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Finito

Antes tudo era nada.


Era vazio. Era oco. Era frio.


Minha existência tinha um padrão, eu vivia para servir. Não questionar, não pensar, não desejar. Apenas servir, apenas obedecer, apenas existir.


Eu vi o mundo ser criado. Vi as espécies mudarem. Vi o universo ganhar forma.


Mas ainda assim, tudo era nada.


Cores não tinham sentido, sabores eram irrisórios, emoções eram irreais. Porque antes, tudo era nada.


Eu era nada, porque, não existia você.


E quando eu vi você, um ser pequeno perto de tudo que eu já conhecia, uma alma vagante em todo o espaço. Bom demais para ter sido humano, perfeito demais para ter pecados, doce demais para ser finito.


Você sorriu confuso quando te busquei, porque você não sabia o que estava acontecendo. Você não sabia que seu tempo havia acabado, porque você queria fazer tantas coisas. Mas era sua hora, e eu tinha um dever, entregar sua alma à balança.


Você não precisou de muito para me desconcertar, foi bem pouco, até. Você não se assustou, apenas indagou:


— Quem é você?


Eu não sabia como te responder, porque eu não tinha uma resposta. Eu apenas existia porque deveria existir, e na primeira vez que te vi, me questionei se de fato tinha um propósito.


— Vim te levar para à balança. — disse em tom neutro.

— Balança? — tombou a cabeça para o lado, fazendo com que seu cabelo caísse nos olhos — Que balança?

— A que julga seus feitos. Ela decide se você vai para o vazio ou se vai reencarnar.


Então você me encarou, e lentamente seus olhos se arregalaram. Dava para ver as engrenagens em seu cérebro girarem, enquanto você entendia o que eu estava implicando. Você sorriu, e eu, que até então nunca senti nada, percebi tristeza.


— Entendo.


Você se calou por bastante tempo. Mais do que era de costume para humanos ou para você. E caminhamos por minutos à fio, até que tudo tornou-se branco, e uma grande balança estivesse à sua frente.


Percebi sua inquietação, você torcia as mãos em nervosismo. Totalmente característico de um ser humano. Pigarreou e encontrou meu olhar, sustentei seu fitar até que ouvi você suspirar.


— Ok, eu posso tirar um tempo até ir até lá? — pediu-me — não é como se eu fosse fugir ou algo assim.

— Não faz diferença. — comentei — o tempo aqui é infinito e em algum momento você vai ter de ir ao local determinado. — Eu não conseguia entender o porquê de sentir vontade de entender você. — Tome o tempo que precisar.


Eu não esperava que você sorrisse novamente, nem que me encarasse com tamanho fervor que não deveria existir ali.


— Você é tipo assim... a morte?

— Não sou a morte, sou apenas um mensageiro.

— E que mensagem você leva? — questionou-me curioso.

— Trago as almas para a balança.

— Você... então sabia que eu iria morrer?

— Não. Eu não decido e nem tenho a ver com a decisão. O destino escolhe a fruta, eu a colho. — Eu também não conseguia entender porque explicava aquilo a você.

— Poxa... tinham tantas coisas que eu gostaria de fazer... — lhe ouvi murmurar — não tive nem tempo de me apaixonar! — riu de forma triste — Na verdade tive, mas não tive tempo de confessar.


Eu não disse nada, porque não tinha nada a dizer. Todavia, escutei com atenção aos seus devaneios. Sobre a escola, a família, amigos, sonhos e arrependimentos. Eu que não conhecia cores, pude vê-las resplandecer em sua face. Memórias tão vívidas, energia tão intensa. Você falava e eu absorvia todo o calor que tinha ao seu redor.


Você não percebeu, e eu não iria dizer.


— Você fica aqui sozinho?

— Pode se dizer que sim. — Respondi.

— Não se sente solitário?

— Deveria? — devolvi a pergunta.

— Eu nunca gostei de ficar sozinho, gosto de conversar!

— Percebo. — Pontuei — precisa de mais tempo?

— Eu... — pude ver a dúvida em seu olhar — estou com medo... eu acho. Eu sempre fui covarde, mas eu tinha planos, sabe? E se eu for para o vazio? O que vai acontecer comigo?

— Não posso te dar certezas, Eijirou — era cômico a forma que seus olhos se arregalaram por eu dizer seu nome — somente a balança determina seu destino, mas eu não acho que você tenha motivos para se preocupar.


Dito isso, indiquei que ele fosse a frente. Caminhou de forma incerta até pisar no degrau mais elevado. Me encarou ainda receoso enquanto se posicionava, vendo a balança inclinar-se de um lado para o outro.


Esse era o momento que toda a vida do ser humano vinha à tona. A balança evocava suas memórias e sentimentos mais profundos, a fim de definir o que lhe seria feito. Eijirou, me olhava assombrado, enquanto eu permanecia imóvel vendo toda sua vida passar.


Ele era uma espécie de homem que há muito eu não via. Tinha o coração puro, sonhos simples, emoções claras. Apaixonado por tudo, dedicado em tudo. A balança pendeu mais uma vez. Suspirei, caminhei e parei em frente ao humano.


— Você vai reencarnar. Me acompanhe. — ditei.

— Espera! — segurou minha mão. Seu toque era cálido e gentil. O fitei sem entender, sentindo meu rosto ter uma expressão estranha — o que acontece comigo agora?

— Você vai retornar à Terra. Vai viver de novo. Mas isso não será agora, deve ficar um tempo... como posso dizer — busquei palavras para tentar lhe explicar de forma objetiva — como em uma espera.

— Então... eu posso ficar com você? — pediu acanhado. — Até dar minha hora... quero dizer.


Você não deixava de me surpreender, Eijirou.


— Se você desejar, que assim seja. — assenti em concordância, antes de virar as costas para a balança, com você ao meu encalço já tagarelando sobre outras coisas.

10 de Abril de 2020 às 12:59 0 Denunciar Insira Seguir história
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