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dissecando Edison Oliveira

Que fenômeno é este capaz de fazer a nossa vida sumir? Algumas dores simplesmente não acabam...


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UM VIDA AUSENTE


Durante aquela festa, Mariane soube distribuir sorrisos, conversou com quem havia conversado com ela e contou sempre a mesa história quando alguém lhe perguntava sobre Émerson.
Disse que ele agora fazia parte do passado, que o tempo que passaram juntos foi de altos e baixos e que eles decidiram seguir as suas vidas de modo individual, sem brigas na justiça ou coisas semelhantes. Em parte, Mariane não havia contado nenhuma mentira, mas emitiu uma série de detalhes que ela achava que deveria emitir; não contou que ela e Émerson já não transavam há algumas semanas, que aquilo não poderia significar outra coisa senão um caso extraconjugal por parte dele, apenas dele, pois ela o amava mais do que tudo, e que seu coração e todo o seu corpo só poderiam ser tocados por ele. Também não contou que o término foi um tanto conturbado, em uma conversa noturna na sala de estar, com o copo de vinho já vazio na mão de Mariane e com Émerson sentado e preferindo encarar o chão do que os olhos da esposa. Ela fez de tudo para que ele ficasse, que mudasse de ideia e que a abraçasse, assim como fazia na época em que se conheceram e tinham briguinhas sutis e tolas. Isso evidentemente não aconteceu, e Émerson deixou a residência ainda naquela noite, levando apenas a roupa do corpo e dizendo que no outro dia mandaria a sua mãe buscar o que lhe pertencia.
Mariane soube ali que aquilo era o fim, o ponto final de sua vida amorosa, o último capítulo de seu conto de fadas. Ela adorava cada pedaço de Émerson, desde a sua barba rala até as suas mãos firmes, que a pegavam pela cintura e agiam exatamente como ela gostava. Ir até aquela festa de formatura da sobrinha sem ele foi extremamente difícil, desagradável e triste. Assim como dar explicações de sua vida para alguns primos e amigos. Boa parte deles se aproximavam com sorrisos ensaiados, falavam sobre a festa e de como Beta estava radiante na hora em que teve o nome anunciado pelo orador da formatura. Mariane concordava com tudo que diziam, então o nome de Émerson surgia na conversa e era a vez dela de exibir o sorriso sem graça. Após ela explicar (e omitir) alguns detalhes de sua separação, Mariane sempre escutava as mesmas frases prontas; que aquilo era mesmo uma pena, e que logo tudo passaria.
Ouviu também uma coisa bastante curiosa, mencionada por praticamente todos com quem ela conversou. As pessoas olhavam para ela, analisavam por um instante e diziam: nossa, tem alguma coisa diferente com você.
Ela não sabia o que pensar ou dizer sobre aquilo, e apenas sorria quando, na verdade, queria chorar e se jogar nos braços de Émerson.


Na segunda-feira, Mariane chegou ao escritório no horário de sempre, pendurou a sua bolsa no encosto da cadeira e colocou a senha em seu computador. A senha era ÉMERSON, e ela começava a cogitar que já era hora de trocá-la. Começou a verificar os seus e-mails, com a vontade inicial de todas as segundas-feiras, quando percebeu que Nei Dias estava se aproximando. Nei era um sujeito gordo que usava um rabo-de-cavalo, falava pouco e que estava com os dias contados na empresa.
Ela o cuidou com o canto do olho, então ele passou e ela agradeceu, até que notou que ele estava voltando. Ele parou diante de sua mesa e Mariane fingiu que estava digitando alguma coisa.
— Bom dia, Mari — falou ele, a vergonha estampada em suas bochechas roliças.
Mariane retribuiu o cumprimento, mas por dentro estava furiosa. Émerson a chamava de Mari, e apenas ele tinha aquele direito.
— Eu gostaria de saber se toparia almoçar comigo hoje. Sabe, é meu último dia, e reservei a maior mesa do restaurante aqui em frente para me despedir dos meus colegas. Já convidei todo mundo. Só faltava você.
Mariane seguiu fingindo que digitava.
— Obrigada, mas não — disse ela, esperando não ter sido fria, mas achando que não havia conseguido.
— Poxa! É uma pena. De qualquer forma, obrigado e bom… — ele estava olhando fixo para ela, como se procurasse por alguma coisa.
Sentindo-se desconfortável, Mariane parou com sua digitação ilusória e olhou irritada para Nei.
— Algum problema?
Nei mexeu com a cabeça.
— Não sei… Acho que tem alguma coisa diferente em você, mas não sei o que é.
— Não tem nada de diferente comigo. E se puder me dar licença, tenho trabalho a fazer.
— O que está acontecendo? — era Peterson Maciel, chefe da empresa e o sujeito mais profissional que Mariane já havia conhecido. Ele estava do outro lado de Mariane, segurando sua já tradicional pasta de couro amarronzada.
— Nada, é que… — ia dizendo Nei, quando Peterson ergueu uma das mãos.
— Esqueça. Passe em minha sala depois, preciso falar com você sobre a papelada de demissão — virou-se para Mariane e lhe deu bom dia, depois iria seguir adiante, mas se deteve. Ficou olhando para ela, um comprador avaliando uma obra de arte.
— Você está bem? — perguntou ele.
Mariane disse que sim, mas começava a desconfiar do contrário.
— É que você parece… Diferente, hoje. De todo modo, bom trabalho pra você.
Ela agradeceu e ele se retirou, sendo acompanhado por Nei, que ainda espiou por cima do ombro largo quando já estava mais adiante. Mariane desconfiou de que ambos estavam falando sobre ela (não exatamente dela, mas sobre alguma coisa referente a ela) e tinha quase certeza que era sobre o seu divórcio.
Provavelmente o pervertido do Nei estava cochichando que agora ela estava livre, afinal ela já não possuía mais a aliança no dedo, e que agora era o momento certo para algum macho chegar e mijar no poste, demarcando território. Ela sacudiu a cabeça, sorriu de um jeito nervoso e depois seu corpo se abateu, assim que lembrou que Émerson não estaria em casa quando ela chegasse.


