lsalcantara Lucas Alcântara

Do que você tem medo? De todos os nossos sentimentos, o medo sempre foi o que mais nos dominou ao longo da nossa existência. O medo do desconhecido, o medo de tudo que era estranho, mas principalmente o medo do escuro e dos horrores que nascem quando o sol se põe. Nessa coletânea de contos, você acompanhará as histórias mais sórdidas sobre esses terrores, essas criaturas que existem no âmago de nossa alma, ou bem debaixo da nossa cama.


Horror Literatura monstro Para maiores de 18 apenas.

#demonios #sobrenatural #terror #misterio #sangue #gore #monstros #lagos #feras #allan-poe #assombrações
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A casa na encruzilhada


Por toda a sua vida Vitor sentia que tinha sido amaldiçoado com a falta de sorte abissal, como se o universo tivesse escolhido-o para que sofresse uma vida de infortúnios tenebrosos e naquela noite ele sabia que o mesmo estava esfregando isso em sua cara. Em uma noite escura onde as pesadas nuvens cobriam o brilho da lua e das estrelas, o solitário rapaz percorria uma rua de terra batida completamente deserta, seus passos eram rápidos e sua respiração ofegante. O suor característico daquelas noites quentes empapava sua camisa, seus olhos assustados percorriam todo o cenário, deixando transparecer o mais puro medo de continuar a andar naquele lugar na pior hora possível. Enquanto avançava, orações se uniam com xingamentos e maldições para o Deus que ele tinha certeza que se divertia ao torturá-lo com esse azar.

Tudo começou quando ele não conseguiu segurar seu tesão pela sua prima e na primeira vez que ficaram sozinhos juntos, o jovem rapaz investiu como um cachorro de rua ao encontrar uma cadela no cio. Foram os sete minutos mais felizes de sua vida, que se tornaram momentos de pesadelo quando a melhor amiga dela, antigamente conhecida como sua namorada, o encontrou nu, segurando os cabelos da garota enquanto esta estava com a boca cheia demais para poder dar alguma desculpa. A sua, agora, ex-namorada saiu com tanta raiva dele que voltou para a casa dos pais no interior e agora lá estava o rapaz tentando consertar a situação, tudo por causa de uma grande falta de sorte.

Nada além de matagais, que dançavam com a corrida macabra do vento e som de animais que iam de um lado para o outro, ocupavam o espaço ao lado da rua estreita por onde ele corria. A escuridão transformava as árvores em contornos arrepiantes, que lembravam os monstros que habitavam os pesadelos do jovem por causa dos livros que ele lia, histórias estas que os protagonistas nunca se saiam bem ao enfrentar as horrendas feras da escuridão. Lembrar isso era outro sinal que caminhar naquela rua tinha sido uma das suas piores ideias.

Mas o maldito carro quebrara bem na parte mais deserta da BR, ele esperou por horas a fio algum motorista gente boa passar por ali, mas nenhuma alma viva chegou em seu resgate. Vitor sabia que devia ter esperado amanhecer no carro a beira da estrada, ou, pelo menos, ter carregado o telefone antes de sair de casa. Mas jovens apaixonados nunca foram muito inteligentes, e seguindo seu senso de urgência, entrou na primeira ruela as três da manhã de uma sexta feira treze, esperando encontrar ajuda em algum povoado ali perto.

Cansado, assustado e morrendo de calor, suas esperanças definhavam como um corpo seco ao sol. As nuvens enfim se moveram, deixando a luz das estrelas passar, mas a lua continuava oculta. No fim da rua, suas esperanças se renovaram ao ver a silhueta de uma pequena casa ao lado de uma encruzilhada.

Vem cá, Nico”

Uma voz pôde ser ouvida, mas era tão distante que parecia um sussurro do vento arredio, tanto que foi ignorada pelo jovem, tão ansioso por um telefone ou um simples copo de água, que correu para a moradia com forças renovadas e um sorriso no rosto, conseguia sentir que sua vida não poderia ser só azar. A medida que se aproximava a lua amarela saia por entre as nuvens e a casa se tornava mais visível, junto com o chamado, que agora parecia vir a poucos metros dali.

Vem cá, Nico”

Mais alto a voz foi ouvida e, dessa vez, a forma de uma frágil e pobre senhora dava para ser vista. Corcunda e andando com dificuldade, a idosa gritava para um macaquinho que guinchava de cima de uma árvore. Seus temores se desvaneceram por completos, velhas assim eram frequentes no interior, sempre gentis e receptivas a qualquer um que passasse em troca de um pouco de atenção, com certeza ela o salvaria daquele infortúnio. Suas paranoias eram apenas fruto de uma imaginação fértil, não era uma história de terror, era apenas uma ocasião de puro azar.

