E
Eduarda Kreimer


Quando um espírito perdido encontra uma garota em busca de vingança, uma trama diabólica é revelada.


Fantasia Medieval Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sobrenatural #original #dark #romance #fantasia
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Em progresso - Novo capítulo Todas as Sextas-feiras
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Prólogo

A noite estava chegando ao fim. A escuridão já cedia e o calor se arrastava sossegadamente floresta adentro, dissipando a neblina e a geada que se formara no último entardecer. Suspirei, impaciente, sabendo que levaria mais um dia para terminar o serviço e ir para casa.


Essa nova rotina era…extenuante, para dizer o mínimo. Estava há dias rastreando o puma, mas o animal era sorrateiro e, para falar a verdade, a sorte simplesmente não estava ao meu lado. Eu parecia sempre um minuto atrasado, somente tempo suficiente para minha presa ter terminado sua próxima refeição e fugido. Claro, parte disso se devia ao fato de que qualquer animal que sentisse meu cheiro não podia evitar o instinto de fuga, e meu cheiro chegava a todo lugar muito antes de mim. Não que eu fedesse — acho —, mas os bichos simplesmente não me suportavam. E, para completar, eu também não era um grande rastreador. Logo, mandar algo como eu nesse tipo de missão era burrice.


Mas é óbvio que eu nunca diria isso a meu pai.


Apertei bem os olhos e fitei o horizonte por entre os troncos de árvore que tentavam bloquear minha visão, analisando a luz que se infiltrava por ali. O sol já nascia mesmo. Resignado e secretamente aliviado, escolhi uma árvore de aparência mais robusta — um carvalho, talvez; não entendo bem de botânica — e a escalei com rapidez, planejando me acomodar para esperar a noite. Caçar de dia era uma opção, mas no calor, especialmente no verão, meu cheiro se espalharia quilômetros à minha frente, e alcançar o puma fugitivo se tornaria virtualmente impossível. Além disso, sentia-me cansado demais para continuar. Acocorei-me entre dois galhos que se cruzavam no alto da árvore, abrindo um vão estreito entre si que eu pretendia usar como assento. Não seria uma vigília muito confortável, mas ali era muito mais fresco que o solo úmido e quente da floresta, e meu cheiro não iria tão longe. Coloquei as mãos atrás da cabeça, assumindo uma posição relaxada mas não cômoda o bastante para dormir, e repassei mentalmente as informações que tinha.


Minha presa era uma criatura inteligente. Pelo que meu pai me contara, ela já havia matado três bebês e aterrorizado pelo menos duas vilas. Ela sabia que humanos eram alvos fáceis, e que bebês são, bem, altamente nutritivos, apesar de pequenos. O ponto de partida para a caça havia sido a vila do Moinho Verde, onde o animal atacara por último, pelo que sabíamos. Eu partira emburrado e insatisfeito. Não me sentia particularmente afetado pelas mortes. Para mim, o conflito entre raças é apenas natural e, apesar de pumas assassinos de bebês não serem comuns, eles existiam. Mas meu pai sempre foi um homem inclinado a proteger, e então aqui estava eu, em seu nome, caçando há ao menos cinco dias. Faminto. Minha boca se encheu de veneno ao pensar no puma morto. Talvez minha pressa fosse menos para carregar o senso de justiça de meu pai e mais para comer. Faz meses que não como um carnívoro realmente grande, pensei comigo mesmo, fechando os olhos e cantarolando uma melodia inventada.


Em algum momento, cedi ao cansaço e adormeci. Sonhei com um castelo e um exército de homens de lata marchando em um campo fedido sob um sol escaldante. Eu estava lá, percebi de repente, e o fedor de carniça vinha de mim. Me encolhi, esperando que me notassem, mas ninguém o fez. Nós só marchamos, sempre em frente, e acordei mais cansado do que tinha ido dormir.


