem ceifadas e novas piras fossem acesas para purificá-las.


— É a mim que o lobo quer! — Disse alto, fazendo todos se calarem.


— O que está dizendo, rapaz? — O padre se aproximou, me fazendo encolher os ombros com seu olhar.


— O lobo falou comigo. — Uma nova onda de burburinhos tomou conta do lugar. — É a mim que ele quer. Ele disse que deixaria o vilarejo em paz se eu fosse com ele.


— O lobo é alguém desse vilarejo que o deseja, tem ideia de quem pode ser? — Seus dedos frios tocaram o meu rosto, ele parecia lamentar o meu estado.


Tinha suspeitos, mas não podia falar, não podia… Neguei, sentindo finas lágrimas serem colhidas pelos dedos longos do sacerdote.


— Como se chama, rapaz? — Lhe disse meu nome. — Jeongguk, terá que ser forte. — Fui surpreendido por um abraço seu, e por palavras sussurradas em meu ouvido. Tentei ao máximo entender o que me dizia. Então ele se afastou e deu a ordem aos seus soldados. — Cerquem a cidade, fechem todas as saídas. E prendam-no, se é a ele que o lobo quer. Daremos a ele.


Fiquei espantado, dois soldados seguraram meus braços e me arrastaram para fora dali, não tive ao menos reação para protestar, somente ouvi a voz de Namjoon fazendo isso por mim.


— Não pode fazer isso! — Sua voz acabou por me trazer um pouco de conforto, ele estava vivo. — É sacrifício humano!


Jimin se pôs na frente dele, com uma das mãos em seu peito o freando.


— Todos nós fizemos sacrifícios.



Era tudo parte de um plano. Depois de me levarem, o comandante da guarda veio até mim e me explicou o que o Padre Min planejou.


— Então serei uma isca. — Externei minha compreensão do plano. Vendo o comandante Jin concordar com a cabeça.


— Estaremos todos lá, vamos estar a postos para capturar a fera assim que ela aparecer.


O dia estava amanhecendo, eu estava no quartinho dos fundos da paróquia, tentando fazer minha cabeça e o meu corpo tenso pararem de doer. Os soldados, tinham me deixado sozinho, iriam preparar-se para a noite, o dia seria longo. Jin me contou que dispersaram os aldeões de volta para seus lares, alguns poucos ficaram para ajudar na limpeza e recolhimento dos corpos. Papai estava bem, o encontraram dormindo embaixo de uma das mesas da taverna, com alguns poucos arranhões pelo braço, mamãe também tinha conseguido chegar à capela a tempo, eu só não tinha notícias de Taehyung ainda, e isso era tremendamente angustiante.


Jimin, retornou horas depois da saída de Jin, acompanhado de mais dois soldados que carregavam grandes bacias com água, alguns panos, frascos com essências e um prato com a refeição que o Jin disse que mandaria.


— Chegamos a metade do dia, rapaz. Precisa se limpar, se alimentar e tentar descansar. — Deu sinal para que os homens deixassem tudo ali e saíssem. — Não se preocupe, Jeongguk, não deixaremos o lobo lhe fazer mal e nem a mais ninguém nessa aldeia. Dará tudo certo.


Não fui capaz de lhe responder em palavras, apenas acenei positivamente com a cabeça.


— Precisa cuidar desses machucados. — Se referia aos arranhões em meus joelhos visíveis através dos rasgos em minha calça, alguns nos braços e um que ardia em meu rosto. — Tome, retirou um frasco da bolsa de couro pendurada em sua cintura. — Limpe suas feridas e passe um pouco disso, é azeite de semente de girassol vai ajudar na cicatrização. — Ele tinha um olhar terno para um homem da guarda sacerdotal. — É um pecado um rosto tão belo, ficar marcado assim. — Senti seus dedos resvalar com carinho no machucado sobre a maçã do meu rosto. — Descanse, rapaz.


Ele deu leves tapinhas sobre meus ombros e com um sorriso encorajador me deixou sozinho outra vez. Porém, minha solidão não durou muito. Ouvi um baque no teto e fiquei em alerta. A madeira sobre mim, rangia, eu reconhecia claramente o som de passos. Acima do quartinho ficava as escadarias que levavam ao topo da capela onde um sacerdote ficava a postos para soar o shofar. Meus olhos se abriram ainda mais quando percebi que tinha um alçapão no teto, seja lá quem fosse, estava forçando a passagem para o quarto. Me encolhi sobre a cama e estremeci quando o alçapão foi aberto e Taehyung pulou quatro à dentro.


