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embaixada-brasileira Inkspired Brasil Era uma vez... mas nem toda história começa assim. Lá estava ele: o computador, aberto no tear de vidas. E a personagem. Estava tudo certo, mas, então, ela viu o autor. Curiosa, seu dedo quase o alcançou, e a roda do tear girou. Foi assim que as coisas se tornaram tênues: um toque e tudo daria errado, outro diferente e daria muito certo! A Bela Adormecida representa a fragilidade dos elementos construtivos da história. Uma história não vem pronta, ela é construída com enredo, sinopse, capítulos... O tear representa essa construção, enquanto que a agulha é o perigo de tudo desandar com sua Bela Adormecida. Nós queremos, neste blog, mostrar a vocês dicas para que consigam tear histórias cada vez mais harmônicas.

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Descrições e “On”, “Off”, “Pov” e “Flashback”

Olá, pessoas! Tudo certo?


Agora que você já sabe um pouco sobre a ambientação, não podia deixar a descrição de fora da nossa linha de coisas a serem vistas. Muitos escritores abrem mão da descrição, tanto de cenários quanto de personagens; como exemplo, posso citar um livro maravilhoso, do autor Heinrich von Kleist, chamado A Marquesa de O. Nesse livro, para se ter uma ideia, temos o nome de apenas um personagem, os demais são citados através de títulos e características; ainda assim, é um livro maravilhoso.


Diante disso, vem a pergunta: a descrição é necessária?


Para responder, terei uma ajudinha:


“Quanto ao trabalho da encenação, a arte do cenógrafo tem mais importância que a do poeta.”

— A Poética de Aristóteles, capítulo VI (Da tragédia e de suas diferentes partes)


Acredito que isso não só responda à questão, como seja também muito explicativo por si só. Ainda assim, esclarecerei os fatos!


O narrador, para a história, é equivalente ao cenógrafo para o teatro. Na literatura nada é desperdiçado, a não ser que seja algo completamente sem utilidade dentro da narrativa; nesses casos, precisamos usar uma “pinça” para fazer a seleção dos fatos que são essenciais para o enredo. Simplificando: se algo está maravilhoso na narração, mas não possui significado algum para a história, não acrescenta nada aos personagens, então pode ser considerado desnecessário; por isso precisamos verificar com cuidado cirúrgico os fatos. Enfim, vamos ao cenário propriamente dito agora.


Existem inúmeras utilidades para um cenário, ele não serve apenas para mostrar o espaço físico onde os personagens se encontram, mas também para modificar situações, linhas de pensamentos. Por exemplo, um personagem que está passando por um momento conturbado pode apresentar um cenário, já antes descrito, de forma confusa, tudo para mostrar seu estado de espírito. O cenário também pode ser usado para desviar a atenção do leitor, por exemplo, em romances policiais. Uma caneta pode estar em um lugar justamente para apontar um fato, uma poltrona pode ter sido movida por algum motivo específico (neste último, vale lembrar a poltrona movimentada no romance policial O assassinato de Roger Acroyd ou no novelo de lã e cortina desaparecidos em E não sobrou nenhum, ambos da autora de Agatha Christie, ou até o gosto de peixe na água de Nicolai em Gravidade da autora Tess Gerristsen). Ainda nesse pensamento, devemos levar em conta todos os cinco sentidos dos personagens. Essa tática de explorar olfato, visão, tato, paladar e audição é chamada de sinestesia.


Para criar um cenário, basta se lembrar de locais por onde esteve e levar em conta que você não apenas vê as coisas, você sente, ouve, cheira. Qual seria o cheiro de uma cena de crime onde um corpo foi encontrado? Todas essas coisas são percepções que transportam o leitor direto para a história, por isso e muito mais é, sim, importante a descrição de cenários em uma história.


