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renkyou renkyou

Giyuu nunca pensou que um dia teria um amigo de verdade, até conhecer Sabito. Também pensou que não chegaria a passar por uma paixão na adolescência com seus altos e baixos, isso até conhecer Sabito. E nunca imaginou que um dia passaria novamente pela experiência de sentir a dor de uma perda equivalente ao abandono de seus pais biológicos, e isso, infelizmente, até conhecer Sabito.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#GiyuuSabi #paixão #amizade #suicídio #oneshot #adolescentes #au #SabiGiyuu
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Meus dias com você

Quebrado.

Essa era a palavra com que Giyuu Tomioka mais se identificava para se auto descrever. Tudo à sua volta desaparecia bem diante de seus olhos e ele nunca fazia nada para impedir isso, sentia que não valia a pena. Se tinha que ir, que fosse. Sempre assim. Ou quase. Sempre há exceções e as dele eram os sentimentos; não os bons e sim os ruins, que o corroíam por dentro.

Essas exceções viviam com Giyuu desde seus dez anos de idade, quando uma dor mais forte que a de joelhos ralados e tombos de sua infância o tomou. Rejeitado por seus próprios pais, jogado na rua e recolhido de lá semanas depois por uma boa alma que o levou a um orfanato. Foi nesse ponto que as coisas mudaram: era apenas uma criança para uma dor enorme que até hoje, após seis anos, prendia-o.

Tinha medo de nunca superar isso e, mesmo quando foi adotado três anos depois por um casal incrível que lhe deu todo o conforto e amor que tinha, ainda resistia o medo da não superação.

Não falava sobre seus antigos pais com ninguém. Evitava pensar sobre eles, mesmo que em alguma parte da semana se visse querendo chorar ao se lembrar de seus rostos, mas nunca derramava uma lágrima sequer, mantinha intacto o orgulho que cultivou durante todo o tempo de abandono até o momento atual.

Talvez, se houvesse tentado ao menos um pouco, teria conseguido se consertar em alguma parte, fosse no seu modo introvertido de ser que o prejudicava no dia a dia, na ansiedade ou até na depressão que o trancava todo final de aula e final de semana no quarto. Poderia ter aliviado algo e feito com que viver não fosse tão difícil, porém agora já era tarde; arrepender-se não mudaria nada e só traria mais raiva de si mesmo por ser tão covarde.

Estava quebrado e pronto, sem chances de remendos.

Tão quebrado por dentro que não conseguia manter laços de amizade e muito menos amorosos, além, claro, do familiar que possuía com seus pais adotivos e somente existia graças aos esforços deles.

Era praticamente sozinho em seu mundo, acostumou-se com isso, aceitou e se resignou. Quando uma ou outra pessoa se aproximava, não impedia, mas também não se esforçava para que ficasse. E, no final, a pessoa sempre ia embora. Ninguém ficava, assim como seus verdadeiros pais não ficaram por si, ou não quiseram... Mas já não importava muito as palavras para descrever.

Porém, assim como acontecimentos ruins nos marcam para a vida toda, o contrário também acontece. E Giyuu, que nunca pensou em viver uma experiência real de amor e amizade naquela fase da vida, pegou-se surpreso sobre isso dentro de alguns poucos meses.

A vida é um montanha-russa radical e sem controle, com seus altos e baixos que vinham e iam bem rápidos para os seres humanos; e Tomioka se amaldiçoava por ser obrigado — sem poder protestar contra — a vivenciar isso mesmo sem querer.

O início de uma mudança nem sempre se é percebido, pode demorar bastante ou não. E Giyuu nunca pensou que pudesse ser tão lerdo para perceber tal acontecimento consigo ou com alguém por quem prezasse e que estivesse ao seu lado todos os dias.

Sim, houve alguém com quem se importou muito e que o mudou no alto da vida, mas decaiu e ele estava lá quando aconteceu. Poderia ter feito algo para reverter, mas não fez. Não notou antes e, nos instantes cruciais da queda, não se mexeu — mais uma vez — a tempo.

Atrasado e, por isso, o único amigo que teve e sua primeira paixão se foi.

[...]

Para compreender, comecemos da manhã mais inesperada na vida de Tomioka desde o momento em que raios de sol o tocaram na bochecha, causando um incômodo morno.

Era manhã, seis e quarenta. Estava acordado desde as quatro, só esperando o horário para ter que se levantar para ir ao colégio.

Segunda-feira, um belo dia em que todos se encontravam preguiçosos e Giyuu não era diferente, pelos menos nisso. Tomou um banho rápido, mas se vestiu devagar, tomou o café da manhã e escovou os dentes. Mochila nas costas e seus pais o esperavam no carro para levá-lo. Foi uma viagem tranquila e a despedida no portão era sempre a mesma: um abraço de seu pai e um beijo na testa de sua mãe.

O colégio talvez não fosse sempre o mesmo, mas nunca reparava com real atenção para fazer comparações, só caminhava até seu armário para deixar alguns livros que não precisaria no primeiro horário e isto seria sempre a mesma coisa também, porém não naquela segunda.

De longe notou um rapaz de cabelos ruivos ao lado de seu armário e sabia que ele não esteve sempre ali, mas não deu muita importância. Colocou alguns livros no armário e já o fechava para dar meia volta e ir até sua sala quando foi interrogado pelo rapaz ao lado.

— Oi, eu sou novo aqui. Poderia me dizer onde fica o segundo ano, por favor?

"Ele parece ser simpático", foi a primeira impressão que Giyuu teve do rapaz ao vê-lo frente a frente. Bonito também, com seus cabelos ruivos até a altura do pescoço e olhos grandes, até a leve cicatriz que ele possuía na bochecha parecia ter sido feita para combinar. Era estranho pensar assim, mas eram apenas pensamentos e assim ficariam.

— Sou do segundo e estou indo para a sala, pode me acompanhar.

— Obrigado...?

Demorou a responder, não porque não notou a indagação, mas sim porque estava em conflito se valeria a pena ou não responder seu nome. E o rapaz não pareceu ficar impaciente, apenas continuou olhando-o à espera, sem desfazer a expressão suave da face.

Chegou à conclusão de que de nada adiantaria não falar, já que ele descobriria de qualquer forma; estudariam na mesma sala afinal.

— Giyuu.

— Eu sou Sabito. É um prazer conhecê-lo.

Apenas meneou a cabeça em resposta e achou melhor ir andando, não queria se atrasar. Foi acompanhado em silêncio por Sabito até a sala e sentou-se no seu lugar de sempre na última carteira da fila perto das janelas. Colocou os fones de ouvido e apoiou a cabeça na parede. Normalmente se permitiria relaxar mais fechando os olhos para se concentrar totalmente na música, mas sua atenção foi roubada por Sabito que andava por entre as mesas sem saber onde poderia se alojar, provavelmente procurava por um lugar vazio. Coincidentemente, sabia de um; o único se não se enganava.