Ainda era crepúsculo e não estava completamente frio — o orvalho ainda não se tornara geada —, mas desci da árvore mesmo assim. Não queria mais perder tempo, não outro dia longe de casa. Pulei no chão ainda meio zonzo e fechei o olhos, procurando ficar completamente imóvel, sentindo o ambiente ao meu redor. Como era esperado, não ouvi mamíferos por perto, e o vento estava soprando contra mim. Bom. Abri os olhos, acostumando-me rapidamente à falta de iluminação. Ondulando a cabeça, inalei e provei o ar, sentindo o odor quase imperceptível deixado pela trilha do puma. Ao sentir o cheiro de pele e sangue felinos, todos os meus músculos se retesaram e eu grunhi, sentindo a dor quase insuportavelmente doce que vinha com a antecipação da caça. Com muito esforço, consegui me conter o suficiente para não correr, mas mantive um passo rápido. Quase tropeçando por entre as longas raízes e arbustos que se punham em meu caminho, progredi rapidamente e consegui pegar o cheiro fresco do puma logo antes da lua alcançar seu ponto mais alto no céu. Instantaneamente, senti que havia algo errado. O cheiro de sangue era forte demais, e não era o único. Passei a mão pelos cabelos, incomodado. Não estava com medo do puma, mas de tê-lo perdido para outro caçador. Caso assim o fosse, Eleazar ficaria furioso, e eu continuaria com fome. Ajustando meu ritmo, me aproximei com cuidado da fonte de minhas preocupações. O aroma subitamente se transformou numa trilha palpável de sangue, que me guiou até uma clareira poucos metros à frente. O animal ainda não era visível, mas eu me agachei ainda mais, pronto para atacar ou defender a qualquer momento.


Pouco a pouco, a respiração pesada do puma se tornou mais clara; como eu previra, estava ferido, talvez perto da morte. Também havia mais uma respiração, ainda mais fraca e rápida, que não soava humana. Não acredito, pensei, repentinamente divertido com a situação. O puma é uma fêmea?


Logo tive minha resposta. Era mesmo uma fêmea, que jazia deitada de costas para mim, coberta de sangue. Alguma coisa havia perfurado um perfeito círculo entre suas omoplatas, e o sangue corria sem dar sinais de estancar. De seus quartos, pendia um filhote não totalmente parido, quase estrangulado pelo cordão umbilical. Eu não podia estimar há quanto tempo eles vinham lutando contra seus destinos, ali imóveis, mas pelo menos algumas poucas horas. Dei a volta com cuidado para não assustá-los, para não tornar a situação pior do que já estava, mas não adiantou: o animal se virou pesadamente na minha direção, sufocando ainda mais a cria.


Eu hesitei, sem saber o que fazer. Era irônico, até; o puma, que havia matado ao menos três bebês, também acabaria com a vida de seu próprio filhote. Dei uma olhada no último, desconfiado. Era pequeno e malnutrido, mas tinha uma força vital impressionante, lutando silenciosa e furiosamente contra o ventre que o esganava. Pena que sua resistência só haveria de matá-lo mais rápido, pensei comigo mesmo. Talvez eu devesse ajudá-lo…


A mãe ergueu a cabeça do chão e olhou para mim, mostrando as presas num rosnado que veio do fundo de seu ser. Não parecia um felino devorador de crianças, frio, calculista e covarde, como eu pensara; ela, na verdade, tinha os mesmos olhos de todo ser encurralado: cheios de um medo insano que os tornava infinitamente mais perigosos. Um arrepio de excitação percorreu vagarosamente a minha espinha, e meu corpo se contorceu numa posição instintiva de ataque.


O veneno encheu minha boca ao mesmo tempo em que meu corpo se alongou como uma mola, saltando e se agarrando ao torso ferido do animal. Ignorando os espasmos e tentativas de me tirar de cima de si, conti sua cabeça com as duas mãos e, sem hesitar dessa vez, plantei meus dentes com firmeza em sua jugular, abrindo uma ferida grande o suficiente para inserir meus dedos sob a carne e separar o pescoço dos ombros. Regozijei-me sob o jorro de sangue que seguiu: missão completa e janta pronta. Deitei a cabeça entre seus ombros, ouvindo para ter certeza de que o coração havia parado, e me virei para a próxima presa: o filhote que, para minha surpresa, permanecia vivo e me encarando. Desviei os olhos, desconcertado, imaginando se devia comê-lo, enterrá-lo vivo ou deixá-lo à mercê de sua própria sorte. Afinal, sua mãe o havia alimentado (indiretamente) com restos humanos. Algumas coisas simplesmente não mereciam ter sorte. Realmente uma pena.


