lara-one Lara One

Barbara Wallace e Dana Scully. Elas se odeiam. Mas pra salvarem seus homens vão ter que juntar forças e correr contra o tempo. Dedicado a nós, mulheres baixinhas em tamanho, grandes em coração. E em especial as mulheres latinas.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

#comédia #scully #mulder #x-files
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S06#24 - BAIXINHAS E PERIGOSAS


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.


Rua One - West Virginia – 3:31 P.M.

O caminhão de mudanças parado em frente a casa. Os carregadores levam caixas e móveis para dentro. Barbara, de saia longa, blusinha decotada e saltos altos pega uma caixa da calçada.

Do outro lado da rua, Nancy observa com o binóculo pela janela.

NANCY: - George, você não vai acreditar! Sabe aquela perua que era do noticiário das oito? Aquela que mantinha a audiência com os decotes?

George aproxima-se da janela.

GEORGE: - Quanta maldade, Nancy! (EMPOLGADO) Barbara Wallace? Nossa, é ela mesmo! Vai ser nossa vizinha! Será que ela me dá um autógrafo? Quando eu contar isso no mercado os funcionários vão me invejar!!!

NANCY: - Que autógrafo, George? Dessa galinha despudorada? Olha a roupa da criatura! Os peitos estão saltando pra fora, aquela saia voando ao vento...

GEORGE: - (SORRINDO BOBO) ... Sexy, muito sexy... Ahn... Pois é. Tô olhando. Não consigo tirar os olhos...

NANCY: - Sempre achei essa mulher com cara de meretriz! E o jeito dela não me engana. É filha de latino. Olha como rebola quando caminha? Conhece alguma latina que não seja vagabunda?

George olha incrédulo pra esposa.

NANCY: - Não falta mais nada mesmo, agora mexicanos no nosso bairro! O que virá depois? Negros? Asiáticos? Meu Deus, esse bairro está virando um muquifo! Não basta o taradão da casa ao lado, agora essa prostituta na casa da frente e...

Scully estaciona o carro em seu pátio. Desce, vestida de calças, blusa e blazer. Pega as compras. Nancy vira o binóculo.

NANCY: - Tá vendo o que eu tô dizendo? Aquela ruiva pervertida voltou pra casa!

GEORGE: - Nancy, nossos vizinhos são agentes do FBI! São pessoas distintas, cultas e educadas...

NANCY: - (RINDO) São. Ela tem cara de vadia. Ele não é educado, ele sempre foi esquisito, o Terror da Virgínia. Traça qualquer coisa que apareça, aquele tarado! Será que a ruiva sabe das festinhas que o marido dava na ausência dela? Com o traficante entregador de pizza e aquela crioula sadomasoquista da empregada? Acho que vou ter que fazer uma visitinha pra conversar e levar uma torta...

GEORGE: - Nancy, por favor! Para de ver coisa aonde não tem! Vá arrumar o que fazer! E pare de ser racista e sexista! Você me coloca em maus lençóis com a vizinhança! Por sua culpa os Turner foram embora daqui! Ok, ganhei a Barbara Wallace. Mas isso não redime sua mania de fofocar da vida alheia!

Barbara acena pra Scully. Scully acena sem vontade e entra em casa.

NANCY: - Ah, tá explicado! As duas se conhecem, devem frequentar as mesmas orgias! Claro, são da mesma estirpe, uma vadia sempre conhece a outra só pelo cheiro.

George suspira e ergue as mãos, desistindo.

GEORGE: - Vou trabalhar! Alguém nessa casa tem que trabalhar!

Mulder sai de casa, usando moletom e tênis. Atravessa a rua. Ajuda Barbara com uma caixa.

NANCY: - Eu tô dizendo, George... Olha lá, o taradão esquisito também conhece ela! Pelo jeito a população masculina inteira da costa leste a conhece! Vagabunda! Ah, mas ela não vai se criar nessa vizinhança. Espera pra ver, eu vou dar um jeito como dei na vadia da Turner!

Krycek estaciona a picape. Desce. Troca um beijo com Barbara e conversa com Mulder.

NANCY: - Ah! Só podia! Depois eu que vejo coisas, não é?

GEORGE: - Nancy, deixa os vizinhos em paz... Aquele não é o entregador de pizza que você falou? O namorado do Mulder? Ele é legal. Mas espera, ele namora o Mulder ou a Barbara Wallace?

NANCY: - Como pode achar essa gentalha legal, George? Sim, é o amante do taradão, que vira taradinha pra ele. Se tivesse ouvido o que eu ouvi acontecer naquela cozinha... (FAZ O SINAL DA CRUZ) Que nojo, orgias sodomitas! Aposto que fazem troca de casais! As duas são lésbicas, eles são gays, assim não chamaria a atenção... Casamento de fachada, entende? Ah meu Deus, o Comitê da Moralidade Cristã vai ter que saber disso!

Nancy sai da janela. Barbara entra em casa. Krycek e Mulder conversam alguma coisa na rua. Um furgão se aproxima. Quatro homens de preto e com toucas ninja saltam do furgão agarrando Mulder e Krycek e os empurrando pra dentro do furgão a socos e pontapés.

Barbara sai da casa com a bolsa. Ao ver a cena, sai correndo em direção ao furgão, que parte em disparada levando Mulder e Krycek. Barbara leva as mãos à cabeça. Entra correndo na picape de Krycek.

Scully sai da casa, indo em direção ao carro. Barbara freia a picape.

BARBARA: - (DESESPERADA) Sobe aí! Sequestraram Alex e Mulder!

SCULLY: - (INCRÉDULA) O quê?

BARBARA: - (NERVOSA) Sobe depressa! Vamos perdê-los de vista!!!

Scully sobe na picape, Barbara acelera.

VINHETA DE ABERTURA: AS BAIXINHAS ESTÃO LÁ FORA...




BLOCO 1:

Noite anterior...

Residência dos Mulder - 6:01 P.M.

Scully fritando batatas. Baba fazendo salada. Victoria sentada na cadeirinha comendo tiras de cenoura.

SCULLY: - Eu sei que o costume é jantar cedo, mas aqui em casa sempre foi uma confusão de horários por causa do FBI. Quando eu era solteira nunca tinha hora certa pra comer alguma coisa. Mulder então nem comia, engolia correndo qualquer porcaria nada nutritiva. Aliás, quando conheci o Mulder, só tinha coisa congelada na geladeira e produto vencido! Comer qualquer coisa da geladeira dele era arriscar uma intoxicação alimentar!

BABA: - Eu nunca jantei cedo também. Minha mãe tinha seis filhos, cuidava dos meus avós e ainda tinha o meu pai que chegava tarde do emprego. Imagina o tempo pra preparar cada refeição! Ela passava o dia na cozinha!

SCULLY: - Cozinha dá trabalho, mas assim como você, eu não gosto de comprar coisas embaladas e picadas. Nunca são frescas. Prefiro eu mesma limpar e cortar os legumes e vegetais.

Scully mexe as batatinhas na frigideira.

SCULLY: - Estou preocupada com o Mulder. Ele nem disse aonde ia. Hoje o caldo vai entornar, pode apostar, porque ele veio cheio de regrinhas naquela ilha e agora quem descumpriu foi ele.

BABA: - Ele nunca faz isso, na certa está aprontando alguma surpresa pra você.

SCULLY: - Estou com medo, Baba. Agora que saímos do FBI eu não tenho mais a lei do meu lado, entende? Tenho como cidadã, mas não como agente executora e isso está me assustando. Aqueles homens estão muito quietos. Estou esperando uma retaliação deles a qualquer momento por termos saído do FBI por conta própria.

BABA: - Você tem porte de arma, treinamento e uma licença provisória de detetive particular. Fique calma. Você saiu do FBI, mas o FBI não saiu de você.

SCULLY: - Tem razão... Mas estou preocupada com o Mulder... (OLHA PRA FILHA) Ei, Victoria, minha coelhinha, vá devagar com essa cenoura!

VICTORIA: - (SORRI/ CERRANDO OS OLHINHOS) Tá totoso mama!!!

SCULLY: - Eu sei que é gostoso, mas não vá se engasgar. Quer uma batatinha?

VICTORIA: - Quelo!

Scully entrega uma batata-frita pra Victoria. Mulder entra pela porta dos fundos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Scully, suspenda as fritas que o filé chegou!

Scully cruza os braços e olha irritada pra ele.

BABA: - (DEBOCHADA) Filé? Você tá mais pra carne de segunda, meu filho!

SCULLY: - Acho que só amacia se bater muito.

MULDER: - (DEBOCHADO) Sendo assim... Scully você vai ter que amaciar toda essa carne aqui a noite inteira.

SCULLY: - Baba, sabe aonde está o batedor de bife? Vou precisar dele.

MULDER: - (PÂNICO) Uh! Santo mau humor! Cadê meu jantar, mulher?

Scully o encara balançando a escumadeira.

SCULLY: - Talvez eu tenha que amaciar toda essa carne aí batendo nela com a escumadeira! Fox Mulder, nunca mais saia de casa sem me dizer pelo menos a latitude e a longitude de onde está, porque eu fico nervosa!

MULDER: - Hum, fica nervosa, é? Preocupada com a carne de segunda aqui?

SCULLY: - Você tá muito engraçadinho hoje, Mulder. Engoliu um almanaque de piadas?

MULDER: - Não. Eu estou é muito feliz! A vida agora é como eu queria. Minhas duas mulheres do meu lado.

Baba abaixa os óculos e o encara.

MULDER: - Ok. Minhas três mulheres. Quase esqueci da minha amante negra e sadomasoquista.

BABA: - E bruxa, se esqueceu? Uma hora dessas a Nancy vai ver a minha vassoura voando nos beiços dela pra ver se morde a língua venenosa.

Scully solta uma risada.

SCULLY: - Tanto tempo longe dessa casa que até esqueci dessa víbora! Por que você é amante do Mulder e ainda sadomasoquista, Baba?

BABA: - Porque Victoria e Mulder estavam brincando no quintal, o sol estava forte, mandei os dois entrarem, e logicamente a Victoria me obedece, já outra pessoa aí não. Então ameacei bater nele com um chicote, e o Mulder, debochado pra variar, ficou gritando "bate que eu gamo" e a peçonhenta nessa hora saiu pra fora e ouviu tudo.

MULDER: - Baba, não perca seu tempo com a peçonhenta. O taradão aqui tá maquinando uma vingança. Servida fria. Bem fria.

SCULLY: - Não vai sair nu na rua novamente, não é, Mulder? No fundo a Nancy adorou ver o meu brinquedo!

MULDER: - Eu não saí nu! Você me colocou pra fora de casa sem direito a uma cueca, lembra? Nu é pouco... A gente devia dar uma folga pra Baba, botar Pinguinho pra dormir e fazer uma festinha naquela piscina. Vou fazer você gritar até acordar a venenosa. Ela vai cair desmaiada de pavor!

SCULLY: - Mulder, é sério. Ela vai chamar a polícia!

MULDER: - E daí? Quem é o policial no nosso distrito? Krycek quando ver o endereço da chamada vai dar risada, afinal ele virou traficante, entregador de pizza e meu amante. E agora você e eu não somos mais agentes do FBI. Não vai ter nenhuma represália.

Mulder senta-se ao lado de Victoria e rouba a cenoura dela. Victoria olha pra ele num beiço.

VICTORIA: - Dah!!! Mama!!! Ox pegou "tumida" do neném!!!

SCULLY: - Mulder, pare de ser criança! Dá a cenoura pra menina! Por que você adora irritar sua filha até ela gritar?

MULDER: - Ok, toma sua cenoura, Pernalonga. Eu não queria mesmo, "velhinha".

Victoria começa a rir. Mulder pega Victoria no colo. Enche ela de beijos. Victoria ri alto. Coloca a cenoura na boca de Mulder.

SCULLY: - Victoria Mulder, depois não reclama que seu pai come sua comida! Você briga com ele até eu xingá-lo e depois faz as vontades dele.

VICTORIA: - (SORRI) Tadinho papai! Vic ama papai!

MULDER: - (SORRI) E papai ama a Vicky!

SCULLY: - Vocês dois se merecem! E o nome dela é Victoria. Eu não quero que se acostumem com Vicky! Detesto esse apelido!

MULDER: - Mas o apelido é seu ou da nossa filha? Eu não entendo por que você não gosta de Vicky! Viu, Pinguinho, sua mãe não quer que chamem você de Vicky. Quem sabe a gente chama você de Tory? Tory pode?

SCULLY: - Pode. Eu não gosto desse apelido porque Vicky soa como a pastilha e a minha filha não é pastilha pra ser chupada, entendeu? Piadas na boca de garotos maldosos. E você conhece bem esses tipos que adoram fazer piadas e trocadilhos com as mulheres, não é mesmo?

Baba segura o riso colocando a mão na boca.

MULDER: - (IRRITADO) Nada de Vicky, eu mato o engraçadinho que fizer piada com ela sobre pastilhas! Vou fazer chupar as balas diretamente no cano da minha Glock! Tão pensando o quê? Vão chupar a mãe deles!

SCULLY: - (VINGADA) Ah, ficou ofendido só de pensar com a piadinha idiota e machista pra cima da sua filha, Fox Mulder? Nada como ser pai de menina pra virar gente! Agora suba e vá tomar um banho. Logo o jantar estará pronto.

MULDER: - Ok, Pinguinho. Papai vai subir, tomar um banho porque mamãe chamou ele de fedorento.

VICTORIA: - (BEIÇO) Papai nah "fedolento" mama!!! Papai "ceiloso"!

MULDER: - (SORRI) Viu? Nossa filha não me acha fedido. Ela me acha cheiroso. E o papai é o quê mesmo?

VICTORIA: - (SORRI) Papai é lindo!!!

MULDER: - (SORRI) É isso aí, papai é lindo!

Mulder sorri bobo, beijando a filha e olhando debochado pra Scully.

SCULLY: - Eu mereço mesmo!!! Nove meses na minha barriga, eu me entupindo de doces, explodindo, com os peitos e pernas inchadas e ela fica elogiando o pai dela! Docinho você é uma puxa-saca desse filé de terceira aí!

VICTORIA: - (BEIÇO) Nah filé "tecêla"!!!!

MULDER: - É Pinguinho, seu pai não é filé de terceira. É filé de primeira!

VICTORIA: - Filé de "plimera" mama!

SCULLY: - E lá você entende de qualidade de filé, mocinha? Vê se quando crescer tenha um gosto melhor pra homens do que a sua mãe teve.

Baba começa a rir.

BABA: - Meu Deus, vocês dois não tem jeito! A melhor coisa do mundo é trabalhar nessa casa, eu me divirto o dia inteiro! Nem assisto mais novela, pra quê?

MULDER: - Isso. Cospe no prato que come! Me coloca lá na lata do lixo pra ver se não aparece um monte de mulher me juntando.

SCULLY: - Monte de mulher? Pois vão juntar seus pedacinhos!

Scully ergue a escumadeira, debochada, ameaçando Mulder.

SCULLY: - Mulder, já pra cima tomar seu banho! E pare de ensinar nossa filha a ser bajuladora!

Mulder coloca Victoria na cadeirinha. Dá um beijo no rosto de Scully. Pisca o olho pra ela.

MULDER: - Vou ficar cheirosinho pra você me amaciar hoje, Dana Scully.

Scully sorri boba. Mulder sai da cozinha.

BABA: - Graças à Deus você voltou pra casa! Esse homem estava se acabando. Olha só a felicidade que ele anda! Voltou até a fazer piadas! Parou o festival de se trancar no sótão, canções românticas do Elvis Presley, uísque e choradeira!

SCULLY: - Confesso pra você que eu também estava me acabando longe dele. É essa coisa que a gente tem, sabe? Mulder adora me provocar, adora que eu me faça de brava. Quanto mais eu xingá-lo, mais feliz ele fica. O pior é que eu adoro brigar com ele. Discordar do Mulder é como provocar a atenção dele... Sei lá. É como um tempero que deu certo na relação. Scully mal-humorada contra Mulder folgado. A bem da verdade começou na profissão... O que você acha, Baba?

BABA: - Eu acho que só tem maluco nessa casa e que vocês dois se merecem!

Scully solta uma risada. Procura o prato de batatas. Sumiu. Procura com os olhos. O prato na frente de Victoria que está com a boca cheia de batatas.

SCULLY: - Ô filha do Mulder, mesmo, não nega a genética traquina e folgada! Victoria Mulder, não mesmo! Você não pode levitar a comida até você! Mamãe não quer que faça isso!

Victoria faz beiço.

SCULLY: - Docinho, não pode fazer isso. Já pensou se a gente tivesse convidados? Não pode. Sem mágica, ok? Pede que a mamãe dá. As coisas funcionam dessa maneira.

VICTORIA: - Tá... Dá "tatatinha", mama?

SCULLY: - (RINDO) Vamos ter que começar a falar certo, filha. É engraçadinho, mas vai virar vício. Vamos lá, olha como a mamãe diz: Batatinha. Ba.

VICTORIA: - Ba.

SCULLY: - Ba...ta...ti...nha.

VICTORIA: - Ba...ta...tinha!

Scully e Baba batem palmas. Victoria sorri boba batendo palmas também.

VICTORIA: - (RINDO) Batatinha! Batatinha!!!

SCULLY: - Viu quem se mudou pra casa da frente?

BABA: - Sabia que você ia comentar.

SCULLY: - Com tanto lugar pra morar... A Ellen traidora me vende a casa pra ela! Logo pra aquela mulher!

BABA: - Scully, você está vendo chifre em cabeça de cavalo. Se Mulder tivesse interesse nela, já tinha acontecido. Quanto tempo ele ficou sozinho aqui?

SCULLY: - Sei que você não vai me contar, mas tenho certeza que ela não saía dessa casa.

BABA: - A Barbara? Scully, quem não saía daqui era o Krycek, tanto que a víbora ao lado inventou maldade! Barbara só esteve uma vez aqui e não ficou muito tempo. E era pra falar do Krycek, ela tava nervosa com alguma coisa.

SCULLY: - Então por que se mudar aí pra frente? Pra ficar de olho no meu marido?

BABA: - Quem sabe pro seu marido ficar de olho nela?

SCULLY: - Ah! Viu? Você também concorda que tem coisa aí!

BABA: - Claro que concordo, mas não a coisa que você imagina. Pra ela é segurança ter Mulder por perto. E ter você também. Scully, você sabe que aquela gente jurou Barbara de morte por ter ajudado vocês! Ela tem medo. Eu tenho!

SCULLY: - Ela então que se mudasse pra frente do Krycek... É, lá não dava, só tem prédio comercial... Ela vive bancando a simpática comigo. Não gostei da cara dela desde o início. (SUSPIRA) Admito, ela é uma mulher bonita, divertida, inteligente e sexy. E é morena. Tudo o que o Mulder gosta! Como eu sei? Lembro das mulheres de papel dele!

BABA: - Baixinha errada, Scully. Tudo o que o Mulder gosta ele lutou pra trazer de volta pra casa. Entende? Olha a felicidade que o seu marido está, por você estar aqui com ele. Acha que Mulder arriscaria perder você, mesmo que por um caso extraconjugal de uma noite, quando ele ficou quase um ano sozinho sem você e não queria arrumar outra mulher? Você e Mulder foram feitos um pro outro. E se não basta, Mulder foi quem ficou empurrando o Krycek pra cima da Barbara e vice-versa, brincando de cupido. Eu sei porque estava aqui. Eu vi.

SCULLY: - Droga, queimei as batatas! Eu tô dizendo que meu santo não bate com a Barbara. Essa mulher me irrita! Pra que tanto segredinho com o Mulder por telefone? Hum? E o Mulder desliga e nem me diz sobre o que falaram, só que era sobre Krycek. Se ela tem problemas com o namorado que se entenda com ele e não coloque meu marido no meio! Eu sinceramente não imagino Krycek e Barbara juntos. Ele todo sério e rebelde e ela uma perua falante. Deve ser muito esquisito e improvável. Não vejo ligação, nada em comum, entende? Bom, mas não é da minha conta se eles fazem um casal sem graça.

BABA: - Scully, não seja cruel. Mulder está bancando o Dr. Freud com Krycek por algum motivo, que pela ética profissional ele não pode sair gritando por aí. Você é médica, sabe disso. Barbara deve estar preocupada e liga pra pedir ajuda. E eles não formam um casal esquisito. Eles se dão bem. São tão esquisitos e improváveis quanto Mulder e você.

SCULLY: - Eu sou muito desconfiada. E insegura, eu sei. Eu nunca imaginei um peixão no meu lago, só de imaginar alguém tentando fisgá-lo... Eu admito, só pra você, Baba, o Mulder é o homem dos sonhos de qualquer mulher! Acha que não devo me preocupar?

BABA: - Encare assim também: Mulder nunca imaginou uma sereia no lago dele. Acha que vai trocá-la por uma tainha? Acorda, Scully! Você acha Mulder um filé de primeira, mas você não serve pra carne de pescoço, minha filha. E ele sabe disso. Você é quem não sabe. E Mulder tanto sabe que não come outro filé! Ou estou errada? Ele não ia atrás de você quando estavam separados? Pelo menos me dizia que ia. Dieta Scully. Ele só gosta disso no café da manhã, almoço, jantar, sete dias por semana, é "Scullieee!!!!" de dia, de noite... Tenho pena de você.

Scully começa a rir.


Esconderijo de Alex Krycek - 6:17 P.M.

Barbara de shorts jeans, blusinha, saltos altos e dançando pagode enquanto cozinha.

BARBARA: - Droga! Errei o passo do ritmo de novo...

Ela fecha os olhos e respira fundo. Solta os ombros. Começa a dançar novamente, agora acertando o passo. Toma um gole de cerveja, rebolando os quadris. Enfeita a salada com um tomate cereja. Continua dançando.

Krycek entra cansado, desanimado, segurando uma sacola de papel. Ao ver Barbara, abre um sorriso. Se escora na porta, cruza os braços e fica olhando num sorriso sacana. Ela continua rebolando, dando uma volta em torno de si até percebê-lo na porta.

BARBARA: - (SORRI) Ratoncito!!! Estou treinando!

KRYCEK: - Só não sei se está treinando dança ou como me enlouquecer. O cara chega em casa desanimado e dá de cara com uma morena gostosa rebolando nessas roupas? Não tem juízo que aguente, garota. Depois a gente parte pra cima e ainda leva tapa na cara e acusação de tarado! Eu fiz uma cirurgia no coração, vê se pega leve!

Barbara pula no colo dele tão rápido que Krycek quase cai, mas a segura.

KRYCEK: - (SORRI) Calma! Eu ainda não me acostumei com essa sua recepção calorosa!

BARBARA: - Acho bom se acostumar. Quando chegar já venha preparado, porque eu vou pular em cima de você feito uma gata!

KRYCEK: - Você é bem louquinha, Malyshka. Da próxima vez, eu vou entrar sorrateiro feito um rato. Só pra admirar você dançando.

BARBARA: - Não terá chances, Ratoncito. Eu sou uma gata muito atenta com a minha presa. Hum... Presa não. Gatos caçam ratos para brincar, não pra comer. Você é a minha diversão.

Os dois trocam um beijo. Barbara desce do colo dele. Krycek tira o distintivo e a arma colocando no balcão. Entrega a sacola pra ela.

KRYCEK: - Achei que você ia gostar.

Barbara, curiosa, abre a sacola e retira uma xícara com desenhos de objetos da profissão de jornalista.

BARBARA: - (ABRE UM SORRISO) Nossa! Adorei!!! Sério, hermoso, aonde você encontra essas coisas legais e diferentes?

KRYCEK: - Os caras vão comer rosquinha, eu vou bisbilhotar as lojas atrás de coisas bonitas pra minha namorada.

BARBARA: - (APERTA A BOCHECHA DELE) Ai, que fofo!!!

Barbara o enche de beijinhos. Krycek sorri envergonhado.

BARBARA: - Tá vendo? Eu sabia que por trás dessa casca dura tinha um sujeito sensível.

KRYCEK: - Tá, não exagera, você estraga a minha fama de mau. Eu já disse que não sou domesticável... Estou cansado, dia cheio.

BARBARA: - Então adivinhei! Terminei de embalar minha mudança toda e pensei: vou até a casa do Alex fazer um jantar pro meu amor, afinal hoje temos aula. Quer jantar antes ou depois da aula?

Krycek pega uma cerveja da geladeira.

KRYCEK: - Acho que depois. Conseguiu pegar o passo? O professor anda muito exigente. Ele deve pensar que todos querem ser dançarinos profissionais. Eu adoro dança, mas só quero não fazer feio, quando sair pra dançar com você.

BARBARA: - Eu não achei o pagode tão difícil. Pelo menos pra cubana aqui que dança mambo, salsa e merengue. Mas samba deve ser mais complicado!

KRYCEK: - Eu acho o tango. Esse me assusta. O tango tem muito movimento de pernas, requer agilidade, total interação e sincronia com a parceira. Imagina derrubar você no chão?

BARBARA: - Eu tô insegura com a paradinha. E ele disse que hoje vai dar um pagode mais agitado puxado pra samba pra gente já ir se preparando pra semana que vem. E se eu me atrapalhar toda e me enrolar nas suas pernas?

KRYCEK: - Vem aqui. Vamos dar uma treinadinha rápida pra não fazer feio. Você tem tempo pra ficar treinando, eu não tenho. Imagina ficar rebolando na delegacia. Aqueles ignorantes vão rir até se acabarem! Já me pegaram na valsa e virei a piada do mês! Até o Norris entrava na sala com os braços pra cima e na ponta dos pés imitando uma bailarina, me olhando debochado.

Barbara liga o som.

[Som: Karametade - Morango do Nordeste]

Barbara dá as mãos pra ele. Krycek a puxa e os dois começam a dançar.

BARBARA: - Nunca pensei que você gostasse de dançar, seu sujeito cheio dos segredos. Achei que quando veio com a ideia estava zombando de mim...

KRYCEK: - Malyshka eu não sou o Krycek o dia todo. Eu sou o Alex, uma pessoa comum que gosta das coisas comuns. Imagino que imagem que lhe venderam a meu respeito. Ok, estavam certos, mas só conheciam o meu lado bandido profissional e não a minha vida privada. Por que é tão difícil as pessoas conceberem que só porque eu era um cretino, eu não poderia ter uma vida fora daquilo? Ninguém se espanta com a vida do Mulder fora dos Arquivos X, não entendo por que se espantam com a minha vida fora do Sindicato.

BARBARA: - Ah, mas veja bem, todo mundo pensa que bandido faz só bandidagem o dia todo, como uma obsessão...

KRYCEK: - Sim, como os vilões dos filmes, eles querem conquistar o mundo e dormem pensando nisso, vão ao banheiro pensando nisso, fazem compras pensando nisso, e quando não estão ocupados no trabalho deles, passam o dia todo sentados sonhando com isso. (RINDO) Malyshka, isso é ridículo! Acabava o trabalho, até vir outro eu fazia outras coisas.

Ele gira ela e voltam a dançar juntos.

BARBARA: - Tipo beber muito, arrumar mulher, confusão e briga?

KRYCEK: - Não. Tipo comprar CD. Ficava horas em lojas, ouvindo, escolhendo o que levar... Eu já disse pra você que minha mãe adorava dançar, por pouco ela não foi bailarina, e também amava tocar balalaica. Meu pai também tocava. Eu amo música, queria mesmo ter sido um cantor.

BARBARA: - Nunca é tarde... Não esquece, você tem que me dar o sinal com o seu pé. (RINDO) Ratoncito, até que você tem molejo pra um russo! Quem está ficando empolgada sou eu!

KRYCEK: - (RINDO) Você tá confundindo russo com americano. Malyshka, russo já nasce dançando e pronto pro Bolshoi. Americano é que não tem molejo pra dançar. Exceto os afro-americanos.

BARBARA: - Mas ritmo latino? Não, você tem jeito mesmo, acho que é a genética materna... Olha aí, tá vendo? Você sabe trocar os pés no ritmo. E sabe requebrar.

KRYCEK: - (OLHANDO PRA BAIXO) Você pegou mais fácil que eu. Mulher tem mais molejo.

BARBARA: - Me dá o sinal, Ratoncito. Eu esqueço de fazer o passo da paradinha, fico prestando atenção na letra.

KRYCEK: - Eu não entendo nada da letra, mas gosto da batucada e do acordeom. Russo adora um acordeom.

BARBARA: - Eu vou te ensinar espanhol. Você vai entender um pouco melhor, português e espanhol são parecidos. Mas tem que me ensinar russo.

KRYCEK: - Russo é mais fácil! Fiquei um mês em Portugal numa missão e quase passei fome!

Krycek leva o pé e puxa o pé dela com o seu. Barbara cai pro lado, sentando na perna dele. Se levanta e continua dançando.

KRYCEK: - Oh, ficou perfeito. Acertamos a paradinha na primeira! Agora só temos que acertar aquele giro em que você cai nos meus braços. Escuta esse acordeom fazendo a diferença de novo... Eu devia ter aprendido acordeom...

Os dois se soltam, dançando separados.

KRYCEK: - Adoro ver você rebolando. Quem tem molejo é você.

BARBARA: - Sangue caliente latino...

KRYCEK: - (SORRI) Sério, Malyshka, você já transpira sensualidade, dançando desse jeito na minha frente eu não sei se vou me concentrar na aula.

BARBARA: - (RINDO) Vai sim... Vamos ser o primeiro casal da academia de dança a pegar o diploma. Somos dedicados e gostamos disso. E não abrimos a boca pra dar coordenada pro parceiro. Viu a bronca que o professor deu naquele casal.

KRYCEK: - A dança tem que ter simbiose, ele tá certo.

O celular dele toca. Krycek para de dançar e tira o celular do bolso. Barbara gira rebolando e olhando atrevida pra ele. Krycek sorri. Olha pra tela do celular. Ignora a chamada. Fica sério e tenso. Senta-se.

BARBARA: - Norris? Precisam de você na delegacia?

KRYCEK: - Não. Cansei de dançar. Vai se mudar quando?