— Tae! — Meu corpo gelou e em reflexo levantei indo em sua direção, aliviado por ele estar vivo e bem, porém quando seus braços abandonaram seu machado no chão e retribuíram meu abraço um sentimento ruim me fez desvencilhar dele, dando um passo pra trás.


— Que bom que está bem. — Tentou se aproximar novamente, mas recuei. Suas sobrancelhas se juntaram em confusão. — Está com medo de mim?


— Onde você estava? — Olhei em seus olhos castanhos que tão bem conhecia.


— Pensa que posso ser o lobo, querido? — Deu mais um passo em minha direção.


— Não se aproxime! — O vigor em minha voz me surpreendeu.


— Eu não sou o lobo, Jeongguk. Quando a fera surgiu eu tentei encontrá-lo em meio a multidão, mas quando o lobo feriu a Sana na minha frente, eu só fugi como todos para me proteger. — Explicava sustentando firmemente a nossa troca de olhares. — Não acredita em mim?


Lembrei-me que nada daquilo importava, Taehyung sendo o lobo ou não tudo terminaria naquela noite. Suspirei derrotado e voltei para os seus braços. Não lhe respondi, não podia mentir e dizer que acreditava, mesmo que em meu coração eu sentisse verdade em suas palavras.


— Você não virá comigo, não é mesmo? — Meus pensamentos se redirecionaram para as palavras do lobo. — Não vou te convencer a não fazer uma loucura dessas.


Ele sabia do plano?


— Me escondi e ouvi o Padre dando ordens aos guardas. — Esclareceu meus pensamentos. — Deveria imaginar que você não iria recusar.


— Eu preciso fazer isso, é a mim que o lobo quer.


— Eu estarei lá, para te tirar daquele maldito altar a qualquer sinal perigo.


— Quero que esteja a salvo!


— Não lhe deixarei sozinho. Estarei à espreita, em alerta.


Ele juntou nossas testas e suspiramos ao mesmo tempo, ambos sentimos a iminência dos acontecimentos, a escassez do tempo, e a saudade antecipada que nos atingia. Aquela poderia ser a nossa última chance.


— Fique comigo. — Pedi, me acolhendo mais em seus braços, enterrando-me em seu pescoço, colhendo o seu cheiro.


Ele afagou meus fios e varreu o quarto com o olhar notando os itens ali dispostos.


— Me deixe te ajudar com suas feridas.


Ele retirou a capa que cobria meus ombros, e a estendeu no chão. Em silêncio, arrastou uma das bacias com água morna e pegou os panos logo ao lado. Me guiou para o centro do tecido escarlate, então me despiu. Acompanhei com atenção ele molhar e espremer um dos tecidos retirando o excesso de água. Lentamente tocou a minha pele com ele, seu toque era macio, seu deslizar sobre minha tez me fazia suspirar, a delicadeza com que limpou as minhas feridas, me fez traduzir o ressoar do meu coração, eu não me importava se Taehyung fosse o lobo, se ele fosse a fera eu também me tornaria uma.


O tecido úmido percorria o meu pescoço, descendo vagarosamente pelo meu torso, fazendo-me engolir em seco, era delicado e torturante, ele contornou o meu peitoral tocando as pontas dos dedos em meus mamilos. Minha respiração já estava ofegante quando ele traçou o caminho para baixo, senti meu abdômen contrair involuntariamente quando o tecido umedeceu meus poucos pelos antes dele tocar-me intimamente.


Todavia, não durou muito, ele estava empenhado em tratar minhas feridas, depois de trocar e repetir o mesmo processo com o novo pano, se pôs de joelhos, escorregando o tecido por minhas coxas, pernas, limpando o sangue seco dos meus joelhos…


Ele lavou o tecido uma última vez, antes de se pôr de pé e me virar de costas para si. Podia sentir sua respiração ao pé do ouvido, dessa vez ele não torcera o pano e pude sentir um arrepio gostoso quando uma gota de água percorreu a minha espinha e se perdeu entre as minhas nádegas. Não tardou para eu sentir o toque do tecido acompanhar o mesmo caminho. Estremeci.


— Beije-me. — Tombei o pescoço para o lado e contornei a sua nuca com um dos braços. Precisava senti-lo.


O tecido foi abandonado ao chão quando senti, ainda de costas, seus dedos envolverem a minha cintura e seus lábios sugarem a minha pele com desejo. Não tínhamos mais tempo, talvez o lobo tivesse sucesso naquela noite, talvez não conseguíssemos fugir, então faria daquele momento eterno, o amaria e permitiria que me amasse como um homem.


