Короткий рассказ
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INEXORÁVEL

Eis que finalmente estava ali. Diante de meu destino. Hesitei por alguns segundos antes de atravessar...


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Nu e atordoado, me vi deitado ao chão imundo, num canto esquecido da mesma viela urbana. Minha pistola Glock G19 desaparecera. Os letreiros eletrônicos haviam sumido mas as construções de estilo gótico lá estavam. Um estranho objeto sujo e flexível atingiu meu rosto, impulsionado pelo vento cortante que me fustigava... aos poucos, a visão lentamente retornando, discerni sobre o mesmo um cabeçalho: Cambridge... datado de novembro de 1901!


Me recordei dos relatos sobre antigos jornais impressos e constatei ter retrocedido 151 anos... o portal cumprira sua função. Restava ainda uma esperança...


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Dezembro de 2052. Me chamo Pereira. Pereira A. L. Sou um doutorando do sul do Brasil, atuando na área de Física Nuclear. Meu sonho de me tornar um grande expoente no campo de eliminação de pragas e preservação de alimentos está se tornando um pesadelo. Vivemos dias sombrios, desde a eclosão do conflito nuclear entre Índia e Paquistão, há 14 meses atrás. As crescentes tensões geopolíticas entre Nova Delhi e Islamabad resultaram em inacreditáveis detonações nucleares. Mais de onze milhões de pessoas perderam a vida até aqui e por volta de cinco milhões de toneladas de fuligem foram lançadas à atmosfera.


O bloqueio parcial da luz solar fez a temperatura aqui na Europa cair em 1,5° C, o que resultou em redução dos índices pluviométricos. As colheitas foram afetadas. A importação de alimentos foi suspensa pelo risco de contaminação radioativa. A fome e o caos se instalaram. Casos de câncer hematológico, como linfomas e leucemias quintuplicaram, alavancados pela inalação da fumaça tóxica.


As verbas governamentais para as pesquisas foram cortadas. Minha bolsa também. Estou vivendo às custas de colegas da Universidade. A fome bate à porta de todos por aqui. Desesperado, resolvi pôr à prova a teoria de meu companheiro de quarto, o Dr. Mallet:


— Mallet, você acha que o dispositivo está pronto? Podemos acionar o feixe circular de laser?

— Pereira, só teremos uma chance! Desenvolvi uma espécie de temporizador e regulei para 140 a 160 anos atrás. Mas não temos fonte energética suficiente para outra tentativa.

— A distorção resultante no espaço-tempo criará um portal?

— Espero que sim! Mas com duração de poucos segundos.

— E você acha que Rutherford é o alvo certo?

— Sem dúvida! Foi o pai de toda essa desgraça... mas Pereira, você tem que saber: não há volta!

— Eh... mas... Ok... Mallet, aciona essa coisa!

— Adeus Pereira, que possa ter sucesso! Mas tem que ser lá fora, em área aberta.

— Deseje-me sorte!


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O5h29min. Novembro de 1901. Cruzamento Sidney St. com Green St. A distorção temporal casualmente me trouxe aqui antes da abertura do comércio. Um frio cortante me atinge e revela talvez uma sensação térmica de uns 08 a 10 º C. Contra todos os meus princípios sou levado a forçar uma portinhola mais frágil de uma antiga loja de roupas. Levo apenas o suficiente para não morrer de frio e lamento nada dispor para deixar em troca. Mas se meus propósitos forem atingidos as gerações futuras me agradecerão e ao Dr. Mallet, mesmo sem terem consciência disso.


Caminho algumas quadras e me deparo com as duas suntuosas torres a emoldurar a entrada central, destacando-se ao fundo da grande área gramada. Cambridge parece ainda mais majestosa, um século e meio mais jovem. Estranho pensar que eu ainda nem nasci, mas aqui estou, bem próximo de meu futuro local de estudos, o departamento de Ciências Físicas. Conheço os caminhos e confesso achar estranho ir à procura de grandes nomes da física que muito me antecederam, mas que aqui nesta época pisam sobre o mesmo chão e estudam abaixo do mesmo teto.