O felino me encarava com os mesmos olhos de sua mãe, mas não era intimidador como ela fora — ele era pequeno demais, frágil demais. Desci da carcaça e me aproximei, rasgando o cordão umbilical que o enforcava num impulso. Mais livre que antes, o gato magrelo não tentou me atacar; talvez esteja muito fraco, uma vozinha sussurrou no fundo de minha mente. Vagamente consciente do que estava fazendo, puxei o animal, tirando primeiro o tronco e depois as patas traseiras de dentro da mãe. Nunca havia feito um parto antes, mas não era tão difícil quando só precisava me preocupar com uma única vida.


O puma tombou sem fazer movimento. Provavelmente está morto, percebi bruscamente. Não seria inesperado. Mas ainda havia respiração, tão fraca que era quase imperceptível. Com cuidado, levantei-o com as duas mãos e coloquei-o em uma das tetas da mãe, que ele agarrou e começou a sugar com vigor renovado. Sentei-me do outro lado da carcaça, olhando com desconfiança a ferida que a teria matado — se eu não tivesse aparecido para terminar o trabalho. Tinha um cheiro acre.


— Parece que a senhora deixou seu filhote para mim, afinal. Não se preocupe, vou cuidar bem de sua cria...em troca de alguns órgãos — eu dei um sorriso fraco. — Não que você ainda precise deles.


Quão diferente podiam ser dois cadáveres…! Ambos corpos frios e sem pulso, eu e ela, mas aqui estava eu, pilhando seu corpo e levando seu filhote para longe. Eu não sabia se meu destino era preferível ao dela. Tirei minha mochila das costas, tateando até encontrar uma faca. Não tinha mais vontade de usar os dentes agora que não havia mais vida para tomar, ainda mais quando a civilização estava ao alcance de um toque. Fiz cortes precisos, já acostumado ao trabalho; primeiro um pulmão (o outro fora perfurado pela coisa de cheiro acre), o coração, os rins, estômago — nada de bebês, para o meu alívio —, útero…


Me surpreendi ao achar dois filhotes mortos dentro do puma. Decidi não comê-los e enterrei-os para que outros animais também não comessem. Finalmente, fiz minha refeição — um pulmão tamanho família que me deixou muito mais forte — e peguei o gato magrelo, agora muito mais alerta, nos braços, pronto para partir. Imaginei se ele tomava leite de cabra, já que seria difícil encontrar leite de puma na cidade...


A viagem de volta foi muito mais tranquila, agora que não precisava mais me preocupar em esconder meu cheiro de uma mamãe puma paranoica, e consegui cobrir todo o percurso em três dias. Foi difícil lembrar de alimentar o filhote, já que eu mesmo podia passar semanas sem comer. Fizemos algumas poucas paradas para procurar por rebanhos de cabra. Também comi todos os órgãos que tinha coletado antes que apodrecessem.


A cidade de Éster, meu objetivo, avultava-se sobre uma planície tão extensa quanto minha visão alcançava. Parecia um enorme formigueiro humano, com torres de vidro, estradas e fumaça constantemente jorrando no céu acinzentado. Tecnicamente, era lá que meu pai e eu morávamos, embora nossa casa fosse muito mais perto da densa floresta do que do coração da cidade. Era mais cômodo dessa forma, pelo menos para mim.


— Você chegou, Erwin! — virei-me para a voz familiar, sorrindo. Meu pai me cumprimentou com um abraço entusiasmado. Eleazar era um homem grande, mais alto que eu, e com pelo menos o dobro do peso. Era difícil imaginar como um homem tão pesado e aparentemente desajeitado podia ser um médico proficiente, mas meu pai conseguia. Além de habilidoso, tinha um coração de ouro, e eu o adorava mais que tudo.


— É, estou aqui — respondi com um sorriso torto, abraçando-o de volta com cuidado. Todo o meu rancor por ter sido mandado em uma missão que levara oito dias — muito mais do que o previsto — evaporou ao vê-lo tão feliz. Como prova de que tinha concluído a tarefa, mostrei-lhe o gato. Eleazar franziu o cenho, sem compreender.