Ele foi simpático com ele e também não custava muito ajudar. Tomioka era o isolado da classe e não o idiota maldoso, posto já ocupado pelos valentões dali.

— Ei, ruivo. — Chamou, conseguindo que Sabito o olhasse instantaneamente. — Esse lugar aqui está desocupado.

Fez sinal para a carteira à sua frente, esta que estava posicionada ali com a estratégia de que ninguém da frente o incomodasse. Sabia que não teria como colocar outra depois e esperava que Sabito não fosse do tipo tagarela que não percebe quando está incomodando alguém.

Ele sentou e se virou para trás, querendo lhe dizer algo, mas não deu tempo — o professor de química adentrou a sala e todos se viraram para frente de boca fechada, incluindo-o.

Aquele foi o primeiro acontecimento inesperado da manhã de Giyuu, pois havia ficado curioso para saber o que Sabito queria lhe dizer. Talvez fosse só mais um "obrigado", mas e se não? Nunca descobriu e no meio da aula deixou para lá, pareceria um idiota se o chamasse só para perguntar sobre isso, mas o incomodou de certa forma; a curiosidade em relação a alguém que acabara de conhecer. Parecia normal, mas não era para si, pois nunca dava importância para alunos novos.

Mal sabia que aquela curiosidade em relação à Sabito estava prestes a aumentar com os dias que viriam. Também não tinha o conhecimento de que se tivesse sido mais curioso, menos fechado e até mais perceptivo, talvez teria conseguido mais tempo para o novato ruivo do que quatro meses a partir daquela segunda.

[...]

O intervalo era somente mais dez minutos em que Tomioka ficava sozinho em algum canto, mas pelo menos dessa vez ele podia comer seu lanche. O local escolhido para isso era sempre o pátio, mais especificamente na mesa de quatro cadeiras que ficava debaixo de uma grande árvore. Raramente via alguém lá, o que era um bom sinal de que teria paz.

Naquele dia não foi diferente do cotidiano ou quase não foi. Na realidade não foi nem um pouco como em outros dias; chegou nessa conclusão um bom tempo depois.

Não viu exatamente quando, mas em algum momento Sabito havia surgido no meio do pátio com uma caixinha de suco em mãos e foi sentar-se em uma das mesas do lado oposto ao que estava — parecia não tê-lo notado ali.

Ele parecia um pouco triste e com certeza estava com a cabeça em outro mundo. Giyuu pôde notar isso somente pela forma avoada com que o outro olhava para o céu. Observou-o atento aos detalhes; era como se algo o prendesse àquele rapaz e esperava não ser por causa das lágrimas que surgiram nos olhos escuros dele.

O estopim de surpresas do dia foi quando sentiu necessidade de ir até Sabito para fazer alguma coisa em relação às lágrimas que ele tentava não deixar cair.

Era normal do ser humano se comover com situações alheias, fato, mas, ainda assim, Giyuu via estranheza nisso. Talvez houvesse vivido muito tempo em seu próprio mundo, tentando não sentir e não ver as coisas ao seu redor verdadeiramente, que acabou alheio à acontecimentos como aquele.

A mente começou a trabalhar a mil, com indagações sobre ir ou não ir e, se fosse, como abordá-lo? E então Tomioka se sentiu fodidamente ansioso, as mãos suando e as pernas pareceram moles como gelatina. Porém, a decisão não foi tomada por si, pois Sabito notou seu olhar fixo e, estranhamente, — mais uma coisa estranha, para variar — levantou-se e veio em sua direção.

No processo, a única coisa que Giyuu pensou foi que ele queria tirar satisfações e, se fosse o caso, deixaria-o falando sozinho, porque paciência para se explicar não tinha. Entretanto, não parecia ser isso; a expressão dele era serena como a de mais cedo no corredor, nem parecia que estava segurando o choro a pouco.

— Posso me sentar ao seu lado, Giyuu?

Não o respondeu diretamente, apenas puxou a cadeira ao seu lado para frente em sinal de um "sim". Quando Sabito se sentou, o perfume dele invadiu o ar ao redor de Giyuu e a sorte era que o agradou. Não era nada pesado e nem doce, era uma mistura boa com as duas combinações.

Bonito, simpático e cheiroso. Já havia descoberto mais realces em Sabito que em comparação com colegas que estudavam consigo há mais de dois anos.

Logo um silêncio desconfortável se instalou entre eles. Eram praticamente dois desconhecidos, tendo algum contato mais íntimo sozinhos com apenas cinco minutos de duração. Giyuu soube a última informação pois olhou de relance para o relógio em seu pulso.

— Eu não sei o porquê de estar triste, mas espero que passe e, se não passar, que melhore um pouco que seja. — Giyuu disse tendo um lapso de coragem repentina. Não o conhecia, então só poderia dizer palavras superficiais que podiam ou não ajudar em alguma coisa.

— Obrigado, pela segunda vez. Acho que hoje é só um dia ruim, amanhã será bem melhor.

Dito aquilo, Sabito sorriu, mas um sorriso diferente do de antes; era um de dentes à mostra e, na percepção de Tomioka, a forma como os olhos dele se fechavam nesse ato era fofa.

Pela primeira vez, não repensou o que queria dizer ao ver algo que o atraía; simplesmente deixou sair e não foi ruim.

— Você tem um sorriso lindo. — "Mal te conheço, mas já sei que gosto quando o usa"; a segunda frase não saiu, apenas pairou em pensamentos e ficaria ali.

Giyuu não entendia muito bem de romances, mas se dissesse mais poderia parecer que estava tentando flertar com o outro e não era esse o ponto ali.

Notou a coloração rosa nas bochechas de Sabito, que estava corado, mas não olhou muito, pois não queria deixá-lo mais sem graça do que já se encontrava. Não era nenhuma novidade para Giyuu as pessoas ficarem desconfortáveis, constrangidas ou até sem graça ao seu lado por causa de uma resposta curta ou a falta de uma, porém era novidade alguém estar sem graça e envergonhado por um elogio vindo de si, mas também nem sabia se já havia feito algum elogio a outro ser humano diretamente que não fosse seus pais.

A conversa findou-se segundos depois, quando o sinal estrondoso ressoou por todo lado anunciando o fim do intervalo. Não houve mais contato entre eles nesse dia e Giyuu se perguntou na saída se poderia ter sido por ter deixado Sabito envergonhado, mas nunca soube porque simplesmente não se dispôs a questionar sobre; nem ao menos tentou, o que fora um dos seus maiores erros durante todo o tempo de convivência com o outro.

