saaimee Ana Carolina

Você apareceu. Segurou minha mão e me ajudou a levantar no meio de uma multidão de rostos rabiscados e pés violentos que quase passavam por cima de mim. ------------------------------------------------------------------- → Capa tirada do site: pixabay.


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os personagens aqui pertencem a mim e TsukiAkii. Portanto postar/reproduzir esta estória em qualquer página sem a minha autorização é completamente proibido. Plágio é crime e eu tomarei providências.

#oc #suspense #shounen-ai #menções-de-violência #ciumes #yandere #stalker
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Capítulo Único

Naquele dia. Eu não tinha te visto andando no mesmo abismo branco e preto que eu. Estava ocupado demais olhando para meus pés e me perguntando o que iria fazer quando chegasse em casa.

Descuidado como sou, tropecei em meus próprios pés no meio da calçada ao lado de um parque. Não foi uma queda tão dura — já tive piores —, mas foi o suficiente para me fazer querer ter batido a cabeça e desmaiado ali.

Você apareceu. Segurou minha mão e me ajudou a levantar no meio de uma multidão de rostos rabiscados e pés violentos que quase passavam por cima de mim.

Olhou em meus olhos e perguntou:

— Você está bem? Esse tombo deve ter doído.

Eu não estava bem. O tombo tinha rasgado meu joelho e ferido meu peito, mas eu não sentia a dor. Sentia, na verdade, um clarão tomar meu corpo. Sentia um calor, que nunca achei que existisse, tocar minha mão. Era um anjo — como um anjo —, engolfando minha alma impura em luz, devorando a escuridão ao meu redor e me levando para perto do céu.

Nessa situação humilhante e exaustiva, me senti vivo pela primeira vez na vida.

— Você caiu do nada? Talvez seja melhor ir ao médico. Posso te acompanhar até o hospital.

Sua voz. Doce, gentil, preocupada. A gravei com uma música, repetindo essas mesmas palavras para mim. Me perguntando sobre mim, querendo meu bem, me fazendo querer o seu. Querer você.

— Consegue falar?

Não. Estava perdido, amedrontado e confuso por gestos que nunca na vida conheci. Minha alma destruída tremia querendo se agarrar ao seu calor com medo de cair em um inferno por ter voado para tão do paraíso.

— Moço?

Seus olhos se prenderam nos meus. Senti nossos caminhos se cruzarem, se unirem, se decidirem. Então me vi no reflexo. Um rosto deplorável que não merecia ser amado por ninguém. Fugi.

Agora, depois de todos esses meses, vejo você dormindo na cama e me lembro de seus olhos. A cor que nunca esqueço, sempre reflete em minha caneca quando estou de bom humor suficiente para pedir um café. Olhar para eles é tão delicioso quanto tomar um gole do liquido quente. Me aquece, mas de um jeito diferente.

Seu cabelo. Ver como se espalha pela almofada enquanto dorme faz meu coração se agitar como as ondas do mar.

Seu corpo escondido confortavelmente embaixo da coberta… tudo o eu que quero. É o paraíso, é sagrado, é proibido, é o que quero.

Depois daquele dia no parque, comecei a olhar ao meu redor e percebi que, curiosamente, estávamos mais próximos do que parecia.

Suas vindas ao parque duas vezes na semana aconteciam porque trabalhava próximo e gostava de caminhar sempre que tinha tempo. Ri de mim mesmo quando fiquei sabendo.

Eu fazia questão de ir todos os dias para lá e tentar te ver. Alegrava minha vida miserável ver seu sorriso tímido cumprimentando algumas senhoras nos bancos. Você sempre foi tão gentil.

Levou alguns dias para descobrir seu nome. Depois seu perfil nas redes sociais, seu endereço, seu telefone.

Ah, e aquelas vezes que liguei para você? Sempre fazia meu coração disparar ouvindo o zumbido no aparelho enquanto aguardava por sua chegada. E todas as vezes que você atendia era de um jeito diferente.

Uma vez sorrindo, outra vez sério, outra confuso, mas nunca raivoso. Como se não quisesse me assustar. Como se sempre quisesse me confortar.

Eu nunca fui bom com essa coisa de rede social ou contatos com pessoas, mas você me fez querer tentar. Por você. E valeu a pena, porque agora eu sabia de tantas coisas sobre você que preenchiam meu coração e traziam motivos para sorrir em meus dias.

Sua comida favorita, suas músicas, seus horários online, os lugares que gostava de ir, os amigos e, claro, ela.

Eu a vejo aí, deitada do seu lado, com os braços encolhidos abraçando o travesseiro enquanto puxa o cobertor e esfrega esse cabelo imundo em sua pele pura.

Ela não merece você.

Eu vejo as fotos que esse verme posta junto a você enquanto saem para algum passeio infeliz. Vejo os braços vulgares que ela joga ao redor de seu pescoço como se quisesse me provocar. Vejo como essa vadia se aproveita sem te amar como eu te amo.

Ela não te merece e eu vou te provar isso.

Vou cuidar tão bem de você quando ela se for. Vou te venerar e idolatrar sua imagem como santos em um altar. Beijarei seus pés e limparei seus dedos com minha boca indigna. Te amarei todos os dias sem desejar mais ninguém, mais nada.

Ela não pode fazer isso por você, porque não te merece. Mas eu vou cuidar disso. Vou te livrar desse estorvo. Vou arrancar cada fio desse cabelo até estourar seu couro. Vou destruir esses braços que são como cobras venenosas querendo te possuir. Vou fatiar cada pedaço de sua carne como o bolo de aniversário a sua felicidade.

Vadia.

Se eu sair das sombras desse quarto agora, eu posso acabar com ela. Arrasta-la escada a baixo e matar como um cachorro a ponta pés.

Um passo, é só o que eu preciso.

Mas não posso. Não agora que ele dorme tão bem. Não na frente dele.

Eu vou esperar e nesse dia farei minha declaração. Deixarei que saiba que ninguém vai te amar tanto quanto eu já te amo.

Por hoje, quero só te olhar mais um pouco e pegar seu cheiro para quando sair pela janela, ainda te levar comigo.

13 de Março de 2020 às 16:12 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Ana Carolina Mãe de 32 personagens originais e outros 32 adotados com muito carinho, fanfiqueira nas horas vagas e amante das palavras em período integral. Apaixonada demais e, por isso, sou tantas coisas que me perco tentando me explicar. Daí eu escrevo. ICON: TsukiAkii @ DeviantArt

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