PEREGRINOS DO CAMINHO DE SANTIAGO Seguir história

marli-giorgi1580737552 Marli Giorgi

Victoria sofria de um modo tao doce que chegava intrigar. Eu me questiona que forças moviam aquela mulher?


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VICK & VICTORIA - Parte I

Vou chamá-las de Vick e Victoria. Duas mulheres unidas no passo do caminho. Eu me pergunto que força movia aquela mulher de meia idade?

A neve cobria tudo. No dia anterior um peregrino havia se perdido no meio da nevasca, na subida do Cebreiro, um dos lugares mais encantadores e mágicos do Caminho e Santiago. Felizmente foi resgatado a salvo, mas, por precaução eu deixei de lado o prazer da estreita trilha pelo monótono asfalto coberto de neve em nome da segurança.

Eu andava sozinha por uma longa estrada, sem carro, sem gente, estava com frio, fome, não encontrava nenhum outro peregrino, parecia que todos tinham decidido dormir o dia todo. Tinha parado de nevar, em compensação o vento era cortante, sobretudo no rosto e nas pernas, meus pés já não aguentavam mais o chato andar no asfalto, quando vi uma minúscula placa escrito Albergue. Com muita dificuldade, pois o chão escorregava devido o degelo que já iniciara, consegui chegar à porta dupla de vidro da entrada do bonito albergue.

Quem podia imaginar que naquele lugar inóspito, escondia um oásis quentinho (foi assim que uma peregrina brasileira o definiu no livro de comentários) Assim que cheguei fui surpreendentemente bem recebida pela recepcionista, que talvez fosse dona do albergue. Uma mulher de pele clara, olhos azuis, cabelos escuros, parte já grisalhos, com uma voz calma e suave me saudou dizendo: “A neve é muito bonita para ver, mas muito difícil para caminhar”.

Essas palavras entraram em mim como um comprimido de "Prozac" e surtiram um feito anestésico e relaxador. Uma das poucas vezes que alguém reconhecia a dificuldade do peregrino e não exigia mais do ele podia dar. Mais calma, porém exausta, fui até meu beliche. O quarto já estava ficando bastante aconchegante, pois ela acabara de ligar o aquecimento. Talvez vinte ou mais beliches ocupasse um quarto imenso, mas não causavam mal estar, aliás, tinha um cheiro gostoso de limpeza e bem organizado.

Ela me aconselhou escolher um beliche próximo do radiador assim eu teria calor extra. Grandes janelas mostravam a neve do lado de fora. Como de costume tirei a roupa molhada, deitei na cama para colocar os pés no alto depois do esforço do dia. Adormeci por algum tempo.

Quando me despertei ouvi barulhos na cama ao lado que pareceria ser de alguém sofrendo, eu não sabia se era homem ou mulher, apenas ouvia tosse, gemidos, calafrio típico de filme de terror, talvez estivesse com febre, muito frio e dores pelo corpo. O que não era de duvidar depois do dia tão difícil. Eu não conseguia ver seu rosto, pois as cobertas o escondiam, mas conseguia ouvir os sonoros ruídos.

Preocupada e meio sem saber o que fazer diante da situação, fiz a típica pergunta: Are you ok? apesar de ser notório que ela não estava bem, depois de uma pausa acrescentei: ¨Do you need something?¨. Levantou-se um pouco, e pude ver que era uma mulher de cabelo muito curto e pele muito clara, olhou para mim demoradamente e notei grandes olheiras, um rosto cálido e pálido, com uma voz suave, e um sorriso modesto agradeceu-me, dizendo que estava bem, e com movimentos vagarosos voltou a deitar-se e cobrir-se até a cabeça.

Senti um tom de sincero agradecimento em sua voz, apesar de eu não ter feito nada. Ela tinha uma aparência exausta, era impossível alguém estar bem naquela situação. O beliche onde ela estava parecia uma barraca, vários panos e peças de roupa colocadas nas laterais para provavelmente impedir a entrada de vento ou garantir privacidade.

Fiquei olhando para o perfil daquela mulher deitada na cama, gemendo, solitária. Como algumas pessoas lidam tão bem com as adversidades? Perguntei-me, seria um traço de personalidade, ou uma condição aprendida e adquirida, o que mais poderia ser? O Caminho desgasta o corpo, o stress do esforço repetitivo, as horas a fio sem comer ou beber. Eu não havia encontrado alguém tão fragilizado que continuasse andando, muitos teriam abandonado, que motivos ela teria para continuar ali apesar do sofrimento?

O fato é que ela estava sofrendo calada. Enquanto refletia sobre tudo isso, fui tomar banho, pois a hora do jantar comunitário se aproximava. Mas a cena daquela mulher deitada na cama, na penumbra do enorme quarto, gemendo não saia da minha mente...continua

8 de Fevereiro de 2020 às 11:22 0 Denunciar Insira 0
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