Vem cá, Nico”

O jovem se aproximou até chegar na cerca da casa, trocando o passo apressado por uma caminhada mais lenta, deixando seus pulmões puxarem o ar com mais calma. Ele sentia a sensação da esperança iluminar sua noite azarada, dando fim a toda aquela loucura, enquanto a lua amarela se erguia diante às nuvens sua sensação de tranquilidade aumentou, mas lhe foi arrancada como um golpe violento quando presenciou algo que levou toda sua sanidade de volta ao abismo do desespero.

Com a destreza de um animal, a velha saltou para a árvore e agarrou o macaquinho com uma bocada. Primeiro vieram guinchos de dor, depois, ossos quebrando e então os sons do animal foram sufocados por grunhidos vindo da senhora. O corpo de Vitor gelou, tomado pelo horror do evento presenciado. Em um ato quase irracional, movido inteiramente pelo medo, correu desesperado pelo mesmo caminho que veio sem esperar a velha se virar para ele.

VEM CÁ NICO!”

Não podia ser real, algo assim não poderia existir. Quanto mais ele corria, mais os barulhos das matas se intensificavam, ele ouvia aquela desgraçada chegar perto como se já estivesse colada em seu pescoço. Aquele pesadelo parecia irreal, um delírio absurdo de uma mente fraca, um redemoinho de caos e insanidade provocado por uma criatividade mórbida, Vitor só queria acordar antes de tudo isso acontecer. Queria poder voltar no tempo e nunca ter deixado sua prima entrar enquanto ele estava sozinho em casa. Mas jovens excitados nunca foram muito inteligentes. Enquanto corria como um gato assustado e gritava como um louco desvairado, as árvores se agitavam cada vez mais, grunhidos ficavam mais altos ao seu redor e risadas agudas soavam tão alto que pareciam vir de dentro de sua cabeça.

“NÃO CORRE GAROTINHO!”

“NÓS TEMOS UM PRESENTE PARA VOCÊ”

“TEMOS ÁGUA E COISAS GOSTOSAS”

“SÓ QUEREMOS FAZER BEM PARA VOCÊ!”

Mais e mais vozes apareciam pelas árvores, unidas a vultos e sons de galhos quebrando. Mesmo assim ele continuou correndo sem olhar para trás, correu sem se importar que o seu pulmão queimava como fogo ou que seu coração batia como uma bateria em um show de rock. Ele correu como se fosse a única coisa que aprendera a fazer em toda sua vida, correu sem sentir as dores dos pulmões, sem se importar com as pernas que queimavam como ferro em brasa.

Até que finalmente saiu da ruela escura, em um caminho mais aberto onde havia um poste de luz alaranjada. Ao chegar lá, o mundo ao seu redor silenciou; as risadas e provocações, até o vento pareceu sumir de repente, como se acordasse de um pesadelo. Quando Vitor percebeu que só os sons dos seus passos e do resto da sua voz rouca ecoava pela encruzilhada vazia, também diminuiu a velocidade, a corrida virou uma caminhada apressada que foi diminuindo até ele parar e se apoiar no poste, suado e ofegante, com tanta dor em seu peito que parecia que ia vomitar, mas não importava agora, finalmente estava livre.

O jovem se sentou bem embaixo do poste para poder descansar, suas pernas arderam e a antiga dor do joelho pareceu incomodar novamente, mas embaixo daquela luz alaranjada se sentia seguro. Tinha perdido a noção de quanto tempo havia corrido, mas será que tinha despistado ela? Por um momento pensou que estava sendo perseguido por várias daquelas velhas do inferno, mas agora tudo não parecia apenas uma loucura momentânea, um sonho distante e irreal. Poderia ter sido qualquer coisa, estava tão pilhado que ver um simples galho caindo causaria uma reação daquelas.

A luz alaranjada do poste clareava tanto a rua que todo o lugar parecia normal, vultos, figuras disformes, nada disso existia na verdade, dali Vitor conseguia até ver a trilha que o levaria de volta a estrada. Ele soltou uma pequena risada de alívio, caçoando de si mesmo por se assustar com algo que nem sabia se foi real ou não, assim que o jovem se levantou e começou a caminhar, um estalo o fez olhar para trás.

Olhos vermelhos em cima de uma árvore se tornaram um vulto enorme que voou em sua direção com um grito gutural e o atingiu como uma fera enlouquecida. Ambos rolaram na terra, o jovem segurou o que pareciam braços do que quer que seja que tenha caído sobre si, o cheiro podre encheu seus olhos de lágrimas e quando ele finalmente abriu os olhos para ver o que estava segurando, teve a visão do inferno.

Uma careta deformada por rugas e chagas, dentes afiados e amarelados abriam e fechavam na boca podre da velha maldita. As Iris vermelhas nas órbitas negras dos olhos daquela besta mostravam o horror de uma aberração demoníaca. O pânico voltou totalmente a consumir a mente do pobre rapaz. Aquela era a punição pelos seus pecados? Teria sido Deus capaz de criar algo tão horrível quanto aquilo? Em meio ao desespero Vitor percebeu que a força da velha começava a superar a sua, seus braços afundavam para perto do seu corpo até que a velha desceu sua boca no pescoço do rapaz. Ele gritou ao sentir o naco de carne sendo arrancado de seu corpo, o sangue jorrou na sua camisa e sua bexiga cedeu ao sentir a proximidade com a morte.

