shinia Bar-t-t-tender

Galo só queria descobrir se aquela antiga lenda sobre uma criatura desalmada vagando na escuridão falava a verdade.


Fanfiction Anime/Mangá Todo o público.

#lio-fotia #galo-thymos #promare
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capítulo único

Galo conhecia a lenda.

Era algo sobre um monstro de fogo morando na casa de pedra no meio da floresta. Um espírito perigoso de milênios atrás, no tempo que youkais ainda andavam livres por entre os humanos. Exorcizar aquela coisa havia sido uma tarefa de gerações. Os monges iam sumindo conforme o tempo passava, mas aquilo permanecia encarnado entre as pedras enegrecidas, invencível. Os relatos falavam de tentáculos de fogo roxo e verde, era tudo bonito e mortal ao mesmo tempo. O caminho até a toca do monstro era marcado por rastros cinzentos no chão. Nenhuma vegetação crescia onde as manchas ficavam, como se a mata respeitasse a mensagem do espírito.

Uma história muito bem contada para manter as crianças afastadas da floresta. Era esse o motivo da existência de todas as lendas, sim? Fazer crianças obedecerem aos adultos. Galo estava certo disso, e queria provar a todo mundo que aquilo não passava de pura baboseira.

Lucia, Aina, Varis e Remi, entretanto, não pareciam tomados pela mesma determinação.

Eles pararam ainda a uns cinco metros da entrada da floresta, onde uma pequena mancha cinza se projetava no solo sem grama. Ficaram olhando Galo com rostos preocupados.

— ei, o que foi? — o pré-adolescente de cabelos azuis perguntou, como se fosse realmente uma surpresa a hesitação de cada jovem ali presente.

— você vai mesmo? — Remi perguntou. Sua descrença era perceptível, e os outros o acompanhavam nisso.

— claro. Por que não?

— porque é perigoso. — Aina. E ela parecia a mais preocupada, como sempre. — deixa disso, a gente pode ir jogar Detetive lá em casa. Minha irmã não se incomoda.

— ah qual é, vão me dizer que amarelaram por causa de um pedaço de terra?

— só não é prudente, Galo. Afinal, o que vamos ganhar com isso? — o de cabelos verdes mexeu os óculos como sempre fazia quando se achava na razão.

Thymos se sentiu traído. — tudo bem, vão lá. — ele fez menção de dar as costas. Aina se exasperou.

— e você?

— eu vou até o fim.

— mas...

— ah deixa ele. Com o frio que faz no começo da noite, vai acabar desistindo antes de chegar na clareira. — Remi a puxou de leve pelo braço. Os outros já tinham dado as costas e começado a caminhar de volta à cidade. A menina olhou para o outro por um momento, mas também desistiu quando viu que Galo permanecia inalterado.

— então tá bom. Eu não me importo. Amanhã vocês vão se arrepender! — ele gritou enquanto ficava para trás. Mais por frustração mesmo. Queria fazer aquilo com os amigos.

Curvou as costas quando viu que eles nem o olhavam, tristonho. Não ia desistir por aquilo, não era? Ele era corajoso o suficiente para fazer sozinho. Mirou bem a floresta fechada à frente. Os raios de sol pintavam tudo de amarelo claro de começo de tarde. Estufou o peito, se fingindo de decidido e foi.

Era agradável passear por lá. Os pássaros cantavam e um ou outro bicho esmagava galhos finos ao longe. Era diferente dos parques arborizados e bosques, onde a natureza parecia parar quando um humano se fazia presente. Os bichos sabiam que Galo era um invasor, e só o ignoravam por enquanto. Ele não pretendia fazer nada que chamasse a atenção de alguma vida, de qualquer forma. Só estava lá para checar os fatos.

Remi tinha errado quanto ao tempo que levaria para chegar na dita clareira; Thymos conhecia um atalho. Ele tinha ouvido falar, pelo menos, e o encontrou com relativa facilidade, cortando caminho pelo leito do rio calmo. Ao todo, a caminhada por ali não devia ter levado mais de quarenta minutos. Ele sorriu vitorioso quando avistou a construção de pedra ao longe. Pelo menos a lenda tinha um pouco de verdade, então.

Andou sem pressa. Àquela altura, as pequenas manchas escuras haviam se transformado em verdadeiros desenhos, com suas curvas bonitas formando uma figura que não podia ser visualizada totalmente do chão.

A floresta fervia em verde logo atrás, entretanto, ali, nada além de uma grama fina e clara crescia. As lendas falavam em um espírito protetor que dava um fim aos caçadores ruins, então por que a mata parecia rejeitá-lo?

Galo tentou rir de si mesmo; estava pensando nos problemas de uma criatura que nem existia.

Ele se esforçava para não acreditar, na verdade. Estava tremendo de medo por dentro, a mente pensando os prós e contras de desistir agora e voltar a tempo de uma partida de Detetive e pipoca.