— O puma que estávamos caçando era uma fêmea, e estava prenha. Acho que por isso começou a caçar alvos mais lentos. Quando consegui alcançá-la, estava ferida e parindo — expliquei rapidamente. Vendo que ele ainda fitava o gato, completei, ansioso: — Eu não sabia o que fazer com o filhote que sobreviveu.


Meu pai aquiesceu, desconfiado.


— E você quer que eu cuide dele?


— Sim.


— Você percebe — ele falou com cuidado, como se tivesse medo de que eu não conseguisse entender sua língua — que este é um animal selvagem que você quer que eu adote, não é?


— Não seria o primeiro — dei-lhe um sorriso largo e preguiçoso, mostrando meus caninos anormalmente afiados. Eleazar não era meu pai de sangue, é claro. Ele me adotara quando eu ainda era mais animal que homem e me transformara em, bem, quase humano.


Meu pai fez uma careta, reconhecendo a derrota. Ele não tinha o que era necessário para resistir a um filhote órfão.


— Você limpa, eu treino — ele disse bruscamente. E então suas feições se suavizaram: — Qual é o nome dele...ou dela?


Eu dei de ombros.


— Acho que é melhor que você escolha. Mas tem cheiro de macho.


E o terceiro membro de nossa pequena família surgiu, simples assim.


O puma acabou por chamar-se Gato, uma decisão que meu pai tomou depois de me ver chamando-o assim. Eleazar gostava dele muito mais que eu, e o inverso era verdadeiro. Afinal, animais eram naturalmente aversos a mim, e eu era naturalmente inclinado a matá-los. Gato se alimentava principalmente do leite de cabra que meu pai trazia da cidade, e passava grande parte do tempo sob minha vigilância, visto que eu também não podia sair perambulando por aí. Ficávamos na orla da floresta; eu, tocando gaita, e ele brincando com folhas e besouros, de vez em quando se assustando com meu olhar vigilante. Às vezes eu matava um pássaro e o presenteava com ele, esperando ganhar confiança. Parecia funcionar um pouco.


A rotina não era muito variada. Eu passava o dia tocando, cochilando ou caçando, e à noite, quando meu pai estava em casa, nós jogávamos cartas ou ele me ensinava um pouco de medicina, algo que me fascinava muito. Minha fisiologia era similar à de um humano comum, exceto pela falta de batimento cardíaco e constante decomposição dos meus tecidos, e aprender mais sobre mim mesmo me compelia a estudar. Os únicos outros humanos que eu via vinham uma vez por semana — um procedimento padrão para ex-criminosos ou suspeitos, até onde eu sabia. Meu pai não era nenhum dos dois, mas era um médico milagroso sem registro de semeador e a polícia era rigorosa quando se tratava de checar fraudes no sistema. Usuários com habilidades especiais eram obrigados a declarar seu status no Ministério, sob pena de ter as mãos decepadas ou, em casos mais graves, de morte.


A segunda e talvez mais importante razão para essas visitas era que alguém desconfiava da minha existência.


A suspeita provavelmente vinha do quarto que Eleazar mantinha para mim, ou simplesmente da vida de aparente reclusão para a qual ele tinha se voltado desde que eu havia aparecido — era o que eu dizia a mim mesmo. Mas eu tinha a sensação de que estava deixando passar alguma coisa. Nunca em toda minha vida havia me sentido tão vulnerável. E os homens em suas carroças de ferro me deixavam irrequieto, como uma coceira que não se podia coçar. Eu imaginava como seria estudar cadáveres humanos, uma figura tão familiar nos livros, abrir seus corpos e retirar cada órgão, cada ossinho...


Mas não. Eu nunca machucaria uma pessoa, não enquanto meu pai vivesse. Fechei os olhos, sentindo repulsa pela direção dos meus pensamentos, e me concentrei na conversa que se passava a vários metros de distância, dentro da casa.


