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nathymaki Nathy Maki

Com olhos heterocromáticos vêm a habilidade de enxergar os dois mundo: o dos vivos e o dos mortos. Um fantasma de estranhos cabelos esverdeados, uma série de desaparecimentos sem explicações, uma família problemática. Em meio a tudo, Shouto precisa juntar todas as pistas e achar a solução para esse mistério.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

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I. Cabelos de verão e rosto de inverno


“Os monstros existem, e os fantasmas também; eles estão dentro de nós, e às vezes eles vencem.”
— Stephen King

Todoroki Shouto era um garoto estranho.

Não por seus cabelos terem cores diferentes. Não por seus olhos terem cores diferentes. E muito menos por, ocasionalmente, ele ser pego falando com o nada; mas sim pelo que esses atributos, todos eles, em especial os olhos, o propiciavam.

Tudo começou quando ainda era um bebê, pequeno e fofo, com bochechas gordinhas e risada contagiosa. Os pais assistiam sorridentes o móbile de estrelas girar e o diminuto serzinho no berço rir para ele como se fosse o objeto mais engraçado do mundo. E então, como se uma brisa gelada houvesse passado por entre os presentes, o pequeno Shouto começou a chorar.

E não parou mais.

Médicos foram visitados, preces feitas, pilhas e mais pilhas de exames e diagnósticos caros para, no fim, uma velha senhora que vendia miçangas nas ruas lhes dizer o que havia de errado com ele:

― São os olhos, você vê, ele tem os Olhos Fantasmas – explicou com um tremor na voz, a mão cruzando o peito em um sinal para espantar o mal. — Olhos de cores diferentes nunca pertencem a um só plano. Ele vê além.

― Vê além? – a mãe havia perguntado com a voz trêmula. ― O que isso quer dizer? O que há de errado com o meu filho?

― Vê além – a mulher repetira. ― Vê o que está sobreposto ao nosso mundo, o que chama de Outro Mundo: o Mundo dos Mortos.

Então era isso.

O pequeno e inocente Todoroki Shouto de repente parecia tocado pela mão do demônio. O pai no mesmo dia arrumara as coisas e partira. Seus berros ainda ecoavam pelos jardins ("Aberração. Você deu à luz a uma aberração. E se pensa que eu vou ficar um segundo que seja perto desse…desse anormal, está muito enganada!") quando a mãe agarrou suas quatro crianças, o bebê Shouto ainda chorando no colo, e abraçou-as na soleira da porta repetindo freneticamente:

― Vai ficar tudo bem. Todos nós. Vamos ficar bem.

E eles ficaram.

Talvez não tão completos ou emocionalmente estáveis quanto ela desejava. Porém, vivos e inteiros. Todoroki Rei não permitiria que aquilo prejudicasse suas crianças, elas lhe eram mais caras que a própria vida. Então desdobrou-se a trabalhar para garantir que jamais lhes faltasse o que fosse. No meio tempo, os irmãos mais velhos tomaram para si a tarefa de cuidar de Shouto.

Era Fuyumi quem o vigiava, alimentava e dava banho por entre os deveres e o cuidado com a casa enquanto a mãe estava fora; olhos cinzentos atentos e um sexto sentido que pressentia sempre que ele estava encrencado ou procurando por encrenca. Foi Natsuo quem cuidou de mantê-lo vestido e quente, quem lhe cobria durante a noite e lhe fazia cócegas e caretas bobas até que ele abandonasse aquele olhar apático ao fitar o nada e voltasse para eles.

Sua família.

O Mundo dos Vivos.

Mas era Touya, o mais velho e agitado deles, quem realmente conseguia acalmá-lo durante os surtos. Onde as lágrimas tomavam de conta e as mãos pareciam estar em toda parte. Quando os olhos ocos e vozes agudas que o impediam de dormir se tornavam excessivas. Era Touya quem cantava até a garganta secar e ele enfim se acalmar.