Barbara para de dançar e desliga a música.

BARBARA: - Amanhã. E tenho tanta coisa pra fazer. Primeiro vou montar meu escritório porque preciso escrever matérias pra revista. E acho mesmo que vou aceitar aquela proposta da TV local. Um programa feminino de duas horas, com receitas, dicas de beleza, entrevista com alguma dondoca da cidade e que ninguém assiste porque é local... Meu Deus, o que virei na minha vida profissional por causa dos meus dois bichinhos linguarudos? Descida rápida, direto do topo para o bueiro. Pelo menos fiquei com os bichinhos. Ganhei um rato pra me fazer companhia e uma raposa pra amigo.

Krycek perde os olhos no nada.

BARBARA: - Bom, agora tenho uma xícara bonita pra colocar na minha escrivaninha... Estou super feliz! Sair daquele apartamento pequeno, aonde não posso ter uma miserável plantinha, para uma casa espaçosa com jardim e piscina... Casa espaçosa, sabe? Grande demais pra "uma pessoa só"... Que bom que aceitaram meu apartamento na troca e faltaram poucas prestações. Não entendi até agora porque os Turner estavam tão desesperados pra venderem aquela casa, baixaram tanto o preço... Fugiam do quê? Assombrada não é, Baba foi lá e não viu nada.

Barbara percebe o olhar distante e pensativo dele. Então suspira.

BARBARA: - Estou sem calcinha.

KRYCEK: - (DISTANTE) ...

BARBARA: - Coloquei veneno na comida.

KRYCEK: - (DISTANTE) ...

BARBARA: - Traí você com o entregador de pizza.

KRYCEK: - (DISTANTE) ...

Barbara bate uma panela na pia. Krycek sai de seus pensamentos.

BARBARA: - Ops... E então? Quer me contar alguma coisa?

KRYCEK: - Não tenho nada pra contar. Eu vou tomar banho ou vamos nos atrasar pra aula.

Ele se levanta e vai pro banheiro. Barbara o acompanha com os olhos, preocupada.

BARBARA: - Mas esse homem é um casca dura mesmo! Será que se eu bater com a panela na cabeça dele pode ser que comece a abrir mais o coração?


Residência dos Mulder - 9:47 P.M.

Mulder deitado na cama assistindo TV com Victoria. Scully sai do banheiro, secando os cabelos.

SCULLY: - Não mesmo, mocinha. Já está na hora de dormir!

Victoria sorrindo, esconde o rosto contra Mulder. Mulder coloca o travesseiro e o braço por cima dela, a escondendo.

MULDER: - (SEGURA O RISO) Que mocinha? Victoria nem está aqui.

SCULLY: - (SEGURA O RISO) Pensei ter visto Victoria com você.

MULDER: - Pensou errado.

Scully sobe na cama e levanta o travesseiro.

SCULLY: - Ahá! Achei!!!

Victoria começa a rir. Scully a pega nos braços. Enche de beijos.

SCULLY: - Meu presente, meu tesouro, minha vida! A melhor coisa que seu pai já fez!

MULDER: - A melhor coisa que você já fez, Scully. Eu só assisti. Minha contribuição se resume a um potinho. E ainda torcendo pra que tivesse algo pra aproveitar.

Scully larga Victoria ao lado de Mulder. Deita-se ao lado deles. Brinca com os cabelos de Mulder em sua mão.

SCULLY: - Sem a sua contribuição, eu não faria... Mulder, estou percebendo uma certa frustração em você?

MULDER: - É. Eu me sentia culpado por você não ter um filho. Você perdeu tudo quando abraçou minha causa como sua, inclusive o direito de ser mãe. Jamais fiquei frustrado por você não poder engravidar. Mas agora entendo a frustração de ser estéril.

SCULLY: - Mulder, você não ficou completamente estéril. Se tivesse ficado, Victoria não estaria aqui.

MULDER: - É, mas quase que ela não estaria. Por isso mesmo comecei a acreditar em "milagres". Ela só está aqui não por nós, mas porque alguém lá em cima tem planos pra ela estar aqui. E quando penso nisso tenho medo que planos são esses.

SCULLY: - Mulder, ainda não aprendeu a confiar em Deus? (SUSPIRA) No criador da raça humana?

MULDER: - Scully, confiar eu confio, de quantas aqueles alienígenas nos tiraram, inclusive quando Victoria nasceu. Mas ela é tudo o que a gente tem! Eles nunca nos deram respostas sobre a pureza dela, entende? Ela é menos humana do que eu? Do que você? Ou ela é tão humana quanto, apenas mais evoluída? Você mesma dedicou seu tempo para examinar as capacidades mentais e físicas de Victoria. Ela não apresenta nenhuma anomalia, nada físico que não seja como a gente ou como eles, mas ela tem genes ativados, adormecidos em nós, e faz coisas como aqueles desasados. Ela é como eles?

SCULLY: - Um anjo ou um humano? Eu não tenho essas respostas, Mulder. Talvez o tempo revele. Ou eles revelem. A única coisa que eu tenho certeza é que eles protegem nossa filha de qualquer coisa. E isso pra uma mãe é um alívio para conseguir fechar os olhos e dormir à noite, sabendo que sua única cria está a salvo da maldade alheia.

Mulder vira-se, colocando o braço sobre Victoria e Scully. Victoria quase dormindo.

MULDER: - Se ela pudesse falar direito.

SCULLY: - E acredita mesmo que ela tenha essas respostas, Mulder?

MULDER: - Espero que tenha. Porque ela vai crescer e precisar delas e eu não as terei pra dar.

SCULLY: - Mulder, até Victoria crescer ainda tem um bom tempo. E o tempo traz as respostas todas.

MULDER: - É, mas o tempo Dele não é o nosso! E eu como pai fico aflito em pensar o que eles esperam ou querem dela. E não posso nem especular porque nem sei direito o que ela é. Entende?

SCULLY: - Claro que entendo, não pensa que eu não me questiono sobre isso. Mas o que adianta sofrer por antecipação? Hum? Acha mesmo que eles fariam algo de ruim com Victoria?

MULDER: - Não, claro que não. Mas é o propósito dela existir que me deixa nervoso, entende?

SCULLY: - Mulder, supondo na mais extrema das hipóteses que nossa filha seja um anjo. Igual aos outros anjos. O que caberia a um anjo deles aqui na Terra? Ela não é um anjo caído, ela nasceu aqui. O que caberia a ela fazer? Proteger a humanidade dos que aqui estão?

MULDER: - É uma possibilidade. E no pior dos pesadelos, aquele desgraçado do Moedinha vai infernizá-la pela eternidade inteira! Eles estão em lados opostos nessa guerra.

SCULLY: - Concordo. Mas Mulder, quando Lúcifer caiu levou apenas um terço dos anjos com ele. Ainda sobraram dois terços lá em cima e que estão ao lado de Victoria. Hum? Acha mesmo que Coin tem chances contra ela? A matemática não mente, Mulder.

MULDER: - Mas sabe o que é pior? Pior mesmo é eu admitir pra você que depois de descobrir a verdade, eu só me acalmei mesmo quando você me mostrou o DNA dela, provando que é nossa filha sem nenhuma intervenção.

SCULLY: - Mulder, você estava lá, como pode pensar que...

MULDER: - Você tem razão, Scully. Eu não confio em alienígenas. Mesmo os que nos criaram. E eu sei que estou errado. Só não consigo confiar cegamente ainda. Acho que sua visão religiosa ajudou você a conseguir isso quando descobriu a verdade. Eu nunca tive essa visão religiosa, sou cético nisso.

SCULLY: - Nossa garotinha dormiu, Mulder. Vou colocá-la na cama. E vamos parar de pensar. Vamos relaxar um pouquinho?

MULDER: -Vou descer e fazer umas pipocas.


Esconderijo de Alex Krycek - 10:57 P.M.

Barbara deitada na cama assistindo televisão. Olha pra porta do banheiro. Levanta-se. Aproxima o ouvido da porta. Morde os lábios. Ameaça bater, mas desiste. Ameaça voltar pra cama, mas desiste. Fica indecisa. Então volta pra cama.

BARBARA: - Ele não tá legal...

Barbara pega o celular e aperta uma tecla. Aguarda.

BARBARA: - (FALANDO BAIXO) Mulder, desculpe incomodar numa hora dessas... É. Ele chegou esquisito como sempre, jantou comigo, assistiu um pouco de TV e se trancou no banheiro de novo. O que eu faço? ... Não sei se está chorando, não escuto nada! ... Não, a arma tá em cima da mesa, eu fico sempre de olho! ... Não, Mulder, não precisa vir aqui, já é demais! Só me diz se posso fazer alguma coisa... Tá... Humhum... Ok... Sim, amanhã eu te aviso. Boa noite e obrigada!

Barbara desliga. Olha pra porta do banheiro. Fica mexendo no controle da televisão tentando achar alguma coisa.

BARBARA: - Alex, vai começar um filme bem legal de terror! Eu sei que você adora!

Nenhuma resposta.

BARBARA: - Quer pipocas, hermoso?

Corta para o banheiro. Krycek parado em frente ao espelho, apontando a arma debaixo do queixo.

Corta para a cama. Barbara observa a porta do banheiro, angustiada.

BARBARA: - Ratoncito!!! Começou o filme, vai me deixar aqui sozinha? Eu não gosto de ficar sozinha! Eu tenho medo de filme de terror! Eu preciso do meu grandão me protegendo!

Corta para o banheiro. Krycek com a arma ainda apontada pra si, se olhando no espelho.

KRYCEK: - (SORRI) "Ratoncito"...

Krycek suspira. Abaixa a arma, angustiado.

Corta para a cama. O celular de Krycek toca. Barbara pega o celular do criado-mudo e observa a tela: "Spender". Barbara olha desconfiada para o banheiro. Ignora a ligação e coloca o celular de volta no lugar.

Krycek sai do banheiro enxugando o rosto com a toalha. Barbara o observa. Ele tira a camisa e se joga na cama. Envolve o braço nela. Barbara se recosta nele, fazendo-lhe carinhos. Silêncio entre os dois que assistem o filme. Barbara se agarra nele.

BARBARA: - Ai, não. Eu tô com medo!

KRYCEK: - Eu não mereço você.

BARBARA: - Quem decide isso sou eu, não?

KRYCEK: - Não, eu não mereço uma mulher como você. Um cara como eu não pode esperar muito da vida. E você é muito.

BARBARA: - Muito pouco, olha pro meu tamanho!

KRYCEK: -Eu tô falando sério, Barbara. Acho que você deve procurar outra pessoa pra viver sua vida. Eu não sou um bom futuro pra você.

BARBARA: - Alex... Por que não se abre comigo, hum? O que está perturbando você? Seu passado ainda? Vamos conversar, trocar ideias...

KRYCEK: - (FUGINDO DO ASSUNTO) Aposto com você que tem fantasmas nessa história.

Barbara suspira. Caminha os dedos pela barriga dele, brincando. Krycek observa os dedos dela. Barbara leva a mão dentro das calças dele.

BARBARA: - Acho melhor fazer você desligar um pouco, hum? Quem sabe a gente se distrai com outra coisa?

KRYCEK: - Gostei da ideia, mas não preciso desligar de nada, estou bem.

BARBARA: - Aff, Alex Krycek!!! Fazendo jus a sua fama de mentiroso!

Barbara abre o botão das calças dele. Krycek arregala os olhos.

BARBARA: - Se quer assistir filme de terror, Ratoncito, assista sozinho. Porque sua gata aqui quer algo mais erótico, uma mistura exótica e explosiva de latina com russo, regada a sua vodka e meus movimentos de salsa em cima do seu corpo nu...

O celular toca novamente. Krycek pega o celular, ignora a chamada.

BARBARA: - Quem é o chato estraga tesão?

KRYCEK: - É um chato estraga tesão mesmo. Aonde estávamos, o assunto de diversidade cultural estava bem interessante.

O celular toca novamente. Krycek pega o celular, se levanta e sai pra rua. Barbara pula da cama e corre pra porta, encostando o ouvido, desconfiada.

Do lado de fora, Krycek se afasta da porta, atendendo a ligação.

KRYCEK: - (AO CELULAR) O que você quer, Spender? ... Ora, não se faça de idiota, eu tenho os meus motivos pra evitar vocês todos! ... Crise de consciência? Eu tô fora sim, esqueceu que mandaram me matar e me caçaram feito um animal? Eu não vou voltar por nada que você tenha a me oferecer, entendeu? ... Dinheiro? (SORRI) Pega a droga do seu dinheiro e enfia no seu rabo! ... Como assim? E o que quer em troca do serviço? ... E quem eu vou matar? ... Sabe que nunca trabalhei sem nomes, me dá o nome antes... Não estou bancando o espertinho, quero saber quem é o defunto da vez!

Krycek olha pra porta. Vira-se de costas.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Escuta aqui, seu velho cretino. Eu não sou o Mulder que se vende pra conseguir salvar alguém, eu sou egoísta, não sabe disso? ... Nem pela Barbara, ela não é nada pra mim, apenas uma diversão interessante e temporária. Vadias iguais a ela tem centenas por aí!

Barbara leva a mão aos lábios, enchendo os olhos de lágrimas.

KRYCEK: -(AO CELULAR) Não me liga mais. Ou vou procurar vocês todos e acabar de vez com meus problemas! Mulder confia em você, mas eu te conheço o suficiente pra não acreditar em nada do que diz. Mande um dos seus acabar comigo ou mexer com o Mulder e a família dele e você sentirá de surpresa o cano da minha arma na sua cabeça, fui claro? Eu encontro o buraco aonde estão se escondendo e você me conhece bem, sabe que não estou brincando. Eu sei aonde você mora. Fica esperto velho! Durma com um olho aberto!

Krycek desliga o celular, tira o chip e pisa em cima.

Barbara corre pra cama. Tenta secar as lágrimas que insistem. Krycek entra.

KRYCEK: - Malyshka, preciso de um favor.

BARBARA: - (VOZ EMBARGADA) Fala.

KRYCEK: - Preciso trocar minha linha telefônica. Eu pago, você me empresta seu nome? Não quero que descubram mais o meu número.

BARBARA: - Tá.

KRYCEK: - Você tá chorando?

BARBARA: - Não! Ahm... Cisco no olho.

Krycek se atira na cama, envolve o braço nela.

KRYCEK: - Eu sei que você tá querendo diversão, mas eu tô sem clima.

BARBARA: - Tudo bem, Alex... A gente precisa dormir mesmo. Eu tenho uma mudança pra fazer amanhã.

Barbara se solta dele e vira-se de costas, chorando calada.


Rua One - West Virginia – 3:31 P.M.

O caminhão de mudanças parado em frente a casa. Os carregadores levam caixas e móveis para dentro. Barbara, de saia longa, blusinha decotada e saltos altos pega uma caixa da calçada.

Do outro lado da rua, Nancy observa com o binóculo pela janela. George aproxima-se da janela. Os dois conversam. Scully estaciona o carro em seu pátio. Desce, vestida de calças, blusa e blazer. Barbara acena pra Scully. Scully acena sem vontade e entra em casa.

Mulder sai da casa de moletom e tênis. Atravessa a rua. Ajuda Barbara com uma caixa.

BARBARA: - Mulder, não precisa. Vá fazer sua corrida.

MULDER: - Tudo bem. Então, Krycek falou alguma coisa?

BARBARA: - Nada. Fica dando aquele sorrisinho e mudando de assunto.

MULDER: - Eu vou conversar com Krycek, discretamente, ok? Eu já disse pra ele tomar um antidepressivo. Eu meio que o abandonei depois que a Scully voltou, mas agora eu tenho tempo pra continuar a terapia com ele. Uma boa conversa sempre ajuda.

BARBARA: - Não posso ler os pensamentos do Alex, Mulder, mas sinto que é confusão em cima de confusão dentro da mente dele. Parece perdido, ontem mandou eu achar outra pessoa porque ele não me merece... Acho que ele não consegue superar a culpa das coisas que fez.

MULDER: - Eu não quero jogar um peso nas suas costas, Barbara, mas você é quem mantém Krycek de pé. Se puder convencê-lo a tomar algum antidepressivo por um tempo...

BARBARA: - E tem outra coisa. O Fumacinha está ligando pra ele.

MULDER: - (INCRÉDULO) O quê?

BARBARA: - Vi no celular dele mais de cinco chamadas, mas Alex não atendeu nenhuma. Até que ligou de novo e Alex saiu pra atender... Eu não sei, Mulder, mas eles estão tentando levar Krycek de volta à vida que ele tinha! Ele me pediu pra colocar a linha dele no meu nome para que não o encontrem mais, mas eu tenho medo, eles falaram algo, algum serviço e... Meu nome no meio. Mulder, eu quero chorar! Eu nem sei o que pensar! Será que me ameaçaram? Estou segura com Alex? Mulder, eu posso confiar em alguém que diz que eu não sou nada, apenas uma diversão interessante e temporária? Uma vadia igual a tantas?

MULDER: - Barbara, se acalma, tá? Krycek disse isso pra você? Ele é agressivo com você, machuca você? Não me esconda, porque se ele quer bancar o machão que encare o meu punho fechado na cara dele.

BARBARA: - Não, Mulder, ele é um doce comigo! Mas eu não sei mais o que pensar... Ele não se abre, nunca diz o que está acontecendo e agora depois de ontem, eu não tô com medo por mim, estou com medo por ele! Droga, ser uma mulher apaixonada! Depois de todas as coisas que ele falou sobre mim ao telefone e eu ainda estou preocupada com ele!

MULDER: - Eu tento fazer o cara esquecer do passado e tocar a vida pra frente e aquele fumante desgraçado fica tentando feito o diabo na volta? O que será que ele quer de Krycek?

Krycek estaciona a picape. Desce. Mulder e Barbara encerram o assunto. Krycek troca um beijo com Barbara.

KRYCEK: - E aí, Mulder? Está conseguindo viver longe do FBI?

MULDER: - Do mesmo jeito que você longe do Sindicato das Sombras. Sem nenhum sintoma de recaída.

Nancy sai da janela. Barbara entra em casa. Krycek e Mulder conversam na rua.

KRYCEK: - Preciso falar com você. O Fumante me ligou. Conhece o discurso: eu preciso de alguém de confiança. Eu preciso de você para matar alguém. Vai ganhar em um dia o que levará pra ganhar em um ano na polícia.

MULDER: - E pode me dizer quem você tem que matar?

KRYCEK: - Ele não quis revelar. Só me diria pessoalmente se eu aceitasse a missão.

MULDER: - E a proposta mexeu com você?

KRYCEK: - (IRRITADO) É, mexeu tanto comigo que destruí o chip do meu celular! Sabe o que o filho da mãe propôs? Que se eu matar quem ele quer, Barbara ganha seu emprego de volta na televisão. Mulder, eu amo aquela mulher, ok? Eu sei o quanto ela está frustrada profissionalmente, mas eu não posso mais fazer essas coisas, nem por ela. E fazer isso é admitir pra eles que me importo com ela. E admitir que me importo com ela é colocá-la mais ainda em perigo. Eu não vou suportar perder a Barbara, eu já perdi a Marita. Você sabe que negociar com eles é negociar com o diabo, você vai ficar o resto da vida enredado na teia deles. Tudo tem um preço. E se ele acha que pode devolver o trabalho dela, é porque Rockfell está no meio. E onde Rockfell está...

MULDER: - Coin está. Quem será que eles querem eliminar?

KRYCEK: - Não sei, mas é alguém que nos importa ou ele teria dado o nome, entendeu? Manda o Skinner, os Três Patetas, todos ficarem espertos. Mulder, eu tô enlouquecendo, ok? A cada dia me soa mais interessante descobrir aonde eles estão se escondendo agora, entrar lá e acabar com todos eles pra ver ser assim nós teremos descanso e esse pesadelo termina! Eu quero esquecer a merda do meu passado, mas ele fica batendo na minha porta e me torturando!

MULDER: - Eu vou falar com ele.

KRYCEK: - Ah sim, como se isso fosse adiantar! Mulder, ou eu mato eles ou me mato. Porque eu não aguento mais, a minha mente está me deixando louco! Eu não penso em outra coisa, aquela raiva, aquele ódio dentro de mim e ao mesmo tempo uma apatia e vontade de acabar com isso tudo. Pedi transferência pra noite novamente. Eu não consigo dormir mesmo!

MULDER: - Eu tô com mais tempo livre. Precisamos continuar nossas conversas. Seu problema, Krycek é que precisa se perdoar. Quando conseguir se perdoar pelo que fez e pelo que nem foi sua culpa, aí sim a apatia, o ódio e a raiva vão embora.

KRYCEK: - E como eu faço isso?

MULDER: - (DEBOCHADO) Vai ter que voltar a sentar no meu divã, amorzinho. Pretendo um mestrado em psicologia e preciso de uma vítima.

KRYCEK: - Eu não sento em nada seu, "amorzinho". Pode ser amanhã? Vou ajudar a Barbara com a mudança.

MULDER: - É, eu sei. Furar parede pra pôr quadros, consertos domésticos... Se precisar de ferramentas, atravessa a rua e pega na garagem. Vou correr um pouco. Estou ficando velho e barrigudo, e fui chamado de carne de segunda!

KRYCEK: - Perdeu a chance de revidar elogiando a qualidade da linguiça.

MULDER: - Ah! Bom saber que está aprendendo a ter senso de humor! Rato, me escuta. Você precisa dividir mais com a Barbara. Ela é de fora do nosso mundo, não entende que ofensas são para afastar a verdade, que muitas vezes ficamos em silêncio remoendo coisas que nos magoaram e...

Um furgão se aproxima. Quatro homens de preto e com toucas ninja saltam do furgão agarrando Mulder e Krycek e os empurrando pra dentro do furgão a socos e pontapés.

Barbara sai da casa com a bolsa. Ao ver a cena, sai correndo em direção ao furgão, que parte em disparada levando Mulder e Krycek. Barbara leva as mãos à cabeça. Entra correndo na picape de Krycek.

Scully sai da casa, indo em direção ao carro. Barbara freia a picape.

BARBARA: - (DESESPERADA) Sobe aí! Sequestraram Alex e Mulder!

SCULLY: - (INCRÉDULA) O quê?

BARBARA: - (NERVOSA) Sobe depressa! Vamos perdê-los de vista!!!

Scully sobe na picape, Barbara acelera.



BLOCO 2:

3:47 P.M.

Barbara dirige a picape pela rua, tentando seguir a van no meio do trânsito congestionado, com o pescoço esticado na tentativa de ver a van entre os carros à frente. Scully no carona fazendo a mesma coisa tentando enxergar. Barbara fica apertando a buzina e pedindo passagem.

BARBARA: - (NERVOSA) Ai meu Deus, eu não consigo ver a placa! Me ajuda a não perdê-los de vista!!!

SCULLY: - Tem certeza disso? Quer me contar o que aconteceu?

BARBARA: - (NERVOSA) Eu já disse o que aconteceu! Droga, meus pés não alcançam os pedais! Essa porcaria enorme precisa de espaço pra ultrapassar e pede velocidade!Por que os homens tem mania de carros grandes e tunados?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Pra compensar o tamanho do pênis.

BARBARA: - Ah, não querida, aqui o caso não é esse, pode acreditar!

SCULLY: - Quer se acalmar? Quem sequestrou Mulder e Alex?

BARBARA: - Eu não sei! Eram quatro caras de preto com toucas ninjas! Agrediram os dois e os colocaram naquela van!!! Sai da frente, seu infeliz!!! Tira essa lata velha da minha frente!!!

Barbara buzina. Tenta passagem.

SCULLY: - Droga! Eu nem estou com a minha arma!

O trânsito vai se abrindo, Barbara acelera.

BARBARA: - Debaixo do banco de trás. Tem um puxador discreto que abre. Não posso tirar os olhos da van!

Scully puxa o painel debaixo do banco. Arregala os olhos. Um monte de armas, cartuchos e munições. Scully pega um rifle.

SCULLY: - (SORRI) Hum... Krycek tem uma bela e poderosa arma russa. Gostei.

BARBARA: - (IRRITADA) Quê? Você tá falando da pistola do meu russo com esse sorriso deslavado na cara? Gostou como, já provou?

SCULLY: - Estou falando desse rifle, querida. É um Kalashnikov, um AK-47, um fuzil de assalto. Isso aqui dá pra começar uma guerra e fazer alguns marmanjos borrarem as cuecas.

BARBARA: - Sabe usar isso?

SCULLY: - É claro que eu sei! Fui agente do FBI, querida! Seu namorado tem um arsenal de guerra ali atrás! Ele tem permissão pra isso?

BARBARA: - Ele nunca sabe o que pode acontecer, querida...

SCULLY: - Qual delas você quer?

BARBARA: - Eu? Nenhuma! Eu sou jornalista, não policial!!!

SCULLY: - Nem meu celular, nem minha bolsa... Precisamos ligar pra polícia. Tem seu celular aí?

BARBARA: - Na minha bolsa! (GRITA) Ai meu Deus!!!!!!!!!!

A velhinha vem atravessando a rua com um andador. Scully arregala os olhos, Barbara freia bruscamente. O carro para a centímetros da velhinha. Scully e Barbara se entreolham. A velhinha nem viu nada, segue andando. Barbara leva a mão ao peito.

BARBARA: -(ASSUSTADA) Meu Jesus, quase mato a velha!!!

SCULLY: - Quer que eu dirija?

BARBARA: - Por quê? Por acaso seus pés alcançam os pedais? Você é mais alta do que eu pra enxergar melhor por cima desse painel? Droga, droga, droga!!!

Scully suspira. Barbara mexe no banco, puxando mais pra frente. Então acelera. Scully pega a bolsa e procura o celular.

SCULLY: - Quanto você mede?

BARBARA: - 1,57. E você?

SCULLY: - 1,60. Isso responde a sua pergunta, querida.

BARBARA: - Três centímetros não fazem diferença alguma, querida.

SCULLY: - (IRÔNICA) Depende do que você está medindo, três centímetros fazem muita diferença, querida... Vou pedir ajuda ao Skinner... Ei, vai com calma o sinal está fecha...

Barbara atravessa a rua com o sinal fechado, apertando a buzina. Os carros freiam. Scully se segura assustada, encarando Barbara.

BARBARA: - (HISTÉRICA) Acha que foram aqueles homens do Sindicato? Ai, vão matar meu Ratoncito!!!

SCULLY: - (IRRITADA) Quer se acalmar? Tenta não matar a gente ou algum pedestre, porque assim não vamos salvar os dois!

Barbara desvia de um carro, quase atropelando um pedestre.

SCULLY: - Aonde você tirou a carteira? Ahn? Por correspondência?

BARBARA: - Eu tô nervosa! Se perdermos eles de vista acabou, entendeu? Eu não quero ficar viúva antes de me casar!!!

SCULLY: - Acha que Krycek vai casar com você? Ele não é homem de casamento!

BARBARA: - Eu pedi sua opinião? Não. Então fica quieta e liga pra polícia!!!

SCULLY: - Olha aqui, minha filha, eu não recebo ordens de ninguém e muito menos as suas, ok?

Scully procura na agenda do celular.

SCULLY: - Você tá me deixando nervosa, estou até procurando o Skinner na sua agenda como se o telefone fosse o meu! ... O que o número privado do meu marido faz aqui? Ahn?

BARBARA: - Que marido? Aquele que você não está preocupada porque se estivesse parava de torrar minha paciência e ligava logo pra polícia?

Scully faz um beiço. Aperta as teclas do celular.

BARBARA: - O nome do Alex também está no seu celular que eu sei. E nem por isso fico torrando sua paciência! Aliás, qual a sua com ele, hein? Ainda tá a fim de dar umas beliscadas no que é meu? Tenta, pra ver se não enfio meu salto dez na sua cara deslavada!

SCULLY: - Eu não acredito que estou sentada nesse carro ouvindo baboseiras de uma perua histérica! Você é quem se joga pro Mulder, fica fazendo charminho e falando manso. E pelo jeito deve ligar muito pra ele!

BARBARA: - Você tá doida, é? Mulder é meu amigo, é um irmão pra mim!

SCULLY: - Sei, irmão... Olha aqui, não fala comigo! Eu conheço bem o seu tipo!

BARBARA: - (OFENDIDA) Que tipo? Fala logo, você acha que sou uma vadia? É isso? Meu jeito de rir e me vestir incomoda você? Eu não sou uma vadia não! Você tá muito enganada, querida. Não vou mentir pra você que já dormi com um homem casado e rico pra subir na vida, mas é um erro que eu não vou cometer novamente. E aquele traste lá tinha mais amantes além de mim e vivia um casamento de aparências, porque a mulher dele também tinha outros e ele sabia disso!

SCULLY: - É, me tranquiliza saber que dormiu com um cara casado pra subir na vida, porque Mulder não tem dinheiro pra ajudar você a subir nem as escadas!

BARBARA: - Não foi por dinheiro! Eu não sou prostituta, tá legal? Mas suas acusações me fazem pensar que o bom julgador julga por si próprio!

SCULLY: - (IRRITADA) Ah sim, eu admito também, eu já me envolvi com caras casados sim! Mas eu esperava amor e não ajuda pra subir na vida!

BARBARA: -Amor? Então você foi mais burra do que eu! Deu sua periquita de graça!

Scully olha incrédula pra ela. A van toma a rodovia. Barbara segue atrás.

SCULLY: - (IRRITADA) Vamos ser sinceras, ok? Eu detesto você, você me detesta, então cala essa boca e dirige porque eu não estou pra brincadeira! E pra quem eu dei a minha "periquita" é problema só meu!

Scully abre o vidro e aponta o rifle, atirando nos pneus da van. A van acelera, ultrapassando um caminhão.

SCULLY: - (GRITA) Vai! Vai, não deixa eles sumirem!!! Acelera!!!!!!!!!

Barbara acelera, tenta ultrapassar o caminhão. O caminhoneiro ao ver que é uma mulher, atrapalha o caminho dando risada. Barbara esmurra o volante.

BARBARA: - Esse idiota não me deixa ultrapassar!