Suas mãos subiram encontrando meu peitoral ofegante, meu pescoço era maltratado por seus dentes e não contive um gemido quando apertou meus mamilos eriçados, queria que ele ouvisse cada som de prazer que só ele me proporcionava. Desci uma das mãos e repousei sobre a dele que estava apertando meu mamilo esquerdo, e o instiguei a descer, queria ser tocado ali sem um tecido entre nossas peles. Sua palma me envolveu, e o calor do seu toque se espalhou por todo o meu corpo, febril, inebriante. Ainda com minha mão sobre a sua, o fiz mover-se, lentamente, espalhando o meu prazer, umedecendo seus dedos, facilitando o deslizar, era ainda mais delicioso do que às vezes que me tocava tendo o seu corpo suado e braços fortes em pensamento, relembrando os momentos que o assistia com um machado em mãos, cortando troncos de madeira em meio a floresta.


— Deite-se. — A rouquidão de sua voz e o aperto em meu membro me fez soluçar um gemido.


Obedeci e me deitei à sua frente.


Taehyung me admirou por completo, seus olhos tinham um brilho diferente, seu sorriso de canto lhe dava um ar sedutor que fazia meu baixo ventre contrair-se. Aguardei não tão paciente, enquanto ele apoiava o machado que carregava consigo quando pulou o alçapão, ao lado da porta, e usava uma das cadeiras para travar a fechadura. Se desfez das camadas de roupa e acabei mordendo os lábios ao ver quão belo ele era, a pele bronzeada, os braços definidos devido ao trabalho, as pernas levemente torneadas e entre elas seu falo rijo, com veias pulsantes desenhadas por toda sua extensão. Era inefável⁴ e convidativo. Interrompi qualquer pretensão que ele possuía, quando levantei rapidamente me colocando de joelhos à sua frente e lhe toquei como ele tinha me tocado. Dalí olhei para cima e no momento em que ele jogou a cabeça para trás, pude ver o movimento em sua garganta quando engoliu um punhado de saliva, foi quando percebi que também estava salivando, voltei a olhá-lo entre os meus dedos e senti minha boca encher-se d'água, não me contive e provei do seu sabor.


Seu gosto dominou meu paladar e toda a minha excitação aumentou, quando pus a língua para fora e passei da base ao topo, eu queria mais, precisava de mais. O coloquei na boca, desfrutando da rouquidão dos seus gemidos que penetravam em meus ouvidos e embassavam a minha mente. Eu nunca tinha feito aquilo, mas não queria parar, era instintivo, meu corpo reagia ao seu e quando me dei conta, seus dedos agarraram meus cabelos enquanto o chupava desesperadamente, ele empurrou-se contra minha garganta e eu abri a boca o máximo que conseguia, eu já pingava, queria tocar-me também, mas sabia que se fizesse não duraria muito, apertei os joelhos, ao sentir um ardor quando ele puxou meus fios trazendo minha cabeça para trás, fazendo-o saltar dos meus lábios e uma fina camada de saliva pairar no ar ainda nos conectando.


— Que boca grande vo- — Minha atenção estava em seus testículos pesados, os segurei, interrompendo a sua fala.


— Acho que serei eu a devorá-lo. — Falei antes de abocanhá-lo outra vez. Massageava seus testículos ao mesmo tempo que o chupava com prazer. Ele voltou a grunhir e dizer a palavra “merda” repetidas vezes, antes de suas pernas tremerem e ele tentar me afastar outra vez, mas não permiti, apertei o vinco entre minhas bochechas e suguei cada gota do seu líquido quando ele se desfez em minha boca.


Seus olhos estavam fechados com força, a mão que estava em meus cabelos desceu para meu braço me ajudando a levantar, senti o machucado em meu joelho arder, mas nada que não pudesse suportar, então nos beijamos como nunca tínhamos feito antes, nos beijamos até nossos pulmões queimarem por falta de ar, suas mãos me apertavam como se quisesse constatar que eu realmente existia, que nada daquilo era um sonho. Nos ajoelhamos no chão coberto pela minha capa e antes que tivesse a chance de alcançar seus lábios outra vez, ele me girou e inclinou o meu tronco contra o colchão da pequena cama, fiquei inclinado, de joelhos, exposto para si. Ele estava silencioso, misterioso e quando parou atrás de mim um pouco afastado com as mãos sobre minhas nádegas, tentei lhe olhar por sobre os ombros, porém minha cabeça despencou e minha testa encontrou o colchão quando senti sua língua invadir-me, úmida e perigosamente quente. Já soluçava e arfava contra o colchão a cada investida sua, o músculo já entrava e saia facilmente por conta da saliva que ele deixava escorrer pelos seus lábios, eu estava fora de mim, era tanto prazer que percorria as minhas veias que era impossível manter a sanidade.


