juniosalles Junio Salles

Roberto é um velho caminhoneiro que ama viver na estrada. Um dia quando ele retornava para casa, com uma carga de café, um bizarro acidente acontece. Agora ele precisa decidir o que fazer enquanto coisas muito estranhas acontecem.


Horror Horror zumbi Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#suspense #mortos #horror #thriler #medo #terror
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A Estrada do Medo

Roberto dirigia pela auto estrada na madrugada chuvosa de 15 de Fevereiro de 2020. Dentro da cabine do caminhão, um Scania R440, Roberto mantinha a temperatura em 20º controlada pelo potente ar condicionado da máquina. Transportava algumas toneladas de café de São Paulo para Rorainópolis.

Havia passado por um posto de abastecimento à alguns quilômetros mas decidira não parar, para garantir que chegaria em casa a tempo do aniversário de sua esposa, Maria. Ele a tinha conhecido quando eram muito jovens. Roberto tinha 19 e Maria 15 anos. Naquela época, esse tipo de relacionamento era bem aceito. Ele já trabalhava como ajudante do seu pai, que também era caminhoneiro e acabara deflorando a jovem moça em uma das cidades que passou, enquanto acompanhava o pai na estrada. Seu sogro, o Senhor Timóteo, foi atrás de Roberto com uma carabina na mão quando soube que sua filha estava grávida, e obrigou os dois a se casarem. Isso, na verdade, nem seria necessário, já que Roberto já estava apaixonado por Maria, e já pretendia desposar a jovem senhorita.

A cerimônia aconteceu no ano seguinte. Com a autorização dos pais, Maria se casou com Roberto e mudou-se com ele para a cidade de Santa Branca, no interior. Não tinham muita fartura, afinal, o salário de ajudante de carga e descarga que Roberto recebia não era muito. Por outro lado, o rapaz era determinado e rapidamente tirou sua carteira de motorista de caminhão e passou dirigir para uma empresa de transporte local. Isso foi o suficiente para que ele pudesse alugar uma casa modesta e chamá-la de lar ao lado de Maria e seu filho, Pedro, que acabara de completar um ano.

A vida de Roberto sempre fora a estrada. Agora com 64 anos e com os filhos criados, poderia se dar ao luxo de viver mais sossegado ao lado de Maria, a sua amada. Ele às vezes cogitava essa ideia, mas sabia que só era realmente feliz quando estava na estrada. Tinha vivido intensamente por todos esses anos pelas estradas brasileiras. Apesar de amar muito Maria, também se aventurava pelos prostíbulos das cidadezinhas interioranas, e vez ou outra encontrava alguma bela moça para lhe aquecer à noite. Apesar de ter jurado fidelidade em matrimônio, a vida que levava não lhe causava remorso, afinal ele era homem e tinha esse direito. Pelo menos, era o que ele pensava.

A chuva caía pesada e a visibilidade da estrada era precária. Os faróis já estavam altos e o limpador de para-brisas corria de um lado para o outro freneticamente, se esforçando inutilmente para deixar os vidros secos. Roberto abriu uma lata de energético para ajudar a se manter acordado, uma vez que suas pálpebras começavam a pesar.

Aumentou a música que tocava no rádio através do Bluetooth do celular, “Evidências – Chitãozinho e Xororó”. Cantava alto junto com os famosos sertanejos para ver se afastava o sono que agora chegava pesado. Um outro carro veio no sentido contrário, jogando os faróis contra os olhos de Roberto que sentiu as retinas arderem.

Praguejou algum palavrão para expressar a sua raiva dos motoristas que não abaixam o farol ao cruzarem com outro carro. A música acabou e começou a tocar outra da sua playlist do Spotify, porém essa era uma música que Roberto não queria ouvir naquele momento. Por esse motivo levou a mão no celular para trocá-la. Pulou umas três músicas até chegar em uma que lhe agradasse. “Bruno e Marrone” ecoava pelos auto falantes da cabine do caminhão quando uma notificação de WhatsApp apareceu na parte superior do seu Smartphone.