Porém, como ele poderia prever um final tão trágico para o seu primeiro amigo? Giyuu não teve nenhuma suspeita no início que levasse ao desastre de quatro meses à frente além das lágrimas de Sabito, mas que ficou batido com o passar dos dias. Parecia irrelevante, talvez fosse só um dia ruim mesmo para o ruivo. Entretanto, na segunda vez em que ele chorou não foi fácil deixar batido e só o fez porque Sabito implorou para não falar sobre o assunto.

Idiota, isso que Giyuu foi; deveria ter insistido mais.

Mas antes desse ocorrido, voltemos para o próximo dia depois do primeiro contato cheio de estranheza para Giyuu com Sabito.

Era uma terça-feira quente e por isso Tomioka acabou acordando mais cedo que o habitual, pois não aguentava ficar suando debaixo das cobertas e, consequentemente, chegou mais cedo ao colégio. Na sala de aula só havia uma pessoa quando entrou, a quem não conhecia. Colocaria os fones e até os pegou do bolso, mas mudou rapidamente de ideia ao ver Sabito chegar. Foi uma mudança de atitude rápida e na qual não pensou bem. Se fez aquilo, significava que tinha esperanças de conversar um pouco mais com o rapaz, o que poderia não acontecer já que Giyuu pôde sentir a ansiedade o prender na cadeira.

Aconteceu que realmente não pôde dizer nada e acabou deixando pra lá, não faria tanta diferença.

Porém, fez.

Sabito, após se sentar, virou-se para sua carteira e, com aquele sorriso que elogiou, desejou um bom dia e o perguntou como estava. Quis sorrir de volta, mas não rolou, então apenas se resignou a responder de forma simples que estava bem e, curiosamente, Sabito não esperou que retribuísse a pergunta; ele iniciou um assunto sobre os estudos, professores etc. Aquele papo clichê que muitos estudantes usam quando não se tem outra coisa para falar. Giyuu acompanhou o que ele dizia, dando as melhores respostas que conseguia, mesmo ainda sendo curtas e monossilábicas, mas Sabito não se mostrava incomodado com isso.

No intervalo se encontrava mais uma vez na companhia do ruivo e não sabia se ele queria apenas ficar perto dele porque não tinha mais ninguém e ficar sozinho seria ruim ou se era porque realmente queria florescer uma amizade ali. Uma dúvida cruel que perseguiria Tomioka por semanas, até que deixasse de lado para não ter mais que lidar com ela. Porém, sendo de uma forma ou outra, Sabito sabia respeitar seu espaço pessoal, não fazia pressão para que respondesse a tudo e aceitava o que lhe era dito. Foi por isso que não o repeliu, deixou que se sentasse ao seu lado nos próximos intervalos e que pegasse emprestado suas canetas.

Dentro de três semanas já conversavam mais livremente, apesar de Giyuu ainda manter-se fechado. Sabito parecia confiar muito fácil nas pessoas ou talvez fosse carência, mas, um fato que depois de um mês Giyuu percebeu, falaram sobre tudo — menos sobre seus próprios pais.

Entre uma conversa e outra acabavam sempre mencionado eles. Até mesmo Tomioka havia mencionado algo sobre seus pais — os adotivos, claro — e Sabito evitava isso sempre, pôde notar. Então, quando no último dia do mês o rapaz o convidou para ir à sua casa assistir a um filme, Giyuu ficou surpreso.

Nesse dia, durante a última aula, tiveram um diálogo legal que Tomioka somente foi entender depois.

— Ei, Giyuu. — Sabito chamou, aproveitando um momento de concentração da professora com uns papéis para se virar para trás.

— Sim?

— Bem, não quer fazer algo comigo hoje à tarde?

— Fazer o quê, exatamente?

Tomioka pôde perceber que o colega estava encabulado e talvez a sua face séria de sempre não estivesse ajudando muito na situação.

— Que tal assistirmos a um filme? Meus pais colocaram a Netflix na TV de casa.

Estava prestes a perguntar que filme, mas resolveu que era melhor não. Sabito parecia estar fazendo um bom esforço para falar aquilo e Giyuu não queria ser o tipo de pessoa que estraga tudo por nada.

— Pode ser. Me passa seu endereço por mensagem depois.

— Certo. — O ruivo parecia feliz, o que contagiou um pouco Giyuu, mesmo que não admitisse. — Me passa seu número, então?

— Ah, sim. Esqueci.

Puxou o celular do bolso e assim que encontrou seu número anotado o passou para Sabito e, enquanto ele copiava os dígitos, acabou soltando uma frase que deixou Tomioka confuso:

— É só um filme mesmo, Giyuu.

— Eu sei que é só um filme.

Não entendia em que ponto o outro queria chegar e nem porque as bochechas dele estavam coradas.

— Certo.

Foi a última coisa que ele disse antes de se virar novamente para frente. Obviamente, não entendeu nada do que aconteceu além do convite, porém mais tarde navegando na internet descobriu o que assistir à Netflix com alguém podia ter um significado subentendido entre os jovens. Isso o deixou nervoso, mesmo que se lembrasse de Sabito reforçando que era apenas um filme que iriam ver. Se ele reforçou a ideia era porque o ocorreu que fosse interpretar de outra forma, certo? E o que isso significava? Giyuu não fazia noção nenhuma. Por uns minutos odiou ser tão alienado assim, mas logo se recompôs quando uma mensagem do ser humano que tomava seus pensamentos apareceu na tela do celular.

Na mensagem ele passava o endereço e perguntava se daria para que fosse no horário proposto, que seria a mais ou menos dali a duas horas. Como era sedentário e não fazia nada da vida por opção e desânimo, qualquer horário estaria bom. Mandou um sim que logo foi respondido com uma figurinha de ok. Salvou o contato dele e logo a foto de perfil apareceu, clicou nela. Aparentemente, era Sabito na praia, sem camisa e de frente para o mar com óculos de sol escuros; por alguma razão conseguia imaginar essa cena perfeitamente em sua mente.

[...]

As horas correram rápido. Giyuu já havia passado pelo metrô e agora estava de frente para a casa descrita no endereço. Mentiria se dissesse que não estava nervoso, era a primeira vez que faria uma visita desse tipo desde seus onze anos de idade. Digamos que a adolescência o tornou mais recluso que nunca.

Não podia ver muito da casa à sua frente, já que grandes muros se estendiam por todos os lados ao redor. Aquele era um bairro nobre, que Giyuu nunca teria chances de morar a não ser que trabalhasse muito na vida adulta. Tocou a campainha e esperou, logo uma mulher baixinha e de avental abriu o portão.

— Você é o colega do Sabito, certo? — Ela perguntou e ele apenas fez que sim com a cabeça.

