sandra-martins1587691849 Sandra Martins

Num país recém-descoberto repleto de corsários, jesuítas, bandeirantes, índios e portugueses tem espaço para um triângulo amoroso quando a jovem Maria, filha de Martim Afonso, cruza os portões do acampamento escola de Pero de Góis, uma escola feita apenas para rapazes. Todos esperam que ela se apaixone por Fernando, príncipe português. Mas como resistir ao intrigante Rodrigo Góis?


De Época Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo I: No novo mundo

Ouviu um barulho. A porta estava se abrindo. A claridade invadiu o cubículo fedorento, onde Rodrigo estava cegando-o. Passou o braço sobre o rosto protegendo os olhos e encolheu-se com medo. Ainda sentia as dores dos golpes, na sua maioria chutes dados em seu dorso e o gosto de sangue na sua boca. Choramingou como se após quatro dias daquela tortura não pudesse mais resistir à tamanha crueldade. Pensou qual prazer estava dando ao agressor com seu medo e controlando a tremedeira, reduziu o choro. Sentiu o toque de uma mão sobre si e preparou-se para novos golpes.

Não eram as mãos do Capitão... Também não eram as mãos de Dias, o principal homem do pelotão e, para muitos, o mais cruel. Diferente do que esperava aquele desconhecido jogou-o com força sobre os ombros, levando-o para fora. Um cheiro de grama molhada invadiu suas narinas, sentiu que o castigo estava no fim:

— Tem chovido? — perguntou.

— Olha o seu estado! — ouviu uma voz falar-lhe ignorando sua pergunta e demonstrando, certa raiva, diante da situação.

Nesse momento, sabia quem estava a carregá-lo e não temeu mais. No poço do acampamento o outro lhe lavou um pouco do corpo e deu-lhe água. Sentiu o gosto gelado e refrescante do líquido a revigorá-lo e, aos poucos, seus olhos se acostumaram com a luz:

— Mais um dia em total inanição e estarias morto! — irritou-se ainda mais a voz do outro.

Rodrigo ergueu a cabeça. Sentiu sobre seu rosto outra leva de água e o corte no olho direito ardeu, fazendo afastar-se. O corpo estava moído pelas pancadas e, por isso, não tinha força para colocar-se de pé. Nítido, agora, via Fernando ao seu lado. O rapaz insistia em puxar-lhe com força para lavar parte de seu corpo e Rodrigo soltou-se:

— Estou bem. — respondeu percebendo que a informação saiu mais como uma forma de reduzir os cuidados, do que como uma verdade.

— Percebe-se. — disse irônico Fernando. — Olhe pra si mesmo, isso tem que parar! Talvez não consiga ver, mas foram quatro dias de tortura... Sabe que foram quatro dias, não sabe?!

— Sei. — assentiu um tanto envergonhado.

— E qual foi o motivo mesmo? Ah é! O carregamento de índios ou qualquer outra desculpa estúpida.

— Estás zangado comigo? — questionou lavando a boca novamente, pois o gosto de sangue persistia. — Obrigado por me tirar de lá, mas não devia se envolver, se ele zangar-se com isso de certo, minha punição será ainda maior e posso te prejudicar. No fim, eu terei merecido, pois o capitão não gosta de ser desafiado.

— Escute-se Rodrigo: Desafiado? Você não desafia o capitão! Não desafia ninguém! — o outro se colocou de pé andando de um lado para outro — Precisa sair daqui e tomar as rédeas de sua vida...

— Quando ela voltar eu tenho certeza que vou...

— Voltar?! — interrompeu quase gritando com o outro — Não podes achar que ela é melhor do que ele. Ela deixou-o para trás! Precisa desistir dessa busca e achar outro motivo pra viver.

Rodrigo tentou colocar-se de pé sem sucesso, o corpo não obedecia aos seus comandos e antes que encontrasse o chão, novamente encontrou as mãos de Fernando a socorrê-lo de forma prestativa:

— Se fossemos para Portugal seríamos felizes, tenho certeza! — afirmou com a voz mansa como se tentasse convencer o colega de algo dito muitas e muitas vezes.

— Sabe quem está cuidando dos cavalos? — questionou Rodrigo.

— Cavalos?! Você acabou de ser liberto e pensa em cavalos? — afastou-se balançando a cabeça negativamente. — Não está escutando nada do que eu digo, não é?!

— Fernando, me ajude a chegar à cozinha, por favor. — pediu esticando o braço para o outro que o segurou de imediato — Lá Tita poderá...

— Fazer um milagre de recuperação... Claro! Enquanto houver peças tuas para colar, por que devemos nos preocupar?! — disse ainda irritado, mas ajudando o rapaz.