Me sinto um traidor. Um medíocre vingador do futuro a quem foi destinada uma gigantesca tarefa, tão asquerosa quanto necessária.


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Assim que o feixe concêntrico de lazer azul foi acionado, um zunido desagradável atingiu meus tímpanos. Um silvo persistente continuou até que o Pereira, após vacilar nos primeiros instantes, desapareceu no interior do círculo. A sensação que experimento agora é uma mistura de dever cumprido e comiseração pelo estagiário brasileiro, tão cheio de sonhos e com a vida ceifada pela tragédia nuclear.


Deveria eu mesmo ter atravessado o portal, mas quem mais conheceria a tecnologia e seria capaz de acioná-la? Meu avô, Dr. Ron Mallet, ficaria orgulhoso por seu neto ter dado continuidade às suas pesquisas sobre deslocamentos temporais, sem jamais chegar a conhecer porém, as condições terríveis em que seriam colocadas em prática.


Vivemos um pesadelo... a tecnologia não servindo a outro fim a não ser o de matar e destruir. Que Deus possa se apiedar de seus filhos toscos e iluminar o Pereira em sua tarefa, por mais abominável que possa parecer.


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1901. 09h38min. A movimentação em torno dos prédios da antiquíssima instituição já é bem mais intensa. Devo estar pelo início da semana, dados os semblantes pesados dos passantes. Nada de carros elétricos ou painéis 3D. O contraste é estupendo. Transeuntes em roupas vitorianas, com relógios de bolso e monóculos. Senhoras em pesadas vestes semicirculares e com chapéus vistosos, desviando-se dos excrementos de fezes animais oriundas das carruagens bem torneadas, puxadas por um único equino, transportando em torno de um ou dois passageiros cada uma.


Estranhos veículos maiores, semelhantes àqueles antigos bondes, mas com dois andares e puxados por um par de belos cavalos vão e vem. Rodas de madeira, com grandes aros, destacam-se à visão. Letreiros comerciais ornamentam os arcaicos meios de transporte e se confundem em meio a um engarrafamento absolutamente estranho. Um adolescente com um maço de jornais na mão, oferece a manchete do dia a plenos pulmões.


Por um instante me esqueço das angústias que carrego e chego a invejar estes tempos simples. Respiro o ar quase impoluto, porém empoeirado pelos cascos dos animais de carga, até que me espanto ao ver um veículo autopropulsado, sem cobertura e com belas rodas brancas, passar rangendo a poucos metros de mim. No brasão ainda consigo ler: “Oldsmobile – Olds Motor Works”. A tecnologia maldita dando seus primeiros passos... o que nos trouxe até o inferno que enfrentamos? Qual o motivo do mal uso de tanto conhecimento acumulado? Caio em mim e sinto falta do retrato desaparecido.


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Dezembro de 2052. 24h antes do deslocamento temporal:


— Pereira, aqui está o retrato impresso em alta resolução. Este é Ernest Rutherford. O físico-químico que você deve procurar.

— Mallet, por esta foto, com cabelos e bigode grisalhos, ele parece mais velho. Como vou reconhecê-lo?

— Pelos meus cálculos vai estar ente 21 e 42 anos. Você terá que se certificar. Um erro e estamos condenados... deverá estar nos Laboratórios Cavendish.

— Nunca fiz nada contra ninguém. Você está certo disso?

— Pereira, ele é o pai da Física Nuclear! Preciso dizer mais?


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1901. 10h38min. Como já disse, conheço os caminhos. Pouca coisa mudou. Descubro porém, no atropelo de minha procura insana que os Laboratórios Cavendish ainda estavam situados no centro de Cambridge, e não na zona ocidental, como em minha época. Interessante constatação, apesar de ter servido apenas para me atrasar e aumentar minha ansiedade.


Ao chegar e divisar as iniciais Sir J.J. Thomsom numa das portas centrais, não contenho a emoção. Ali está um futuro ganhador do Nobel de Física, e que tem como assistente outro futuro premiado com o de Química, a quem eu teria o infortúnio de... assassinar! Maldita tecnologia, que me torna carreador da consciência da finitude e da inconsequência humana.