A mulher o colocou para dentro, atravessaram o jardim e Giyuu não ficou surpreso ao ver a enorme casa — mansão, provavelmente — à sua frente, mas não foi necessariamente isso que prendeu sua atenção.

Antes mesmo de entrarem pela porta, pôde ouvir gritos do lado de fora. A voz era bem grossa, chutava que fosse um homem.

— Não repare, os patrões hoje estão um pouco nervosos. — A mulher disse, totalmente sem graça. Pôde notar a dúvida dela em entrar ou não, mas acabou que entraram. — Espere aqui, vou avisar ao Sabito que chegou.

Os gritos cessaram por poucos segundos, voltando com mais força enquanto estava na sala, mas dessa vez vieram acompanhados de uma voz feminina. Eram xingamentos pesados sendo ditos em voz alta que pareciam não acabar, alguns Giyuu nunca havia ouvido na vida. Não era difícil deduzir que fossem os pais de seu colega e talvez fosse por coisas assim que ele era tão retraído ao falar de sua própria família.

Mal se passou um tempinho e a mulher que o atendeu estava de volta com um semblante de preocupação estampado na face.

— Sabito quer que você suba até o quarto dele, é o terceiro no corredor, lado esquerdo.

Por um momento Giyuu vacilou; a situação não parecia das melhores nem para assistir a um filme com aquela briga de quem berrava mais alto acontecendo na casa. Quis voltar, ir embora. Sabito com certeza não estaria emocionalmente bem e aquele não era um problema dele. Porém, em contrapartida, tinha aquela vozinha que dizia que se quisesse ser uma boa pessoa e conseguir ter uma amizade real, precisava subir aquelas escadas e dar apoio à Sabito. Ele sabia, por experiência própria, o quanto um abraço em uma situação ruim podia fazer a diferença entre desabar ou continuar a tentar.

Foi no automático até o corredor — até se esqueceu da mulher na sala — e assim que encontrou a porta indicada bateu duas vezes, mas não recebeu nenhuma resposta.

Podia ser o quarto errado, mas para saber teria que entrar e foi o que fez. A cama desarrumada e as paredes cheias de pôsteres de bandas e animes confirmaram que aquele era o quarto certo, porém o dono dele parecia não estar. Mesmo assim, como foi instruído a ir até ali, esperaria até que o ruivo voltasse, por isso sentou-se na cama um pouco aliviado quando os gritos pararam de repente. Não era algo legal de se ouvir em plena tarde.

Não precisou esperar muito para que Sabito aparecesse. Ele estava no banheiro dentro do quarto e, quando saiu, tanto ele quanto Giyuu tiveram uma enorme surpresa ao se verem. Muito provavelmente Sabito não esperava ver Giyuu ali, assim como Giyuu não esperava ver Sabito com o braço banhado em sangue.

O primeiro instinto de Tomioka ao ver aquele sangue todo escorrendo do braço do ruivo e pingando no chão foi se levantar e se aproximar para ver se ele tinha se machucado, mas percebeu pelos cortes que não era bem isso.

O rosto de Sabito estava inchado assim como seus olhos; fruto de um choro, obviamente.

Não sabia o que dizer ou quais as palavras certas para a situação, então só restava o que podia fazer. Olhou ao redor do quarto procurando uma caixinha de primeiros socorros e a encontrou em meio a estante de mangás e gibis. Puxou Sabito até a cama e o fez se sentar lá junto a si com o braço ensanguentado esticado. Não disse nada e nem olhou nos olhos dele, apenas se focou em limpar os cortes da melhor forma que podia e enfaixar o braço. Não pareciam ser muito fundos, então não precisaria de pontos, mas com certeza ficariam as cicatrizes.

— Eu disse à Tida para dispensar você. Não acredito que ela mandou que subisse. — Sabito disse e havia uma raiva acobertada em suas palavras.

— Você se cortou por causa da briga dos seus pais? — Giyuu foi direto com sua pergunta, segurava a mão do outro e isso passou totalmente despercebido para si no momento.

— Sim, mas não é totalmente por causa deles. Estou acostumado com as brigas desde que era criança.

— Então o que exatamente faz você sofrer tanto a ponto de se automutilar?

Talvez estivesse perguntando demais, mas, por outro lado, se subiu até ali era porque tinha em mente que queria ajudar de alguma forma e para isso precisava entender a causa da dor dele.

— Tudo.

"Tudo é sempre muita coisa", foi o primeiro pensamento que Tomioka teve, mas não significava que não entendia; pelo contrário. Era uma resposta vaga, mas que dizia muito também e não sabia se notava aquilo somente por já ter usado aquela palavra como resposta várias vezes durante as poucas consultas com o psicólogo a que foi ou pelas tantas vezes em que estava sozinho no orfanato e começava a chorar; quando algum adulto o questionava do porquê do pranto ele sempre respondia "é por causa de tudo", mesmo sem nunca saber explicar esse "tudo" a ninguém. Só sabia que tudo era muito e por isso sentia tanta dor. Talvez para Sabito também fosse assim; era tanta dor que ele não sabia lidar com ela e tinha de sobrepor alguma outra para diminuí-la.

Levantou o olhar para o rosto de Sabito, já que até então estava apenas encarando as faixas brancas que começavam a se tingir de vermelho. Viu os olhos escuros cheios de lágrimas e tristeza. Involuntariamente apertou com força a mão dele contra a sua, em seguida o puxou pelo ombro para perto do peito em uma tentativa de abraço desajeitada e deixou que ele chorasse sem impedimentos.

Agora entendia que os sorrisos, o bom humor e as conversas animadas eram apenas uma fachada que deveria ser muito difícil de manter todos os dias. Ambos carregavam dores parecidas, mas lidavam com ela de forma totalmente diferente. Giyuu já quis fazer o mesmo que o outro, cogitou também tirar a própria vida de várias maneiras, mas seus pais adotivos, com todo aquele carinho e dedicação a si, fizeram-no desistir; seria algo insuportável para eles, o único filho que tiveram se matar por desistir tão fácil. Então, só aceitava e vivia como dava. Mas Sabito parecia não ter um ponto de apoio para se segurar e sem isso desistir era ainda mais fácil que lutar.

Quando Sabito agarrou sua blusa e colocou o rosto na curva de seu pescoço para abafar os soluços, Giyuu passou uma de suas mãos sobre as costas dele e a outra usou para fazer leves carícias entre os cabelos ondulados. Sentiu a necessidade de falar alguma coisa para acalmá-lo, mas nada lhe vinha à mente. Não queria dizer o clássico "tudo vai ficar bem" porque, na sua visão, era uma promessa falha que podia ser facilmente quebrada. Então uma ideia repentina surgiu e não parecia muito ruim.