Rodrigo passou o braço sobre os ombros de Fernando e olhou-o com um sorriso gentil e cordial, havia uma relação de irmãos entre eles, uma amizade que nenhum problema poderia mudar. Rodrigo sentiu-se culpado de ignorar a preocupação do colega e justificou-se:

— Agradeço tudo que faz por mim. Um dia irei para Portugal contigo, eu garanto. Mas antes, deixe que eu ache a minha mãe. — o rapaz fez uma pausa — Agora, se não se importa pode me levar para a cozinha?

— Vamos ver se a Tita tem um milagre... — debochou o amigo enquanto o apoiava naquela caminhada.

Ao andar por aquele lugar, Rodrigo sentiu-se feliz, era tudo que ele conhecia. O chão vermelho de terra batida, terra que era boa para cana-de-açúcar, segundo os portugueses, mas, na sua opinião era boa para qualquer cultivo. Todos conheciam o lugar como capitania de São Tomé, uma das 15 entregues pelo rei a donatários, pertencia ao capitão Pero Lopes de Góis, que diferente da expectativa portuguesa tornou o cultivo de cana sua segunda prioridade. Capitão Góis acreditava ser necessário ter um grupo treinado na nova terra, acreditava nisso por sua longa experiência militar. Assim, construíra um acampamento para forjar jovens nas artes das guerras, essa, sempre foi à prioridade do homem.

O rapaz sentiu-se um pouco fraco e Fernando o ergueu, avisando que estavam muito perto. Quando os dois rapazes quase comemoravam a aproximação da casa uma carroça puxada por um velho cavalo cruzou-lhes o caminho levantando grande quantidade de poeira. Sentiram a terra penetrar-lhes pelas narinas e, enquanto Fernando resmungava a imprudência do condutor do veículo, Rodrigo desejava que chovesse novamente para diminuir os efeitos daquela poeira invadindo seus sentidos já debilitados.

Quando a poeira baixou tudo que ambos puderam ver foi uma menina de longos cabelos loiros em cachos, vestida em uma capa amarela que olhava para os dois com seus grandes olhos castanhos. Ambos viram cada um a sua forma algo na menina que os encantou.

O desembarque se deu próximo à casa grande, em um lugar onde permanecia hasteada a bandeira de Portugal, solene, como se aquele lugar não pertencesse ao Brasil, foi exatamente essa a impressão que a menina teve ao chegar: estava fora de seu país. Na carruagem junto com a menina havia uma gorda mulher, essa deixou a garota sentada sobre o sofá da sala e caminhou para um gabinete onde, com a porta semiaberta, começou uma conversa com o dono daquele lugar que mal ouviu a mulher e contestou:

— Como assim uma menina? Não recebemos meninas! Nunca! Temos uma escola de homens! — bradava furioso o Capitão dentro observando a menina sentada sobre seu sofá.

— Eu já lhe expliquei os propósitos e o medo do rei, Góis. — respondeu tentando ser o mais paciente que conseguia e servindo-se de um copo de suco. — Não queremos contestar o Rei! E, perceba que o Duque está muito animado com essa empreitada.

— Você me deixa sem saber o que fazer, Lucrecia. Bem sabe que não há espaço ou atividades para meninas nesse lugar e está fora de questão receber uma mulher dentro da casa grande...

— Oh não! Não lhe pediria isso… — replicou à senhora abanando-se — Você sabe que não interessa ao duque que tipo de atividade ela realize, desde que seja ao lado de Fernando.

— Ainda temos o problema do quarto para a garota…

— Não se preocupe, coloque no quarto do jovem e antes do que imaginamos estaremos nas boas graças de Portugal e livres dessa terra de aborígenes.

— Você me assusta, Lucrecia! Vive falando em religião, moral e bons costumes…

A necessidade faz o monge — gargalhou a mulher — Não podemos arriscar que ela se apaixone por outro, para onde olhe deve ver apenas nossa pequena fortuna.

— Então, a moça compactua com seu golpe, senhora?

— Golpe? — ressentiu-se a mulher — Não há golpe! Há apenas o medo de um pai, que é o rei de Portugal, de seu filho não ser o homem que ele imagina, e eu, como boa ama, estou aqui para ajudar. A moça nada sabe e tonta vai se apaixonar por ele, como qualquer moça burra e longe de toda a família.

— Como escolheu a garota? Meu pároco não vai aprovar nunca essa sandice…

— Meu Capitão, o duque a escolheu. Quanto ao padre, eu sou boa em convencer padres… — ela sorriu aproximando-se gentilmente do capitão — Portugal lhe pagará muito bem pelo favor e discrição desses fatos.

— Só tem um detalhe que sua mente não pensou: ele não está sozinho, você mais do que ninguém sabe disso e orientou essa companhia.

