wovgin Miles

O que fazer quando seu cachorro fica caidinho por uma cachorrinha e você pelo dono dela? Isso era o que acontecia com o Taehyung. Ele tinha uma paixão secreta pelo o seu novo vizinho, que mal havia mudado-se e já trazia fofocas suculentas ao seu respeito. Como seu cachorro era apaixonado pela "cachorrinha" dele, era impossível não vê-lo com frequência. Então, sua única alternativa era aceitar, não somente os encontrinhos, mas também seu penhasco pelo Jeon Jeongguk — este que era repleto de tatuagens e presilhas em seu cabelo. Apenas teria de enfrentar sua madrasta, que não aceitava ele respirar o mesmo ar que o vizinho e faria o possível para afastá-los. Boa sorte, Taehyung!


Фанфик Группы / Singers 18+.

#romance #fanfic #bts #jungkook #taekook #taehyung #
1
462 ПРОСМОТРОВ
Завершено
reading time
AA Поделиться

Cabelos negros enrolados por uma pequena fita vermelha.

Assim que a última gota de café caiu sobre a caneca desliguei a cafeteira e peguei o objeto, aproximando-o dos meus lábios, para checar se estava na temperatura correta. Após pensar um pouco, decidi colocar três cubos de gelo e assim transformá-lo em um café-gelado. Ao virar-me, deparei-me com o Yeontan parado encarando o vidro. Outra vez.

Desde que Yeontan aprendeu a subir na janela, nunca cansou-se de deitar-se sobre ela e encarar o apartamento da frente. Nunca parei para pensar o que era que atraía tanto o canino. Preciso confessar que fico um pouco preocupado com isso, pois o apartamento que o Yeontan encarava, era de um vizinho estrangeiro, que tem uma fama de ser problemático. Bom, pelo o que a vizinhança comentava… Ou melhor, fofocava. O vizinho da frente havia se mudado há três semanas atrás, trazendo seu porte assustador e caixas altas de som. Nunca vi seu rosto, porém pelo o que fofocavam, era de uma pessoa que faria de tudo para amedrontar todos ao seu redor.

Levantei-me da poltrona, deixando a caneca na mesinha e indo em direção ao peludo para retirá-lo de lá e colocá-lo no chão. Encarei-o seriamente.

— Kim Yeontan, eu já disse que não pode bisbilhotar! — Reclamei com as mãos na cintura.

Meu coração derreteu ao ver o cachorrinho jogar a língua para fora e ficar apenas de duas patas. Adoravelmente.

— Não tem como ficar bravo com você. — Suspirei. Peguei o cachorro no colo e beijei seu nariz. Recebi lambidas em meu rosto.

Ainda com Yeontan em meu colo, decidi voltar a sentar-me na poltrona e retomar minha leitura e meu café, agora, enquanto acariciava meu cachorro.

Deslizei os dedos pelo livro, enquanto lia atentamente o conteúdo, ansioso para o final. O protagonista venceria? Roía as unhas, nervoso. O livro quase tapava o meu rosto. Senti um pouco de medo, ao chegar em uma parte tensa, do qual o protagonista entraria em uma floresta escura e assustadora. Isso faria-me ter pesadelos, sei disso. Porém, não deixarei de ler por causa desse capricho. Nem cheguei a perceber que o café já havia acabado.

Tudo estava em completo silêncio, a não ser o som do brinquedo que Yeontan mordia. Eu continuava lendo o meu livro calmamente, até bater três horas da tarde. A maldita três horas da tarde. Poderia começar a escutar o barulho saindo do apartamento da frente. Respirei fundo e fechei o livro. Em poucos minutos de diferença, apenas podia escutar as músicas altas — que apenas focava em Ariana Grande. Às músicas eram boas, tinha que confessar, porém, estavam em um volume um pouco estrondoso. Pelo menos, não chegava a incomodar meu cachorro, isso é o que mais me importa. Senão, esse carinha teria problemas sérios comigo. Certeza que ele não sabe o que é ter um filho canino para cuidar, nem mesmo deve gostar. Deve ser um cara sem coração e galinha, sim, que pega várias pessoas e larga depois. Eu tenho certeza.

Consegui escutar o latido de meu cachorro que encarava atentamente a porta.

Olhei através do olho mágico e vi uma de minhas vizinhas tocando inúmeras vezes a campainha, parecia estar aborrecida. Abri a porta.

— Oi, senhorita Choi, o que aconte-

— Eu não aguento mais esse garoto. Já é a vigésima vez no mês, vigésima! — A mais velha berrou na última frase, tão alto que assustou o cachorro. — Esse energúmeno nem mora tanto tempo aqui e já está deixando todos loucos!

— Se acalma, senhorita Choi! Espera, você contou? — Ri, estava tentando melhorar o clima. — Desculpe!

— Ele é mal educado! — Entrou no apartamento. — Espera, o que você fez com seu cabelo? — Apontou para minha cabeça.

— Pintei. — Sorri amarelo.

— Tira! Esse azul não ficou legal… Você parece um… Esquece, só tira.

— Depois eu faço isso. — Disse, com a voz aguçada. — Continue, quem é mal educado?

— O vizinho americano! Eu fui educadamente pedir para que ele abaixasse o som e ele fechou a porta na minha cara! E tinha um cheiro insuportável de fumaça vindo do apartamento dele.

Ela sentou-se na poltrona, onde estava o livro fechado. Senti meu coração quebrar-se em pedaços, bem finos. Tentei alertá-la com gestos, todavia ela sequer chegou a olhar em meus olhos.

— F-fumaça? — A voz falhou um pouco.

— Sim, fumaça! Além de mal educado, é fumante. — A senhorita Choi pôs a mão no peito, respirando fundo. — Nunca pensei que iria passar por isso.

— Talvez você esteja exagerando.

— Não estou não. Eu tive a má sorte de vê-lo pessoalmente e vi suas tatuagens medonhas! Aquele garoto é traficante! Por favor, Taehyung, meu querido enteado, não se aproxime desse homem.

Comecei a rir baixo, peguei uma garrafa de água da geladeira e despeje-a dentro do copo de vidro. Entreguei-o para ela. As acusações estavam aumentando de uma forma absurda.

— Esse garoto trará problemas para esse condomínio, pode ter certeza. Tenho até medo. — Completou. Após beber, se benzeu.

— Você está me assustando, senhorita Choi.

— Estou apenas avisando, todos já estão atentos em relação a ele.

Enquanto ela falava, virei meu rosto e comecei a fitar a janela, bem no exato momento em que o vizinho fechava a cortina do apartamento dele. Pelos poucos segundos que eu consegui lhe ver percebi que era atraente, não tinha tatuagens medonhas, muito menos um trago entre os dedos. Não pude deixar de notar que as mãos eram estranhamente bonitas. Fiquei confuso e voltei minha atenção à mulher em minha frente, esta que continuava falando. Mas agora, da filha da vizinha que havia cortado o cabelo.

— Eu não acho que esse seja um corte de mulher, entende? — Ela continuava falando sem ao menos piscar os olhos.

Eu estava totalmente desinteressado daquele assunto, apenas queria voltar a ler em paz. Apoiei o queixo no punho e comecei a pensar sobre o que faria para o jantar. Os meus pensamentos fugiram um pouco e voltaram a lembrar daquelas mãos, que tinham algumas veias saltadas e uma tatuagem com um formato de um beijo. Por que alguém tatuaria isso? É totalmente brega!

— E o que você acha disso, Taehyung?

Disso o que?

— Que você está certa. — Passei a mão pelo cabelo. Sorri amarelo.

— Você nunca me decepciona, por isso que gosto de conversar com você. — A senhorita Choi levantou-se da poltrona, aproximou-se de mim e bagunçou meu cabelo, sorridente. — Só acho que deve estar cansado de apenas conversar com essa velha aqui.

Dessa vez ela estava verdadeiramente certa.

— Onde está querendo chegar?

— Eu suponho que esteja na hora de você encontrar uma companheira. — Sugeriu, um pouco decidida. Voltou a sentar-se na poltrona.

Comecei a tossir, engasguei-me com a água que bebia.

— Outra vez você com esse assunto… Eu já disse que não procuro por uma companheira, gosto de ficar sozinho. Sozinho entre aspas, é claro, eu tenho o Tannie. — Terminei de falar, decidido. Rolei os dedos na boca do copo que segurava.

A senhora revirou os olhos, nada discreta. Abriu um sorriso forçado.

— Eu falo de uma companhia humana. Dúvido muito que queira morrer sozinho, sem ninguém. — Ela insistiu no assunto.

— Não precisa se preocupar, senhorita Choi, estou ótimo assim.

— Está bem, em alguns dias trarei uma filha de uma amiga aqui, certeza que mudará seus pensamentos. Estou indo embora, até mais.

Não prestei atenção na maioria das frases, apenas escutei a última, a mais importante. Até mais.

— Até.

Peguei o copo de suas mãos e a acompanhei até a porta. Ao fechá-la, suspirei aliviado por estar sozinho com meu cachorro novamente. Teria finalmente paz! Eu pensei. Esqueci que o vizinho ainda continuava com o som alto, todavia estava ocupado demais tentando desamassar a capa de meu livro. Formei um bico chateado.

— Por que eu deixei ele logo aqui? — Resmunguei, manhoso.

Senti patas pequenas pisarem em meus pés, olhei para baixo, vendo Yeontan com uma bola segurada pela boca. Sorri.

— Você quer brincar? — O rabo do cachorro começou a balançar.

Eu peguei a bola da boca dele e o atraí para outro canto da sala, lancei o objeto no corredor. Bati as mãos nas pernas, para que o cachorro voltasse novamente. Várias vezes.

O meu apartamento não é tão espaçoso assim, é quase impossível brincar com meu cachorro, então decidi que iria para um parque que ficava perto do condomínio e assim passar tempo com o canino, pela manhã. Embora eu não goste de acordar cedo, porque durmo pouco, faço qualquer coisa pelo Tannie.

Parei de brincar com meu cachorro e percebi que o dia estava escurecendo. Andei com um pouco de dificuldade — por causa dos brinquedos do Yeontan espalhados pelo chão —, fechei a cortina. Por sorte, meu cachorro não percebeu o ato, senão iria me impedir de fazer.

Estava na hora de arrumar-me para trabalhar. Com a ponta dos dedos, disquei o número de meu amigo, que sempre disponibiliza-se para cuidar de meu cachorro enquanto trabalho. Ao avisar, segui para o quarto e assim comecei a me despir.

Meu emprego não era tão longe de meu condomínio, trabalhava como atendente de farmácia. O importante era que ganhava bem e que tinha clientes bem… Chamativos, às vezes.

Dei um último afago em meu cachorro e peguei-o no colo, coloquei alguns brinquedos dentro da bolsa e por último a coleira. Tinha que pensar em tudo! Desliguei as luzes e tranquei as portas. Segui até o apartamento 26, o do Jimin, meu único melhor amigo. Filho da minha madrasta. Foi a melhor coisa que o relacionamento de nossos pais nos trouxe.

— Yeontannie! — Disse o ruivo, animado. Pegou o cachorrinho de meus braços.

— Oi, Jimin-ah! Também estou aqui. — Jimin revirou os olhos.

— Oi, Taehyung-ah! — Jimin envolveu-me com seus braços. — Seu cachorro está em boas mãos.

— Eu tenho certeza! — Dei um sorriso simples. — Jimin, você acha que ficou ruim? — Apontei para o meu cabelo.

— Não, claro que não! Ficou perfeito em você. Por quê?

— Nada em específico. Obrigado, Ji.

— Vá logo, senão sei que irá se atrasar. — Jimin me empurrou, rindo.

— Não sinta minha falta, Tannie, eu volto logo, está bem? — Alisei os pelos do cachorro, com um bico formado nos lábios. Não suporto despedidas.

— Sem choro, vai logo, Taehyung.

Eu acenei pela última vez, esperei que Jimin fechasse a porta e comecei a seguir para o elevador. Estacionamento me esperava.


[...]

Senti a brisa leve atravessar meu cabelo, respirei o ar puro e movi os músculos do rosto, revigorado. Senti a coleira ser puxada, fazendo-me acordar para o mundo real, o Yeontan não aguentava mais ficar parado no mesmo lugar. Comecei a caminhar novamente, sendo guiado pelo Yeontan, que estava animado de uma forma nítida para todos.

— Devagar, Tannie! — Balbuciei rindo. — Seu pai está ficando velho. — Coloquei as mãos nas costas.

O cachorro ignorou-me completamente e continuou a correr, animado. Mesmo que ele seja minúsculo, corria bastante e eu tentava acompanhar o ritmo dele.

O clima estava frio, um tanto agradável, senti arrepios em todo corpo ao vento passar em minhas pernas nuas. Não viria ao parque de calça comprida.

— Cansei! — Parei de correr, descansei minhas mãos em meus joelhos, tentando recuperar o fôlego.

Um pingo de suor caiu de meu cabelo, passei a mão na testa. Suspirei. Decidi procurar uma cadeira para me sentar e descansar um pouco. Ao encontrá-la, senti um leve alívio por não estar longe de mim.

Ao perceber que Yeontan andava de um lado para o outro, entediado, optei por deixá-lo sem a coleira, já que ele não iria afastar-se tanto. O cachorro se animou. Enrolei a coleira e deixei-a no colo.