Mariane já estava divorciada há quase três meses, mas ainda sentia tristeza e tinha lapsos mentais quando o assunto era Émerson. Esquecia que ele não estava mais lá para beijar o seu pescoço pela manhã, ou fazer uma massagem em seus pés após um longo dia no escritório.
Escutava as pessoas dizerem que ela estava diferente, — que alguma coisa nela estava — e tinha suas teorias sobre o assunto. Quando aquilo era dito por homens, significava que tudo não passava de um flerte, uma maneira de se aproximar e puxar um assunto, avançar para um elogio e terminar aquela conversa toda na cama de algum motel. Já as mulheres estavam apenas sendo gentis, criando um ambiente de acomodação e sentimentalismo baseado em suas próprias experiências.
Sendo assim, Mariane já não se importava quando alguém a segurava pelo braço e ficava avaliando sua aparência por alguns segundos. Isso estava acontecendo o tempo todo, até ela desconfiar de que aquela diferença a qual as pessoas se referiam, era, na verdade, algo interior. Imaginou que a partida de Émerson podia ter sido ainda mais grave, e que aquela frase final dele (amanhã minha mãe irá buscar o que me pertence) significava que ele não se referia apenas as suas roupas ou objetos.
Ele queria levar também a sua vida.


Os dias de trabalho na CAMA, MESA E BANHO LTDA seguiram confusos, assim como tudo na vida de Mariane.
Ela digitava por horas, e no fim do dia era como se a tela continuasse em branco.
Durante o almoço, ela ainda tinha o hábito de fazer sua refeição sozinha, sentada na última mesa do Walter's, com o prato quase vazio e assistindo tutoriais de sobremesas em vídeos no celular pelo YouTube. Émerson adorava pudim coberto com leite condensado, e às vezes Mariane ainda o fazia nos finais de semana. Quando lembrava que ele não iria comê-lo e dizer que estava uma delícia, Mariane começava a chorar e jogava tudo na lata de lixo, com a bandeja e tudo.
Na hora de deixar o restaurante, ela sempre precisava puxar o garçom pelo braço para pedir a sua conta. Chamá-lo já não estava adiantando, e sempre que ela perguntava o que estava havendo, o garçom respondia a mesma coisa; que não havia escutado a sua voz.
Isso também vinha acontecendo no trabalho, e quando Mariane precisava chamar algum dos colegas, fazia isso tocando em seus braços ou costas. Eles perguntavam porque ela não ligava ao invés de andar, e ela dizia que já havia telefonado, mas que ninguém atendia. Estaria ela perdendo a própria voz? Seria Émerson tão dono de tudo, como ela adorava que ele fosse?
Eram perguntas demais, possibilidades doidas demais. Mariane não apenas gostava de Émerson, ela o amava, daria sua vida por aquele homem que havia conhecido no segundo grau e que fora o escolhido para tirar a sua virgindade.
Sua vida. Uma coisa que ela sentia que não lhe pertencia, que estava escorregando pelos seus dedos frágeis e indo na direção de Émerson, levada pelo vento implacável do inverno que se aproximava. Curiosamente, Mariane não se importava que fosse assim.


De julho até meados de setembro, Mariane sentiu como se já não existisse mais. Ela ia trabalhar, batia o cartão ponto e ele não acusava nada. Sentava diante do computador, digitava e a tela seguia em branco.
No dia de seu aniversário, não houve cumprimentos e nem a tradicional festa surpresa que ocorria para todo aniversariante. Ao invés disso, escutou os colegas conversando entre si, dizendo que naquele mês ninguém estava de aniversário, até um deles pegar o calendário e fazer alguma alusão, algo simplório sobre a sua longínqua existência.
— Como era mesmo o nome dela? — quis saber um deles.
— O que será que houve com ela? — questionou outro.
— Eu disse que havia algo diferente com aquela mulher, — afirmou seu chefe, sentado sobre a sua mesa.
Depois alguém falou que o passado tinha de ficar para trás, e eles seguiram trabalhando, passando por ela, ignorando completamente a sua existência como se Mariane Prestes fosse um fantasma, e era assim que ela já se sentia.
Os dias de trabalho continuavam sendo longos e vazios, e quando chegava a hora de ir embora, Mariane passava pela porta sensorial e ela não apitava, mesmo com sua bolsa estando repleta de objetos revestidos com algum tipo de metal.
Tudo isso seguiu por muito e muito tempo, com Mariane cada vez menos existente, dragada devagar para um mundo de perfeições chamado Émerson.
Ela adoraria falar com ele outra vez, mas seu telefone agora era outro, assim como seu endereço. Cogitou conversar com algum amigo dele, mas sabia que seria algo em vão, pois nada naquele universo imperfeito captava a sua presença. Decidiu que poderia sair e fazer o que bem entendesse, viajar pelo mundo em busca de seu homem, o dono de tudo que antes era dela, e nestes desejos percebeu que não, que nunca foi proprietária da própria vida. Ela era de Émerson, em corpo e alma.
Com isso compreendido, Mariane seguiu andando pela multidão, sem ser notada, sabendo que aquilo jamais mudaria, pois, seu amor e sua vida se foram para junto de quem pertencia.

9 de Abril de 2020 às 19:06 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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