Em um ato de desespero, começou a tatear o chão, procurando uma saída dali, uma mão amiga ou conforto em seus momentos finais. Ele não queria morrer, sabia dos erros que cometeu em toda sua vida, mas aquilo não era o que merecia, a velha bestial engoliu a carne arrancada, se deliciando lentamente de seu banquete. Vitor sentia sua vida esvaindo pelo ferimento e quando estava quase desistindo, sua mão alcançou uma saída daquele tormento.

Uma pedra, grande, áspera e dura; ao sentir o objeto o rapaz segurou firme e num gesto brusco acertou a cabeça da bruxa, fazendo jorrar uma gosma preta, densa como graxa. Guiado pela vontade desesperada de viver, Vitor não deixou a velha se recuperar e acertou sua cabeça repetidamente. Os ossos da velha se quebravam enquanto a pedra afundava ainda mais, os golpes estouraram a cabeça da aberração, despejando miolos negros e podres na terra batida. Mesmo depois que a aberração tinha parado de se mexer, ele não parou de bater e continuou golpeando até não sobrar nada além uma massa de carne afogada numa poça de sangue negro.

Quando finalmente se deu conta que acabou, o jovem a chutou para longe e permaneceu fitando o cadáver até se convencer que o tinha matado. Ele olhou para a pedra na sua mão, coberta do sangue daquela coisa. Por um momento estava quase morto, vítima daquela aberração, mas agora, o monstro na sua frente que jazia caído. A ironia do fato fez uma pequena risada escapar de sua boca, com o tempo ela aumentou, ecoando cada vez mais longe até se tornar uma gargalhada. Nem a dor da ferida o incomodava, ele apenas queria desfrutar a beleza de estar vivo.

Quando diminuiu a risada outro som fez sua espinha gelar novamente, o som de outras gargalhadas vindo das árvores. Agudas e roucas, risadas com tosses e xingamentos. Seu corpo não mais te obedecia, apenas continuava parado ajoelhando diante a visão traumatizante. Várias daquelas velhas, com as bocas sangrentas cheias de apetite seus olhos vermelhos contrastando na escuridão. Todas nuas exibindo as chagas e deformidades pelos corpos velhos e retorcidos, conforme elas riam iam se aproximando, saltando das árvores para o chão, rodeando o pobre rapaz, parando na extremidade da luz do poste. Aquela cena puxava uma memória antiga, quando viajara com a família de sua ex e o carro quebrara no meio de uma estrada parecida com aquela. Sua sogra não deixou ninguém sair do carro e eles foram obrigados a esperar até amanhecer para buscar ajuda. Quando o marido perguntou o porquê ela contou uma das histórias que a avó dela contava na sua infância. Na época Vitor achara meio confuso e bem besta, mas agora a última parte ecoava claramente em sua cabeça.

“Se viajar em uma sexta azarada.

Nunca saia da estrada.

Pois a espreita pode haver uma besta de pele enrugada.

E você pode ser a próxima refeição da velha da encruzilhada.”

O poste pifou e sua luz se apagou, convidando-as para o ataque, sob a luz da lua as bruxas saltaram no corpo do rapaz. Em seus últimos momentos, levado pela vontade de viver ele conseguiu acertar duas velhas com a pedra, mas logo uma delas parou seu braço com a própria boca e o despedaçou com uma mordida. Elas arrancaram partes do seu corpo de maneira lenta, em um ritual funesto, devorando o pobre rapaz ainda vivo, rindo de seu choro, se deliciando pelo tempero que era o cheiro do medo impregnado em sua carne.

17 de Abril de 2020 às 15:50 7 Denunciar Insira Seguir história
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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
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May 19, 2020, 12:50

  • Lucas Alcântara Lucas Alcântara
    revisado May 20, 2020, 13:15
  • Karimy Lubarino Karimy Lubarino
    Olá, autor! Fiz uma nova verificação, porém ainda existem pontos que precisam de atenção em sua história, como a falta de crase em "as vezes", "a medida que" e em outros casos; a falta de vírgula para separar certos elementos da língua e falta de pontuação correta em algumas palavras. Caso faça uma nova revisão e deseja uma nova verificação, basta responder este comentário. May 22, 2020, 12:19
DC David Cassab
Essa introdução sobre o medo me lembrou uma coletânea de contos que li do H.P Lovecraft. Muito bom cara
April 29, 2020, 00:41

DC David Cassab
Cara muito bom, você deve ser fã de Lovecraft e do Poe né? Gostei da narrativa e do ambiente, vou ler o restante dos capítulos.
April 29, 2020, 00:39

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