dissecando Edison Oliveira

Ao sentar-se todas as manhãs na varanda de sua casa, um homem idoso passa a refletir sobre um cão que faz o mesmo na varanda do vizinho. Inconscientemente, ele passa a divagar sobre qual dos dois morrerá primeiro.


Короткий рассказ 13+.
Короткий рассказ
0
4.1k ПРОСМОТРОВ
Завершено
reading time
AA Поделиться

FIDELIDADE



De manhã bem cedo, Antony preparou sua omelete, bebeu seu café puro e sem açúcar, arrastou os chinelos até a varanda e lá sentou-se, a cadeira balançando suavemente na brisa de outono.
Ali, na rua menos movimentada do bairro (segundo a opinião do próprio Antony), não havia muito o que fazer quando se era uma criança, serelepe, um adolescente com hormônios em alta ou até mesmo um velho como ele, na casa dos oitenta, os cabelos ralos e os ossos latejantes. Sentar-se na varanda era uma tarefa diária, um compromisso com si próprio. A cadeira de balanço sempre estava ali, posicionada no ângulo certo, de modo que o sol atingisse apenas suas pernas quando estava sentado. Em dias de chuva, os pingos salpicavam a ponta de seus dedos, nada mais que aquilo, uma simetria que levou um certo tempo até ficar perfeita e incorporada ao clima. Era assim todas as manhãs naquela rua tranquila, e Antony não amava mas também não odiava, um meio-termo simplesmente satisfatório, uma vida pacata que certamente seria melhor com Sueli a seu lado. Com ela, poucas vezes Antony seguiu aquela rotina; Sueli não apreciava sentar-se na varanda. Achava sem graça, um tédio, uma coisa que apenas os velhos a beira da morte deveriam fazer. Ela estava lidando bem com a ideia de partir, mas toda vez que via o marido levantar da mesa após o café, arrastar o corpo até a varanda e jogar-se naquela cadeira, sentia um vazio apossar-se de seu corpo, uma tristeza repentina que lhe fazia querer chorar e às vezes até chorava enquanto lavava sua xícara. Vê-lo ali era enxergar o futuro, algo não tão distante, não mesmo, não com seu corpo frágil sendo devorado por dentro, e então olhava para a varanda e via o marido lá, sentando, uma única cadeira, sozinho, olhando para qualquer coisa que se movimentasse na rua. E hoje, dois anos após beijar a testa gelada da esposa e lhe dar adeus, Antony seguia com seu hábito, agora com muito mais frequência, sozinho de verdade, apenas ele, sua velha cadeira, a morosidade lá fora e… O cão insuportável do vizinho.

O cão tinha um bom porte. Pelagem escura, focinho sempre farejando, orelhas atentas. Quando Antony cruzava pela porta e deixava-se cair na cadeira, o via muito próximo, na varanda do vizinho. Não sabia o nome dele, muito menos de seu dono. O que sabia sobre o bicho era que ele não prestava.
Cães deveriam latir, rosnar, mostrar serviço, mas aquele passava o dia todo na varanda, deitado, lambendo as próprias bolas, coçando, roendo entre as patas. Às vezes, o cão olhava diretamente para ele.
Ficava ali, deitado, farejando na sua direção. Antony achava aquilo ridículo. O bicho já o havia visto centena de vezes, cheirado seu cheiro, decorado sua rotina. Não havia nada de novo para farejar, exceto talvez o odor suave dos pomares ali perto, da grama que crescia demasiado depressa ou do ar cada vez mais poluente naquela região do bairro. Mas o nariz dele apontava para Antony. Ele percebia. Movia-se em sua direção, e então as orelhas dele se agitavam. Por alguma razão o movimento das orelhas era um indicativo. Antony olhava para ele com rancor, passava boa parte de suas manhãs assim, encarando o cão e o cão o encarando, e algumas vezes, um fingia não notar o outro, mas ambos sabiam que o outro estava ali, nada distante, observando e esperando. A espera, Antony deduziu pouco depois, só podia ser a mesma por parte dos dois; ambos queriam saber quem morreria primeiro.