Algumas pessoas, talvez por receio de descrever ou por se acharem incapazes, dispõem de fotos como artifício de descrição, disponibilizando-as para os leitores. Esse tipo de descrição não é apenas falso, por sequer estar diretamente inserido na narrativa, como também retira toda a possibilidade de o leitor imaginar certas coisas à sua própria maneira; ou seja, limita a imaginação. O interessante seria usar a foto que você tem do local como base para descrever os elementos da história.


Agora, como essa descrição será feita depende apenas de você, do seu narrador, e do tipo de história que você escreve.


Ah, Karimy, como assim?


Calma! É simples! Se sua história é mais leve, vale pensar em uma descrição suave, até mesmo se valendo do movimento e olhar do personagem (pense em uma câmera — o que seria ponto de vista); agora, se sua história for um pouco mais agressiva, vale jogar uma descrição mais pesada, longa, porque o tipo de história admite isso. Darei a vocês um exemplo de ambos e, para começar, mostrarei uma cena em que Cassie, em a 5ª Onda, de Rick Yancey, mostra sua rotina sendo quebrada e que percebe isso graças ao cenário que já conhecia tão bem.


Assim que passei pela estilhaçada porta frontal do posto, soube que algo estava diferente. Eu não vi nada diferente. A loja parecia exatamente igual à semana anterior, com as mesmas paredes grafitadas, prateleiras reviradas, chão coberto com caixas vazias e fezes de rato secas, caixas arrombados e geladeiras de cerveja saqueadas. Era a mesma confusão nojenta e malcheirosa que eu atravessava a cada semana havia um mês para chegar ao depósito atrás das gôndolas refrigeradas.

— 5ª Onda


A descrição é simples, objetiva, além de não muito abrangente. Isso porque, como disse, a história está mostrando um momento de relativa tensão: ela sabe que tem alguma coisa errada, mas não entende o que possa ser. Além do mais, se você já leu esse livro, sabe que existe um pouco mais desse cenário, só que ele foi intercalado com as impressões e pensamentos da personagem, justamente para não deixar a descrição em primeiro plano: o importante nesse momento é que tem alguma coisa de errado acontecendo, não o cenário que ela já conhece.


Um forte contraste pode ser visto em O senhor dos anéis: A sociedade do anel, de J. R. R. Tolkien; poderia pegar vários exemplos, mas como eu adoro os Hobbits e a paixão pela comida que eles têm, peguei um trechinho que mostra a mesa sendo retirada:


A noite passou lentamente. O sol nasceu. Os hobbits acordaram muito mais tarde. A manhã passou. Pessoas vieram e começaram (por ordem de alguém) a retirar os pavilhões e as mesas e cadeiras, e as colheres e facas e garrafas e pratos, e as lanternas, e os arranjos de flores em caixas, e os restos de papel de bombinhas, e bolsas e luvas e lenços esquecidos, e a comida que não tinha sido consumida (um ítem muito pequeno). Então várias outras pessoas vieram (por ordem de ninguém): Bolseiros e Boffins, e Bolgers, e Túks e outros convidados que moravam ou estavam hospedados em lugares próximos. Por volta do meio-dia, quando até os mais bem alimentados estavam a todo vapor novamente, havia uma grande multidão em Bolsão; não convidada, mas não inesperada.

— Senhor dos anéis: A sociedade do anel


São descrições bastante diferentes, não é mesmo? E, perceba, a descrição poderia ser facilmente substituída por algo como: “...a retirar os pavilhões e tudo o mais que havia lá dentro”, mas isso não aconteceu, porque ali era o lugar da comilança, e os Hobbits ficam de olho na comidinha preciosa deles, inclusive é mostrada a saída dos garfos, dos restos de papel de bombinhas (Hobbits também são bagunceirinhos), a comida que sobrou (que era muito pouca), então você percebe que essas coisas não foram simplesmente escritas, elas foram notadas e depois relatadas. Com certeza tinha mais coisa acontecendo, mas só aquilo que era importante no ponto de vista do narrador que foi mostrado, o que já nos dá pistas sobre quem é o narrador, inclusive.


