shinia Bar-t-t-tender

Sentado em cima do viaduto em eterna construção, olhando o teto das casinhas pequenas parcialmente encobertas por uma ou outra árvore, Lio pensou bem em tudo que vinha falando nos últimos meses. Ele não sabia de nada do resto do mundo, mas ali, naquele pequeno pedaço de nordeste, certamente ainda havia um pingo de amor.


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#galio #galo-thymos #lio-fotia #promare
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capítulo único

Faz calor na noite metropolitana de Promepolis. A mulher do tempo previu trinta e um graus para a quarta-feira insossa de um mês de março qualquer. Entretanto, ali em cima, com o vento frio vindo da praia tão, tão distante, Lio não parava de esfregar as mãos nos braços, tentando trazer um pouco de quentura para o corpo frio.

Era bem uma dessas noites de desgraçar qualquer humor, trazendo aquela sensação incômoda no fundo da garganta que ninguém sabe como tratar. Ele provavelmente estaria em casa, jogado num canto enquanto tenta lidar com isso, se Galo não tivesse aparecido jogando pedra na janela, convidando para mais uma aventura bestinha e gostosa ao mesmo tempo.

Ele sempre quis fazê-las. Essa coisa de andar a esmo por aí, ocasionalmente trocando uma ou duas palavras perdidas e continuar observando os pequenos detalhes de cada canto. Lio é esse tipo de cara sensível, apesar de não gostar de transparecer por puro medo idiota. Parece que Galo percebeu, e de um jeito muito sem palavras, vinha o convidando para passeios aleatórios no começo das noites mais quentes.

As pernas de cada um ainda doíam ao chegar no topo da construção. Eles tiveram que pular os canos de concreto logo no começo da rampa, Galo caiu e raspou o joelho com isso. Fotia riu, mas riu jogando a água que havia levado, limpando a ferida com a brutalidade cuidadosa que lhe é característica.

A luz dos postes na pista abaixo quase não alcança o espaço largo no topo do viaduto em eterna construção. Não há amuradas, e eles se sentam bem na pontinha, deixando os pés pendendo no espaço de cinco metros e meio abaixo. Por um segundo, Lio imagina cair. Ah, como seria agradável, de alguma forma. Despencar dali e pronto, acabar com qualquer preocupação. Mas Galo coloca a mão grande, forte, por cima da sua, e ele faz o pensamento ir embora. Galo sempre o faz, e ele tem a impressão de que ter o mesmo efeito no outro.

Um carro passa lá embaixo, com os faróis fortes, a luz chega até a ponta dos pés de cada um. Seria engraçado se alguém os visse. De certo, pensariam que são só mais uns suicidas, como o cara da semana passada.

O pensamento causa um calafrio em Lio. Ele ainda vê o roxo no braço de Galo, cortesia do padrasto nojento que a mãe dele arrumou.

Estariam ferrados se o vigia aparecesse agora.

O mundo abaixo se exibe em tons escuros com uns poucos pontinhos luminosos. Se prestar bem atenção, vai poder ouvir o farfalhar das árvores que (ainda) dominam a paisagem interiorana. Lio tem dois gatos esperando em casa, Galo, um jabuti estressado e discussões com um velho frustrado. O mundo não parece amoroso. E eles são dois punks malditos provavelmente sem nenhum futuro de verdade. Mas ali, ali em cima, em cima da cidade que começa a mudar e se tornar mais violenta, eles se olham, no escuro, e se encontram pela primeira vez.

Os corpos se aproximam, e uma carroça passa logo abaixo, o velho homem vê, talvez grite, mas eles não escutam.

Aquele beijo é errado, mas tem gosto. Eles batem os dentes, e tem baba demais, mas esses erros são a essência da coisa.

Quando finalmente termina, as mãos de ambos se apertam, e eles notam os detalhes cansados de cada um. Lio tem uma cicatriz pequena na cara. Galo, as olheiras de uma semana mal dormida. Eles são burros e não conhecem nada além do pequeno mundo presente numa cidade nordestina qualquer, não sabem nem quando aquele viaduto vai ser finalizado, mas de que isso importa? Fizeram uma descoberta bem mais interessante por agora.

Descobriram que ali, naquele pequeno pedaço de terra, quente e desconhecido, ainda há um pingo de amor.



Notas
Escrevi isso há umas semanas, pensando numa noite exatamente como essa. É insossa, tem cara de mal-amada e doente, é isso, ou sou apenas eu mesmo: minha própria descrição se externando e batendo na minha cara. O viaduto foi finalizado, enfim. Os caminhões passam por ele e não há nada nem ninguém no topo escuro. A estrutura não foi cimentada, as bordas são de areia vermelha e ele desliza mais a cada chuva.
A noite é insossa, eu estou jogado num corredor escuro depois de digitar vinte páginas de texto, e ninguém vai aparecer aqui com uma promessa de aventura sem sentido.
Mas tudo bem, é por isso que eu escrevo. Pra misturar realidade com fantasia e tornar essa carcaça menos vazia
24 de Abril de 2020 às 21:37 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Bar-t-t-tender Não sou novo aqui, não te peço licença.

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