hellicamiranda Hellica Miranda

Fugindo de um passado de violência, ela acaba encontrando um futuro onde menos esperava: no mundo sem limites das lutas ilegais. Enrolada em uma rede de mentiras, traição e hostilidade, ela percebe que seu futuro e seu passados são muito mais parecidos do que ela esperava.


Ação Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #drama #aventura #luta #musical #vingança #ação #força #clubedaluta #fightclub
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PRÓLOGO

There's a humming in the restless summer air

And we're slipping off the course that we prepared

But in all chaos, there is calculation

Dropping glasses just to hear them break



Dois anos antes...



Está chovendo quando eu fecho a porta cuidadosamente atrás de mim. Logo à minha frente, a rua está alagada, escura e deserta. Além da água caindo, consigo ouvir a briga que estou deixando para trás.


Todo meu rosto está molhado, e a chuva leva as lágrimas embora como se soubesse a vergonha que eu sinto delas.


De repente meus olhos estão nublados antes que eu chegue do outro lado da rua. Eu os esfrego freneticamente, correndo com a mochila nas costas e os pés ocasionalmente se entortando dentro dos imensos buracos cheios de água.


Vejo os faróis do ônibus vindo ao longe e, como num filme, paro bem na frente para chamar a atenção do motorista.


Ele buzina e, por um breve momento, tenho a impressão de que vou morrer daquele jeito. Atropelada por um ônibus logo depois de fugir de casa.


Mas então o ônibus para e abre as portas imediatamente. Saio correndo como se minha vida dependesse disso — porque depende. Subo os três degraus em um único salto.


Olho para o motorista, mas ele já está focado na direção de novo. Então olho em volta. Exceto por dois garotos, uma senhora e um casal, o ônibus está vazio.


Me aproximo da senhora, que me olha com preocupação. Imagino como devo estar. Um desastre com as manchas roxas no rosto, encharcada pela chuva, com uma roupa qualquer jogada por cima de um pijama infantil.


— Para onde estamos indo? — pergunto.


— Swan's Alley. — ela responde.


Meu corpo inteiro fica gelado em resposta.


Swan's Alley consegue ser um distrito ainda pior que o meu. Mas, parando para pensar por um único segundo, tenho certeza de que não é pior que Pacey e minha mãe e a bagunça que eu devia chamar de lar.


Me jogo sobre um dos assentos, apreensiva, porém conformada.


De repente um dos garotos se levanta e senta ao meu lado.


— Você está perdida? — ele pergunta.


Não sinto medo dele. Talvez porque ele tem as mesmas manchas roxas no rosto.


Eu assinto.


— Como conseguiu isso na sua cara? — ele aponta meus ferimentos.



— Como conseguiu os seus? — rebato.


Ele sorri.


— Você vai se dar bem em Swan's Alley. — ele diz e me estende a mão. — Meu nome é Josh. Aquele ali é meu irmão, Joe.


O outro garoto assente.


— Se você quiser, podemos te apresentar um lugar.



Hoje...



Quando chego à academia, Josh já está treinando. Pela quantidade de suor em seu corpo, imagino que por horas.


Ele não se desvia de seus golpes para me cumprimentar. Passo por ele e dou um soco em seu ombro.


Quase por reflexo, ele me puxa pela cintura para bem perto de si. E sorri antes de me beijar.


— Você está atrasada. — ele diz.


Dou de ombros.


— Eu ganhei ontem à noite. — digo.


Ele dá seu típico sorriso de lado.


— Eu sei. Não seria minha garota se não tivesse ganhado.


Ergo uma sobrancelha em resposta.


— Como se a escolha fosse sua. — me livro de seu abraço e me encaminho para o meu próprio saco de pancadas.


Eu treino de frente para a foto do nosso grupo pendurada em um quadro na parede. Um ano antes, sorridentes e orgulhosos de nossas quatro vitórias nas cinco lutas da noite. Todos tão ingênuos sobre o que aconteceria depois.


Josh percebe que estou encarando a foto e que meu rosto está inteiro franzido. A raiva que devo estar mostrando esconde toda a saudade que sinto.


Se não fosse por aquela noite... se não fosse por aquela luta... Joe ainda estaria ali.


— Ei. — Josh toca meu ombro para desviar minha atenção da fotografia. — Esqueça. Já fizemos o que tínhamos que fazer.


A lembrança disso também me dá arrepios. As mãos de Josh segurando a arma... o corpo... Balanço a cabeça para mandar tudo para longe.