Olhando um pouco mais para os personagens, a descrição de suas características físicas e vestimentas também são importantes. O critério para a apresentação também é o mesmo. Se sua história é mais leve, também vale uma descrição mais leve, mas se sua história for mais pesada, uma descrição marcante pode ser uma coisa boa, pode preparar o leitor para certas situações e impressões.


Uma Oneshot sobre Game of Thrones que escrevi mostra um pouco dos dois tipos de descrição. Isso porque existem apenas dois personagens centrais, um com um peso enorme na narrativa e outro um pouco mais solto, mais leve, mas mostrarei um de cada vez para que você perceba isso. Primeiro, vamos à apresentação de Daenerys:


Usava uma luva de lã cinza, uma bota de pele de lobo da mesma cor, e sua túnica era tão branca como o gelo que os cercava, cravejada de botões de lápis-lazúli. Usava uma calça de sedareia, também branca, e seus cabelos prateados estavam presos para trás, sem seus sinos. Devia tê-los pedido para Irri. Aqui, de frente ao lago congelado, sentia-se pequena, e os sinos a ajudariam a se lembrar de quem era. Mãe dos dragões.

— O frio que rasteja


A descrição da personagem é mostrada de forma genérica, isso porque ela não é feita em um todo, mostrando, primordialmente, a roupa que usa e seus cabelos. Isso porque resolvi mostrá-la devagar, com suavidade. Depois você verá mais características dela, seus olhos; inclusive, a verá em outra roupa, um tokar. Apesar de ser mãe dos dragões, a personagem é delicada e essa delicadeza está sendo mostrada de várias formas, inclusive na sua descrição.


Ao contrário dela, O Rei da Noite é mostrado de maneira mais brusca, forte, isso porque a presença dele vem acompanhada de todo um peso de insanidade, insensatez, desespero. Veja só como se dá a apresentação dele:


Alto e imponente, um ser surgia. Enquanto as peles dos caminhantes brancos eram congeladas, a dele era o próprio gelo. Olhos em um azul profundo, morto e ao mesmo tempo vivo o suficiente para fazê-la sentir-se pequena. Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes. A armadura era gelo em aço polido, reluzindo mesmo sem que o sol o beijasse, bebendo o frio. Em sua cintura, uma espada pendia, em vez de guardada em couro, era mantida por uma espécie de diamante congelado; tudo nele era puro gelo mentiroso, fingindo ser aço e carne. Pequenos chifres brotavam da cabeça dele, apontando para trás. Linhas finas marcavam seu rosto, como se fossem rugas ou cicatrizes de batalha, e os lábios finos e largos eram duros, secos, firmes, e de suas mãos garras negras brotavam de onde deveriam sair as unhas, eram como as garras de Drogon. Mesmo sem uma coroa, ele reinava. Dany tremia.

— O frio que rasteja


A descrição dele não mostra apenas como ele é, mas também como ele anda, perceba: “Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes”. A falta da conjunção “e” antes de “fortes” é justamente para marcar o ritmo do caminhar dele, leia em voz alta, isso sempre ajuda a perceber a sonoridade da escrita. A aparição também é mostrada através da confusão que a aparência toda dele causa, confundindo carne com gelo, aço com gelo, mentira com verdade. No seu todo, mostra não apenas como ele é, mas o que sua presença causa.


Perceba que a construção da descrição dos dois é feita usando comparações (“branco como gelo”) e a fusão de elementos (“era gelo em aço polido”). Veja também que para apresentar ambos os personagens não foram utilizados adjetivos desnecessários.


Se você não conhece os adjetivos e as conjunções, recomendo que dê um pulinho nas aulinhas do blog Esquadrão da Revisão. A gramática é muito, muito importante para um escritor.


