Eu Sou a Sol Seguir história

pedro-moreira1557072222 Pedro Moreira

Num tempo e espaço desconhecidos, num clima de pós-guerra, as pessoas tentam recuperar as suas vidas e regressar às suas rotinas. É isso que tentam os frequentadores de uma pequena taberna de uma cidade tranquila, mas a aparição de uma rapariga em estado catatónico fá-los interromper o seu dia-a-dia e ajudá-la. Descobrem depois, ao curá-la, que essa cura lhe retirou as memórias, e sentem-se compelidos a ajudá-la novamente. No entanto, pelo caminho que trilharão até à capital descobrirão que a rapariga não lhes era assim tão desconhecida, que os chefes espirituais da nação não eram assim tão puros e que a guerra não tinha terminado.


Fantasia Medieval Todo o público.

#258 #aventura #fantasia
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Prólogo

Tão pouco sabe o Homem. Sobre a Luz. Sobre o Universo. Sobre o seu mundo. Sobre a História do seu mundo. Sobre a sua História. Sobre a Vida e a Morte. Sobre os sentimentos. Sobre o Amor. Sobre si mesmo.

Tão pouco sabe o Homem sobre a Luz. Começou tudo há milhares de milhões de anos. Começou com uma faísca, uma centelha, uma chama, uma explosão. Nasceu o Universo. Dele, as galáxias. As estrelas. Os planetas. Na pequena Via Láctea nasceu o pequeno Sol. No pequeno Sol nasceu a pequena Terra. Ínfima. Frágil. Insignificante. Viva.

Tão pouco sabe o Homem sobre o Universo. Começou com uma faísca. Uma centelha. Uma chama. Um milagre. A pedra passou a ser algo mais. A água passou a ser algo mais. A eterna chama da Luz, da vida, da alma, surgiu tão repentinamente como a Terra, o Sol, a Via Láctea, o Universo. Ínfima. Frágil. Insignificante. Milagrosa.

Tão pouco sabe o Homem sobre o seu Mundo. A Luz fortaleceu a chama. O milagre. A Luz pintou de azul e verde o insignificante grão de pó chamado Terra. O grão de pó cheio de movimento. O grão de pó vivo. Nos seus mares, milhões de vidas, de animais, percorriam o seu caminho. Sobreviviam, adaptava-se, cresciam. Saíam dos mares para o pó. Do pó, para os ares. Cresciam em tamanho, imponência, sobrevivência. Alimentam-se do verde, das árvores, das plantas. Alimentam-se uns dos outros. Sempre evoluindo, adaptando-se, ao frio, ao calor, ao ambiente, ao mundo. A Terra que os viu nascer fustiga-os, testa-os, treina-os. Os mais fortes sobrevivem e adaptam-se. Os mais fracos desaparecem na eternidade, não deixam a sua marca na Terra, a sua marca na evolução.

Tão pouco sabe o Homem sobre a História do seu Mundo. Nenhuma espécie domina as outras. À sua maneira, as provações que a Terra lhes dá mantém firme o balanço, o equilíbrio, o sistema de vida ou morte, de mutação ou extinção. Grandes ciclos de vida são precedidos de grandes catástrofes. Espécies inteiras extinguem-se quando o frio ou o calor são anormalmente grandes, por períodos anormalmente grandes. Esses desequilíbrios levam a novos equilíbrios, novas formas de vida, que nunca surgiriam à tona, que nunca povoariam os continentes, se as outras não desaparecessem. Visto da Terra, uma extinção global acontece em espaços de tempo aparentemente enormes, gigantescos, cósmicos. Visto do Cosmos, uma extinção global é uma banalidade, é quotidiana, é rotineira.

Tão pouco sabe o Homem sobre a sua História. Há três milhões de anos, surgiu. A Luz guiou a evolução até esse ser. O ser que pensa. O ser que se adapta. Que trabalha em equipa, que sobrevive. Mais que sobreviver, vive, porque pensa, porque sente. Porque ama. Porque teme. Teme sobretudo a morte, o fim da sua vida, o fim de todas as coisas, o Fim dos Dias.