— Que tal descansar um pouco agora e mais tarde, quando estiver melhor, darmos uma volta? — Era o melhor que Giyuu conseguia e esperava desesperadamente que fosse o suficiente para o momento.

— Pode ser. — Sabito resmungou em resposta.

Ele levantou o rosto fungando o nariz e se jogou de costas na cama. Estava acabado e se via isso somente pela sua face; dormir um pouco poderia fazê-lo sentir-se um pouco melhor.

— Vai ficar aí me olhando ou vai se deitar comigo, hum?

— Não sei…

— Vamos. Foi ideia sua, afinal!

Sabito cedeu espaço para que se deitasse e, mesmo relutante, Tomioka tirou os tênis e se acomodou ao lado do rapaz. Encararam-se em silêncio por um tempo, até Sabito se pronunciar.

— Acho que a Tida mandou que você subisse, mesmo eu não querendo, porque pensou que fôssemos amigos e você poderia me ajudar. Ela sabe bem como eu fico quando as brigas começam, principalmente se são por minha causa. — Ele tentou sorrir após dizer isso, mesmo que não tivesse passado de um sublime levantar dos lábios.

— E eu consegui ajudar de alguma forma?

— Sim, aquele abraço foi tudo que eu precisava.

— Que bom. — Tomioka se deu uma pausa, pensando nas próximas palavras que diria com certa cautela. — Eu não sou a melhor pessoa em lidar com situações assim, mas saiba que pode contar comigo para o que precisar, Sabito.

— Então isso quer dizer que somos amigos?

Havia expectativas na pergunta de Sabito e mesmo que as coisas estivessem andando rápido demais na visão de Giyuu, não queria acabar com as esperanças dele — sem tirar o fato de ser estranho alguém esperar algo dele.

— Acho que sim.

Dessa vez ele sorriu espontaneamente, aquele sorriso contagiante. Parecia feliz em confirmar que agora tinha alguém ao seu lado para mais que conversas nos intervalos. E mesmo que Giyuu não transmitisse ou demonstrasse claramente, estava feliz também. Era quase impossível não ficar perto de Sabito naquele momento.

— Da próxima vez que eu te chamar para ver um filme, prometo que vai ser bem melhor que hoje.

Sabito estava perto demais e Giyuu só percebeu isso quando ele inclinou a cabeça sobre o travesseiro que dividiam, fazendo com que ficassem ainda mais próximos. Podia sentir a respiração dele em sua bochecha. O que aconteceria se também se inclinasse na direção do ruivo? Estava curioso, mas se conteve.

— Certo, agora dorme, mais tarde vamos passear por aí. — Disse virando-se para o outro lado, constrangido pelos pensamentos que teve com aquela aproximação nada sutil.

— Tá bom, mãe.

Os dois riram, Sabito por conta de sua fala e Giyuu tentou acompanhar, mas tudo que conseguiu foi um riso que com certeza denunciou seu nervosismo, porém o outro não pareceu notar e se notou, não comentou, o que era um alívio enorme.

[...]

Eram quase cinco horas da tarde quando Giyuu acordou, sem saber quando havia caído no sono. Espreguiçou-se com cuidado para não acordar Sabito que ainda dormia, depois pegou o celular vendo algumas mensagens de sua mãe, as quais respondeu e prometeu que voltaria no horário estipulado por ela, que seria dali a mais ou menos meia hora. Não sabia se acordava o ruivo para se despedir ou se saía de fininho e mandava uma mensagem quando chegasse em casa. A segunda opção parecia melhor, porém, antes mesmo que pudesse se levantar da cama, Sabito acordou.

— Já vai? E a nossa volta? — A voz sonolenta dele mostrava que não estava totalmente desperto ainda.

— Minha mãe mandou mensagem, tenho que ir, mas, se quiser, amanhã podemos dar essa volta.

— Claro, pode ser.

— Então já vou, se cuida.

Sabito resmungou um "você também, Giyuu" e voltou a dormir, provavelmente, já que não disse mais nada.

Com muita sorte, Tomioka conseguiu sair da casa sem encontrar ninguém no caminho e chegar até a sua própria casa foi tranquilo, mas quando parou realmente, sozinho e com uma comida instantânea sendo preparada no microondas, a imagem de Sabito com o braço cheio de cortes e dor nos olhos tomou seus pensamentos.

Não dava para simplesmente ignorar. Não tocou a fundo no assunto na hora porque não era o momento apropriado, ele não estava bem emocionalmente para conversar. Agora, como amigo dele, Giyuu não sentia só a necessidade de ajuda-lo, mas também tinha certa liberdade para tal. Situações como aquela poderiam se tornar frequentes e até evoluir drasticamente para uma sem retorno, e não permitiria perder um amigo de uma forma tão cruel. Talvez chegasse um ponto em que Sabito achasse que não tinha mais saídas, a não ser uma, porém faria o que pudesse para que ele não chegasse nesse tanto.

E então Giyuu se sentiu triste e incapacitado. Tudo isso eram apenas palavras que dizia a si mesmo; e quanto ao que fazia diferença, o agir? Nunca foi alguém que conseguiu manter algum laço real com outras pessoas, sempre os rompia por suas ações e falta delas, ou a forma como se expressava não sendo interpretada como queria e nunca fazia nada para corrigir porque era cansativo e já estava cansado demais por dentro para dar mais um passo ou se explicar. Os sentimentos ruins, autodestrutivos, voltaram aos poucos em cada pensamento de impotência e lembrança do passado.

No curto tempo até o momento atual em que esteve com Sabito, sentiu-se bem; e quando se lembrava de acontecimentos dolorosos, o amigo parecia puxá-lo para fora disso. Sabito o tirava de seu mundo e o trazia a uma realidade confortável mesmo que não percebesse isso, mesmo que fosse enganosa em certas partes. Era a primeira pessoa a conseguir isso e agora tinha o grande risco de desaparecer e não poder fazer nada para impedir.

Quis chorar como há meses não fazia, o coração acelerou e Tomioka viu o mundo ao seu redor girar muito rápido, as mãos suando, a respiração fora de controle e o corpo tenso. Tentou começar uma contagem de zero a cem, focando-se somente nisso, mas não deu certo, não conseguia se concentrar nisso. Sentou-se no chão com a cabeça entre as pernas, torcendo para que seus pais se atrasassem e não o encontrassem tendo uma crise fodida, pois não seria nada fácil explicar para eles daquela crise, sem contar que não queria preocupá-los.

Naquela noite não dormiu nada. Os pensamentos não paravam, vinham e iam sem descanso. Foi cansativo e estressante e no outro dia Giyuu tinha belas manchas escuras debaixo dos olhos e uma expressão de derrota no rosto que nem mesmo se usasse a maquiagem de sua mãe para disfarçar, não conseguiria. Resolveu não ir para o colégio, inventou a desculpa de que estava com dor de cabeça e ficou todo o dia até a madrugada trocando mensagens com Sabito, que coincidentemente não foi para a aula também. E quando ele perguntou o porquê de ter faltado, deu a mesma desculpa esfarrapada; não conseguiria inventar outra e dizer a verdade parecia complicado demais.