É muito difícil casos em que utilizo adjetivos para descrever personagens ou cenários, isso porque cada um tem um modo de perceber as coisas, então o que pode ser lindo para uma pessoa pode ser feio para outra, pense em uma descrição assim:


Os olhos dele eram lindos, a boca, perfeita. Seu corpo era como a visão do céu. Ah, e o sorriso, o sorriso era simplesmente magnífico, nunca vi nada parecido em toda minha vida. Então, decidi, era com ele que deveria me casar.

— Situação hipotética


Acredite, descrições desse tipo são bastante comuns. Acontece que, pense bem; “Os olhos dele eram lindos”: algumas pessoas acham olhos verdes bonitos, outras preferem negros, e assim por diante. Algumas pessoas possuem os olhos grandes, outras, estreitos, pequenos. Existem pessoas de olhos puxados, caídos, olhos mais juntos, olhos separados, olhos estrábicos, enfim, uma infinitude de possibilidades e, da mesma forma que essa lista é grande, também é grande a lista de gostos pessoais, que se diferem de pessoa para pessoa. Tem gente que acha um tipo de olho mais bonito do que o outro: a pessoa interpretará, portanto, seu personagem de acordo com o gosto dela ao ler isso ou simplesmente não interpretará de forma alguma.


A mesma coisa com a boca, o corpo e o sorriso. Não adianta adjetivar seu texto do início ao fim. Se você não der uma visão clara daquilo que mostrará, teremos apenas impressões, mas nunca, de fato, saberemos como os personagens são ou o cenário é.


Uma escritora que tem descrições limpas é a J. K. Rowling. Confira a descrição de Hagrid e Rony, respectivamente, no primeiro livro da saga Harry Potter:


Um homem gigantesco estava parado ao portal. Tinha o rosto completamente oculto por uma juba muito peluda e uma barba selvagem e desgrenhada, mas dava para se ver seus olhos, luzindo como besouros negros debaixo de todo aquele cabelo.

(...)

Ela apontou o último filho, o mais moço. Era alto, magro e desengonçado, com sardas, mãos e pés grandes e um nariz comprido.

— Harry Potter e a Pedra Filosofal


Como já foi dito, alguns escritores possuem um pouco de dificuldade para fazer a transição de um ponto de vista para outro e mostrar situações que ocorreram em diferentes momentos da narrativa, a digressão. Entendo. São coisas que realmente exigem bastante atenção e trabalho, mas depois de um tempo, podem ser feitas de forma natural.


Para ajudá-lo um pouquinho com relação a esse assunto, você verá agora sobre “On”, “Off”, “Pov” e “Flashback” em uma história.


Começo essa parte com uma declaração pessoal: deixei de ler muitas histórias por causa dessas marcações, principalmente quando comecei a ler fanfictions. Motivo: é confuso, eu me sentia um peixe fora d’água!


Além dessa revelação pessoal, os recursos “On”, “Off”, “Pov” são usados em situações óbvias e são claramente desnecessários. Quando o personagem está pensando, não precisa colocar “pensamento on” para dizer que aquele é o pensamento, nem mesmo “pensamento off” para marcar o fim da reflexão. Isso pode ser dito de forma muito mais simples e limpa usando aspas, itálico, travessão, e pode até ser introduzido sem nenhuma marcação, se sua história for em terceira pessoa.


Quando mais de um personagem narra a história, alguns autores também utilizam esse recurso, além do “Pov”, quando poderiam apenas transferir a visão de um personagem para o outro com suavidade, se em terceira pessoa. Agora, se a história for em primeira pessoa, você pode fazer um capítulo para cada personagem ou quando um personagem terminar e outro começar, fazer um “subtítulo” com o nome do personagem que narrará em seguida. Não há muito mistério, tira toda a poluição da história e ainda deixa a narrativa mais fluida.


Para exemplificar, mostrarei a passagem em que Richie, personagem do livro It, A Coisa, de Stephen King, está no cinema com Beverly e Ben. O parágrafo começa com Richie e isso fica ainda mais claro porque é ele quem chama o Ben de “Monte de Feno”, mas depois a narrativa passa para o ponto de vista de Ben e isso é muito nítido, pois a introdução é feita pelo esquecimento do Ben.