— Estamos mesmo falando do filho da meretriz? Vamos e venhamos, desde quando nos preocupamos com Rodrigo? Colocamos o garoto lá para que vigiasse e cuidasse de nosso hospede. E eu o aconselho a deixá-lo lá para despistar. Afinal, não queremos comentários. — a senhora sorriu animada — Ele fará o que você mandar! Confio em sua mão de ferro com relação a sua cria. E no que diz respeito a nosso príncipe, apenas oriente Rodrigo a fingir que nada vê.

O capitão em seu gabinete parou diante da porta, observando a garota e pensando em toda aquela conversa. A mulher deu à última e derradeira cartada, aquela que, tinha certeza, faria o Capitão aceitar suas condições:

— Pelas bandas de São Paulo em uma aldeia indígena visitada por jesuítas foi observada uma estranha anomalia. Dizem os povos que viram uma índia branca…

— Beatriz?! — assustou-se o homem.

— Quem pode saber, meu Capitão. Ajude-me e usarei meus mensageiros para lhe trazer essa índia, mesmo que não seja a rameira de sua mulher. Temos um acordo?

Capitão Góis andou lentamente até a moça fazendo uma continência. Ela assustada colocou-se de pé sem a menor ideia de que atitude o homem esperava, então, apenas acenou com a cabeça. Notou que ele possuía uma postura rígida, seus ombros eram extremamente retos, como se fossem sustentados por uma corda. Trajava uma farda cinza que tinha dezenas de medalhas ao longo do peito, a roupa cobria-lhe toda a pele, usava luvas e grandes botas – parecia indiferente ao calor daquelas terras. Ela já vira militares conversando com seu pai, no entanto, aquele homem parecia diferente, por detrás de um bigode bem aparado e tipicamente português, tinha um olhar inquisidor e intimidador, parecia transpor todo o negrume de uma alma atormentada.

— Maria, quero que conheça nosso anfitrião: Capitão Pero de Góis, o dono dessa capitania e dessa escola. — apresentou D. Lucrecia.

— Prazer, sou Maria, filha de Martim Afonso.

— Lucrecia essa é uma informação que você não havia dito.

— Verdade Capitão. — falou sem jeito a mulher. — Nossa Maria é mesmo uma joia preciosa, e tem a melhor das caixas: Martim Afonso.

O homem andou um pouco em torno da garota, badalou um sino e do interior da casa surgiram uma velha índia e um homem com trajes rústicos, tratava-se de um capitão do mato, ele olhou para a menina com um sorriso careado, ergueu o chapéu cumprimentando-a, ela, porém, achou que ele não era confiável.

— Dias! — gritou o homem — Pegue as malas da moça e leve ao acampamento, coloque no quinto dormitório.

— Mas, capitão, no quinto dormitório estão…

— Siga as ordens! — ordenou — Tita, prepare banho e alimentação para a garota. E bom que coma antes de descer.

Um arrepio frio percorreu-lhe o corpo, e seguindo Dona Lucrecia e o homem, dirigiram-se ao escritório para receber orientações.

Todos os garotos comiam no refeitório que ficava logo abaixo do casarão, quando Fernando cutucou Rodrigo mostrando a menina da carroça. A bonita jovem entrou no ambiente junto ao Capitão Góis e Dona Lucrecia, uma mulher que de hábito trazia os novos residentes ao acampamento, todos os rapazes se colocaram de pé e, somente, voltaram a sentar quando o homem autorizou:

— Temos uma menina no acampamento... — ironizou um dos meninos, afirmação que foi seguida do riso da maioria dos moços.

O capitão irritado disse em um tom militar e autoritário:

— Não entendo o espanto de vocês. Temos regras muito claras. — o homem aproximou-se da bancada e ordenou — Coloquem-se em fila!

Um grande tumulto se fez e todos aqueles rapazes se colocaram em três perfeitas filas que respeitava o tamanho, com os menores à frente e os maiores na última. O silêncio demonstrava uma subserviência, enquanto o medo pairava no ar. Todos eles de peito estufado, postura ereta e olhos fixos adiante. Eram como estátuas a espera da próxima ordem:

— Não aceitarei nenhuma indisciplina! — alguns engoliram seco — Vocês conhecem as regras. Apenas a moça é nova aqui, e quero que fique claro que não me importa que ela seja uma menina, nossas regras prevalecem, entenderam?

— Sim, senhor! — responderam em coro.

— Repitam em alta voz as regras desse acampamento. — ordenou de uma forma soberana.

Os rapazes todos ao mesmo tempo, como se fosse ensaiado, passaram a falar às regras que regiam o local, enquanto Rodrigo olhava atentamente para a menina, a fim de gravar-lhe o semblante, nunca tinha visto em sua vida criatura tão linda:

— Regra número 1: O silêncio deve ser prioridade, ninguém fala sem que lhe seja solicitado.