Peguei a garrafa de água e comecei a beber, enquanto mexia em meu celular, entretido com o que via. As horas foram passando e notei que já estava no momento de voltar para casa. Olhei para baixo e senti falta do Yeontan. Preocupado, comecei a procurá-lo por todos os cantos perto de mim; atrás, embaixo e aos lados da cadeira. Não estava em nenhum deles. Elevei os olhos, encontrando-o perto de um homem moreno, que acariciava-lhe. Aliviei-me.

Comecei a correr em direção a eles.

— Tannie, você quase me matou de susto! — Peguei-lhe no colo, abraçando-o. — Não faça mais isso! Nunca mais. — Encarei-o no fundo de seus olhos, com as sobrancelhas arqueadas.

— Relaxa, ele só veio cumprimentar minha bebê. — O homem, cujo pôde identificar-se como vizinho problemático, apontou para a cachorrinha de grande porte ao seu lado. Extremamente adorável, branca como a neve e uma agitação enorme.

— Você tem uma cachorra? — Perguntei sarcástico, um pouco incrédulo.

— Sim… Por que eu não teria?

Eu fiquei calado, engolindo seco e voltando minha atenção ao meu cachorro. Não pude deixar de notar que o Tannie não queria ficar em meu colo. Logo, deixei-o no chão, vendo-o cheirar a cachorrinha. Ele ficou tão pequeno ao lado dela, que fez meu coração encher-se de amores.

— Como é o nome?

— Taehyung.

O vizinho inclinou a cabeça para o lado.

— Não, não, o do cachorro.

Que papelão!

Comecei a rir, nervoso. Cocei a cabeça.

— Ah, é Yeontan.

— Que fofo. — O vizinho agachou-se para acariciá-lo, com um sorriso gentil nos lábios. — Acho que me lembro de você. — Levantou-se, começando a estalar os dedos, com um ar de pensamento.

— Eu sou seu vizinho da frente. — Refresquei sua memória. — Então, qual é o nome dela?

— Berry.

O vizinho pôs-se de pé novamente e guardou seus dedos no bolso.

— E do dono?

O vizinho sorriu ladino.

— Jeongguk.

E agora?

— É bonito. — Disse, encarando seu rosto. Jeongguk cerrou os olhos, confuso. — A-a cachorra, é bonita, qual a raça?

— Eu concordo com você, seu cachorro também é adorável. A raça é Labrador Retriever.

— Chique.

Chique?

— Valeu! — Disse em um tom de dúvida. — Eu tenho que ir! Adeus, Taehyung, até a próxima! E… Cabelo maneiro. — Jeongguk comentou por fim, acenou, segurando firme a coleira e saindo correndo para a direção contrária.

Senti minhas maçãs do rosto corar, suspirei. Aquele não era o "Vizinho problemático, que fumava e tinha tatuagens medonhas"? Cujo não tinha coração, nem mesmo amor por animais? Perguntei-me, tive um pouco de arrependimento por ter pensado nessas coisas sobre ele… Porém ainda é cedo para tomar certas conclusões.

Balancei a cabeça para afastar os pensamentos e olhei para baixo, percebi o desânimo do Yeontan. O rabo estava parado e ele não parava de olhar para frente.

Peguei-o no colo, chequei-o para ver se tinha algum machucado, porém não vi nada. O problema não era externo, cogitei preocupado. Voltei ao banco para pegar a coleira e segui em direção ao apartamento. Abri a porta e entrei. O Yeontan não tardou em correr em direção à janela, tropeçou durante o pequeno trajeto, mas não importou-se e continuou andando. Sentou-se na beirada e deslizou a pata no vidro.

Me aproximei aos poucos dele, para ver quem ele tanto encarava. Achando a mesma cachorrinha que encontramos mais cedo, na mesma posição que ele. Yeontan estava namorando? À distância? Com a cachorra enorme do vizinho? Não era possível! Eu pensei. Continuei encarando a cachorra, incrédulo. Até Jeongguk aparecer na janela, igualmente, pareceu procurar por quem sua cachorra tanto encarava. Tentei esconder-me, mas não consegui a tempo. Jeongguk olhava para sua cachorrinha com as sobrancelhas arqueadas, parecia também estar incrédulo. Ao me ver, acenou. Envergonhado, saí correndo para o banheiro, discreto, esperando que Jeongguk saísse da janela.

Fechei fortemente os olhos, enquanto encostava-me na porta. Fiquei preso dentro do banheiro por meia hora. Aproveitei e tomei banho, saindo do banheiro apenas vestindo roupão e meias, olhando em direção à janela, para ver se Jeongguk continuava lá. Para minha sorte, ele já havia ido embora, então pude relaxar. Ele ainda me traz arrepios.

— Yeontan, você já viu o tamanho dela? — Perguntei, arregalando os olhos. — Me diz que vocês são amiguinhos, friends, brothers.

O Yeontan literalmente me encarou, latiu e foi embora, deixando-me sozinho na sala. Eu não consigo acreditar, meu filhinho tá namorando, primeiro que eu.

[🐾]

Andei de um lado para o outro, ansioso, observei o enfermeiro analisar meu cachorro.

— Não tem nada de errado com ele. — Arregalei os olhos.

— Ainda bem. — Suspirei. — Mas por que ele tem agido tão estranho assim?

— Parece que é mais emocional, como por exemplo: Ele deve estar sentindo saudades. Mas ele tem ficado assim desde quando?

— Começo da semana.

— E aconteceu algo de ruim nesse dia?

Levei meus dedos ao queixo, pensativo. Lembrei-me que o Yeontan havia parado de encarar o apartamento vizinho, por que Jeongguk parecia ter viajado.

— Ah, me lembrei. — Estalei os dedos. — Ele tinha uma namoradinha, ou melhor, namoradona. A cadela é enorme!

O enfermeiro gargalhou.

— Agora entendi tudo. — O enfermeiro acariciou o cachorrinho. — Eles não se encontram mais?

— Acho que sim. É uma cachorrinha do meu vizinho, parece que ele viajou há uns tempos.

— Eu suponho que ele ficará alegre se vê-la outra vez. Esse é o medicamento.

Me senti aliviado, pelo menos ele não estava doente. Cumprimentei o enfermeiro e peguei o Yeontan no colo, saindo da sala.

Dentro do carro, pensei sobre o que iria fazer. Seria apenas uma visita.

— O que eu não faço por você, hein? — Disse. Olhei pelo retrovisor, vi o cachorro adormecido. Fofo.

Respirei fundo e voltei a dirigir, seria fácil.

O cachorrinho ao meu lado, pulava animadamente, esperando que batesse na porta. É uma coisa simples. Respirei fundo e preparei-me para bater. Bati três vezes seguidas e na última, escutei algo:

"Espera aí, eu não estou vestindo roupas!"

Gelei.

Puxei o ar para afastar o nervosismo, e alguns pensamentos ruins também.

— Cheguei! — Jeongguk apareceu, secando os braços com uma toalhinha pequena. — Te, não 'pera, Tae, Ung, tem mais uma coisa é… Co, Ri... — Começou a estalar os dedos.

— Taehyung.

— O que faz aqui, Taehyung? — Jeongguk perguntou, encostado na borda da porta.

— Estou aqui por causa dele. — Apontei para o chão, onde já não tinha mais ninguém lá. — Tannie? Meu Deus, Tannie? — Comecei a procurá-lo outra vez. Encontrando-o dentro do apartamento, brincando com a Berry. Não quis me esperar.

— Entendi. — Jeongguk gargalhou. — Entra. — Afastou-se da porta.

Eu estava na defensiva, mal conseguia olhar nos olhos do Jeongguk. Impressionei-me com o apartamento — era incrível —, tinha várias tintas e pinturas espalhadas pelas paredes, flores, cartazes de cantores e bandas dos anos 90 e brinquedos jogados no chão. Não tinha fumaça, nem cigarros, muito menos maconha! Acho que alguém se enganou.

— Quer beber alguma coisa? — Jeongguk apareceu novamente, pegou o meu casaco e o deixou em cima de uma cadeira.

— Não, não precisa.

Eu claramente não estava com medo dele manipular a bebida.

— Eu não vou envenenar você, relaxa. — Brincou. — Vou pegar refrigerante, espera. Pode se sentir à vontade.

Abri um sorriso forçado, até ele ficar um pouco longe de mim, desfiz o sorriso. Caminhei lentamente para o sofá, sentei-me na beirada, com a postura ereta. Bati os dedos no joelho. Em alguns minutos de diferença, Jeongguk voltou com duas garrafas em mãos, entregou uma para mim, sentando-se ao meu lado.

— Não precisava. — Disse, sorri sem graça.

— Eles ficaram fofos juntos. — Comentou Jeongguk, observando os cachorros, que brincavam alegremente, sorrindo.

— Sim… — Aproximei a garrafa das minhas narinas, acalmei-me ao não sentir nenhum cheiro ameaçador. — O Yeontan parece uma pelúcia perto dela. — Ele riu, concordando com a cabeça.

— Mas… Quais são as intenções de seu cachorro com minha filha? — Disse, sério, com a voz um pouco mais grossa.

Engoli seco, sentindo um arrepio na nuca. Endireitei a postura e virei-me para frente igualmente, na intenção de enfrentá-lo.

— Eu-eu não sei, pergunto o mesmo a você! — Engrossei um pouco a voz.

O gaguejo não fazia parte do plano.

Jeongguk começou a rir, deu um gole na bebida e lambeu os lábios.

— Estava brincando. — Encostou-se no sofá e voltou sua atenção aos cachorros, que agora, dormiam agarrados. Elevou as sobrancelhas. — Olha aquilo. — Apontou. — Eles são rápidos.

Segui seus dedos, vendo os cachorros adormecidos, adoravelmente. Apertei o peito.

— Vou tirar uma foto. — Peguei rapidamente o celular do bolso.

Jeongguk fez o mesmo, sorrindo.

Guardei o celular, dei o primeiro gole na bebida, fiz uma careta ao sentir o gás descer em minha garganta. Notei, ao olhá-lo outra vez, seu sorrisinho de lado, parecia pensar em algo. Queria poder ler seus pensamentos.

— Eu sei que você não me suporta — Comecei a tossir.

— Não é que eu não te supor-

— Espera, eu ainda não terminei. — Me cortou. — Na verdade, tenho certeza que a maioria dos moradores desse condomínio me odeiam. Principalmente uma 'véia que vem quase sempre aqui para me atazanar.

— Se for quem eu tô pensando, é a minha madrasta. Ela acha que você é traficante e já espalhou por todo o condomínio… — Hesitei, escapuliu da minha boca, sinto que não era para ter falado isso.

Jeongguk gargalhou alto.

— Ela deveria ser mais criativa, inventar algo novo, sabe?

— Mas, assim, desculpa fazer essa pergunta invasiva, você é?

Jeongguk guardou as pernas debaixo das coxas e virou-se para frente, para focar em meu rosto. Apoiou sua cabeça na mão, enquanto segurava a garrafa na outra. Encheu as bochechas de ar e soprou para que fios de seu cabelo saíssem de seus olhos. Seu semblante era sério e um pouco assustador.

— Não, não sou. Quer dizer, existe traficante de artes?

— Não… Sei? — Franzi a sobrancelha.

— Eu sou pintor, como pode perceber e professor de artes em um colégio aqui perto.

Voltei a olhar ao redor outra vez, ainda mais maravilhado.

— São incríveis. — Os meus olhos brilhavam, atraídos pelas artes que via.

— Eu tento fazer que sejam assim.

— Não seja modesto, são extraordinárias.

Jeongguk começou a ficar avermelhado, desviou o olhar do rosto do meu; deu mais um gole na bebida. Voltou a me encarar.

— Você também é pintor? — Perguntou, com uma sobrancelha levantada.

— Não, não, eu somente sei fazer bonecos de palitos. — Disse, entre risos envergonhados. — Meu negócio é fotografia.

— Eu posso te dar umas aulas grátis, se quiser. Em troca… Você tiraria umas fotos minhas, o que acha?

— S-seria ótimo! — Empolguei-me. Limpei a garganta. — Seria legal.

— Então isso é um sim?

— É um talvez. Eu não tenho tido tempo nos últimos dias, acho que perdi a técnica.

Chequei o meu relógio de pulso, notei que já tardava, levantei-me em um pulo.

— Eu tenho que ir.

Jeongguk levantou-se também.

— Já? Mas eles ainda não acordaram. — Referiu-se aos pombinhos. — Quando o Tannie acordar, eu o levo até seu apartamento.

— Não sei… Eu… Você sabe onde é o meu apartamento?

—Eu posso tentar, você achou o meu. — Tive de concordar, não foi tão difícil assim. Mas continuei indeciso sobre isso, mal o conheço. — Você vai mesmo separá-los?

Golpe baixo, Jeongguk, golpe baixo.

— Está bem, você me convenceu.

Jeongguk piscou, pegou a garrafa da minha mão e colocou-a na bancada.

— Eu te acompanho até à porta. — Jeongguk passou a língua entre os dentes. Eu me mantive parado. — Taehyung? Está aí? — Deu um peteleco em meu nariz.

— Por que você fez isso? — Perguntei com a voz irritada, olhando fixamente para o seu rosto.

— Seu nariz é engraçado. — Começou a rir, segurou em sua barriga, jogando a cabeça para trás.

— Não vejo graça nisso. — Cruzei os braços. — O que meu nariz tem de engraçado?

