Considerações sobre a Loucura Seguir história

_pat ass. maria

O que é a loucura? Como são as percepções para quem a tem e para os que nunca a experimentaram? Baseada na própria vivência, tendo-a como companheira há 5 anos, eu irei fazer algumas considerações sobre a loucura, a minha loucura, se assim posso dizer, pois ela não é nunca igual para ninguém. Trícia irá viver situações que nem sempre serão totalmente reais, mas que irão traduzir a realidade do que já vivi e do ainda vivo. Te convido a mergulhar nessa miríade de sentimentos, nesse mar de cores e sons, pois nem tudo é preto e branco ou cinza e o silêncio, muitas vezes, é a melhor música para ser ouvida. O conteúdo dessa história é de minha total autoria e baseado em minha própria vida. Também está publicado aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/consideracoes-sobre-a-loucura-18336450


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Consideração #1

loucura

substantivo feminino

1.

distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir.

2.

sentimento ou sensação que foge ao controle da razão.





Fazia um calor infernal na cidade e tudo em que se colocava a mão estava quente. As coisas absorviam a alma do sol irradiada por todos os cantos, entrando por qualquer fresta que estivesse visível e invisível também. Entrando sem permissão tentando burlar os vidros das janelas protegidas pelos ares frios dos condicionados. Todos estavam escravos daquele refresco automático gerado pela energia solar das placas que também roubavam a força da alma do sol. E seria normal o calor quase assassino se não fosse inverno. Um dia atípico, como foi classificado pelos meteorologistas. Um sinal de Deus, segundo os mais fervorosos. Culpa do El Niño, segundo os pseudos cientistas de balcão de padaria . E apenas menos um dia para Trícia que observava o pátio do hospital psiquiátrico sentada no parapeito da grande janela da sala de convivência. As gostas de suor começavam a brotar em sua testa e ela prendeu o cabelo em um coque alto para tentar aliviar o calor da nuca. Fumava o cigarro vagarosamente e algumas internas reclamavam da fumaça que parecia deixar a sala ainda mais quente. Não contavam com o ar do condicionado naquela parte e as janelas não abriam, apenas nas partes de cima, o que não era suficiente para refrescar. Pelo menos os bebedouros ofereciam água gelada e Trícia estava com o copo plástico cheio. Não eram permitidas garrafas de qualquer material, também não era permitido copos particulares. O hospital oferecia copos de isopor que não ofereciam riscos para as internas ou qualquer outra ideia que surgisse nelas para usar o recipiente.



O pátio que Trícia observava atentamente todos os dias, catalogando cada paciente, ou, cada tipo, como ela gostava de chamar, tinha de tudo um pouco. Desde os mais leves até os considerados impossíveis de qualquer cura. Faziam todo tipo de atividade, mesmo estando completamente medicados, babando e cambaleando. Para alguns era necessário, outros acabavam por receberem doses extras por causa de mau comportamento. Trícia não conseguia entender como podiam exigir bom comportamento de pacientes que mal conseguiam falar o nome completo. Que precisavam usar fraldas por não conseguirem perceber quando precisavam ir ao banheiro. Outros ainda pensavam que tinham doze anos. Uns se diziam ser o próprio Deus e debatiam com aqueles que se diziam ser Lúcifer. Deuses dos céus e dos infernos particulares. Cada paciente com sua desgraça pessoal e intransferível buscando dentro de suas mentes escapar das lembranças dolorosas, das palavras brutas, das dores lancinantes que atacavam a alma e o coração de cada um no meio de uma madrugada ou durante a hora do almoço gerando um crise desesperada, incitando à uma forma, qualquer forma, de livrar-se daquilo. Fosse através da dor auto impingida, fosse chorando e gritando uma música preferida ou chocando-se contra a parede na tentativa de desligar o cérebro cruel. Cada uma daquelas mulheres que estavam ali tinha seu próprio método para sobreviver à elas mesmas e ao que havia incrustado em suas almas, seus corações, suas mentes. Roubando sua liberdade, sua capacidade de viver em sociedade, uma sociedade que aprendesse a respeitar e compreender e não uma sociedade que tivesse lhes tirado à força arrancando-as de seus braços ou abandonadas à sorte pela própria família que não queria lidar com o “problema”. Era isso que elas eram: um problema. Para todos os outros que não estavam ali como pacientes, aquelas mulheres de idades diversas, histórias incríveis e sabe-se lá quanto sofrimento já haviam passado, para todos os outros que não estavam ali como pacientes, tudo se resumia apenas à uma palavra: loucura.