Quando ficou mais velho, era Touya quem batia nos garotos maiores que vinham implicar com ele, puxar seus cabelos e lhe atirar tomates chamando-o de bruxo, cria do demônio e outros apelidos tão carinhosos quanto. Era Touya quem o entendia no silêncio, na música compartilhada, no simples estar.

Era ele quem realmente o mantinha nesse mundo.

E quando Touya se foi, seu mundo se foi com ele.

Shouto esperou vê-lo do outro lado, frio e pálido, em tons monocromáticos e perturbadores. Porém, isso não aconteceu. Touya parecia ter seguido, abandonando-o ali, sozinho em um mundo que ninguém o desejava, um mundo onde estar morto parecia ser melhor.

Sem Touya ali para abafá-las, as vozes se intensificaram. Suas noites sem dormir dobraram e ele as enfrentou com café e livros. Enterrava-se nas palavras como uma escapatória para tudo o mais que ameaçava suplantá-lo. Enchia os ouvidos de música para que os murmúrios não penetrassem em seu cérebro. Enrolava-se nos cobertores, impedindo-os de tocá-lo, de ver os últimos segundos agonizantes como se fossem os seus.

A pele ganhou um tom pálido e meio doentio pelo tempo que passou trancado no quarto. A expressão agora um bloco frio de gelo, sem emoções à vista. Havia aprendido da pior forma que os fantasmas se aproveitam delas, liam-nas em seus olhos, em sua face, valiam-se de todos os seus segredos e em seguida viravam-nos contra si. Nem mesmo Fuyumi conseguia saber o que se passava na cabeça do irmão, ela apenas queria protegê-lo, proteger toda a sua família. Àquela altura, já nem mais sabia se isso era possível.

No começo era suportável. Como se ele fosse pequeno demais, insignificante demais para receber alguma atenção, então os fantasmas raramente o incomodavam. Mas, conforme Shouto crescia, sua presença com um pé nos dois mundos passou a se tornar mais pronunciada. Em todos os lugares que ia podia vê-los, buracos fundos o encarando, seguindo seus movimentos, esperando dele algo que não poderia lhes dar. Aos 8 anos suas vozes já não o deixavam dormir. Aos 10 anos, um deles o tocou. Foi um dos piores momentos de sua curta vida até então. As sensações, a dor, o peso que comprimia seu peito como um sinal de infarto. Tudo, podia sentir tudo. Naquele dia, ele gritou. E desde então seus sonhos nunca mais foram tranquilos.

Quando Touya estava lá, parecia quase fácil fingir que não havia nada, como se o irmão agisse como uma barreira flamejante entre ele e o outro mundo. Existem pessoas assim, cuja chama da vida, o desejo e a paixão queimam tão fortes, que nem mesmo os dedos gélidos dos mortos ousavam tocá-las. Não fora o suficiente. Aos 15 anos, a morte lhe tomou Touya. E desde então não havia uma noite sequer que não acordasse gritando, a respiração engasgada e o frio que tomava o corpo junto as cenas perturbadoras que lhe vinham à mente. Via sua própria imagem refletida no espelho, os olhos heterocromáticos o fitando de volta, e os odiava. Odiava aqueles olhos mais do que a si próprio. Eram os principais culpados por ele ser assim. Eram responsáveis por torná-lo uma aberração.

Aos 16 anos, ingressou no Ensino Médio sentindo-se mais parte do mundo dos mortos do que antes. Os cabelos bicolores escondidos pela touca do irmão, os fones enfiados nos ouvidos, mesmo que não tocassem música alguma, afastavam aqueles que derramavam perguntas. Shouto não gostava de interagir. Sabia o quão rapidamente a curiosidade inocente podia se transformar em medo, e este por sua vez, somente levava a fúria incontida. E então, o ciclo se repetiria, mas, dessa vez, o irmão não estaria mais ali para defendê-lo, para afirmar com aquela voz rouca e brincalhona que não era sua culpa.