Os rapazes bateram os pés, como se marchassem no mesmo lugar, três vezes e Maria assustou-se, mas não mais que Dona Lucrecia, cujo grito agudo pôde ser ouvido em toda a fazenda. Nenhum deles mexeu os olhos ou demonstrou qualquer reação distinta, indiferente prosseguiram repetindo a próxima regra:

— Regra número 2: Todas as atividades estão divididas em horas, atrasos são punidos severamente. — então, repetiram a mesma atitude regra a regra. — Regra número 3: As médias em todas as atividades do acampamento devem ser superiores a oito pontos. Notas inferiores representam desonra e serão castigadas. Regra número 4: Ordens e regras dos capitães e instrutores nunca são questionadas. Apenas acatadas e executadas.

O Capitão ouvia com orgulho aquela ladainha, até que seus olhos encontraram a expressão fascinada de Rodrigo na segunda fila:

— Regra número 5: Respeito a todos os superiores: filas e continências devem ser dirigidas a toda autoridade que entrar no acampamento.

Assim, que os rapazes acabaram de proferir a última regra, Góis aproximou-se de Rodrigo irritado:

— Por que não está repetindo?

— E-Eu estou. — gaguejou o rapaz.

— Achas que podes me enganar? — o capitão demonstrava a cada minuto maior irritação e gritou — Você acredita mesmo que podes me enganar?

— Não, senhor. — respondeu abaixando a cabeça.

— Então, diga para sua vergonha que não estava repetindo.

— Mas eu...

— Repita! É uma ordem, rapaz!

— Eu não estava repetindo. — afirmou com a cabeça baixa e ouvindo os risos de alguns.

— Não foi alto o bastante, acho que nem todos ouviram, estou certo rapazes?

— Sim, senhor! — responderam todos, mais por medo que por concordarem.

— Ouviu? Repita mais uma vez bem alto. — ordenou o capitão com um sorriso de deboche no rosto.

— Eu não estava repetindo! — gritou, seu rosto avermelhou-se e sentiu vontade de desaparecer.

— Maria, seja bem-vinda a nosso acampamento. — falou enigmático — Mas esse não é um lugar para pessoas fracas... Percebe?

— Sim, senhor. — respondeu olhando diretamente para Rodrigo, tinha um semblante típico português apesar da pele queimada pelo sol e os olhos eram de um verde tão intenso, que era impossível não admirá-los.

— Inácio! — um rapaz alto e de fortes braços, com cabelos negros bem curtos e olhos castanhos que estava na ponta da última fila pôs-se ao lado do capitão — Desça sem conversas, e leve Maria aos alojamentos.

— Sim, Senhor capitão! — respondeu saindo do refeitório e sendo seguido pela menina e por Dona Lucrecia.

O Capitão deu mais algumas orientações aos jovens e autorizou todos a continuarem a sua refeição:

— Os demais estão dispensados. Você vem comigo! — ordenou a Rodrigo que o seguiu de cabeça baixa, entrando na casa grande. Fernando abandonou o prato e desceu irritado para o acampamento.

Dona Lucrecia olhou para menina, parecia enternecida, embora bastante agitada:

— E então, querida? Gostou? — perguntou.

— Não sei o que dizer... — afirmou chateada.

— Há de se acostumar! — garantiu — Lembre-se que seu pai lhe mandou para cá.

— Não quero decepcioná-lo. — respondeu enquanto a mulher lhe ajeitava o vestido.

— Eu sei, amada. Eu sei. — sorriu gentil a senhora — Olhe que lugar maravilhoso.

— Mas só existem garotos aqui. Não sei se devo...

— Mas um motivo para que fique e honre seu pai. — afirmou novamente interrompendo a menina — Queria muito poder ajudá-la. Mas tenho que retornar com dois moços formados ainda esse mês. Volto o quanto antes para ajudá-la, tudo bem? Achas que podes suportar, benzinho?

— Eu acredito que sim. Entendo e agradeço a sua preocupação.

— Não precisa agradecer... — gargalhou a mulher, apertando as bochechas da moça — No futuro, poderá me agradecer, querida. Tenho certeza que terá motivos de sobra para isso.

Ao entrar na casa, Rodrigo sentiu-se sucumbir diante do homem. O Capitão Góis andava imponente a sua frente, fazendo-o se sentir cada vez mais mortificado, diante do que o aguardava, afinal, seu corpo nem se recuperara do último sortilégio.

Da cozinha, uma imagem destacou-se: Tita, a velha cozinheira índia, que o criara, as rugas daquela anciã eram aparentes, suas queimaduras pelo excesso de sol e, nesse momento, seu desespero pela situação. Rodrigo sorriu para a mulher, na intenção de acalmá-la, na verdade, aquela situação repetia-se com certa frequência, havia em si sempre erros constantes e, mesmo que não os tivesse, o pai daria um jeito de que ele os cometesse. Possuía, hoje, o raro privilégio de não ter plateia para o seu martírio.