Enfiou as mãos nos bolsos. Tinha um canivete por lá. Coisa que nunca usou de verdade, e talvez nem soubesse usar. Ele era alto e forte para a idade, mas nunca foi de se meter em briga.

As janelas da casa eram de uma madeira enegrecida, sabe-se lá se pelo tempo ou de natureza mesmo. O espaço lá dentro era tão escuro que luz nenhuma se alastrava por mais de dois palmos de distância. A porta da frente era pesada. Ele se surpreendeu com a facilidade e silêncio que a madeira se moveu ao mínimo esforço.

Sua sombra se alongou até se fundir à escuridão inabalável. Ao contrário da floresta viva, tudo lá dentro se resumia ao silêncio quase fúnebre. Não havia nada. Galo relaxou os ombros, suspirando. Um pequeno sorriso de vitória começava a se desenhar em seu rosto.

Chegaria à casa de Aina como um vencedor, afinal.

Foi o que pensou a princípio. No meio da escuridão, algo fechou a porta pesada num grande estouro. O casebre se enfiou no breu, e Galo estava lá, no meio.

Bem quando seu pânico começava a querer transbordar, pequenos pontos luminosos se espalharam pelo ambiente. Eram bonitos, uma mistura de verde e roxo agradável, a cor das pequenas estrelas que iluminavam o teto do quarto de Lucia. Galo aproximou os dedos de uma, sentindo o calor agradável que emanava, mas ela se apagou antes que pudesse toca-la. Restou uma fina fumaça branca, desaparecendo rápido enquanto dançava.

Ele sentiu uma presença calorosa no lugar. Olhou por cima do ombro, e o viu.

Um menino, quase rapaz, como ele, escondido à sombra das chamas estranhas. Seus olhos magentas brilhavam como elas.

— quem é você? — Galo perguntou, realmente confuso.

— quem você acha que eu sou? — foi a resposta. Um tanto mal-humorada para o seu gosto, mas tudo bem. Ele realmente parecia mais um daqueles punks estranhos.

— um ratinho assustado...?

como?!

— é cara, escondido aí, com medo, enquanto essas coisas bonitas voam. Me parece coisa que um rato assustado faria.

A pessoa na escuridão levantou, se ergueu, e foi como se uma onda de calor soprasse no rosto de Galo.

Ele estava começando a suar.

— Eu ainda pareço um rato?

— tá mais pra aquecedor. — riu sozinho.

Ele fez uma cara incrédula, mas durou só um segundo. — você é só um idiota. Suma daqui antes que eu te transforme em carvão.

espera. você é o espírito da floresta? — apontou para uma pequena bola, e ela se desfez ao mesmo tempo.

— quem mais seria?

— os adultos vivem falando em um monstro assustador. — falou com um sorriso pequeno de vitória, que logo se apagou — E... você é só um menino.

— pouco me importa o que falam de mim. Vá embora logo. Eu falei sério quando te ameacei. — deu as costas, quis caminhar de volta para o escuro, mas Thymos o impediu, agarrando em seu pulso. Era quente. O calor da pele transcendia o tecido grosso da roupa e parecia querer queimar o garoto aos poucos. As mãos enluvadas criaram uma chama curta que ameaçou avançar contra o humano, mas se apagou sozinha quando ele não vacilou. — qual o seu problema, você é idiota, por acaso?! — Esbravejou, se soltando de vez e encarando Galo bem nos olhos.

— Qual o seu nome? Eu me chamo Galo.

— vá embora.

— me diga o seu nome antes.

— se eu disser, você some?

— por hoje, sim.

— Lio. Lio Fotia.

— é bonito.

— e daí? Vá embora.

O garoto passou as mãos pelo cabelo azul bagunçado, sorrindo pequeno. — tudo bem, então. Mas eu volto.

A porta grossa se abriu, e ele praticamente foi empurrado para fora por aquele olhar grosseiro.

O dia já tinha se extinguido. A floresta se pintara em tons de preto e azul escuro difíceis de discernir. Galo não tinha certeza de que ia conseguir acertar o caminho naquele breu, mas restava tentar.

Uma pequena bolinha colorida e quente se formou na sua frente, trazendo calor e iluminando pouco do caminho ao redor.

— use isso. E não morra, ou vão me culpar depois. — o menino falou da janela recém aberta. Seu semblante sério podia parecer assustador, mas ele era baixinho e bonito, e Galo achava fofo.

— obrigado, Lio.

Ele desviou o olhar, emburrado. — não faço por você.

— eu sei.

Thymos foi, mas fez questão de voltar no dia seguinte, e nos outros também.

E Lio não achou ruim; ficou na janela, esperando.

24 de Abril de 2020 às 22:07 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Bar-t-t-tender Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

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