Roberto leu a notificação com a frase: “Mecânica Céu Azul enviou uma foto”. “Mecânica Céu Azul”, era o codinome que Roberto tinha dado para Aline, uma mulher com quem saía em Belo Horizonte. Curioso para saber do que se tratava a tal foto, Roberto clicou na notificação e a conversa se abriu. A imagem baixava devagar devido à fraca frequência de sinal que tinha na estrada. Porém, pela silhueta da foto, Roberto já conseguia ver que Aline estava com pouca, ou nenhuma roupa na imagem. Antes da imagem carregar completamente, Aline lhe enviou outra mensagem escrita:


Já estou com saudades!

Eu também, mas eu volto daqui 60 dias.

Vou me sentir tão sozinha, minha cama já está fria.


Antes de Roberto digitar a resposta, a foto terminou de carregar e ele rapidamente rolou a tela para abrir a foto em tela cheia.

Como ele já suspeitava, Aline estava com pouquíssima roupa. Usava uma camisola azul claro onde Roberto podia ver seus seios pela transparência do traje. Aline era uma bela mulher de pouco mais de 30 anos. Era divorciada e tinha dois filhos, vivia carente na capital e adorava os presentes que Roberto trazia para ela. Amava principalmente o fato dele sempre pagar as contas atrasadas quando a visitava. Roberto sabia que isso era o único motivo dela o manter em sua cama sempre que ele visitava a capital mineira, porém, não se importava. Ela dava o que ele queria, e ele dava o que ela precisava.

Roberto ainda admirava o belo corpo de sua amante pela fotografia quando sentiu que bateu em algo. Rapidamente voltou os olhos para estrada e pisou fundo no freio. O Caminhão começou a cantar pneu enquanto deslizava pelo asfalto molhado, saindo um pouco de lado. Roberto lutava no volante para manter o caminhão na estrada, até que ele finalmente parou.

O caminhoneiro respirou fundo sentido o coração bater na garganta. Olhou para o lado e viu o celular caído no chão e o pegou. A tela ainda estava ligada e exibia a foto de Aline de camisola. Ele rapidamente apertou o botão para voltar para a tela principal e ativou a lanterna.

Desceu do caminhão com a chuva forte caindo pela sua cabeça. Em apenas alguns segundos já estava completamente encharcado. Caminhou iluminando o asfalto à procura do que atropelou, torcendo para ser um animal qualquer e não um ser humano. Viu a cerca de cinco metros uma coisa jogada no chão. Seu coração batia forte enquanto ele caminhava devagar para mais perto daquilo.

Quando estava bem perto conseguiu ver do que se tratava, era uma mulher. Correu para perto torcendo para que ela ainda estivesse viva, mas quando chegou ao lado dela viu que não.

A mulher estava jogada de uma maneira muito estranha. Sua cabeça estava virada para cima, de olhos fechados e boca aberta. Já o seu tronco estava virado para baixo e da cintura para baixo, o corpo estava virado para cima. Parecia que ela tinha sido torcida como um pano de chão. Usava um vestido branco e não calçava nada nos pés.

Roberto se assustou ao ver aquilo e mil coisas passaram pela sua cabeça. Não sabia o que fazer, pensou em ligar para polícia para pedir ajuda, mas não queria ter que arcar com as consequências daquilo. Pensou em deixar a mulher ali, afinal, ninguém tinha visto nada. Apesar da segunda opção, ser a que mais lhe tentava, o caminhoneiro sentia um peso na consciência toda vez que cogitava fazer isso.

Ficou alguns minutos olhando para a mulher morta e retorcida no asfalto enquanto tentava se decidir. A chuva parecia aumentar, por mais impossível que isso parecesse e enquanto ele batalhava com seus pensamentos seu telefone tocou, assustando-o e o fazendo gritar.

Quando se recuperou do susto, Roberto deu as costas para o corpo da mulher e pegou o telefone que trazia na tela a frase. “Número desconhecido. ”

- Alô? – Disse Roberto ao atender à ligação. Nos dez primeiros segundos não houve resposta, apenas um total silêncio. Roberto retirou o telefone da orelha e olho novamente no visor e a ligação continuava, não tinha caído. Voltou a colocar o telefone na orelha.

- Alô? – Repetiu ele, esperando uma resposta. Dessa vez, ao invés do silencio ele ouviu um chiado e uma voz feminina falando algo bem baixo no fundo. Apertou o telefone contra a orelha, na esperança de ouvir melhor, mas não conseguia entender o que a voz feminina falava.