Dentro da casa, o Capitão grudou-lhe pelos cabelos e, com muita raiva, jogou-lhe sobre a mesa da sala de jantar. Por alguma razão, lembrou-se de ter apanhado sobre ela algumas dezenas de vezes, sempre com a mesma brutalidade. Também lembrou que nunca fora convidado a sentar-se como um igual em qualquer refeição naquela sala, para o homem ele não era o filho - ele não o via como tal.

O pai com rapidez sacou o cinto que prendia as calças e desferiu-lhe uma sequência de golpes, Rodrigo aguentou calado cada açoite como deveria um homem suportar. O Capitão, ao contrário dele, gritava palavras ofensivas, principalmente referentes à mãe fugitiva:

— Sendo filho de uma meretriz, certamente seria o lixo que é! Quantas vezes ainda me fará vergonha! — acusava o Capitão. — Eu devia matá-lo de bater, estorvo!

Na sua cabeça, Rodrigo processava cada fato daquela história, todos aqueles que conhecia… Mas não conhecia todos. Pensava naquele abandono, em ter sido condenado aquela vida. Sua vida resumia-se aquela criação e tratamento de escravo que recebia: Surras. Humilhações. Exercícios cruéis…

Ainda na infância fora ensinado pelo homem a chamá-lo de Capitão, e como qualquer criança, olhava para o pai com admiração, desejando ser igual ao seu herói. Mas não era, acabava provocando os piores sentimentos no homem. Demorou muito para notar que se ficasse muito perto estava pondo em risco sua vida, carregava consigo uma marca de ferro quente na planta do pé direito, um dos dias de maior dor que já sofrera, e um deslocamento no ombro - que vez por outra ainda incomodava - esses incidentes marcavam a descoberta que o silêncio e a distância eram as suas melhores opções para permanecer vivo. Em sua inocência, chegou a crer que com os anos e com algum esforço seu aquela raiva diminuiria… Não. De certo que aumentava.

Rodrigo era o objeto do ódio do pai, e se pudesse, tinha certeza que o homem o mataria, o rapaz não desafiava, nem mesmo respondia. Crescera sobre a rígida educação daquele acampamento militar. Contara às vezes que saiu daqueles muros, conhecia apenas aquela realidade, que cruel para os outros, para ele era um tanto cotidiana. Sentia-se rejeitado, mas não o suficiente para não temer, respeitar ou amar aquele progenitor.

O garoto levantou-se da mesa e foi suspenso pelo pescoço, os olhos do Capitão pareciam faiscar, o medo foi possuindo cada sentido seu enquanto o ar esvazia-se de seus pulmões, a cor foi deixando-lhe, mesmo assim, não implorou pela vida. Dias entrou na sala e olhou fixamente para Góis, o homem largou-o no chão, lembrando-se do plano. O menino tomou fôlego, era teimoso em viver, então recebeu um chute no estômago. O Capitão por segundos andou de um lado para outro atormentado.

— Levante. — ordenou ao moço, que se pôs em pé com muita dificuldade. — Esses olhos! — Rodrigo tomou uma bofetada no rosto — Não posso nem te olhar sem me lembrar daquela maldita rameira!

O homem grudou novamente nos cabelos do rapaz:

— Na próxima vez que me desobedecer, vai apanhar com o chicote dos cavalos, fui claro? — bramiu o capitão.

— Sim, senhor. — respondeu num gemido, com a voz submissa.

Maria chegou ao dormitório daquele acampamento, um prédio de tinta desgastada que ela achou mais parecido com uma prisão. Entrou sendo observada por todos. Todas as portas tinham no mínimo dois jovens de olhares curiosos acerca de onde aquela garota ficaria. Ficou praticamente na última.

Maria olhava tudo em volta, e notou que suas coisas já estavam distribuídas no local. Havia três camas de palha, as janelas possuíam grades e a iluminação provinha de um candelabro pequeno e quase vazio que poderia se apagar a qualquer momento. Quando se virou junto à porta viu que um jovem a observava, era um moço de pele clara, o mesmo que vira da carroça. O rapaz, só agora pôde notar, tinha os cabelos mais longos e claros, amarrados para trás, os olhos de um azul marítimo e um rosto tão jovial que parecia um ser celestial. Fernando, não sabia se pela ausência de garotas naquele lugar ou pela situação de tê-la no seu quarto achou que era a moça mais bela que já vira em toda a sua vida:

— Olá, eu sou Fernando. — disse esticando a mão gentilmente.

— Maria. — respondeu secamente sem encará-lo.