Senti uma mordida em uma das minhas nádegas, e a outra ser apertada com vontade, ele estava deixando marcas em mim.


— Não menti quando disse que seria capaz de devorá-lo. — Um tapa foi deferido na região e não pude não arfar surpreso com sua ousadia. Taehyung adorava me ter em suas mãos, mesmo que por pouco tempo, porque nós dois sabíamos que no fim ele só estava fazendo as minhas vontades.


Ainda com o rosto contra o colchão, avistei o frasco com o bálsamo que Jimin me dera, aquilo seria útil.


— Toma. — Alcancei o frasco e joguei em sua direção o fazendo pegar no ar. — Me coma de uma vez.


Eu já não me reconhecia, tão pouco o atrevimento de minhas palavras, mas sabia a quem culpar. Taehyung... sempre foi ele, sempre será, aquele por quem eu deixava de ser um bom menino.


Outra vez o ouvi rosnar e em resposta meu membro gotejar, eu precisava senti-lo me preencher por completo. Eu nunca fui paciente, ou muito obediente, estávamos envoltos em um mundo só nosso, mas a qualquer momento alguém poderia chegar.


— Deita! — Sai da posição em que estava e lhe empurrei para trás, recuperei o bálsamo de suas mãos e despejei uma quantidade generosa sobre si, outra vez desperto.


O brilho do óleo espalhado em sua pele dourada fez a urgência que sentia me guiar, guiei os meus dedos escorregadios e sobre seus olhos atentos, lubrifiquei-me. Os meus machucados no joelho e face latejavam, e inesperadamente eu gostava da sensação, fazia minha excitação só aumentar.


Ele segurou-se pela base e sorriu convidativo, a maliciosidade pintando seus lábios, me desafiando. Era assim que ele me convencia a subir nas árvores mais altas, a me esconder entre arbustos para assustar viajantes na trilha, a não obedecer. Engatinhei para cima dele e me posicionei, mantive meus olhos nos seus enquanto descia lentamente, ele ainda sorria apesar do restante do seu rosto transbordar do mesmo regalo que eu estava sentindo. Fiz da dor daquele momento só mais um elemento de prazer e quando senti meu traseiro encostar em seu colo, todo meu corpo tremeu e não mais via seus belos olhos, eles estavam cerrados enquanto ofegava audivelmente.


Mais belo que o pôr do sol, era Taehyung bagunçado sobe o tom de vermelho que testemunhava o nosso amor, respirei fundo e me movi, ele reagiu agarrando minhas coxas com possessão, enquanto deslizava para fora de mim, só para descer novamente dessa vez mais em um ritmo mais rápido.


— Q-querido, calma…


Aqueles grandes olhos de corsa estavam visíveis novamente, e dessa vez foi a minha vez de sorrir travesso, prendi os lábios inferiores com os dentes e repeti o movimento dessa vez voltando a descer de uma única vez, arrancado um arquear de coluna seu e um longo gemido da minha garganta.


— Vamos, Tae, não tenha medo de me machucar. — Me inclinei, lhe beijei, chupei seus lábios doces e sussurrei por fim. — Me devore como desejas.


E assim ele fez, as mãos que estavam em minhas coxas subiram e agarraram as minhas bandas, abrindo-as para que pudesse investir mais livremente durante a minha montaria. Já estávamos suados e eu não resistiria por muito mais tempo. Mudamos de posição. Sentado no chão encostado aos pés da cama, Taehyung ainda me tinha em seu colo, ainda me tinha o abrigando, ainda me amava com sede e desejo. Minhas pernas estavam envoltas em sua cintura delgada, meus dedos arranhavam suas costas e meus lábios estavam presos em seu ouvido enquanto gemia seu nome baixinho, pois só ele tinha o direito de escutar-me delirando de prazer. Meu corpo tremia a cada vez que ele me penetrava, com mais gana, mais rapidez, buscando avidamente o pico do nosso prazer. As carnes do meu traseiro eram maltratadas por seus longos e finos dedos, meu membro era deliciosamente pressionado entre nossos abdomens, e no momento em que desprendi-me de seu pescoço para engolir os seus gemidos em um beijo, ele levou uma das mãos a ele e acabei por desfazer-me, sentindo segundos depois seu líquido quente me preencher e escorrer por entre minhas coxas, quando delicadamente me tirou de seu colo e me deitou sobre capa, caindo arquejando ao meu lado logo após.


— Eu am-


— Eu sei. — Não me deixou terminar. — Eu também, mas não quero que isso pareça uma despedida, querido. Ainda fugiremos desse vilarejo e poderá dizer sempre que quiser o quanto me ama, assim como farei tudo que estiver ao meu alcance para que se sinta amado. Ainda o verei gerar os nossos filhos e contarei a eles o quanto o pai deles é corajoso.


