themadudu Madu Duarte

Entre contas a pagar, uma faculdade EAD e um quitinete velho, Lucas Vaz é um viajante de mundos, com a capacidade de se transportar pelo metrô. O dom particular é compartilhado com Ruby, uma jovem e excêntrica mulher de lábios tão vermelhos quanto a joia. Contudo, apesar do cotidiano uni-los, seus segredos permanecem trancados pela curta viagem que os divide. Após o desaparecimento da mulher, o rapaz se vê perdido entre dois mundos opostos. Até que enxerga em meio a multidão: era seu rosto. Mas não era sua Ruby. Em Inércia, no lugar em que Ruby não pertencia, Lucas a reencontrou - e mesmo que soubesse que aquela era apenas uma doppel, a abraçou. * Capa ilustrada por Bianca Medusa.


Fantasia Viagem no tempo Todo o público.

#romance #341 #fantasia #doppelganger #doppel
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Olá, Srta.

As luzes da cidade invadiram a janela do seu apartamento, ainda era madrugada e tudo permanecia escuro do lado de fora. Precisava chegar cedo ao emprego e, por isso, pegava o primeiro trem. Seus olhos se abriram de maneira desconfortável, incomodados por ainda estarem em modo noturno. Era uma segunda.

Gostava das segundas. Deveria ser a única pessoa a admirá-las — bem, uma coisa era certa: tinha seus motivos.

Certificou-se de que possuía tudo que precisava na mochila; as joias, as lentes, e o aparelho telefônico extra foram escondidos entre a calça larga e o corpo. Deixou o blazer creme de sarja amarrado na cintura e a blusa social azul amostra. Chamaria atenção, mas não tanta.

Estava parecendo um burguês, riu enquanto penteava o cabelo.

As coisas eram diferentes do outro lado.

Ele também precisava ser.

Correu pelos corredores que dividiam os pequenos quitinetes, apressado, seu relógio de pulso o alertava que não lhe restava tanto tempo — havia perdido cerca de 5 minutos observando a pulseira de prata que havia ganhado de presente de sua chefe. Aqui, ela custaria milhares. Deveria vendê-la? Não.

Escondeu-a debaixo da manga. Iria manter.

Enquanto corria, retribuiu o olá entregue por um dos seus vizinhos, embora não soubesse qual.

Passava o dia fora.

Não de casa, mas do mundo.

Da forma mais literal possível.

Apressou o passo ao entrar na estação, ainda correndo para dar tempo. Desculpou-se automaticamente com diversas pessoas a qual esbarrou e suspirou tranquilo ao entrar na porta do transporte, ainda que de lado, enquanto elas lutavam para fechar. Cinco e meia, em ponto. Em breve, estaria lá.

Ufa, suspirou.

Não havia lugar para sentar, parecia que todas as pessoas daqui haviam decidido ir pela linha azul naquele dia. Não que isso fosse algo incomum — não que fosse ficar muito tempo.

Procurou um lugar no chão, mas percebeu que sujaria o blazer e seu chefe brigaria caso fosse desarrumado. O amassado poderia ser consertado, o sujo não. Respirou fundo. Não teria dinheiro para comprar outro.

Esperou as três primeiras paradas e sorriu ao ver que, finalmente surgira vagas nos bancos. Odiava passar de parada em pé. Aliás, falando em parada, a quinta era a sua. Apenas a sua. Fechou os olhos quando saiu da terceira, procurando se encostar ou segurar em alguma coisa. Apertou a mochila com força e encostou a cabeça no ferro amarelo.

É como uma tempestade, como se tivessem esbarrado contra você, um impulso que lhe leva para longe — muito longe. Um soco na garganta.

Você fica tonto, pensa em cair. Era bom estar sentado — chamava menos atenção. Será que um dia iria se acostumar com toda aquela sensação?

As pessoas daquele lado eram diferentes, elas observavam o mundo por seus óculos tecnológicos e pediam ajuda às inteligências artificiais. Vez ou outra, tocavam em seus relógios e marcavam alguma informação, Lucas aprendeu a nunca olhar por muito tempo, era perigoso, chamava atenção demais.

A quarta parada foi anunciada.

E um sorriso surgiu em seu rosto, porque, afinal, era segunda feira.

Ele amava a segunda feira.

O rosto bem marcado, fino, com traços poderosos entrou, a mulher ajeitou o cabelo com a ponta de suas unhas vermelhas, o estilo era visto por qualquer um que observasse.