Ben ficou muito calado durante a sessão. O velho Monte de Feno quase tinha sido visto por Henry, Arroto e Victor mais cedo, e Richie supôs que era isso que o perturbava. Mas Ben já tinha esquecido os calhordas (eles estavam sentados perto da tela no andar de baixo, jogando caixas de pipoca uns nos outros e gritando). Beverly era o motivo do silêncio dele. A proximidade dela era algo tão intenso que ele quase estava se sentindo mal. Seu corpo ficava todo arrepiado e, se ela ao menos se mexesse na cadeira, sua pele ficava quente, como se com febre. Quando a mão dela roçou nele à procura de pipoca, ele tremeu de exultação. Depois, pensou que aquelas três horas no escuro ao lado de Beverly foram as mais longas e mais curtas de sua vida.

— It, A Coisa


A situação, além de ter mostrado que o Ben não estava mais preocupado com os “valentões”, ainda deixa bem claro o quanto o sentimento dele pela Beverly é intenso, mesmo que para uma criança. Imagine se tivesse usado “Pov” ou “On”, “Off” na narrativa! Ele teria não apenas desacelerado os acontecimentos, causando uma grande interrupção no ritmo, como também teria “matado” a narração e o clima criado por ela.


Ainda nesse caso, existe “Narrador on/off”, “Pov narrador”: misturar primeira com terceira pessoa em um só capítulo não é nada bacana, além de causar uma confusão de “vozes”. Se você quiser usar dois narradores diferentes, três, quatro, você pode simplesmente usá-los em capítulos diferentes. Na minha fanfiction Grãos de areia, uso esse recurso: um personagem é marcado pela narração em primeira pessoa, enquanto outro é marcado pela terceira pessoa, cada um em um capítulo. Você também poderá ver esse recurso sendo usado em alguns livros, como em Questões do coração, da autora Emily Giffin.


O caso do flashback também traz alguns problemas, porque ele não é necessário em uma história. Em alguns casos, o uso dele pode ser justificado, como em histórias cômicas, quando um personagem arregala os olhos, abre a boca, fica tenso e... flashback! Podemos ver muito isso em filmes de comédia, mas em narrativas mais sérias, em romances, isso já não é legal justamente porque, assim como os “Pov”, quebra o ritmo da história.


Se você quer mostrar o sonho do personagem, não precisa dizer que ele sonhou, que foi um pesadelo, que foi um sonho bom e depois enfiar um “flashback” no meio da história. Ou, em alguns casos, um “flashback on/off”. Para não o deixar sem exemplo, mostrarei a você uma das inúmeras construções que retratam um sonho em Guerra dos tronos, da saga As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin:


Não demorou e Bran adormeceu. No sonho estava de novo escalando, alçando-se para o alto numa velha torre sem janelas, forçando os dedos entre pedras enegrecidas, com os pés lutando por um ponto de apoio. Escalou mais alto, e mais alto ainda, atravessando as nuvens e penetrando no céu noturno, mas a torre continuava a erguer-se à sua frente. Quando fez uma pausa para olhar para baixo, sentiu a cabeça girar, entontecida, e seus dedos escorregarem. Bran gritou e agarrou-se à vida. A terra estava a mil milhas de seus pés, e ele não sabia voar. Não sabia voar. Esperou até que o coração parasse de saltar no peito, até poder respirar, e recomeçou a escalada. Não havia caminho que não fosse para cima. Bem alto, delineadas contra uma lua esbranquiçada, parecia poder ver formas de gárgulas. Tinha os braços machucados, doendo, mas não se atrevia a descansar. Forçou-se a subir mais depressa. As gárgulas o observaram. Seus olhos brilhavam vermelhos como carvões quentes num braseiro. Talvez tivessem sido leões antes, mas agora estavam retorcidas e grotescas. Bran conseguia ouvi-las segredarem umas às outras em suaves vozes de pedra, terríveis de ouvir. Não devia ouvir, disse a si mesmo, não devia ouvir; desde que não as ouvisse, estaria a salvo. Mas, quando as gárgulas se libertaram da pedra e percorreram o lado da torre até onde Bran se agarrava, compreendeu que afinal não estava a salvo. “Eu não ouvi”, choramingou, enquanto elas se aproximavam cada vez mais. “Eu não ouvi, não ouvi.” Acordou sem fôlego, perdido na escuridão, e viu uma vasta sombra que se erguia sobre ele.
— Não ouvi — sussurrou, tremendo de medo, mas então a sombra disse “Hodor” e acendeu a vela ao lado da cama, e Bran suspirou de alívio.