Apesar de ser.

O prédio da escola nova era cinzento. Shouto o odiou à primeira vista. Cinza lhe lembrava os próprios olhos – ao menos um deles – e ele os odiava. Porém, para sua surpresa, não haviam tantos fantasmas pelos corredores quanto estava acostumado. De fato, para uma escola em um período que a taxa de suicídio era tão frequente, o lugar era estranhamente calmo e vazio. Àquela altura, não era mais surpresa alguma o frio que sempre tomava suas mãos, o coro de vozes atormentadas que lhe gritavam durante a noite, as visões translúcidas que interpelavam seu caminho, ordenando, exigindo, vingança, libertação. Mas ali, ali não havia nada. Desconfiança o atingiu e ele seguiu pelos corredores cinzentos – por que tinha de ser cinza? – com cautela até sua sala afundando mais o rosto no cachecol que o ajudava a manter sua temperatura, no mínimo, estável.

Foi então que o encontrou.

Shouto já estava acostumado a visão àquela altura, porém, ao ver o garoto ali, com seus cabelos de verão e rosto de inverno, encostado na parede e encarando o quadro negro, os pés enfiados nos tênis vermelhos balançando para lá e para cá, ele se surpreendeu. Havia cor ali. Tão diferente do cinza pálido em que a morte se apresentava. Ele parecia quase vivo. Definitivamente mais vivo do que a si próprio.

Havia um quê de etéreo em sua aparência. Um tamanho diminuto, quase infantil. Cabelos tingidos de um marcante tom esverdeado que começavam a desbotar na raiz, sardas espalhadas pelas bochechas como milhões de constelações condensadas, roupas alegres com alguma temática de super-heróis, mangas curtas e shorts, quase como se ele houvesse sido pego em um dia quente e tranquilo de verão em meio a algum jogo de basquete.

Então aconteceu.

Para Shouto aquela era sempre a pior parte, a percepção, o fio que surgia ligando-os ao vê-los. Os olhares se encontraram e ele se preparou. Esperou que viesse até si, que os olhos – até agora sempre os vira como buracos escuros de desespero – lhe passassem aquela sensação enregelante, que a boca se abrisse e um grito surdo lhe escapasse dos lábios. Porém, nada disso ocorreu. Os orbes que lhe encaravam tinham um tom de verde quente e morno. Ao menos, um deles. O outro não passava de um buraco enegrecido, cujo sangue seco escorria pela bochecha pintada. Como se Shouto precisasse de outro lembrete que ele estava morto. Como se ele próprio precisasse.

E então, incrível e impossivelmente, ele sorriu.

Todoroki recuou um passo, atordoado. O fantasma acenou e voltou a se balançar tranquilamente, olhos tristes e profundos como se escondessem segredos focando-se no quadro. As pessoas se amontoavam as suas costas, empurrando-o, questionando o porquê daquele engarrafamento, entretanto Shouto não conseguia desviar os seus daquele garoto que agora o ignorava completamente.

— Dá para sair da frente, ô bastardo? – Um loiro irritado bateu em seu ombro, olhos ameaçadores e postura intimidadora. Shouto recuou para longe do toque, mas não se encolheu com o tom de voz usado. Já havia enfrentado valentões o suficiente para saber quando um aparecia a sua frente.

Shouto respondeu ao olhar raivoso com um vazio e virou-lhe as costas sem dizer uma sequer palavra. O restante da sala ignorou o acesso de raiva, já acostumados com o temperamento explosivo do colega, e buscou seus lugares como se estes já estivessem marcados. Aparentemente, todos eles estudavam juntos nos anos anteriores e, portanto, já lhes era familiar a essa dinâmica de organização. Todoroki era o novato ali. A incógnita que eles não sabiam como tratar. O estranho lobo solitário intrometendo-se em uma alcateia já formada. E o loiro rabugento continuava fuzilando suas costas com um olhar mortal.

