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A Vodca em excesso o deixava com a pior das depressões, mesmo assim a encerrava por grandes goles. Aquele homem mantinha a mesma rotina ao custo de mais de 20 anos da sua vida. Como ele chegou a este ponto? Descubra neste conto.


Horror Histórias de fantasmas Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Copyright © 2012 Donnefar Skedar

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Aguardando no Inferno

A Vodca em excesso o deixava com a pior das depressões, mesmo assim a encerrava por grandes goles. Aquele homem mantinha a rotina ao custo de mais de 20 anos da sua vida.

Desde seus 27 anos, ele continuou frequentando o mesmo bar, tentando assim, e somente assim, suprir a ausência de seu amor. Amor este que lhe causou tal fraqueza, amor este que derrubou um único homem e sua dignidade, que hoje se entrega à Vodca todas as noites de sua pobre vida. Todos o conheciam como “Afrânio Max sem dono”, um mísero apelido dado para não o chamarem de cachorro sem dono, uma expressão tão indigna quanto sua própria vida. Durante o dia sua rotina em nada se assemelhava à da noite: trabalhava na redação de esportes de um grande jornal local e, mesmo odiando aquelas notícias rotineiras, relacionava-se bem com todos. Possuía breves amigos, sim, breves por alguns motivos íntimos.

No auge de seus 27 anos, Afrânio Max era belo e desejado pelas colegas de trabalho e, volta e meia, por alguns homens assumidos que frequentavam seu espaço. Foi naquela idade que ele conheceu a razão de sua atual desgraça: Samara. Ela era tão perfeita como ameaçadora, ainda jovem, com aparência de adolescente, logo mostrou total interesse em Afrânio Max. Ele, talvez por solidão ou egoísmo, logo a deixou entrar em seu coração.

O grande romance de sua vida durou cerca de um mês. Eles trabalhavam juntos, jantavam nos melhores restaurantes, comiam os melhores pratos, sempre acompanhados dos melhores vinhos, iam ao cinema ou ao teatro e na última semana daquele maravilhoso mês na vida de Afrânio, ela lhe mostrou o bar que atualmente ele se mata lentamente, a cada dia, após sua partida.

Sim, logo que completara um mês do repentino namoro, ela o deixara abandonado naquele mesmo lugar, naquela mesma mesa e com aquela mesma bebida.

Em uma noite rotineira e chuvosa, Afrânio foi pego de surpresa: algum tipo de comemoração ocorria e o bar estava cheio de pessoas de várias idades que, a julgar pelas roupas, eram de alguma empresa. Logo que conseguiu passagem para sua mesa já reservada, ficou sabendo que a empresa local de transportes rodoviários havia fechado uma boa parceria com outro país e estavam ali comemorando.

Afrânio não se intimidou com a lotação do bar, ele não via aquele lugar cheio assim desde que… desde que sua paixão o deixara para sempre naquela mesa. Deparou-se com um copo de Vodca com limão, pela metade, sobre a mesa. Em 27 anos, ele não vira ninguém, além de sua Samara, bebendo a mesma Vodca naquela mesma mesa em que ela o deixou.

Intrigado com a cena questionou Daniel sobre aquele copo e o garçom disse que era de uma mulher bem vestida, que não se incomodou ao ser informada sobre a reserva da mesa. Afrânio perguntou onde ela estava e o garçom apontou na direção do toalete, indicando onde a mulher estava.

Como sua mesa já estava reservada, ele também não se incomodou e sentou-se diante daquele copo de Vodca com limão deixado a mercê da sua íntima imaginação. Daniel não demorou para trazer a sua bebida e partiu com pressa para atender os outros clientes sorridentes e beberrões.

Quando Afrânio Max deu o primeiro gole em sua deliciosa Vodca americana, teve uma sensação única e bizarra: foi como voltar no tempo, mas sem a sensação de déjà vu. Ele sentiu o clima do lugar mudar completamente, parecia que sua alma estava deixando o corpo para vagar entre aquelas pessoas. Em todos aqueles anos de bebida ele nunca experimentara aquela sensação, não antes de inúmeras doses de Vodca.