— Acho que "engraçado" não é a palavra correta… Talvez…Fofo.

— Meu nariz não é fofo!

— Ei, ei, relaxa, Smurf. Não tem nenhum problema nisso, tá? O único é que eu não consigo te levar a sério. — Voltou a gargalhar.

— V-você tem que me respeitar! Sou mais velho que você. E não me chame de Smurf, não temos intimidade e esse apelido é sem graça.

Jeongguk correu os olhos por todo o apartamento com um ar zombeteiro.

— Acha que ainda vivemos nos anos 20? — Debochou, elevando as sobrancelhas. — E como eu posso ter certeza que você é mais velho? Você tem 'mó cara de novinho… Qual a sua idade?

— Vinte e três…

— Eu tenho vinte e dois, Smurf, qual a diferença? Isso mesmo, nenhuma! Deixa de ser chato.

— Tem sim, palhaço! Não sei como as coisas funcionam no país em que você morava antes, mas aqui as coisas são diferentes! Eu já disse para você parar com essa coisa de Smurf, não temos intimidade e eu tenho nome.

— Ah, foda-se, eu não irei chamar você de senhor só porque é um ano mais velho. — Cruzou os braços, de uma forma birrenta. — E, sim, você está certo, não temos intimidade. Mas é só um apelido ingênuo, te chamei assim porque seu cabelo é azul. E você falando de intimidade? Adivinha quem deu em cima de mim quando nos conhecemos?

— Eu-eu não dei em cima de você! Nu-nunca faria isso, porque sou héteroe não gosto de homens, assim como não gosto de você.

— Ei, ei, se acalma, não falei nada demais, Smurf.

Que garoto insuportável!

— Que seja, faça como quiser, eu vou embora. — Peguei meu casaco e saí do apartamento, com o sangue fervendo e o rosto avermelhado.

Me lembrei que meu cachorro continuava lá e voltei.

— Tannie vai embora também. — Peguei meu cachorro ainda adormecido no colo. — Passar bem. — Comecei a andar para fora do apartamento novamente.

— Espera. — Jeongguk segurou meu braço. — Foi mal, está bem? Eu não consigo entender essas coisas, já que não nasci aqui, como você mesmo disse.

Encarei-o sério, por breves segundos, relaxei os músculos do rosto.

— Você não precisa sair assim… — Voltou a falar. — Deixa o Tannie dormir um pouco.

— Certo. — Andei até uma caminha improvisada, onde estava a Berry, deitei delicadamente o Tannie e suspirei.

— Ele tem um sono pesado, né? — Jeongguk apareceu de repente ao meu lado, assustei-me. — Ei, está devendo? — Começou a rir.

— Percebi que você é muito engraçadinho, Jeongguk. — Murmurei.

— É uma das minhas inúmeras qualidades.

— Se você acha… Até mais. — Acenei. — Se cuida, amorzinho! — Lancei um beijo para o Yeontan.

— Obrigado! — Disse ele, convencido.

Levantei minhas sobrancelhas.

— Eu me referia ao Yeontan.

— Ah!

Comecei a rir.

— Se cuida também! — Dei um peteleco em seu braço e fui definitivamente para fora do apartamento.

[🐾]

— Já é a sétima vez na semana que ele dorme em sua casa — Disse. Peguei o Yeontan no colo e beijei seu nariz. —, ele vai acabar se acostumando.

— A culpa não é minha. — Jeongguk levantou os ombros. — E… Smu…. Taehyung-ssi.

— Sim?

— Você está livre agora?

— Acho que sim, pode entrar. — Coloquei o Yeontan no chão e fechei a porta.

Voltei a olhá-lo, notando que uma parte pequena de cabelo estava prendido por pequenos prendedores coloridos, de uma forma adorável. Sem perceber, acabei sorrindo.

— O que foi? — Eu apontei para o seu cabelo. — Ah, é só… É… Esquece. — Desamarrou o cabelo. Parecia estar tão envergonhado com aquilo, que jogou os prendedores longe, como se nunca tivesse os visto na vida. Todavia, pude perceber o arrependimento em seu rosto.

Jeongguk guardou seu casaco no porta-casacos e começou a brincar com o canino. Enquanto eu pegava alguns brinquedos espalhados no chão. Tentando esquecer dos prendedores em seu cabelo.

— Estava pensando em assistir Guerra Civil, o que acha? — Jeongguk sugeriu, aproximou-se de mim e começou a catar os brinquedos igualmente.

— Boa ideia, eu faço pipoca. — Levantei a mão. Abri um sorriso.

— Assim poderemos discutir sobre o seu lado…

— Jeongguk-ssi, eu não irei mudar de ideia, eu sempre estarei ao lado do Capitão América.

Blá, blá, blá, Capitão América.

Eu revirei os olhos, segurando-me para não rir alto. Eu não consigo acreditar que achei tanta graça dessa imitação que ele fez.

Jeongguk sorriu e entregou alguns brinquedos para mim. Acabei por perceber que ele não tinha mais a tatuagem de beijo na mão.

— Mas… — Joguei os brinquedos na caixa e segurei sua mão direita. — Cadê? — Virei-a para todos os lados, não achando tatuagem alguma.

— Cadê o que? — Jeongguk riu soprado.

— A-a tatuagem. — Peguei a outra mão, fiz os mesmos movimentos e não encontrei novamente nenhuma tatuagem.

— Eu não tenho nenhuma tatuagem na mão.

— Mas eu vi uma tatuagem de beijo há alguns dias atrás!

— Deve ter sido tinta ou algo assim. Eu não tenho uma tatuagem de beijo, acho brega…

Concordo com seu pensamento, também achava brega, mas não nele… Eu não havia me conformado ainda, voltei a procurar pela bendita tatuagem, tendo o mesmo resultado.

— Só se… — Jeongguk cerrou os olhos. — Você está inventando desculpas para ficar de mãos dadas comigo. — Abriu um sorriso convencido.

Franzi as sobrancelhas.

— Isso não é verdade.

— Então por que não soltou elas ainda? — Olhei para baixo e percebi que continuava segurando suas mãos, soltei-as imediatamente. — Não precisa ter vergonha, eu não me incomodo.

Ele segurou minha mão carinhosamente, alisou-a. Comecei a suar frio. Engoli em seco, alternando os olhares entre nossas mãos entrelaçadas e seu rosto, corando terrivelmente.

— Co-como assim não se incomoda?

— Eu gostei de segurar sua mão, ela é macia.

Pronto, agora eu estou desconfigurado, piscando os olhos várias vezes, arregalando-os em seguida. A barriga deu uma revirada um tanto estranha. Eu estava com gases?

— A-a pipoca não vai ser feita sozinha, certo?

Soltei as nossas mãos e fui para a cozinha, nervoso. Peguei o pacote em um dos armários, coloquei-o dentro do microondas e fiquei encostado na bancada. Então, escutei alguém apertar a campainha, aproximei-me da porta para saber quem era.

— Merda, merda, merda!

O que a minha madrasta está fazendo aqui?

— Quem é? — Jeongguk aproximou-se.

Ela não pode vê-lo!

Peguei pelo seu braço e levei-o até meu quarto.

— O que tá rolan- — Tapei a sua boca com minha mão. Ele revirou os olhos.

— Espera aqui, está bem? Por favor. Eu tenho uma… Uma surpresa, então não saia por nada!

Ele apontou para minha mão, que continuava tapando sua boca. Tirei, olhei para o lado, disfarçando pensar em algo.

— Eu gosto de surpresas! — Endireitou-se na cama e fechou os olhos. — Mas não demore muito, tá?

Entretanto, aproveitei o tempo livre e saí do quarto, fechei a porta. Respirei fundo.

— Oi, senhorita Choi!

— Taehyung, me diga que é mentira!

— É mentira o quê?

— Está circulando boatos que… Bom, você estava na casa daquele... — Começou a sussurrar. — Daquele vizinho maconheiro, problemático...

— Não precisa sussurrar, senhorita Choi, estamos sozinhos.

— Você não respondeu, isso é verdade?

— Não, não é, eu nunca iria lá. Ele me traz arrepios.

A senhorita Choi suspirou aliviada, depositou sua mão em seu peito.

— Que bom, filho, ele não é uma pessoa confiável.

Forcei um sorriso de lado.

— Sim, mas ele não é maconheiro. E se fosse… Não é da nossa conta.

— Como você pode ter tanta certeza?

Engoli em seco.

— Intuição!

— Meu filho! Eu vi com meus próprios olhos! A fumaça quase tapou meus ouvidos, eu cheguei a passar mal.

— Mas…

— Sem mas! É a realidade. Temos que fazer algo.

— Depois pensamos nisso, está bem? Estou ocupado agora.

— Está bem. — Ela acenou para mim e para o Yeontan, que rosnou em resposta. Assustou-se e saiu.

Virei-me para trás e deparei-me com Jeongguk sério, carregando o seu casaco. Espero que ele não tenha escutado muita coisa. Eu espero.

— O que foi? Não íamos assistir? A pipoca está quase pronta.

— Procure outra pessoa. — Jeongguk disse friamente, começou a andar até a porta, fazendo questão de esbarrar propositalmente em mim. — Uma mais confiável.

— Espera, Jeongguk! — Segurei em seu braço. — Por que você está agindo assim?

— Eu não fumo, tá legal? E se eu fumasse, seria problema meu! Quer dizer, eu só fumei uma vez para testar… Mas não importa.

— Jeongguk-ssi...

— E aquele dia que aquela 'véia foi em meu apartamento, tinha fumaça pois, por conta dela, acabei esquecendo meu almoço e ele queimou. Foi apenas isso! E quando voltei, ela já não estava mais lá.

Comecei a entender tudo. Abaixei os ombros. Eu sou um grande imbecil.

— Me desculpa, eu não quis ofender você. Vamos conversar com calma, por favor! — Meus olhos começaram a ficar marejados, minha voz um pouco trêmula e o pulso acelerado. Não queria perdê-lo. Não desse jeito.

— Eu preciso ficar sozinho. Pensei que pelo menos éramos amigos. — Retirou minha mão de seu braço.

— Eu sou seu amigo, Jeongguk-ssi, vamos conversar! — Disse entre alguns baixos soluços.

— Se você fosse meu amigo não teria vergonha de mim e muito menos me magoaria desse jeito. — Senti como se meu coração fosse despedaçado, igual a vez em que minha madrasta sentou-se em meu livro favorito, só que dessa vez foi pior.

— Eu não tenho vergonha de você! Só por favor, me escute!

— Eu não quero escutar nada. Tchau, vizinho.

Eu não consegui fazer nada para impedi-lo, apenas o vi sair do apartamento com o rosto chateado. Baguncei meus cabelos, passando a mão pelo rosto em seguida. Para a minha sorte, escutei o microondas apitar e corri para tirar a comida de lá, antes que estragasse. Agora teria que comer sozinho. Podia até sentir o julgamento vindo do cachorro. Senti uma lágrima descer pela minha bochecha e cair na pipoca. Não consegui acreditar que estraguei tudo, outra vez.

Por que eu não tranquei a porta?

[🐾]

— Cara, você foi muito babaca — Jimin murmurou —, nem tem como eu te defender dessa vez.

— O que eu iria fazer, Jimin? Dizer que o vizinho problemático de quem ela tanto fala estava no meu quarto?

Ele suspirou.

— Minha mãe é uma chata mesmo, né? Eu só queria que ela te deixasse em paz.

Tudo isso porque eu descobri que meu pai traia, ou ainda trai, ela.

— Eu ainda não entendi o porquê que ela surtou daquele jeito. — Jimin fechou os punhos fortemente. Engoli em seco, amedrontado.

— Mas vamos mudar de assunto. Eu não quero ficar assim com o Jeongguk.

— Você já foi na casa dele? — Assenti. — E o que aconteceu?

— Ele disse que não estava… — Jimin arqueou as sobrancelhas. — Sim, ele mesmo disse.

Jimin começou a rir, tanto que algumas lágrimas caíram de seus olhos.

— Eu gosto muito dele, sério! — Disse entre risos. — Um dia vou chamá-lo para tomar, sei lá, um chá. Certeza que passarei a tarde toda rindo.

— Jimin, você vai me ajudar ou não? — Resmunguei.

— Bom, amigo… Queria deixar claro que estou apoiando ele, mas irei te ajudar, sim.

— Como?

— Primeiro… Por que você não assume logo que gosta dele? — Eu comecei a tossir, fitando-o com seriedade.

— Porque eu sou hé-te-ro.

Jimin riu em um tom zombeteiro.

— Está bem! E eu sou um pássaro.

— Você não é um pássaro!

— E você não é hétero!

Revirei os olhos. Boa jogada, Jimin.

— Jimin-ah, é sério, eu nunca senti atração por homens. Na realidade... Nem tanto por mulheres também, acho-as normais. Porém continuo sendo hétero.

— Eu entendo, Taehyung, somente não quero que tome a decisão errada, tá? E se iluda com algo que colocam em sua cabeça.

Decisão errada. Eu tenho pensado muito nisso nos últimos dias, pois só tenho feito isso — escolhas erradas. Desde o dia que o Jeongguk foi embora magoado do meu apartamento, enchi-o de mensagens pedindo desculpas, porém descobri que isso fazia ele distrair-se no trabalho, por minha culpa.