— Ora, seu... – Ouviu a voz irritada e o barulho de remexer-se no ar lhe atingiu. Outra pessoa se intrometeu, um ruivo dessa vez, e segurou o loiro pelo ombro, impedindo-o de avançar.

— Vamos lá, bro. – Ele sorriu, animado demais para aquela hora da manhã. Shouto lançou um olhar desconfiado por sob o ombro para o ruivo sorridente. Pessoas não ajudavam as outras sem desejar nada em troca. — É só o primeiro dia e ele acabou de chegar. Vamos todos nos dar bem, certo?

— Faça como quiser, cabelo de merda – foi tudo o que disse, antes de sair pisando duro para o seu lugar.

O ruivo o observou por uns segundos e se adiantou para Shouto com a mão estendida.

— Lamento por ele, ainda está meio nervoso com os acontecimentos do ano anterior. – Todoroki ignorou a mão, mesmo que só pudesse ver a morte quando tocava os fantasmas, não queria os demais surpreendendo-se com sua pele fria. O garoto não desanimou diante a frieza com que era tratado. — Meu nome é Kirishima Eijirou, mas todos me chamam de Ei.

— Todoroki Shouto – devolveu baixinho, percebendo que ele era uma daquelas pessoas que insistiam quanto mais eram afastadas. — Todoroki para você.

E cortou a conversa ali antes que ele tivesse a chance de perguntar algo, encaminhando-se para uma das cadeiras vazias ao lado da janela. Podia jurar que um sorriso divertido brincava na boca daquele fantasma estúpido que seguia a todos com atenção, o verde condensado de seu único olho brilhando com um ar quase carinhoso. Sentou-se na cadeira vazia e jogou a mochila ao seu lado. Um arfar coletivo subiu da sala, como se de repente Shouto houvesse chutado um gato. Em seguida, começaram os burburinhos.

— Hei, bastardo! – O loiro gritou de seu lugar, parecendo ainda mais irritado. — Não pode sentar aí, é o lugar do Deku de merda.

E, como pessoa madura que era, Shouto lhe mostrou o dedo do meio e se voltou para olhar a janela, ignorando os comentários que ferviam as suas costas os quais foram imediatamente cortados com a chegada do professor que mostrava inteiramente de preto, olhos cansados e olheiras tais quais as suas, se isso era realmente possível. O céu tinha aquele tom azul tranquilo pela janela, sem nuvens, ao menos aquele seria um bom passatempo para o dia que se arrastaria pela frente. E quem sabe, talvez naquele lugar livre de espíritos atormentados, ele finalmente pudesse ter algumas horas de sono tranquilas. Ao menos, até que os pesadelos o acordassem.

Não focou muito na aula em si, muito embora tivesse os ouvidos atentos para o que era dito, e deixou que a mente vagasse pelo espaço cortado apenas pela voz do professor, perguntando-se por quanto tempo essa falsa sensação de paz duraria. Essa ilusão foi quebrada pelo soar do sinal para o intervalo e o retorno das vozes animadas. Os alunos se reuniam em grupos e rodinhas de conversa, discutindo a aula – o professor Aizawa continuava desinteressado como sempre – e os planos para o fim do dia.

— Oi. – Uma das garotas da rodinha adjacente ao seu lugar se aproximou, sentando a sua frente sem pedir permissão e muito menos se incomodar com o olhar gelado que ele lhe lançava. — É Todoroki, não é? Ei me contou – esclareceu sob o olhar de forte suspeita que ele havia lhe lançado. — Sou a Momo, é um prazer tê-lo aqui na nossa escola. Espero que não se deixe levar pelas más primeiras impressões, mas o restante do pessoal é bem legal. E depois que você se acostumar, até mesmo Bakugou parece melhor do que é. Apenas não conte a ele que disse isso. – Ela lhe ofereceu um pequeno sorriso como se comentasse um segredo.