SCULLY: - Malditos porcos chauvinistas!!!

Scully aperta a buzina. O caminhoneiro, de pirraça, continua atrapalhando. Barbara irritada acelera buzinando e tomando a lateral, quase batendo no caminhão. O caminhoneiro desvia. Elas passam por ele. Ele grita pela janela.

CAMINHONEIRO: - (GRITA) Tinha que ser mulher mesmo! Estão com pressa pra ir ao shopping?

BARBARA: - (GRITA/ ESMURRA O VOLANTE) Idiota imbecil!!! Não tem mãe, é? Hijo de una gran puta!!!

Scully completamente irritada mete o braço pra fora da janela fazendo um sinal obsceno com o dedo médio. O caminhoneiro olha incrédulo pra ela. Scully coloca o cano do rifle pra fora da janela. O caminhoneiro, apavorado, cede lugar.

SCULLY: - (FURIOSA) Ultrapassa esse desgraçado machista antes que eu atire sem parar nas bolas dele!!!

Corte.

Barbara continua dirigindo, diminui a velocidade ao ver a bifurcação.

BARBARA: - Aquele caminhoneiro troglodita nos fez perdê-los! E agora? Sigo a rodovia ou vou pra estrada secundária?

SCULLY: - (PENSATIVA) ...

BARBARA: - Decide logo criatura!

SCULLY: - Vai pela secundária.

Barbara sai da rodovia. Pega a estrada secundária.

BARBARA: - Que nojo eu tenho de machão imbecil! Sabia que os homens causam mais acidentes do que as mulheres no trânsito?

SCULLY: - Com certeza! Aquele idiota bem queria causar um! Eu detesto esses tipinhos!!!

BARBARA: - Se foram por aqui estão bem à nossa frente. Por que optou por aqui? Intuição?

SCULLY: - Pensei que como estão sequestrando duas pessoas, não gostariam de ficar na rodovia. Polícia, entende?

BARBARA: - Você pensou rápido.

Florestas começam a surgir.

SCULLY: - Lugar remoto... Espero que meu palpite esteja certo ou perdemos nossos homens de vista.

BARBARA: - Olha, nem brinca com isso! Já estão em extinção e vamos perder os últimos biscoitos do pacote? Aonde vou arrumar outro russo gostoso e malvadão? Tá cheio de malvadão por aí, alguns russos, mas gostoso é difícil!

SCULLY: - E aonde eu vou arrumar outro filé de primeira suculento que faz todas as minhas vontades?

As duas riem.


5:21 P.M.

Barbara estaciona a picape na beira da estrada deserta, cercada de florestas. Scully põe as mãos no rosto.

BARBARA: - (IRRITADA) Ótimo! Eu só queria saber o que Alex fez a manhã toda que não teve tempo pra abastecer essa porcaria!

SCULLY: - Provavelmente o mesmo que o Mulder. Fica lavando, polindo, beijando e adorando e não lembra que tem que colocar combustível! Tratam os carros melhores do que a gente.

BARBARA: - Não. Tratam como a gente. Querem lavar, polir, beijar e adorar, mas não lembram que tem que colocar combustível. E agora?

Scully desce. Olha pra estrada. Coloca as mãos na cintura. Barbara desce, chuta o pneu da picape.

BARBARA: - Por que não encheu o tanque dessa coisa enorme? Cansado não tava, porque ontem nem quis nada! E olha que eu queria que ele quisesse só pra dizer que estava com dor de cabeça! Ele bem merecia depois do que falou no telefone.

SCULLY: - Não é da minha conta, mas o que ele falou pra você?

BARBARA: - Não foi pra mim, foi pra alguém no celular. Que sou uma vadia como tantas por aí. Apenas uma diversão interessante e temporária.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Quê? Mas se fosse comigo... O Mulder perdia todos os dentes e ia fazer justiça com as próprias mãos no banheiro pro resto da vida!!! Isso se ele ainda tivesse um pênis quando acordasse!

Barbara pega o celular e fica apontando pra todas as direções, tentando encontrar sinal.

BARBARA: - Concordo que merecia uns tabefes, mas a minha reação foi chorar, porque jamais esperei isso dele, doeu sabe? Eu faço tudo por ele, sempre pronta, ali, pra agradá-lo. Ouvir uma coisa dessas magoa qualquer mulher.

SCULLY: - E a quantidade de tabefes é proporcional pra quem ele disse isso. Outra mulher?

BARBARA: - Não, seu sogro, aquela chaminé de locomotiva.

Scully olha pra ela e segura o riso.

SCULLY: - Deixa pra lá e esqueça. Perdoe o Alex.

BARBARA: - Você perdoaria o Mulder se chamasse você de vadia como as outras e apenas uma diversão interessante e temporária?

SCULLY: - Já perdoei e falou coisas piores do que isso sobre mim para o Fumacinha, na época em que descobriram que estávamos juntos como homem e mulher. Se quando nem estávamos juntos aqueles homens me ferravam para atingir o Mulder, imagina depois que passei a dividir a cama com ele. Acredite, Alex não pensa isso de você. Está apenas tentando fazer eles acharem que você não é importante pra ele, como forma de protegê-la desses caras.

BARBARA: - Sério? E-eu não tinha pensado nisso.

SCULLY: - Então pense. Bem vinda ao clube das mulheres ameaçadas porque se envolveram com homens importantes num jogo de conspiração. Alex ainda vai dizer mais mentiras para afastar a atenção de você, ele sabe que podem usar você para atingi-lo.

BARBARA: - Strughold já fez.

SCULLY: - Por isso mesmo ele está com mais medo ainda de que vão tentar de novo, se acharem que ele realmente se importa com você.

BARBARA: - Tadinho do meu Ratoncito! Julguei ele erroneamente. Pensei até em nem aparecer mais e deixar ele na secura... Oh dó!

Scully começa a rir.

BARBARA: - O que vamos fazer? Nem sabemos se estamos no caminho certo.

SCULLY: - E nem sabemos se tem um posto por aqui. Poderíamos ir à pé.

BARBARA: - Não tem sinal de celular nesse lugar. Que merda!

SCULLY: - Não quero estar nessa estrada deserta quando anoitecer.

Scully tira os sapatos.

SCULLY: - Vamos caminhar.

BARBARA: - Ah, não! Eu não acredito! Estou de saltos!

SCULLY: - (ERGUE OS SAPATOS) Eu também estava. Vamos!

BARBARA: - Mas eu vou estragar as meias! E vou cozinhar a sola dos meus pés nesse asfalto!

SCULLY: - (IMPACIENTE) Ou estraga as meias, querida, ou fica aqui esperando algum maluco aparecer no meio da noite pra atacar você. Boa sorte!

BARBARA: - Você é policial, não pode me deixar aqui sozinha!

SCULLY: - Eu posso sim, não sou mais do FBI.

Barbara se recosta na picape. Suspira. Scully coloca o rifle no ombro e abre a porta traseira, procurando outra arma.

BARBARA: - Droga! Deixei a casa aberta, os caras da mudança sozinhos... Espero que não quebrem nada. E eu pensando que iria começar a curtir minha casa nova... Ajeitar aquele espaço enorme pra minha coleção de romances... Meu escritório sonhado, com tudo ao meu alcance, minhas câmeras, meu notebook...

SCULLY: - Krycek não tem uma pistola, um revólver? Ah, achei uma Luger 9 mm! E munição... Nossa, mas tem um arsenal de guerra escondido debaixo desse banco! Isso é uma bazuca? Krycek pensa que é o Jason Statham?

BARBARA: - Tem granadas também. Ele nunca sabe quem do Sindicato vai tentar matá-lo de novo. Melhor andar prevenido.

Scully carrega a arma e guarda um pacote de munição no bolso. Mantém a espingarda no ombro.

[Som: Dolly Parton - 9 to 5]

A picape velha vem se aproximando pela estrada. O som alto. O caipira barbudo, de chapéu de cowboy, sujo, suado e bebendo cerveja batucando no volante. Carrega gaiolas com galinhas na traseira da picape.

Barbara leva a mão à testa olhando para a estrada.

BARBARA: -(SORRI) Scully, esconda as armas!!!

Barbara rasga a lateral da saia. Abre mais a blusa, ajeita os seios pra cima, deixando bem à mostra. Scully olha pra ela boquiaberta. Barbara vai para a beira da estrada, joga o cabelo todo para um lado, estende a perna nua e faz beicinho de charme.

SCULLY: - (INDIGNADA) Eu não acredito que você esteja fazendo uma coisa dessas! Isso é desmoralizante para qualquer mulher!!! Isso, isso é...

BARBARA: - Use as armas que tem, querida. Isso não é desmoralizante, isso é sedução. E funciona com os homens desde que o mundo é mundo. Aposto que meus peitos funcionam melhor que sua arma!

SCULLY: - Ugh! Você é o pior tipo de mulher, sabia? Aquelas que colocam a perder toda a luta das outras por direitos iguais! Isso é se rebaixar para os homens!!!

BARBARA: - Eu também luto por direitos iguais! Mas não luto pra ser igual aos homens! Olha pra você, parece um homem! Só anda de terninho! Depois reclama que seu marido fica olhando pras pernas das outras! Você esconde sua feminilidade debaixo dessas roupas! Acorda garota, você não está mais no FBI! Pode ser sensual que não vai ser presa por causa disso!

Scully cerra o cenho, abrindo a boca, mas se cala. O caipira passa, olhando pra Barbara, chega a virar a cabeça. Para a picape. Dá marcha ré. Para ao lado dela.

CAIPIRA: - E aí, gracinha? Você e sua amiga estão com problemas?

Barbara se inclina apoiando-se na janela da picape. O Caipira olha para os peitos dela, nem presta atenção em Scully que se aproxima pelo lado do motorista.

BARBARA: - (CHARME) Ficamos sem gasolina, bonitão. Pode nos dar carona até o posto mais próximo, hum?

CAIPIRA: - (TARADO) Claro, belezinha. Mas... O que eu ganho em troca? Hum?

Scully aponta o rifle na cabeça dele.

SCULLY: - Ganha um tiro. Desce agora desse carro!!!

O Caipira ergue as mãos. Scully abre a porta e puxa ele pra fora.

CAIPIRA: - Calma, gatinha, calma!!! Quer dinheiro?

SCULLY: - (IRRITADA) Quero o seu carro! E não me chame de gatinha! Eu tô virada numa onça selvagem!!!

CAIPIRA: -Ok, "onça selvagem", mas você não pode levar as minhas galinhas!!!

BARBARA: - Moço, desculpe, mas é uma emergência! Qual seu nome?

CAIPIRA: - O quê?

BARBARA: - Seu nome! Vamos deixar seu carro com um bilhete na estrada, tá bom?

CAIPIRA: - Vocês são malucas? Fugiram do hospital psiquiátrico?

Scully mantém a mira do rifle nele.

SCULLY: - Eu devolvo suas galinhas e sua caminhonete velha, agora cala essa boca e se afasta! Pro outro lado da estrada, anda!!!

Ele recua com as mãos pra cima. Scully e Barbara entram na picape. O Caipira, de mãos erguidas, fica sem reação, parado na estrada. Scully acelera. Barbara olha pra trás.

BARBARA: - Tadinho. Achou que ia se dar bem.

SCULLY: - Ele achou que estupraria nós duas no meio do caminho.

BARBARA: - Depois ainda falam da inveja do pênis. Mas que mulher vai trocar o cérebro por um pênis?

SCULLY: - O que eu faria com um pênis? Acho mais útil e vantajoso ter um cérebro.

BARBARA: - Concordo, serve pra muito mais coisas.

SCULLY: - Fica olhando pelo caminho, talvez eles tenham estacionado a van em algum lugar.

BARBARA: - Só vejo árvores... Deve ter alguma fazenda, algum silo, algum lugar abandonado.

SCULLY: - Acho que tomei a decisão errada. Eles devem ter ido pela rodovia.

BARBARA: - Não, ainda acho que você está certa. Vamos encontrá-los, tenha fé. Você é católica, não?

SCULLY: - Sou.

BARBARA: - Eu também.

SCULLY: - Você é mexicana?

BARBARA: - Não, eu sou cubana.

SCULLY: - Eu assistia o seu noticiário todas as noites. Porque tinha um âncora feminino com opinião decente naquela bancada entre homens imbecis que só diziam asneiras.

BARBARA: - Isso é um elogio?

SCULLY: - Não. Um comentário.


6:11 P.M.

Scully dirigindo. Barbara ouvindo música e dançando no banco.

[Som: Ruby Dee and the Snakehandlers - Who You Think I Am]

BARBARA: - Gosta da Ruby Dee?

SCULLY: - Aquela atriz?

BARBARA: - Não! Essa que tá cantando. Adoro o jeito dela se vestir. Assisti um show em Austin, no Texas. Ela é demais! Rainha do rockabilly! E ela encara mesmo, canta, compõe e bota até os caras grandes pra calarem a boca... Sabe que ela é baixinha também? É das nossas.

SCULLY: - Gostei da voz dela. E da música.

BARBARA: - Se tivermos oportunidade vamos para o Texas assistir um show da Ruby Dee em um bar em Austin, que tal? Você vai adorar. Precisa sair um pouco, dançar, beber, curtir... Distrair a cabeça da vida.

SCULLY: - É, vou ter que concordar com você. Preciso viajar e me divertir. Não sei há quanto tempo não faço essas coisas de beber e dançar. Acho que ser agente do FBI me deixou séria demais, afinal de contas, era só trabalho, trazia até trabalho pra casa. Preciso ser mais light, como diz a Ellen.

BARBARA: - O Texas é ótimo pra isso. Parece um mundo à parte dessa loucura de Washington. A gente podia levar a Ellen. Ela é divertida. Só nós três, que tal? Sem meninos pra tirar nossa atenção.

SCULLY: - Três loucas sozinhas no Texas? Hum... Isso promete.

Scully passa pelo velho posto de gasolina. Vê a van estacionada.

BARBARA: - (FELIZ) São eles!!!

Scully estaciona mais ao longe. Pega a pistola e coloca na cintura. Pega o rifle.

SCULLY: - Você fica aqui.

BARBARA: - Não mesmo!

SCULLY: - Você vai me atrapalhar! Pode me colocar em risco, portanto fique aqui.

BARBARA: - Eu não vou ficar aqui! Não entende, estou com o coração na mão e...

Scully entrega a pistola pra ela.

SCULLY: - É só mirar e apertar o gatilho.

BARBARA: - Mas eu miro aonde?

SCULLY: - Aonde quiser. E só atire se eu disser pra atirar! Me segue, sem fazer barulho.

Scully corre abaixada até a porta traseira da van. Barbara faz o mesmo, dificultada pelos saltos altos que fazem barulho no chão de concreto, enquanto segura a arma. Scully acena negativamente com a cabeça, indignada.

SCULLY: - (SUSSURRA) Tira essa porcaria dos pés! Você vai atrair a atenção da Virgínia inteira com tanto barulho!

BARBARA: - (SUSSURRA) Tá.

Scully observa Barbara tirar os sapatos, numa fisionomia de impaciência.

SCULLY: - Abre a porta da van.

Scully se posiciona e mira o rifle na van. Barbara abre a porta da van. Está vazia. Scully abaixa o rifle. Olha para a loja do posto. Suja e decadente.

SCULLY: - (SUSSURRA) Me segue.

Scully corre agachada até a porta do posto. Recosta-se contra a parede. Barbara a imita. Scully leva a mão na maçaneta. Trancada. Scully se aproxima da janela e espia pra dentro.

SCULLY: - (SUSSURRA) Não vejo movimento. Vamos entrar por trás. E não fique na minha linha de tiro.

BARBARA: - (SUSSURRA) Tá bom, eu não sou tão burra! Fui repórter criminal, acompanhei a polícia em batidas e...

Scully corre pela lateral do posto, indo para trás do estabelecimento. Barbara vai atrás dela. Scully espia por outra janela. Faz sinal para Barbara se agachar.

SCULLY: - (SUSSURRA) Vejo apenas um homem, não vejo nem Mulder nem Krycek. Você vai abrir a porta e eu entro primeiro. Me dá cobertura.

Barbara afirma com a cabeça. Leva a mão na maçaneta.

BARBARA: - (SUSSURRA) Tá trancada.

SCULLY: - (SUSSURRA) Que droga! Sai, sai daí!

Barbara se afasta. Scully toma impulso e mete o pé na porta. Começa a pular num pé só, segurando um grito de dor. Barbara suspira. Leva a mão no corte lateral da saia rasgada e coloca a arma na calcinha. Ajeita o cabelo para o lado, os peitos pra cima, a blusa e bate na porta. Scully arregala os olhos e esconde o rifle nas costas.

O sujeito alto, mal encarado, barba mal feita, sem camisa e cheio de tatuagens abre a porta. Encara Barbara.

BARBARA: - (ABRE UM SORRISO) Oi, moço. Meu carro quebrou. Eu e minha amiga precisamos de ajuda.

O sujeito fala com sotaque russo.

SEQUESTRADOR #4: - Não temos mecânico aqui. O posto está fechado.

BARBARA: - (IMPLORANDO) Por favor, moço! Está anoitecendo, estamos assustadas e perdidas nesse lugar. Vim visitar minha velha tia, mas acho que errei o caminho. Pode ao menos emprestar o telefone pra pedir um guincho? Até a bateria do celular acabou.

SEQUESTRADOR #4: - Cai fora, vadia!

Scully mira o rifle nele. O sujeito fica surpreso e ergue os braços.

SCULLY: - Sua mãe não ensinou boas maneiras pra você, imbecil? Não sabe como tratar uma mulher com respeito? Coloca as mãos atrás da cabeça e sai! Vem pra fora agora ou estouro seus miolos!

Ele sai com as mãos atrás da cabeça, contrariado. Scully o revista.

SCULLY: - Quantos estão aí dentro com você?

SEQUESTRADOR #4: - Estou sozinho.

SCULLY: - Vou verificar. Barbara, mantém esse idiota na mira e atira nas bolas se ele se mexer.

Barbara tira a arma da calcinha e mira nas bolas do sujeito. Scully entra, mantendo a atenção, passos curtos e mirando o rifle.

SEQUESTRADOR #4: - Vocês não sabem com quem estão se metendo, suas vadias loucas! Nós vamos ferrar vocês!!!

BARBARA: - Cadê o Alex? O que fizeram com ele?

SEQUESTRADOR #4: - (RINDO) Alex Krycek? Provavelmente morto, como todo traidor.

BARBARA: - (IRRITADA) Se tocarem num fio de cabelo do meu Ratoncito, eu juro que faço omelete com seus ovos! Eu sou louca, sabia? Acabo de fugir do sanatório! E você não me viu irritada ainda!

Scully sai.

SCULLY: - Tudo limpo.

Scully mira o rifle no sujeito.

SCULLY: - (IRRITADA) Entra aí. Agora!!! Eu sou agente federal e não estou brincando! Em minutos o FBI vai estar aqui!!!

SEQUESTRADOR #4: - É? E onde está o seu distintivo?

SCULLY: - No carro. Entra ou morre.

O sujeito entra. Scully mantém ele na mira. Barbara entra atrás dela observando a enorme tatuagem da Virgem Maria nas costas do sujeito. Scully o empurra.

SCULLY: - Senta aí! Barbara acha alguma coisa e amarre ele bem forte.

Barbara corre, resvalando pelo piso por causa das meias de náilon, segurando-se pela mobília.

SEQUESTRADOR #4: - Vocês assinaram suas sentenças de morte, cadelas. Meus amigos vão chegar logo e se divertirem com vocês.

SCULLY: - Cala a boca!!! Eu e minha parceira é que vamos nos divertir com você! Pra onde levaram Mulder e Krycek?

SEQUESTRADOR #4: - (ENCARANDO SCULLY COM DEBOCHE) ...

SCULLY: - (AOS GRITOS/ FURIOSA) Eu fiz uma pergunta!!!

SEQUESTRADOR #4: - ... Pode me torturar que eu não direi. Duas anãs me ameaçando... É o fim do mundo mesmo!

SCULLY: - Pra quem você trabalha?

SEQUESTRADOR #4: - (ENCARANDO SCULLY COM DEBOCHE) ...

Barbara volta com cordas e começa a amarrar o sujeito, atenta nas tatuagens dele.

SEQUESTRADOR #4: - O que tá olhando, piranha? Gosta de homens tatuados? Me desamarra que eu vou dar um trato gostoso nas duas.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Cala a sua boca, porque eu é quem estou doida pra dar um trato com esse rifle no seu traseiro!

BARBARA: - Gostei da nota de dólar tatuada, mas gostei mais ainda desse punhal atravessado no pescoço com caveiras penduradas.

SEQUESTRADOR #4: - Se soubesse o que significa não iria gostar.

SCULLY: - Amarre bem forte. Ok, você não quer falar, então vamos esperar o FBI chegar e você vai abrir a boca rapidinho.

O sujeito começa a rir. Barbara se afasta nervosa, olhando pra Scully como quem precisa dizer algo, mas não sabe como.

SEQUESTRADOR #4: - Se o FBI soubesse disso vocês não estariam sozinhas aqui.

SCULLY: - Ah, temos um espertinho. Fala logo ou estouro seus miolos!!!

SEQUESTRADOR #4: - Você não vai fazer isso. Age realmente como tira, acho que é a esposa do tal Mulder do FBI, então se é realmente policial, não vai fazer. Eu tenho direito a ser preso, interrogado na presença de um advogado...

Barbara anda pela loja do posto. Revira os cabelos. Faz cara de maluca.

SCULLY: - Aonde estão Mulder e Krycek? Quem são vocês?

SEQUESTRADOR #4: - (ENCARANDO SCULLY COM DEBOCHE) ...

Barbara pega uma bombona de combustível. Aproxima-se do sujeito. Scully olha pra ela.

SCULLY: - O que você vai...

BARBARA: - (IRRITADA/ AOS GRITOS) Não me impeça amiga! Você é uma agente do FBI, mas não esqueça que mesmo afastada por insanidade mental eu fui uma agente da CIA! E eu vou torturar esse russo desgraçado, porque estou com saudades disso!

Scully olha incrédula pra Barbara. Barbara abre a bolsa. Tira o pó compacto e observa.

BARBARA: - Não... Isso é um laser disfarçado. Aquele mesmo que usei para circuncidar sem anestesia aquele filho da mãe terrorista... Precisava ver, o pênis dele ficou um estrago só, acho que nunca mais levantou, vai passar a vida toda fazendo xixi sentado ou espirrando urina pra todo o lado.

Scully segura o riso.O sujeito arregala os olhos, assustado.

BARBARA: - Temos o batom com veneno... Ah podia, ele é bonitinho, tem uma boca bonita... Quer um beijinho, Arnold Schwarzenegger? Ah não! Isso, isso sim é legal!

Barbara puxa um absorvente interno da bolsa, segurando pela cordinha.

BARBARA: - Isso é uma granada disfarçada de absorvente, com alto poderio de explosão. É só enfiar no rabo dele e puxar a cordinha...

SEQUESTRADOR #4: - (ASSUSTADO) Tire essa louca de perto de mim!!!

SCULLY: - Amiga, se controle, acho que não tem necessidade de usar os brinquedinhos da CIA agora, o bonitão aqui vai falar.

BARBARA: - Não vai não, eu conheço essa gente! Esse filho da puta pegou meu namorado e eu vou fazer churrasco desse desgraçado! Como eu fiz com o meu ex-marido, aquele cretino, quando dormiu com minha melhor amiga!!! Eu botei fogo nele, mas antes enfiei uma maçã na boca e um espeto no rabo daquele porco traidor!

O sujeito arregala os olhos, em pânico. Scully segura o riso. Barbara começa a jogar combustível no sujeito.

BARBARA: - Ai, miga... Eu tenho problemas sérios quando não tomo minha medicação para psicose. Eu sabia que tinha esquecido minha necessaire, eu disse pra gente voltar! Agora vamos ter que arrumar uma farmácia ou você vai ter complicações pra explicar ao FBI o rastro de corpos que eu vou deixar por essa estrada...

SEQUESTRADOR #4: - (ASSUSTADO/ AOS GRITOS) Para com isso sua vadia louca!

BARBARA: -Eu sou louca sim. E vadia é a sua mãe!

Barbara acende um fósforo. Scully arregala os olhos.

BARBARA: - Amiga, você prefere homem ao ponto, mal passado ou bem passado? Eu gosto torradinho e crocante.

SEQUESTRADOR #4: - (ASSUSTADO/ OLHANDO PRA SCULLY) Eu falo, tá bom!!!!!! Mas tira a louca da sua amiga de perto de mim!!!

SCULLY: - Barbara, antes de fazer churrasco, quem sabe você arruma um refrigerante pra nós? Ahn? Estou com sede.

BARBARA: - Ah! Logo agora? Deixa eu colocar fogo nele primeiro! Deixa, vai!!!

SEQUESTRADOR #4: - (OLHOS ARREGALADOS) Não!!! Por favor não!!!

SCULLY: - Amiga, por favor. Deve ter refrigerante nesse lugar. E umas batatinhas. O moço aqui vai falar aonde está o Krycek, tá? Ele vai ser gentil, se ele não for, eu deixo você fazer churrasco mesmo não sendo final de semana, tá certo? E deixo você colocar a granada na bunda dele.

Barbara faz beiço e sai para a frente da loja. Fica espiando.

SCULLY: - Desembucha o que sabe porque se ela não souber do namorado, ela vai acabar com você. E acredite, tiveram que fazer DNA das cinzas do ex-marido dela para comprovar a identidade. E você não vai querer saber o estrago que aquela granada faz!

SEQUESTRADOR #4: - Eu sou o motorista, tá certo? Meu lance é dirigir. Eu não sei pra onde eles levaram os caras.

SCULLY: - Quantos sequestradores?

SEQUESTRADOR #4: - São três, quatro comigo. Mas não importa porque tem muito mais gente envolvida. Vá embora, aqueles dois policiais foram marcados pra morrer. E vocês estão enrascadas. Eu não vou dizer nada a eles, prometo, porque se eles pegarem vocês vão matá-las, entendeu?

SCULLY: - Pra onde levaram Mulder e Krycek?

SEQUESTRADOR #4: - Eu não sei! Quem sabe é o Igor!

SCULLY: - E quem é Igor?

SEQUESTRADOR #4: - Ele é o chefe da operação. Ele é quem sabe pra onde levaram os caras.

SCULLY: - Então você vai ligar pra esse tal Igor e fazer perguntas.

SEQUESTRADOR #4: - Ele vai me matar, ele não responde perguntas! Faça você perguntas pra ele. O Igor está na boate dele há uns dois quilômetros daqui. Fica na estrada. Agora me solta e me deixa ir. Eu já falei tudo o que sei!

SCULLY: - Pra quem vocês trabalham? Para o governo?

SEQUESTRADOR #4: - (RINDO) Governo? Da onde tirou isso? Que eu saiba o imposto de renda não sequestra ninguém!

Scully fica confusa. Barbara morde os lábios, nervosa.

SCULLY: - Vão pedir resgate pelos dois?

SEQUESTRADOR #4: - (RINDO) Resgate? Olha, FBI, eu acho que você não sabe mesmo com quem está lidando. Vocês duas se ferraram. Eles vão matar aqueles dois, só estão esperando o chefão da Bratva chegar de Nova Iorque com Sharapov amanhã à tarde.

Barbara fecha os olhos e amolece o corpo.

BARBARA: - (MURMURA) Bem que eu desconfiei...

Barbara puxa Scully pelo braço.

BARBARA: - (COCHICHA) Temos que encontrar bem rápido esse tal Igor porque a coisa realmente é séria. Aquela Virgem Maria nas costas desse cara diz que ele é homicida, a nota de dólar diz que simpatiza com as máfias americanas e aquele punhal indica que já matou gente na prisão e está disponível pra fazer de novo!

SCULLY: - O que você sabe que eu não sei? Do que ele está falando?

SEQUESTRADOR #4: - Estou falando da máfia russa. A mãe de todas as máfias. Vocês estão ferradas, e com sorte eles matarão vocês duas. E já podem se considerarem viúvas. Aqueles caras já eram!


6:49 P.M.

Scully anda apressada e furiosa. Barbara corre atrás de Scully pelo pátio do posto. Pega seus sapatos perto da van. Scully vira-se pra ela.

SCULLY: - (IRRITADA/ AOS GRITOS) Pode desembuchar Barbara Wallace! Agora! Até entendo que a máfia russa esteja atrás do Krycek, mas do Mulder? O que Mulder tem a ver com eles? E como sabe tanto da máfia russa?

BARBARA: - (COLOCANDO OS SAPATOS) Eu sei porque fiz uma matéria sobre as tatuagens que eles usam pra se comunicar. Vamos, eu explico no meio do caminho.

SCULLY: - Não vamos chegar a lugar nenhum com essa porcaria de picape velha! Vamos raciocinar, ainda temos tempo.

BARBARA: - Podemos pegar a van deles.

SCULLY: - E atrair a atenção? Não mesmo! Vamos pegar combustível. Eu fico aqui vigiando aquele cara e você volta pra picape do Krycek, coloca o combustível e traz ela pra cá. Vou precisar de mais munição.

BARBARA: - Certo. Vamos fazer isso.

SCULLY: - E depois você vai me explicar direitinho o que aqueles dois aprontaram juntos, porque... (FURIOSA) Basta sair de perto do Mulder que ele já arruma encrenca! Sabe lá o que aprontou enquanto estive longe!

BARBARA: - Fica calma, tá. Respira, solta os ombros...

SCULLY: - (AOS GRITOS) Eu tô calma! Eu estou calmíssima! Nunca estive tão calma na minha vida!

BARBARA: - (MEDO) Vou buscar as bambonas lá atrás...

Barbara se afasta rapidamente. Scully pisoteia o chão com raiva.

SCULLY: - Fox Mulder eu vou matar você!!! Reza pra morrer antes, porque eu vou esfolar sua pele de raposa e usar no meu pescoço!!!


7:36 P.M.

Barbara estaciona a picape na frente do posto. Scully entra com o rifle. Coloca no banco de trás. Barbara segue a estrada.