— Décimo: não desista! — Voltei meu olhar ao Jimin, ele continuava falando, mesmo que eu não estivesse escutando nada. Ele estava tão animado, que sinto vergonha em pedi-lo para repetir. — Se você seguir esses pequenos passos, certeza que ele te perdoará. Senão, sinto muito. — Tocou em meu ombro, dei uma meia risada, pensando em como iria seguir esses passos, se eu nem escutei-os.

— Obrigado, Jimin.

Foi a última coisa que eu disse depois dessa conversa; Jimin gosta de conversar, fala demais, e eu não me importo, muito pelo contrário. Todavia, me perturba o fato de que o Jeongguk talvez nunca volte a falar comigo, ser meu amigo, ou pior, nem olhar mais em meu rosto. E eu não consigo pensar em outra coisa.

— Taehyung, você nunca ficou assim por ninguém. — O ruivo disse por cima dos ombros, virou-se para mim.

— Assim como? — Soltei uma risada sem graça.

— Você estava resmungando algo sobre o, hum, adivinha? Jeongguk. — Arregalei os olhos. Não acredito que estava pensando alto. — Tae, o que esse carinha tem de tão especial para você querer tanto voltar a ser amigo dele?

Essa pergunta tocou diretamente meu coração, sentindo um grande belisco no peito, endireitei a postura e preparei-me para falar.

— Eu-eu não sei! Ta-talvez o jeito que ele me trata, ou o carisma dele, ou simplesmente tudo nele, principalmente as mãos. — Arriei os ombros, olhando para o nada. Senti os batimentos cardíacos aumentarem conforme os segundos, minhas mãos suarem e bastante calor.

Cansado do silêncio que pairava, olhei de canto de olho para o Jimin, desconfiado. Ele fazia uma expressão de ih, amigo! Tenho uma notícia para te contar.

— Tenho uma notícia para te contar. — Não disse. — Eu acho que isso vai além de amizade… Mas eu acho, está bem? não quero forçar você a nada. Mas também acho que vocês podem ter uma conexão forte, tipo almas gêmeas, porém sem o sentido romântico.

— Só que você já é a minha alma gêmea, porém sem o sentido romântico.

— Ah, é. Sim, sou. Esse lugar é somente meu.

— Então… Você acha que eu realmente posso… Estar gostando dele?

— Isso quem tem que achar não sou eu. É o carinha galanteador que eu estou encarando agora.

Eu revirei os olhos.

— Ah, para.

— Sem mais brincadeiras. Quem tem que achar isso é você, Taehyung. Para tudo tem a sua primeira vez.

— Não me diga que… — Olhei para trás, onde havia um espelho enorme, pelo qual eu nunca tinha visto, refletindo nós dois. Ele começou a rir.

Eu quebro expectativas.

[🐾]

Entediado, comecei a brincar com o canudo de meu copo de vitamina, enquanto esperava que algum cliente adentrasse a farmácia. Arriei os ombros. Bati os dedos sobre a mesa, com um ar pensativo, distraído, poderia-se dizer. Escutei a porta abrir, segui o olhar em direção e vi uma pessoa conhecida entrar. Jeongguk. Ele continuou andando, provavelmente não notou a minha presença, ou fez que não. Fazia quase um mês que eu não o via.

Escondi o copo embaixo da cadeira, ajeitei a postura e esperei que Jeongguk viesse pagar pelos produtos que pegou. Não demorou muito. Ele apareceu novamente com esparadrapos, band-aids, álcool, remédios para dor e vitaminas capilares. Ao chegar na recepção, pegou três camisinhas. Colocou um pirulito na boca.

— É só isso? — Perguntei. — Alguém se machucou? — Tentei puxar assunto.

— Não! Eu compro para questões de emergências. O estoque acabou lá em casa.

Ele dizia de um jeito indiferente. Entediado.

— Entendi.

— Eu queria saber se tem algodão? Eu não encontrei nenhum.

— Espera, vou checar aqui!

Levantei-me da cadeira e segui até o depósito; procurei por caixas de algodão e somente achei umas na prateleira mais alta. Resmunguei internamente. Voltei ao caixa.

— Encontrou?

— Sim, mas está em um lugar alto, poderia me ajudar a pegar?

— Está bem! — Respirou fundo.

Levei-o ao depósito. Ao chegar, apontei para o lugar onde estava a caixa de algodão.

— Segura meu pirulito. — Jeongguk disse entregando o pirulito para mim e ajeitou as mangas da jaqueta. Pude perceber que havia algumas figurinhas coloridas espalhadas por aquela jaqueta.

Eu apenas observava seus atos, quieto, cheio de remorso. Jeongguk não teve dificuldade alguma para pegar o objeto, porém, deixou-o escapar de suas mãos. Por impulso, agachei-me para pegar e Jeongguk também. Inclinei minha mão até o objeto, genuíno, segurei na mão dele. Tirei rapidamente.

— Desculpa!

Jeongguk levantou-se aos poucos, bateu as mãos nas coxas.

— Pelo o que? Já disse que não me incomodo com isso, vizinho. — Jeongguk soltou um riso, levantou uma sobrancelha.

— Eu não penso mais aquelas coisas sobre você há muito tempo. Eu sinto muito mesmo! — Continuei falando. Dei um passo para frente — Eu agi errado, eu sei. Nunca foi minha intenção te magoar, aquelas palavras apenas saíram para inflar o ego de minha madrasta e assim ela saísse logo de lá. Mas estou completamente arrependido. Queria voltar a ser seu amigo, Jeongguk e queria que a relação de nossos cachorros voltasse. E por favor, para de me chamar de vizinho, é estranho...

Jeongguk pareceu pensar por alguns minutos. Eu balançava-me para frente e para trás, ansioso pela sua resposta.

— Está tudo bem, eu já desculpei você. — Abriu um sorriso. Parecia ser sincero.

— Você tem certeza?

— Sim, depois de um tempo eu consegui entender. Escutei sem querer uma discussão que você e sua madrasta tiveram quando passei por lá.

— Ela é dramática, né? — Ele concordou.

— E não quero que a Berry sofra mais de saudades. — Segurou minha mão, encarando-a, com um breve sorriso que rapidamente foi interrompido. — Como está o Yeontan? — Limpou a garganta.

— Bem… Com muitas saudades da Berry. Sério, eu comprei o petisco favorito dele e ele nem ligou! Isso nunca aconteceu antes.

— Puxa vida! — Jeongguk agora desviou o olhar e fitou o chão. — Leva ele lá em casa um dia desses, tá. — Socou meu ombro.

Doeu.

Quase deixei o pirulito cair. Logo, devolvi para ele.

— Jeongguk-ssi. — Ele elevou o rosto, agora com o pirulito entre os lábios. — A proposta de você me ensinar a pintar, ainda está de pé?

— Claro! — Sorriu de orelha a orelha. — Sempre estará de pé. Para você, sempre.

Desviei o olhar, acanhado, lembrei-me do algodão, que ainda estava jogado no chão. Soltamos nossas mãos, agachei-me para pegá-lo na mesma hora que Jeongguk, outra vez, choquei minha cabeça contra a dele. Começamos a alisar nossas testas, porém todas as vezes que nossos olhares se encontravam, riamos juntos. Como se estivéssemos embriagados.

— Minhas coisas! — Jeongguk lembrou, correu até a porta, tentou abri-la, contudo não conseguiu. — Taehyung, eu tenho uma coisa para te contar.

— O quê?

— Estamos meio presos aqui.

— Quê? Como assim?

— Estamos trancados!

— Não é possível. — Andei até a porta, tentei abrir ela, não consegui. — Socorro! Estamos presos aqui! — Gritei.

Ninguém respondeu.

— Taehyung, se acalma! — Jeongguk tocou gentilmente em meu ombro.

— Estamos presos! — Gritei outra, outra e outras vezes, até minhas cordas vocais falharem. Suspirei.

— Olha para mim! — Jeongguk virou-me para frente. Encarou-me no fundo dos meus olhos.

— Estou olhando.

— É questão de tempo para eles perceberem que nos prenderam aqui, relaxa. — Alisou meu ombro, respirei fundo.

— Você está certo.

— Aqui tem câmeras? — Assenti. — Então é realmente questão de tempo.

— Espero que não demore muito, preciso voltar para casa.

— Eu também.

— E buscar o Yeontan.

— A Berry.

— Da casa do Jimin-ah

Dissemos juntos.

— Espera, Jimin? — Perguntei.

— Sim, Jimin!

— O Jimin-ah?

— Sim, o Jimin, aquele baixinho.

— Que é ruivo?

— Esse mesmo!

— Você conhece ele?

— Ele cuida da Berry, às vezes.

— Ele cuida do Tannie também.

— Então eles estão em boa companhia.

— Sim. Mas estou preocupado com a gente. — Segui andando até outro canto, sentei-me, com um bico formado nos lábios.

— Relaxa, vai dar tudo certo. — Ele sentou-se ao meu lado.

Fiquei calado, pensando, distraído com o silêncio, apoiei meu queixo em meu punho, suspirei outra vez. Jeongguk — provavelmente sem saber o que fazer —, apertou meu nariz.

— Que porra? — Olhei para ele, com as sobrancelhas erguidas. — Isso já é obsessão.

— É que você parece triste. — Disse ele, com a voz um tanto manhosa. — E isso não combina com seu nariz fofinho.

— Você com isso de novo, Jeongguk? — Resmunguei. — Meu nariz não é fofo! Já falei e repito.

Posso estar reclamando, mas senti falta dele e sua obsessão pelo meu nariz.

— O que eu acho fofo, na realidade, é essa pintinha aqui. — Tocou em meu nariz, outra vez, bem em cima de uma de minhas pintinhas. Crispou os lábios. — E essa. — Apontou para a da minha bochecha.

Senti minhas maçãs do rosto ficarem levemente rubras.

— E você?

— E eu o quê?

— Você acha alguma pintinha minha atraente?

— Não era fofa?

— Tem o mesmo sentido.

— Não, não tem!

— Realmente não tem, é porque eu acho sua pintinha fofa, e seu nariz atraente.

Eu estou muito confuso.

— Você está se perdendo no personagem, Jeongguk-ssi.

Ele estava segurando-se ao máximo para não sorrir. Dava para perceber.

— Está bem, está bem, eu vou confessar algo… — Respirou fundo. — É que eu curto caras com pintinhas no nariz.

Isso foi uma declaração?

— Cada um com seu cada um. — Minha frase não tinha sentido, mas eu estava nervoso para pensar em uma resposta melhor.

— Mas não mude de assunto! Você acha alguma pintinha minha atraente, Smurfinho? — Disse com a voz arrastada, não tirando seus olhos de meu rosto avermelhado.

Smurfinho?

— É uma junção de Smurf e fofinho. Acabei de inventar, gostou?

Apesar de odiar esse apelido, escutar ele me chamar de Smurf, foi mais uma das inúmeras coisas que eu senti falta vinda dele.

— Enfim, não, eu não gosto de pintinhas.

— Ah, para, Taehyung, deixa de inventar desculpas. Quem no mundo não gosta de pintinhas?

— Está bem. Eu acho atraente essa aqui. — Apontei para a pinta debaixo de seu lábio inferior. — Isso foi estranho. — Virei meu rosto para a frente, bati a língua no céu da boca.

— Sim é. Nunca imaginei que ficaria preso no depósito com meu vizinho gost- — Jeongguk arregalou os olhos, tapou a boca com as duas mãos.

Nunca pensei que precisava escutar isso para alegrar meu dia. Essa seria a minha versão.

— Termina de falar, Jeongguk.

— Terminar de falar o quê?

— Você sabe.

— Eu não sei de nada. — Desviou o olhar, colocou o pirulito em um saco e guardou-o no bolso.

— Você ia falar algo a mais.

— E ia falar que gosto da nossa amizade pura, sabe?

Revirei os olhos, rindo.

— Jeongguk… — Irei jogar sujo agora. — Eu te desafio a falar.

Ele ficou assustado.

— Ah, não, Taehyung.

— Vai apelar?

Ele suspirou.

— Eu não esperava ficar preso no depósito com meu vizinho gostosão.

Eu gargalhei alto. A coragem dele me surpreende. Mas, estou lisonjeado.

— Você me apelida de Smurfinho e me acha um gostosão? — Cerrei os olhos, olhando-o desconfiado, molhando os lábios com minha língua.

— Não acha que seria pior se eu ficasse te chamando de gostoso toda hora?

— Sim, porque prefiro gostosão, Smurfostosão! — O mais novo beliscou minha coxa. — Ai! Foi você mesmo que disse.

— Prefiro Smurfinho, assim eu me sinto mais puro.

— Uau! — Mordi o lábio. — O que você está sentindo por estar preso no depósito com seu vizinho gostosão?

— Nervoso, mas confiante. — Passou as mãos pelo cabelo.

— Por que está confiante?

Antes que ele respondesse, aconteceu a coisa que eu mais temia. As luzes apagaram. Ou as luzes pararam de funcionar ou foram desligadas. As duas alternativas eram simplesmente aterrorizantes.

— Vamos morrer!

— Obrigado por me consolar, Jeongguk, me sinto nada nervoso agora.

— Será que esqueceram a gente aqui? — Ele levantou-se, andou de um lado para o outro, sentou-se novamente. — Estou nervoso.

— Nem pude perceber.