Depois disso, no outro dia, era final de semana. No sábado de manhã, mais especificamente, foi ao passeio que prometeu a Sabito.

Quando se encontraram, ambos estavam acabados e ninguém perguntou nada, apenas começaram a andar em direção à primeira parada: a sorveteria. Durante o caminho, um silêncio confortável se instalou entre eles e Giyuu gostou disso, de poder ficar calado perto de alguém sem parecer incômodo ou desconfortante.

Sabito havia tirado a bandagem do braço já que os cortes estavam se fechando e os mais superficiais até já estavam cicatrizados, ele disse, e também pediu para que não falassem do que aconteceu naquela visita; não por enquanto. Segundo o próprio Sabito, ele queria se divertir e esquecer os problemas por uns dias e não tinha nada de mal nisso, na visão de Giyuu.

Mas esse tempo de relaxamento durou demais para Giyuu, a felicidade lhe cobriu os olhos, deixando-o cego para muitos detalhes. E essa felicidade era limitada, tinha prazo de validade, só que na época ninguém que olhasse para Sabito poderia imaginar uma morte tão precoce.

[...]

Muitas coisas aconteceram no dia em que completaram os quatros meses de amizade, mas, para começar, Giyuu foi convidado pelo amigo ruivo a passar um final de semana na praia junto à família dele. Não foi muito difícil para Sabito convencê-lo a ir e, bem, seus pais ficaram tão imensamente alegres por ele ter se aproximado de alguém que deixaram que fosse.

Tomioka nunca tinha ido à praia antes e normalmente lugares novos, cheios de pessoas e muito ensolarados não eram os seus prediletos, porém, já que estava indo, faria o possível para que fosse uma estadia legal.

Durante a viagem de carro, as únicas pessoas que conversaram nas horas todas que ficaram juntos foram Sabito e ele. Às vezes a mãe do ruivo dizia algo e só; o pai de Sabito se mantinha em silêncio e ninguém dirigia uma palavra sequer à pessoa dele. Giyuu não se atreveu a perguntar o porquê disso, parecia algo delicado e não queria deixar o clima ruim. Tinha que pensar nas coisas boas, como o fato de Sabito não ter mais se mutilado desde aquele dia; ele lhe contou que teve vontade, mas resistiu, e o braço apenas com cicatrizes mostrava a veracidade de suas palavras.

Quando chegaram já era noite, então apenas arrumaram as malas e foram dormir. No outro dia, Giyuu foi acordado bem cedo por um Sabito sorridente e com uma animação surpreendente para o horário, que ele próprio não tinha. Foi arrastado da cama e obrigado a tomar um banho e esperava que o quer que fossem fazer tão cedo valesse a perda do sono que poderia estar tendo.

Resmungou durante todo o processo, até mesmo quando foi se vestir e seu doce amigo ruivo o apelidou carinhosamente de velho ranzinza — mudando inclusive seu nome no contato para esse apelido —, mas não se importava muito com aquilo no momento, só estava com sono e uma pessoa com sono é alheia a tudo.

Sabito o arrastou para a praia e foi aí que Giyuu notou que ainda estava escuro. Quis perguntar o que estavam fazendo ali, mas só pela expressão do outro sabia que teria como resposta um provável "você vai descobrir", então deixou pra lá, descobriria uma hora ou outra. Sentaram-se na areia perto do mar e Sabito foi o primeiro a dizer algo:

— Como você disse que nunca veio à praia, quero que a sua primeira vez aqui seja memorável. Então pensei que iniciar o dia vendo o nascer do sol seria uma bela forma para começar.

— Nunca vi o nascer do sol antes.

— É lindo, você vai amar.

Dito aquilo, o ruivo deitou a cabeça em seu ombro. Tomioka nunca sabia lidar com aquelas aproximações físicas de Sabito, causavam-lhe sensações novas que não sabia se eram boas ou ruins, como as cócegas na barriga.

Esperaram um pouco e logo o céu começou a mudar de cor, ficando amarelado e com algumas tonalidades vermelhas. Podia-se ver o contorno redondo do sol subindo sobre as águas pouco a pouco; era uma vista realmente linda.

Uma felicidade bateu quando a ficha de que seu amigo quis compartilhar aquele momento exclusivamente com ele. Giyuu se sentiu especial como há muito tempo não se sentia, desde a vez em que foi adotado. Era aquela sensação de ser escolhido dentre tantos outros melhores que você e saber que não é um engano, no final.

Meio tímido, o sol foi aparecendo e brilhando com mais intensidade. Provavelmente teriam ficado ali por bastante tempo se não fosse a mãe de Sabito aparecer para chamá-los para o café da manhã.

Giyuu estava tão absorto no momento que nem lembrou que necessitava comer.

Depois disso, combinaram de ir brincar na areia. Sabito afirmou que precisava ter a experiência de fazer estruturas de areia; fazia parte de uma viagem à praia e mesmo que achasse que estavam grandinhos demais para se meterem no meio das crianças para isso, não disse nada. E não foi uma experiência ruim. Estava acanhado no início, mas depois se soltou e já conseguia construir algumas paredes com areia molhada.

Quando Giyuu, enfim, depois de muitas tentativas e erros, conseguiu erguer sua casinha, ficou com orgulho por não ter desistido e Sabito fez questão que tirassem fotos junto do "monumento" para futuras recordações.

Quando foram descansar sob a sombra já era meio dia e o sol castigava, então Giyuu foi o primeiro a se entupir de protetor solar, ficando ainda mais branco do que era e isso também teve direito a uma foto. Em seguida foram comer petiscos; passaram algumas boas horas indo de uma barraca para a outra. Já mais à tarde resolveram entrar na água e Giyuu até concordou em tentar aprender a surfar com um moço que estava dando aulas gratuitas, mas isso não ocorreu pois Sabito foi chamado por seu pai para, segundo o homem, uma conversa íntima.

Tomioka o ficou esperando na praia e quando o ruivo voltou ele não parecia nem um pouco com o rapaz animado de horas atrás. Pelos olhos levemente inchados e o rosto vermelho, não foi difícil descobrir que ele havia chorado.

— Você está bem? — Disse; era uma pergunta meio idiota, já que estava nítida a resposta.

— Não, acabei de brigar com meu pai e a pior parte foi as palavras horríveis que ele me falou aos berros para todo mundo no hotel ouvir.