— Bonito nome. Seja bem-vinda. — disse recolhendo a mão num gesto tímido, que em nada combinava com ele.

— Obrigada, mas acho que estou no quarto errado. Já que não há meninas… Eu não devia ficar sozinha?

A menina andou de um lado para outro, como se fosse explodir, Fernando queria de verdade ajudá-la, porém, não sabia como, andou até a garota que o encarou e questionou:

— Se devia estar sozinha, por que estou aqui no seu quarto?

— Isso aqui não é um palácio! — bradou uma voz alta atrás dela, que não precisou virar-se para saber que era o capitão — Você fica no quarto onde eu te colocar, entendeu?

O capitão andou pelo quarto vistoriando-o, junto dele, Rodrigo tinha as mãos para trás, a cabeça baixa e um ar sério e preocupado. Fernando endireitou o corpo, como se aquela vistoria incluísse a ele próprio.

— Não aceitarei reclamações. — repreendeu o homem — Reclamações e comportamentos inadequados aqui são punidos severamente. — acrescentou encarando Rodrigo, que se encolheu ainda mais.

O militar andou por entre as camas e forçou as grades, parecia vistoriar uma cela, os rapazes se entreolharam, mas já olhavam para o Capitão quando esse se virou:

— Confiarei a vocês dois a companhia dela e espero nenhum galanteio com a moça.

— Por que temos uma moça em nosso quarto? — perguntou Fernando com um sorriso matreiro.

— Por que eu decidi assim. — o sorriso dissipou-se inteiramente de sua face — E sou eu quem manda nas coisas por aqui, entende isso?

— Sim senhor. — respondeu Fernando de imediato.

— Não ouvi sua resposta, Rodrigo.

— Sim, senhor capitão.

— Melhor assim. — Pero de Góis, com o mesmo andar sério e imponente saiu do quarto. Imediatamente, Rodrigo jogou-se fatigado sobre a cama. Fernando aproximou-se irritado:

— Como podes aceitar isso? Ele não tem o direito de sempre usá-lo como exemplo! Trata-o como o pior dos escravos, mas és filho dele!

— Cale a boca Fernando! Me deixe em paz. Eu tava falando baixo mesmo, no fim, ele estava certo. — disse virando-se com cuidado, na camisa as marcas de sangue podiam ser vistas. — Ele tá certo e você sabe disso.

— Não é possível! Não posso crer no que estou ouvindo. Você tem que reagir, homem! — e percebendo que Rodrigo permanecia indiferente acrescentou — Ele não vai mudar com você, passar a te amar e nem ela vai voltar! Pare de esperar e tome as rédeas de sua vida, já falei. Mostre a teu pai que aí habita um homem.

— Me deixa em paz! — pediu levantando e saindo do quarto.

Fernando olhou para a menina - se esquecera completamente de Maria - ela sentara sobre a última cama, próxima a outra parede, virou-se sem uma única palavra. Tinha os pensamentos confusos, estava muito longe de casa e não sabia o porquê, mas, agora acreditava que mentiram para seu pai. Estava ali por outra razão. Mas qual? Já na cabeça de Fernando algumas coisas pareciam fazer muito sentido, no entanto, naquele momento acreditou que o melhor era esperar.

Pela manhã, Fernando convidou Maria a acompanhá-los em todas as atividades. Ela, bem mais calma, entendeu ser o melhor a fazer. Fora a noite mais difícil de sua vida, chorara por longas horas, parando somente, quando a aurora demonstrava seu brilho. Tanto Fernando, quanto Rodrigo não conseguiram dormir também, mas silenciaram em respeito aos sentimentos dela.

Mas, naquela manhã, o ânimo de Maria já era outro, devia aprender os horários e as rotinas e, seguir as regras, para não se encrencar. Entrou pela primeira vez em uma sala de aula, era gelada e sem graça, cheia de ordens, limitações e um silêncio doentio que ela não podia entender.

Apoiada sobre os cotovelos, olhava pela janela e pensava em como fugir e voltar para casa. Viu Rodrigo, o rapaz aproximava-se carregando um grande jarro de barro. Ainda se sentia fascinada pelos olhos do rapaz, de um verde semelhante as matas brasileiras, os olhos do rapaz perceberam a contemplação e, imediatamente, ele abaixou a cabeça tímido. O rapaz não cumpria as mesmas rotinas que os jovens do acampamento, passava todos os dias servindo ao Capitão, estava sempre perto do homem, em silêncio e de cabeça baixa, ora obedecendo às ordens do comandante, ora retransmitindo-as a qualquer outra pessoa dentro daquela fazenda. Maria observou que ele entrava e saia das aulas, sempre mais como um complemento:

— O professor das letras que me perdoa, mas tenho que trocar a água de seus alunos. — afirmou entrando na sala de aula e substituindo a grande jarra pela que trouxera.

