Короткий рассказ
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UMA VIAGEM E TANTO


Tudo que se lembrava parecia agora tão distante, preso em algum calabouço, confinado nos porões mais esquecíveis do universo.

Quando seus olhos se abriram, Alex enxergou pessoas. Não reconheceu nenhuma delas, porém. Eram todas adultas, algumas até com o rosto enrugado igualzinho a avó Maitê. Ele então olhou por cima do ombro, e logo ali atrás haviam mais alguns adultos, todos com o olhar perdido, tão assustados quanto ele. As pessoas permaneciam sentadas, e o próprio Alex demorou algum tempo para perceber que também estava. Ele logo se descobriu dentro de uma espécie de ônibus, e através das janelas nada se via, apenas um nevoeiro denso, como se as nuvens tivessem descido do céu e circulado todo o veículo. Aquilo não era ruim de se ver, e Alex achava que podia se habituar àquele sonho. Duas pessoas pareciam conversar logo mais a frente, uma ao lado da outra, e Alex sentiu um certo enjoo quando reparou no líquido que escorria da nuca de um dos sujeitos. Era de um vermelho vivo, quase escuro. O garoto não fazia ideia sobre o que conversavam, mas suspeitava ser referente a viagem.

Não se lembrava, porém, de ter entrado em algum ônibus de passeio, ou de ter sido levado até ali pelos seus pais. Seus pais não costumavam viajar, pois, Alex possuía o horrível hábito de viver internado em algum hospital. Ele passava dias deitado em uma cama ruim, comendo coisas ruins e sem gosto, com aparelhos fazendo BIP o tempo todo e com enfermeiros escrevendo em pranchetas todas as vezes que saíam do quarto. Alex detestava aquilo tudo. Já estava odiando, também, ficar sentado naquele ônibus esquisito, repleto de pessoas ainda mais esquisitas e de aparência doente. Passava por sua cabeça começar a chorar e chamar pela mãe, mas ela possivelmente deveria estar no trabalho, em pé diante de um quadro negro, ensinando crianças de oito anos como ele. Já o pai estaria com um capacete branco, apontando para cima, na direção de edifícios altos, comandando homens com barba e fortes. Pensava até mesmo em gritar, levantar de onde estava e correr na direção da porta, mas havia algo dentro de si que dizia que tudo ficaria bem, que era exatamente ali que ele deveria estar. Foi então que notou que alguém sentou ao seu lado. O banco inteiro se moveu, e Alex olhou para seu mais novo companheiro de viagem. Uma mulher com idade para ser sua avó, os cabelos grisalhos, rugas até onde se podia enxergar, os olhos terrivelmente brancos.

— Nossa, você é tão jovem — comentou a idosa, nitidamente abalada.

— Pensei que fosse cega, — falou Alex. Seu tio Sousa era um homem alto, sorridente, e os olhos dele eram iguais aos daquela senhora e ele não enxergava um caminhão diante de si.

A idosa sorriu e exibiu dentes falsos e brancos.

— Eu era. Mas aqui… Agora, a dor passou. Tudo fica para trás. As lembranças estão no bagageiro. Você vai pegá-las assim que chegarmos.

— Que chegarmos aonde?

A mulher ficou em silêncio. Seus olhos cegos apontaram para outra direção, e ela suspirou como resposta.

Ilda Dias passou seus últimos meses com um tubo enfiado no nariz, apenas ouvindo a voz de suas filhas e netas, e essas vozes diziam que a amavam e que tudo ficaria bem. Ela ainda se sente triste, como se não houvesse nada além do vazio, mas consegue entender que aquilo foi o melhor, que a dor e todo resto ficaram para trás. Ela sabe que em algum momento todos os seus amigos e parentes se reuniram diante de um caixão e rezaram por sua alma, depois jogaram flores e por fim, terra, mas ainda assim ela entendia. Era capaz de entender. Nutria esperanças de que assim que chegasse em seu destino, se encontraria com Olavo, seu parceiro de vida por quase cinquenta anos e que há mais de cinco já havia feito aquela mesma viagem após simplesmente dormir e não acordar. Estava ansiosa como uma adolescente no primeiro encontro, mas bem a seu lado estava um menino, magro, sem um fio de cabelo e com as bochechas encovadas. Ilda quase podia sentir o cheiro do câncer evaporando do corpinho dele. Como explicar tudo para uma criança? Ilda cuidou durante algum tempo de suas netas, enquanto suas mães precisavam trabalhar e estudar, e ela bem sabia o quanto era delicado lidar com crianças e principalmente com seus medos. Ela já havia notado o sujeito no banco mais a frente, com sangue escorrendo pela nuca; provavelmente foi assassinado com um tiro. Ela também sabia que o menino já notara o mesmo sujeito, mas duvidava que ele sabia sobre o que se tratava.

Procurou medir as palavras.

— Existe algum amigo, ou parente seu, que você não vê há muito tempo?

O menino pensou a respeito. Em seguida, disse:

— Meu avô, Jorge. Só o vi umas duas vezes, e depois minha mãe me disse que ele havia ido morar no céu.

— Sua mãe é uma pessoa muito inteligente. E se eu lhe disser que poderá ver o seu avô muito em breve. Ficaria mais tranquilo?

O garoto fez que sim com a cabeça, bem devagar, talvez percebendo (ou começando a perceber) o que estava acontecendo.

— Quer dizer que estou indo para o céu? — ele quis saber, e aquilo fez com que Ilda Dias sentisse vontade de chorar.

Ela repousou sua mão enrugada sobre a perna fina do garoto.

— Nós vamos para algum lugar. Mas não se preocupe. Nada de ruim vai acontecer. As lembranças boas estão no bagageiro, lembra? O resto se foi. Então, tudo ficará bem.

O garoto olhou para a janela (mais certo do que nunca de que aquele nevoeiro era mesmo uma grande nuvem), e imaginou como seria viver acima do céu, em algum lugar tão alto onde a dor jamais conseguiria alcançar.

— E a senhora?

— O que tem eu, mocinho?

— Existe alguém que não conversa há muito tempo?

Ilda Dias disse que sim, e durante muito tempo ela falou a respeito, até que o ônibus começasse a se mover e adentrasse ainda mais no infinito. Em certa altura, Alex notou que não havia sequer um motorista, e falou sobre aquilo com sua nova amiga de noventa anos.

— Não há necessidade de um, — falou a idosa, sentindo-se feliz outra vez. — o ônibus sabe exatamente aonde ir.


14 марта 2021 г. 15:53:58 0 Отчет Добавить Подписаться
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