Shouto não respondeu, apenas continuou fitando-a com aqueles olhos heterocromáticos que desestabilizavam qualquer um. A garota engoliu em seco e apertou as mãos juntas, parecendo de repente desconfortável. “Ela logo irá embora.” Pensou ele, voltando a encarar a paisagem.

Não foi o que aconteceu.

Momo mordeu os lábios e olhou para baixo, hesitante, então, quando falou, foi uma surpresa para ele que a essa altura esperava que ela já houvesse partido.

— Você sabe o porquê de estarem todos assim? – Visto que pelo pouco que havia notado, ela sabia que não teria resposta. Mesmo assim, prosseguiu, decidida a tentar ser minimamente a pessoa decente que gostaria. — Não foi porque você é um novato transferido na metade do ano letivo, claro que isso contribuiu um pouco, mas pelo lugar. Como Bakugou disse, esse é o lugar de Midoriya. Ou era, ao menos.

Pelo canto do olhou, Shouto viu o fantasma lançar à garota um sorriso triste de reconhecimento. Então era isso.

— O que aconteceu com ele? – perguntou, já imaginando a resposta. A garota pareceu interpretar sua fala com um avanço, e, mesmo seus olhos se tornando um pouco mais sombrios, ela continuou.

— Ninguém sabe. Ele desapareceu no final do ano passado. Nunca foi encontrado. – “E nem será.” Pensou, sombrio, ainda encarando disfarçadamente o eco do garoto desaparecido. — Só estou dizendo isso, porque foi uma surpresa para nós ver alguém diferente sentando no lugar dele, não que estejamos julgando você ou o impedindo. Mas... alguns ainda acreditavam que ele iria voltar.

Shouto assentiu e a garota pareceu entender que era tudo que conseguiria com ele. Ainda tentou convidá-lo para o lanche com os demais, e, não recebendo resposta alguma, desistiu.

O restante da manhã se passou com rapidez. Shouto, imerso nos próprios pensamentos, nem mesmo viu o tempo correr. Só podia agradecer aquele professor por não o ter feito passar pelo vergonhoso momento de “apresente-se para a sala” e ter de se expor logo de cara. Ser deixado de lado assim era bom. Diferente de sua antiga escola onde não havia um minuto sequer de sossego. Talvez ali pudesse haver alguma esperança.

Então lembrou-se que se encontrava sentado no lugar do garoto morto e que o mal existia onde quer que fosse, não importando para onde ia.

No dia seguinte, sentou-se em um lugar diferente, não querendo atrair mais atenção para si do que já tinha no momento. Também tentou de tudo para ficar longe dos demais colegas, não querendo ser o alvo dos sussurros e muito menos ouvir mais detalhes sobre o garoto desaparecido. Porém, discrição era algo que aquela sala não parecia conhecer. E logo seu esforço para não ouvir se mostrou uma tarefa complicada.

— Ele é tão sério o tempo todo.

Shouto sabia.

— Parece que não tem expressões.

Não queria ter. Demonstrar significava vulnerabilidade. E os mortos não têm pena de se aproveitar desta.

— Ele sentou no lugar do Midoriya.

Como se Shouto soubesse.

Tentava ao máximo não bater seu caminho com o do fantasma que, por mais camarada que parecesse, não deixava de não pertencer a esse mundo.

— Então ainda não tiveram notícias dele?

— Não. A mãe parece estar desesperada. Bakugou me contou que ela passa a noite rodando as ruas, chamando por ele, mesmo que já se tenham passado sete meses. A polícia acaba sempre levando ela de volta para casa.

— Sinto falta dele. Era o único que me ajudava com a lição de matemática sem me fazer sentir como um idiota. Não consigo nem mesmo imaginar o que ela deve estar passando.

Shouto bufou e tentou não encarar o pequeno brócolis – quem em sã consciência pintava o cabelo de verde? – que acompanhava a conversa com um ar melancólico.