Trícia terminou o cigarro e logo acendeu outro. Tomou um pouco da água que já não tinha a mesma temperatura gélida de quando foi colocada no copo e voltou-se para o pátio. Era dia de alongamento e muitas internas estavam participando, tentando se equilibrar nos exercícios que faziam tirar os pés do chão. Faltavam apenas três dias para sua alta, se fosse aprovada pelo “Comitê dos Loucos Normais”. Era assim que ela havia apelidado a equipe que fazia a avaliação das pacientes cotadas para sair da internação, mas o apelido que Trícia destinou a eles lhe rendeu mais um mês de permanência. Ela não ligava, realmente não ligava. Tinha a sorte de ter uma pequena família que a apoiava, mas a tentativa de tirar a própria vida fez com que sua mãe tomasse essa medida. Helena chorou por vários dias, arrependeu-se e tentou tirar a filha do hospital, mas Trícia se recusou a sair, pois sabia que seria questão de horas até que ela tentasse novamente. A mãe sentiu o alívio se aconchegar no próprio peito e respeitou a decisão de sua única filha. Mandava coisas com frequência e sempre que ia visitá-la tinha nas mãos uma forma de bolo ou torta ou outra coisa gostosa. Trícia tinha feito amizades e todas elas se reuniam com Helena sempre elogiando os pratos, Trícia e querendo uma mãe igual à ela. Helena tomou carinho por algumas dessas mulheres e praticamente adotou algumas dentro das regras permitidas pelo hospital. Uma delas foi Eva, uma jovem mulher da idade de Trícia que havia sido deixada no hospital pela família e praticamente não recebia visitas. Ela sempre dizia que era porque seus pais eram muito ocupados e tinham uma filha menor, mas os olhos de Eva a desmentiam quando lacrimejavam e se desviavam para um outro canto qualquer. E o abraço de Helena era um bálsamo para a jovem que às vezes não conseguia conter o choro, mas o deixava fluir em silêncio, sempre.




- E aí canalha?!

Trícia riu. Eva tinha esse jeito despojado de se dirigir às pessoas, sempre com um apelido engraçado e que combinava exatamente com a pessoa. Trícia não era exatamente uma canalha, não no sentido literal da palavra, mas foi apelidada por Eva quando fingiu a própria morte para tentar escapar do hospital para dar uma volta pela cidade. O plano parecia perfeito, ela foi retirada do quarto e enviada diretamente para o necrotério e ao perceber que iria ser colocada na geladeira antes da autópsia, Trícia abriu os olhos e se espreguiçou feito uma donzela que acabara de ganhar o beijo do despertar. Foi um rebuliço geral, alguém desmaiou, outro alguém saiu gritando que a morta estava viva e o médico legista quase a matou com um bisturi. Até hoje ela exibe a cicatriz com orgulho, um corte de quase dez centímetros no lado esquerdo do peito e quando ela voltou, sob os olhares de reprovação da equipe médica e aplausos das internas, Eva a parabenizou e batizou: canalha.

Eva sentou-se de frente para ela e pegou um cigarro. Acendeu, tragou e soltou a fumaça fazendo círculos.

- Esse calor... – Trícia fitou a amiga.

- O que tem? – Eva a encarou também.

- Sei lá. – ela respirou fundo e tomou mais água.

- Tá chapada, Trícia?

- Não. – Trícia riu – É só que..., - ela olhou para fora – você não acha estranho, Eva?

- É claro acho! – Eva se inclinou para Trícia – Mas você está mais estranha ainda!

- É verdade que você tem avaliação amanhã? – Trícia resolveu mudar de assunto.

- É! – Eva sorriu – Não é o máximo?! A doutora P. me recomendou!

- É sério?! – Trícia voltou toda sua atenção para a amiga e companheira de quarto.

- Ela disse que já estou há muito tempo aqui e não pode me segurar mais. – Eva tragou o cigarro e soltou a fumaça para cima – Ela conversou com a minha mãe e eu vou ter uma casa só pra mim!

A felicidade de Eva era visível e Trícia ficou feliz por ela. A amiga estava internada há três anos e sua melhora estava mais do que nítida.

- Você também tem, não tem? – Eva cutucou Trícia.

- Sim.

- Já preparou o discurso? – Eva começou a se abanar incomodada pelo calor.

- Dessa vez não. – Trícia acendeu outro cigarro.

- E como vai passar pelo Comitê dos Loucos Normais?

- Sei lá, - Trícia secou a testa com o dorso da mão – eles nunca acreditam em mim, então, vou improvisar!

Eva negou com a cabeça, mas riu. Trícia era uma figura interessante para ela e até um pouco misteriosa.