SCULLY: - Por que demorou tanto?

BARBARA: - Eu tive que soltar as galinhas. Não ia deixar as pobrezinhas presas naquelas gaiolas com fome e sede!

SCULLY: - (IRRITADA) Temos que encontrar o tal clube e o tal Igor. Agora, pode começar a falar o que sabe. Conta os segredinhos do meu marido que ele nunca contou pra mim!

BARBARA: - Hei! Olha a acusação, tá legal? Se ele não contou é porque não podia contar.

SCULLY: - Olha aqui, sua perua louca, você diz que eu vejo chifre em cabeça de cavalo, mas você está envolvida com Mulder sim porque sabe coisas dele que eu não sei! E como saberia? Ahn? Seja mulher e admita na minha cara!

BARBARA: - Eu sei porque ele é amigo do Alex!

Barbara suspira. Scully faz beiço.

BARBARA: - Ok, já que você quer saber a verdade, eu vou contar a verdade. Eu já beijei seu marido em agradecimento, já abracei Mulder e já chorei no ombro dele e ele chorou no meu ombro enquanto Alex morria naquele hospital e você estava internada num sanatório. Seu marido não sabia se ficava com você ou comigo, e optou por ficar comigo porque me disse que você tinha amigos e família ao seu lado, porque Alex levou tiros pra salvar Mulder, estava morrendo e só tinha a mim e a ele.

SCULLY: - ...

BARBARA: - Mulder me trouxe um livro pra ler, comida e café porque eu não podia sair do hospital e deixar o Alex em coma, desistindo de viver. Então, sua ciumenta possessiva e insegura, antes de me acusar de dormir com seu marido, pergunte o que aconteceu enquanto você dormia na vida. Eu nunca desejei o Mulder, nunca transei com ele, nunca olhei pra ele como um homem e nem pretendo fazer, porque ele é um grande amigo e irmão do Alex e meu também. Agora já não posso dizer o mesmo de você.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Está sugerindo que tenho algum interesse em Alex Krycek? Você está completamente maluca!

Barbara freia. Para o carro no meio da estrada. Desce. Scully desce também. As duas discutem no meio da estrada, com direito a dedo na cara e gritaria.

BARBARA: -(AOS GRITOS) Estou? Bem, tirando o fato que você insinuou que Alex era gay, seu amante e amante do Mulder, só pra me afastar dele e me encheu de ameaças!!!

SCULLY: - (AOS GRITOS) Ora, eu estava com aquela confusão na cabeça, eu não tive culpa alguma! Eu acreditava que tinha alguma coisa com Krycek! Me fizeram acreditar!!!

BARBARA: - (AOS GRITOS) Eu entendo! O que não entendo é porque ainda tem ciúmes de Alex comigo!

SCULLY: - (AOS GRITOS) Eu não tenho ciúmes!!! Eu não gosto de você, isso é diferente!!!

Barbara coloca as mãos na cintura e encara Scully.

BARBARA: - (AOS GRITOS) Admita, seja mulher! Você não gosta de mim porque eu entrei no jogo! Você tinha atenção de dois e agora só tem do seu marido. A brincadeira foi divertida, mas acabou! Entendeu? O gostosão da jaqueta de couro é meu!!! E se eu tiver que descer do salto e dar umas porradas em você pra ficar longe do meu russo, pode apostar que eu vou fazer!!!

SCULLY: -(AOS GRITOS) Olha aqui, sua perua tresloucada e faladeira, você pode ficar com o seu rato e com todos os animais do mundo, menos a minha raposa!!! O que me faz não gostar de você é que se aproxima demais do Mulder! Tenta chegar perto do meu homem pra ver se eu não mato você e escondo o cadáver!!! Eu fui policial, não vou deixar vestígios!!!

BARBARA: - (AOS GRITOS) Você é surda ou retardada, sua ruiva imbecil? Eu não tenho nada com o Mulder!!! Ele nem faz o meu tipo!!!

SCULLY: -(AOS GRITOS) E eu não tenho nada com o Krycek, sua vaca idiota!!! Ele também não faz o meu tipo!!!

BARBARA: -(AOS GRITOS) Pra mim chega! Eu deveria ter vindo sozinha!

SCULLY: -(AOS GRITOS) É? E ia atirar neles com o quê? Seus peitos? Talvez com o batom, quem sabe atirava os sapatos neles?

BARBARA: - ... Sabe qual é o seu problema? Você é complexada, tá legal? Aposto que é frígida!

SCULLY: - Eu? Olha aqui, sua vadia maluca, você não sabe nada de mim e frígida é você!!!

BARBARA: - Eu, frígida? (RI) Querida posso ser tudo, mas isso eu não sou! (PROVOCANDO) Não sou uma sem graça na cama como você deve ser. Bom, seu marido adorou meu rebolado latino na cara dele!

SCULLY: - (RINDO ALTO/ DEBOCHADA) Sabe de nada, inocente! Aqui tem muita mulher nesses 1,60 de altura, tanto que arrumei dois pra dar conta do recado. Um deles foi o seu russo que adorou a minha Perestroica.

Barbara voa nela, as duas se agarram pelos cabelos.

SCULLY: - Fica calma, sua "piriguete"! Melhor se acalmar! Me solta!!!

BARBARA: - Você tá pedindo pra levar uns tapas, sua ruiva atrevida!!!! Me larga!!! Vai arrancar meus cabelos!!!

SCULLY: - Não mexa com minha raposa que eu não mexo com seu rato!!!!

As duas se afastam. De beiço, ao mesmo tempo, viram-se de costas uma pra outra, cruzando os braços.

SCULLY: - Eu sempre desconfiei, por isso detesto você. Quando você dormiu com o Mulder? Seja sincera, de mulher pra mulher. Vamos ser honestas e resolver tudo agora.

BARBARA: - Nunca dormi com seu marido, eu juro por tudo de mais sagrado. Não sei se ele ronca, se tem algum sinal de nascença no traseiro e muito menos se é quente na cama. E você? Quando dormiu com o Alex?

SCULLY: - Nunca dormi com seu namorado, juro pela minha filha. Também não sei se ronca, se tem sinal de nascença, se é quente ou não numa cama. Tudo o que tivemos foi um sonho em comum e...

BARBARA: - Ele me contou.

As duas se viram uma pra outra. Barbara se aproxima de Scully e tenta puxar as calças dela. Scully tenta se afastar.

SCULLY: - Tá maluca, é?

BARBARA: - Eu sabia! Você nem usa tanguinhas!

SCULLY: - (INCRÉDULA) ...

BARBARA: - Você é uma caretona, sabia?

SCULLY: - Olha aqui, sua rata fresca, desde quando pode julgar uma pessoa pela sua roupa íntima, ahn? Por que não volta pro esgoto de onde saiu e leva o seu rato junto? Vaza, minha filha! Vaza pra longe! Você e o seu Ratatouille!

BARBARA: - Não é Ratatouille é Ratoncito, sua burra! E vaza você da minha vida!

As duas cruzam os braços, emburram e ficam de costas uma pra outra.

SCULLY: - Você me deve desculpas.

BARBARA: - Não! Você é quem me deve desculpas!

SCULLY: - Não mesmo! E além de desculpas, você me deve uma explicação! No que Krycek meteu Mulder? Ahn? Vamos pegar a estrada e você vai desembuchar pelo caminho. Tinha que ser mulher daquele rato mesmo. Vocês dois se merecem!

BARBARA: - Para de ofender o meu namorado! Eu não ofendo o seu marido!

SCULLY: - Seu namorado tem um passado bem cabuloso, sabia?

BARBARA: - Sei mais do passado dele que você! E não me importa, tá legal? Eu não namoro com o passado dele, eu namoro com ele!

SCULLY: - Namora... Acha que ele quer algo sério com você? Você é apenas mais uma diversão na agenda dele, garota. Abra seus olhos!!!

BARBARA: - Dirige você. Igual por igual meus pés também não alcançam os pedais.

Scully entra na picape. Barbara entra também, cabisbaixa e calada.


8:11 P.M.

Scully dirige. Barbara olha a paisagem escura pela janela.

SCULLY: - Acho melhor contar o que sabe porque não gosto de surpresas. Não sei quem vou encontrar e o que esperar, então me dê respostas.

BARBARA: - ...

SCULLY: - ...

BARBARA: - Mulder ajudou Alex a prender esse tal Sharapov. Deram uma boa surra nele. Não sei como o desgraçado fugiu da prisão.

SCULLY: - Ok, e quem é esse cara?

BARBARA: - Um desgraçado cretino que devia estar na cadeia pagando por tudo o que fez pro Alex e pra centenas de garotas. Ele trabalha pra uma ramificação da máfia russa traficando jovens russas para se prostituirem aqui. Promete vida boa na América, traz elas para um sonho e as entrega pra prostituição forçada. Escravas sexuais.

Scully cerra o cenho, indignada.

BARBARA: - O negócio é lucrativo porque além do tráfico de mulheres, vendem drogas, armas e fazem todo o tipo de coisa que você imagina, incluindo lavagem de dinheiro.

SCULLY: - E por que Mulder se envolveu nisso?

BARBARA: - Pra ajudar Alex...

SCULLY: - O que você tá me escondendo? Por que Mulder se meteria nessa confusão toda pra ajudar Alex a pegar um traficante russo de garotas?

BARBARA: - ...

SCULLY: - Pelo amor de Deus, Barbara! Ou você me conta direitinho essa história ou eu posso acabar me ferrando com esses caras! Eu não sei o que esperar dessa gente! Não sei até que ponto odeiam Mulder e Krycek! Eu preciso me preparar pro que vamos enfrentar e não posso fazer isso sem saber o que vou enfrentar!

BARBARA: - ... Jura pra mim que nunca ninguém vai saber o que vou contar pra você. Só Mulder e eu sabemos. Por todos os santos, se Alex souber que contei segredos particulares dele, eu vou perder a confiança dele! E vou perdê-lo, entendeu? Porque o assunto é delicado demais e traumático pra ele. E eu não quero perder o Alex. É uma luta diária fazê-lo esquecer as coisas que passou e ajudá-lo a se tornar uma pessoa melhor, menos raivoso e violento. E seu marido tem boa parte nisso. Prefiro que Alex ande com Mulder, porque seu marido tem caráter e integridade e você sabe que a companhia influencia a pessoa. E Mulder está influenciando Alex positivamente. Então não afaste os dois. Eu peço isso pra você.

SCULLY: - Ok, eu entendi e não sou fofoqueira, nem quero afastar Mulder de Krycek. Eu também perdoei ele por todas as coisas que me fez. Entendo que todos fomos peões daquele Sindicato.

BARBARA: - Jura pra mim, Scully! Isso é muito sério!

SCULLY: - Eu juro, Barbara. Tem minha palavra.


8:34 P.M.

Scully dirige. Barbara observa a paisagem. As duas em silêncio. Scully morde os lábios.

SCULLY: - ... Me desculpe fazer você ter que contar algo tão íntimo do seu namorado. Não me dizia respeito mesmo. Eu... Eu lamento por tudo. Se algo assim acontecesse comigo, que sou mulher, eu... Eu não sei se teria forças pra superar... Imagino como deve ser difícil pra um homem superar esse tipo de violência. Infelizmente acontece mais do que pensamos, mas as estatísticas se concentram mais nas mulheres vitimadas.

BARBARA: - Mulder foi muito bacana em estar ao lado dele numa hora dessas. Podia ter dado uma desgraça maior. Sozinho Alex não tinha chance de pegar o cara e terminaria morto. Por isso Mulder se envolveu, entende?

SCULLY: - Agora faz sentido. Eles se meteram com uma facção da máfia russa, e é claro que se mandaram uma peça chave deles pra cadeia, os líderes querem vingança. Acabaram com uma das fontes de renda dos mafiosos, o tráfico e prostituição de garotas. Máfia é máfia. Eles sempre retaliam quem ferra com eles e não se importam se é policial ou não.

BARBARA: - Essa gente é muito perigosa e acho que Sharapov fugiu da cadeia.

SCULLY: - Deve ter pego perpétua pelos crimes. Provavelmente o FBI entrou nessa investigação porque envolve crimes federais. Estou bolando um plano pra pegar esse Igor e arrancar o que ele sabe. Quando soubermos aonde nossos homens estão, vamos até lá salvá-los antes que o líder e esse outro cretino apareçam. Porque eles vão matá-los. Agora eu tenho certeza disso e sei do perigo que estamos correndo.

BARBARA: - Eu vou ficar com uma arma, tá? Eu vou atirar se for preciso. E quando isso acabar, e espero que da forma que a gente quer, você pode me dar aulas de tiro? Acho que preciso aprender a fazer isso. Vou comprar uma arma. Cansei de ficar dependendo do Alex pra me defender daqueles homens do Sindicato. Você é policial, tem treinamento, não precisa do Mulder, pode se virar sozinha e proteger sua casa e sua filha. Eu não tenho como proteger meu homem e a mim mesma.

SCULLY: - Concordo. Eu ensino você e ensino também auto-defesa. Vamos juntas comprar uma arma pra você. Se vai realmente ficar no nosso time, vai precisar aprender a usar armas e se defender. Porque somos alvos. Nossos homens não são paranoicos não. Eles são precavidos. Eles sabem que o inimigo está espreitando sempre. E não é por sermos mulheres que também não vamos defender o nosso lar. Aliás, o que estamos fazendo aqui? Salvando eles. Entendeu? Você precisa mesmo aprender a atirar. Um tem que defender o outro.

BARBARA: - Em troca posso ensinar você a dançar o que quiser.

SCULLY: - Você dança?

BARBARA: - Alex e eu estamos fazendo aulas. A gente gosta de sair pra dançar e achou legal aprender a fazer direito.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Estamos falando do Alex Krycek? Fazendo aula de dança? Tá, é balé? Ele é russo, quer entrar no Bolshoi?

BARBARA: - (RINDO) Não, Scully sua louca!!! Nessa idade ele não entraria nem como palhaço no Circo de Moscou!!!

As duas riem.

BARBARA: - Se conhecesse mesmo a pessoa do Alex, não acharia estranho.

SCULLY: - Não acho estranho, só estou surpresa! Por anos eu só vi o lado ruim dele, imagina agora descobrir coisas boas dele que eu nunca sequer imaginaria! (SORRI) Quem diria, mais uma surpresa do Krycek! O tempo e suas revelações... Acho legal um casal fazer coisas juntos. Acho tão lindo ver casais dançando naqueles programas da televisão...



BLOCO 3:

Clube 8-Ball - 8:51 P.M.

Scully estaciona a picape. As duas observam incrédulas a entrada do clube. Um lugar num beco sujo e escuro, mal iluminado, com pisca-piscas vermelhos e uma placa velha com a bola 8 de sinuca.

SCULLY: - Meu Deus! Não tinha um lugar pior não?

BARBARA: - Se eu entrar aí com essa saia rasgada vou ser estuprada!!! O que a gente vai fazer?

SCULLY: - Eu me pergunto por que os homens são porcos, nojentos e tarados! Imagina o tipo de homem que frequenta um lugar desses?

BARBARA: - Aposto com você que homens casados. E aposto mais ainda que a mulher está em casa com meia dúzia de filhos pensando que ele está fazendo horas extras pra melhorar a renda da família. Ui! Isso me tira do sério, eu tenho vontade de matar um cara desses!

SCULLY: - Duas. E aposto que tá cheio de mulher seminua aí dentro, esfregando os peitos e a vagina na cara desses idiotas em troca de notas de dólar.

BARBARA: - Ai que nojo! Como os homens se prestam a essas coisas?

SCULLY: - E se eu meter o pé na porta, sacar a arma e gritar "Cadê o John, sou a mulher dele"?

BARBARA: - Bom, acho que pelo menos um terço dos homens vai sair correndo pelos fundos. Eu entro e digo que sou a mulher do Bill. Esvazia mais um terço. Também tem muito Bill.

SCULLY: - Juro pra você que se eu pegasse o Mulder num lugar desses eu perderia a cabeça! Não sei se matava, mas que eu enchia de porrada pra aprender... Eu posso ser baixinha, mas eu sei bater muito bem e derrubar caras grandes. Pelo menos o FBI serviu pra treinamento de como ser esposa.

BARBARA: - Três meses sem sexo. No mínimo. É o que eu faria. Daria uma bela surra de guarda-chuva, não cozinharia mais e nada de fazer sobremesa pra agradar. Compraria um rottweiler pra dormir no sofá e mandaria o Alex dormir no tapete da porta. Com sorte ele manteria as duas bolas intactas.

SCULLY: - Ajeita sua roupa. Vamos entrar e encontrar o tal Igor.

BARBARA: - Repassando o plano. Vamos dar em cima dele. A que ele gostar o distrai, sugere uma rapidinha enquanto a outra aguarda no banheiro. Descemos a porrada, fazemos ele abrir a boca e revelar pra onde levaram os nossos homens.

SCULLY: - Seria mais fácil voltar pra casa e deixá-los morrer. Será que Mulder e Krycek merecem todo nosso empenho pra salvá-los?

BARBARA: - Você ainda tem o seguro de vida do Mulder. Eu nem tenho nada. Nem posso reclamar porque não sou casada com Alex. Será que aqueles dois merecem nosso esforço mesmo?

SCULLY: - Mulder só faz piadas e corre atrás de discos voadores.

BARBARA: - Alex só pensa em vingança e corre atrás dos caras do Sindicato.

SCULLY: - Mas Mulder me leva café na cama...

BARBARA: - Alex me traz presentinhos...

As duas se calam pensativas. Depois se olham.

BARBARA E SCULLY: - (EM CORO/ RINDO) Merecem!

As duas descem da picape. Barbara puxa Scully.

BARBARA: - Abre essa camisa um pouco. Solta por cima das calças e tira esse blazer. Você parece muito séria nessa roupa!

SCULLY: - Mas eu sou séria!

BARBARA: - É, e tá com FBI escrito na testa. Anda!

Scully tira o blazer e joga dentro da picape. Abre a camisa e tira pra fora das calças. Barbara revira o cabelo dela.

SCULLY: - O que pensa que está fazendo?

BARBARA: - Tirando sua cara séria de FBI e tornando você despojada. Abre mais um botão!

SCULLY: - Vai aparecer meu sutiã!

BARBARA: - Vai nada, vai aparecer um pouco dos seios! Tem que mostrar o que tem!

Scully abre outro botão. Barbara abre a bolsa. Pega o batom e passa. Entrega pra Scully que também passa o batom.

BARBARA: - Agora sim parece uma mulher sensual. Vamos seduzir o Igor. E depois chutar as bolas dele.

Scully esconde a arma nas costas colocando nas calças.

Corte.


[Som: t.A.T.u. - Not Gonna Get Us]

Dentro do clube, mesas de sinuca, um palco, um bar e música alta. Mulheres seminuas dançando agarradas no pole dance, se esfregando e incitando. Somente homens lá dentro. Muitos dançando e bebendo. Todos voltam o olhar curioso para as duas estranhas que entram no clube.

BARBARA: - (COCHICHA) Ferrou, Scully! Só tem homem nesse lugar. Vamos ser estupradas mesmo!

SCULLY: - (COCHICHA) Fique perto de mim. Qualquer coisa eu saco a arma.

Os homens as analisam feito lobos conforme elas vão passando entre eles. Barbara assustada coloca o braço em Scully. Scully séria, vai adentrando no ambiente, com Barbara grudada nela. Scully se aproxima do bar. O barman a encara.

SCULLY: - Um gim tônica. O que você vai beber, Barbara?

BARBARA: - (OLHANDO PARA O AMBIENTE/ MEDO) O mesmo.

BARMAN: - Queridas, eu não sei se notaram, mas aqui é um clube masculino.

SCULLY: - Viemos encontrar um amigo. O Igor, sabe aonde ele está?

BARMAN: - O Igor está na mesa ao fundo, de jaqueta jeans e sem camisa. Sugiro que esperem lá fora.

Scully tenta ver Igor, mas o clube está cheio. Um sujeito se aproxima de Scully, piscando o olho pra ela. Ergue o copo, oferecendo um drinque. Barbara envolve o braço em Scully.

BARBARA: - (ENGROSSA A VOZ) Cai fora palhaço! A ruiva é minha! Entendeu?

O sujeito se afasta aborrecido. Scully segura o riso.

SCULLY: - Boa ideia. Não pensei nisso. Assim não vão nos amolar. Agora vamos achar esse Igor, rendê-lo e saber do paradeiro dos nossos homens.

Igor, um "armário" russo de dois metros de altura, louro, musculoso e cheio de tatuagens da máfia russa se aproxima do balcão.

IGOR: - Manda um champanhe pra mesa do Billy.

BARMAN: - Essas duas aí estão procurando por você.

Igor abaixa a cabeça e encara as duas. Scully e Barbara erguem a cabeça lentamente, até ficarem com os pescoços esticados olhando pra cima.

IGOR: - O que as duas nanicas querem? Sem vagas pra dançarinas. Vocês nem tem o tamanho mínimo exigido.

Scully catatônica com o tamanho do cara. Barbara também. As duas estão boquiabertas.

IGOR: - Então?

BARBARA: - Ahn... Nós somos dançarinas profissionais. E nos disseram que você estava contratando.

IGOR: - Disseram errado. E vocês duas são baixinhas demais. A mãe de vocês sabem que estão na rua numa hora dessas? Aqui é lugar pra adulto!

Igor dá uma risada alta. Barbara sorri sem graça. Scully, furiosa, vai abrir a boca, mas Barbara a cutuca discretamente.

BARBARA: -Cara, você tá por fora, sabia? As baixinhas são mais quentes. Elas mexem com o imaginário dos homens.

IGOR: -Você tá brincando! Como o quê, posso saber? Tipo eu me masturbo enquanto você pinta o rodapé sem escada? Quem sabe você tira os saltos, fica em pé encarando o meu pau, faz um belo boquete enquanto uso sua cabeça como mesa pro copo de vodka?

Scully vai ficando irritada, respirando rapidamente, pronta pra explodir. Barbara faz pose sensual.

BARBARA: - Igor, meu querido, vejo que você nunca transou com uma baixinha. Um homem assim, enorme como você, pegando uma mulher pequena como eu... Baixinhas são portáteis, você agarra e leva pra onde quiser, sem muita resistência física. Prensa na parede, atira na cama, amassa com esse corpão todo e escuta gemidos extasiados a noite inteira, porque tudo na gente é menorzinho e mais prazeroso, imagino um cara grande como você assim, com tudo grandão, me rasgando todinha sem piedade alguma... Os homens fantasiam com isso. Não é à toa que chamam as baixinhas de mignon. Somos o filé da espécie feminina.

Scully lança um olhar incrédulo pra Barbara. Igor abre um sorriso sacana.

BARBARA: - Olha aqui, seu grandalhão, a gente precisa de emprego, tá legal? Eu já cansei de ser discriminada! Eu e a minha namorada (ABRAÇA SCULLY) sofremos horrores todos os dias porque ela é um menino num corpo de menina e a gente se ama! Você não quer nos contratar porque percebeu que somos lésbicas! Fala a verdade! Você não quer duas lésbicas assumidas dançando naquele palco e apimentando a sua plateia porque teria que demitir todas essas mulheres altas e sem tempero que você tem aqui!

Scully continua olhando incrédula pra Barbara.

IGOR: - (CURIOSO) Vocês são...

Scully abraça Barbara.

SCULLY: - (ENCARA IGOR) Somos. Lésbicas.

BARBARA: - É. Ela é o meu homem, algum problema?

Scully olha incrédula pra Barbara.

IGOR: - Nem precisava dizer. Já vi de cara pela roupa.

Scully fecha os olhos e cerra o cenho, segurando os punhos.

IGOR: - Vocês podem fazer um show particular pra mim e conforme a performance de vocês duas juntas fechamos um contrato, acho que me entendem. Só porque vocês são lésbicas, ok? E eu curto lésbicas. Adoro ver duas mulheres brincando. Mas admito, vocês mexeram com o meu imaginário. Depois o papai aqui também quer brincar com as duas anãzinhas.

Scully olha assustada pra Barbara que arregala os olhos. Igor olha pro barman.

IGOR: - Serve uma bebida para as minhas baixinhas. Deixa elas relaxarem e se divertirem por conta da casa. Depois meninas, vamos subir pro meu apartamento aí em cima. Eu tenho uns negócios pra resolver primeiro.

Igor se afasta. Senta-se na mesa ao fundo.

SCULLY: - Ouviu o que ele disse? Acha que eu tenho jeito de homem?

BARBARA: - Você tá preocupada se tem jeito de homem? Eu tô preocupada é que esse cara quer nos ver transando e depois nos comer! Não sei se me assusto mais pensando em transar com você ou com aquele mamute!

SCULLY: - Você ficou dando ideia, sua maluca! Ficou tentando o homem! Homens são seres auditivos!Não sabe que eles imaginam tudo e mais além?

BARBARA: - Mas a intenção não era essa? A gente enrolar e render o cara?

SCULLY: - Sim, mas você viu o tamanho do cara?

BARBARA: - Você não me avisou que tinha um plano B!

SCULLY: - Porque eu não tenho um plano B! Não imaginava que o cara fosse um brucutu desse tamanho! Você que sabe tanto de russo deveria imaginar! O único russo que conheço não tem esse tamanho todo aí e o Mulder acabava com ele a socos!

BARBARA: - Pobre do meu Ratoncito! Mas aposto que esse aí acabava com o Mulder num espirro!

Barbara fica desanimada. Puxa a cadeira e senta-se à mesa. Scully senta-se de frente pra ela. O Barman coloca os drinques na frente das duas e se afasta. Barbara pega o drinque e sorve o canudinho, com os olhos distantes e apáticos.

BARBARA: -Alex me levanta com uma das mãos se quiser. E o Mulder?

SCULLY: -Bom, Mulder também me levanta com uma das mãos se quiser.

BARBARA: - Alex tem 1,85. Quanto o Mulder mede?

SCULLY: - 1,84. Por quê?

BARBARA: -Mulder alguma vez pegou você à força pra transar?

SCULLY: - Nunca! Mulder nunca faria uma coisa dessas. Tá maluca? Que conversa é essa?

BARBARA: - Mas ele poderia. Como Alex poderia, mas a gente sabe que eles não fariam, eles nos respeitam, são cavalheiros e gentis. Agora olha lá pro fundo. O mamute Igor, aquele estranho que não sente nada por nós, tem uns dois metros. (HISTÉRICA/ APAVORADA) Isso é só pra você parar de ficar calma e pensar no estrago que vai dar quando ele nos agarrar à força! Estamos ferradas, Scully!!! Completamente ferradas pra não dizer fodidas mesmo!!! E é isso o que tá me apavorando!!!! Olha o tamanho do cara, imagina o tamanho do...

SCULLY: - Quer se acalmar? Ok, entendo, mas somos em duas. E eu tenho uma arma.

BARBARA: - É. E vai descarregar tudo nele e o cara nem vai sentir cócegas! Ele rende as duas, pegando cada uma pelo pescoço com as duas mãos ao mesmo tempo. Ele vai fazer sanduíche da gente, Scully! Péssima ideia! Ai, se eu não morrer hoje nunca mais vou poder sentar de novo!!!

SCULLY: - Meu Deus, você parece o Mulder dramático transformando um simples vendaval no fim do mundo!Fica calma. Pra tudo tem uma saída.

BARBARA: - Sim, aquela porta lá atrás é a saída, e minhas pernas estão doidas pra correrem pra ela!

Igor observa as duas.

SCULLY: - Droga! Ele tá desconfiado, está nos observando.

Barbara puxa Scully pra pista de dança. Dança de frente pra ela. Scully parada.

BARBARA: - Finge criatura, finge ou vamos ser linchadas aqui dentro! Nossa vida e a dos nossos homens depende daquele cara acreditar que somos lésbicas! E da gente ter um plano B porque senão... Na próxima consulta, minha ginecologista vai me sugerir uma vaginoplastia urgente!!! Se der pra reparar o estrago!

As duas dançam. Igor as observa, enquanto conversa com outro cara.

SCULLY: - Vamos seguir o plano. A gente vai subir com ele. Eu tenho uma arma pra nos defender, caso ele tente nos agarrar. Qualquer coisa, a gente sai na mordida e nos tabefes! Chuta as bolas de basquete dele... Alguma coisa a gente vai fazer.

Scully pega a mão de Barbara, dançam juntas.

SCULLY: - Droga, ele continua olhando.

Barbara vira Scully de costas num movimento. Se agarra e se esfrega nela. Scully arregala os olhos. Igor sorri.

BARBARA: - (SORRINDO SEM GRAÇA) Continua fingido que o desgraçado tá gostando. Depois a gente propõe um triângulo, algo sadomasoquista, amarra o cretino e tortura até ele abrir o bico! Que ódio desse desgraçado!

SCULLY: - (SORRINDO SEM GRAÇA) Homens... Você atingiu direitinho o ponto fraco dele. Eu não teria essa cara de pau que você tem!

BARBARA: - Sou jornalista, tenho que ser cara de pau, inventar mentiras pra conseguir acesso a reportagens e entrevistados... Já estive em cada canto escabroso desse país que isso aqui parece até a Disney!

Scully vira Barbara e se esfrega nela.

SCULLY: - E o que faremos depois? Vamos ter que sair pelo clube se não tiver saída lá em cima. E teremos que ser rápidas. Percebeu que tem segurança nas portas? Devem ser da máfia também.

As duas dançam de frente, Scully segura na cintura de Barbara.

SCULLY: - Se me beijar na boca eu atiro em você!

BARBARA: - Tá maluca? Eu não sou chegada na sua fruta, minha filha! E mantenha esses peitos bem longe dos meus! Meu negócio é banana!

SCULLY: - Que situação! Quando isso acabar vou comprar uns vestidos antes que Mulder perca o tesão por mim! Nunca, em hipótese alguma, você vai cometar o que aconteceu aqui hoje, entendeu?