Tão pouco sabe o Homem sobre a Vida e a Morte. Todas as coisas surgiram porque a Luz assim o fez. Toda a vida surgiu porque a Luz fez a faísca. A centelha. A chama. A chama eterna arde em todas as coisas, na Vida e na Morte, e a chama eterna é o que arde dentro de todas as coisas, a chama eterna que nunca se apaga. O Homem teme a sua morte. Mas ela não é mais que uma transição, não é mais que a passagem da sua chama eterna de um invólucro, de um corpo, para outro estado, outro corpo, outro invólucro, tal como acontece com todas as outras coisas que respiram, comem, andam, morrem, vivem.

Tão pouco sabe o Homem sobre os sentimentos. Sobre o Amor. Sobre si mesmo. A sua chama eterna, a sua chama que nunca se apaga, sente. Ama. Vive. Essa é a sua essência. Essa é a sua Alma. A Luz deu essa chama a todas as coisas, a todos os homens, para que sintam. Para que amem. Essa é a única coisa que todos os homens têm, a única coisa que todos conservam para além da morte. E é a única coisa que não veem, que não sentem, que não conhecem. Não compreendem o que é, o que faz, para que serve. Não a controlam, nem sabem o que fazer com ela.

Tão pouco sabe o Homem. Sobre tudo. Não sabe de onde vem, para onde vai, o que é a Alma, o que é a Luz, o que é o Universo, o que é a sua História. Menos de cem séculos, é o que conhece. Menos de cem séculos, com muitas incongruências, muitos vazios, muitos lapsos. Nesses cem séculos, nessa miséria temporal, nesse minuto cósmico, o Homem saiu das grutas, das casas de pedra e palha, para os prédios de betão e tijolo. Das carroças puxadas por animais, para os aviões nos céus, dos céus até ao limite do Universo infinito. Num minuto. Em cem séculos.

Nada, é o que o Homem sabe sobre si. Nada do que se passou em todas as dezenas, centenas, milhares de séculos que antecederam este minuto. Nada do que ficou esquecido e apagado da História, por aquele acontecimento tão banal que a Luz viu dezenas, talvez centenas de vezes, desde que o Homem nasceu: o fim de todas as coisas. O Fim dos Dias. O Dilúvio. O Apocalipse. O Juízo Final, que nunca foi tão final assim na breve história do pequeno grão de pó chamado Terra.

As chamas eternas nunca se apagaram. A Luz nunca as abandonou. Mas muitos abandonam a Luz. A fé e a esperança desaparecem dos corações dos homens, e as suas chamas eternas esfriam, enfraquecem, quase se desvanecem por completo. A Escuridão surgiu com o Homem, tenta-o, confunde-o, cega-o. Faz parte do mundo, da vida, da Terra, pois não há Vida sem Morte, não há calor sem frio, não há Luz sem Escuridão. Todo o milagre surge na catástrofe, toda a bonança na tempestade, todo o herói no seio do escuro. São eles que levam a Luz onde ela não chega, são eles que transportam consigo as esperanças e os sonhos, as alegrias e a força das chamas eternas de todo o mundo.

Tão pouco sabe o Homem. Hoje. Em tempos esquecidos, apagados nos séculos, compreendia coisas que não compreende agora, sabia coisas que já não sabe, fazia coisas que nunca mais fez. Compreendia o que era a Luz. Sabia o que era a sua chama eterna, a sua Alma, e o que fazer com ela. Fazia coisas como usar a Luz, os elementos, a magia, as forças que governam o mundo.

Nada sabe o Homem. Do tempo dos heróis, esquecido nos séculos, onde homens e mulheres, velhos e novos, fortes e fracos, levavam com eles a esperança da salvação. A salvação de um destino inevitável, aborrecido, repetitivo, banal: a extinção.

9 de Fevereiro de 2020 às 12:25 0 Denunciar Insira 1
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