Ele me deu um beijo casto na testa, antes de levantar e retornar com o pano úmido. Nos limpamos, aproveitei para limpar algumas manchas da capa, envolvendo meu corpo nu com ela logo depois, ela tinha se tornado ainda mais especial para mim, ainda podia sentir os nossos cheiros misturados em seu tecido. Taehyung já estava vestido e eu insisti para que saísse pela porta, não me importaria se soubessem que esteve comigo, entretanto senti-me egoísta e descortês, quando deparei-me com Namjoon em pé do outro lado da porta.


Pelo seu olhar vazio e sombrio, ele estava ali a tempo suficiente para compreender o que aconteceu, isso se o fato de me encontrar nu envolto em um tecido vermelho, com Taehyung amarrotado ao meu lado não fosse compreensível o suficiente.


— Primo…


— Cale-se. — Namjoon lhe pediu, mas manteve seu olhar em mim.


— Tae, deixe-nos a sós.


Não podia deixar perdurar por muito mais tempo essa facécia⁵ do destino. Ele me amava e deveria compadecer-me dos seus sentimentos, que foram mantidos em silêncio por tanto tempo e que no momento foram espatifados pela presença de Taehyung naquele quarto. Lhe daria uma explicação digna e um pedido de desculpas apropriado por não poder manter aquele noivado, tampouco retribuir o seu amor. Eu já amava outro homem, mesmo antes de entender o significado de amar.


— Preciso conversar com Namjoon — Esclareci para Taehyung que me pareceu não gostar muito da ideia, apesar de já ter pego seu machado para nos dar privacidade. Namjoon permanecia em silêncio, no mesmo lugar, desviando olhar para o lado quando seu primo me beijou uma última vez antes de partir, dizendo que estaria comigo naquela noite.


Ele desviou, dando espaço para Taehyung sair e entrou logo em seguida fechando a porta atrás de si.


— Deveria ter poupado as moedas de prata que gastei para convencer um dos guardas a me deixar vê-lo. — Em poucos passos ele se aproximou da cama e sentou-se. — Deveria ter pensado no alçapão, mas como sempre meu primo foi mais rápido.


— Sinto muito — expressei os meus sinceros pesar.


— Eu deveria ter recusado a proposta, assim que sua mãe veio falar com meus pais. — Ele puxou o ar com força, antes de estender uma das mãos em um pedido mudo para que eu me aproximasse e sentasse ao seu lado.


A segurei e me acomodei ao seu lado, em meu peito sentia ser o responsável pela falta daquele belo sorriso de covinhas que ele carregava sempre consigo. Queria vê-lo sorrir outra vez.


— Eu sempre soube que seu coração não me pertenceria um dia. — Ainda segurando uma das minhas mãos ele mirou para o dedo que deveria conter o anel que me deu. Tinha o tirado mais cedo. — Mas, meu coração bobo ousou sonhar, e peço desculpas pelo meu egoísmo. Pensei somente na minha felicidade sem me dar conta que negligenciaria a sua e a de Taehyung.


— Sinto não poder retribuir seus sentimentos. És um homem honrado e bom, Namjoon, irá encontrar alguém capaz de amá-lo como merece.


— Você tem que fugir, Jeongguk. Não pode ficar assim, tão compassivo enquanto planejam lhe entregar a fera. O que meu primo tem na cabeça em pensar deixar algo assim acontecer? Ele deveria lhe pôr sobre os ombros e correr para mais longe que conseguisse. — Todos temiam a ameaça que se aproximava. E entendia seus questionamentos, ele não sabia dos verdadeiros planos e seria melhor que permanecesse assim.


— Não se preocupe. — Sorri o tranquilizando. — É a mim que o lobo quer, está tudo sob controle. — Disse mesmo não confiando nas minhas próprias palavras. — Ele não vai me machucar, ou teria feito quando teve a chance. Ficaremos todos bem.


Me afastei um pouco, e retirei o anel debaixo do travesseiro.


— Não, por favor, quero que fique com ele. — Recusou quando tentei colocar o presente em suas mãos. — Aceite como uma lembrança de um amigo, a Sam também ficaria feliz se aceitasse.


— A Sam?


— Sim, ela me ajudou com as medidas do seu dedo.


Meus olhos lacrimejaram com o pensamento de como minha irmã se sentiu ajudando o homem a quem amava a forjar um anel de noivado para desposar seu irmão. Não contive uma lágrima escorrer por minha face.