Comecei a abraçar minhas pernas, apreensivo. Não gosto de escuro, nem um pouco.

— Você tá legal?

— Não. Não curto escuro.

— Ah! — Encolheu os ombros, aproximou-se ainda mais de mim e aconchegou-se ao meu lado. — Eu tenho um pirulito de emergência em meu bolso, você quer?

— Sim, pode ser.

Ele pegou um pirulito do bolso, encarou-o como se fosse tudo em sua vida. Inclinou a mão para entregar para mim, porém parou no meio do caminho.

— Mas… Terá que dividir comigo.

— Você não tinha outro?

— Ele já perdeu o gosto.

— Não, Jeongguk, isso é demais.

— Então você ficará sem o pirulito de emergência. — Ele fez um sorriso convencido, voltou a olhar ao pirulito, abrindo-o lentamente.

— Tá bom, tá bom, vamos dividir. Mas deixa eu chupar primeiro.

Jeongguk arregalou os olhos.

— Chu-chupar o que?

— O pirulito, é claro! — Franzi as sobrancelhas. — No que estava pensando, Jeon?

— Em nada.

Entregou o pirulito para mim. Fiquei um pouco desconfiado de sua reação, mas somente escolhi esquecer por alguns minutos, começando abrir por completo. Coloquei o pirulito na boca.

— Uau é muito bom!

Ele assentiu. Colocou as mãos entre as pernas e balançou os pés.

Jeongguk ficou estranho durante alguns minutos, mal falava ou fazia algo inesperado. Parecia estar preocupado.

— Está tudo bem? — Perguntei, entreguei o pirulito para ele, coçando os olhos. — Estou te achando quieto.

— Será que a Berry está bem? Será que ela já comeu? Dormiu? Teve os pelinhos escovados?

Agora tudo fazia sentido.

— Tenho certeza que sim. — Passei a mão por seus cabelos, bocejei. — Confia no Jimin, prometo que ele perceberá e procurará pela a gente.

— Eu espero que sim.

Eu concordei com a cabeça, começando a coçar os olhos, repleto de sono.

— Que horas são?

— Espera, deixa eu ver no meu celular.

Isso! O celular dele!

— Isso, isso, seu celular!

Fiquei mais esperançoso. Observei-o procurar pelo objeto, mordi os lábios, e balancei seus ombros.

— Você achou?

— Não… Eu o deixei no carro.

Suspiramos.

— Mas espera, ainda deve ser cedo.

Eu assenti, encostei minha cabeça na parede, descansando as pálpebras. Senti os meus músculos pesarem, então abri os olhos. Notei que a cabeça do Jeongguk estava deitada sob o meu ombro e seu braço entrelaçado ao meu. Estiquei minha mão até seu rosto, dedilhei-o, tentando descobrir se ele estava dormindo. Porém, apenas senti seus dentes morderem minha pele.

— Caralho! — Fiz massagem nos dedos, contrai o rosto. — Por que você fez isso, Jeon? — Resmunguei, entre um baixo gemido de dor.

— Eu pensei que era algum bicho ou algo assim, já que está escuro.

— E o melhor jeito de você se defender era mordendo?

Jeongguk hesitou a continuar a falar, coçou a cabeça. Depois de muito ter pensado, estendeu lentamente sua mão.

— O que foi?

Ele continuou na mesma posição, elevou as sobrancelhas.

— Deixa eu ver sua mão.

Aos poucos, estiquei minha mão até a sua, com uma certa desconfiança. Cerrei os olhos. Ele começou a analisá-la, por todos os lados e por fim depositou um beijo rápido nela, e soltou-a. Ele parecia estar um pouco envergonhado, olhou para outro canto daquele minúsculo depósito.

— Você é… Carinhoso.

— Por que esse tom de surpresa? Eu sou, às vezes, somente com a Berry. Abri uma exceção para você. — Engrossou a voz.

— Não precisa engrossar a voz, não combina com você.

Ele bateu os dedos nas coxas, e lentamente, virou o rosto para mim.

— Como você sabe?

— É, eu não sei exatamente, mas pelo o que eu te conheço, penso assim.

— E sua madrasta discorda plenamente.

— Eu sei… — Abaixei os ombros, um tanto chateado. — Eu não gosto disso, nunca gostei na verdade.

— Então por que não diz a ela?

— Porque eu não consigo. Perderia muitas coisas se eles descobrissem que eu…

— Não precisa continuar a falar, se não se sentir à vontade, está bem?

— Espera, eu quero falar! — Entrelacei minhas mãos. — Eu meio que… Que sou afim de homens. Sim, homens, isso. E não aguento mais repetir que falar que sou hétero para tentar anular isso, porque não funciona. No meio do mês passado, eu estava saindo com uma garota e foi daí que eu não aguentei mais. Acabei tudo no terceiro encontro.

Eu nunca falei uma coisa assim em voz alta. Quando olhei para ele, percebi que estava quieto, vagando pelos pensamentos. Perguntei-me se ele havia me escutado. Até ele começar a falar.

— Eu também achava que era hétero até há alguns meses atrás. — Ele riu soprado. — Você me deixa confuso sobre isso.

— Por que eu te deixo confuso?

— Porque gosto de estar com você, é maneiro, legal ou qualquer coisa desse estilo, ou até mais. Mas também é torturante. — Ele estava destruindo suas unhas, de tanto tirar as cutículas invisíveis que somente ele via.

— Eu te entendo… Eu sinto muito por ser a causa disso.

— São torturantes porque toda às vezes que eu te via, não podia te beijar, abraçar, brincar com seu nariz ou segurar suas mãos.

— E isso começou desde quando?

- Desde sempre. Acho que me tornei um fã seu.

— Tem certeza que não é o contrário? — Soltei um riso frouxo.

— Não, acho que não. Você não sente o mesmo. — Ele fungou, fitando seus tênis escuros, que deixava-o mais alto.

Pigarreei, trazendo a sua atenção.

— Jeongguk-ssi, você está completamente errado.

— Mas Taehyung... — Fez uma pausa para endireitar a postura. — Você sempre me chama de amigo.

Antes que ele voltasse a falar, juntei rapidamente nossos lábios, em um grande conflito comigo mesmo. Meus olhos estavam fortemente pressionados, e minhas bochechas um pouco infladas, nervoso, sentindo o beiço morno dele contra o meu. Senti um grande frio na barriga, como se estivesse em uma montanha russa, só que dessa vez, era de sentimentos. Afastei-me e suspirei.

— E aí, ainda acha que está certo? — Continuei com os meus olhos focados em seu rosto, encostando meu ombro na parede e destruindo meu lábio inferior de tanto mordê-lo.

— Não sei… Ainda tenho algumas dúvidas.

— Você é difícil de convencer, não é, Jeonggukie? — Ele assentiu. Descarado.

Inclinei minha cabeça lentamente e beijei-o, mas não em seus lábios, na intenção de instigá-lo, trazendo um leve suspense. Porém, Jeongguk foi impaciente e deu a sua iniciativa, atacando os meus lábios, deixando selinhos na parte superior.

— Eu senti muito a sua falta! — Sussurrou entre os selinhos, eu sorri em resposta, afastando-se aos poucos, ele continuou. — Não foi só a Berry que sofreu.

Ele me abraçou. Não pude nem pensar em retribuir, pois ele rapidamente afastou-se de mim.

— Eu também, não foi só o Tannie que sofreu.

Eu não queria que ele parasse, eu queria mais, mais e mais, porém estava envergonhado para pedir-lhe. Não saberia como formular a pergunta, "Me beija mais?" ou "Faça isso novamente!", "Que legal, vamos fazer de novo?". É estranho.

— Então…

— Você quer fazer isso de novo?

Um pouco apreensivo, eu assenti. Ele aproximou-se de mim e me deu um selinho demorado, segurando em minha nuca sutilmente, acariciando meu cabelo castanho claro, que estava um pouco comprido naquela parte. Depois, deixou alguns selinhos estalados e afastou-se, aos poucos, sorrindo. Perguntei-me por breves segundos: Não seria melhor se já estivéssemos tendo um caso? Por que eu fiz tanto cu doce?

— Eu poderia fazer isso o dia todo. — Citei a frase do meu personagem favorito, em um breve sussurro, viajando pelos meus pensamentos.

— Taehyung, eu posso fazer uma pergunta que sempre quis fazer para você, desde o dia que discutimos?

Eu fiquei arrepiado em algumas partes do meu corpo. Se passou várias perguntas pela minha cabeça e nenhuma delas eram as que eu realmente queria. Tenho certeza que estou fazendo uma expressão de assustado agora.

— Não precisa se assustar, não é nada tão sério.

— Mas você parece nervoso. — Ele negou com a cabeça. — Então, está bem, o que vai perguntar? Espero que não envolva meu nariz.

Ele encolheu os ombros e virou o rosto para o lado. Supostamente, eu estava certo. Todavia, voltou a me encarar, entregando certamente um terço de seu nervosismo.

— Se eu continuar mantendo contato com você. Você terá muitos problemas por causa de mim?

O meu coração apertou.

— Sim, eu terei!

Ele coçou a cabeça.

— Mas… — Continuei, para a sua surpresa. — Não quero que isso nos afaste, porque não será culpa sua. Então não ouse parar.

Ele começou a rir, de uma forma gostosa de ouvir. Poderia escutar isso durante a vida toda, sem cansar.

— Eu gosto de você! — Voltei a falar, fechando os olhos. — E ainda mais da sua companhia. — Ele beliscou meu ombro e começou a limpar algo, algo que claramente eu não pude ver.

— Também gosto de você, Taehyung-ssi! — Belisquei seu ombro também, risonho, mas meu braço estava mole, por isso ele teve uma vantagem. — Passaremos por qualquer coisa juntos. — Segurou minha mão.

Eu continuei calado, estava cansado demais para falar qualquer coisa. Aos poucos, fui me adaptando ao lugar em que eu estava, então pude descansar por alguns segundos. Embora estivesse um pouco desconfortável, não aguentava nem abrir os olhos.

— Você está cansado? — Ele perguntou, a sua voz, diferente de mais cedo, era mansa, entrava como uma brisa em meus ouvidos.

Eu assenti. Pude sentir algo aproximar-se de mim, tive certeza que seria o Jeongguk, por isso mantive-me quieto. Delicadamente, ele levou minha cabeça até seu ombro, usando sua mão. Em seguida, fez carinho em meus cabelos, e eu acabei adormecendo, abraçado com o seu braço e enfeitiçado por seu perfume. Eu não quero largá-lo por nada.

[🐾]

Quem diria que pentear os pelos do meu cachorro seria tão difícil. Eu o penteei uma vez, ele corria, andava pela casa toda, e voltava para o meu colo. O ciclo se repetiu mais de dez vezes.

— Você quer ficar bonito ou não? — Disse, quase desistindo, olhando seriamente para o cão.

Ele pareceu entender o recado, ficou parado e foi aconchegando-se aos poucos em meu colo. Era muito pêlo, talvez ele tenha mais pêlo que gordura.

Tentei fazer penteados, amarrar elásticos, mas ele sempre tirava com a sua patinha. Então desisti.

— Você é impossível. — Eu coloquei-o finalmente no chão, para que pudesse voltar ao que mais importava para ele, aquele osso enorme e um ursinho de pelúcia.

Levantei-me do sofá, limpei alguns pêlos grudados em minhas roupas e fui buscar água. Quando eu voltei, o Tannie encontrava-se aos amores com o ursinho — presenteado pela "Berry" —, enchendo-o de cheiros e lambidas. Largando completamente o osso para trás.

Sentei-me outra vez, comecei a beber água e olhar para o nada. Eram sete horas da noite e estava silencioso, isso era raro de acontecer, ainda mais em um sábado.

Até que escutei algo bater na rede da janela, várias vezes. Fiquei um pouco assustado porque pensei que acertaria minha cabeça. Repleto de curiosidade, olhei para trás e inclinei-me para frente; abri a janela. Era o Jeongguk-ssi. Ele estava com as mãos cheias de aviõezinhos de papéis coloridos. Ao jogar outro avião, o outro notou que eu já estava lhe dando atenção, então abriu um sorriso amarelo.

Ele não disse nada, ficava gesticulando coisas que eu não conseguia entender e apenas fazia uma cara de tacho.

— Jeongguk-ssi, você sabe que eu consigo te ouvir, certo? — Aumentei somente um pouco da voz.

Ele bateu na testa.

— Faz sentido. — Ele guardou os aviões. — Vem aqui em casa? — falou, sussurrando.

— Está bem, só vou esperar o Jimin chegar para levar o Tannie para passear, e vou.

— Não quer nem saber o motivo?

— Está bem, por quê?

— Porque você terá a melhor aula de artes de sua vida.

Eu me interessei ainda mais. Depois de décadas esperando, ele finalmente teve tempo e lembrou.

— Certo, certo, já, já eu chego aí.

Ele assentiu e acenou, fechando a janela. Fiz o mesmo. Mordi os lábios enquanto sorria, pensando sobre o que acabou de acontecer. Ele consegue ser adorável, às vezes, bem às vezes mesmo. Tem algumas que ele vira outra pessoa. Eu chego a me assustar.

Depois de meia hora esperando o Jimin, ele aparece, sem um pingo de arrependimento por ter chegado tão atrasado. Ele não estava sozinho, mas sim, com a Berry ao seu lado. Tannie já começou a animar-se.