As pessoas daquele lado eram vazias, opacas, apagadas de qualquer sinal de humanidade.

E ali, Ruby ofuscava.

— Posso sentar? — indagou a moça de brincos tais quais o seu nome.

Assentiu e apontou ao banco vazio — naquele lado, o metrô era tão pouco usado que podia escutar os seus pensamentos. Ou então as pessoas que fossem silenciosas.

Tudo tão diferente do mundo em que vivia.

E tinha Ruby, a mulher dos brincos vermelhos como seu batom e suas unhas, com seu andar elegante e seu olhar de sereia.

Lucas a conhecia há anos — a conheceu quando começou a passar, quando sua vida virou de avesso, não que reclamasse claro. Talvez tivesse sido a melhor coisa que tinha ocorrido nela.

— A Rose's está de promoção — A voz dela falou, um pouco rouca, um pouco decidida.— Pulseira nova. Bonita — observou, soltando uma pequena risada.

Ele não sabia o que significa perfeição, mas tinha certeza que a risada dela era um de seus sinônimos.

— Eu ganhei. Não tenho dinheiro para joias. Além disso, não vale tanto a pena revender coisas como joias lá, seria trabalhoso. E ilegal.

— Trabalhar é trabalhoso. E, teoricamente, eu duvido muito que o que estejamos fazendo seja legal.

Ele riu.

Ruby era assim.

Real, viva.

Talvez, tivesse ocorrido uma troca e os Deuses houvessem levado-a ao mundo errado, assim como ele. Por isso, eles tinham essa habilidade especial de trocar de lugar pegando um mero metrô.

A estação cinco se aproximava, ele desceria e ela passaria para o que chamava de Inércia — Ruby costumava dizer que era naquele local que ela não existia, que se sentia viva.

Lucas sorria toda vez que ela falava aquelas coisas.

Porque as pessoas do outro lado odiariam ouvir tais coisas se vissem seus brincos e as roupas caras que ostentava.

Não era culpa dela, tudo em Império era diferente. O salário era melhor, a tecnologia era melhor, a vida era melhor.

Ele se mudaria para aquele lugar se fosse capaz de existir no mesmo — Ruby costumava dizer que não se pode viver em um mundo que não os pertence, e era por isso que estavam fadados a andarem de metrô.

Mas Inércia, seu universo, ou Brumas, sua cidade, tinha seu charme. As luzes, as pessoas, a vida. Tudo encantava a todos — menos os que ali moravam.

Inércia era vida, mas era a morte. Uma cidade cheia de cores que se alimentava das cores dos outros — a menina de brincos brilhantes ria quando ele falava essas coisas, dizendo que havia muita cor em si e por isso poderia passar quanto tempo quisesse, nunca se apagaria.

A estação cinco se aproximava. Eles se despediram em um breve aceno, enquanto o rapaz levantava, pronto para descer.

Ele iria trabalhar.

Ela iria fazer o que tinha para fazer — nunca o contou sobre seus desejos pessoais naquele universo tão divergente ao seu.

E ambos nunca se arriscaram a cruzar a linha do metrô. Ele iria descer e ela iria esperar que aquele trem a levasse magicamente para o mundo anterior. Depois, no final da tarde, ele entraria e a esperaria entrar em seu mundo. Desceria na última parada — por mais distante que fosse do lugar que morava — antes da dela, na expectativa de permanecer próximo ao brilho daquela joia por mais um tempo.

Ele gostava da forma como seus olhos mudavam de cor a cada dia, em decorrência das lentes de contato eletrônicas que todos os cidadãos do Império usavam.

A maioria para trabalho, Ruby apenas gostava de como as brilhavam com seus olhos claros.

Era o que ela dizia, claro.

Ele nunca soube com exatidão quem ou o quê era em Império, naquele mundo em que ele não existia ou pertencia.

Mas gostaria de pertencer.

— Chegou — A voz o tirou do transe. Ele agradeceu pelas dicas, algo relacionado a uma alimentação mais barata e algumas futilidades que ele deveria fazer.

Ninguém pode viver sobrevivendo, argumentava.

Ele negaria.

Precisava de dinheiro.

Faculdade era cara, comida era cara, as roupas que usava para ir trabalhar eram caras.

Até a espelunca que vivia custava uma nota.

Precisava de dinheiro.

Mas se soubesse que aquela seria a última vez que veria o tilintar dos brincos, teria jogado tudo para cima.

Porque também precisava de amor.

21 de Janeiro de 2020 às 01:21 0 Denunciar Insira Seguir história
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