— A Sam sabia. — Sua fala me deixou confuso. — Eu contei para ela, no dia em que aceitei te desposar. Eu sabia dos sentimentos dela por mim e não podia permitir que ela os mantivesse.


Então antes do dia de sua morte a Sam já sabia mesmo do meu noivado e que não poderia ter Namjoon para amá-lo além do amor de irmãos? Minha cabeça dava voltas e certamente minhas feições transpareciam isso, pois senti os dedos dele massageando as rugas que formei entre as sobrancelhas franzidas.


— Quando alcancei certa idade, meu pai me contou a história de amor dele com sua mãe e como aprendeu a amar meu outro pai quando foram obrigados a se casarem por suas famílias. — Passou a me contar partes da história que mamãe não teve coragem de me contar. — Ele disse que no começo foi muito difícil manter-se longe dela, que se arrependeu por ter traído meu pai nessa época, mas que se afastou quando soube que ela estava de casamento marcado com seu pai.


"Papai já estava grávido de mim, quando sua mãe descobriu a gravidez de Sam e se casou. Ela decidiu procurar meu pai e lhe contar a verdade sobre a paternidade, somente para evitar que futuramente, como nosso vilarejo é tão pequeno, nos envolvêssemos de forma indevida. Eu sempre soube que era meio irmão da Sam e acho que foi isso que contribuiu para que ela criasse sentimentos por mim, eu sempre a tratei com carinho, a ajudava e protegia, pois a via como minha irmã, isso deve tê-la confundido. Então quando tive a chance, lhe contei a verdade, fui o ombro amigo que ela pôde chorar, para no fim vê-la sorrir e me fazer prometer que te faria feliz."


— Então… ela… o lobo… — Já chorava copiosamente, pensando no que meus amigos tinham suposto sobre a Sam ter se entregado à morte pelas garras do lobo.


— Não, Jeon. A Sam não faria algo assim, você a conhecia melhor do que ninguém. Não pense em algo assim, ok?

Concordei e enxuguei minhas lágrimas, Namjoon pegou o anel em minhas mãos e colocou em meu indicador, beijando-o logo em seguida.


— Conversarei com sua mãe mais tarde, papai ainda está de luto... — Lembrei-me que ele também estava, seu pai também foi vítima do lobo.


— Lamento por seu pai, sei como está se esforçando para se manter firme.


— Sim, estou. — Suspirou audivelmente e se pôs de pé. — Mas, agora não é o momento de chorar pelos mortos, e sim de lutar pelos vivos.


Me coloquei de pé também abraçando o tecido que cobria minha nudez com força, queria ao menos abraçá-lo, todavia não seria adequado. Ele percebeu minha hesitação e não se importou em envolver seus braços ao meu redor, mesmo não podendo retribuir o abraço, ele beijou o topo da minha cabeça e saiu logo em seguida.


— Seja feliz, Nam. — Ele nada disse, somente sorriu e meu coração ficou mais aliviado ao ser suas belas covinhas uma última vez.



Ao final daquele dia, quando a grande lua atingiu o ponto mais alto no céu, soldados vieram me buscar. Padre Min, caminhava à frente com seus soldados, eu estava acorrentado logo atrás, seguindo em direção a praça pública, a caminho do altar fúnebre, onde sacrificamos o nosso melhor novilho em troca de paz. Tínhamos que ser convincentes, apesar dos grilhões em meus pulsos estarem frouxos, era humilhante ter todos aqueles olhares me julgando. Quem sabe eles tinham razão… quem sabe o lobo sabia de algo sobre mim que eu desconhecia. Talvez houvesse algo sombrio dentro de mim.


Os soldados enxotaram os curiosos de volta para suas casas, depois desapareceram, eu sabia que eles estavam escondidos em algum lugar, podia sentir seus olhos em mim. As horas se passavam quando de repente senti sua presença.


O lobo estava ali.


Suas pegadas sobre a neve eram ouvidas, mas ainda não conseguia enxergá-lo sobre a parca luz da lua, até o momento que ele saiu das sombras e sua voz penetrou em minha mente.


“Deveria me vingar de todos, por terem lhe acorrentado, meu menino. Te tornarás tão forte como eu e poderá você mesmo acabar com todos. ”


Poderia ser fruto do meu medo ou a magia da lua de sangue, mas o lobo me pareceu ainda maior do que a noite anterior, sua mandíbula enorme se contorcia em um rosnado baixo, ele não estava próximo, tinha uma distância de alguns metros entre a gente e essa era a minha oportunidade não poderia deixá-lo se aproximar mais. Me desfiz das correntes, com as mãos escondidas pela capa, enquanto conversava com a fera para distraí-la.


