Under the graveyard Seguir história

n0ah Felipe Lopes

Morei a minha vida inteira em um hospício; Dentro de minha armadura impenetrável, jamais me permiti confiar nas pessoas. Ele me fez pensar diferente. Agora vejo que não eu deveria ter saído de minha zona de conforto. I ain't livin' this lie no more It's cold in the graveyard We all die alone.


LGBT+ Para maiores de 18 apenas.

#romance #suicídio #sexo #gay #drama #lgbt+
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Capítulo 1

Tec. Tec. Tec.

É este o barulho que preenche esse fastidioso – entretanto enorme e imponente - consultório. Barulho este, a propósito, que é provocado pelo atrito do chão juntamente com a sola de meu sapato, como forma de passar o tempo enquanto me divirto com as expressões exibidas pelo senhor à minha frente.

Acima de qualquer coisa, o meu principal talento social é o de irritar as pessoas apenas com a minha presença (eu realmente sou bom nisso). Não estou dizendo que eu não sei interagir, mas sim que eu sigo fortemente a religião de que as pessoas expõem melhor os seus sentimentos quando estão em seu limite. Muitas vezes, nós seres humanos engolimos muitas coisas porque pensamos demais nas emoções dos outros. Entretanto, esconder o que se sente não significa que os sentimentos simplesmente evaporaram; eles continuam guardados em uma caixinha trancada as sete chaves bem lá no fundo de nossos cérebros.

O senhor a minha frente, meu suposto psiquiatra da semana, está bem próximo de comprovar a minha teoria. Ele está irritado, e não é preciso ser nenhum especialista em emoções para chegar a essa conclusão. Mesmo que de forma imperceptível, seus lábios estão fortemente cerrados e suas sobrancelhas se juntam de um jeito engraçado, enquanto seu rosto está suado e corado – de estresse, é óbvio. Huh, e pensar que quando pisei meus pés nessa sala ele estava querendo me intimidar, com suas mãos nos bolsos numa tentativa de parecer despojado e seus estúpidos óculos de grau Ray-Ban com armação fina. Essas coisas superficiais não são de meu interesse, pois o dinheiro não é capaz de comprar a minha sanidade. Por esse motivo, as minhas primeiras impressões deste cavalheiro não foram muito boas.

Ele me bombardeou com as mais diversas perguntas que eu já havia ouvido de diversas bocas, de diversas pessoas em diversas consultas. Entretanto, não deu cinco minutos (literalmente contados) e a sua pose já tinha se desfeito; a irritação por eu ficar calado esse tempo todo o desconcertava.

Rio baixinho para mim mesmo ao perceber que frustrei os seus esforços e desvio o olhar de suas expressões para encarar diretamente os seus olhos pela primeira vez em nosso período juntos, visto que permaneci ignorando suas perguntas pelos últimos 50 minutos. Ao menos eram perguntas variadas, indo além do clichê “como você está se sentindo hoje? ” de sempre. Pelo visto ele tinha feito a lição de casa, coisa que a maioria dos antigos psiquiatras que a senhorita Lopez me arranjava nunca fizeram.

- O que é tão engraçado? – Ele pergunta surpreso, suponho que pela minha primeira interação visual com ele, enquanto eu permaneço estoico. Note que eu não o chamei pelo nome por nenhuma hora (porque não sei qual é), não tive o trabalho de prestar atenção em suas palavras.

Ao invés de responder seu questionamento, me contento em apontar o meu dedo indicador para cima, em direção a um enorme relógio de parede que não falha em marcar as horas.

O senhor imediatamente segue com o olhar para a direção que eu apontei, provavelmente tentando ver algo demais – afinal, como eu disse anteriormente, essa foi a minha primeira interação com ele durante o nosso encontro juntos – e, pontualmente, como em um filme ruim de década, um som arcaico parecido com um sino toca em todos os cantos daquele decadente local, preenchendo por completo a sala em que nos encontramos.

Esse som antiquado, similar a um Triângulo sendo tocado por uma criança de cinco anos, é o sino que toca sem hesito todas as sextas-feiras às 12 PM, sinalizando que a consulta de todos os pacientes com os seus respectivos psiquiatras está em seu fim.

Imediatamente me levanto da conhecida cadeira nada confortável que me encontrava sentado e foco meus olhos em direção ao crachá preso em sua blusa, lendo o seu nome.

Ok, então este foi o senhor Ellie.

- Foi uma ótima consulta – digo sarcasticamente enquanto abria a porta de seu consultório para sair do recinto, acenando na direção do pobre homem em um gesto de despedida. Não perdendo tempo para ver as suas expressões ou ouvir a sua resposta, eu comecei a caminhar em direção ao refeitório. Eu estou morto de fome.

Desde sempre eu busco demonstrar o meu desprezo aos psiquiatras que sou obrigado a conversar nesse maldito hospício, porque eu sei do plano secreto que os médicos tramam para me prejudicar. Quando eu era criança, a promessa de meu pai de que um psiquiatra era uma pessoa estudada e competente o suficiente para me salvar deles me fez aceitar ser atendido pelo meu primeiro psiquiatra, o Dr. Thiago. Não quero entrar em detalhes sobre esse trágico acontecimento, mas eu realmente confiei nele de verdade, e foi a primeira vez que eu me abri completamente para um desconhecido sobre todos os meus medos e as coisas que eu via. Até mesmo cheguei a implorar por socorro, afinal aquelas coisas iriam aparecer, e o nosso querido herói dessa história, o psiquiatra, me prometeu que ele iria derrota-los junto comigo. Moral da história?

Não derrotou.

Ele me enganou, ele sempre foi um traidor, e o objetivo dele nisso tudo foi o de me forçar a tomar alguns remédios que iriam me impedir de me proteger contra aquilo. Desde então eu noto que estou nessa luta sozinho, visto que nem em minha própria família eu sou capaz de confiar.

Deixando minha vida de lado, eu me peguei analisando os corredores dessa prisão que fui obrigado a viver desde os meus quatorze anos de idade. Este local é fúnebre e assustador pra caralho, as paredes sempre sujas pintadas em tons escuros e a constante falta de eletricidade nas lâmpadas contribuem significantemente para o medo dos outros internos em andar pelos cômodos nos horários indevidos. Mas é óbvio que isso não funciona comigo.

Minha mãe, em suas insuportáveis visitas, sempre insiste em dizer que este é o melhor hospício de todo o país e blá blá blá, provavelmente tentando convencer mais a si mesmo do que a mim. Eu me pergunto como eu pareço ser a única pessoa que vê o quanto esse lugar é um verdadeiro inferno na terra.

7 de Janeiro de 2020 às 15:36 0 Denunciar Insira 0
Continua…

Conheça o autor

Felipe Lopes um nerd meio esquisito que ama HQs e seus derivados

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