— Obrigado por isso, Jimin-ssi! — Abri um sorriso.

— Eu somente irei passar a noite com meus sobrinhos, ué! — Ele riu, aproximou-se de mim e me abraçou. Pegou o Tannie no colo.

— Você vai aguentar ficar com dois cachorros agitados mesmo? — Entreguei-lhe a coleira.

— Está tudo sob controle. — Ele fez um sinal de gostei.

— Se você diz. Se divirtam! — Acenei.

Jimin começou a ir até o elevador, risonho, sendo explorado pelos cães. Consegui ver que ele desistiu de segurar o Yeontan no colo e o deixou no chão. Antes das portas do elevador se fecharem, rimos um para o outro. Ele precisará de sorte.

Aproveitei que já estava do lado de fora do apartamento, lembrei-me de ir no apê do Jeongguk. Peguei minhas chaves e meu celular, seguindo andando. Não era tão longe do meu, eu somente segui reto, depois virei à direita e depois à direita novamente. E lá estava o apartamento 40. Assim que pus meus pés no tapete de boas-vindas, bati na porta discretamente.

Jeongguk apareceu em instantes, vestindo um avental por cima de suas roupas.

— Você marcou horário para a melhor aula de artes de sua vida, Taehyung-ssi? — Perguntou, estava em uma pose engraçada, não pude deixar de soltar uns risos furtivos.

— Sim, marquei, Jeongguk-ssi. — Disse, entrando na brincadeira.

Dava para perceber que ele estava segurando-se ao máximo para não rir, seu rosto até estava avermelhado.

— Deixa eu checar aqui. — Ele começou a "checar" em uma pasta imaginária. — Sim, você está aqui, pode entrar, Taehyung-ssi.

Jeongguk afastou-se um pouco da entrada, andei para dentro do apartamento. Arregalei os olhos ao ver como tudo estava arrumado. Tinha alguns panos por cima de seus móveis, dois cavaletes incrivelmente centralizados, um banco pequeno que tinha uma tigela de frutas por cima dele.

— Aqui está o seu avental! — Ele começou a vestir-me, de uma forma sutil. Alisou meus ombros.

— Obrigado!

— Você está gostando? — Perguntou, enquanto buscava alguns pincéis e duas paletas de cores.

— Sim, demais, isso será divertido! — Balancei os ombros.

Ele sorriu e colocou os pincéis nos vãos dos cavaletes, entregando-me a paleta.

— O que vai me ensinar primeiro?

— Bom, a fazer alguma paisagem. Depois, usaremos aquilo, — Apontou para a tigela de frutas. — como ilustração. Após isso é só deixar rolar. — Piscou.

Eu fiquei um pouco nervoso, não queria passar vergonha na frente dele. Até porque minhas habilidades de pinturas são medíocres. Talvez eu tenha exagerado um pouco.

— Vem, Taehyung-ssi. — Ele segurou em minha mão e levou-me até os cavaletes. — Primeiro, iremos colocar as cores na paleta.

Ele começou a demonstrar, colocou algumas tintas distintas sobre a paleta, com maior facilidade. Ao parar, pediu para que eu repetisse. Respirei fundo. Seria como uma prova de fogo! Peguei a primeira tinta, que já estava me atrapalhando.

— Eu não consigo abrir. — Resmunguei. Nunca senti tanta raiva de um objeto. — Talvez esteja com defeito.

Jeongguk começou a gargalhar.

— Vamos deixar isso para depois. — Concordo. — Começaremos por rascunhos.

Ele entregou-me um lápis e apontou para a tela branca. Eu não consegui pensar em nada interessante para fazer, apenas o sol, que tinha um sorrisinho.

— Eu vou te ajudar. — Ele ficou atrás de mim e colocou o queixo em meu ombro. Começou a segurar gentilmente a minha mão, deslizando o lápis contra o tecido. — Você quer fazer o quê? — perguntou, baixo, bem no pé da minha orelha.

— Uma montanha, eu curto.

Ele assentiu, voltando a segurar com firmeza minhas mãos, deslizou o lápis pelo tecido outra vez, formando a montanha que eu queria. Enquanto ele fazia isso, senti sua outra mão descansar em minha cintura. Meus lábios estavam prontos para formar um pequeno sorriso, mas foi interrompido quando ele retirou sua mão e limpou a garganta, assustando-me por causa do quão próximo ele estava do meu ouvido.

— Foi mal! — Ele segurava-se para não rir e eu para não bater nele. — Não foi minha culpa. — Continuou, com a maior feição de inocente.

— Claro… — Debochei, revirando os olhos, voltei a atenção ao meu quadro incompleto.

Tinha feito pelo menos a montanha e o sol sorridente, porém não estava satisfeito com somente essas duas coisas.

— O que foi? — Jeongguk apareceu ao meu lado. Dessa vez eu não me assustei. — Taehyung-ssi?

— Não estou satisfeito… Falta algo.

— É claro que falta algo, pintar! Não acha que terminamos, certo? Ou quer adicionar mais alguma coisa?

— Não, vamos pintar. — Sorri amarelo.

Jeongguk-ssi começou a abrir as tintas, e a colocar sob a minha paleta, entregando-a para mim. Ele seguiu até sua tela e começou a traçar alguns pontos com o pincel, eu fazia o mesmo, com uma certa insegurança. Molhei o pincel com a tinta verde, e deslizei-o sobre a tela; a montanha estava quase toda preenchida de verde, até meu braço cansar e eu parar um pouco. Dei uma espiada no quadro do Jeongguk-ssi, notando que ele parecia já estar terminando. Balancei o meu corpo. Voltei o olhar à minha tela.

Após murmurar, peguei outra cor e comecei a pintar o céu, que seria um tom bem fraco de vermelho. Estava indo bem, não ultrapassei nenhuma linha, isso era o que eu mais me preocupava. Além de acabar sendo desastrado e derrubar tudo. Porém isso não era motivo para eu me apavorar, já que, já não sou tão desastrado igual à dias atrás.

Assim que terminei o céu, foquei no solzinho sorridente, pintei-o de amarelo, tentando fazer um degradê de laranja. Não ficou ruim, mas também não ficou tão bom assim.

— Uau, você está indo super bem! — Comentou ele, surpreso, eu diria, mas pelo seu semblante, estava orgulhoso.

— Obrigado! — Disse envergonhado. — Acho que consigo terminar antes de você.

— Amor, isso não é uma competição.

— Eu sei, mas eu levei para o lado pessoal.

Após escutar isso, Jeongguk-ssi derramou-se em risos.

— Eu irei terminar primeiro.

— Isso é um desafio?

— Não, Taehyung-ssi, acho melhor irmos com calma em relação a isso, você ainda está aprendendo. Não aceito distrações.

Certeza que ele está com medo de perder para mim. Porém, poupei-o de continuar esse assunto e apenas voltei ao meu quadro.

Tentei fazer alguns detalhes na montanha, como se fossem uma grama revestindo-a. Ao finalmente dar-me por satisfeito, me virei para o Jeongguk.

— Terminou?

Eu assenti.

— Está bem, deixa eu… Ver… Puta que pariu, aprendendo uma ova! — Ele arregalou os olhos e tapou a boca com as mãos. — Ficou muito bom — Começou a bater palmas lentas. — Você disse que somente fazia palitinhos!

— Talvez eu tenha exagerado um pouco…

— Um pouco? Você exagerou muitíssimo!

Eu apenas ficava mais e mais envergonhado, com as maçãs do rosto completamente vermelhas e uma ardência no ombro. Fiquei um pouco mortificado, confesso.

— Não precisa ter vergonha, só falo verdades. — Ele piscou.

— Deixa eu ver a sua? — Perguntei, após muito ter hesitado.

— Sim, claro! — Ele seguiu até sua tela.

O quadro era simplesmente perfeito, magnífico, uma obra de arte, feito por mãos de deuses, extraordinário, maravilhoso…

— Taehyung-ssi?

Jeongguk balançou as mãos na frente de meu rosto, acordando-me do meu transe.

— É perfeito! — Disse, entre um breve suspiro. — Você tem muito talento. — continuei, socando o seu ombro.

Ele franziu o rosto e depois sorriu.

— Obrigado. Digo o mesmo a você. — Relaxou as sobrancelhas.

Mordi os lábios, interrompendo um sorriso furtivo que, certamente iria fazer minhas bochechas doerem. Nós continuamos parados, à frente um do outro.

— E o que faremos agora? — Perguntei.

— Eu sinto que não tenho mais nada para te ensinar. — Levantou os ombros.

— Então, posso te ver pintar alguma coisa? — Eu sugeri, entusiasmado.

— Pode, pode! — Assentiu por fim.

Ele retirou o quadro que já estava seco, e pôs outro em seu lugar, montou os equipamentos novamente e começou a pintar, sem ao menos ter feito rascunhos. Fui me aproximando dele aos poucos, para enxergar melhor seus atos. Coloquei minha cabeça em seu ombro e indiquei que continuasse. Antes disso, ele pegou meus braços e envolveu-o em sua cintura, para assim eu ficar ainda mais próximo de si. Ele respirou fundo e começou a pintar outra vez.

— É carência ou...

— Você está me inspirando. — Me cortou. — Continua assim, tá? — deu leves tapinhas em minha bochecha.

— Você fica inspirado em outras coisas?

— Sim, toda vez que escuto a Ariana, me inspiro.

Isso fez ainda mais sentido em minha cabeça.

— Você não escuta ela há alguns dias, está tudo bem? — Perguntei preocupado.

— Você também me inspira, esqueceu? E já estava na hora de eu parar de encher o saco dos outros vizinhos.

Ele continuou concentrado no quadro. Um pouco inquieto, olhei vagamente pelos cantos da sala, até chegar novamente em sua cabeça e meus olhos focaram em sua orelha. Parecia ser macia e bem higienizada. Tinha alguns pontos avermelhados, em específico os lugares que haviam piercings. Eu não pude me conter e acabei mordendo a orelha dele, não muito forte, não queria machucá-lo.

— Que porra foi essa? — Jeongguk perguntou, virando-se para trás, encarou-me seriamente.

— Eu não sei… Sua orelha é atraente e macia, isso… Sei lá… Desculpa.

Jeongguk arregalou os olhos.

— Você pode mexer ou beijar ela, mas morder não, ok? — Ele chegou um pouco mais para perto de mim e com um breve piscar de olhos, beijou a ponta do meu nariz. Voltou a pintar normalmente, puxando o meu braço.

Retornamos à mesma posição. O perfume que ele usava era ainda mais enfeitiçador do que antes, fazia-me querer ficar ainda mais perto de seu pescoço e passar meu nariz gelado por ele. Era uma sensação estranha, que sem querer acabei por fazer. Não consigo controlar meus atos quando estou com ele. Rapidamente, voltei à posição anterior, torcendo para que ele não tenha percebido.

Todavia, ele parecia estar com algum problema no pescoço, porque sempre inclinava-o para o lado, onde por coincidência eu estava apoiando meu queixo.

— Está tudo bem com seu pescoço, Jeonggukie?

— Na-nada. Deve estar tensionado, ou algo assim. — Riu soprado.

Por mais que eu tentasse, não conseguia me manter tão longe do pescoço dele, e às vezes, acabava afundando meu nariz novamente. Não era proposital. Mas somente parecia que ele estava indicando para que eu fizesse mais. Isso me deixava confuso.

Então, decidi esquecer aquele pescoço cheiroso e comecei a focar em outras coisas. Como por exemplo: A arte que ele fazia. Estava ficando cada vez mais incrível. Apesar dele apenas estar desenhando uma tigela de frutas.

Por que tem vezes que parece que ele está mostrando ainda mais o pescoço?

Imagina se eu fosse um vampiro?

Não irei fazer acusações contra ele, por mais que esteja um pouco explícito, talvez apenas seja uma mera coincidência, ou ele está sentindo muitas dores.

— Você quer que eu faça uma massagem?

— Não, por quê?

— Eu pensei que você estava sentindo dores no pescoço por causa…

— Ah, sim! Eu quero sim, obrigado.

Retirei lentamente meus braços de sua cintura e comecei a fazer massagem em seus ombros.

— Não, não, não. — Ele virou-se para mim e retirou minhas mãos de seu ombro. — Você pode continuar a pintura, o que acha? — Abriu um sorriso um tanto cínico.

— Está bem. — Levantei os ombros.

Segui para frente do cavalete, apanhei o pincel e a paleta e respirei fundo. Molhei o pincel na tinta vermelha, e estiquei meu braço até o quadro. Estava faltando pouquíssimos pontos para terminar.

E tudo ia bem, até sentir os braços do Jeongguk rodearem minha cintura. Senti arrepios dos pés, até os fios do cabelo. Aproximou-se mais de mim e colocou seu queixo em meu ombro. Em seguida, de repente deixou um, depois dois, e mais uns três BEIJOS em meu pescoço. É uma área em que eu sou extremamente sensível. E ele sabia disso, sabia.

— Algum problema, Taehyungie?

Cuidado para não ultrapassar alí.

Está decidido, eu odeio ele.

— O que foi que eu te fiz? — Virei para ele, cruzei os braços. — Roubei sua casa, ameacei sua família?

Ele levantou os braços em rendimento, fez-se de desentendido.

— Do que você está falando? — Passou as mãos pelo cabelo e levantou uma sobrancelha, voltando a me encarar.

