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Parte I

General era um homem de meia idade. Assim que nos conhecemos, mostrou-se doce como caramelo e envolvente como marshmallow escorrendo pelas ladeiras do bolo. Jamais imaginaria que as camadas daquele bolo escondesse um recheio tão amargo.

De estatura média, magro, cabelos e olhos castanhos. Dedos contorcidos levavam o cigarro à boca. Pregas desciam dos seus olhos, fazendo lembrar um vestido drapeado. Com aparência de vida sofrida, de um homem comum. As rugas e pregas em sua face eram suplantadas por uma grande simpatia mesclada com pinceladas de ironia envoltas em espessas baforadas do cigarro.

O crepitar do fogo na lareira era o único som que se ouvia. As chamas ensaiavam um Ballet sincronizado no meio das pequenas toras de madeira, todas do mesmo tamanho e meticulosamente ali colocadas formando uma pirâmide escarlate.

Uma antiga mesa de madeira rustica com bancos tomava todo o espaço da pequena cozinha. Os profundos sulcos na superfície da mesa denunciam a sua idade. Um antigo relógio anunciou oito badaladas. Era a hora da pequena reunião.

As previsões meteorológicas anunciavam a continuidade da neve que já se propagava há três dias. Isso significava centímetros e centímetros de neve pelas trilhas. Preocupados com tal situação, um pequeno grupo de peregrinos resolveu se reunir com a proprietária do albergue. Além de antiga moradora da cidade, era peregrina e conhecia muito bem todas as rotas possíveis.

Excitação, precaução, insegurança e empolgação eram alguns dos ingredientes postos na mesa de discussão, afinal estávamos falando da tão esperada subida O Cebreiro.

Uma das etapas de maior respeito do Caminho de Santiago e um dos lugares mais mágicos, idílicos e encantadores de toda a rota francesa. Mas também temido por muitos, considerado como um trechos difícil. Seria preciso alcançar os mil e trezentos metros de altitude para chegar à vila.

Na região nevava há dias. O gelo vai derretendo, a água vai se misturando com a terra formando lama. Lama e gelo. Não era uma boa combinação para andar. Só de pensar dava arrepios.

Eu ouvia com atenção. General ao meu lado fazia várias perguntas. Depois de muita discussão, chegou-se em três as possibilidades de fazer a subida: A primeira e mais bonita pela senda dos peregrinos. Uma duríssima rampa estreita e pedregosa, com chuvas e névoas imprevistas, passa por belos bosques e pequenas aldeias.

A segunda, a rota de asfalto para as bikes. Uma subida também bastante dura mas bem sinalizada no chão com as setas amarelas. E por último a rota pela Estrada Nacional, ainda que fosse uma grande estrada o fluxo de carros era bem pequeno, e poderia-se subir com tranquilidade embora o final fosse mais duro.

Essa última era a rota oficial até que o milagre de pão e vinho em se transformar carne e sangue fizeram com que peregrinos chegassem à Capela provenientes das montanhas e assim surgiu a senda.

Terminada a reunião cada um foi cuidar dos seus afazeres. Alguns saíram para jantar, outros assim como eu, prepararam algo para comer na cozinha. Depois de arrumar a mochila fui dormir.

Eu esperava por esse dia desde que havia começado o Caminho. E finalmente havia chegado. Eu estava lá, na subida do O Cebreiro. Era uma sensação incrível. O coração batia mais forte e o sangue percorria todas as veias em alta velocidade como um carro numa pista de formula um.

Mas não consegui dormir muito. Fui abruptamente acordada, lá pelas tantas da madrugada. Cutucada, abri os olhos. Uma janela levava para dentro do quarto um pouco de claridade e vi um homem baixo, magro vestindo só uma cueca branca e meias nos pés.

Com sono e meio desnorteada me dei conta que era o General. - O que queria aquele homem só de cueca comigo? – Eu pensei. Eu dormia sozinha em um quarto com apenas com duas beliches. O aquecimento através de solo radiante transformava o albergue num lugar incrivelmente aconchegante talvez só superado pelo ventre materno.

Assustada perguntei o que estava acontecendo. Ele repetiu diversas vezes a frase:

-Tranquilla, tranquilla, tranquilla- Em castelhano. Sem compreender perguntei de novo. –Vamos fazer a subida com amigos meus, seremos em cinco, você não precisa ter medo-. Ele respondeu. Só que em vez de tranquila, aquilo me fez dormir mais preocupada. -O que seria aquela demonstração de afeto a uma pessoa estranha como eu, em plena madrugada?- Pensei e adormeci.