Deslizou o olhar pelo bar e ela apareceu a sua frente. Era Samara, ele não duvidou disso. O olhar confuso e misterioso não afetou seus sentimentos pela mulher que o abandonara naquele lugar e, 20 anos após, retornara do nada à mesma mesa em que os dois comemoravam quase todas as noites de um único mês. Ela também estava visivelmente confusa.

Seus lindos olhos de avelã não mudaram, seus lábios carnudos ainda ostentavam um batom vermelho, combinando com os cabelos longos, cacheados e avermelhados. Mesmo após duas décadas, Samara permanecia jovem e despertava a paixão, nunca esquecida, em Afrânio Max. Ele não disse nada, nem poderia, sua boca estava seca e a visão, embaçada.

Ela abriu a boca, mas demorou para soltar uma pergunta estranha e confusa:

— Afrânio? Você veio?

Ele não teve reação ao ouvir aquelas palavras. Como ela lhe questionava, se ele a esperava havia 20 anos? Esperava pela noite em que lhe daria a aliança, que ainda guardava no bolso, esperava para dizer a ela que a amava. E que casaria com ela naquela mesma noite, noite em que fora abandonado naquela mesa.

Samara olhou para os lados, surpresa com algo. Ele notou sua repentina palidez. “Será que ela pensa que eu estaria em outro lugar, outra cidade, depois de tudo o que me fez?”, perguntou-se Afrânio.

Ela se sentou um tanto estranha e assustada. Sua respiração estava falha e os lábios pareceram por um instante tremer.

— Está tudo bem? — Ele questionou, com a voz falha.

— Não, não está nada bem. O que você faz aqui?

— O que faço aqui? — Repetiu ele, já confuso com a situação. — Venho aqui todas as noites a sua espera por intermináveis vinte anos, Samara!

A expressão no olhar dela mudou, surgiram algumas lagrimas, suas mãos começaram a tremer e a voz quase não se fazia ouvir.

— Não, Afrânio, estou aqui por longos vinte anos, estou aqui desde… Você não se lembra? Como você está aqui agora? Isso… Isso é real?

Só então Afrânio Max se permitiu o absurdo de uma recordação indesejada: no dia que pediria Samara em casamento, ele saiu tarde do trabalho, pedindo que ela o encontrasse naquele bar. Era o tempo certo para que passasse na joalheria, pegasse o belo anel de brilhantes que havia encomendado e corresse para fazer o pedido de casamento.

No caminho para o bar, ele parou no farol vermelho, esperando ficar verde. Foi quando ouviu um forte barulho vindo do seu lado esquerdo, ele não se lembrava de ver mais nada além do fogo vindo rápido em sua direção. Fogo de um carro que batera no seu, ao entrar na contramão, fugindo dos carros da polícia, que também o atingiram em altíssima velocidade.

Enquanto Afrânio Max relatava o ocorrido para Samara, logo compreendeu a sua realidade. Ela olhava-o com certo desprezo, talvez raiva, e foi surpreendida quando ele colocou em seu dedo o lindo anel de brilhantes que comprara para aquele encontro. E, antes de virar cinzas, ele disse:

— Esperei vinte anos para dizer o quanto te amo e só agora sei o que me aconteceu, mas, e você? Por que está aqui depois de tanto tempo?


Fim

17 de Fevereiro de 2020 às 17:27 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Donnefar Skedar Nascido na cidade de Santo André – São Paulo, Donnefar Skedar ou Jay Olce publica na internet desde 2009, criador do selo Elemental Editoração pelo qual realiza suas publicações. Atualmente o autor possui 11 livros publicados, dos quais 4 são coletâneas, o mesmo ainda possui diversos contos publicados em formato digital dos quais não fazem parte das coletâneas. Seus livros estão disponíveis de forma internacional, alguns títulos receberam traduções para os idiomas.

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