- Desculpa, eu não estou lhe ouvindo. – Disse Roberto bem alto, para garantir que a pessoa do outro lado o ouvisse. – Você poderia repetir mais alto?

Roberto apertou ainda mais o telefone na orelha, mas continuava a ouvir estática e o sussurro incompreensível da mulher. Já estava prestes a encerrar a ligação quando finalmente conseguiu entender o que a voz falava.

- Olhe atrás de você.

Roberto se virou imediatamente e viu a mulher, que supostamente estava morta ficar de pé. Ela ainda estava com o corpo totalmente retorcido, o que deixava a sua imagem totalmente assustadora. Ela mantinha a cabeça baixa e seus cabelos loiros lhe cobriam a face.

- Moça, não deveria se levantar. Eu vou chamar uma ambulância. Graças a Deus você está viva. – Disse Roberto aliviado.

A mulher se aproximou arrastando os pés. Roberto olhou com atenção e viu que o pé direito da mulher estava com uma fratura exposta no tornozelo. Porém isso não parecia impedi-la de andar.

- Moça eu preciso insistir para você não se mover.

A mulher parecia não ouvir e continuava a se aproximar. Roberto começou a ficar com medo e instintivamente deu três passos para traz para evitar o contato com aquela coisa grotesca.

Roberto reativou a lanterna do celular e jogou o feixe de luz no rosto da mulher que se aproximava lentamente. A mulher levantou o a cabeça e o que o caminhoneiro viu fez seu coração disparar.

Seus cabelos loiros estavam ensopados e parcialmente grudados no rosto. Os olhos da mulher eram completamente brancos e sem vida. Sua boca estava aberta e emitia um gemido grotesco enquanto sangue escorria pelo queixo.

- Minha Nossa Senhora. – Exclamou Roberto ao ver aquilo. A mulher se jogou para cima dele, lhe agarrando no braço.

Roberto puxou a mão com força, se livrando do abraço da mulher, mas não antes de ser arranhado por ela. Ele deu mais alguns passos para traz enquanto a agressora, mancando, se aproximava com um pouco mais de velocidade.

Roberto começou a correr em direção ao caminhão, decidido a dar o fora dali. Quando entrou na cabine, fechou a porta. Olhou no retrovisor e viu a mulher se aproximando e um brilho no asfalto. Levou a mão no bolso da calça e no bolso da camisa a procura do seu celular, mas não encontrou. Assim percebeu que o brilho no asfalto, nada mais era do que seu telefone.

- Mas que merda. – Praguejou ele. Pensou em deixar isso pra lá, mas percebeu que um celular poderia ser usado como prova contra ele. A mulher não tinha morrido, mas havia ficado louca e com certeza estava ferida, muito ferida. Ele não queria ter ligação alguma com isso.

Pegou o terço que levava pendurado no retrovisor e o apertou com muita força, tanta força que as bolinhas marcavam a grossa pele de suas mãos. Vários raios iluminaram o céu.

- Ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco... – o caminhoneiro recitava enquanto descia do caminhão novamente. A mulher já estava ao lado da porta e agarrou a sua perna enterrando os dentes na sua coxa. – ... bendita sois vós entre as mulheres... – disse ele em meio a um gemido de dor. Agarrou a mulher pelos cabelos e a puxou com força. A criatura o soltou, mas não antes de arrancar um pedaço de carne de sua coxa lhe causando imensa dor. Roberto chutou a mulher com a perna que ainda estava boa, jogando-a no chão.

- Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores... – O caminhoneiro recitava a oração enquanto mancava para perto do celular. - ... agora e na hora de nossa morte... – Ele disse quando tomou o objeto nas mãos. Virou-se para retornar ao caminhão e a mulher já estava novamente à sua frente. Ela soltou um grito infernal, um segundo antes de pular no pescoço de Roberto e enfiar os dentes com toda força, dilacerando a sua jugular e fazendo um mar de sangue escorrer pelo peito do caminhoneiro.

Roberto empurrou aquela criatura que agora parecia mais forte à medida que bebia o seu sangue. Recebeu outra mordida, agora na sua face. A mulher puxou parte da carne do seu rosto, fazendo Roberto soltar um grito de dor ensurdecedor. O caminhoneiro acertou uma joelhada na barriga de sua agressora, o que a fez se afastar alguns centímetros. O suficiente para ele conseguir fugir.