— Eu sou sensível nessa parte do meu corpo. — Apontei para o meu pescoço. — Você sabe muito bem!

— Eu sabia? — Apontou para si mesmo. — Mas eu acabei de descobrir.

— Jeongguk você sabia, sim! Para de se fazer de sonso.

— Eu não sabia, Taehyung-ssi! Eu juro!

— Mas como você é meu namorado deveria saber! Nós estamos juntos há quase três meses, Jeongguk-ssi.

Jeongguk começou a sorrir de orelha a orelha.

— O que você tem?

— Diz isso de novo.

O que você tem?

— Não, antes.

Quase três meses?

— Um pouquinho antes.

Nesse exato momento eu queria enterrar minha cabeça no chão.

Meu namorado.

Ele mordeu os lábios e sorriu ainda mais.

— Repete?

Meu namorado…

— De novo.

— Jeongguk, você sabe.

Jeongguk revirou os olhos e aproximou-se de mim, segurando em meu antebraço e puxando-me para mais perto dele. Desceu suas mãos e segurou as minhas, balançando-as.

— É que eu gosto como soa a palavra "namorado". — Olhou por cima da minha cabeça. — E ainda mais da palavra "meu".

Crispei os lábios e desviei meu olhar de seu rosto. Senti seus dedos acariciarem minha bochecha, então voltei a encará-lo.

— Eu sou seu, Taehyung-ssi?

— Nã-não, si-sim, não, sim? Não sei! Poderia, sim, mas sim! É confuso. É confuso? Deveria ser? "Ser ou não ser, eis a questão."

Jeongguk revirou os olhos e deixou um selinho em meus lábios.

— Relaxa. Eu gosto de ser seu. É excitante.

Meu coração esquentou-se, vaguei os olhos pelo apartamento, com um sorriso envergonhado nos lábios.

— Eu te deixo sem jeito, né? — Arregalei os olhos. — Fiz pós-graduação de Como Conquistar Taehyung-ssi. Passei com dez pontosno TCC.

— Ah, sério? Foi difícil? — Perguntei, rindo.

— Oh se foi! Mas valeu a pena.

— Porque?

— Porque agora posso fazer isso — Deu um selinho no canto de minha boca. —, sem me preocupar.

— Ah, é? — Meus olhos fixaram-se em seus lábios rosados. — Acho que irei entrar em uma faculdade também.

— Em qual?

— Como Se Segurar Para Não Beijar Jeongguk-ssi a Cada Dois Segundos.

— Ih, acho que você não vai passar, é dificílima. Eu tentei fazer uma parecida.

— Eu tenho a completa certeza.

Ele sorriu e mordeu os lábios. Soltei suas mãos e segurei o seu rosto, e aproximei o meu, lentamente. Pressionei os seus lábios contra os meus, sentindo suas mãos apertarem minha cintura, rodeando os dedos na gola de minha calça. Nossas línguas se encontraram segundos depois, acariciando uma à outra, fazendo meu corpo arrepiar-se. O saboroso sabor de cereja artificial, que não largava dele por nada, passeando por nossas línguas.

Depois de afastarmos nossos lábios, demos um breve beijinho de esquimó e lembramos do quadro. Voltamos imediatamente para terminá-lo, animados.

Ele sugeriu outra vez que eu terminasse, como eu resmunguei um pouco, pois queria ficar de chamego. Voltei a posição do início. Apanhei novamente o pincel e a paleta de cores nas mãos, começando a desligá-lo pela tela. Em pouco tempo, finalmente terminamos.

Repleto de má vontade, comecei a pegar os objetos que usamos, lentamente, com um bico formado no rosto. Jeongguk somente fazia rir, nem mesmo ofereceu-se para ajudar. Lancei alguns olhares para ele, que davam para entender as minhas intenções. Uma ideia surgiu em minha mente, um tanto pervetida mas ingênua. Aproveitando a posição que estávamos, com as mãos meladas de tinta propositalmente, fingi limpar algo em sua camisa, branquíssima.

— Oh, céus! Desastrado eu sou! Haha, foi mal.

— É... Tudo bem.

— É que eu me distraí um pouco... — Fitei o chão, mordendo os lábios, sendo seguido pelos olhos do moreno.

— Só não sei o que fazer com isto. — Apontou para a camisa. — Era a minha favorita, Tete.

— Ela ficou ainda mais bonita assim, mas prefiro você sem. — Sussurrei

— Taehyung? — Deu um riso soprado. — Eu não entendi direito, você disse que era para eu tirar a camisa?

Elevei meus olhos aos poucos para o seu rosto, que me encarava descaradamente, instigando-me a dizer em voz alta tudo que estava entalado em minha garganta.

— Não… Na verdade, sim. Por que não fica sem camisa, Jeonggukie? — Eu arregalei os olhos.

— Ta-taehyung? Que po-

— Vai, a camisa já está suja mesmo… — Me aproximei dele, ainda com o pincel em mãos e risquei todos os cantos que faltavam da camisa. Comecei a rir.

— Você sabe que eu posso trocar, né?

— Sim, mas assim não seria divertido. — Pisquei, virando-me em um giro para o cavalete. — Eu cansei! Você termina de limpar, está bem?

Escutei algo ser jogado no sofá, sorri. Em poucos segundos, abri espaço para o moreno de costas nuas posicionar-se em minha frente; observei tudo por cima do seu ombro; encostei meu queixo nele. Abracei-o pelas costas, rodeando-o e alisando seus gominhos, com um sorriso descarado nos lábios. A sua respiração ficava cada vez mais rápida, conforme meus dígitos dedilhavam cada parte de seu abdômen.

— O que você quer, Taehyung? — Perguntou por cima do ombro com a voz áspera e um pouco baixa.

— Eu quero você, Jeongguk, não está claro? Eu quero sentir você!

O moreno deixou o pincel sobre o vão do cavalete, virando aos poucos para mim, calado, com um olhar penetrante.

— E aí? Vai fazer alguma coisa ou vai ficar aí parado? — Provoquei-o, cruzando os braços.

Ele revirou os olhos e passou a língua na bochecha, evitando claramente encarar-me. Sem nenhuma paciência sobrando, me aproximei dele, penetrando-o com meus olhos.

— Você tem certeza? — Indagou.

— Nunca tive tanta em minha vida.

Ele deu uma risada abafada e finalmente suas íris encontraram as minhas, dando um devido choque térmico em meu corpo. Passeou com uma de suas mãos pelo meu peito, descendo e chegando a minha cintura.

— Essa é a hora que você pode desistir. — Insistiu. — Olha, Taehyung, eu sei que é a sua primeir-

Em um rolar de olhos, enquanto ele continuava com seu discurso, desci minhas mãos até sua calça, sem ele perceber, descansei a mão bem em cima do zíper de sua calça. O moreno esbugalhou os olhos, o rosto estava totalmente rubro.

— Relaxa, Jeon!

— Você é impossível. — O moreno deu um sorrisinho, antes de atacar meus lábios com os seus.

Em poucos segundos, nossos lábios já estavam colados. Minhas pernas entrelaçadas em sua cintura, tendo o meu corpo levado até o outro lado da sala. Os arfares, estalos, gemidos manhosos contra o ouvido um do outro, sentindo a grande emoção de sentir a mesma coisa. Excitação.

— Você não sabe o quanto eu esperei por isso. — Disse, bem perto da minha orelha, com a voz mais rouca e áspera que antes.

Um novo sentimento crescendo, preenchendo nossos corpos e transparecendo sem nenhuma timidez.Os corpos pressionados um contra o outro, a animação nascendo ainda mais forte.

Jeongguk fechou a janela que dava a vista ao meu apartamento, recebendo selinhos estalados em sua pele amarelada. Ao virar-se, encarou-me de cima a baixo. Sem tirar seus olhos de mim, escorregando seus dedos até a barra da minha camiseta, adentrando por debaixo com as mão frias, segurou minha cintura possessivamente.

O coração quase saindo pela boca, tentando não esbarrar em algo enquanto íamos até seu quarto, os lábios grudados com cola. A porta fechando-se com delicadeza, as roupas espalhadas no chão e a vontade crescendo ainda mais.

Os selares quentes descendo sobre o pescoço, peito, barriga, até a virilha. O volume gritando para ser libertado daquela cueca preta, sendo carinhosamente atendido pelo moreno, que fazia questão de acariciá-lo da melhor forma possível. Esforçando ao máximo para não fazer um sequer barulho, eu mordia meu lábio inferior fortemente, sedento, embora alguns gemidos agudos acabassem escapulindo.

— Je-jeon, eu-eu acho que...

— Pode vir, amor.

A voz arrastada entrando em meus ouvidos, fazendo-me tremer por dentro e esvaziar-se por fora. Nada foi tão bom quanto vê-lo engolir, lambendo os lábios sedutoramente.

Em uma fração de segundos, mudamos de posição, estando eu por cima. Respirando fundo, nervoso, assistindo seus atos, quieto. Ele Inclinou seu braço até o abajur, sendo impedido rapidamente por mim.

— Taehyungie, está tudo bem, ok? Lembra que eu estou aqui. — Colocou uma parte do meu cabelo para trás da orelha, tentando deixar-me confortável.

Entretanto, assenti e as luzes foram apagadas. Suas mãos agarraram-se às minhas, não soltando-as por um segundo sequer. O meu quadril moveu-se sensualmente em seu colo, girando o meu pescoço, enquanto sentia todo o seu comprimento em mim, atordoado.

— Ta-taehyungie...

Sorri, revirando os olhos de tanto prazer, relaxando os ombros. A maioria dos gemidos eram abafados por nossos lábios, não queríamos incomodar os vizinhos. A última troca de posições, enquanto sua mão puxava meu cabelo azulado, até a última estocada.

Deitados um ao lado do outro, trocando carícias e carícias, repetimos tudo outra vez, ainda mais necessitados um pelo outro.

Eu nunca irei me cansar de você.

Eu não havia ido embora ainda, estava quase anoitecendo e estávamos esperando Jimin-ssi chegar com nossos cachorros, assistindo o filme Guerra Civíl. Eu me encontrava deitado em seu ombro, com as mãos entrelaçadas com as dele; na maioria das vezes, desviava o olhar da televisão e olhava para nossas mãos. Virou um costume nosso, assistir um filme de mãos dadas. Jeongguk usava um anel no dedo anelar e os outros estavam vazios. Diferente de mim, que enchia os dedos de anéis, menos em um, o anelar. Em um certo ângulo, parece que nossos anéis se encaixavam. O nosso plano deu certo.

Parei de focar nos nossos dedos e voltei à atenção ao filme, estava quase no final; pude escutar uma fungada vinda do Jeongguk. Espiei pelo canto dos olhos, vi seus olhos marejar, apertei seu braço contra meu peito e voltei a assistir.

— O Capitão América não deveria ter feito isso com ele. — Interrompeu a passagem de uma lágrima, fungou outra vez.

— Meu dengo… Por que você ainda continua vendo esse filme?

— Esse infelizmente é o meu favorito.

Eu soltei um riso, não conseguia entendê-lo.

— Eu acho que é o filme que o Capitão América está mais bonito, depois de Guerra Infinita. — Comentei, mordendo os lábios. Ao voltar os olhos para o rosto do Jeongguk, vi seu semblante desacreditado. — O que foi? Estou sendo sincero.

— Nada, cada um acha o que quer. — Jeongguk retornou a encarar a televisão, sério, soltou minha mão. Segurei-me para não rir. — Quero terminar!

Ah, esqueci que desde o primeiro dia que eu pedi ele em namoro, todas as vezes que eu comentava sobre o Capitão América, ele terminava comigo.

— Também te acho bonito, Boo, ainda mais com esse corte de cabelo. Eu fico, uau!

Por mais que ele tentou se segurar, acabou soltando um sorriso envergonhado. Olhou para mim.

— Como assim, "uau"?

— Uau, tipo… "Eu não acredito que namoro esse homem por quase três meses e ele continua sendo ainda mais apaixonante a cada dia que passa, me fazendo sentir como se ainda estivesse com dezesseis anos."

— Voltamos! — Ele segurou minha mão novamente.

— Você é idiota!

— Por isso que você é apaixonado por mim.

— É, isso eu não posso negar.

Jeongguk pressionou seus lábios contra a minha bochecha, eu sorri, virando propositalmente o rosto.

— Vou voltar a assistir, tá? Gosto dessa parte. — Ele deixou um selinho no canto da minha boca e virou-se, descansando sua mão em minha coxa.

Eu encostei a cabeça no sofá, deixando a perna sobre a do Jeongguk. Eu estava um pouco pensativo, olhando os arredores, focando exatamente no local onde estavam nossas pinturas, uma ao lado da outra. E a que fizemos juntos, em um lugar espaçoso, guardado para ela.

Por que todas as vezes que olho para o Jeongguk-ssi, sinto uma imensa vontade de tocá-lo?

As minhas mãos não paravam quietas em um lugar. Por que esse filme não acabou ainda? Coloquei alguns fios de cabelo para trás de sua orelha, aproveitei e acariciei-a. Escutamos a campainha tocar, me ofereci para ver quem era, já tendo uma ideia que seria o Jimin-ssi.

— Veja no olho-mágico primeiro, tá? Vai que é sua madrasta doida.

Eu revirei os olhos e segui a até a porta, pus meus olhos no olho-mágico, vendo o rapaz ruivo com os cachorrinhos adormecidos no colo, com um olhar cansado e um sorriso simples nos lábios.