Meus lamentos são bruscamente interrompidos pela aproximação de uma dupla de homens bem-vestidos, um deles aparentando mais idade e um outro mais jovem, por volta dos 30 anos. O mais velho, em tom professoral, discorre algo que prende sobremaneira a atenção do discípulo. Este tem o rosto comprido, olhos claros e nariz afilado, aliados ao volumoso bigode ainda não descolorido pelo tempo. Não há como duvidar: estou diante da versão jovem do desenvolvedor da teoria das desintegrações radioativas!


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Surge então o momento no qual os dois acadêmicos se assustam com a súbita invasão da sala por aquele homem desconhecido, pálido e esbaforido, falando um inglês com um estranho sotaque:


— Rutherford! Me perdoe mas você é um dos maiores responsáveis por nossa desgraça!

— Mas o quê? Quem é você? Como ousa invadir o laboratório assim sem permissão? — reage assustado Sir Thomsom.

— Professor, suma daqui! Este seu aluno, em poucos anos, vai criar a pedra fundamental de muitas tragédias nucleares... vai ser um dos responsáveis, senão o maior deles, por milhões de mortes!

— O que é isso homem, acaso estás louco? — Segurança, segurança — retruca o químico neozelandês, com outro tipo de sotaque, também carregado.


O estupefato cientista não tem tempo de gritar pela terceira vez. Salto sobre ele e o atinjo com uma pedra que havia guardado no bolso da calça. Golpeio-o mais duas vezes na fronte, antes de tentar sufocá-lo com as mãos limpas. Só então me dou conta de meu despreparo e amadorismo. Sou um pesquisador, não um assassino violento. O desespero me lançou a esta empreitada absurda. Ao ver o sangue e a cianose se abatendo sobre os lábios de minha vítima, instintivamente me encho de asco e o liberto de meu abraço mortal. Perco a consciência ao ser golpeado na nuca por Sir Thomsom.


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1901. Cerca de 24 h depois: um adolescente vende jornais na zona central da Universidade. Grita em altos brados:


— Extra! Extra! Homem louco com sotaque estrangeiro preso ao atacar acadêmicos no prédio de Ciências Físicas! Dr. Rutherford salvo por seu mestre! Extra! Extra!


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Março de 2053. Três meses após o deslocamento temporal do Dr. Pereira. Nada mudou, a não ser para pior. A fome e a poluição radioativa continuam por aqui e em todo o Reino Unido. Dizem que no resto da Europa a situação é tanto mais desesperadora quanto mais para o leste, pela maior proximidade à origem da catástrofe. Minha saúde rapidamente se deteriorou. Desenvolvi um tipo de linfoma agressivo e estou tomado por uma profusão de gânglios estufados, principiando a eclodir em secreção espessa e fétida.


Me consumo em remorso por ter escondido do estagiário brasileiro as teorias de Germain Tobar, formuladas há mais de três décadas. No fundo nutria esperança que o outrora promissor estudante pudesse estar errado. Infelizmente vejo que não. O espaço-tempo se adapta. Os acontecimentos seguem seu rumo. Inexoravelmente.


Caminho para a morte, sem descendentes, já que não tive filhos. Tanto melhor. Outro Mallet para herdar este horror? Passo e lamento pelo Pereira e por todos nós, miseráveis...


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Fevereiro de 1902. Prisão masculina de Pentonville, Londres. Ala de perturbados mentais. Dr. Brown, médico estudioso da recente especialidade a estudar a loucura e sua suspeita relação com a genialidade, analisa algumas anotações do interessantíssimo interno Pereira A. L.:


“Escapei da condenação à morte por ter sido considerado louco. Meus argumentos sobre os riscos das pesquisas sobre fissão nuclear foram ridicularizados. Não adiantou explicar de onde eu vinha e qual o motivo de minha ação violenta. Falhei miseravelmente. Pobres diabos. Não sabem o que o conhecimento irá produzir. Quanto a mim, só resta observar o que minha presença nesta época, à qual não pertenço, irá significar...”