Doía ver Sabito assim, pois ele lutava para se manter forte todos os dias — notou isso após conhecê-lo melhor — e quando algo como isso acontecia, as barreiras que tinha levantando cediam, porém nunca desistia de tentar erguê-las novamente, não aceitava ser uma pessoa tão quebrada por fora como era por dentro e Giyuu admirava muito isso nele.

Nesses momentos, o primeiro instinto de Giyuu era abraçá-lo, mesmo que fosse de uma forma acanhada, mas o fazia, pois uma vez Sabito lhe disse que um abraço seu era reconfortante e quente.

— Quer ficar por aqui até se sentir melhor? Te faço companhia. — Propôs e passou os braços sobre os ombros dele o trazendo para perto.

— Sim.

Giyuu fingiu não surtar quando Sabito, após responder, retribuiu o abraço envolvendo seus braços em sua cintura e apoiando a cabeça em seu peito. Os cabelos ruivos dele tinha um cheiro bom, percebeu quando apoiou seu rosto sobre eles.

Os dois, naquela posição, com certeza pareciam um casal de namorados e não sabia se isso era somente fruto da intimidade que tinham. Estava curioso sobre a briga, já que tudo parecia estar bem, mas achou melhor não perguntar o motivo; se ele quisesse falar já o teria feito. Pensou que conversar sobre um assunto aleatório poderia ser uma boa e, enquanto escolhia um, Sabito levantou a cabeça, deixando seus rostos na mesma altura, e o olhou diretamente nos olhos. Giyuu não sabia o que esperar a seguir.

— Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, Giyuu Tomioka. — Sabito disse e não havia resquícios de mentira ali.

Não sabia como respondê-lo, sem contar que foi pego totalmente desprevenido. Aquela era uma declaração que nunca esperou ter, não conseguia se ver como uma pessoa especial na vida de outro alguém, ainda mais de uma forma tão intensa como Sabito transmitia em suas palavras e olhar. E não era ruim, dava um calor gostoso no peito, mas, em contrapartida, um certo receio existia na mesma intensidade porque Giyuu nunca seria capaz de curtir qualquer momento ou acontecimento bom sem esperar pelo lado ruim, pois ele sempre existia e mostrava as caras uma hora ou outra.

Porém nem sempre estamos preparados para qual deles virá e Tomioka não estava nem um pouco preparado quando Sabito subitamente encostou seus lábios nos dele em um selinho, muito menos quando ele começou a movimentar a boca, incitando um beijo. Acompanhou-o como pôde, achando estranho no começo; beijos eram estranhos para ele e tinha certeza que isso se devia às poucas experiências desconfortáveis que teve, mas depois se deixou levar e não parecia mais desconfortável ter a língua do ruivo em sua boca.

Tudo com Sabito era diferente de uma maneira que nunca experimentou antes e não havia exceções nisso. Até mesmo no beijo era diferente, de uma maneira boa; as sensações eram boas.

Aquele sábado foi o melhor que Giyuu teve em sua adolescência e o marcaria como uma lembrança boa para o resto de sua vida, porém também poderia ser classificado como a calmaria antes da tempestade, um prelúdio para um desastre que ninguém sonharia que aconteceria, mas aconteceu às exatas três horas da madrugada de domingo.

Após voltarem da praia já era tarde da noite, a mãe de Sabito falou para irem dormir e foi o que fizeram. Dividiam um mesmo quarto para economizar despesas e Tomioka agradeceu aos céus pelo clima entre eles não ter ficado esquisito ou tenso; por sua parte até repetiriam o beijo.

A última vez em que ouviu Sabito foi quando ele desejou um "boa noite" e apagou as luzes. Nada parecia errado ali, isso até a madrugada.

Giyuu não soube quando, pois estava tão cansado que foi só deitar a cabeça no travesseiro que pegou em um sono profundo, mas em algum momento Sabito havia saído do quarto. Só veio a notar isso quando acordou sobressaltado por um grito que se seguiu de vários outros.

Sonolento, arrastou-se até o corredor depois de ouvir várias discussões dos pais de seu amigo, não era tão difícil reconhecer a voz da mãe dele. Esperava encontrar uma briga entre o casal e Sabito junto deles, mas não o que realmente encontrou: do lado de fora do quarto havia dois policiais tentando acalmar a mãe de seu amigo e, pelo desespero nas ações e palavras dela, soube na hora que algo muito ruim aconteceu.

Não criou teorias e também não queria esperar, então se aproximou de um dos polícias para perguntar o que estava acontecendo. De imediato não obteve nenhuma resposta, só a teve quando a mulher ruiva disse que estava com sua família em viagem e que além disso era o melhor amigo de seu filho.

Giyuu estava confuso com toda a situação, não ajudando em nada quando o policial se agachou à sua frente e o encarou sério. Nenhuma notícia boa viria daquilo. As sensações ruins voltaram com força total.

— Aconteceu um acidente nessa madrugada. Recebemos uma ligação anônima de que um rapaz estava se afogando. Confirmamos que era seu amigo, Sabito. Infelizmente, não conseguimos encontrá-lo ainda. Sinto muito.

O mundo pareceu rodar em câmera lenta naqueles instantes em que o policial se levantou e deu dois tapinhas em seu ombro.

Tomioka tentava processar a informação. Tudo estava bem algumas horas atrás, como poderia mudar tão drasticamente? Já não ouvia mais claramente as vozes ao redor e as imagens estavam embaçadas. Talvez fosse apenas um pesadelo e quando acordasse Sabito estaria na cama ao lado, dormindo. Porém nunca acordou desse pesadelo.

Estava em estado de inércia profunda, o máximo que conseguiu fazer foi se apoiar na parede e ficar lá. As pessoas que circulavam, apressadas, curiosas ou dispostas a ajudar em algo, pareciam não notá-lo e era melhor assim. Somente retornou à realidade com um baque forte que foi ver o pai de seu amigo completamente molhado, tendo ajuda de um policial para andar. Ele chorava sem vergonha de que os outros vissem e Giyuu sabia bem que ele era um homem que prezava muito pelas aparências; chorar assim significava que estava abalado ao ponto de não se importar com mais nada.

Quando os olhos dele bateram em si pôde ver a dor e o arrependimento. A frase que saiu dos lábios dele não passou de um sussurro, mas conseguiu entender.

"Me desculpe".

Giyuu não entendia como e nem a razão, se foi um acidente ou se foi proposital, se Sabito cometeu um deslize ou se estava tão mal por dentro ao ponto de desistir. As opções eram horríveis, não mudariam o fato que aconteceu e ninguém ali o explicaria os detalhes, sabia disso. Mas independente do que aconteceu, não conseguia deixar a culpa não o consumir. Ora, se estivesse acordado quando o ruivo saiu talvez as coisas fossem diferentes agora.

Só que o tempo não volta e muito menos uma vida.