— Rodrigo, devia ficar na sala e aprender com os outros. — advertiu o padre encarando-o.

— O Capitão me deu ocupações para o dia todo, peço desculpa ao mestre e prometo retornar na próxima aula.

— Não prometa o que não cumprirá, menino! — resmungou o homem que já não era mais ouvido, pois Rodrigo já desaparecera no horizonte subindo em direção à casa grande.

No almoço, após ajudar a colocar todas as panelas em cima da grande mesa, o garoto sentou-se ao lado de Fernando, que esperava Maria servir-se, Rodrigo comia rapidamente:

— Mas que pressa é essa, homem? — perguntou Fernando que mal tinha dado a primeira garfada na comida e Rodrigo já engolira praticamente toda a sua ração.

— Tenho umas coisas pra fazer…

— O Capitão te deu atividades na hora do almoço? — resmungou o outro vendo que Maria se aproximava.

— Não. Essas são minhas mesmo. Te vejo nas ocupações da tarde. Até mais ver.

O rapaz saiu apressado, correndo em direção aos dormitórios. Maria sentou-se ao lado de Fernando, que se fartava com um suculento prato de carne-seca e ia explicando tudo sobre o acampamento, as regras e, principalmente, formas de burlá-las:

— E Rodrigo? — questionou a moça.

— Que é que tem ele? — assustou-se com a pergunta o jovem que lambia os dedos.

— Se o capitão é pai dele, por que não mora com ele na casa grande? Não faz sentido pra mim.

— O Capitão?! — riu o garoto — Aquele homem o trata pior que aos índios. Estar conosco é uma vantagem pra ele, acredite em mim.

— Mas…

— Espere mais um pouco e verá. — acrescentou interrompendo a menina — Vamos até o quarto buscar as coisas para o nosso turno da tarde?

Os dois se dirigiram ao pavilhão e antes de entrarem, no meio do caminho um grupo de jovens os parou:

— Boa tarde, Fernando. — sorriu o outro rapaz.

— Olá, Inácio — disse sério Fernando.

— Por que não nos apresenta a menina campista? Queremos também fazer novas amizades. — riu o rapaz debochadamente.

— Maria, este é Inácio. — disse ele contrariado. — Pronto já se conhecem. Podemos ir agora?

— Calma... A novidade do acampamento é exclusividade sua?

— Inácio, vai embora. — ordenou Rodrigo que apareceu a certa distância.

— Talvez não só sua... — e virando-se para Rodrigo sorriu entre dentes — Fale primo, sua bajulação a esse que se diz rei pode mudar agora, certo?

— Minha vida não é problema seu! — respondeu de imediato.

O rosto de Rodrigo era irritado, Maria tremeu diante da eminente briga que parecia estar prestes a acontecer e Fernando, por fim, decidiu interferir:

— Rapazes, não é preciso brigar! Nós recebemos orientações severas quanto à estadia de Maria conosco. Lamento, mas o capitão mataria qualquer um que usasse de galanteios com a moça. — advertiu olhando para ambos ao mesmo tempo.

— Mesmo que fosse filho de um bandeirante matador e sem coração como seu pai Inácio. — completou Rodrigo.

Inácio andou na direção do primo e bateu seu ombro com força contra o dele que sentindo dor, irritou-se ainda mais. Inácio riu debochadamente. Fernando segurou Rodrigo pedindo que deixasse a questão para outro momento. Os três caminharam em direção ao quarto, Maria ao entrar deparou-se com uma longa cortina de tecido escuro dividindo o quarto em dois. Rodrigo havia diminuído a distância entre as camas ficando ele e Fernando com um pedaço menor do quarto, a fim de que a menina tivesse privacidade. Ela atravessou para o outro lado da cortina, notando que agora seu leito estava protegido de qualquer olhar por completo:

— Obrigada! — falou feliz abraçando o jovem, que deu um tímido sorriso. — Por que fez isso?

— Vi seu sofrimento ontem e... Bem, queria que soubesse que não lhe faremos nenhum mal.

— Eu sei. Devo lhe agradecer pela interferência no corredor também.

— Não deve andar sozinha nunca. É perigoso. — afirmou o rapaz.

— Vamos protegê-la — acrescentou Fernando.

— Agradeço a preocupação — sorriu a moça — E todo o trabalho: seja do Fernando me acompanhando, seja teu Rodrigo preparando essa gentileza.

— Aqui alguns como Inácio, por exemplo, poderiam ser maus contigo, por algum prestígio. Vamos protegê-la — explicou Rodrigo.

— Agradeço, mas não acredito que eu precise de proteção.