— Eu tomei a minha decisão. — Me coloquei de pé segurando as correntes, respirando fundo, me preparando para agir. — Eu não deixarei você destruir o meu vilarejo.


Soltei as correntes e enquanto elas caiam no chão, dei a ordem.


— Agora!!!


Quatro chicotes romperam o ar. Os soldados saíram das sombras e cercaram a fera, os chicotes colaram cada um em uma das patas do animal, o mantendo parado no lugar. Pude ver Jimin e Jin, cada um de posse de uma das armas, dando sinal para que o restante da tropa atacasse. Não eram muitos homens, acredito que vinte apenas. Pude ver as orelhas do lobo em alerta quando um grito de guerra foi proferido pelos soldados e dois deles avançaram em sua direção com machados de guerra prontos para darem fim ao nosso tormento, todavia com força e agilidade sobrenaturais, o lobo se moveu tão rápido que meus olhos quase não foram capaz de acompanhar. Os soldados que o prendiam com os cabos do chicote foram ao chão, e o grito dos soldados se transformou em gritos de dor. Os machados saltaram e os corpos foram ao chão. O lobo saltou sobre outro grupo de soldados ainda com o braço de um deles em sua boca. A carnificina começara. Ainda atordoados, os guardas vivos passaram a correr, eu estava paralisado, quando Taehyung surgiu em minha frente me fazendo acordar.


— Amor, olha para mim! — Ele segurava minhas bochechas com as duas mãos, tinha um rasgo minando sangue em sua testa. Ele estava ferido. — Temos que sair daqui, vem! Corre!


Meus pés responderam antes da minha mente e em tropeços passei a correr em direção a capela, do outro lado da praça com ele ao meu lado. Olhei rapidamente para trás e avistei Jimin e Jin recuando com mais três soldados. O lobo era refreado pelos demais soldados que sacrificaram suas vidas em favor da nossa.


Já podíamos ver as ruínas da capela, mais alguns passos e estaríamos a salvo, porém o lobo derrotara quem via pela frente, pulou para os telhados e em poucos saltos nos alcançou. Mais um salto e não teríamos para onde fugir ele estaria em nossa frente, porém a figura do Padre Min surgiu vindo ao nosso encontro, Jimin se exaltou e tentou impedi-lo, porém Jin o arrastou para que continuasse a correr.


— Yoongi! Não!


Tarde demais, o lobo saltou em sua frente enquanto alcançávamos os limites do solo sagrado. Com uma longa espada de prata empunhada, o padre avançou, tentou atingir a fera repetidas vezes, os gritos de raiva dele sempre que o lobo desviava parecia o divertir, até que com uma única patada, assistimos o corpo do padre voar alguns poucos metros de distância desacordado.


Em passadas elegantes para uma fera, o lobo parou à nossa frente, o poder do solo sagrado lhe impediu de avançar. O sangue de inocentes manchavam suas presas, podia sentir o cheiro da morte a partir dos seus rosnados.


“ Atravesse os portões antes do amanhecer, Jeon, ou um por um, todos morrerão.”


— Não! Já chega! — Eu precisava pôr um fim naquilo. — Eu irei com você!


— Eu não posso permitir! — Taehyung segurou em meus braços, me mantendo ao seu lado. Olhei para seus lindos olhos e lhe beijei, trazendo uma de suas mãos para minha cintura.


Ele passou os dedos por cima de minhas vestes e suspirou, me deixando livre para caminhar até o lobo. Minhas pernas tremiam, em meus ouvidos ressoavam as batidas frenéticas do meu coração, era o meu dever por um fim na maldição. Quando me coloquei ao seu lado, a fera inclinou o corpo para que eu montasse em suas costas, assim que subi, Taehyung correu em nossa direção, com seu machado no alto, desafiando a fera. O lobo o encarou, rosnando ferozmente, se colocando em posição de ataque. Era a minha chance.


— Desculpa, papai. — Tirei da cintura a adaga de prata abençoada pela Santa Sé, que o padre me dera e com pesar, fechei meus olhos e a cravei em suas costas. Ouvi seu uivo de dor, antes de cair de suas costas.


A grande fera se contorcia retornando lentamente a sua forma humana, a pele alva como a minha, os cabelos rebeldes, e os olhos tão negros quanto os meus.


— Como pôde fazer isso? — Tinha descoberto que ele era o lobo, a ligação que tínhamos, as pessoas que ele matou. Tudo se encaixava.


— Eu lamento por Sam. — Sua voz era compreensível a todos, mas ainda tinha resquícios do tom usado pelo lobo. — Depois de anos mantendo o controle, descobrir que ela não era minha filha me fez perder a cabeça.