No dia seguinte começamos a trilha apenas eu e general. Questionei sobre os amigos que iriam conosco e obtive como resposta que eles já tinham saído a frente. Estranhei, mas quem se importava, tínhamos que andar de qualquer forma.

Vega de Valcarse é bonita até com chuva. Prá falar verdade a chuva fina deixava Vega muito mais encantadora. O caminho começava ainda na pequena e sinuosa estrada de asfalto. Do lado esquerdo um enorme campo gramado encostava no rio. Cavalos pastavam tranquilamente sob a chuva fina e altas montanhas.

Ainda não havia sinal de neve. Na encruzilhada onde deveríamos fazer a primeira escolha, optamos seguir pela trilha a frente que nos convidava com um sinuoso caminho de terra rodeado por árvores. O chão estava molhado e repleto de folhas caídas com diferentes tons de marrom.

General não falava muito mas seus comentários eram sempre cheio de surpresas e engraçados. Contou-me um velho ditado sobre como eram escolhidos antigamente os generais na Espanha, que dizia assim:

Elije un tono, metelo dentro de un traje, y yaya tiene um general

traduzindo

“ Eleja um tonto, de-lhe uma farda, e assim tem um general”

Realmente era bem engraçada aquela questão. Bastava colocar alguém, de pouco discernimento, dentro de uma roupa, para que a pessoa adotasse a conduta do respectivo traje. Dava mesmo o que pensar. Rimos muito e seguimos em frente.

Paramos em uma cafeteria que talvez fosse a única de todo trajeto. Muito gentil general pagou o meu café, enquanto tomou uma Coca-Cola. Reiniciamos a caminhada agora sob uma densa chuva. General ofereceu-me uma calça impermeável extra que possuía. Ajudou-me a vesti-la uma perna após a outra, assim como se faz com as crianças. Eu estranhei tal atitude porém agradeci a ajuda e a oferta.

A subida ia ficando cada vez mais difícil, no entanto cada vez mais bonita. Parava diversas vezes como é de meu costume, para beliscar um pedaço de chocolate, beber água e descansar breves minutos.

Para que não ficasse entediado com minhas sucessivas paradas, sugeri que seguisse a frente e depois nos reencontraríamos. Mas General respondeu dizendo ter medo de seguir sozinho e me deu uma piscadinha marota com um dos olhos.

Deste momento em diante, depois dos sucessivos cuidados que ele demonstrou ter por mim, eu me dei conta que tinha um guarda-costas. Embora não tivesse colocado anúncio, nem selecionado e muito menos contratado um.

E assim foi, toda vez que parávamos, General como bom e fiel escudeiro, guardava as minhas luvas, segura meu cajado, me ajudava a tirar a mochila das costas.

Eu começava ficar desconfortável com tantos cuidados. Cheguei a pensar que estava sendo mal agradecida, e talvez estivesse mesmo, mas afinal de contas eu não entendia aquela enorme prestação de serviços de proteção não encomendados.

Finalmente chegamos em La Faba. Um calor interno aqueceu todo o meu corpo de alegria. Parecia que eu estava dentro de um dos livros de contos de fadas de Os Contos dos Irmãos Grimm. Charmosas e pequenas vilas com casinhas de pedras, fumaça saindo pela chaminé, crianças brincando nas poças de água e patos enfeitando um pequeno riacho.

Pois La Faba era como uma viagem de volta a infância. Estreitas e sinuosas ruas cheias de barro molhado, ladeadas por casas com largos muros de pedra, calçadas em estilo romano.

Percebi que aquele momento me pertencia e eu ia usá-lo da melhor forma possível. Deus ajudou parando a chuva e o sol abriu-se suave. Tirei a mochila, botas, meias, luvas, armei um pique nick. Pão adormecido, queijo, chocolate, pequei duas maças do chão lavei e pronto ali tinha um banquete.

A vista das montanhas acalmava mais que qualquer tranquilizante. O cheiro da terra molhada e da lenha que saia das chaminés, entravam pelo nariz abrindo espaço, liberando qualquer pensamento ruim e criando uma sensação de plenitude sem igual. Respirei, suspirei, apreciando a paisagem...

16 de Fevereiro de 2020 às 18:05 1 Denunciar Insira 1
Continua… Novo capítulo A cada 10 dias.

Conheça o autor

Marli Giorgi Apaixonada pelo Caminho de Santiago e por tentar compreender e desvendar o Eu verdadeiro que existe dentro de cada um de nós.

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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
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February 21, 2020, 11:50
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