- Vamos sair daqui! – Eva balançou um chaveiro com uma chave.

- De onde é?

- De uma sala com ar condicionado e duas cervejas para cada uma!

- Não vai me dizer?... – Trícia se levantou devagar.

- Eu não precisei chupar ninguém, se é isso que quer saber. – Eva saiu na frente.

- De graça que não saiu! – Trícia colou nela.

- Eu roubei! – Eva olhou para trás e deu uma piscadela para Trícia – Os enfermeiros se reúnem lá quando todo mundo tá dormindo.

- E como roubou a chave? – Trícia emparelhou com Eva.

- Tá, vou falar a verdade! – Eva parou – Eu descobri o que eles faziam e ameacei contar, então o Roger me emprestou a chave e nos deu quatro cervejas!

- Simples assim? – Trícia ainda estava na dúvida.

- Claro que não né, Trícia?! – Eva cerrou os olhos – Foram dias de ameaça, até que ele me levou a sério e me deu a chave hoje!

- Veio bem a calhar! – Trícia mordeu o lábio inferior.

- Anda, antes que as atividades acabem e todo mundo volte para dentro. – Eva segurou no pulso de Trícia e a puxou pelos corredores até chegarem na sala prometida.




A loucura é igualmente proporcional ao calor. Ela entra através das mínimas aberturas, ela se instala e vai aquecendo tudo em que consegue tocar. Aquecendo e derretendo as coisas mais sensíveis, mais frágeis e, as coisas mais resistentes, a loucura toca diferente. Elas as envolve feito um cobertor felpudo e macio cobrindo totalmente, escurecendo e deixando que aqueça até entrar em ebulição. A loucura é igualmente proporcional ao calor. Sua luz entra radiante e cega até os olhos mais bem treinados. É uma luz que toma conta de todo o ambiente, faz com que ele pareça maior, com paredes mais firmes, mais brancas. A loucura é como o calor, convidando a despir as roupas que cobrem os pensamentos, os desejos, as fantasias. Convida a sair da segurança das certezas para pular ao redor da chuva refrescante das incertezas. Faz ouvir o riso estridente dos desesperados, as palavras rápidas dos angustiados, o arrastar de pés dos desconsolados. Faz chover as lágrimas cansadas e incompreendidas que logo evaporam sob o calor de pílulas e gotas que prometem a felicidade. A loucura é igualmente proporcional ao calor quando ela oferece o conforto da fantasia ao cinismo da realidade deixando o horizonte trêmulo e desfocado. A loucura é igualmente proporcional ao calor porque ela convida a trocar os sapatos pesados pela frescura do chão, ela mostra a beleza que está escondida por trás de olhos ferozes.




Fazia um calor do inferno na cidade e tudo em que se colocava a mão estava quente. As coisas absorviam a alma do sol, irradiada por todos os cantos, entrando por qualquer fresta que estivesse visível e invisível, entrando sem permissão tentando burlar os vidros das janelas protegidas pelos ares frios dos condicionados. E todos estavam escravos daquele refresco automático, gerados pela energia solar das placas que também roubavam a força da alma do sol. E seria normal o calor quase assassino se não fosse inverno. Um dia atípico, classificado pelos meteorologistas. Um sinal de Deus, segundo os mais fervorosos. Culpa do El Niño, segundo os pseudos cientistas de balcão de padaria. Ou apenas um dia a menos para Trícia que observava o pátio do hospital psiquiátrico sentada no parapeito da grande janela da sala de convivência. Trícia notara que, assim como a loucura, o calor estava tomando conta de todos. Deixando as internas felizes brincando na grama, alongando o corpo, jogando qualquer coisa com bola ou tabuleiros. E os dois juntos, o calor e a loucura, protagonizavam um espetáculo digno de telas de cinema e palcos de teatros. Não exigiam plateia, não era necessário, ninguém entenderia. Alí não estavam atrizes encenando, alí eram pessoas de verdade vivendo.




- Qual a primeira coisa que você vai fazer quando sair daqui? – Eva cruzou as pernas em cima da mesa e inclinou a cadeira para trás.

Trícia estava deita em um sofá de dois lugares e brincava com a tampa da garrafa de cerveja. Ela olhava para o teto, um dos braços apoiava a cabeça e as pernas estavam dobradas. Acendeu um cigarro e tragou devagar soltando a fumaça para cima.

- Você me ouviu? – Eva cobrou.

- Sim. – Trícia respondeu sem se mexer.

- E?

- Quando eu sair, Eva, quando eu finalmente sair daqui, eu vou respirar.

16 de Janeiro de 2020 às 00:14 0 Denunciar Insira 2
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