— Eu sinto falta dele. — respondo. Minha voz continua firme, mesmo que meu interior esteja em pedaços.


— Eu também, Izzy. Era meu irmão.



***



Acordo com a música alta vindo do apartamento da frente. Morar em cima de um bar não é a coisa mais fácil do mundo, mas ser vizinha de um roqueiro decadente consegue ser ainda pior.


Só me dou conta da música quando estou sentada na cama, pronta para levantar e ir reclamar com David, o cara do rock.


Aquela música...


As coisas vêm de volta à minha mente assim que eu percebo.



Três anos antes...



— Larga ela! — minha mãe grita, a faca apontada para Pacey. Ele ri, o sarcasmo evidente em cada pequeno milímetro em seu rosto, e eu tenho certeza de que um de nós não vai sair dali vivo.


Sei disso pelo modo como Pacey olha para minha mãe. Sei disso pelo modo como minha mãe olha para Pacey.


O que aqueles dois têm, conectados por anos de um ciclo vicioso de Pacey sendo preso e minha mãe pagando a fiança com o dinheiro do tráfico, Pacey sendo ameaçado por alguma gangue e minha mãe pagando por sua vida, as constantes brigas, a mesa de centro sempre suja de cocaína...


Quando Pacey solta meu pescoço e se vira para minha mãe, o olhar dela para mim diz tudo. Eu não preciso que ela diga uma palavra.


Antes que eu tenha a chance de pensar, corro para o minúsculo cômodo que eu chamo de quarto, abro a gaveta e jogo peças aleatórias de roupa na mochila.


Saio correndo de lá com a bolsa aberta, ouvindo os gritos e a música alta.



Pleased to meet you

Hope you guess my name

But what's puzzling you

Is the nature of my game*



É Sympathy For the Devil. Pacey ouve aquela música repetidas vezes durante o dia, e várias vezes tenho certeza de que aquele cara é o próprio capeta.


Sei que minha mãe vai sobreviver. Mas, se eu ficar, não terei o mesmo destino. Tento não pensar nela vivendo aquele inferno. Tento mentir para mim mesma e dizer que ela vai se libertar, que ela vai pegar o dinheiro escondido dentro do meu colchão e vai sair dali.


Mas a verdade é que ela não vai. Ela não consegue. E não há nada que eu possa fazer.




*Trecho da música Sympathy For the Devil da banda The Rolling Stones

4 de Maio de 2020 às 03:17 1 Denunciar Insira Seguir história
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Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
Olá, Hellica! Tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Primeiro de tudo, eu simplesmente amei o que você faz no início de cada capítulo, inserindo trechos de músicas da Lorde, achei um charme e com certeza dá um brilho a mais para sua história! Sua sinopse é breve, mas muito explicativa, sinalizando para os leitores o que precisam saber e, ainda assim, criando uma espécie de expectativa para descobrir mais. Eu sou muito fã de humor. Mesmo quando a história contém um peso dramático, o toque do humor consegue me cativar e me fazer pensar imediatamente “esse é um dos bons”, “acho que vou gostar dessa história”. Foi o que aconteceu quando li o trecho “Morar em cima de um bar não é a coisa mais fácil do mundo, mas ser vizinha de um roqueiro decadente consegue ser ainda pior.” Eu especialmente amei o final, com a cena de violência, adorei a intensidade de certos acontecimentos que você descreveu, como o ciclo vicioso de Pacey e a mãe da Izzy; Pacey sendo preso, ameaçado por uma gangue, a mãe pagando a fiança e, cara, a adição de “a mesa de centro sempre suja de cocaína” foi simplesmente perfeita. Muito bem escrito e muito bem encaixado na frase! Meu coração de leitora ficou muito contente, rsrs. Tenho ainda que parabenizar pelo modo em que tratou e mostrou relacionamento abusivo de Pacey e a mãe. Muitas vezes não entendemos como alguém se sujeita a isso, como essas pessoas simplesmente não vão embora. Izzy conhece bem o relacionamento dos dois e sabe que ela não consegue larga-lo. Admiro muito sua coragem e força para, no lugar da mãe, ir embora e se salvar. Não encontrei erros ortográficos, de estrutura ou coesão, somente em um momento no início do prólogo, no uso da vírgula, mas quase imperceptível para os leitores! Meus parabéns, Hellica! Adorei sua escrita e com certeza irei acompanhar a história. Já estou torcendo pela felicidade da Izzy, rs. Um beijo!
August 20, 2020, 21:37
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