— Se divertiram? — Perguntei ao abrir a porta, cruzando os braços.

— Demais! — Disse um pouco sonolento, embaralhado. — E vocês também, né? — Eu assenti discretamente. — Seus safados!

— Fala baixo, Jimin!

— Sem brincadeira agora. Eu estou bastante feliz por você ter feito uma escolha sua, que lhe deixa contente.

— Eu também estou.

Ele soltou um bocejo alto, quase caiu para trás.

— Vai dormir, Jimin-ssi, obrigado! — Peguei os cachorrinhos de seu colo, e acenei. — Durma bem! — Ele acenou igualmente e saiu cambaleando.

Virei-me com os cachorrinhos nos braços, beijando-os.

— Olha isso, Jeongguk-ssi! — Disse com a voz um pouco aguda, derretido.

— Oh meu Deus! — Ele formou um bico, aproximou-se de mim e acariciou os cachorrinhos. — Eles não aguentaram, não é? — falou de uma forma carinhosa, deixando beijinhos em suas cabeças.

— Vamos colocá-los na cama.

Segui andando até o cantinho onde haviam duas caminhas separadas, prontas para os dois. Deitei-os delicadamente, acariciei os pêlos. Levantei-me e entrelacei os dedos, repleto de amores. Voltei para o sofá, observando o Jeongguk trocar de filme.

— Qual vai colocar?

— Qual você quer?

— Não sei se quero assistir outro filme, estou cansado.

— Ah, não, Taehyung, você não vai embora agora.

— Bateu sono, Jeongguk. — Cocei os olhos.

— Dorme aqui hoje? — Sugeriu. — Por favorzinho. Eu posso dormir no sofá se quiser.

— Mas eu não trouxe outras roupas, Jeongguk-ssi.

— Dorme pelado, ué! — Arregalei os olhos. — Tô brincando, eu te empresto minhas roupas, ué.

Após muito pensar, assenti. Em comemoração, ele deu várias palminhas e encheu meu rosto de beijinhos. Tenho certeza que agora estou sorrindo que nem um bobo.

— Mas se quiser dormir pelado e ainda por cima, comigo, eu não irei julgar…

— Jeongguk!

Meu rosto ficou igual a um tomate.

— Eu vou arrumar a cama. — Avisou, rindo. Levantou-se do sofá e sumiu do meu ponto de vista.

Espreguicei-me, dando um baixo bocejo em seguida, esperando que ele voltasse. Não demorou muito, ele retornou com algumas roupas em mãos e um roupão. Segui em passos curtos e preguiçosos até seu banheiro e comecei a me despir. A água morna molhando todo o meu corpo, fez-me acordar um pouco, tirando a preguiça que eu estava a minutos atrás. Ao terminar, enxuguei os cabelos e vesti a roupa que o Jeongguk havia me emprestado. Sentindo-me confortável, voltei à sala.

— Você já vai dormir, né? — Indagou, com a voz um pouco manhosa.

— Sim, vim te desejar boa noite, Gguk.

— Boa noite, Smurfinho!

Beijei sua testa e voltei ao seu quarto. Contudo, ao deitar em sua cama, meus olhos arregalaram-se e de forma alguma eu conseguia fechá-los. Talvez seja por causa das luzes apagadas, ou por causa de não ter algo para abraçar, ou porque aqui é muito frio. Levantei-me e retornei à sala novamente.

— O que foi? Não consegue dormir? — Assenti. — Quer que eu vá dormir com você? — Assenti outra vez.

Então, ele segurou em minha mão e levou-me até seu quarto, ligando as luzes. Arrumou o lado direito da cama e jogou-se de costas para cima. Começamos a rir de sua palhaçada.

— Vem, Taehyung-ssi! — Ele virou-se de lado, apoiando-se com a palma da mão.

Fui seguindo em passos curtos até dar o mesmo pulo que ele — com cuidado, é claro, não queria machucá-lo —, ficamos encarando um ao outro sem dizer uma palavra sequer, apenas aproveitando o silêncio. Isso durou até eu espirrar por conta do frio que fazia.

— Vou baixar a temperatura, espera! — Ele apanhou o controle do ar condicionado com as mãos.

Enquanto ele fazia isso, comecei a cobrir-me com o cobertor quentinho, ainda encarando-o. Assim que deixou em uma temperatura adequada, retornou à posição anterior.

— Essa vai ser nossa primeira noite juntos, certo?

— Sim.

Os meus batimentos cardíacos estavam bem agitados.

— Irei te deixar dormir. — Jeongguk virou-se para o lado contrário, desligando a luz do abajur que tinha em sua frente.

— Não, ma-maas, Jeongguk.

— Sim?

— Você pode me abraçar?

— Você quer dormir de conchinha?

Concordei com a cabeça.

— Por mim, tudo bem.

Eu aproximei-me mais dele virando-me de costas. Em segundos, senti seus braços rodearem minha cintura e sua respiração quente bater em minha nuca. Os arrepios importunos me preencheram e ainda mais quando ele arrodeou sua perna em meu quadril, buscando por mais contato. Virando-me para o lado, encarando o seu rosto vermelho, com a boca meio aberta e os olhos fechados. Peguei-me sorrindo, por fim, fechando os olhos e dormindo calmamente.

[🐾]

Ainda com os olhos fechados, espreguicei-me na cama, tocando no lado direito, procurando pelo moreno, este que não estava lá. Abri os olhos lentamente, para ter certeza. Com o bico formado nos lábios, segui para o banheiro. Demorei muito para sair, porque continuava na maresia de quando levantei. Nem mesmo o banho me acordou. Assim que cheguei na sala, fui recebido com a energia do Yeontan, que pulou em cima de mim, fazendo-me cair no chão.

— Pelo menos alguém acordou animado hoje. — Sentei-me no chão, alisando seus pêlos. — Cadê o Jeon?

Escutei uma voz vindo da cozinha, mordi o lábio inferior e deixei o Tannie com a Berry. Chegando na cozinha, vi Jeongguk perto do fogão, mexendo as panelas, encostei-me na parede. Ele estava tão… Uau. Com o cabelo preso por um elástico, uma camisa grande que cobria metade de sua perna e uma bermuda pequena. Ele estava concentrado, cantando baixinho uma música conhecida que saía pelo seu celular.

So baby, let's keep it secret, mm… — Balançou a cabeça de um lado para o outro, conforme a batida da música, cantarolando em seu próprio mundinho. A voz dele é tão perfeita. Não tem uma coisa que esse homem seja ruim.

Dei pequenos passos para próximo dele, não querendo estragar o clima. Faltando centímetros de distância entre nós, capturei-o com meus braços, apertando-o contra o meu peito.

— Puta merda, que susto, Taehyung! — Disse ele, entre risadas gostosas. — Feliz três meses, meu bem.

— Feliz três meses, Boo! — Larguei-o, deslizando meus braços por seu ombro e deixando um selinho molhado em sua bochecha. — Dormiu bem?

— Demais. Eu ia até te acordar, mas você estava muito… Espera, tenho foto! — Ele pegou o celular com a mão que estava vazia, procurou por alguma coisa e mostrou-me a tela do celular. Era eu dormindo. — Olha que fofinho, eu não iria acabar com isso.

— Apaga isso!

— Nunca! É meu papel de parede. — Deu uma risada pirracenta e deixou o celular na mesa.

— Estou me sentindo humilhado.

O moreno continuou rindo, desviando o olhar da panela e fitando-me, na maioria das vezes. Entediado, surgiu uma ideia em minha mente.

— Vamos dançar. É a melhor parte, vamos.

Ele pareceu não entender, até tentou reclamar, mas eu fui mais rápido e segurei seus braços, girando-o e balançando o corpo.

— Mas não é esse o ritmo da música, Taehyung. — Caçoou, tendo seu corpo girado pela vigésima vez. Sim, eu apenas sabia fazer isso.

Cause aa so into você, indo you, INDO YOOU! — Ignorei o que ele disse, fechando os olhos e sentindo as vibrações da música.

— Taehyung, canta baixo, você tá passando vergonha. Os vizinhos...

— Para de ter inveja, Jeongguk, um dia eu te ensino como cantar certinho.

Agora quem teve seu corpo girado — e os pés pisados também —, foi eu. A cozinha tornou-se um circo, preenchida de risos, resmungos, vozes emboladas e tentativas de coreografias. As bochechas doloridas de tanto sorrir, as cordas vocais falhando por conta do quão alto cantávamos. Até infelizmente a música acabar.

— A comida vai queimar… — Avisou.

— Estraga prazeres.

Ele voltou ao fogão, que por sorte não havia queimado nada e lançou um beijo voador em minha direção. Me peguei sorrindo, encarando cada ponto de seu rosto. Poderia alguém ficar tão fascinado assim? Ou alguém tem um rosto tão perfeito?

— Smurf, você está fazendo isso de novo.

— Fazendo o quê?

— Me encarando com uma cara de bobo.

— É que eu sou bobo por você.

— Que brega, Taehyung! — Franziu o rosto.

— Ei, não julgue minhas cantadas irresistíveis.

— Irresistível é somente você, nada mais.

— E eu que sou bobo, que mundo injusto!

[🐾]

Quando o sol deitou-se no mar, respirei fundo, deixando-me levar pela brisa gelada que atravessa os fios do meu cabelo. Afundei meus pés na areia, brincando com os dedos.

— Amor — Jeongguk me chamou. —, está na hora do meu presente. — Ele estava escondendo algo atrás de suas costas, aos poucos, foi trazendo para frente de seu corpo, engolindo em seco.

— O que é? — Perguntei curioso, inclinando a cabeça para o lado.

— Abre para ver! — Entregou-me o presente, que estava embrulhado com detalhes azuis, combinando com a cor desgastada do meu cabelo.

O mais novo estava nervoso, mordendo com força o lábio inferior, mostrando a intrusa covinha que havia em sua bochecha.

Para dar um devido suspense, abria lentamente, tentando não estragar a embalagem, nem o presente. Dei uma pequena espiada e vi o que parecia ser uma tela. Entregando-me a ansiedade, rasguei as outras partes, para que pudesse ver logo o que ele pintou.

— Jeongguk... — Disse surpreso, com os olhos arregalados, analisando cada parte da pintura.

— Você gostou?

— Eu adorei! Co-como foi que você...

— Eu apenas me lembrei do dia em que ficamos presos no depósito.

— Você lembrou de tudo! — Eu sorri, não deixando de encarar a pintura, passando meus dedos por todos os cantos.

— Como eu iria me esquecer? — Ele aproximou-se de mim, deitando a sua cabeça em meu ombro, acompanhando meu olhar.

— Eu te amo!

— Eu te amo, Smurfinho!

— Agora é a vez do meu. — Deixei o quadro sobre o meu colo, apanhando o celular com as mãos. Pude escutar sua respiração ansiosa, enquanto seus olhos observavam por cima de meu ombro. — Então, anjinho, é melhor você ver isso.

Ele pegou o celular de minhas mãos, aguçando a visão para enxergar o conteúdo, arregalando fortemente os olhos ao ver.

— Eu-eu não acredito! — Disse surpreso, boquiaberto, não desviando nem por um segundo seus olhos do celular.

— É verdade, eu conversei com um amigo meu e ele aceitou expor qualquer pintura sua na galeria mais famosa de Busan! — Apertei os punhos animado, esperando sua resposta. — Jeongguk? — Inclinei-me um pouco, para ver seu rosto por completo.

Em um pulo, ele levantou-se e deu vários pulinhos animados, balançou os punhos e deu um soco no ar, gritando vários palavrões e fazendo gestos obscenos.

— Jeongguk! — Disse rindo, ele fitou-me e sentou-se novamente.

— Eu tô feliz 'pra caralho! Como você sabia que esse era meu sonho de infância?

— Talvez seja porque alguém comentava sobre todos os dias. — Dei um soquinho em seu ombro. — E aí, já escolheu qual de suas artes vai ser a sortuda?

— Já! Mas eu ainda preciso terminar ela, olha só... — ele pegou seu telefone e mostrou-me outro quadro pelo qual possuía o meu rosto estampado.

— Mas é o meu rosto! Eu irei ficar envergonhado.

— Seu rosto merece ser admirado por todas as pessoas desse mundo!

Nem mesmo o blecaute da noite pode esconder os olhos brilhantes do Jeongguk, sorrindo de orelha a orelha, calado, encarando o meu rosto. Por mais que eu tentasse esconder em alguns meses atrás, sabia que seria ele o homem da minha vida. É um termo brega, eu sei, porém não achei outras palavras em minha mente, estava preocupado demais o beijando. Deitando sobre a manta que havia sobre a areia amarela da praia, sentindo um frio na barriga, arrepios nas pernas, alisando seus braços repleto de tatuagens. O som satisfatório do mar e os barulhos dos nossos lábios colados, sem contar a música que não saia de minha mente. Obviamente não transamos no meio da praia, porém de certa forma aproveitamos o calor um do outro. Nos amando por completo. Não importa quem ache ou não ruim, eu amo Jeongguk e sou completamente caidinho por ele.

10 мая 2021 г. 16:41:13 0 Отчет Добавить Подписаться
0
Конец

Об авторе

Miles love is mutual💖

Прокомментируйте

Отправить!
Нет комментариев. Будьте первым!
~