— Só precisamos de um pequeno corte no dedo — disse uma voz grave, se dirigindo a meu pai. Senti meu cabelo se eriçar ao pensar nele ferido e me agarrei a uma árvore para me impedir de sair do lugar. Mesmo a dezenas de metros de distância, ouvi os passos distintos de outro homem, um pouco manco, vagando despretensiosamente pela casa.


— Se isso significar menos trabalho para os senhores, eu mesmo posso ir ao Ministério uma vez por semana — meu pai sugeriu.


— Não se preocupe, somos pagos para visitar todas as casas desta região — a mesma voz grave mentiu suavemente. Eu chiei, ultrajado pela pouca vergonha da dupla. Uma pausa se seguiu à conversa. — Parece que está tudo bem; nenhuma semente no seu sangue.


O outro homem voltou apressado para onde meu pai e seu parceiro estavam.


— Tudo bem mesmo? — ele perguntou, agitado por algum motivo que não consegui imaginar. Eu era cuidadoso o suficiente para não deixar nada que denunciasse minha existência dentro da casa.


— Sim, esse aqui só não é sortudo mesmo — a voz grave disse, se referindo ao meu pai. Como se ser um semeador fosse alguma benção. Há!


— Muito bem, então. Os senhores aceitam levar alguma comida para a viagem? — meu pai ofereceu num tom dócil. Não pude deixar de notar que ele não os convidou para ficar. — Imagino que vá levar algum tempo para chegar à cidade.


— Não, obrigado. Já comemos no caminho para cá.


Sem outra palavra de gentileza, os dois homens saíram. No caminho para a carroça, ouvi um deles comentar baixinho:


— Com esse daí tem algo de errado, com certeza. O quarto dos fundos cheira a carniça.


Fiquei nas pontas dos pés, pronto para pular a distância que nos separava e destruir evidência com toda minha selvageria. Não há evidências, minha parte mais humana argumentou. São só rufiões. Estamos bem. Com muito esforço, deixei-os ir, observando com contrariedade minha quase presa escapar.


— Erwin? — ouvi meu pai chamar de dentro de casa. Estava ao lado dele em um instante.


— Sim?


Ele suspirou de um jeito cansado.


— Talvez tenhamos que nos mudar, filho. E rápido...não vão nos dar privacidade aqui.


Balancei a cabeça, desanimado. Mal havíamos chegado...e Eleazar tinha adorado a casa.


— Talvez — eu sugeri baixinho — eu pudesse cuidar disso.


O rosto de meu pai endureceu, e pela primeira vez em muito tempo ele pareceu ter o tamanho que realmente tinha.


— Não, você não vai começar com isso. Não agora.


— Não estou começando nada — retruquei, ofendido. — Eles é que começaram. Só estou oferecendo ajuda.


O rosto de meu pai ficou vermelho e suas narinas inflaram.


— Você está...você está procurando desculpas para…! — mesmo furioso, ele não conseguiu se obrigar a terminar a sentença.


Eu sabia o que ele queria dizer, e ver que ele pensava assim de mim só não doeu mais do que saber, no meu íntimo, o quão certo ele estava. Eu queria assassiná-los. A vergonha e a cólera me subiram à garganta.


— Não preciso de desculpas. Se quiser matar algo, eu mato. Nunca lhe prometi ser um mártir — me arrependi das palavras antes mesmo delas saírem da minha boca. Eleazar, que havia se levantado, tombou de novo na cadeira, a cor se esvaindo de seu rosto. Ele não olhava para mim, mas eu o conhecia bem demais para não saber qual olhar suas feições escondiam. Decepção. Ele havia dado a um monstro a chance de viver, e agora o monstro ameaçava usar aquela vida para tirar outras.


Desolado, mas orgulhoso demais para retirar as palavras ditas, eu me virei nos calcanhares e disparei noite afora. Eu usaria a noite para mergulhar em autopiedade e de manhã, quando nossos ânimos tivessem esfriado, pediria desculpas e prometeria nunca machucar ninguém. E ficaria tudo bem de novo. Mais do que tudo, eu sabia com a mais absoluta certeza que meu pai estaria ali para me perdoar.


Quão miseravelmente enganado eu estava.














2 de Maio de 2020 às 00:18 0 Denunciar Insira Seguir história
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Continua… Novo capítulo Todas as Sextas-feiras.

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