BARBARA: - Com toda a certeza! Aqueles dois iam rir de nós duas até o apocalipse! Imagina Mulder fazendo piada disso? Não precisa muito pra ele folgar com alguém! Não mesmo, isso é segredo que vamos levar pro túmulo!

As duas continuam dançando. Igor se embala com a música, sorrindo pra elas.


9:44 P.M.

Igor, entre Scully e Barbara, com os braços envolto nelas, se aproxima do segurança armado.

IGOR: - Vou subir pro meu apartamento. Não quero interrupção.

O segurança abre a porta. Os três sobem as escadas.

IGOR: - Tenho um champanhe maravilhoso esperando pela gente.

Igor abre a porta do apartamento. Eles entram. Ele tranca a porta. Barbara observa o lugar bem decorado e aconchegante. Observa a cozinha. Scully observa que só há uma porta e as janelas. Aproxima-se da janela olhando para fora, prestando atenção no cano da calha que vai até o piso dos fundos. Igor senta-se no sofá. Abre uma caixinha e retira cocaína.

IGOR: - Então, meninas perversas... Há quanto tempo estão juntas?

SCULLY: - (OBSERVANDO O LUGAR) ... Seis anos. Nos conhecemos num show.

BARBARA: - Da Madonna. E ficamos juntas daquela noite em diante, não é "Kathy"?

SCULLY: - É, "Barbie". Nosso primeiro beijo foi ao som de Live to Tell.

IGOR: - E de onde você são, Kathy e Barbie?

BARBARA: - Texas.

IGOR: - Estão bem longe de casa... Adoro mulheres texanas.

Igor faz as fileiras de cocaína. Aspira duas. Estende o canudo para Barbara. Barbara pega o canudo e se agacha na frente da mesa. Olha desesperada pra Scully.

SCULLY: - Igor, tem algo pra beber?

IGOR: - Claro!

Igor se levanta e vai para o bar. Barbara rapidamente joga duas carreiras de cocaína no tapete e espalha com a mão. Igor pega um champanhe. Barbara sorri limpando o nariz. Scully percebe a arma sobre a mesa de centro.

BARBARA: - Nossa! Essa é da boa.

IGOR: - Meus irmãos conseguem o melhor com uns colombianos. Cocaína e bebida por minha conta. Quero ver as duas transando.

BARBARA: - (NERVOSA) Legal seu apartamento...

SCULLY: - Barbie, querida... Vamos ao banheiro? Hum?

BARBARA: - Ah claro! Igor meu bem, vai servindo as taças, já voltamos. Aonde fica o banheiro?

IGOR: - Na segunda porta do corredor. E o quarto fica ao lado. E eu tenho um colchão massageador e uns brinquedinhos que vocês vão adorar pra brincarem juntas enquanto eu assisto.

As duas entram no banheiro, assustadas. Fecham a porta.

SCULLY: - Ok, Barbara. Temos que render o brucutu russo. Não tem outra alternativa, chegamos ao limite!

BARBARA: - Scully, como vamos derrubar aquele Dolph Lundgren de dois metros de altura antes que ele nos ameace com um vibrador?

SCULLY: - Bom, nós duas juntas temos mais de três metros.

BARBARA: - Sua matemática só ganha na vertical, Scully! E na horizontal com aquele cara, nem pensar! Quem sabe a gente deixa ele bêbado?

SCULLY: - Minha filha, acha mesmo que aquele cara vai ficar bêbado antes do amanhecer? Ele é russo! Olha aqui, você não tá pensando em... Eu mato você!

BARBARA: - Tá maluca é? Eu não transaria com você nem que a vida do Alex estivesse por um fio! Nada contra você, você é atraente, mas eu não gosto de mulher!

SCULLY: - Pelo menos numa coisa concordamos, se a vida do Mulder depender disso ele que morra também!

BARBARA: - O que faremos? Alguma sugestão? Eu ainda acho que devemos levar a coisa pro lado pior ainda. Sugerir sadomasoquismo e amarrar aquele mamute.

SCULLY: - Sua ideia é ótima. Eu vi uma arma na mesa. Vou tentar pegar. Você distrai ele.

BARBARA: - A pior parte está ficando comigo!

SCULLY: - Ok, eu distraio ele e você pega a arma e controla a situação. Hum?

BARBARA: - ... Tá certo, eu distraio ele e você pega a arma.

Batidas na porta.

IGOR (OFF): - Minhas anãzinhas... Estou esperando por vocês.

SCULLY: - (IRRITADA) Ui!!! Se eu ouvir mais uma vez a palavra anãzinha, eu arranco a jugular dele com os dentes! Tá legal. Você seduz o He-Man apaixonado, eu pego a arma dele e miro na cabeça. Você o amarra e a gente interroga o desgraçado.

BARBARA: - Por que eu tenho que seduzi-lo e não você?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Porque você é a mulher da nossa relação, querida, você é mais sensual. (MALIGNA) E se a coisa não der certo, o vibrador vai ficar comigo. Relaxa e goza.

Barbara olha assustada pra Scully que sorri vingada. Abre a porta do banheiro. As duas saem. Igor sentado de cuecas e camiseta no sofá, segurando uma garrafa de champanhe.

IGOR: - Então meninas? Você duas estão muito tímidas. Que tal empoarem esses narizinhos?

Barbara sorri. Senta-se ao lado dele. Igor avança.

BARBARA: - Ei, grandalhão, calma aí. Você não tem uns brinquedinhos tipo coisas de couro, chicotes e algemas? Minha namorada e eu adoramos isso!

IGOR: - Não... Mas a gente pode improvisar.

Scully senta-se na mesa de centro, sorrindo dissimulada. Igor leva as mãos às pernas dela.

SCULLY: - Que tal uma música? Bem alta?

BARBARA: - Verdade! Uma música cai bem. Assim a gente pode dançar pra você.

Igor sorri. Se levanta e vai até o aparelho de som. Scully leva a mão para trás a fim de pegar a arma.

IGOR: - Como hoje é a noite das baixinhas...

[Som: Shakira - Estoy Aquí]

O telefone toca. Scully recolhe a mão, olhando pra Barbara.

IGOR: - Eu disse pra esses idiotas não me interromperem!

Igor atende o telefone. Fica de costas pra elas. Scully pega a arma da mesa e tira as balas, guardando no bolso das calças e colocando de volta a arma vazia. Barbara olha pra ela sem entender.

IGOR: - (AO TELEFONE) Fala, brat*! Espero que seja realmente importante, eu tô no meio de uma festinha... Não, amanhã cedo Sharapov chega com o Górki.(irmão*)

Scully e Barbara se entreolham.

IGOR: - (AO TELEFONE) O cacete brat! Eu falei pra você ficar aí e vigiar os dois filhos da puta! E disse pra vocês se divertirem torturando os dois, mas sem matar. Qual parte de esconder a van no posto você não entendeu, idiota? Ahn?

Scully se levanta, sinalizando pra Barbara ficar ali e aponta pra janela. Barbara afirma com a cabeça. Scully se esconde atrás do balcão do bar, tirando a arma detrás das calças.

IGOR: - (AO TELEFONE) Como é que é? De que diabos você está falando? Que mulheres?

Barbara começa a ficar nervosa. Igor desliga o telefone e vira-se pra ela.

IGOR: - Quem são vocês?

BARBARA: - ...

IGOR: - Cadê sua amiguinha?

BARBARA: - Ela saiu pela janela...

Igor pega a arma da mesa de centro e coloca atrás das calças. Agarra Barbara pelo pescoço.

IGOR: - Você é a garota do Krycek? Ou a mulher do Mulder?

BARBARA: - E-eu não sei quem são esses caras...

IGOR: - Pode parar de mentir, sua piranha! Você é a garota do Krycek, aquele policial russo que trai russo? Ou é a mulher do cara do FBI?

BARBARA: - ...

IGOR: - Não importa, anãzinha. Tá ferrada do mesmo jeito porque gosta de trepar com tira! Achavam mesmo que iam me enganar? Iam colocar veneno na minha bebida ou me acertarem com a garrafa?

Igor joga Barbara no sofá. Vai pra janela. Olha lá pra baixo. Barbara se levanta. Igor volta pra perto dela. Barbara vai recuando pra porta, assustada.

IGOR: - Seu policial ou seu agente do FBI, tanto faz, os dois ferraram com um dos nossos, entendeu? Você não chamou a polícia, chamou uma amiguinha pra ajudar? (RINDO) Sua vaca burra! Eu vou mostrar pra você o que a Bratva faz com mulher de policial!

Igor acerta um tapa em Barbara que voa contra a porta. Agarra ela pelos cabelos e a joga de bruços no sofá. Barbara grita chorando. Ele abre as calças e tenta estuprá-la. Sente o cano da arma na cabeça.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Sai de cima dela seu cretino desgraçado ou vou espalhar a droga do seu cérebro nesse sofá!

Igor levanta as mãos. Ergue-se. Scully atenta. Barbara se levanta, nervosa, chorando.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Bem devagar porque eu tenho um dedo nervoso!!!

IGOR: - (RINDO) Anda armada, anãzinha? Sabe usar uma arma? Acho melhor que saiba, porque quem me ameaça com uma arma sempre termina morto. Eu estou armado e aposto que antes que aperte esse gatilho eu saco a minha automática e acerto bem no meio da sua carinha linda.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Cala a boca!!! Entregue sua arma!!!

IGOR: - Não. Eu vou foder vocês duas, depois vou socar vocês até a morte por traumatismo e por fim os cães lá atrás terão comida.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Onde estão eles?

IGOR: - Mortos.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Não minta pra mim ou eu juro que torturo você! Eu sei aonde atirar sem matar!

IGOR: - Acha que uma coisinha insignificante do seu tamanho pode com um cara como eu?

Igor vira-se rapidamente acertando um tapa em Scully que cai no chão, deixando a arma cair. Barbara corre para a cozinha. Igor ergue Scully do chão e a joga no sofá. Barbara pega uma frigideira, corre e pula nas costas do grandalhão, dando frigideiradas na cabeça dele. Igor tenta se desvencilhar de Barbara, mas ela continua montada nas costas dele descendo a frigideira. Scully se levanta e salta em cima dele.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Bate mais forte!!! Derruba ele!!!

Igor num rompante se desvencilha das duas que caem no chão. Ergue Scully pelos cabelos, que solta um grito. Barbara morde a perna dele. Igor grita e chuta Barbara, largando Scully. Ergue Barbara e acerta um soco no rosto dela. Barbara voa contra a parede. Scully, tomada de ódio, acerta um chute no meio das pernas dele. Igor então se encolhe.

IGOR: - Piranha desgraçada, eu vou matar você cadela ruiva!!!

Igor empurra Scully por sobre a mesa de centro, que cai de costas quebrando a mesa. Scully geme, sem se mover. Barbara se arrasta e pega a arma do chão, mirando em Igor com as mãos trêmulas.

IGOR: - Agora a outra insetinha nanica achando que pode me derrubar com um tiro.

BARBARA: - Até Golias caiu um dia, seu filho da puta!!!

Igor tira a camiseta, revelando as tatuagens e cicatrizes. Scully se levanta, com dificuldades.

IGOR: - (AOS GRITOS) Eu já levei muitos tiros, piranha!!! Macho nenhum me derruba, acha que mulher vai conseguir? Ainda mais uma metade de mulher como você!!! Sem chance!!!

Igor agarra Scully pelos cabelos e a atira contra a parede. Scully cai gemendo de dor. Igor puxa a arma das calças e mira a arma na cabeça de Scully.

IGOR: - (AOS GRITOS) Vai piranha! Atira em mim porque eu vou atirar na cadela da sua amiga!!!

SCULLY: - (AOS GRITOS/ DESESPERADA) Atira nele Barbara!!!

Igor aperta o gatilho. A arma está sem balas. Ele aperta várias vezes, incrédulo. Scully o chuta. Ele ergue Scully com uma das mãos apertando o pescoço dela. Scully arregala os olhos, se asfixiando, suspensa no ar sacudindo as pernas, tentando inutilmente com as mãos se livrar dele.

BARBARA: - (AOS GRITOS/ NERVOSA) Solta minha amiga agora ou eu atiro em você!

IGOR: - (AOS GRITOS) Você não vai acertar, vadia! Eu vou tirar essa arma de você e vou enfiar a minha pistola enorme no rabo das duas até rasgar!!!

Barbara aperta o gatilho. Acerta o tiro no traseiro dele. Igor arregala os olhos, solta Scully e vira-se pra Barbara. Scully busca ar, desesperada.

IGOR: - Agora você me deixou zangado, vadia.

Igor vai pra cima de Barbara. Ela atira no meio das pernas dele. Igor leva a mão entre as pernas, se inclinando, gemendo e encolhido.

IGOR: - (AOS GRITOS) Maldita cadela você atirou nas minhas bolas!!!

Scully pega a arma de Barbara, que está estática e assustada, derrubando lágrimas. Scully mira na testa de Igor.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Vou deixar você aí sofrendo até me dizer aonde estão os dois policiais, entendeu?

IGOR: - (AOS GRITOS) Pode me matar que eu não vou falar, cadela!!!!

Scully mira a arma nas mãos dele que ainda estão entre as pernas.

SCULLY: - (AOS GRITOS/ IRRITADA) Acho que ela estragou uma das suas bolas! Vou estragar a outra! Vai falar fino pro resto da vida, machão imbecil!!! Corajoso você com mulher, não é? Você não sabe do que somos capazes, seu monte de merda!!!

IGOR: - (AOS GRITOS) Tá legal!!! Eu vou dizer, mas vocês não vão sair daqui vivas! Meus capangas lá embaixo vão matar vocês!!! E se me castraram, eu mesmo vou perseguir vocês até esganar as duas com apenas uma das mãos!!!

SCULLY: - (AOS GRITOS) Eu não vou perguntar novamente!!! Você vai sangrar aí feito um porco castrado até morrer!!! Seja rápido então!!! Pra onde levaram nossos maridos?

Scully encosta a arma nas mãos dele, que perde muito sangue.

IGOR: - (AOS GRITOS) No quilômetro 91!!! Numa fazenda abandonada!!! Uma casa velha com um celeiro branco ao lado!!!

SCULLY: - Barbara, acha alguma coisa pra amarrar esse imbecil.

Barbara procura alguma coisa pela sala.

IGOR: - Você não vai me deixar sangrando aqui!!! Tá doendo!!!!!

SCULLY: - Agradeça por sobrar um testículo, embora eu pense que idiotas como você não mereçam se procriar!

Igor rapidamente agarra com as duas mãos ensanguentadas a mão de Scully, tentando tirar a arma da mão dela. Scully não consegue aguentar. Ele mete um soco na cara dela. Scully cai pra trás, derrubando a arma. Barbara voa pra cima dele aos tapas e dentadas. Igor mete um safanão nela, a derrubando. Scully se arrasta, pega a arma e atira três vezes em Igor, que cai morto no chão.

Barbara senta-se no chão, descabelada, com o lábio sangrando, trêmula. Põe as mãos no rosto e chora. Scully fica sentada no chão, ofegante e cansada.

SCULLY: - Você tá bem?

BARBARA: - (CHORANDO) Não.


10:47 P.M.

Igor morto no chão, coberto com um lençol. O apartamento na bagunça. Scully sentada no sofá, com gelo num pano, aplicando no rosto de Barbara sentada ao lado dela, com os olhos inchados de chorar.

SCULLY: - Vai inchar um pouco o lábio e o rosto. Amanhã nós duas vamos acordar com a cara de quem mexeu numa colmeia de abelhas sem proteção.

Scully entrega o pano com gelo.

SCULLY: - Fica aplicando no rosto. Vou fazer um pra mim também.

Scully se levanta e vai pra cozinha. Barbara em choque.

BARBARA: - Ele ia nos matar... Eu vi minha vida toda em segundos. Eu... Eu me lembrei na hora de uma reportagem que fiz anos atrás, sobre um estuprador que matou a vítima a socos e deu o corpo dela em pedaços para os cães comerem. Era uma menina de 14 anos de idade.

Scully vira-se pra ela.

SCULLY: - Eu lembro desse caso.

BARBARA: -Eu já vi de tudo, mas aquilo... Aquilo me chocou de uma forma... Eu nunca mais esqueci. Eu... Eu sempre gostei da editoria policial, mais do que da política. Eu tanto escrevo e escrevi sobre violência, mas eu não consigo entender até hoje porque há tanta maldade no mundo, sabe? Por que precisa haver maldade? Não é óbvio para as pessoas que o bem é bom? Por que preferir a maldade?

SCULLY: - Não, Barbara. Não é obvio para todos, apenas para os que praticam o bem. Nesses anos todos no FBI, eu acabei por desacreditar muito na humanidade. Eu cheguei a conclusão que os monstros e alienígenas que Mulder e eu perseguíamos eram muito mais "humanos" ou totalmente animais do que os ditos civilizados lá fora. Existem pessoas que não são gente e nem animais, porque animais não fazem essas coisas e gente não deveria fazer. É algo na cadeia biológica que não tem nome. Dizer que um cara como esse é um monstro, é ofender os monstros.

Scully abre a geladeira.

SCULLY: -Hum... Tive uma ideia melhor que gelo. Vai uma lata de refrigerante? Precisamos relaxar.

BARBARA: - Aceito. Tô morrendo de fome. Quando fico nervosa, meu apetite aumenta.

Scully pega duas latas de refrigerante. Revira os armários. Acha um pacote de batatinhas. Vai pro sofá e entrega uma lata e as batatinhas pra Barbara. Senta-se ao lado dela, colocando a lata de refrigerante contra o rosto. Barbara abre o pacote.

BARBARA: - Obrigada. Quer?

SCULLY: - Não. Eu perco a fome quando fico nervosa. Vai bebendo e gelando o rosto com a lata... Deus, que noite! Eu já enfrentei gorilas, mas esse aí...

BARBARA: - Queria perder o apetite como você. Vivo me cuidando pra não engordar. A genética da família é propícia. Minha mãe é baixinha e gordinha.

SCULLY: - Aposto que é porque ela cozinha bem.

BARBARA: - Gosta de comida cubana?

SCULLY: - Nunca experimentei.

BARBARA: - A cozinha cubana é uma mistura de africana, caribenha e espanhola. Se gosta de comida temperada, simples e saborosa...

SCULLY: - Hum... Parece apetitosa. Agarrou Alex pelo estômago?

BARBARA: - Na verdade... Acho que não agarrei. Ele está fugindo aos poucos.

Scully se recosta no sofá.

SCULLY: - As coisas não andam boas? Quer falar sobre isso?

BARBARA: - Acho que não. Estou tremendo até agora pelo que aconteceu aqui. Quero fechar os olhos um pouco e tentar assimilar.

SCULLY: - Vamos descansar porque até eu cansei. Agora quero a batatinha.

Barbara entrega o pacote de batatinhas. Recosta-se no sofá, fechando os olhos. Scully abre o refrigerante e come uma batatinha.

SCULLY: - (MASTIGANDO) Você sabe que homens são complicados. Relacionamentos são complicados.

BARBARA: - (OLHOS FECHADOS) Não, eu não sei. Perdi minha virgindade em troca de emprego e cidadania americana. Fui amante do Rockfell por um tempo, sem gostar dele, até ele se cansar. Então baixei a cabeça e me dediquei ao jornalismo. Até conhecer Alex. Posso dizer que fora os namoradinhos platônicos da infância e adolescência, aqueles que ficam só na imaginação, o único homem que eu amei e tive a chance de ter é o Alex.

Scully olha incrédula pra ela.

SCULLY: - Tá me dizendo que você só teve dois homens?

BARBARA: - Eu não tinha tempo pra homem. Não tinha tempo pro amor. Eu queria uma carreira. Agora que tudo o que desejo é um marido e uma família, o amor foge de mim por castigo. Acho que vou ficar velha e sozinha esperando que os sobrinhos se lembrem de passar uns dias com a tia na América, nem que seja só por interesse na Disney.

SCULLY: - ... É, você me enganou mesmo. Nunca julgue um livro pela capa.

BARBARA: - Segredo de meninas, tá? Alex não sabe disso. Ele é um homem vivido e cheio de experiências. Não quero parecer uma tonta idiota. Ele é malandro e pode se aproveitar disso.

Scully começa a rir. Barbara abre os olhos.

BARBARA: - O que foi?

SCULLY: - Ele sabe.

BARBARA: - Não, eu nunca disse isso pra ele! E Alex nem vai desconfiar. O que ele já teve de mulher na vida é inversamente proporcional a relacionamento sério. Eu sou a primeira namorada dele. Ele me confidenciou isso e eu acreditei.

SCULLY: - Tudo bem que ele nunca tenha namorado. Mas ele sabe.

BARBARA: - Não tem como! Eu me faço de experiente em relacionamentos... Por que diz isso?

SCULLY: - Barbara, acha que um cara experiente como Krycek não vai saber que você não tem toda essa experiência? Acredita nisso?

BARBARA: - Bom... Ele nunca me perguntou... Ai, acho que você tem razão! Agora entendi as risadinhas sacanas dele quando eu proponho certas coisas. Ele sabe!

SCULLY: - Eu que sou mulher percebi logo de cara que Mulder não tinha muita experiência real, só cinematográfica!

BARBARA: - (RINDO) O Mulder? Ah, tá brincando! Por isso entendo o seu ciúme, não deve ser fácil segurar o Mulder. O Mulder tem cara de ser o maior pegador!

SCULLY: - (RINDO) Pegador? O Mulder? Só a cara, minha filha! Mulder tem mais papo de pegador do que é. Mulder é o rei do sexo "oral": só fala! Vivia cercado de fitas pornôs, revistas pornôs empilhadas naquele apartamento, sexo por telefone, muita teoria e prática nenhuma, pelo menos a dois. Só caçando alienígenas. É, Mulder realmente era um alienígena procurando pelos seus!

BARBARA: - (RINDO) É, nunca se julga um livro pela capa mesmo, quem diria! Juro pra você que no início, eu até ficava meio longe do Mulder, porque ele tem aquela cara deslavada de mulherengo e eu achei que uma hora ia dar em cima de mim e eu teria que meter um tapa... Com o tempo vi que ele era um homem de respeito. Scully, acha que Alex quer realmente se aquietar na vida?

SCULLY: - Um dia a farra cansa, não é? Quase todos eles cansam, exceto os que não admitem que estão cansados da solidão. Farra não é companhia. Você vai ficando mais velho e percebe que é triste estar sozinho. Precisa de alguém pra conversar, pra dividir a vida, os problemas, o jantar... Com a idade, coisas como doenças vão aparecendo. Você não vai querer ficar doente sem alguém pra cuidar de você. Tem mais coisas a favor do número dois que do número um.

BARBARA: - Você deve ter tido muitos relacionamentos... Por isso sabe lidar com os homens.

SCULLY: -Nem tantos. Chegou um tempo que cansei de tanta tentativa e erro. Mas não foram eles que me ensinaram a vida. Foi Mulder. Aprendi mais com o Mulder do que com os outros. Mulder me ensinou a ser mulher. A não ter vergonha do meu corpo, a não sentir culpa por ter desejos, a me entregar de verdade... Eu vivi aprisionada nas correntes dos relacionamentos errados que tive, com homens manipuladores, eu sou filha de militar, acho que pode entender... Mulder foi quem quebrou essas correntes. Eu também me envolvi com homens casados, iludida de promessas... Eu era tontinha, você é mais esperta do que eu.

BARBARA: - Acho que não, Scully. Minha família toda vive em Cuba. Eu sou a caçula, a "esperança" deles. Falei por telefone que estava namorando alguém, minha mãe gritava naquele telefone pra vizinhança inteira ouvir, "minha filha na América está namorando um americano", pelo menos foi o que ela concluiu, como se tudo isso fosse um tipo de status social, americano é coisa chique, viver na América é chique. Só faltava pegar o avião pra preparar o casamento! Isso é algo tão importante na cultura deles, sabe? Eu quero ver quando descobrirem o tipo de homem que a filha arrumou. Vou aparecer com um russo e ex-matador de aluguel? Acha que é ser esperta arrumar confusão com a família? Meu pai vai dizer "não tinha comunista o suficiente em Cuba pra você, teve que arrumar um russo, queria um original e não uma falsificação do Fidel?" E eu vou ter que ser forte, além do que já estou sendo.

SCULLY: - Barbara, acho que isso é o que chamam de força da mulher. Nós crescemos sendo oprimidas por nossos pais, discriminadas e abusadas pela sociedade, sem ter o devido reconhecimento em nossas profissões. Olhadas muitas vezes como um pedaço de carne sem sentimentos, a ser devorado, mesmo que apenas com os olhos. Humilhadas por nosso sexo, por crenças sexistas medievais, menosprezadas por nossas aptidões intelectuais e inaptidões físicas que nossa natureza não nos deu. E presas num padrão condicionado de beleza, criadas para servir aos caprichos dos homens sem direito a nada em troca. Não temos outra alternativa, aprendemos a ser fortes. Nós é que geramos homens e mulheres em nossos ventres, sentimos a dor e a alegria ao extremo durante um parto. Nós é quem erguemos nossos homens quando eles desistiram de tudo. Um lar só é um lar se tem uma mulher fazendo de uma casa um lar... E se o seu homem reconhece isso... Vale a pena lutar por ele e ajudá-lo a se erguer e enxergar a vida. Porque esse é um homem de verdade. Ele respeita, enxerga e dá valor a mulher que tem. Se um homem sabe tratar bem a sua mulher, por esse vale a pena lutar. Nem que o mundo inteiro fique contra você. Meu irmão mais velho odeia o Mulder, acha que me importo? Sou eu quem vive com o Mulder, não ele!

BARBARA: -... Você tem razão.

SCULLY: - Eu conheço Krycek há bastante tempo pra dizer isso pra você: Ele mudou da água suja pro vinho. Então pega esse vinho, guarde na sua pipa e se ele resolver virar vinagre, nada que uma boa chacoalhada não resolva.

BARBARA: - Eu tô tentando, mas o homem é um osso duro de roer! Tenho vontade de pegar uma britadeira pra conseguir chegar naquele coração ou pra abrir aquela cabeça teimosa!

SCULLY: - Eu conheço o tipo. Mas você é uma mulher inteligente e vai descobrir aos poucos como chacoalhar o teimoso.

BARBARA: - E como você "chacoalha" o Mulder quando ele azeda?

SCULLY: - Azedo mais do que ele. E se ele azedar mais eu parto para o charminho.

BARBARA: - Eu vivo no charminho. Acho que tá na hora de azedar o queijo daquele rato! E acredite, ele nunca viu meu lado azedo. Se ele quer guerra, vai ver o tamanho do meu paiol de munição!

Scully se levanta. Estende a mão pra ela.

SCULLY: - Vamos salvar nossos homens.

Scully ajuda Barbara a se levantar. Ela olha para Igor morto. Scully a puxa pelo braço em direção da janela.

SCULLY: - Vamos descer por esse cano. E vamos ser rápidas, antes que alguém perceba que a festinha daquele brucutu está demorando muito.

BARBARA: - A gente não devia aproveitar o telefone e chamar a polícia?

SCULLY: - Não. Estamos lidando com a máfia, Barbara. E eu não sou mais policial. Não quero ter que explicar o que houve aqui e perder tempo com interrogatório enquanto eles matam Mulder e Krycek.

Scully sobe na janela.


11:39 P.M.

[Som: Ruby Dee & The Snakehandlers - Round and Round]

Dentro da picape, Scully dirige. Barbara quieta.

SCULLY: - Sei o que está pensando. Era ele ou nós...

BARBARA: - É que eu nuncaatirei num homem.

SCULLY: - Não, você atirou num mafioso.

BARBARA: -Dá na mesma. Era um ser humano. Respirava e não respira mais.

SCULLY: - Um ser humano que se rendesse nós duas, nos estupraria e mataria sem remorso algum. Você não o matou. Eu o matei.Eu sei que a primeira vez em que se atira em alguém a gente fica remoendo aquilo pensando se não tinha outra alternativa. Isso é normal, logo o choque vai passar.

BARBARA: - (PÕE AS MÃOS NO ROSTO) Como você consegue lidar com isso? Meu Deus! E-eu não nasci pra isso... E-eu atirei nas bolas do cara! Foi sangue pra todo lado!

SCULLY: - Tenta se acalmar, ok? Passou no teste.

BARBARA: - Que teste?

SCULLY: - Agora vai poder dizer pra qualquer engraçadinho que você já atirou nas bolas de outro engraçadinho.

Barbara olha incrédula pra Scully.

BARBARA: - Isso era pra ser uma piada?

SCULLY: - Isso era pra acalmar você.

BARBARA: - Scully... Quantas pessoas você já matou na sua profissão?

SCULLY: - Acho melhor dizer uma.

BARBARA: - Uma?

SCULLY: - Uma como cidadã porque não sou mais policial. Agora respondo como qualquer outro cidadão. Eu não sei o que vai acontecer comigo quando isso terminar. Mas estou preocupada é com Mulder. O resto eu resolvo depois.

BARBARA: - ... Eu não tenho estômago pra isso.

SCULLY: - Vai ter que arrumar estômago porque se a sua vida ou a vida de alguém que você ama depender da sua arma, não vai poder pensar duas vezes.

BARBARA: - Obrigada por me salvar de ser estuprada.

SCULLY: - Obrigada por me ajudar.

BARBARA: - Posso perguntar uma coisa?

SCULLY: - Claro.

BARBARA: - (TRISTE) Mais cedo você me disse uma coisa... Você acha mesmo que... O Alex não gosta de mim? Acha que eu sou apenas mais uma na agenda dele?

SCULLY: - (CULPADA) Me desculpe por ter dito isso. Não, eu não acho.

BARBARA: - Não precisa mentir pra me fazer sentir melhor. Seja sincera comigo. Eu acho que sou muito espontânea, sabe? Eu assusto os homens...

SCULLY: - Não estou mentindo. Eu disse isso pra humilhar você. Me desculpe. Eu sei que Alex está apaixonado por você, porque ele mesmo me disse quando estávamos em West End.

BARBARA: - (SORRI MAIS CALMA) ...