Ele escutara o dono do cão chamá-lo de Falco, e agora Antony já sabia o seu nome. Falco. Nome estupido, Antony achou. O cão escutou o dono lhe chamar uma segunda vez e permaneceu onde estava, apenas abanando o rabo como resposta. Instantes depois, um sujeito jovial, apenas de bermuda, surgiu na varanda e agachou-se ao lado do cão. Ele acariciou suas costas e o bicho retribuiu lambendo sua mão. Antony achou aquilo repulsivo. Sabia que, não muito antes, aquela mesma língua estava lambendo duas bolas pulguentas. O sujeito resmungou qualquer coisa e só então percebeu seu vizinho carrancudo. Ergueu o braço e lhe deu bom dia. Antony assentiu.
— Manhã agradável, não é? — disse o rapaz.
— Até que sim.
— Mas, vendo aquelas nuvens ao sul, suponho que venha chuva até a noite.
Antony não disse nada. Detestava quando alguém lhe falava sobre o tempo, como se todo velho só soubesse falar sobre isso. Após um breve silêncio, o sujeito mudou o assunto.
— Este não anda bem, — falou, apontando com a cabeça para o cão. — Fazem dois que não se alimenta. Passa boa parte de seu tempo deitado, como se… Bem, apenas isso, sabe? Isso me deixa triste.
— Ele parece bem para mim.
— Impressão.
— Até a pouco estava me encarando. Faz isso sempre.
O jovem sorriu.
— Ele reconhece o senhor. São vizinhos a anos.
— O que ele tem de errado?
— A idade, — disse o rapaz, e Antony franziu o cenho.
— Estar velho não significa estar mal.
— Claro que não, eu não quis… Ouça, me desculpe. O que quis dizer é que para um cão, ele já está velho demais.
— Pode ser, — resmungou Antony, levantou-se e voltou para dentro de sua casa, batendo a porta logo em seguida.