O homem corria pelo asfalto molhado, sentindo uma imensa dor nos locais aonde fora mordido enquanto a chuva forte caia pelo seu corpo e raios iluminavam o céu. Entrou no caminhão às pressas e ligou o motor. Pisou fundo no acelerador e saiu cantando pneu pela estrada. Olhou no retrovisor e viu a mulher que lhe agredira de pé no meio da estrada, andando com seu caminhar arrastado. Viu seu próprio rosto refletido no espelho e pôde constatar o quanto sua aparência, deformada pelas feridas estava assustadora.

Dirigiu por mais alguns minutos, até que começou a sentir um cheiro de podridão que vindo de suas feridas e o seu corpo arder em febre. Sua cabeça começou a doer e a sua boca salivar com um gosto de comida azeda. Aos poucos foi perdendo a consciência até que viu tudo apagar por alguns segundos.

Em seguida, abriu os olhos e já era dia, se viu jogado em meio a um matagal. Seu caminhão estava capotado a alguns metros à frente. Desejou ir de encontro a ele, mas seu corpo não obedecia. Ao contrário disso, ele se movia de maneira involuntária em direção à estrada. Roberto caminhava contra a sua vontade pela beira da estrada, movido por um ímpeto que ele não sabia explicar. Sentia apenas a necessidade de caminhar e uma fome arrasadora. Era como se ele estivesse preso dentro do próprio corpo, sem condições de tomar suas próprias decisões. Um animal enjaulado movido apenas por instinto.


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John Weskler estava odiando aquela missão. Odiava aquele país quente e cheio de doenças chamado Brasil. Fora contratado através da Deep Web para fazer um serviço simples. Assassinar todos os duzentos habitantes de um pequeno vilarejo no Brasil. Aparentemente uma fábrica de produtos cosméticos que prometia retardar o envelhecimento, utilizando plantas da Amazônia, tinha pisado na bola e deixado vazar uma grande quantidade de componentes químicos na água que abastecia aquele vilarejo. Temendo algum tipo de denúncia ou represália da população que ficaria doente em alguns dias, a corporação contratou seus serviços para exterminar a todos e fazer parecer que foi algum maluco revoltado com a vida. A mídia ia se preocupar com o assassino, a internet ia transformá-lo em um grande vilão e nenhuma suspeita ia recair sobre a Júpiter Cosméticos.

John levara dez homens para o serviço. Junto com eles um rapaz de 19 anos que morava em uma cidade vizinha. Seu nome era Marcos. O jovem era usuário de drogas, sofrera bullying na infância e recentemente sua namorada lhe deu um pé na bunda. Um estereótipo perfeito para ser o maníaco a ser culpado de tudo.

Após matar o último cidadão do vilarejo. Um homem de meia idade, negro e acima do peso. John e sua equipe tiraram Marcos, que até então estava preso dentro de uma van, e o levaram para a praça da cidade. Atiraram na cabeça do garoto e em seguida montaram a cena do crime para parecer um suicídio. Sua equipe externa já se encarregara de hackear as contas do jovem nas redes sociais e fazer vários posts exaltando figuras ditatoriais controversas, até mesmo Hitler. Tudo que precisava para o garoto ser cancelado na internet e odiado para sempre.

Sua missão estava cumprida. Cinco milhões de dólares cairia na sua conta no fim do dia. Era mais dinheiro do que aquele vilarejo ganharia em uma década, mas para a Júpiter Cosméticos era apenas um pequeno custo para evitar sujar à sua imagem. John entrou no Jeep e junto da sua equipe deixou o vilarejo sem nenhuma sombra de remorso.

18 de Fevereiro de 2020 às 17:23 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Junio Salles Nascido em Belo Horizonte, desde pequeno vivia em mundos de fantasia criados por mim mesmo em minha cabeça. Sempre preferi ficar sozinho imaginando e criando histórias baseadas no que lia nos livros ou assistia na TV. A maioria das histórias que criei não escrevi, mas agora de um tempo pra cá tenho passado pro papel esses roteiros que estão na minha cabeça. Espero que gostem

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