SCULLY: - Eu gostaria de ser mais espontânea. Eu me censuro muito e tenho ciúmes demais. Eu preciso mudar isso ou vou perder o Mulder de novo.

BARBARA: - Você apenas quer defender o que é seu. Eu digo que não sou ciumenta, mas eu tenho ciúmes do Alex.

SCULLY: - Mas você não é possessiva. Eu sou possessiva. E Mulder tem razão quando diz que não há porque eu ser assim.

BARBARA: - Não há mesmo, Scully. Mulder ama você. Eu lembro que ele estava lá comigo no hospital, pensando em você, ligando toda hora pra saber de você... Preocupado, planejando com os amigos como tirar você daquele lugar.

SCULLY: - Me responde uma coisa. Por que não discutiu comigo quando eu sinalizei pra você ficar enquanto eu fingia ter ido embora? Você não é burra. Você deve ter pensado que o brucutu ia agredir você. Poderia até tê-la matado.

BARBARA: - Eu confiei que você me salvaria. E se alguém tivesse que morrer que fosse eu, neh? Você é mãe, tem uma filha que depende de você.

SCULLY: - Obrigada por confiar em mim quando eu não confiei em você... Desculpe por todas as coisas que eu disse sobre você.

BARBARA: - Eu sei porque as disse. Porque ama o Mulder. Mas eu não sou motivo de discórdia entre vocês, tá? Eu não gosto do Mulder como homem.

SCULLY: - Nem eu gosto do Alex como homem.

Scully passa dirigindo pela placa "quilômetro 91".

SCULLY: - Precisamos achar a tal fazenda com uma casa velha e um celeiro branco.

Barbara presta atenção.

BARBARA: - Scully, tem uma casa velha lá na frente. Tem um celeiro, mas tá escuro, não dá pra ver a cor...

SCULLY: - Só pode ser lá. Vamos esconder a picape e ir à pé. Não podemos chamar a atenção. Vai conseguir pegar uma arma? Talvez eu precise de você.

BARBARA: - Se for pra salvar aqueles dois e a nossa pele, eu faço de novo.



BLOCO 4:

12:11 A.M.

Scully e Barbara andam pelo meio da floresta. Scully com o rifle no ombro. Aproximam-se da cerca de arame farpado e se agacham observando a casa. Um dos sequestradores fuma um cigarro na porta.

SCULLY: - Acho que os encontramos.

BARBARA: - E como vamos entrar aí?

SCULLY: - Eu vou esperar aquele cara entrar e vou checar quantos estão dentro da casa. Você fica aqui escondida.

BARBARA: - E se eles pegarem você?

SCULLY: - Se eu não voltar em meia hora, você vai embora, dirige até a próxima cidade e chama a polícia.

As duas recuam. Sentam-se debaixo de uma árvore.

BARBARA: - Meu Deus, como tem mosquitos nesse lugar! Legal! Quebrei o salto do sapato!

SCULLY: - Você disse que quatro caras pegaram eles. O motorista confirmou. O motorista nós amarramos, mas ele fugiu pra ligar para o Igor que morreu... Devem estar em dois. Ou três, se o Igor não estava junto.

BARBARA: - Espero que Alex e Mulder estejam vivos. Estou toda arranhada, tomei porrada, meus pés estão me matando, meu cabelo tá duro e estou cheia de picadas de mosquitos...

Barbara vira-se meio de lado ajeitando a calcinha por cima da saia.

BARBARA: - Droga de calcinha come bunda. Fica entrando pra dentro.

Scully leva a mão na boca pra não rir alto.

SCULLY: - Eu tenho uma dessas, sempre esqueço e visto. Aí tem que disfarçar e dar aquela puxadinha enquanto olha pra ver se ninguém está olhando...

BARBARA: - E os malditos sutiãs de bojo? Tem uns tão bonitos, mas tão desconfortáveis! Acho que tirei aquelas hastes de metal de quase todos, ficam cutucando e machucando debaixo do braço! Quando isso acabar eu quero mergulhar na banheira e relaxar cada centímetro do meu corpo. E com uma bela taça de vinho!

SCULLY: - Boa ideia. Eu vou exigir massagem do "Buana". Acho que mereço.

BARBARA: - Nós merecemos. Aqueles dois nos meteram nessa. Meu Deus, que dia e que noite dos infernos! É o mínimo que podemos exigir!

Scully tira os sapatos e massageia os pés.

SCULLY: - Meus pés estão doloridos, minhas costas, meu rosto e meu couro cabeludo... Droga de mosquitos! Meu cabelo está parando em pé!

BARBARA: - Rasguei minha saia, estraguei minhas meias e ainda apanhei na cara!

SCULLY: - Coloca na conta do Krycek. Porque a conta do Mulder vai ser bem alta, pode apostar.

BARBARA: - É, e pode apostar que agora o Alex vai conhecer o meu lado latina barraqueira. Ele vai ouvir umas bem boas. E se eu me irritar, já saio xingando em espanhol!

SCULLY: - Quando isso acabar... Vamos fazer um jantar pra conversar, contar piada e se divertir.

BARBARA: - Pode ser lá em casa, eu faço comida cubana pra vocês.

SCULLY: - Mulder e eu não temos muitos casais de amigos, apenas a Ellen e o Skinner. Acho que vai ser bom.

BARBARA: - Gostei da sua ideia. É uma maneira de eu fazer Alex entreter a cabeça e você fazer o Mulder sair de casa. Porque Alex e eu adoramos sair pra dançar, jantar, pegar um cinema, teatro, até um barzinho com música ao vivo e sinuca... Empurramos o Mulder de gaiato na coisa.

SCULLY: - Isso é tudo o que eu queria! Que Mulder, o estranho, fizesse uma aparição social de vez em quando. Como me aborreço com essa coisa dele ficar em casa. Parece um bicho do mato, antissocial. Sempre arruma algum programa desde que inclua ficar no sofá ou na cama.

BARBARA: - Churrascos também funcionam.

SCULLY: - É, pelo menos é no quintal e Mulder vai ter que sair de dentro de casa.

As duas riem.

BARBARA: - Ei, você entende alguma coisa de decoração? A casa que comprei tem um porão maravilhoso, com portas de vidro que saem para o jardim. Mas não tenho ideia do que fazer naquele ambiente.

SCULLY: - Por que não faz o seu escritório? Nós não temos porão, fizemos no sótão, com direito a cama. Já serve pra um lugarzinho alternativo quando a gente quer privacidade. Pelo menos você não vai ter que ficar brigando porque seu marido acha que ali é a filial dos Arquivos X... Eu tenho que ficar de olho no Mulder, ou ele entope o sótão de caixas!

BARBARA: - A ideia é boa.

SCULLY: - Posso ser indiscreta?

BARBARA: - Fala.

SCULLY: - Por que você comprou uma casa? Poderia ter ido para um outro apartamento. É uma casa grande, com quintal, piscina... Muito espaço pra uma pessoa só.

BARBARA: - Eu morava numa casa grande com a minha família. Tenho saudades disso... (SUSPIRA) ... Ok, nem apenas por isso... No fundo eu tenho esperança de me casar e ter uma família. Pelo menos já tenho a casa. O mais difícil é o marido. Scully, tanta gente diz que Alex é um mentiroso. Será que ele mente pra mim?

SCULLY: - Barbara eu não posso afirmar ou negar isso pra você. Eu estaria sendo desonesta. Não sei como Alex é nos relacionamentos amorosos e isso você vai ter que desvendar. O pouco que convivemos me fez ver que ele é uma pessoa divertida, quieta, na dele, respeitoso, porque ele me respeitou quando eu não me dava ao respeito. Alex banca o machão, sério, rebelde, mas no fundo ele gosta de dar presentinhos e agradar. Quando eu estava longe do Mulder e me soquei na casa do Alex...

BARBARA: - Depósito. Aquilo tá longe de ser casa! É ninho de rato mesmo. Arrumadinho, porque nunca vi um homem tão organizado, ele é mais organizado do que a Martha Stewart!

SCULLY: - (SORRI) Alex me convenceu a dirigir sem rumo, beber e ouvir música eletrônica, fomos até num cassino à beira mar. Conversamos tanto, mas admito, falamos exclusivamente de mim, dos meus problemas, do Mulder. Alex pouco falava de si mesmo. Me deu uma echarpe, emprestou a jaqueta, achei tão cavalheiro, até fiquei surpresa de Alex Krycek fazer algo assim, quem diria! Mas nada aconteceu além disso! Nós nunca transamos.

BARBARA: - É, ele não mentiu, ele disse que nada aconteceu entre vocês. Ele gosta de agradar dando presentes. Uma pulseira, uma caneca, flores, um lenço... Coisas simples, mas que me faz pensar que sou importante pra ele, porque se ele comprou algo pra mim, sinal de que pensa em mim não é? Scully... Sinceramente eu não vejo Alex no meu futuro. Não por mim, mas por ele. Acho que ele não esqueceu a Marita. E se quer saber, eu nem sei se ele a amava tanto, acho que é mais culpa que saudade. O filho até entendo, afinal filho é filho... Também nem sei se Alex pensa em ser pai algum dia.

SCULLY: - Nunca conversaram sobre isso?

BARBARA: - Não Scully. Esse é o problema. Arrancar coisas do Alex! Eu sou direta em muitas coisas, mas não toquei nesse assunto. Ele também nunca falou nada. Eu deixei claro desde o início que eu o amava e sabia que ele não me amava, mas que eu queria tentar pra ver se dava certo, porque eu quero uma pessoa pra viver comigo. Entendo que se ele aceitou isso, pensa assim também e foi honesto quando disse que estava disposto a tentar porque também cansou de viver sozinho. Acho que falou a verdade, ou teria dormido comigo e desaparecido como fazia com as outras. Se ficou, acho que está gostando da brincadeira de namoro. Mas o que me frusta é aquele muro ao redor dele, que ele mesmo ergueu e não permite que eu atravesse. Eu fico vendo você e o Mulder, vocês se abrem um com o outro, vocês dividem tudo, sabem até o que o outro pensa pelo olhar! Eu nunca sei o que Alex está pensando! Imagina se vou perguntar se algum dia ele pensa em ser pai? Ele dizia eu gosto de você até que um dia disse eu te amo e foi uma vez só. Não me convenceu ainda!

SCULLY: - Barbara, os homens são mais lentos nisso. Você não sabe o quanto Mulder tinha medo da palavra paternidade, mesmo sabendo que eu sempre quis filhos. Mulder dizia "não quero perpetuar os genes da minha família bastarda", "não vou ser um bom pai", "não sei lidar com crianças"... O medo do Mulder era tanto que até sugeriu que eu achasse um cara melhor pra ser pai do meu filho, e que ele criaria na boa! Olha agora ele com Victoria. Tem vezes que me pego rindo olhando pra ele todo bobo cuidando da filha e lembrando das coisas que ele pensava. Acho que devia conversar com Alex sobre isso, já que deixou claro que está tentando um relacionamento pra casar.

BARBARA: - Nem falei a palavra casamento pra não assustar o rato. Espero que ele tenha entendido.

SCULLY: - Você não quer perdê-lo, nem que pra isso precise abdicar dos seus sonhos. Eu entendo. Eu fiz o mesmo com Mulder no início, e não é bom e nem funciona por muito tempo. O problema é que eles são homens de uma causa. Por mais que coloquem você em primeiro lugar, eles não vão viver longe de suas causas. Não dá pra prendê-los, entende? Tem que deixá-los fazerem o que gostam ou viverá com um homem irritado e infeliz para o resto da vida. O lado bom disso é que eles também não vão ir contra as suas causas, seus sonhos, nem vão admitir que você se anule por eles.

BARBARA: - Eu não tenho essa coragem ainda, Scully. Eu estou indo devagar com Alex. Estou arriscando alto, eu sei. Posso levar anos e de repente ele desiste de tudo e eu perdi tempo, porque homens não entendem que o nosso relógio biológico não é como o deles. A gente tem prazo de validade pra ter um filho.

SCULLY: - Verdade. Nem me fala, sofri muito com isso. É a crise dos trinta?

BARBARA: - E dois. É um risco que eu corro, entende? Mas não é o momento certo, nem mesmo para sugerir casamento. A gente tá se conhecendo ainda. Admito, eu casava hoje com ele, mas sabe que o retardo mental masculino é maior. E Alex tá passando por uma transformação interior muito grande, enterrando fantasmas do passado, algumas vezes vejo nele a vontade de desistir de tudo... E eu estou sendo a pedra de salvação, entende?

SCULLY: - Entendo. Nossos homens tiveram vidas complicadas, e como eu disse, sempre envolvidos em suas causas e por essas mesmas causas, sempre levaram a pior.

BARBARA: - Exatamente. Mulder levou muito tempo pra mudar? Você disse uma década...

SCULLY: - Foi acontecendo aos poucos. Quando Mulder e eu assumimos nossa relação, não pense que foi fácil juntar Mulder dos cacos em que ele vivia, tirá-lo do mundo do "minha vida é essa merda, nunca vai mudar mesmo, eu não sou digno da felicidade". Foi uma batalha.

BARBARA: - Você resumiu tudo, meu Deus! Você me entende! Então sabe o tamanho da minha luta. E a minha é maior ainda, Scully, porque Mulder era do bem. Alex não era. Ajudar o mocinho com seus fantasmas é uma coisa, mas ajudar o vilão é outra diferente. Não digo que Alex pense em voltar ao que era porque quer, ele algumas vezes insinua que não é digno de ser feliz por causa das maldades que fez. Ele não entende que foi uma vítima. Alex é orgulhoso demais. Calado demais. Ele não é coração aberto como o Mulder. Ele guarda as coisas. Eu tenho que arrancar e ainda assim tem vezes que não consigo.

SCULLY: - Eu reclamo que Mulder é chorão, mas acho que seu caso é mais difícil. Pelo menos Mulder chora, desabafa, pede ajuda...

BARBARA: - Chorar? Poucas vezes eu vi Alex chorar, mas seguido de uma crise de ignorância pra cima dos móveis. Ele não chora. Ele não fala, ele não desabafa, não pede ajuda. Contou o passado dele e até hoje não entendo como conseguiu abrir o coração. Algumas vezes perde o olhar no nada. Disfarço perguntando alguma coisa e ele sai do transe. Mas não diz o que estava pensando, lembrando... Acorda com pesadelos, vai pro banheiro, fica lá trancado por horas. Eu nunca imaginei isso, entende? Agora que estamos juntos é que eu sei como é a vida privada dele. Imagine quantos anos ele vive assim e juro que não entendo como aguenta!

SCULLY: - Sério? Eu não fazia ideia que Krycek fosse tão problemático. Pensei que o Mulder fosse o rei dos problemáticos!

BARBARA: - Ninguém fazia ideia, Scully! Quem conhecia Alex como pessoa? Alex vivia sozinho. Não se permitia ter seu mundo invadido pelos outros. Acho que escolheu viver sozinho pra que ninguém visse o sofrimento e a culpa que carrega. Eu confesso, ele era meu informante, nunca me deixava ver seu rosto e eu como jornalista curiosa... Tentava ver e ele se escondia, não querendo aproximação alguma. Eu já estava me apaixonando, só pela voz. E pelo coração dele em querer fazer de tudo pra salvar um amigo da cadeia, o Mulder. Fui então buscar informações pra saber quem ele era. Fiquei chocada ao ler a ficha do Alex, em saber que ele era o bandido da história e todas as coisas ruins que ele fez, mas quando ouvia aquela voz atrás de mim me pedindo para contar a verdade nos jornais... Devia haver outro cara ali além do bandido, a conta não batia, sabe? Não fazia sentido um cara mau fazer uma coisa boa. E pra meu azar não tinha foto no arquivo. Na minha cabeça ele devia ser um velho, mas eu nem ligava pra isso. Aquela voz suave...

SCULLY: - (RINDO) Mulher é tudo igual mesmo!

BARBARA: - (SORRI) Até que um dia vi o rosto dele e confesso que o queixo caiu. Fui fisgada por um rosto sério, um sorriso sacana, um brinco na orelha, uma jaqueta de couro e aquela voz calma e serena. E pela altura. Por que mulher baixinha adora caras altos? Pra viver com torcicolo? Vou ter que fazer aulas de balé pra aprender a andar na ponta dos pés!

SCULLY: - Hum... Falta um banquinho lá em casa também.

BARBARA: - Agora não dá pra voltar atrás. Levei mais coisas no pacote. Eu não vou desistir dele. Não vou deixar de ajudá-lo. Se ele quer mudar, estou com ele. Mas se ele mentiu e voltar a fazer o que fazia, eu vou embora. E já disse isso pra ele, Scully. Aí ele me dá uma risadinha de conquistador. Mas nem com a risadinha eu fico. Nem com flores, com presentinhos... Já tá avisado. Estou dedicando minha vida a ele. Aposta alta. Vamos passar juntos todo esse processo, mas algumas coisas vão ter que mudar. E quando sairmos daqui a primeira delas vai ser ele começar a abrir mais o coração e os pensamentos. Eu não quero viver com uma múmia calada dentro de casa que fala sobre qualquer coisa menos o que está pensando, sentindo e passando... Não mesmo! Estar junto é dividir tudo, até os problemas.

SCULLY: - Acho que o que você quer dizer ao Alex é o que eu já ouvi do Mulder... Estou me esforçando pra fazer isso, porque sei que Mulder vai cansar se eu não aprender a dividir os problemas pessoais. Foi por causa disso que fui alvo do Moedinha.

BARBARA: - Então mais um motivo pra eu falar ao Alex. Serve de alerta.


1:15 A.M.

Scully recosta-se contra a parede da casa, mantendo o rifle contra o peito. Tenta espiar pela janela. O Sequestrador # 2 anda de um lado pra outro falando ao celular. Scully agacha-se e segue até outra janela. Não vê nada.

SCULLY: - (MURMURA) Droga!

Scully vai para outra janela. Espia com cautela. Krycek amarrado numa cadeira, cabeça sangrando, desacordado. O Sequestrador #3 atira um balde de água nele. Fala algo em russo. Krycek cansado, nada responde, levando um soco na cara. Scully morde os lábios.

SEQUESTRADOR #3: - Eu não vou perguntar de novo! Qual de vocês dois é Alexander Krycek?

KRYCEK: - Eu já disse que sou eu! Já falei em russo. Meu amigo não fala russo!

SEQUESTRADOR #3: - Eu não sei se ele não fala russo. Ele diz que é Alex Krycek.

KRYCEK: - Ele quer me proteger de ser torturado por vocês!!!! Me mata, eu já disse pra me matar porque eu enfiei o porco do Sharapov na cadeia, enquanto devia é tê-lo matado!!! Mulder não tem nada a ver com isso e nem devia estar aqui!!! Eu sou Alexander Krycek, quantas provas mais eu vou ter que dar sobre isso, seu imbecil? Eu quero falar com o seu chefe!

Krycek leva outro soco no rosto. Scully fica tensa. O Sequestrador #1 sai pra fora. Scully recosta-se na parede. O Sequestrador #1 acende um cigarro. Ameaça se virar para o lado de Scully, que fecha os olhos, tensa.

BARBARA: - (AOS GRITOS) Socorro!!!!!!!!!!!!

O Sequestrador #1 solta a fumaça do cigarro, olhando para o meio da floresta. Barbara sai correndo, descabelada, com a saia rasgada, pés descalços, aos gritos. Ele puxa a arma.

BARBARA: - (OFEGANTE/ AOS GRITOS) Socorro!!! Me ajuda por favor!!!

Barbara para em frente a ele, ofegante, sem conseguir falar. Scully observa curiosa.

SCULLY: - (PRA SI MESMA) O que essa maluca pensa que está fazendo?

BARBARA: - (OFEGANTE/ TENSA) Moço, me ajuda! Tem um maluco atrás de mim!!!

O Sequestrador #1 olha pra floresta.

BARBARA: - (OFEGANTE/ TENSA) Meu carro estragou. Ele parou pra me ajudar e veio com uma faca!!! Está atrás de mim!!!

O Sequestrador #3 sai pra fora.

SEQUESTRADOR #3: - O que está acontecendo?

Barbara olha pra Scully. Scully recua lentamente para os fundos da casa.

SEQUESTRADOR #1: - Essa mulher diz que tem um cara atrás dela com uma faca...

BARBARA: - (NERVOSA) É um maluco! Quer me matar!!!

SEQUESTRADOR #3: - Vá checar.

O Sequestrador #1 com a arma na mão caminha até a floresta.

BARBARA: - Ai meu Deus! Achei que seria estuprada e morta! Pensei que não encontraria ninguém nesse fim de mundo!

Corte.


Scully entra pela porta dos fundos, atenta e nervosa, mirando o rifle em cada canto da cozinha. Vai se aproximando pelo corredor, lentamente, até a sala. Vê Mulder machucado, amarrado, amordaçado e deitado atrás de algumas caixas. Scully corre até ele. Tira a mordaça. Começa a desamarrá-lo.

SCULLY: - (SUSSURRA) Mulder, você está bem?

MULDER: - (SUSSURRA) Como você me encontrou?

SCULLY: - (SUSSURRA) Depois eu explico.

MULDER: - (SUSSURRA) Levaram Krycek pra um quarto. Acho que o estão torturando.

Mulder se levanta, quase caindo. Scully examina a testa dele.

MULDER: - (SUSSURRA) Eu tô bem, Scully. Estou preocupado com o Rato.

Scully tira a pistola da cintura e entrega pra Mulder. Troca o cartucho do rifle.

SCULLY: - (SUSSURRA) Quantos são?

MULDER: - (SUSSURRA) Três.

Risadas altas. A porta da sala se abre. Mulder e Scully se escondem atrás das caixas. O Sequestrador #1 e o Sequestrador #3 entram empurrando Barbara, com as armas nas mãos.

SEQUESTRADOR #3: - Então tinha um maluco querendo estuprar você... Acho que bateu na porta errada, moça.

Barbara recua.

BARBARA: - (ASSUSTADA) Olha, por favor, não me matem...

SEQUESTRADOR #3: - A gente vai matar você. Mas primeiro vamos nos divertir.

SEQUESTRADOR #1: - É, vamos nos divertir.

Scully sai detrás das caixas mirando o rifle. Um deles tenta segurar Barbara, mas ela é mais rápida e corre pra trás de Scully.

SEQUESTRADOR #3: - Quem é você?

SCULLY: - Seu pior pesadelo. (AOS GRITOS) Armas no chão, mãos na cabeça e chamem o outro amigo de vocês!!! Ou vou estourar alguns testículos por aqui!!!!

Eles arregalam os olhos. Mulder, agachado atrás das caixas, faz cara de pânico.

SCULLY: - Barbara, como você gosta de estuprador de mulher? Cozido, malpassado ou ao ponto?

BARBARA: - Sem as bolas, Scully.

Mulder arregala os olhos, fazendo um "Uh!!!". Os dois sequestradores jogam as armas no chão, erguendo as mãos.

SCULLY: - Barbara chuta as armas pro meu lado. Não chegue perto deles!

Barbara, pés descalços, chuta as armas, depois pula num pé só.

BARBARA: - Ai meus dedinhos!!!

O Sequestrador #2 sai do quarto empurrando Krycek, todo machucado, com o olho roxo. Mira a arma na cabeça dele. Barbara arregala os olhos.

SEQUESTRADOR #2: - Solta a arma agora ou estouro os miolos do seu namorado!

SCULLY: - (IRRITADA) Por que todo mundo pensa que ele é meu namorado?

Mulder chega por trás e aponta a arma na cabeça do Sequestrador #2.

MULDER: - (IRRITADO) Joga a arma longe e coloque as mãos pra cima!!!!

O Sequestrador #2 obedece. Barbara corre pulando no colo de Krycek e envolvendo as pernas nele, quase o derrubando. Mulder e Scully arregalam os olhos.

BARBARA: - (ENCHENDO KRYCEK DE BEIJOS) Mi hermoso Ratoncito pensé que te había perdido!!! (MAIS BEIJINHOS) ... Estás bien? Estás muy herido? (REVIRA OS CABELOS DELE, A TESTA, PROCURANDO FERIDAS) Hum???

Mulder e Scully se entreolham segurando o riso.

KRYCEK: - (ENVERGONHADO) Barbara, para com isso! Não estamos sozinhos!

MULDER: - (DEBOCHADO) Você nunca me deu uma recepção dessas, Scully.

SCULLY: - (ERGUE A SOBRANCELHA) Você também nunca me deu um banquinho...

MULDER: - (CURIOSO) E o que você faria com um banquinho? Hum?

SCULLY: - (ENIGMÁTICA) Não sei, Mulder. Nunca ganhei um pra saber... Vamos achar cordas e amarrar esses caras.

Mulder vai empurrando os sequestradores. Barbara desce dos braços de Krycek. Scully entrega o rifle pra ela. Barbara, atrapalhada, resvala com as meias e quase cai de costas contra uma caixa.

A porta se abre num rompante. Barbara rapidamente segura o rifle nas costas. Dois russos com metralhadoras entram. Górki, o chefão, entra depois deles.

GÓRKI: - Larguem as armas.

Mulder coloca a arma no chão e levanta as mãos. Scully ergue as mãos. Barbara caminha de lado, disfarçando, ficando ao lado de Krycek, que envolve o braço nela, sentindo o rifle. Os sequestradores pegam as armas do chão.

GÓRKI: - Quem é Alex Krycek?

MULDER: - Eu. Eu sou Alex Krycek.

Scully olha incrédula pra Mulder.

KRYCEK: - Sou eu.

SEQUESTRADOR #1: - A gente não sabe até agora, eles não dizem a verdade!

KRYCEK: - Kak vas zovut?

GÓRKI: - Menja zovut Górki. Alex Krycek?

KRYCEK: - Da.

GÓRKI: - Russki? Amerikanski?

KRYCEK: - Russki.

Górki faz sinal para abaixarem as armas. Tensão. Sharapov entra.

GÓRKI: - Ele é Alex Krycek?

SHARAPOV: - Ele mesmo. Esse filho da puta... E o outro é o tal Mulder.

Krycek range os dentes de ódio.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ah! Agora reconheci você, o "desorelhado". Fica difícil reconhecer você quando não está no escuro de quatro pra mim.

Sharapov avança em Mulder, um dos seguranças de Górki o segura. Górki ergue a mão. Acende um cigarro e senta-se numa poltrona.

GÓRKI: - Vamos conversar como homens civilizados, Alexander. Temos alguns problemas para resolver. Você e seu amigo do FBI mandaram um amigo meu para a cadeia.

KRYCEK: - (ÓDIO) Eu mandei ele pra cadeia, Mulder nada teve a ver com isso. Aliás, agradeça ao Mulder porque eu ia matar esse filho da mãe! E espero que tenham servido o rabo dele lá dentro!

SHARAPOV: - (ÓDIO) Eu vou matar você, seu merdinha! Vou torturar você até a morte! Você está jurado desde a Sibéria! Vou matar você e essa bicha enrustida do seu amigo federal!!!

Mulder lança um olhar furioso. Scully se encosta nele.

GÓRKI: - (GRITA) Minutochku! Eu não sei o motivo da discórdia entre vocês e nem me interessa. Não vou tolerar qualquer ato contra um dos meus irmãos, entendeu Alex Krycek? Nós da Solntsevskaya Bratva não toleramos inimigos dos nossos amigos.

KRYCEK: - Você é um russo, sabe o que significa irmandade, "brat". Então deixe as mulheres e o meu amigo saírem daqui. O problema é comigo.

GÓRKI: - Não posso fazer isso. Seus amigos são do FBI.

KRYCEK: - Não são mais. Pode checar. O único policial aqui sou eu.

Scully observa tentando encontrar uma saída.

GÓRKI: - Podemos fazer um acordo. Eu deixo vocês irem, em troca você não mexe com os meus. É uma troca justa. Você não interrompe meus negócios em Washington, deixa Sharapov agir e eu não interrompo a vida de vocês.

Mulder olha pra Krycek.

KRYCEK: - Algum tempo atrás eu poderia fazer isso. Hoje eu não posso.

GÓRKI: - Péssimo dia para virar altruísta e aprender sobre caráter, Alex Krycek. Eu sei sua ficha. Era um matador de aluguel, um vendedor de informações, já esteve do lado em que estou. Conhece as ruas de Moscou, os becos sujos, as vadias, os traficantes... Você conhece o lado de dentro do esgoto. Por isso vou melhorar a oferta, de irmão pra irmão. Você continua sendo tira e trabalhando pra nós. É dinheiro que você quer? Todo policial quer dinheiro. Facilite meus negócios mantendo os tiras longe e eu vou recompensar você como um irmão russo recompensa o outro.

KRYCEK: - Não quero seu maldito dinheiro. Não quero você, nem sua máfia. Eu só quero a cabeça de Sharapov, isso é inegociável. Meu problema não é com você ou a máfia russa. Não agora. Se você fosse um russo decente entenderia o que está acontecendo aqui. É um ajuste de contas e você e a sua irmandade não tem nada a ver com isso. Essa pendência vem bem antes de vocês pensarem em existir nas ruas de Moscou! Vocês usavam fraldas ainda quando eu já tinha uma arma e esse filho da puta torturava soldados na Sibéria!!! Você não conhece as ruas de Moscou como eu conheci com o exército vermelho nelas! Vocês chegaram com o capitalismo, eu já estava me fodendo lá desde o comunismo! Então não venha me dizer que conhece as ruas de Moscou. Hoje elas estão livres e fáceis pra ganhar a vida!

GÓRKI: - Então temos um impasse, porque eu tenho ética e não posso entregar um dos meus homens. Além de que Sharapov é útil no meu esquema.

KRYCEK: - Útil para traficar mulheres russas. Como eu disse, meu problema agora não é você nem seu esquema de tráfico sexual, drogas, lavagem de dinheiro e armas.

SHARAPOV: - Me deixa matar esse desgraçado, Górki! Ele tem que pagar pelo que sofri na prisão!!!

KRYCEK: - (SORRI) Algum negão cafungou no seu cangote e chamou você de meu amor lá dentro? Ganhou uma tatuagem na barriga? Mulder, sabia que prisioneiros russos gays fazem tatuagem de olhos no estômago como forma de informar do que gostam?