E foi assim a semana inteira.

Fragmentos aqui e ali, impossíveis de não serem detectados, mas que o fizeram construir um pequeno perfil do tipo de pessoa que ele havia sido. Alguém prestativo e animado. Alguém que não merecia ser uma vítima da escuridão que o mundo escondia. Aquilo despertou algo em si que pensou estar morto há muito tempo: empatia. Solidarizava-se com o garoto que experimentara tão pouca da vida e fora arrancada dela de modo tão injusto e brutal, pois disso Shouto estava certo, sua partida não havia sido de forma alguma indolor e tranquila.

O sinal final do dia tocou e a classe se esvaziou com rapidez, todos os alunos ansiosos para chegar depressa em suas casas e ter então o tempo tão merecido de descanso após um dia cansativo na escola.

Sem acreditar no que estava prestes a fazer, pôde apenas assistir os pés o levarem para mais perto do garoto, que continuava sentado onde o vira da última vez. Perto do lugar que agora sabia ser seu. Porque ele só podia ser o garoto desaparecido, Izuku Midoriya, o mesmo cuja mãe continuava a buscá-lo e que agora, ele sabia, jamais retornaria para casa. Parou de chofre, erguendo-se acima da figura diminuta que lentamente levantava a cabeça para encará-lo.

― Você é um fantasma, não é?

Se a imagem de fantasmas pudesse ser capturada, Shouto gostaria de tê-lo feito naquele momento. Os olhos – o olho – arregalou-se tanto que o garoto imaginou se havia sido assim que o outro havia caído e ele tropeçou em sua direção, cambaleando para frente com as mãos estendidas. A boca se abriu, porém, nenhum som saiu dela. E mesmo assim o significado estava claro para si: Você pode me ver?

A reação era como um grito silencioso.

— Posso – confirmou, perguntando-se o que havia de errado consigo e por que não ia embora dali. Mais importante, perguntou-se o porquê de não poder ouvi-lo. — Então, você é mesmo um fantasma?

Não obteve resposta, no entanto. O olho verde se encheu de lágrimas e o garoto – que de algum modo ao ficar de pé parecia ainda menor – pulou em sua direção como se quisesse abraçá-lo. Shouto recuou.

— Sinto muito, mas eu não posso te ajudar.

Ele balançou a cabeça, parecendo conformado e lhe lançou um pequeno sorriso. Uma compulsão estranha de querer consolá-lo nasceu. O olhar dele era tão solitário quanto o seu próprio quando refletido no espelho. Ouviu de novo as palavras dos demais, em sua mente e um filme da mãe daquele garoto, sozinha e vulnerável, a percorrer as ruas se passou. Algo em si se quebrou. Talvez a promessa que havia feito de nunca mais se intrometer, talvez o gelo com que cobrira seu coração, ou talvez mesmo a si próprio, ao ver o mundo a sua frente rachar enquanto algo de maior entrava em ação. Fosse o que fosse, o levou a falar:

— Mas posso passar um recado a ela se quiser.

Foi a frase errada a se dizer. O projeto de brócolis pulou no mesmo lugar e balançou a cabeça com tanta força, que Shouto receou que esta caísse. Ele esperou pela sensação, a náusea e a dor, mas não havia nada. Encarou o fantasma que pulava no mesmo lugar, satisfeito, sem entender o que estava acontecendo. Não foi o seu melhor momento de comunicação. De algum modo, o fantasminha havia entendido que aquele era um convite até sua casa e o seguiu alegremente até lá.

Querendo ou não, Shouto parecia ter conseguido um novo ocupante para o seu quarto. E não tinha a menor ideia do que fazer para se livrar dele.

19 de Abril de 2020 às 18:01 1 Denunciar Insira Seguir história
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Artemísia Jackson Artemísia Jackson
PERFEIÇÃO
April 20, 2020, 17:25
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