Naquela madrugada até a manhã, antes de seus pais aparecerem, Giyuu remoeu todos os momentos que passou ao lado de Sabito, os bons e os ruins, querendo excluir o atual, mas sem sucesso. Quando sua mãe o abraçou perguntando como estava, não conseguiu responder, não sabia como. E, contra a sua vontade, foi levado do hotel de volta para casa.

A única informação que tinha era que Sabito havia se afogado e não o acharam, só. O que significava que alguma esperança de que ele estivesse vivo em alguma parte da praia podia existir e por isso não quis ter ido embora. Queria ficar até o fim das buscas, vê-lo vivo. Porém não pôde.

Durante toda a viagem de volta ficou calado, ignorando as tentativas de iniciar uma conversa de seus pais.

Aquilo não parecia real, parecia uma grande mentira de mau gosto.

Depois de oito longas e torturantes horas que Tomioka recebeu alguma notícia, como se fosse um ultimato, uma verdade dolorosa e que fez tudo tomar forma.

Não foi nem de longe a melhor maneira de receber a notícia. Quando pegou o celular, sem muitas pretensões, as várias mensagens no grupo da escola lhe chamaram a atenção, principalmente quando viu o nome de Sabito ser citado várias vezes. Abriu o chat, rolando pelas mensagens e vendo que todas falavam sobre o afogamento de um aluno do colégio.

Ler aquelas opiniões e teorias, afirmações erradas e tantas asneira não fazia bem para ele e já fechava o aplicativo quando um link com uma manchete foi compartilhado por um professor sobre o assunto. Mesmo temendo o que leria, Giyuu clicou no link; era do site jornalístico da cidade, ou seja, uma fonte confiável.

Leu todo o texto até o fim rapidamente, para depois, com uma raiva crescente, jogar o celular contra a parede, deixando-o despedaçado, o que nem importava mais. A raiva era de si mesmo por não ter notado algum detalhe que mostrasse toda a merda que estava acontecendo com seu amigo.

Na notícia havia um pequeno trecho que falava sobre terem achado o corpo de um jovem do outro lado da praia, sobre a identidade dele e o que aconteceria. Também havia um trecho onde a mãe acusava o marido pela morte do filho. Segundo ela, ele não aceitava a homossexualidade de Sabito, o que causou muitas brigas e agressões dentro de casa.

Agora, Giyuu entendia o porquê da mudança de escola e também o motivo pelo qual, provavelmente, o ruivo estava chorando em seu primeiro dia de aula. A mudança foi para afastar o rapaz de um namorado que ele tinha, mas, mesmo com todas essas informações, os detalhes do afogamento não foram revelados, ninguém havia visto o que aconteceu além do próprio pai, o mesmo que se encontrou em estado de choque por algumas horas, até que se recuperou o suficiente para dar um depoimento. Ele se culpava pela morte de Sabito e acabava aí, sem explicações, e Giyuu necessitava delas. Havia as várias especulações pela cidade sobre o que aconteceu, mas não passavam disso: especulações.

Nos dias que se seguiram não foi para o colégio e nem saiu do quarto, não tinha vontade de interagir com ninguém e mesmo que fosse às aulas, além dos olhares de pena por ter perdido um amigo, teria que olhar para a carteira vazia em frente à sua, teria que encarar os intervalos onde Sabito não estaria lá para conversar com ele.

Tudo aconteceu tão rápido, desde o momento em que se conheceram até o agora e Giyuu não sabia lidar com isso, ainda mais sem entender o que aconteceu quando Sabito saiu do quarto à noite. Sentia-se impotente, pois não foi capaz de impedir que as coisas chegassem naquele fim, não foi capaz de fazer nada que realmente ajudasse naqueles momentos críticos; um erro pelo qual se culpava imensamente.

Foi em um dia indeterminado que recebeu por encomenda as fotos impressas que havia tirado com Sabito na praia, no remetente estava o endereço da casa dele.

Resolveu ir até lá, mas foi tempo perdido; não tinha ninguém e um vizinho que passava pela rua disse que o casal se mudou no outro dia. Eles foram embora, provavelmente buscando uma nova vida e Giyuu também queria fazer o mesmo.

A dor o sufocava aos poucos, qualquer vontade de viver que tinha ressurgido nos meses que passou com Sabito se extinguiram; ele não estava mais ali e nunca estaria. Não pôde nem ao menos se despedir de verdade, nunca soube quando aconteceu o enterro; se aconteceu, não o contaram. Nem mesmo a verdade contaram: foi encoberta, o caso esquecido, substituído por novos e a vida seguiu para a maioria, mas não para Tomioka, nunca. Não dava para simplesmente seguir em frente e abandonar todos os sentimentos e as sensações.

A situação foi piorando gradativamente. Quando se deu conta, Tomioka já não tomava mais banho ou escovava os dentes, o cabelo estava mal cuidado e totalmente embaraçado.

Seus pais se preocuparam com esse luto estendido e o convenceram a ir novamente ao psicólogo. Aceitou pois não queria vê-los sofrer mais com seu estado, talvez isso trouxesse algum alívio a eles. Mas, ainda assim, como Sabito não estava mais ali, Giyuu também não. Sua mente, seus pensamentos e sonhos estavam na praia, no dia ensolarado de sábado que passou junto de Sabito.

Perdeu o resto do ano escolar, com certeza repetiria a série no próximo ano. Nas férias, além das consultas diárias com o psicólogo, também começou a frequentar cursinhos, influenciado por sua mãe. No começo ela ia também, mas acabou sem tempo livre por causa do trabalho que ainda não tinha encerrado, então Giyuu começou a ir sozinho.

Passava a maior parte dos dias da semana fora de casa. Começava com um cursinho de culinária, depois de pintura — apesar de não ser muito bom — e fotografia. Esse último era o que mais gostava. Por sugestão de seu pai, adicionou jiu-jitsu à lista para a noite. Nos primeiros dia foi difícil, não conseguia se concentrar no que fazia ou prestar atenção no que falavam, mas, inacreditavelmente, melhorou aos poucos; levou um tempo, claro.

Uma mudança lenta, imperceptível até que mudasse algo em você ou no seu cotidiano.

Porém, de madrugada, quando a insônia surgia, era impossível limitar os pensamentos e eles iam longe, sempre pairando em Sabito e em seus pais biológicos. Os rostos deles o atormentavam, faziam o peito doer e o ar sumir dos pulmões. Esquecer era impossível, estariam consigo até o fim, mas Sabito, apesar da dor que trazia ao ser lembrado, também trazia momentos bons: lembranças do que poderia ter sido um amor verdadeiro, uma amizade incrível.

Mas não foi.

10 de Janeiro de 2020 às 17:08 0 Denunciar Insira 0
Fim

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