SHARAPOV: - (PROVOCANDO) Acho que você nunca me esqueceu. Sente saudades do que fiz com você. Quer mais, não é? Seu homem aí do FBI não dá conta da sua bunda?

Mulder fica nervoso, olhando em desespero pra Krycek. Barbara fecha os olhos, temendo. Krycek cerra o punho. Barbara se agarra em Krycek que leva a mão às costas dela, tocando no rifle.

MULDER: - Ignora esse otário, ele quer provocar você! Não faz merda, Krycek! Por que não deixam as mulheres irem e vamos resolver isso como homens?

Górki se levanta, anda pela sala.

GÓRKI: - Por que suas mulheres mataram o Igor, meu braço direito. Nosso problema não foram os negros lá dentro da cadeia. Mas a Yakuza que jurou Sharapov de morte. E vocês sabem que temos sérios problemas com a Yakuza. Jogar um dos nossos no meio deles foi jogo sujo. Acirrou os ânimos. Tivemos que planejar uma fuga.

Krycek rapidamente puxa o rifle das costas e mira na cabeça de Górki. Os dois seguranças e os três sequestradores miram as armas em Krycek. Scully fecha os olhos.

GÓRKI: - Sabe que se atirar em mim, meus homens farão peneira de você e dos seus amigos. Pense duas vezes, Alexander.

KRYCEK: - Tem filhos, Górki?

GÓRKI: - Tenho. Dois garotos.

KRYCEK: - Idade.

GÓRKI: - Um tem 18 e o outro 21. Vai me poupar por ser pai?

KRYCEK: - Sabe que esse cara que você defende adora estuprar garotos? Era seu passatempo favorito na Sibéria, torturar soldados jovens, acusá-los de traição e jogá-los na prisão ou num gulag. Primeiro ele os prendia. Torturava com frio, choques elétricos, pancadas na sola dos pés e pegava sua cabeça e batia ela na parede até seu cérebro chacoalhar tanto que você desmaiava. Quando acordava, ele ainda estava ali, pronto para repetir a dose novamente, e assim se repetia todos os dias, até você implorar pela morte. Então, para completar a humilhação, ele os estuprava e depois torturava mais um pouco até matar. Eu só tive a sorte de não ser morto. Meu irmão das ruas de Moscou não teve nenhuma sorte.

Krycek, tomado de ódio desvia a mira para Sharapov. Mulder fecha os olhos e vira o rosto.

BARBARA: - Alex, pelo amor de Deus, não...

Krycek atira no meio das pernas de Sharapov que cai no chão, sangrando e aos gritos. Os homens de Górki miram os fuzis nele, Górki ergue a mão. Krycek se aproxima de Sharapov e encosta o cano do fuzil na testa dele. Barbara derruba lágrimas. Scully a abraça.

KRYCEK: - Eu dei uma chance pra você. A mesma que você não me deu quando estávamos na Sibéria. A mesma que negou ao Karel quando o matou de forma humilhante e dolorosa. Eu fiz isso porque alguém me deu uma chance também e me ensinou que a natureza das pessoas não muda. E a sua natureza é ruim, nunca vai mudar. Eu não vou torturar você, nem matá-lo do jeito que merecia, com requintes de crueldade, como fez comigo, porque eu sou melhor que você... Vai pro inferno Sharapov!

Krycek atira na cabeça de Sharapov. Sangue e miolos voam. Mulder morde os lábios. Krycek joga o fuzil no chão. Coloca as mãos atrás da cabeça.

KRYCEK: - Ok, Górki. Agora você tem um culpado maior. Solta os outros.

GÓRKI: - Eu continuo com um problema. Essas mulheres mataram o Igor, meu braço direito.

KRYCEK: - O que começou o seu problema eu acabei de matar, porque ele causou essa situação ocultando coisas do passado que você não imaginava.

GÓRKI: - Vou ter que ocultar dois corpos, não quero os tiras chafurdando essa merda toda. Acha que é crime?

KRYCEK: - Não vejo tiras por aqui.

GÓRKI: - Teve sua vingança, Alex Krycek. Foi justa. Tem coisas que nem criminosos perdoam, como tirar a honra de um homem. Ele passava finais de semana na minha casa, com meus meninos por lá, na minha confiança. Se fosse um filho meu, eu não daria chance alguma de redenção. Eu torturava e matava lentamente...

KRYCEK: - Ninguém muda a sua natureza, não é mesmo? Não foi vingança. Foi justiça.

GÓRKI: - (SORRI) Nos vemos por aí, Alexander. Em outros assuntos. Esse foi esquecido... Homens, vamos embora!

Górki sai, os homens o seguem.Krycek baixa os braços. Barbara fica abraçada em Scully, derrubando lágrimas. Krycek desliza as mãos ao rosto, olhando pra cima num alívio, soltando a respiração e tremendo. Mulder dá um tapinha nas costas dele.

MULDER: - Acabou, Krycek. Acabou.

KRYCEK: - (EM NERVOS/ TREMENDO) ... Eu consegui matar esse desgraçado, Mulder. Ele tentou me atingir, mas não conseguiu.

MULDER: - É. Eu vi.Senti orgulho de você. Um passado a menos para deprimi-lo e um traste a menos nas ruas para prostituir garotas inocentes.


2:21 A.M.

Mulder e Scully saem abraçados da casa.

MULDER: - Então você veio me salvar...

SCULLY: - Mulder, é que fiz as contas do seu seguro de vida e percebi que você vivo trabalhando vale mais que aquela miséria toda que iriam me pagar se você morresse.

MULDER: - Scully, como você é romântica, sabia? Quer um beijo, afinal você foi a minha heroína.

Barbara sai da casa, braços cruzados, cabisbaixa. Segue andando. Mulder e Scully a observam. Krycek sai da casa.

KRYCEK: - Scully, pode ir comigo buscar a minha picape? Eu não sei aonde vocês a deixaram.

Scully olha pra Mulder e sinaliza com a cabeça para Barbara. Mulder entende. Scully e Krycek entram na floresta. Mulder se aproxima de Barbara.

MULDER: - Você está bem?

BARBARA: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS) Não. Não estou mesmo.

MULDER: - ...

BARBARA: - (OLHA PRA MULDER/ SECA AS LÁGRIMAS) Ele me prometeu que nunca mais mataria ninguém. E o que fez lá dentro? Eu não estou com pena daquele russo estuprador e cretino, ele merecia morrer mesmo! O que me dói é que Alex quebrou a promessa.

MULDER: - Se ele não quebrasse a promessa nós estaríamos mortos.

BARBARA: - Não defenda seu amigo, Mulder. (SECA AS LÁGRIMAS) Eu sabia com quem estava me metendo. O ódio nos olhos dele... O olhar frio para matar... Deus, eu não conheço mesmo esse homem! Não é o mesmo com quem durmo!

MULDER: - Tenho uma péssima notícia pra você.

BARBARA: - ... Fala.

MULDER: - (SORRI) Você conhece ele melhor do que qualquer um. Dorme com ele. Dividir uma cama implica intimidade.

Barbara abaixa a cabeça.

MULDER: - E tenho outra péssima notícia pra você: Ele agora é policial. E se precisar matar, vai ter que matar. E matar canalhas, Barbara, não é o fim do mundo. Requer coragem pra ser um policial. Eu sei do que falo.

BARBARA: - Concordo que ele pode ter que matar, mas não como foi lá dentro. Não vi um policial lá. Vi um assassino frio!

MULDER: - Sabe que uma vez ele entrou no meu apartamento, mirou a arma na minha cara enquanto eu estava acuado no chão e pensei: "Ferrou! Hoje é o dia da minha morte e quem diria que o mesmo assassino do meu pai será o meu assassino." Então ele me entregou a arma e deu um beijo russo no meu rosto.

BARBARA: - ...

MULDER: - Hoje ele finalmente entendeu que a natureza das pessoas não muda.

BARBARA: - (TRISTE) É, não muda mesmo.

MULDER: - Górki, por exemplo, teria sido impiedoso. É da natureza dele ser impiedoso. Você ouviu ele dizer o que teria feito com Sharapov se fosse com um dos filhos dele.

BARBARA: - (PENSATIVA) ...

MULDER: - Já Krycek... Atirou na cabeça. Foi rápido. Fez justiça. Acho que entende o porquê do outro tiro. Esse foi por vingança, mas ele não sabe disso conscientemente.

BARBARA: - Acha que agora Alex vai tirar um peso dos ombros?

MULDER: - Acho que quando ele apertou o gatilho ele matou as lembranças ruins e fez justiça ao amigo. Ele não vai se arrepender disso. E não se preocupe. Ele não vai voltar para o Sindicato das Sombras.

BARBARA: - Como tem certeza disso?

MULDER: - Ele me falou. Acho que posso acreditar num sujeito que levou três tiros pra me salvar da morte. Como eu disse, ninguém muda a sua natureza. Pode errar, pode até sair dos trilhos, fazer muita merda, mas a natureza fala mais alto.

Barbara respira fundo. Olha para as estrelas. Mulder olha pra cima também.


3:14 A.M.

Krycek dirige pela estrada escura. Barbara ao lado dele, em silêncio. Mulder agarrado em Scully no banco de trás, olhando preocupado pra ela.

MULDER: - Seu rosto está inchando. Eu queria ter socado o cara que bateu em você.

SCULLY: - Já está no inferno. Pior é a dor que estou na cabeça, acho que ele arrancou um tanto de cabelo.

MULDER: - Ele merece o inferno por ter feito isso com você. Minha doce baixinha Scully com uma AK 47 na mão, enfrentando a máfia russa na cara e coragem e botando marmanjo com as mãos pra cima... Mulher, eu já disse que te amo? Você salvou a minha vida mais uma vez. Por isso eu digo que as baixinhas são perigosas. Quando você gritou com aquele fuzil na mão, dentro daquela casa, dizendo que ia sair estourando testículos... Pensei, melhor sair da frente, vai que eu fiz alguma coisa da qual não lembro...

Krycek começa a rir.

SCULLY: - Não ria, Alex. Porque quem atira bem em testículos é a Barbara. Fique esperto!

KRYCEK: -Sério? Foi ela quem atirou no Igor?

SCULLY: - Com precisão!!! Fora que derrubou ele na frigideirada, na dentada...

MULDER: - (PÂNICO) Ui! Essa mulher é um perigo! Vocês duas juntas então... É o que eu falo sobre as formigas. Tenta encarar um formigueiro de baixinhas revoltadas...

KRYCEK: - Bom saber, vou me cuidar.

BARBARA: - É, acho bom mesmo porque a sua conta extrapolou o crédito aqui.

Krycek olha incrédulo pra ela. Mulder morde os lábios.

MULDER: -Rato, acho melhor você dormir na casa do cachorro hoje.

KRYCEK: - Não tenho cachorro.

BARBARA: - Não seja por isso. Vou comprar um Rottweiler, agora tenho um quintal. Vou chamá-lo de Rambo.

Scully morde os lábios e vira o rosto, quase rindo. Mulder segura o riso.

KRYCEK: - O que foi que eu fiz, pode me explicar? Você está com esse beiço desde que escapamos de morrer! Queria ter morrido? Se eu não atirasse naquele filho da mãe, estaríamos todos mortos pela máfia! É por isso que está com essa cara pro meu lado?

BARBARA: - Nem só por isso e não fala comigo, Alexander Dimitri Yavanov Krycek!

MULDER: - Uh! Nome completo de um homem na boca de uma mulher nunca é bom sinal! Ou é briga ou ela tá abrindo um crediário numa loja.

Krycek olha incrédulo pra ela.

MULDER: - Pela cara de espanto dele é a primeira briga.

SCULLY: - Mulder! Pare de se intrometer, seu fofoqueiro!

MULDER: - Scully... Eu não lembro da nossa primeira briga.

SCULLY: - Provavelmente foi naquele porão no primeiro dia em que botei os pés lá.

MULDER: - Não falo profissionalmente. Falo como casal.

SCULLY: - Também não lembro. Mas certamente o culpado foi você.

BARBARA: - Com certeza. A memória deles é curta. Sabe a coisa das caixinhas? Quando não estão na caixinha do sexo ou do esporte, estão na caixinha do nada. E o cérebro da gente dando curto circuito com tanta porcaria que eles fazem.

Krycek estaciona a picape no acostamento. Arruma o banco empurrando pra trás.

KRYCEK: - Ok, quer discutir? Vamos discutir. Primeiro: Quando usar a minha picape e puxar o banco pra frente, porque seus pés não alcançam os pedais, depois faça o favor de colocar o banco no lugar porque é um inferno dirigir espremido.

Mulder olha pra Scully com deboche.

MULDER: - Tá vendo? Quando eu digo isso você me chama de machista.

Scully empurra ele.

BARBARA: - Sim, senhor. Eu sou a culpada de você escolher um caminhão enorme desses pra dirigir, onde eu tenho que subir tomando impulso e me segurando na porta! Da próxima vez que sequestrarem você, eu vou fingir que não vi, ao invés de sair feito uma louca pelas ruas tentando não perder de vista aquele furgão! Eu apanhei de um mamute de mais de dois metros, quase fui estuprada, meus pés estão cheios de bolhas, quebrei meu sapato favorito, tô ficando com a cara e os lábios inchados da surra, atirei num cara, vi ele morrer, depois assisti você matando outro cara, mas quem liga? Fora as galinhas!

MULDER: - Que galinhas?

BARBARA: - As galinhas tadinhas, o cara que joguei gasolina ameaçando torrar vivo, as meias furadas, minha saia rasgada... E fora outras coisas que Scully e eu passamos e tivemos que fazer pra encontrar vocês.

Mulder faz cara de pânico. Scully olha pra Krycek com raiva.

MULDER: - (CURIOSO) Que outras coisas vocês fizeram?

SCULLY: - (CORTANTE) Nada, Mulder.

KRYCEK: - Eu tô uma pilha de nervos, tá legal? O que aconteceu hoje mexeu comigo. É a porra da minha vida, Barbara! A merda que estou tentando enterrar! Desce do carro. Quer discutir, vamos lá pra fora. Mulder e Scully não tem que ficar ouvindo isso.

Krycek desce batendo a porta. Barbara desce. Os dois caminham um pouco e ficam à frente do carro, iluminados pelos faróis. Discutem. Krycek gesticula, Barbara também. Gritam um com o outro. Mulder leva o braço atrás de Scully, que se recosta nele e ele recosta a cabeça na dela, enquanto assistem a briga.

MULDER: -Esses dois brigando lembram você de alguma coisa?

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: - Tem saudades dessa época? Em que a gente brigava por qualquer coisa?

SCULLY: - Não mesmo. Bom, ainda nem tudo são flores.

MULDER: - Concordo. Agora tem pimenta pra temperar. E você acha que só a gente tem problemas...

SCULLY: - Ela precisa desabafar. Você não sabe da missa um terço, Mulder.

MULDER: - Desde quando virou defensora da minha "amante", Scully?

SCULLY: - Você tinha razão. Barbara é legal e não é nada do que pensei. Essas horas em que estivemos juntas, atrás de vocês... A gente conversou muito, viveu um pesadelo juntas, podíamos ter morrido, uma defendeu a outra... Esse terror pelo menos serviu pra que eu a conhecesse melhor. Ela é uma boa pessoa. E sinceramente, mulher demais pra esse imbecil machão!

MULDER: - Uh! Me diz que não ficou com aquele rifle para estourar testículos por aí.

SCULLY: - Não provoque e não defenda seu amigo, ok? Ela passou por tanta coisa e nem ao menos ouviu dele um obrigado. Ainda bem que você não é assim. Pelo menos eu tenho um marido agradecido pela mulher que tem.

MULDER: - E eu agradeço todos os dias por ter uma mulher como você, Scully. Eu vou falar com ele. Vamos continuar conversando como amigos, mas vou puxar a coisa para o lado psicólogo-paciente também, vou tentar ajudá-lo a enxergar algumas coisas, mas precisa de paciência. Não é da noite pro dia que uma pessoa vai resolver seus conflitos internos. E Krycek tem muitos anos de conflitos... Pelo menos ele mostra vontade de mudar.

SCULLY: - Barbara me contou coisas do passado dele, ok? Por isso não fiquei surpresa quando ele matou aquele desgraçado, porque se fosse comigo, eu matava. Só espero que você consiga ajudar Krycek, sei que ele precisa de ajuda e ela tá apaixonada. E sofrendo com as atitudes dele.

MULDER: - Ela me falou. Já combinei de conversar com ele. Krycek tá apaixonado por ela, Scully, ele me falou e eu posso dizer isso porque acompanhei o processo todo da coisa. Não sabe quantas vezes provoquei ele pra cair em cima dela. Eu percebi que Barbara estava interessada nele, vivia perguntando coisas dele pra mim. E eu resolvi dizer pra ele, mas o idiota achava que ela não tava a fim e um dia resolveu agarrá-la e tomou um tabefe na cara.

SCULLY: - (RINDO) Sério? A Barbara deu um tapa nele? Ai, queria ter visto a cena!

MULDER: - Se eu contasse que ele me aborreceu por dias tentando entender por que levou um tapa, que ela não gostava dele, que eu tinha mentido pra ele... Até que depois de tudo o que falei, Krycek entendeu que existem mulheres sérias, que mesmo gostando do sujeito, elas se dão ao respeito, preferem esperar antes de ir aos finalmentes. Vai condenar o cara? Olha o tipo de mulher que ele teve a vida toda! Ele tá aprendendo, Scully. Isso demora.

SCULLY: - Nesse caso Alex teve mais sorte que você. Sete anos, Mulder?

MULDER: - (SORRI APAIXONADO) Não me arrependo nunca de ter respeitado você. Se eu tivesse avançado o sinal perderia tudo, incluindo a amiga. E acho que morreria esperando por você.

SCULLY: - (SORRI APAIXONADA) Mulder, meu cupido... Adoro esse seu lado de querer ver as pessoas felizes.

MULDER: - (SORRI) Eu sou feliz com você, gostaria que todos tivessem a sorte que eu tive. E fico feliz que vocês duas estejam se entendendo. Quando eu digo que o seu ciúme doentio faz você perder possíveis amigas, Scully...

SCULLY: - Não tem mais ciúme doentio, Mulder. Jurei pra você que isso vai mudar. Concordo agora com o que você sugeriu. Você fala.

MULDER: - É... Mas vai depender de como eles vão entrar nesse carro. Eu entendo que ela tá segurando uma barra enorme com o Rato. Ele está realmente atordoado com tudo isso. O problema é que eles não percebem...

SCULLY: - Mulder, por favor, não me diz que também vai virar terapeuta de casais, porque daí eu vou começar a ganhar a vida dublando a Madonna!

MULDER: - (TARADO) Uh! Eu nunca estive na cama com a Madonna... Hum??? Topa?

SCULLY: - (SORRI ENIGMÁTICA) ... Eu também nunca estive na cama com o Mick Jagger.

MULDER: - Se o seu problema é rock, Scully, a gente resolve isso rapidinho!

Krycek entra no carro. Barbara entra. Krycek dá a partida e toma a estrada. Silêncio absoluto.

MULDER: - (DEBOCHADO) Rato, eu tenho uma proposta pra vocês dois. Que tal a gente fazer uma troca de casais?

KRYCEK: - No mesmo quarto ou em quartos diferentes?

Barbara arregala os olhos. Scully balança a cabeça negativamente, num suspiro. Krycek e Mulder começam a rir.

SCULLY: - Mulder, para de palhaçada e fala! Alex, não alimenta o monstro porque senão vai ouvir piadinhas idiotas a noite toda!

KRYCEK: - Acho que a Barbara se assustou. Ainda não está acostumada com as piadas do Mulder.

BARBARA: - Vou ignorar vocês dois!

SCULLY: - Faça isso pra ter sanidade mental... Mulder e eu vamos nos casar. De novo. De outra maneira. Algo como pra reiterar o nosso amor.

MULDER: - É. Skinner vai ser padrinho, foi ele quem juntou a gente. Então pensei em convidar você também. Afinal de contas, se não fosse você, Scully e eu nunca teríamos descoberto a verdade do que fizeram com ela... Você foi o responsável pela gente voltar a ser um casal.

KRYCEK: - Viu como um amante recupera o casamento?

Mulder começa a rir. Scully o encara.

MULDER: - Agora não fui eu! Briga com ele!

SCULLY: - Barbara, quero você de madrinha com a Ellen, pode ser?

BARBARA: - Claro, Scully. Fico honrada em ser madrinha de um casal como vocês dois. Um casal perfeito, que se ama... Se perdoa... Trocam confidências. Choram um no ombro do outro. Não escondem nada um do outro... Acho que isso é amor de verdade. Pensei que só existisse nos livros.

Scully morde os lábios.

BARBARA: - Mulder, escreve a história de vocês dois e publica. Eu não entendo ainda o que você faz que não virou um escritor com tanta coisa pra contar! Vocês viveram cada coisa estranha, viram coisas estranhas, monstros, alienígenas... Mulder pensa sério. Eu ajudo você, faço fotos, edito, faço a publicidade, o marketing, tenho amigos em revistas, jornais e televisão, arrumo umas palestras. Byers também é editor, eles tem uma editora! Você está com a faca e o queijo na mão. Pode ficar famoso e ganhar seu público porque tem público pra isso. Mas se ficar famoso lembra de mim, tá? Preciso arrumar mais trabalho.

KRYCEK: - Concordo com a Barbara. Vai ganhar mais que sendo detetive particular.

MULDER: - Se vender, não é mesmo?

BARBARA: - E você ainda duvida que vai vender? Mulder, por favor! Eu aposto que vira um best-seller na primeira semana!

SCULLY: - Gostei da ideia. Mulder, você tem jeito pra isso.

MULDER: - Tá dizendo que tenho genes pra isso.

KRYCEK: - É, seu querido pai escritor... O mesmo que me vendeu a promessa de cantar algum dia e tudo que ganhei foi uma arma e uma lista pra matar e ferrar...

MULDER: - Rato, eu se fosse você me vingava. Comprava uma Harley, colocava uma bandana na cabeça, óculos escuros, pegava uma guitarra e fazia uma banda de rock.

KRYCEK: - Eu não canto rock, Mulder.

MULDER: - Os tempos mudam, não? Até eu vou ter que virar o Mick Jagger!

Scully dá um safanão em Mulder.

MULDER: -(PÂNICO) Au!


4:31 A.M.

Krycek entra com o carro no pátio de Barbara. Eles descem.

MULDER: - Finalmente em casa!

SCULLY: - Só quero um banho quente e relaxante, meu travesseiro e espero não ter pesadelos.

BARBARA: - Duas.

Mulder puxa Krycek pelo braço pra um canto.

MULDER: - Ainda tá fazendo aula de dança?

KRYCEK: - Por quê? Vai fazer piadas sobre isso?

MULDER: - Preciso de um favor daqueles que só amigo pra fazer.

KRYCEK: - Que favor, Mulder?

Mulder coloca o braço nele e cochicha alguma coisa. Scully e Barbara olham desconfiadas. Krycek coloca as mãos nos bolsos, rindo. Mulder se afasta.

MULDER: - Boa noite pra vocês... Krycek? Hum?

Krycek num sorriso sacana afirma com a cabeça.

BARBARA: - Boa noite pra vocês e Scully... Obrigada por tudo. Por salvar minha pele. Devo aquele jantar.

SCULLY: - Eu trago a sobremesa. Obrigada você. Foi uma ótima parceira e me salvou também. Se não tivesse sido esperta e escondido aquele rifle... Alex nunca teria nos tirado dessa. Estou feliz por voltar pra casa e ver minha filha. Obrigada de novo, Barbara. E se precisar, atravessa a rua, tá?

Mulder e Scully saem. Atravessam a rua, abraçados, indo pra casa. Barbara sorri olhando pra eles. Krycek se recosta na picape. Barbara pega os sapatos e a bolsa de dentro do carro. Procura as chaves. Abre a porta lateral da casa.

BARBARA: - Não vai entrar?

KRYCEK: - Acho melhor ir pra casa. Não sou boa companhia hoje.

BARBARA: - ... Um chá pelo menos?

KRYCEK: - Não, obrigado...

Krycek abre a porta do carro. Ameaça entrar. Então fecha a porta. Respira fundo. Olha pra Barbara.

KRYCEK: - Aceito um café.

Barbara entra.

Corte.


Barbara larga a bolsa sobre o balcão da cozinha, mas segura os sapatos. Pilhas de caixas espalhadas. Algumas almofadas sobre a mesa de jantar. Bagunça de mudança. Krycek entra. Barbara atira um dos sapatos nele, que passa rente a orelha de Krycek que olha pra ela assustado.

BARBARA: - (FURIOSA/ AOS GRITOS) ¡Bastardo, desagradecido, infeliz! ¡Quiero matarte! Quiero golpearte en la cara, quiero golpear tu cabeza en el suelo para ver si aprendes algo, hijo de puta, casi me muero hoy para salvarte y ¿qué haces? Todavía pelea conmigo!

Barbara atira o outro sapato. Krycek desvia. Barbara, furiosa e histérica, começa a jogar as almofadas nele. Procura mais coisas pra jogar, mas não encontra. Joga a bolsa. Krycek a agarra por trás, prendendo os braços dela, a segurando suspensa do chão. Ela se debate, furiosa, mexendo as pernas no ar tentando se desvencilhar.

BARBARA: - (FURIOSA/ AOS GRITOS) ¡Suéltame, bruto, ignorante, gilipollas! Quiero golpearte!!!

KRYCEK: - Eu não estou entendendo nada do que você está falando garota! Por via das dúvidas, melhor segurar você!

BARBARA: - (FURIOSA/ AO GRITOS) Me solta, seu brutamontes! Pra sua sorte, as minhas coisas todas ainda estão encaixotadas, inclusive a frigideira, porque eu quero bater na sua cara, seu machão idiota!!! Eu quero esmurrar você! Eu quero socar você, bater, triturar e arrancar seus pedaços!

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) Primeiro se acalma. Depois eu solto você.

Ela continua se debatendo, esperneando e tentando se soltar. Ele a mantém firme.

BARBARA: - (FURIOSA/ AO GRITOS) Vou dar um chute nas suas bolas!!!!!!!!!

KRYCEK: - (CALMO) Não desse ângulo. Acha que sou estúpido de agarrar você pela frente? Quer se acalmar?

BARBARA: - (IRRITADA/ AOS GRITOS) Me acalmar??? Não vai adiantar sorrisinho charmoso hoje! Vou quebrar os seus dentes!!! Vou esfolar você, tirar seu couro de rato cretino e pendurar como troféu na minha parede!!!!

KRYCEK: - (CALMO) Vai, põe toda a raiva pra fora. Quando cansar, eu solto.


Residência dos Mulder - 4:57 A.M.

Scully de camisola, deitada de lado na cama. Mulder abraçado nela. Ela com a mão sobre a mão dele, o acariciando.

SCULLY: - Como assim, Mulder?

MULDER: -Eu somo a isso o medo de ser subjugado novamente. É tão grande que você perde a reação. E a tortura física também... Quando os caras nos atiraram lá, Krycek disse pra mim com medo na voz: Mulder, eles são russos. Torce pra que esses caras não me entreguem pra Sharapov, porque eu prefiro ser morto a passar por tudo novamente. Me promete que se o pior estiver pra acontecer, você me mata antes, porque eu não vou suportar isso de novo.

SCULLY: - ... Eu juro que senti pena do Alex enquanto ele se humilhava contando esse segredo tão íntimo para o líder da Bratva na frente de todos, e na minha frente, porque ele não sabia que eu já estava sabendo. Foi inteligente da parte dele, porque um homem não admite uma coisa dessas, por mais bandido que seja. Não fosse a humilhação dele em contar a verdade, a gente tinha morrido. Acho que se Barbara e eu passamos coisas terríveis com aquele Igor até chegar em vocês, Alex salvou as nossas vidas. Incluindo que não terei que responder por matar um homem.

MULDER: - Eu disse ao Krycek que admirei a reação dele quando poupou o cara daquela vez, porque eu mataria se um filho da puta tivesse feito isso comigo. E fui pronto pensando que teria que ajudá-lo a derrubar o cara e enterrar o corpo. Mas ele aprendeu o perdão. E teve razão quando disse hoje, coisa ruim não tem jeito mesmo, nem perdoando se redime. Isso me fez entender que agora ele também entende o valor da segunda chance, o suficiente pra não errar mais.

SCULLY: - Ia se meter em encrenca por causa do Alex?

MULDER: - Um amigo fiel vale uma encrenca. Eu sempre me coloco no lugar das pessoas pra entender. Eu não gostaria de ter que enfrentar sozinho meu algoz, ainda mais dentro da situação que aquilo envolvia. E não estava errado, o filho da mãe tentou o tempo todo fazer Krycek surtar e desabar emocionalmente para rendê-lo e o matar. Se eu não estivesse ali, ele teria conseguido. Você viu o tamanho do tal Sharapov, precisa de dois caras grandes pra derrubar aquela fera. E olha que Krycek e eu não servimos pra baixinhos.

SCULLY: - Por que você não viu a fera que Barbara e eu sofremos pra derrubar, não ficou longe disso e nem sei como a gente conseguiu! Se eu não matasse aquele cara, ele nos mataria, depois de nos estuprar sem piedade alguma.

Mulder sorri, dando um beijo no ombro dela.

MULDER: - Baixinhas e perigosas... Agora amigas... Acho que Krycek e eu vamos ter que andar na linha de agora em diante... Vocês duas juntas "estourando" testículos por aí...

Scully ri.

MULDER: -Só espero que agora Krycek consiga superar essa parte do passado, porque o fantasma tá morto, esse não incomoda mais. E eu não estou dizendo que será num estalar de dedos. E se eu sentir que não estou conseguindo, vou passar ele pro meu professor, que ficou interessado no caso. Ele estuda os efeitos e consequências traumáticas da violência silenciosa dentro das organizações militares. Alguma medicação vai ter que entrar nessa jogada, porque Krycek não tem dormido e estou percebendo sinais suicidas. Avisei Barbara pra ficar de olho nele.