— A guerra dos tronos


Como pode ver, o sonho foi introduzido de forma simples: ele estava sonhando, é isso e ponto! Na vida real também é assim, não temos um “flashback”, “Pov”, “On”, “Off” que nos diga que estamos sonhando, falando ao telefone, pensando ou demais coisas. Já escrevi aqui uma vez e volto a repetir: o simples em uma narrativa é algo bom. Agora, se sua intenção for a de provocar uma retirada do leitor dos acontecimentos, mudar um pouco o foco narrativo ou até mesmo introduzir elementos diferentes, em vez de usar algo mais suave para introduzir o sonho ou outra coisa, você pode colocar as letras em itálico ou pôr a referida construção em aspas. Como exemplo disso, temos o livro Alien — surgido das sombras, escrito por Tim Lebbon, em que existem, sim, introduções suaves, mas todas as vezes que a Ripley tem um lapso de memória ou sonha, isso é apresentado não só com o itálico como também com a mudança verbal, que passa de passado para presente. É realmente um puxão no leitor, como se o tirasse de um lugar e o deslocasse instantaneamente para outro. E isso é até simples de ser entendido: é o que a Ripley sente quando alucina com Amanda; é puxada de repente, sem avisos.


Para mostrar uma digressão (um personagem relembrando o passado), você também não precisa do flashback, você pode simplesmente introduzir a regressão na narrativa de forma suave: se for parar para pensar, é assim que nossa mente funciona quando estamos nos lembrando de algo, não pensamos “flashback” e lembramos, o pensamento vem com simplicidade e facilidade, não precisa do susto de uma palavra para que isso aconteça. Machado de Assis, que é um mestre da digressão (as obras dele são baseadas em pura digressão, até porque falar da vida de um morto, por exemplo, exige isso), faz isso em diversos momentos, não só para mostrar o passado, como também para mudar o ritmo da história e interagir com o leitor, que chega a se transformar em um personagem, tamanha é essa interação. Veja, como exemplo, o comecinho de Dom Casmurro, que já começa a história com uma digressão (o primeiro capítulo inteiro é uma digressão):


Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

— Continue, disse eu acordando.

— Já acabei, murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você."—"Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."—"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça."

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração — se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

— Dom Casmurro


Perceba: “Uma noite dessas…” É simples, é explicativo e elegante.


As digressões e toda a gama de artifícios que podemos utilizar na construção da história também causam impressões ao leitor sobre sua história e é preciso ter tato para não a poluir. Não tenha medo de descrever os cenários ou os personagens, eles são elementos que trazem vida e realidade para o leitor, são coisas que aproximam sua história dele, que a tornam real.


Espero que o texto tenha sido esclarecedor quanto às questões abordadas, mas não se acanhe se surgir alguma dúvida no meio do caminho, estamos aqui para ajudar você como pudermos.


Beijos!


Texto: Karimy

Revisão: Camy


Referências:

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Editora Ática, 1996.

MARTIN, George R. R. A guerra dos tronos. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo: Leya, 2010.

TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos anéis: A sociedade do anel. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

YANCEY, Rick. A 5° Onda. Curitiba: Fundamento, 2013.

24 апреля 2019 г. 0:00:48 0 Отчет Добавить 0

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