Mais algumas manhãs se iniciaram, avançaram e se foram, sempre com a melodia monótona daquela rua tranquila, com crianças correndo da escola para casa, às vezes aos gritos e em outras em completo silêncio, o ar abafado, úmido que entupia as narinas e fazia pigarrear. Nessas manhãs corriqueiras, Antony fez o que costumava fazer, descobriu que seu vizinho chamava-se José (algo que honestamente ele nunca se importou em descobrir) e que o cão já era de sua posse há quatorze anos. Tempo demais.
Para se estar com alguém ou para a idade de um cão. Aquilo equivalia a quase noventa anos, segundo seu jovem dono, que se mostrou muito amoroso e solidário com a saúde do bicho. O cão não fazia muito mais que levantar todas as manhãs, esperar o dono abrir a porta e cair deitado na varanda. A rotina era semelhante a de Antony, e isso o incomodava, lhe fazia pensar em coisas que não costumava pensar desde que Sueli se fora naquele setembro tenebroso. Pensar na morte era coisa de velho, ela costumava dizer, e isso era uma verdade engraçada na época, mas agora, com um vizinho peludo tão velho quanto, com um dono jovem e musculoso que já admitira que aquela idade é avançada demais, onde estava a graça naquela verdade? Ele seguia sentando na varanda mesmo assim, encarando o cão, pensando que ambos viveram outra manhã para ver um ao outro, farejar a vida, sentir a brisa e enxergar o mundo terrivelmente mais distante. Seriam os ossos do cão doloridos como os dele? Ele sentia a mão fria da morte cutucando, assim como Antony sentia às vezes, em seu ombro?
Era tanto para pensar, e aquilo magoava, irritava, fazia-o desviar o olhar e quando dava por si lá estavam seus olhos novamente, apontados para o cão, que retribuía com seu aspecto doente. Desejou estar vivo dali dez anos, sentado na varanda, olhando para o lado e não vendo mais aquele bicho por ali, pois dez anos a frente era uma vida impossível para ele, mas não seria também impossível para Antony?
Não. De jeito nenhum. Não havia problemas com sua saúde, nada alarmante, nada de caroços ocultos ou veias entupidas, tonturas ou desmaios repentinos. Seus ossos doíam, às vezes, mas em sua idade era mais que normal, nada preocupante, não se comparado aquele cão cada vez mais magro, com costelas a mostra, pernas trêmulas e orelhas não tão atentas. Ele agora cagava na varanda, apenas se arqueava e fazia ali mesmo, e doía, devia doer, pois, ele grunhia e depois deitava quase em cima da própria merda, sem se importar, apenas esperando e esperando.
A vida não era mais um objetivo para aquele cão, pois ele não estava vivendo, sobrevivia, simplesmente. Seu dono jovem e saudável admitiu em uma rápida conversa que pensara em sacrificá-lo, em levá-lo até uma clínica especializada e pagar para fazerem o serviço de Deus, e aquilo deixou Antony surpreso, pois, não imaginava que aquilo era possível neste país. Não sabia o que pensar sobre o assunto, não tinha uma opinião formada a respeito, apenas queria seguir com sua vida, com sua rotina chata, de velho, mas sua, algo que podia chamar de seu. E além do mais, já era desagradável demais pensar naquele tipo de coisa. O ideal era sentar-se na varanda e pensar em coisa alguma, sentir que estava vivo, administrar o hoje. Foi assim que pensou e repensou, até que novembro deu as caras, com seus dias ensolarados, abafados e febris. Em uma manhã daquelas, Antony terminou sua omelete, lavou sua xícara onde antes havia café e empurrou o corpo até a varanda. Ouviu alguns pássaros, algumas risadas das pessoas na rua, sentou-se na cadeira de balanço e se sacudiu de leve.
Olhou para a varanda do vizinho. Não havia cão algum ali. Aquilo não queria dizer nada, pois às vezes ele saía até ali primeiro, às vezes, não. Ignorou e esperou, mentindo para si mesmo que não se importava. Minutos depois, a porta da casa vizinha se abriu e de lá saiu apenas o jovem, cabisbaixo. Nenhum cão a sua frente, abanando o rabo ou farejando o chão. O jovem bocejou e lhe acenou com a mão. Antony assentiu, em silêncio. Aguardou por mais uns minutos e quando finalmente compreendeu o que havia acontecido, sentiu-se estranhamente sozinho. Havia vencido uma guerra particular, uma luta enfadonha, mas, não deu importância. Não sentiria falta do cão, mas talvez de seu significado. Acompanhou o jovem se sentar, e quando percebeu estava conversando com ele. Falaram sobre o calor, o tempo, a monotonia. Não disseram uma palavra sobre o cão.
Antony achou melhor assim.

8 сентября 2020 г. 18:23:25 1 Отчет Добавить Подписаться
4
Конец

Об авторе

Прокомментируйте

Отправить!
Wesley Deniel Wesley Deniel
Como sempre, pertinente, tocante e reflexivo. Esta em especial me fez pensar em nossa mortalidade, na de meu herói, meu pai que perdi há quase dois anos, em nossas filhinhas de patinhas aqui em casa, que amamos mais que, tenho certeza, muitos pais amam seus filhos e também em minha própria existência - algo vazia, meio conformada com a perspectiva do fim. Talvez um dia conversemos, sei que não é um homem dado à corresponder-se, respeito isso. Mas sua escrita realmente toca as pessoas. É sucinta (coisa que não consigo ser (tanto que escrevo novelas ao invés do contos a que me proponho - quando não romances, como "Os Pântanos têm olhos", que comecei como um conto e terminei com uma história de mais de 200 pgn), mas é exatamente em seus contos curtos que reside seu brilho. Já lhe disse certa vez que o tenho como um Neil Gaiman brasileiro, que deveria montar uma coletânea e repartir todas estas pequenas maravilhas com o mundo e, tenho-o também como um amigo silencioso. Assim seguimos.
~