SCULLY: - Barbara falou tanta coisa comigo. Eu entendo que você me escondeu tudo por questões profissionais. E acho sim que você deve continuar ajudando ele, o que pudermos fazer por eles... Lembra como você me ajudou com aquela culpa que eu tinha em me entregar e sentir prazer? Eu sei que você reluta, se acha um alienígena que nada sabe da espécie humana, mas Mulder você é muito humano e sempre teve jeito pra ganhar a confiança das pessoas e fazê-las se abrirem com você. Psicologia cai pra você como uma luva! Imagina Alex Krycek contar isso tudo pra você, que é homem, não deve ter sido fácil, mas ele sentiu confiança pra fazer. Eu estava pensando se não devíamos alugar uma sala dupla. De um lado a agência de detetives, do outro, o Dr. Mulder, psicólogo.

MULDER: - (SORRI) Acha mesmo?

SCULLY: - Eu acho que o FBI perdeu um agente. Em compensação o mundo ganhou um detetive, um psicólogo e por que não um escritor? Gostei da ideia da Barbara.

MULDER: - Eu só vou entrar nessa do livro se você entrar comigo.

Mulder beija o ombro dela. Scully sorri.

SCULLY: - Não sabe fazer nada longe de mim, não é mesmo, Mulder?

MULDER: - Até sei, mas... Não é divertido, Scully.

SCULLY: - Sabe, engoli minha língua hoje. Ela não é nada do que eu pensava. E eles tem mais em comum do que eu imaginava. Acho os dois um casal bonito e perfeito.

MULDER: -No fundo, você não a conhecia e não conhecia o passado do Krycek, ou teria visto isso também. Acredito que só as baixinhas, com seu charme e seu sangue quente e invocado, conseguem tirar um homem da escuridão em que vive, o tornam humano, resgatam o sujeito da lama e do inferno, fazendo com que esqueça seu passado traumático, seu ódio e sua solidão mostrando que a vida existe e pode ser maravilhosa.

SCULLY: - Psicologia?

MULDER: - Não. Experiência própria.

Scully sorri. Vira-se pra ele. Mulder toma o rosto dela com a mão, os dois olham-se nos olhos, apaixonados.

SCULLY: - A baixinha não fez isso. Foi seu esforço próprio, Mulder.

MULDER: - A baixinha trouxe a luz dela pra iluminar o caminho escuro. Acha pouco? Se sou o homem que sou hoje, é porque tive você do meu lado suportando tudo. Se aquela noite, naquela cabana no Himalaia, nunca tivesse acontecido, posso dizer com certeza que eu não estaria mais aqui, há muito tempo. Ou teriam me matado... Ou eu teria feito isso. Obrigado pela vida, minha vida.

Mulder a beija suavemente. Scully retribui. Os dois se afastam os rostos. Scully com os olhos marejados. Mulder sorri pra ela. Beija-a na testa.

MULDER: - Eu te amo, baixinha.

SCULLY: - Eu te amo, Mulder. E não sou baixinha. Você que é alto demais. (SORRI) Bons sonhos, meu poste de luz.

MULDER: -(SORRI) Vou comprar seu banquinho.Bons sonhos, minha heroína pintora de rodapé.

Scully vira-se de costas pra ele, sorrindo e fechando os olhos. Se aninha contra ele. Mulder fecha os olhos, colocando o braço e a perna por cima dela.

MULDER: -... Scully, da próxima vez, usa alguma roupa de couro justa e curta com as pernas de fora e os peitos à mostra, enquanto segura um rifle de artilharia pesada e ameaça estourar as bolas da máfia inteira.

SCULLY: - (RINDO/OLHOS FECHADOS) Mulder, você quer que eu salve você ou que o excite?

MULDER: - (SORRI/ OLHOS FECHADOS) Dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo, Scully?


Residência de Barbara Wallace - 4:58 A.M.

Barbara respira fundo e desiste. Krycek a solta. Barbara puxa uma cadeira, senta-se. Coloca os cotovelos na mesa e as mãos no rosto. Krycek puxa outra cadeira e senta-se também.

KRYCEK: - Embora não pareça, eu sou uma pessoa tímida. Sempre fui um garoto quieto, com dificuldades para fazer amizades e dizer o que pensava e o que sentia. Minha mãe tinha que adivinhar se eu tinha problemas, porque eu não contava nada pra ela. Uma vez tomei uma surra de um garoto na escola, cheguei em casa com o olho inchado e quando ela perguntou, eu disse que caí. Na minha cabeça, os meus problemas são coisas a serem resolvidas por mim mesmo, eu não preciso envolver os outros nisso.

BARBARA: - ...

KRYCEK: - Para expor sentimentos então... A dificuldade é maior. Eu não sou como você Malyshka, que consegue expressar o que sente por mim na frente dos outros. É o meu jeito. Eu não agradeci você por ter salvo minha vida, por ter se importado comigo, não porque eu não reconheça isso ou por que eu seja machão demais pra reconhecer que uma mulher tenha livrado a minha pele.

BARBARA: - Mas Alex, estávamos entre amigos! Acha que alguém ia rir de você por demonstrar sentimentos? Tá, Mulder ia fazer piada... Mas sabe que ele faria piada porque na verdade ele quer ver a gente juntos e felizes. Mulder nos uniu!

KRYCEK: - Não me importo com as piadas do Mulder, eu gosto quando Mulder faz piadas, ele alivia o clima, por pior que esteja. Só que eu não sou o Mulder, que consegue expressar na frente dos outros o amor que ele tem pela mulher. Acho legal, mas não consigo. Estava esperando a gente ficar sozinho e então dizer o quanto senti orgulho de você e o quanto sou agradecido pelo que fez e que, na minha cabeça, foi uma prova de amor das mais malucas para se dar a alguém. Você colocou sua vida em risco por mim, enfrentou a máfia russa sem nem mesmo saber usar uma arma. Isso me soa amor incondicional. E sinceramente, eu não merecia isso. Mas agradeço tanta importância no seu coração.

BARBARA: - Eu faria tudo de novo pra salvar você.

KRYCEK: - Eu sei que faria. Só quero que saiba, que eu faria também.

BARBARA: - Eu sei, você já o fez. Ratoncito, o problema todo nem é esse. Eu sinto na maior parte das vezes que não somos um casal. E não é da minha parte. Eu tento interagir com você, mas você fica com essa parede impenetrável ao seu redor, tudo o que você diz é como foi o seu dia, mas não diz nada sobre o seu trabalho, sobre o que está sentindo, o que está perturbando você, o que se passa nessa cabecinha angustiada. Poxa vida, eu só quero dividir tudo com você, entende? Eu não quero ser a princesa da vida perfeita que espera o namorado pra fazer amor, pra trazer presentes, dançar, jogar sinuca e só curtir as coisas boas do relacionamento e deixar você ser o sapo que só carrega os problemas e a sacola de compras!

KRYCEK: - Barbara, mas eu sou assim.

BARBARA: - Alex, isso é cultura machista, não entende? Você é o homem, só você resolve as coisas, homem não tem direito de chorar, de falar dos problemas com a mulher...

KRYCEK: - Barbara, não é isso, não é cultura machista, eu não sou machista. Admito que banco o machão, mas nunca com mulher! Quando fui machão com você, ahn? Aliás, foi você quem me deu um tapa na cara, lembra?

BARBARA: - E bem merecido, seu avançadinho. Me prensou na parede, cheio das mãos bobas e das más intenções! Achou que eu ia liberar minha periquita pra você assim do nada, na primeira?

Krycek leva a mão aos lábios, segurando o riso.

BARBARA: - Eu não falo das ações, falo das atitudes. Do seu comportamento de "eu sou macho, eu carrego o fardo". Eu sei que lava a louça, lava a roupa, cozinha pra mim, limpa a casa e admito, você é melhor dona de casa do que eu! Até é chato com tanta organização e com a coisa: espera aí, já vou assistir televisão, não gosto de deixar louça suja na pia!

KRYCEK: - Barbara, é o meu jeito. Tá na minha cabeça resolver as minhas coisas sem meter os outros no meio disso.

BARBARA: - Concordo com você, mas eu não sou os outros, entende? Ou sou? O que realmente você sente por mim?

KRYCEK: - Barbara...

BARBARA: - Alex, me escuta. Eu não estou cobrando nada de você. Eu sempre soube que você não me amava. Sua cabeça ainda está na Marita Covarrubias e...

KRYCEK: - (SORRI/ INCRÉDULO) Quê? Barbara, eu nem sei se amava a Marita, eu sou tão lento pra essas coisas que quando a ficha caiu, eu a perdi...

BARBARA: - E eu disse que sabia que você não me amava e que eu não me importava, eu queria tentar. Falei ou não?

KRYCEK: - Sim, você deixou bem claro e eu deixei bem claro que não amava você. E mesmo assim a gente resolveu namorar pra ver no que dava.

BARBARA: - Então concordamos nisso. Eu não posso pedir que você me ame. Mas tudo o que peço é que pelo menos faça parte dessa relação que você aceitou. Eu não estou aqui só pra ficar bonita pra você, só pra esperar você chegar com um presentinho. Eu não sou mulher de vitrine, uma coisinha frágil que fica exposta e intocável. Eu sou mulher participativa. Eu quero dividir tudo com você, até seus problemas. Eu quero ajudar você. Estou do seu lado, sei o quanto você está lutando pra voltar a ser quem de fato você era, lutando pela sua natureza boa, perdida nos percalços dessa vida ingrata que você levou.

KRYCEK: - ...

BARBARA: - Eu não quero apenas as suas risadas, eu quero também as suas lágrimas, os seus problemas, a sua cabeça confusa. Eu quero o pacote inteiro e sei que posso lidar com isso. Mas como posso ajudar você, se nem sei o que está pensando? Muitas coisas incomodam você, eu sei, você simplesmente sai do ar, fica perdido em algum pensamento, lembrança... Se tranca no banheiro por horas, como quem se esconde de mim para não mostrar que está triste. Eu não quero isso. Eu não quero que esconda sua tristeza de mim. Seus conflitos internos... Eu só penso que um desabafo nos braços da namorada, que o ama e o compreende, pode resolver muito mais do que ficar sofrendo sozinho. Pelo menos, pra namorada aqui, quando ela precisa, mesmo que o namorado não a ame, isso resolve pra ela, pois dois sempre pensam melhor do que um.

Krycek se levanta. Pega as chaves do carro no bolso. Barbara olha pra ele, segurando as lágrimas, olhando pras chaves na mão dele.

KRYCEK: - (VOZ EMBARGADA) O sujeito passa na frente de uma joalheria e vê uma joia linda e rara. Ele fica parado ali, admirando, bobo, encantado. Fica apaixonado, nunca viu nada igual na sua vida. Até o mais idiota notaria a qualidade superior daquela joia. Ele sente desejo de ter aquela joia. Então coloca as mãos em seus bolsos e tem a certeza de que ele não tem condição alguma para tê-la. Ela não pertence ao mundo dele. Aquela joia rara deve ser pra alguém do mundo dela. Alguém que terá aonde exibi-la, como cuidar dela devidamente, com todo o apreço que uma joia rara merece ter. Tudo o que ele pode fazer é admirar, sonhar como seria ter aquela joia e voltar à realidade do seu mundo.

BARBARA: - Eu não sou uma joia.

KRYCEK: - Sim, você é. A joia mais linda, mais perfeita e mais valiosa que meus olhos já viram. Mas eu não tenho cacife pra ter você. Nem direito de desejar. Você merece alguém melhor, digno de ter uma joia rara. Não perca seu tempo comigo. Não culpo você. Nem eu quero mais perder tempo comigo. Minha cabeça já ferrou. Eu posso pedir perdão pra Marita no lugar aonde ela morreu porque não pude enterrá-la. Posso até matar Sharapov pelo que fez comigo e com Karel. Mas eu não posso mais conviver com a dor que eu sinto, a culpa que eu sinto, os traumas na minha cabeça e menos ainda machucar você com meus problemas emocionais. Luz precisa de luz, não de trevas. Do contrário, a luz se apaga. E isso eu não quero. Nenhuma luz mais vai se apagar por minha causa. A sua menos ainda.

Barbara derruba lágrimas olhando pra ele.

KRYCEK: - Eu... Eu me tranco no banheiro porque eu quero me matar. Na verdade, eu não sei porque tive uma segunda chance, eu deveria ter morrido naquele dia em que salvei o Mulder. Todo o meu esforço pra ser uma pessoa decente é proporcional a minha culpa pelas coisas que eu fiz. Eu confesso, tenho uma arma com uma bala guardada no banheiro. E é isso o que fico pensando em fazer quando me tranco lá. Culpa e arrependimento que não consigo mais aguentar.

BARBARA: - Meu Deus, Alex! Há meses eu ali olhando pra aquela porta sem querer ser intrometida, mas preocupada com você... A qualquer momento eu poderia ter que arrombar a porta e descobrir você morto? Droga, Alex! O que impediu você até agora? Se tivesse dito tudo isso antes pra mim, eu o ajudaria!

KRYCEK: - Do que adiantaria dizer pra você ficar preocupada como ficou agora? Não consigo vencer minha cabeça, entende? Tudo tá lá dentro, vai e volta e... Malyshka, não chore por mim, nem as suas lágrimas eu mereço. Eu... Eu olho para os nossos amigos aí na frente e sei que eles me perdoaram. Não duvido do perdão deles. O que eles não sabem é que quando olho para eles, eu olho para trás e não me perdoo por ter sido uma marionete do mal. Eu vejo o Mulder me ajudando hoje, me oferecendo uma cerveja, contando piadas, confidenciando assuntos pessoais... E vejo o Krycek lá atrás mentindo, traindo e matando o pai dele e que só não matou Mulder porque deixou de acreditar nas mentiras e viu a verdade. Ou teria apertado o gatilho e encerrado a história de um cara inocente e legal que nunca fez maldade alguma pra ninguém.

BARBARA: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS) ...

KRYCEK: - (VOZ EMBARGADA) O pior mesmo é quando eu olho pra Scully, que me sorri. Isso sim dói mais. Porque olho pra uma mulher que tinha o sonho de ter muitos filhos e só não os tem porque eu ajudei aqueles caras a tirarem isso dela. Olha pra mim e me diz se eu sou digno do perdão deles? Os dois me convidando pra padrinho de casamento? O que eu fiz pra ajudar eles nunca vai superar o que eu fiz pra ferrar os dois! Mas eles são joias raras, como você. Eu não tenho direito nem de me atirar no chão que vocês pisam e servir de tapete.

Barbara começa a chorar.

KRYCEK: - (VOZ EMBARGADA) E agora estou fazendo mal pra você. Me perdoe, Malyshka. Eu não quero mais causar dor em ninguém, menos ainda na mulher que tenta a todo o custo me tirar das sombras em que vivo. E respondendo a sua pergunta, o que me impediu de apertar aquele gatilho todas as vezes foi a sua voz me chamando "Ratoncito!!!". E o que eu sinto por você? Eu amo você, e sei disso porque o fato que estar terminando com você me causa uma dor lancinante no peito. Pelo menos agora sei que ainda tenho um coração.

Krycek abre a porta.

KRYCEK: - Estou indo embora da sua vida. Quero aliviar o fardo que você está carregando e chamando de namorado.

Barbara tenta secar as lágrimas.

BARBARA: - O nome disso se chama egoísmo!

KRYCEK: - Não, o nome disso é amor. Quando começa a machucar o outro, hora de cair fora. Porque amor liberta e não escraviza.

BARBARA: - E vai embora assim com essa cara deslavada depois de dizer que me ama? Nem pediu desculpas por ter escondido isso tudo de mim!

KRYCEK: - Desculpe ter escondido isso tudo de você. Era pra poupar você. Não por ser machão.

BARBARA: -Me poupar? Poupe dinheiro, seu presunçoso egoísta! Eu não sou dinheiro pra ser poupada! Eu sou a sua namorada! Alexander Dimitri Yavanov Krycek! Se sair por essa porta eu juro que cato a frigideira e coloco o seu juízo no lugar debaixo da pancada! Tá me entendendo? Quer se matar? Se mate na minha frente. Pega sua arma agora e se mata na minha frente. Quando abrir seus olhos no inferno, pertinho do Coin, pode ter a certeza que vai dar de cara comigo e com a minha frigideira esperando por você! Fui clara? Acha que vai me deixar? Pois não vai! Não depois de ter derrubado essa muralha ao seu redor, que eu tanto queria ver derrubada, mais que o muro de Berlim! E de ter dito que me ama tão sinceramente que é impossível eu não acreditar. E isso era tudo o que eu mais queria ouvir e achava que nunca ouviria!

KRYCEK: - (ASSUSTADO) Acha que suicidas...

BARBARA: - Claro! Vão pro inferno. Aí você não quer voltar a trabalhar para o Fumacinha e o Coin em vida, mas vai trabalhar pro Coin a eternidade toda? Bela troca!

KRYCEK: - (CHOCADO) ... Eu não tinha pensando nisso, Barbara.

BARBARA: - Lógico que não tinha pensado, como pode pensar alguma coisa diferente se só fala com você mesmo trancado num banheiro? Se tivesse dito o que pensava antes, eu já tinha dito pra você o que precisava ouvir. Mas não, você sempre calado. A partir de hoje, você vai começar a falar mais comigo. Vai me contar como foi seu dia, quantos prendeu, quem pagou o café e as rosquinhas! E vai me dizer o que está sentindo. E vai continuar servindo de cobaia e sentando no divã do Mulder, porque isso está ajudando muito. E vai falar pra ele tudo o que me falou aqui, porque se não falar, eu falo. E se tiver que tomar medicação pra ajudar a dormir e desligar, vai fazer. Me ama? Ótimo que me ame! Agora sim você se ferrou, Ratoncito. Vigilância total pra cima de você. E frigideira na cabeça se bancar o espertinho! Fui clara?

Krycek fecha a porta. Olha pra ela com deboche.

KRYCEK: - Claríssima. Eu posso fazer tudo isso por você, menos sentar no divã do Mulder. O fato de ter sido estuprado quando jovem, não implica que eu tenha virado gay!

BARBARA: - Ah meu Senhor Jesus, obrigada, aleluia!!! Ele conseguiu fazer brincadeira com a situação!!! Conseguiu falar a palavra estupro sem trancar a voz! Temos um progresso aqui! Eu beijo você ou o Dr. Mulder?

KRYCEK: - Pode até beijar o Mulder. Depois eu atravesso a rua e encho ele de porrada.

Barbara sorri. Krycek abre os braços.

KRYCEK: - Estou esperando.

Barbara sorri e pula nos braços dele, envolvendo as pernas e os braços nele. Olha nos olhos de Krycek, enquanto derruba lágrimas. Krycek a envolve nos braços, olhando nos olhos dela.

BARBARA: - Diz de novo aquilo que você disse, faz essa nanica aqui se sentir amada e importante.

KRYCEK: - Eu te amo, Barbara Wallace. Eu te amo muito. Você chegou de mansinho sem exigir nada e acabou levando meu coração que nem batia mais. Você torna meus dias melhores, me torna uma pessoa melhor.

BARBARA: - Promete nunca mais tentar tirar a sua vida, Ratoncito? Hum? A gente vai continuar lutando juntos, eu sei que você vai sair dessa. Eu vou te fazer o homem mais feliz desse mundo! Não! O rato mais feliz desse mundo!

KRYCEK: - (SORRI) Eu prometo, Malyshka. E espero que eu consiga fazer você ser a gata mais feliz desse mundo. Se você não me devorar primeiro.

Barbara deita a cabeça no ombro dele, num suspiro.

BARBARA: - (SORRINDO) Eu já sou a gata mais feliz do mundo... Me leva pra banheira? Estou suja, machucada, roupa rasgada e me sinto cheirando a jaula de zoológico!

KRYCEK: - É a jaula de zoológico mais cheirosa que já conheci. Só tem um problema. Eu não conheço a casa, aonde fica o banheiro?

BARBARA: - No andar de cima.

Krycek apaga as luzes da cozinha. Sobe as escadas com ela grudada nele.

KRYCEK: - Amanhã estou de folga. Vou ajudar você a arrumar essa casa...

BARBARA: - Já começou, Martha Stewart? Deixa a casa, eu tenho coisas melhores pra fazer com você na sua folga. Tipo me deixar ser espremida pelo peso do seu corpo naquela cama lá em cima... Ou quem sabe na parede? Sem tapa dessa vez, eu prometo!

KRYCEK: - Garota, você está definitivamente acabando com a minha fama de mau...



X

15/12/2019


CENA BÔNUS:

Residência dos Mulder - 3:22 P.M.

Mulder abre a porta da cozinha. Krycek entra.

MULDER: - Tudo limpo. Scully e Baba saíram com Victoria. Vão demorar pelo menos umas três horas. Temos tempo.

KRYCEK: - Ainda não estou acreditando que isso é sério. Não é mais uma piada sua?

MULDER: - Olha pra minha cara de aflição e me diz se isso é piada, Rato? Só você pode me ajudar. Você sabe dessas coisas.

KRYCEK: - Tá legal. Vamos pra sala.

MULDER: - Preciso de uma cerveja, tô nervoso! Quer uma?

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, pare de fazer tempestade em copo d'água! É mais simples e fácil do que pensa!

Os dois vão pra sala.

KRYCEK: -Eu não sei que música você vai escolher... Tem certeza de que não é melhor a Scully escolher a música...

MULDER: - Não!!! Ela não pode saber disso. É uma surpresa. O que sugere? Música clássica?

KRYCEK: - Acho as valsas clássicas ótimas, mas chatas para um casamento. "Danúbio Azul" e "Vozes da Primavera" são valsas tradicionais e clássicas, por exemplo. Mas também pode pegar "The Way You Look Tonight", uma coisa meio jazz, uma valsa mais contemporânea. Ou uma valsa moderna. Mulder, na verdade a valsa de casamento nem precisa ser valsa, geralmente é uma música que tenha a ver com o casal. Tem casal que prefere dançar até disco, entendeu? É só um protocolo.

MULDER: - Tá, mas geralmente o que se dança? Pense na Scully.

KRYCEK: - Hum... Não vejo a Scully querendo algo tão moderninho como dançar eletrônica ou disco, ela vai querer uma valsa mesmo, mas também não acho que ela iria gostar de Danúbio Azul, talvez algo mais contemporâneo ou moderno. Você pode pegar alguma música lenta que tenha a ver com vocês e colocar passos de valsa nela. Dá pra fazer, dependendo da música.

MULDER: -Posso escolher a música depois? Eu tô com uma na cabeça, mas quero ter certeza, vou tentar descobrir discretamente. Sabe aquela do filme "O Fantasma da Opera"? Estávamos assistindo o filme e ela ficou olhando encantada, quase em lágrimas, quando os personagens estavam dançando e cantando um pro outro. Aquela coisa de olhar apaixonado de mulher que adoraria viver uma situação assim.

KRYCEK: - (SORRI) "All I Ask of You"? Mulder, é perfeito!

MULDER: - Mas vou confirmar primeiro. Vai afetar alguma coisa?

KRYCEK: - Não, dá pra usar os passos de valsa tranquilamente e ela vai dançar na boa, você me disse que ela sabe dançar valsa.

MULDER: - Ela sabe. Mas acha que eu vou conseguir dançar "na boa"? Só dançar já tá ótimo!

KRYCEK: - Mulder, quer relaxar? Parece até que está indo pra Área 51 na companhia do Strughold! Quanto drama por nada! É apenas uma valsa, a dança mais simples que existe.

Mulder respira fundo.

KRYCEK: - Vamos fazer assim. Você é a mulher.

MULDER: - (PÂNICO)Por que eu tenho que ser a mulher? Só falta agora me pedir pra usar um vestido alegando que influencia na dança, você tá de sacanagem comigo, Rato!

KRYCEK: - Mulder, eu preciso ensinar você a dançar como o homem e você não vai aprender isso se não ver! Presta atenção. Você vai até a Scully e faz o que eu vou fazer.

MULDER: - Vê lá o que você vai fazer, Rato. Se eu não gostar, meu punho vai matar rapidinho a saudade que tem da sua cara.

KRYCEK: - Mulder, você quer ou não quer aprender a dançar valsa? Ahn? Não tem ninguém em casa, ninguém vendo, relaxa! Não tem câmeras e nem escutas!

MULDER: - Ainda bem! Imagina a velharada do Sindicato das Sombras vendo Mulder e Krycek dançando valsa? Iam rir até se acabar! O Canceroso ia se engasgar com a fumaça! Nossa imagem ficaria queimada pra sempre! A fofoca ia correr até os ouvidos do Skinner. O Girafão ia fazer piada disso até na Casa Branca!

KRYCEK: - Teriam piada pra uma década.E o Carter?

MULDER: - O diretor Carter? Hum... Esse ia se empolgar. Finalmente poderia começar a ver romance, afinal de contas, ele só vê coisa aonde não tem e não vê o que tá na cara dele!

KRYCEK: - Ok, Mulder. Deixa o viado do Carter de lado, ele me deve uma também, a conta dele tá bem alta com a gente. Um dia desses podemos dar um susto no cretino. Agora vamos lá e vê se presta atenção, porque eu não vou fazer de novo.

Krycek relaxa o corpo. Mulder olha debochado. Krycek tenta não rir.

KRYCEK: - Mulder, não me faz rir! A situação já é inusitada! Presta atenção.

MULDER: - Tô prestando. Confio em você, russos sabem dançar.

Krycek leva um dos braços pra trás. Então começa a rir.

KRYCEK: - Isso não vai dar certo. Para de fazer essa cara!

MULDER: - Mas é a única cara que eu tenho! Tá, sério. É pela Scully.

KRYCEK: - Lógico que é pela Scully, ou acha que eu dançaria com você por outro motivo?

MULDER: - Sei lá, "amorzinho". Nossa relação está tão distante ultimamente. Você nem me procura mais, me trocou por uma baixinha, agora é só "Ratoncito"...

KRYCEK: - (RINDO)Cala a boca Mulder. Presta atenção. Chega de piada.

Krycek se recompõe, leva um dos braços para trás e vem em direção a Mulder. Toma a mão dele, ajoelha-se com um dos joelhos e a leva perto dos lábios.

KRYCEK: - Você vai beijar a mão dela como um convite respeitoso pra dança.

MULDER: - (DEBOCHADO) Mas você não beijou minha mão.

KRYCEK: - Tá me estranhando, é? Lá vou beijar mão grande e peluda de macho?

MULDER: - Sei lá, você tá aí ajoelhado na minha frente, implorando alguma coisa.

Krycek se levanta.

KRYCEK: - Vou ignorar você, Mulder, porque o revide vem depois. Quando aprender vai ter que fazer isso comigo!

Mulder faz cara de pânico.

KRYCEK: - Agora você toma a mão dela assim... E coloca respeitosamente a outra mão na cintura dela, assim.

MULDER: - Tá. Olha lá essa mão.

KRYCEK: - Você conduz a dança porque é um cavalheiro. E outra coisa. O tempo todo mantenha seus olhos nos olhos dela.

MULDER: - Sei não, Rato. Isso tá ficando muito esquisito.

KRYCEK: - Faz de conta que eu sou a Scully.

MULDER: - Ah não é mesmo! Além do fato que seus olhos não são azuis, em pé eu jamais conseguiria olhar diretamente a Scully nos olhos.

KRYCEK: - (RINDO) Ela tá num banquinho. Olha aqui nos meus olhos, Mulder. O rosto fixo, o que mexe é o corpo, por isso a valsa é uma dança romântica.

MULDER: - Não exagere no romance.

Os dois se olhando. Mulder tentando não rir. Krycek também. Krycek dá um passo pro lado conduzindo Mulder. Para.

KRYCEK: - Agora pro outro lado e paradinha. Agora você gira a Scully.

Krycek gira Mulder.

KRYCEK: - Agora novamente um passo pro lado e paradinha. Um passo pro outro lado e paradinha. Gira ela novamente. De novo. Um passo pro lado... Mulder, amolece esse corpo, você parece um robô! Relaxa, dança é pra relaxar, não pra ficar duro desse jeito!

MULDER: - (DEBOCHADO) Rato, se você continuar a me olhar desse jeito eu vou acabar ficando duro.

KRYCEK: - Mulder, por favor! Agora vamos continuar nesse passo, sempre de um lado para outro e gira. Até você me dizer que aprendeu. Viu como valsa é fácil?

MULDER: - Só isso? Eu já entendi, passo e paradinha, passo e paradinha e gira.

Os dois continuam dançando, Mulder obedecendo Krycek.

KRYCEK: - Agora vamos fazer outra coisa. Passo, paradinha, passo paradinha, giro e o homem estende o braço insinuando pra ela se afastar... Isso, agora eu puxo você, dou um giro em você nos meus braços e... Mulder, dá pra não pisar no meu pé?

MULDER: - Eu sou um desastre como dançarino, Rato!

KRYCEK: - Não, eu juro que valsa você vai aprender nem que leve meses! Não vou transformar você no Fred Astaire, mas que você vai dançar decentemente com a sua mulher no dia do casamento, ah vai! Volta o passo. Isso, um pra direita, para. Um pra esquerda, para. Giro. Afasta a Scully, puxa a Scully de volta, gira e volta ao passo normal e paradinha... Tá melhorando. Vamos ficar nisso hoje, amanhã ensino você a pegá-la nos braços e girá-la no ar.

MULDER: - Por que tô com a sensação estranha que não vou gostar muito disso...

Eles continuam dançando.

KRYCEK: - Viu? Não doeu.

MULDER: - Quer que eu enceste esse comentário também?

KRYCEK: - Não, "amorzinho", passo. Mas depois aceito aquela cerveja.

MULDER: - Amanhã a aula tem que ser na sua casa. Scully vai ficar o dia todo aqui.

KRYCEK: - Tudo bem.

Corta para a janela da sala. Nancy com os olhos arregalados e catatônica.

NANCY: - É... Depois dizem que eu vejo coisas aonde não tem!




27 de Janeiro de 2020 às 21:57 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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