— Então decidiu se vingar de todos. — Namjoon surgiu, recolhendo a espada que o Padre Min segurava antes de ser atingido. Ele também estava ferido, arrastava uma das pernas com dificuldade até parar em frente ao meu pai com a espada em direção a sua garganta. — Sinto muito Jeon, sua mãe… eu tentei impedi-lo.


Meu pai completara a sua vingança.


— Por tanto tempo tenho sido desrespeitado, me contentei com pouco, eu poderia ir embora, mas amava os meus filhos. — Papai iniciou seu discurso, como se aquelas palavras justificassem suas ações brutais. — Queria que vocês fossem comigo.


— Mas, p-precisava esperar a lua d-de sangue. — A voz do padre Min, soou fraca e suspirei aliviado por vê-lo apoiado nos braços de Jimin, vivo, apesar do rosto lavado em sangue, marcado pelas garras da fera.


— O meu legado seria entregue à minha filha mais velha. Forjei uma carta e pedi que me encontrasse ao pé das montanhas. Mas, tudo ficou claro quando ela não me compreendeu, sua mãe me enganou! — Seus olhos assumiram o tom escarlate como os do lobo, sua voz tornou-se grossa, sombria. — Qualquer filho meu com minha linhagem e sangue de lobo teria me entendido!


— Você se vingou da mamãe. — Meu corpo desabou de joelho na neve. A dor me consumindo outra vez.


— E do seu amante!


— Basta!


Assisti a lâmina de prata silenciá-lo. Por fim, Namjoon pôs um fim à maldição. Não existia mais um lobo a quem devêssemos sacrifícios. Ele honrou as nossas famílias, vingando a morte do seu pai, da minha mãe e da nossa irmã.


— Tae, me tira daqui... — Não conseguia respirar, meus pulmões não me obedeciam, estava enjoado e zonzo. O sol já estava nascendo e os aldeões começavam a sair de suas casas e esconderijos, não suportaria seus olhares sobre mim, seria demais para mim.


Ele me levantou e passamos a caminhar em direção a floresta, só me restava abrigar-me na casa da vovô. Seguimos a trilha, mas meu corpo trêmulo não se sustentava com firmeza, quando apoiei-me em um dos seus braços, ele encolheu o músculo e gemeu de dor, levantei sua camisa para ver seu machucado e então vimos, a marca arroxeada dos dentes do lobo em sua pele.


— Ele te mordeu… — Seus olhos se abriram em espanto. — Mas, como?


— Eu estava a caminho da praça quando ele me atacou… eu rolei no chão com ele e quando ele me deixou para trás e foi ao teu encontro eu não senti dor alguma, eu só precisava te salvar. — Ele falava em uma única lufada de ar. — Foi tudo tão rápido… Agora, quando a lua surgir.. eu serei...


Tudo que eu conhecia foi destruído pelas mentiras, de minha mãe, de meu pai, só me restara ele. Até mesmo quando eu duvidei dele, Taehyung foi verdadeiro.


— Sinto muito… — Meu peito não iria suportar aquilo. Taehyung estava perdido em seus pensamentos, seu olhar tornou-se opaco sem vida.


— Preciso partir. — Dessa vez, ele não me pediu para ir consigo. — Não estará seguro ao meu lado, não até eu aprender a protegê-lo do que eu… — Ele se negava a dizer, a admitir que podia se tornar uma fera.


Em meio a floresta, na trilha que sempre costumávamos nos encontrar, nos despedimos entre beijos, lágrimas e promessas.


— Eu te amo, e vou esperar por você. O tempo que for.


— Imaginei que diria isso.— Olhei uma última vez o seu sorriso que me enredava. — Eu te amo.


Aquele foi o inverno mais rigoroso que me recordo, segui a trilha sozinho para a casa da minha avó. Com o passar do tempo, Namjoon encontrou a sua felicidade, ele passou a servir na guarda, nos protegendo das trevas, ao lado do seu marido. O vilarejo voltou ao seu ritmo normal, apesar de ainda viverem com medo, não soube mais a respeito do Padre Min, além das lendas que surgiram ao seu respeito, de que sua presença ficou ainda mais temida com a cicatriz deixada pelo lobo. Vovó adoeceu meses depois, sua força também se foi com a morte tão triste de sua filha.


O lobo não voltou mais.


Eu não podia mais viver lá no vilarejo, acho que o sangue animal que corre em minha veias, sempre falou mais alto, sempre me senti mais vivo e livre nas sombras da floresta. Viver isolado no antigo casebre da vovó, oferece seus perigos, mas desses eu tenho menos medo a cada grande lua.






































9 мая 2021 г. 13:51:43 0 Отчет Добавить Подписаться
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