— Uau! — exclamou Fernando deitando sobre sua cama — Então, nos conte, o que faz uma moça como você por essas terras?

— Sou filha de D. Martim Afonso, salvei a vida do Duque, então, ele decidiu ajudar-me na educação que eu não possuía.

— Bem, talvez você nos proteja. — ironizou Fernando — Para estrangeiros, como eu nessas terras, é um prazer conhecer tão distinta amazona.

— Não sou amazona. — riu a moça — Sou apenas bem treinada.

— Sou filho do Rei, o príncipe. O terceiro na sucessão do trono e se meus irmãos viverem muito, nunca terei que me importar com isso. Ou seja, meu treinamento é terrível... — gargalhou.

O menino sorriu, um barulho ecoou na casa grande, índios gritavam alucinados, Rodrigo correu a janela e dependurando-se nela:

— Carregamento de índios!

— Rodrigo para! — repreendeu o colega, encarando-o severamente — Não resolve essa espera, esqueça isso!

O garoto apenas correu desesperado morro acima, Fernando sorriu sem graça para Maria.

Nas semanas que se seguiram, Maria aprendeu tudo o que podia sobre o acampamento, participava do plantio de diversas hortaliças e do corte da cana-de-açúcar, auxiliando até mesmo na demarcação, afinal, havia um sistema muito parecido nas terras de seu pai.

Nos exercícios físicos não era poupada e teve o vestido substituído por uniformes como todos os rapazes do local, fato do qual ela não reclamou. A amizade com os dois moços ficava cada vez mais forte e trocavam histórias, ela falava sobre as vastas terras brasileiras, Fernando sobre as terras portuguesas e Rodrigo os presenteava com os locais mais bonitos dentro daquele acampamento, mesmo que conversasse pouco e se dividisse entre estar com eles e atender prontamente os desígnios de seu pai.

Aos domingos, iam à igreja juntos e auxiliavam na limpeza do espaço pós-cerimonial. Não era uma igreja grande, na verdade, Fernando dizia que era apenas uma capela. Maria gostava de sua cor azul - ela assim como os olhos de Fernando - lembravam-na a linda visão do mar. Rodrigo era respeitoso e ouvia o sermão, o Capitão dificilmente ia à missa, nas poucas vezes em que estava presente, Rodrigo não entrava, ficava do lado de fora, segurando o cavalo do pai.

Fato era que todas as tardes de terças-feiras ficavam responsáveis pelos cavalos, Fernando e Rodrigo adoravam, já Maria, entrava no galinheiro e no cercado dos porcos, procurando limpar o lugar para que os animais tivessem uma vida um pouco melhor.

— Fernando, o que é aquela salinha ali? — disse mostrando um pequeno cômodo sem janelas que ficava próximo ao chiqueiro.

— Talvez devesse perguntar ao Rodrigo, que é frequentador assíduo. — riu o moço.

— És tão engraçado Fernando. — resmungou Rodrigo — É uma prisão. Siga as regras e nunca irá para lá, Maria. É um lugar horrível!

— No momento tem alguém lá? — questionou Fernando.

— O Pedro. — disse com um estremecimento. — praticamente foi colocado lá quando você me tirou. Alguns meninos têm dificuldades para entenderem as regras. — afirmou Rodrigo olhando para Maria.

— Alguns são os favoritos do Capitão para uns bons croques mesmo. — disse provocando o menino.

Algumas noites no mês ficavam sobre o forte, eram as noites favoritas de Rodrigo, que passava até a madrugada observando o mar. Nessas noites, as conversas eram animadas e fartavam-se de mangas e goiabas, provindas das árvores próximas ao muro:

— Não entendo porque não vai à praia, é tão perto. — sorriu Maria.

— Não tenho autorização. No dia que o Capitão deixar, eu irei. — afirmou, ignorando a gargalhada de Fernando — Mas gosto de ver.

— Devia entrar no mar, sentir as ondas. É maravilhoso — mas ela secretamente já arquitetava junto com Fernando levá-lo.

Meses se passaram e a confiança entre os amigos crescia. Os três eram companheiros inseparáveis, Maria sentia-se segura junto com eles e, ambos, tinham como missão pessoal o bem estar da menina. Rodrigo trazendo frutas, pássaros e plantas. Fernando passando todo o tempo com ela, uma espécie de protetor.

Afinal, notou que apesar de ter acreditado que o acampamento representava o fim de sua vida, era muito feliz lá e nem pensava mais em ir embora.

2 de Maio de 2020 às 00:06 2 Denunciar Insira Seguir história
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Amanda Luna De Carvalho Amanda Luna De Carvalho
Sua história é muito boa! Os personagens são bem descritos e muito interessantes, o que dá um charme maior na trama! A ambientação é agradável e detalhada! Parabéns!
February 27, 2021, 09:02
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