Dr. Brown, excitado e satisfeito com o intrigante material que tem às mãos, se pergunta até onde a mente humana pode chegar em seus devaneios.











Obs:


Pequena homenagem ao Dr. Ron Mallet, astrofísico da Universidade de Connecticut, atualmente com 75 anos, entusiasta das viagens no tempo e ao estudante de física de Queensland-Austrália, Germain Tobar, o qual desenvolveu um modelo matemático que tenta resolver o paradoxo das viagens temporais.

Ernest Rutherford (1871-1937) – físico-químico neozelandês naturalizado britânico, premiado com o Nobel de Química em 1908 por suas investigações sobre “a desintegração dos elementos e a química das substâncias radioativas”. Conhecido como o pai da física nuclear.

Sir J. J. Thomsom (1856-1940) – físico britânico ganhador do Nobel de Física, responsável pela descoberta e identificação do elétron, primeira partícula subatômica descrita.

21 апреля 2021 г. 18:25:24 2 Отчет Добавить Подписаться
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Об авторе

Max Rocha Um Fantasma literário ou alguém que apenas gosta de escrever... me interesso por ficção histórica e científica, suspense, misticismo e mistério com um toque de humor. Às vezes enveredo pelo tom crítico e motivacional do cotidiano. Escrevo ouvindo música instrumental relacionada com o tema no Spotify, ao lado da Duda, minha cadela australiana de 5 anos. The Phantom (O Fantasma) foi criado por Lee Falk, em 1936.

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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Max! Tudo bem com você? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Eu ainda estou tipo (???) com esse final, sério, eu não consigo perdoar você por simplesmente ter deixado o final tão sugestivo como ficou. Que eu sou sua fã você já deve saber, mas toda vez que leio algo que você apresenta para a plataforma me pego sendo mais uma vez surpreendida pela originalidade e pelo conhecimento. Simplesmente fico muito encantada com a forma que você descreve os mínimos detalhes, deixando para que até mesmo pessoas mais leigas consiga compreender om facilidade o que você quer para a história e por qual caminho deseja levar o texto e o leitor. Você introduz o leitor no texto de uma forma tão simples, mas muito singular que meio que acaba fazendo com que o leitor torça para que aquilo acabe, ou de certo no final, o que é muito impressionante. Dispõe de uma intimidade diferente entre leitor e o texto em sim. Enfim, vamos lá. A coesão e a estrutura do seu texto estão muito boas. A narrativa está simplesmente impressionante e como eu disse, liga o leitor ao texto de uma forma única. Quanto à estrutura, pedi para que uma das embaixadoras fizesse uma pequena alteração na classificação de faixa etária d e acordo com as diretrizes de acordo com o Guia Prático do Ministério da Justiça se adequaria em “Não recomendado para menores de 12 anos” e se adequando com a qual o site disponibiliza, foi reajustada para 12+. Agora falemos sobre os personagens, é incrível como foi descrito a relação dos amigos, além de companheiros tinha aquela confiança mutua naquilo que estavam fazendo e se arriscando, acho que foi o ponto alto da história. Quanto à gramática, sua escrita está maravilhosa, acho incrível a forma que você impregna as palavras mais técnica de forma normal, deixando o texto mais enriquecido ainda. No geral, é um ótimo conto e que eu não vou superar tão cedo. Nos vemos em breve! Abraços.

  • Max Rocha Max Rocha
    Oi Isís. Se todos tivessem sua simpatia, o mundo seria mais leve. Seus comentários são música para meus ouvidos e me estimulam a criar sempre mais. Sabe, às vezes fico receoso de estar publicando muito por aqui e me bate uma dúvida: não estou enchendo a paciência?(rsrsrs). Quanto ao conto, penso que escrever sobre FC é muita responsabilidade, pois temos que pesquisar e passar fundamentação sem tornar a história maçante. Por isso, ao vc dizer que gostou, me traz a melhor sensação possível. Um grande abraço do Fantasma. May 02, 2021, 01:05
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